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domingo, 20 de agosto de 2023

Esquecer Sintaxe Nunca Foi o Problema : O Verdadeiro Desafio é Compreender um Sistema que Sobreviveu aos Próprios Criadores

 

Bellacosa Mainframe onde esquecer sintaxe nunca foi o problema

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Esquecer Sintaxe Nunca Foi o Problema

O Verdadeiro Desafio é Compreender um Sistema que Sobreviveu aos Próprios Criadores

Imagine que você acabou de entrar em uma empresa para trabalhar como programador COBOL.

Você recebeu seu usuário TSO, uma senha temporária, acesso ao ISPF e uma documentação de quarenta páginas que aparentemente foi impressa durante o período em que os dinossauros ainda preenchiam cartões perfurados.

Seu líder aponta para a tela e diz:

“Precisamos fazer uma pequena alteração nesse programa.”

A expressão “pequena alteração”, no universo dos sistemas legados, deve ser tratada com o mesmo cuidado que a frase “parece tranquilo” em um filme de ficção científica.

Normalmente significa que ninguém sabe exatamente o que será alterado, quais outros programas dependem daquilo, quem escreveu a lógica original ou por que existe um campo chamado WS-IND-ESP-07-B.

Você abre o programa COBOL.

São 14 mil linhas.

Existem 27 COPYBOOKS, quatro acessos ao Db2, três arquivos VSAM, duas chamadas para programas que não aparecem em nenhuma documentação e um comentário histórico extremamente esclarecedor:

      * ALTERADO CONFORME SOLICITACAO

Solicitação de quem?

Quando?

Por quê?

Qual regra mudou?

O comentário permanece em silêncio.

É nesse momento que o jovem programador percebe uma verdade fundamental:

O maior desafio de um sistema antigo não é lembrar sua sintaxe.
É compreender sua história.

Não entre em pânico.

Pegue sua toalha, abra o ISPF, prepare o café e venha conosco nesta viagem pelo universo dos sistemas legados.


Capítulo 1 — A ilusão do programador enciclopédia

No início da carreira, muitos programadores acreditam que precisam decorar tudo.

Decoram comandos COBOL.

Decoram parâmetros de JCL.

Decoram opções do DFSORT.

Decoram códigos SQL.

Decoram comandos TSO.

Decoram transações CICS.

Decoram até o nome daquele utilitário misterioso que apareceu uma única vez em um job de fechamento mensal.

A lógica parece simples:

Quanto mais coisas eu memorizar, melhor programador serei.

Essa ideia não é completamente absurda. Ter familiaridade com a linguagem ajuda. Conhecer comandos frequentes acelera o trabalho. Entender estruturas básicas é obrigatório.

O problema começa quando confundimos conhecimento com memorização.

Um programador pode decorar:

       MOVE WS-NOME TO LK-NOME

Pode lembrar perfeitamente que:

//ARQSAI DD DSN=EMPRESA.CLIENTES.SAIDA,
//          DISP=(NEW,CATLG,DELETE),
//          UNIT=SYSDA,
//          SPACE=(CYL,(10,5),RLSE)

Pode conhecer a sintaxe de:

EXEC SQL
   SELECT NOME, SALDO
     INTO :WS-NOME, :WS-SALDO
     FROM CLIENTE
    WHERE COD_CLIENTE = :WS-COD-CLIENTE
END-EXEC.

Mas nada disso garante que ele compreenda:

  • por que o arquivo é criado;

  • quem consome esse arquivo;

  • por que o saldo é calculado daquela maneira;

  • qual área de negócio depende do programa;

  • qual legislação motivou determinada condição;

  • o que acontece se a regra for removida;

  • por que o sistema não pode simplesmente ser “reescrito”.

Memorizar a sintaxe permite escrever instruções.

Compreender o sistema permite tomar decisões.

E sistemas não costumam quebrar porque alguém esqueceu uma vírgula que poderia ser consultada no manual.

Eles quebram porque alguém alterou uma regra sem compreender suas consequências.


Capítulo 2 — O cérebro não é uma biblioteca de referência

Seu cérebro é uma ferramenta extraordinária.

Mas ele não foi projetado para funcionar como uma central de documentação IBM contendo todas as versões de COBOL, CICS, Db2, DFSORT, IDCAMS, RACF, JCL, IMS, MQ e z/OS.

Mesmo profissionais experientes consultam documentação.

Aliás, profissionais experientes costumam consultar ainda mais, justamente porque sabem que a memória pode falhar.

Um iniciante pode pensar:

“Tenho certeza de que DISP=(NEW,CATLG,DELETE) faz isso.”

Um veterano pensa:

“Tenho quase certeza. Portanto, vou confirmar antes de mexer em produção.”

Essa diferença parece pequena, mas representa anos de maturidade.

O exemplo do DISP

Observe:

//ARQSAI DD DSN=EMPRESA.RELATORIO.DIARIO,
//          DISP=(NEW,CATLG,DELETE)

O parâmetro DISP possui três posições principais:

DISP=(status, normal, abnormal)

Neste exemplo:

NEW     → o dataset será criado;
CATLG   → se o step terminar normalmente, será catalogado;
DELETE  → se o step terminar de forma anormal, será excluído.

Você pode esquecer isso.

Pode consultar rapidamente.

O manual devolve a resposta.

Mas agora surge uma pergunta muito mais importante:

Por que o dataset deve ser excluído em caso de falha?

Talvez porque um arquivo incompleto nunca possa ser processado pelo job seguinte.

Talvez porque uma versão parcial provoque duplicidade.

Talvez porque um sistema externo interprete sua existência como sinal de processamento concluído.

Talvez porque o dataset contenha informações financeiras e não deva permanecer disponível após uma falha.

Talvez porque alguém, em 1998, encontrou um erro catastrófico provocado por um arquivo incompleto e decidiu adicionar aquele DELETE.

A sintaxe explica o que acontece.

A história explica por que precisa acontecer.

O manual resolve a primeira dúvida.

A segunda talvez não esteja escrita em lugar algum.


Capítulo 3 — Todo programa legado é um sítio arqueológico

Quando você entra em um programa antigo, não está apenas lendo código.

Está realizando arqueologia digital.

Cada trecho pode representar uma camada histórica.

Veja:

       IF WS-DATA-MOVIMENTO < 20000101
          PERFORM 5000-TRATAR-REGRA-ANTIGA
       ELSE
          PERFORM 5100-TRATAR-REGRA-NOVA
       END-IF

A pergunta superficial é:

O que esse IF faz?

A resposta é simples: ele escolhe duas rotinas com base em uma data.

A pergunta correta é:

O que aconteceu no ano 2000 para que o sistema precisasse de duas regras?

Pode ter ocorrido uma mudança tributária.

Uma alteração contratual.

Uma migração de moeda.

Uma incorporação empresarial.

Uma nova política de tarifas.

Uma adaptação ao bug do milênio.

O código é um fóssil de decisões anteriores.

Comentários arqueológicos

Sistemas antigos frequentemente possuem comentários como:

      * AJUSTE JOAO 03/98

Ou:

      * NAO REMOVER - PROBLEMA PRODUCAO

Ou ainda:

      * ALTERACAO EMERGENCIAL

Esses comentários são equivalentes a encontrar uma placa em uma nave abandonada dizendo:

“Não pressione o botão vermelho.”

O problema é que ninguém explicou o que o botão faz.

Você pode remover a rotina e o programa continuar compilando.

Pode passar pelos testes unitários.

Pode funcionar durante semanas.

Até chegar o fechamento anual, quando aquela condição esquecida deveria impedir que uma transação extremamente rara fosse processada duas vezes.

Então o universo envia um pequeno lembrete em forma de incidente crítico.


Capítulo 4 — A diferença entre entender código e entender sistema

Um programa COBOL iniciante pode ser relativamente simples:

       IF WS-SALDO >= WS-VALOR-COMPRA
          SUBTRACT WS-VALOR-COMPRA FROM WS-SALDO
          MOVE 'APROVADA' TO WS-STATUS
       ELSE
          MOVE 'RECUSADA' TO WS-STATUS
       END-IF

Um iniciante entende rapidamente a lógica.

Saldo suficiente: aprova.

Saldo insuficiente: recusa.

Mas um sistema real pode conter:

       IF WS-SALDO-DISPONIVEL >= WS-VALOR-COMPRA
          IF WS-IND-BLOQUEIO NOT = 'S'
             IF WS-LIMITE-DIARIO >= WS-VALOR-ACUMULADO
                IF WS-COD-PAIS NOT = 999
                   PERFORM 7000-VALIDAR-RISCO
                END-IF
             END-IF
          END-IF
       END-IF

Agora entram regras de negócio.

  • O que é saldo disponível?

  • Qual a diferença entre saldo contábil e saldo disponível?

  • Quem determina o limite diário?

  • Por que o país 999 possui tratamento especial?

  • O bloqueio é financeiro, judicial ou antifraude?

  • A validação de risco é síncrona?

  • O que acontece quando o serviço de risco está indisponível?

  • Uma compra recusada deve gerar registro?

  • Existe reversão?

  • O processo precisa ser idempotente?

Compreender as instruções não significa compreender o sistema.

O programa é apenas uma peça.

O sistema inclui:

  • arquivos;

  • tabelas;

  • filas;

  • jobs;

  • transações;

  • operadores;

  • usuários;

  • contratos;

  • integrações;

  • janelas de processamento;

  • procedimentos de recuperação;

  • regras legais;

  • exceções históricas.

Um MOVE isolado é fácil.

Descobrir o efeito daquele MOVE em uma cadeia de cinquenta programas é outra aventura.


Capítulo 5 — O conhecimento tribal e os guardiões do sistema

Em muitas empresas, parte significativa do conhecimento não está nos manuais.

Está nas pessoas.

Esse conhecimento é frequentemente chamado de conhecimento tribal ou conhecimento tácito.

Ele aparece em frases como:

“Pergunte para o Carlos. Ele conhece esse processamento.”

“A Maria sabe por que o arquivo precisa chegar antes das 22 horas.”

“O operador do turno da noite já viu esse problema.”

“Esse programa foi feito pelo Roberto, que se aposentou.”

“Ninguém mexe nessa rotina sem falar com a área de faturamento.”

Essas pessoas são verdadeiros bancos de dados vivos.

Elas lembram de incidentes que nunca foram documentados.

Sabem quais mensagens podem ser ignoradas.

Conhecem os horários críticos.

Entendem exceções aparentemente absurdas.

Conseguem explicar por que uma solução considerada “feia” ainda é necessária.

A dica secreta da imagem

A imagem que inspira esta reflexão apresenta uma mensagem perfeita:

“Converse com os antigos.”

Essa é uma das melhores recomendações para quem trabalha com sistemas legados.

Não trate o profissional veterano como alguém que “apenas conhece tecnologia antiga”.

Ele pode ser o único elo restante entre o código atual e as decisões que originaram o sistema.

Pergunte:

  • Qual problema esse programa resolveu originalmente?

  • Quais são as situações mais perigosas?

  • Que alteração já provocou incidente?

  • Existe algum período em que não devemos mexer?

  • Quais programas dependem da saída?

  • Qual área de negócio deve validar a mudança?

  • Que regra parece inútil, mas não pode ser removida?

  • Quais mensagens indicam falha real?

  • Como o processo é recuperado?

  • Quem acompanha o processamento?

E, principalmente:

Registre as respostas.

Conhecimento oral que não é documentado está sempre a uma aposentadoria de distância do desaparecimento.


Capítulo 6 — O nível secreto chamado compreensão do negócio

Em um RPG técnico, o programador pode possuir várias habilidades:

Sintaxe COBOL ........ Nível 72
Comandos TSO ......... Nível 65
JCL .................. Nível 70
DFSORT ............... Nível 61
Db2 SQL .............. Nível 63
CICS .................. Nível 58

Tudo parece excelente.

Então aparece a habilidade mais importante:

Compreensão do negócio ... Nível 34

E ela evolui lentamente.

Muito lentamente.

Isso acontece porque tecnologia pode ser estudada de maneira estruturada.

Você pode fazer um curso de COBOL.

Pode estudar JCL.

Pode executar laboratórios de CICS.

Pode aprender SQL.

Mas compreender profundamente um negócio exige exposição ao sistema real.

Exige acompanhar incidentes.

Conversar com usuários.

Participar de testes.

Ler regras.

Conhecer exceções.

Entender o calendário operacional.

Observar como áreas diferentes interagem.

Descobrir que duas pessoas usam a mesma palavra com significados completamente diferentes.

Exemplo: “cliente ativo”

Parece um conceito simples.

Mas “cliente ativo” pode significar:

  • possui contrato válido;

  • movimentou a conta nos últimos 90 dias;

  • não está bloqueado;

  • possui saldo;

  • possui produto ativo;

  • não foi encerrado;

  • teve faturamento no mês;

  • está regular perante determinado cadastro.

O programador precisa descobrir qual definição vale naquele contexto.

O sistema pode utilizar diferentes definições em programas distintos.

Então surge uma rotina:

       IF CAD-SITUACAO = 'A'
          AND CAD-DATA-ULT-MOV >= WS-DATA-LIMITE
          AND CAD-IND-BLOQUEIO = 'N'
             MOVE 'S' TO WS-CLIENTE-ATIVO
       END-IF

A sintaxe é elementar.

A regra de negócio, não.


Capítulo 7 — Passo a passo para compreender um programa antigo

Agora vamos transformar a reflexão em método.

Você recebeu um programa que nunca viu.

Por onde começar?

Passo 1 — Descubra quem executa o programa

Localize o JCL, PROC, transação CICS, chamada dinâmica ou processo que inicia a execução.

Procure por:

//STEP010 EXEC PGM=PGMCLIENT

Ou no CICS:

       EXEC CICS
            LINK PROGRAM('PGMCLIENT')
            COMMAREA(WS-COMMAREA)
            LENGTH(WS-TAMANHO)
       END-EXEC

Ou em outro programa:

       CALL 'PGMCLIENT' USING LK-DADOS

Pergunte:

  • O programa é batch ou online?

  • É executado sob demanda?

  • Roda diariamente?

  • Participa de fechamento?

  • É chamado por outros programas?

  • Possui dependências externas?

Passo 2 — Mapeie as entradas

Liste tudo que entra no programa:

  • arquivos sequenciais;

  • datasets VSAM;

  • tabelas Db2;

  • COMMAREA;

  • canais e containers;

  • filas MQ;

  • parâmetros;

  • SYSIN;

  • dados recebidos de outros programas.

Exemplo:

//ENTRADA DD DSN=EMPRESA.CLIENTES.DIARIO,DISP=SHR

Descubra quem cria essa entrada.

Um arquivo nunca “simplesmente aparece”.

Existe um produtor.

E todo produtor possui suas próprias regras.

Passo 3 — Mapeie as saídas

Liste:

  • arquivos gerados;

  • tabelas alteradas;

  • mensagens enviadas;

  • relatórios;

  • códigos de retorno;

  • chamadas a outros módulos;

  • atualizações em VSAM;

  • registros de auditoria.

Pergunte:

Quem depende dessa saída?

Essa pergunta frequentemente revela o verdadeiro alcance da alteração.

Passo 4 — Leia a estrutura antes dos detalhes

Em COBOL, observe primeiro:

  • IDENTIFICATION DIVISION;

  • ENVIRONMENT DIVISION;

  • arquivos;

  • WORKING-STORAGE;

  • LINKAGE SECTION;

  • fluxo da PROCEDURE DIVISION;

  • principais PERFORM;

  • tratamento de erros;

  • encerramento.

Não comece lendo linha por linha.

Crie um mapa mental.

Algo como:

1000-INICIALIZAR
2000-LER-ENTRADA
3000-PROCESSAR
4000-GRAVAR-SAIDA
9000-FINALIZAR
9990-TRATAR-ERRO

Depois aprofunde cada área.

Passo 5 — Identifique regras e exceções

Procure:

IF
EVALUATE
88-LEVEL
SEARCH
COMPUTE
ADD
SUBTRACT
EXEC SQL
CALL

Cada condição pode representar uma regra.

Marque perguntas como:

Por que esse código é tratado separadamente?
Por que essa data é fixa?
Por que esse valor possui teto?
Por que essa condição ignora determinados registros?

Passo 6 — Observe o tratamento de falhas

Procure:

  • RETURN-CODE;

  • SQLCODE;

  • RESP e RESP2;

  • FILE STATUS;

  • chamadas de erro;

  • ABEND;

  • mensagens;

  • rollback;

  • arquivos de rejeição.

Exemplo:

       IF WS-FILE-STATUS NOT = '00'
          MOVE 12 TO RETURN-CODE
          PERFORM 9990-TRATAR-ERRO
       END-IF

Pergunte:

  • O processamento para?

  • Continua?

  • Rejeita o registro?

  • Pode ser reexecutado?

  • Existe risco de duplicidade?

  • Existe checkpoint?

Passo 7 — Converse com pessoas

Fale com:

  • analistas veteranos;

  • usuários;

  • operadores;

  • DBAs;

  • equipe de suporte;

  • segurança;

  • responsáveis por sistemas consumidores.

O código mostra o comportamento previsto.

As pessoas contam o que realmente acontece.

Passo 8 — Teste suas hipóteses

Não confunda interpretação com certeza.

Escreva hipóteses:

Acredito que o arquivo temporário existe para impedir que o job seguinte leia dados incompletos.

Depois valide.

Pode ser verdade.

Pode ser completamente falso.

O sistema legado aprecia humildade.

Passo 9 — Documente o que descobriu

Crie uma documentação mínima contendo:

  • finalidade;

  • entradas;

  • saídas;

  • dependências;

  • regras principais;

  • tratamento de erros;

  • recuperação;

  • contatos;

  • riscos;

  • histórico conhecido.

Você não precisa escrever uma enciclopédia.

Uma página clara já pode salvar horas futuras.

Passo 10 — Altere o mínimo necessário

Evite aproveitar a correção para “modernizar tudo”.

Uma alteração pequena deve permanecer pequena.

Separar refatoração de mudança funcional reduz riscos.

O velho conselho continua válido:

Primeiro compreenda. Depois preserve. Só então transforme.


Capítulo 8 — Dicas para o programador COBOL Padawan

Use folhas de referência

Crie ou mantenha referências rápidas para:

  • DISP;

  • SPACE;

  • DCB;

  • códigos SQL;

  • FILE STATUS;

  • abends comuns;

  • comandos TSO;

  • comandos SDSF;

  • opções DFSORT;

  • respostas CICS.

Não há vergonha em consultar.

A vergonha técnica seria adivinhar em produção.

Crie mapas de dependência

Mesmo um diagrama simples ajuda:

ARQCLIENT
    |
    v
PGM010
    |
    +--> Db2 CLIENTE
    |
    +--> PGM020
    |
    v
ARQSAIDA
    |
    v
JOBFATUR

Essa visão vale mais que decorar centenas de linhas.

Leia os logs

JES, SYSOUT, mensagens CICS, Db2 e relatórios de execução contam histórias.

Um programa pode parecer simples no código, mas os logs revelam:

  • volume real;

  • tempo de execução;

  • rejeições;

  • warnings;

  • dependências;

  • comportamento em falhas.

Use nomes de negócio em suas anotações

Não registre apenas:

Campo 47 recebe valor 3.

Registre:

O campo 47 indica transação cancelada após autorização, código 3.

Contexto transforma dado em conhecimento.

Desconfie de números mágicos

Exemplo:

       IF WS-CODIGO = 17

Pergunte imediatamente:

O que significa 17?

Crie um nome:

       88 OPERACAO-REVERSAO VALUE 17.

Agora o código começa a falar.


Capítulo 9 — Curiosidades do universo legado

Curiosidade 1 — Muitos bugs são decisões históricas fossilizadas

Nem todo comportamento estranho é um erro técnico.

Às vezes é uma regra antiga que continua existindo porque algum processo externo ainda depende dela.

Curiosidade 2 — Código feio pode proteger uma operação crítica

Uma rotina duplicada pode ter sido criada para isolar uma regra emergencial.

Antes de “limpar”, descubra por que foi separada.

Curiosidade 3 — O programa mais simples pode ser o mais perigoso

Um programa de 200 linhas que atualiza uma tabela central pode ser mais crítico do que outro de 20 mil linhas que apenas gera relatórios.

Complexidade técnica e criticidade operacional não são a mesma coisa.

Curiosidade 4 — O operador conhece o sistema de uma maneira diferente

Desenvolvedores conhecem o código.

Operadores conhecem o comportamento durante a madrugada, quando arquivos atrasam, jobs falham e sistemas externos ficam indisponíveis.

Escute-os.

Curiosidade 5 — O nome do arquivo pode esconder um contrato

Um dataset pode ser consumido por sistemas que você nem sabe que existem.

Excluir uma coluna “não utilizada” pode quebrar uma integração mantida por outra empresa.


Capítulo 10 — Os easter eggs escondidos na nave COBOL

Todo grande sistema possui mensagens secretas deixadas por seus antigos tripulantes.

Algumas aparecem como comentários.

Outras como nomes curiosos.

Outras como rotinas aparentemente inúteis.

Easter egg 1 — A condição impossível

       IF WS-CODIGO = 9999
          PERFORM ROTINA-ESPECIAL
       END-IF

Ninguém encontra o código 9999 nos arquivos atuais.

Então alguém decide remover.

Meses depois, descobre-se que ele é enviado apenas durante a recuperação de desastre.

Easter egg 2 — O arquivo vazio obrigatório

Um job cria um arquivo mesmo quando não possui registros.

Parece desperdício.

Mas o job seguinte verifica a existência do dataset como sinal de conclusão.

Sem o arquivo vazio, a cadeia para.

Easter egg 3 — O campo não usado

Um campo do copybook nunca é lido pelo programa.

Então parece seguro removê-lo.

Porém um sistema externo lê o registro completo pela posição.

Ao diminuir o layout, todos os campos seguintes se deslocam.

Parabéns: você encontrou o monstro secreto do LRECL.

Easter egg 4 — A rotina do dia 29 de fevereiro

Ela quase nunca executa.

Talvez a equipe nem consiga reproduzi-la facilmente.

Mas a cada quatro anos ela acorda.

Como um chefe final que segue calendário próprio.

Easter egg 5 — O comentário “não alterar”

Comentários assim nem sempre são superstição.

Frequentemente são cicatrizes de incidentes.

Trate-os como pistas, não como explicações definitivas.


Capítulo 11 — O que realmente merece ser lembrado

Você não precisa lembrar todos os parâmetros.

Mas algumas coisas merecem permanecer em sua memória profissional.

Lembre-se de perguntar:

  • Qual problema estamos resolvendo?

  • Quem depende desse processamento?

  • O que acontece em caso de falha?

  • A operação pode ser repetida?

  • Existe risco de duplicidade?

  • Quem valida a regra?

  • Qual é a fonte oficial da informação?

  • Existe uma exceção histórica?

  • Como voltar atrás?

  • O que precisa ser documentado?

Essas perguntas são mais valiosas do que decorar a sintaxe completa de cinquenta utilitários.

A tecnologia muda.

As boas perguntas continuam úteis.


Capítulo 12 — A evolução real do desenvolvedor

O programador iniciante se orgulha de lembrar comandos.

O intermediário se orgulha de resolver problemas.

O sênior se preocupa em não criar novos problemas.

O especialista compreende que software é um sistema sociotécnico: código, infraestrutura, negócio, pessoas, história e riscos.

A evolução pode ser vista assim:

Nível 1 — Sintaxe

Você aprende a escrever:

       PERFORM PROCESSAR-REGISTRO

Nível 2 — Estrutura

Você entende como organizar o programa.

Nível 3 — Dados

Você compreende arquivos, bancos, layouts e interfaces.

Nível 4 — Execução

Você entende JCL, CICS, filas, transações e dependências.

Nível 5 — Arquitetura

Você enxerga o programa dentro do ecossistema.

Nível 6 — Operação

Você compreende disponibilidade, performance, recuperação e suporte.

Nível 7 — Negócio

Você entende por que o sistema existe.

Nível 8 — História

Você compreende como ele chegou ao estado atual.

Nível 9 — Evolução segura

Você consegue transformá-lo sem destruir as razões pelas quais sobreviveu.

Esse é o verdadeiro caminho do Mestre Jedi do Mainframe.


Conclusão — Não entre em pânico, mas também não altere o IF sem perguntar

Esquecer sintaxe nunca foi o grande problema.

A sintaxe pode ser pesquisada.

O manual pode ser aberto.

Uma folha de referência pode ser consultada.

Um exemplo pode ser testado.

A memória técnica é útil, mas não é o recurso mais raro de um desenvolvedor.

O recurso mais raro é a capacidade de dedicar atenção suficiente para compreender um sistema complexo.

Compreender:

  • sua finalidade;

  • suas regras;

  • suas dependências;

  • suas falhas;

  • suas cicatrizes;

  • seus usuários;

  • sua história.

Um sistema legado não é apenas um conjunto de programas antigos.

É uma cápsula do tempo contendo decisões de negócio acumuladas ao longo de décadas.

Cada IF pode representar uma reunião.

Cada COPYBOOK pode representar um contrato.

Cada arquivo pode representar uma integração.

Cada código fixo pode representar uma exceção.

Cada comentário misterioso pode representar um incidente esquecido.

Por isso, quando receber sua próxima “pequena alteração”, não comece modificando o código.

Comece fazendo perguntas.

Localize o fluxo.

Mapeie entradas e saídas.

Descubra os consumidores.

Converse com os usuários.

Procure os veteranos.

Leia os logs.

Teste as hipóteses.

Registre as respostas.

E só então toque no programa.

No Guia do Viajante das Galáxias, a resposta para a vida, o universo e tudo mais era 42.

No Mainframe, a resposta costuma ser um pouco diferente:

“Depende da regra de negócio.”

E, em algum lugar do data center, existe um antigo analista que sabe exatamente qual regra é essa.

Talvez seja uma boa ideia convidá-lo para um café antes que alguém decida substituir o sistema inteiro por uma aplicação escrita às pressas em uma tecnologia que também será considerada legada daqui a vinte anos.

Porque linguagens envelhecem.

Plataformas evoluem.

Sintaxes mudam.

Mas sistemas continuam existindo enquanto resolverem problemas importantes.

E o melhor desenvolvedor não é aquele que carrega todos os manuais na cabeça.

É aquele que sabe onde encontrar a sintaxe, com quem conversar, quais perguntas fazer e, principalmente, o que jamais deve ser esquecido.

sábado, 19 de agosto de 2023

Saikyō Onmyōji no Isekai Tenseiki: Quando um Programador COBOL Descobre que Ser o Melhor SYSADM da Empresa Não Impede um ABEND Humano...

 

Bellacosa Mainframe apresenta saikyo onmyoji no isekai tenseiki

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Saikyō Onmyōji no Isekai Tenseiki (最強陰陽師の異世界転生記) sem Mistérios

Quando um Programador COBOL Descobre que Ser o Melhor SYSADM da Empresa Não Impede um ABEND Humano... e Resolve Reescrever a Própria Vida em Outro Ambiente


Ficha Técnica

Título original: 最強陰陽師の異世界転生記

Título internacional: The Reincarnation of the Strongest Exorcist in Another World

Título alternativo completo:
Saikyō Onmyōji no Isekai Tenseiki: Geboku no Yōkai-domo ni Kurabete Monster ga Yowasugirunda ga

Autor (Web Novel / Light Novel): Kiichi Kosuzu

Ilustrações da Light Novel: Shiso (1ª edição) e posteriormente Kihiro Yuzuki

Mangá: Toshinori Okazaki

Estúdio: Studio Blanc

Diretor: Ryōsuke Shibuya (com supervisão de Nobuyoshi Nagayama)

Roteiro: Touko Machida

Música: Alisa Okehazama

Exibição:
7 de janeiro de 2023 até 1º de abril de 2023.

Quantidade de episódios:
13 episódios de aproximadamente 24 minutos. (saikyou-onmyouji-no-isekai-tenseiki.fandom.com)


Gênero

  • Isekai

  • Fantasia

  • Ação

  • Magia

  • Reencarnação

  • Sobrenatural

  • Estratégia

  • Aventura

Classificação indicativa

Entre 12 e 14 anos, dependendo da região, devido a violência moderada, demônios e temas sobrenaturais. (infoanime.com.br)


Sinopse

Haruyoshi Kuga era considerado o maior Onmyōji (mestre da magia espiritual japonesa) de sua era.

Mas existe um velho ditado:

O homem mais poderoso costuma ser também o mais temido.

Traído pelos próprios aliados, Haruyoshi morre assassinado.

Antes de morrer utiliza um antigo ritual de reencarnação.

Ao despertar...

renasce como Seika Lamprogue, filho ilegítimo de uma família de nobres magos.

Só existe um pequeno detalhe.

Enquanto todos dominam magia...

ele domina algo muito mais antigo.

O Onmyōdō.


Resumo da História

Seika nasce aparentemente sem talento mágico.

É desprezado pela própria família.

Mas ninguém imagina que ele simplesmente não utiliza o mesmo "sistema operacional" daquele mundo.

Enquanto todos aprendem:

  • magia elemental

  • mana

  • encantamentos

ele utiliza:

  • shikigamis

  • talismãs

  • selos espirituais

  • invocações

  • barreiras

  • maldições

  • espíritos ancestrais

Na prática...

é como colocar um programador COBOL veterano dentro de uma empresa onde todos só conhecem Java.


O que é um Onmyōji?

Um dos aspectos mais interessantes da obra é utilizar uma profissão histórica japonesa.

Os Onmyōji existiram durante o período Heian.

Eram responsáveis por:

  • astrologia

  • exorcismos

  • proteção espiritual

  • rituais

  • adivinhação

  • equilíbrio do Yin e Yang

A inspiração mais famosa é Abe no Seimei, considerado o maior Onmyōji da história do Japão.

Ou seja...

o anime mistura fantasia medieval europeia com uma tradição espiritual genuinamente japonesa.

Esse é seu maior diferencial.


História

Durante sua nova vida Seika tenta evitar repetir os erros do passado.

Na existência anterior acreditava que poder absoluto resolveria qualquer problema.

Descobriu tarde demais que:

o medo das pessoas costuma ser mais perigoso do que qualquer demônio.

Agora prefere permanecer escondido.

Mas isso dura pouco.

Logo começa a:

  • derrotar monstros

  • proteger aliados

  • descobrir conspirações

  • enfrentar reis demônios

  • impedir guerras

  • influenciar o destino da Heroína

Sem jamais revelar completamente sua verdadeira força.


Personagens

Seika Lamprogue

Extremamente inteligente.

Quase nunca luta por impulso.

Sempre prepara o campo de batalha antes.

Seu verdadeiro poder não está na magia.

Está no planejamento.


Yifa

Escrava demi-humana comprada por Seika.

Inicialmente insegura.

Com o tempo torna-se uma poderosa usuária de magia.

Sua lealdade é construída pela forma como Seika a trata como pessoa, e não como propriedade.


Amyu

A Heroína profetizada.

Possui enorme potencial.

Representa o ideal clássico do herói escolhido.

Entretanto a história brinca justamente com essa ideia.


Mabel Crane

Assassina extremamente fria.

Foi treinada apenas para matar.

É uma das personagens com maior evolução psicológica.


Yuki

Uma poderosa raposa espiritual (kitsune) ligada às técnicas de Seika, reforçando a influência do folclore japonês na obra.


As Aventuras

Durante os treze episódios encontramos:

  • Academia de Magia

  • Dungeon

  • Conspirações políticas

  • Demônios

  • Dragões

  • Monstros

  • Espíritos

  • Guerras

  • Profecias

  • Intrigas entre reinos

  • Assassinos

  • Magia proibida

Tudo isso sem transformar cada episódio apenas em uma sequência de explosões.

Grande parte dos conflitos é resolvida pela inteligência.


O que torna este Isekai diferente?

Existem dezenas de protagonistas overpower.

Pouquíssimos são estrategistas.

Enquanto outros protagonistas perguntam:

"Qual meu nível?"

Seika pergunta:

"Como posso vencer antes mesmo da batalha começar?"

Essa mudança de filosofia torna o anime muito mais interessante.

Outro diferencial é que o sistema mágico não gira em torno de números.

Ele gira em torno de conhecimento.


Temática

A obra trabalha diversos temas:

  • traição

  • paranoia

  • confiança

  • segunda chance

  • identidade

  • medo do poder

  • responsabilidade

  • destino

  • livre-arbítrio

O protagonista nunca esquece a dor de sua morte anterior.

Isso influencia absolutamente todas as suas decisões.


As Mensagens Ocultas

1. O maior inimigo não é o demônio

É o medo humano.

Haruyoshi foi morto por pessoas.

Não por monstros.


2. Conhecimento supera força

Quase todas as vitórias acontecem porque Seika conhece técnicas esquecidas.

Não porque possui mais mana.


3. Poder escondido é mais seguro

Ele aprende que exibir tudo o que sabe apenas desperta inveja.


4. O passado nunca desaparece

Mesmo em outro mundo.

Os traumas continuam presentes.


Bellacosa Mainframe Analisa

Imagine um veterano de Mainframe.

Trinta anos administrando produção.

Conhece RACF.

JES2.

CICS.

IMS.

Db2.

VTAM.

SMP/E.

WLM.

Tudo.

Um dia...

é traído pela própria diretoria.

Levam toda a culpa para cima dele.

Décadas depois ele entra em outro banco.

Agora ninguém sabe quem ele realmente é.

Enquanto os jovens discutem frameworks...

ele resolve problemas escrevendo vinte linhas de REXX.

Quando alguém pergunta:

"Como você fez isso?"

Ele apenas responde:

"Aprendi na vida anterior."

Esse é exatamente Seika.

Ele parece um estagiário.

Mas pensa como alguém que já administrou milhares de incidentes críticos.


Impacto Cultural

O anime nunca alcançou o sucesso comercial de obras como:

  • Mushoku Tensei

  • Overlord

  • Re:Zero

  • Tensura

Entretanto conquistou um público fiel justamente por fugir da fórmula tradicional do protagonista baseado em níveis de RPG. Muitos fãs destacam a ambientação inspirada no Onmyōdō e o perfil calculista de Seika como os maiores diferenciais da série.


Censura

A adaptação praticamente não sofreu censura relevante.

Há:

  • violência moderada

  • mortes

  • demônios

  • escravidão apresentada como elemento do mundo (especialmente na história de Yifa), mas sem grande exploração gráfica

  • pouca sexualização

Comparado a muitos isekais modernos, é relativamente contido.


Web Novel

A Web Novel começou no Shōsetsuka ni Narō em dezembro de 2018.

Foi justamente seu sucesso que levou à publicação oficial.


Light Novel

A Light Novel começou em 31 de julho de 2019, publicada pela Futabasha. Posteriormente recebeu uma edição revisada na linha Monster Bunko, expandindo a série para novos volumes.


Mangá

O mangá começou em 19 de maio de 2020, desenhado por Toshinori Okazaki.

A adaptação já avançou muito além do anime e aprofunda vários acontecimentos e personagens apresentados apenas de forma resumida na televisão. 


Games

Até julho de 2026 não existe um jogo oficial dedicado à franquia para consoles, PC ou dispositivos móveis.

A série aparece apenas em produtos promocionais e licenciamentos ocasionais.


Vale a pena assistir?

Pontos fortes

✔ protagonista extremamente inteligente

✔ sistema mágico original

✔ excelente uso do folclore japonês

✔ boas batalhas estratégicas

✔ personagens carismáticos

✔ ritmo consistente

✔ mistura de fantasia oriental e ocidental

Pontos fracos

✖ animação apenas mediana em alguns combates

✖ alguns personagens secundários poderiam receber mais desenvolvimento

✖ apenas 13 episódios deixam vários arcos importantes para a light novel e o mangá


Veredito Bellacosa Mainframe

⭐⭐⭐⭐⭐☆☆☆☆☆
Nota: 8,8 / 10

Saikyō Onmyōji no Isekai Tenseiki mostra que o verdadeiro poder não está em lançar o feitiço mais destrutivo, mas em compreender o sistema melhor do que qualquer outra pessoa. No universo do Bellacosa Mainframe, Seika seria aquele analista COBOL veterano que entra discretamente na sala de crise, observa o console por alguns minutos e resolve um incidente que ninguém conseguiu diagnosticar. Enquanto todos procuram um patch, ele já conhece o bug desde a "versão anterior da vida".


sexta-feira, 18 de agosto de 2023

EBCDIC: O Código que o Mundo Chama de Legado, Mas que Ainda Move Bilhões de Transações Todos os Dias

 

Bellacosa Mainframe iniciando no EBCDIC e cartão perfurado

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

EBCDIC: O Código que o Mundo Chama de Legado, Mas que Ainda Move Bilhões de Transações Todos os Dias

"Quem ri do EBCDIC normalmente nunca precisou garantir que um banco inteiro fechasse o balanço sem perder um único centavo."

Existe um momento na vida de praticamente todo programador que começa a trabalhar com Mainframe.

Você recebe um arquivo vindo do z/OS.

Abre no Notepad.

E aparece algo parecido com isto:

ÁêØ¢ËÑÇ@@@âÑÄÅ...

A primeira reação costuma ser:

"O arquivo está corrompido."

A segunda:

"Alguém esqueceu de salvar em UTF-8."

A terceira:

"Isso é tecnologia dos dinossauros."

Nenhuma delas está correta.

Na verdade, aquele arquivo está absolutamente perfeito.

O problema é que você está tentando ler um livro escrito em outro alfabeto.

Esse alfabeto chama-se EBCDIC (Extended Binary Coded Decimal Interchange Code).

E, apesar de muita gente tratá-lo como uma curiosidade histórica, ele continua presente nos maiores bancos, seguradoras, governos e companhias aéreas do planeta.

Hoje vamos tomar um café e desmistificar um dos assuntos mais mal compreendidos do universo IBM Z.


Bellacosa Mainframe apresenta o ebcdic

O maior mito sobre o EBCDIC

Pergunte para dez desenvolvedores que nunca trabalharam com Mainframe:

"Por que existe EBCDIC?"

As respostas costumam ser parecidas.

"Porque a IBM queria prender os clientes."

É uma boa história.

Mas é falsa.

Quando o EBCDIC nasceu, em 1963, praticamente ninguém utilizava ASCII.

Aliás...

Nem mesmo o ASCII era um padrão consolidado.

Cada fabricante possuía sua própria codificação.

Burroughs.

Honeywell.

CDC.

UNIVAC.

ICL.

Todos tinham soluções próprias.

A IBM simplesmente continuou evoluindo aquilo que ela já utilizava desde os computadores baseados em cartões perfurados.

Não era uma conspiração.

Era evolução tecnológica.


O mundo era completamente diferente

Hoje pensamos em computadores conectados pela Internet.

Em 1963...

Não havia Internet.

Não havia Wi-Fi.

Não havia APIs.

Não havia JSON.

Muito menos ChatGPT.

O computador era uma máquina corporativa.

Seu trabalho era processar:

  • folhas de pagamento;

  • contas bancárias;

  • extratos;

  • impostos;

  • seguros;

  • notas fiscais;

  • cartões perfurados.

O objetivo não era conversar com outros computadores.

Era processar documentos com absoluta confiabilidade.

Essa diferença muda tudo.


ASCII nasceu para conversar

O ASCII descende do Código Baudot, criado para telegrafia.

Imagine um cabo atravessando centenas de quilômetros.

Cada bit enviado custava tempo.

Tempo custava dinheiro.

Por isso o ASCII foi pensado para transmissão serial.

Seu projeto privilegiava simplicidade eletrônica.

Existe uma curiosidade fantástica.

Observe:

A = 65
a = 97

A diferença entre as duas letras é praticamente um único bit.

Isso permitia que um circuito eletrônico transformasse letras maiúsculas em minúsculas simplesmente alterando um sinal elétrico.

Hoje parece detalhe.

Na época era genial.


Enquanto isso...

Na IBM...

O problema era outro.

Ela precisava representar cartões perfurados.

E aí entra um personagem quase esquecido da computação moderna.


Bellacosa Mainframe e a anatomia de um cartão perfurado


O cartão perfurado

Imagine uma folha de papel rígido.

Ela possui 80 colunas.

Cada coluna representa um caractere.

Cada coluna possui 12 posições possíveis para perfuração.

12
11
0
1
2
3
4
5
6
7
8
9

As três primeiras posições eram chamadas de Zona.

As demais eram os Dígitos.

Para escrever uma letra não bastava perfurar um único lugar.

Era necessário combinar uma zona com um dígito.

Por exemplo:

Zona 12 + Dígito 1 = A

Esse padrão tornou-se tão importante que a IBM decidiu preservá-lo quando criou o System/360.


O nascimento do EBCDIC

Em vez de inventar um alfabeto completamente novo...

A IBM fez algo extremamente inteligente.

Ela traduziu a lógica física do cartão diretamente para um byte.

Cada caractere passou a ocupar:

4 bits
+
4 bits

Ou seja:

Nibble superior
↓

Zona

Nibble inferior
↓

Dígito

É por isso que o EBCDIC parece "bagunçado".

Na verdade...

Ele apenas respeita a lógica física do cartão.


O famoso buraco entre I e J

Essa é uma das primeiras coisas que um curioso percebe.

No ASCII temos:

ABCDEFGHIJKLMN...

Tudo contínuo.

Já no EBCDIC acontece algo diferente.

As letras ficam divididas em blocos.

A até I

↓

salto

↓

J até R

↓

salto

↓

S até Z

Por quê?

Porque era exatamente assim que funcionava o cartão perfurado.

O que parece estranho hoje fazia todo sentido em 1964.


O EBCDIC não é uma tabela.

Ele é uma filosofia.

Essa talvez seja a maior diferença.

ASCII resolve um problema.

Representar caracteres.

O EBCDIC fazia parte de uma arquitetura inteira.

Quando a IBM lançou o System/360 ela criou uma plataforma capaz de durar décadas.

E conseguiu.

Hoje, mais de sessenta anos depois, conceitos daquela arquitetura continuam presentes no IBM Z.

Entre eles:

  • canais de I/O;

  • processamento batch;

  • registros de tamanho fixo;

  • decimal compactado;

  • formatos de impressão;

  • arquivos VSAM;

  • e o EBCDIC.

Nada disso surgiu isoladamente.

Tudo fazia parte da mesma visão de engenharia.


"Então por que não mudar para UTF-8?"

Essa pergunta aparece em praticamente toda palestra.

A resposta curta é:

Porque não faz sentido.

Imagine um banco.

Ele possui cinquenta anos de software.

Bilhões de linhas em:

  • COBOL;

  • PL/I;

  • Assembler.

Agora imagine alterar a representação interna dos caracteres.

O que precisaria ser testado?

Tudo.

Literalmente tudo.

Comparações.

Ordenações.

Relatórios.

Impressoras.

Interfaces.

Conversões.

Milhões de programas.

Décadas de auditoria.

Bilhões de registros históricos.

O custo seria gigantesco.

O benefício?

Praticamente nenhum.


O IBM Z odeia UTF-8?

Muito pelo contrário.

Esse é outro mito.

Hoje o IBM Z executa naturalmente:

  • Java;

  • Python;

  • Node.js;

  • Go;

  • C/C++;

  • OpenJDK;

  • OpenSSH;

  • Linux on Z;

  • Docker;

  • Kubernetes;

  • APIs REST;

  • GraphQL;

  • OpenAPI.

Todos utilizando UTF-8.

O segredo está na arquitetura.

As aplicações modernas trabalham em UTF-8.

Os componentes tradicionais continuam utilizando EBCDIC.

Entre eles:

  • COBOL;

  • CICS;

  • IMS;

  • DB2;

  • arquivos sequenciais.

No meio do caminho existem conversores.

Tudo acontece automaticamente.

Na maioria das vezes o desenvolvedor nem percebe.


Um exemplo simples

Imagine um aplicativo no celular.

Cliente

↓

API REST

↓

z/OS Connect

↓

COBOL

↓

DB2

O celular envia UTF-8.

O z/OS Connect converte.

O COBOL recebe EBCDIC.

Na volta acontece exatamente o contrário.

Para quem usa o aplicativo...

Nada muda.


Curiosidade nº 1

Existe apenas um EBCDIC?

Não.

Existem centenas.

São chamadas de Code Pages.

Algumas famosas:

  • CP037

  • CP500

  • CP273

  • CP1047

  • CP1140

Cada uma adapta caracteres para determinados idiomas.

É parecido com as antigas páginas de código do Windows.


Curiosidade nº 2

Nem todo problema é "EBCDIC".

Muitas vezes o arquivo já está em EBCDIC.

Mas você está usando a página errada.

É como abrir um texto em português utilizando uma fonte chinesa.

Os bytes continuam corretos.

A interpretação é que muda.


Curiosidade nº 3

COBOL também depende do EBCDIC.

Quando você escreve:

IF CLIENTE-A > CLIENTE-B

Ou executa:

SORT

Existe uma sequência de classificação.

Essa sequência depende da codificação utilizada.

No Mainframe ela normalmente segue o EBCDIC.

Isso significa que uma ordenação feita no Windows pode produzir resultados diferentes daquela executada no z/OS.


Curiosidade nº 4

No ASCII:

9

↓

A

↓

a

No EBCDIC...

A ordem muda.

Esse pequeno detalhe já causou inúmeros bugs em integrações entre plataformas.


Curiosidade nº 5

Você provavelmente usa EBCDIC sem perceber.

Quando um banco expõe uma API REST.

Quando um PIX consulta uma conta.

Quando um cartão de crédito é autorizado.

Quando uma companhia aérea consulta uma reserva.

Quando um caixa eletrônico responde.

Existe uma enorme chance de existir um programa COBOL falando EBCDIC em algum lugar da infraestrutura.


Easter Egg para Padawans 🥚

Se você assistir ao filme Apollo 13, verá computadores IBM em operação.

Se visitar museus de computação encontrará cartões perfurados.

Se estudar a arquitetura do System/360 descobrirá que muitas decisões tomadas naquela época continuam influenciando os processadores IBM Z atuais.

É como encontrar fósseis vivos.

Só que ainda processando bilhões de dólares por dia.


Outro Easter Egg

O EBCDIC costuma ser chamado de "dinossauro".

Mas existe uma ironia divertida.

Grande parte das aplicações modernas utiliza JSON.

JSON é texto.

Texto precisa de codificação.

Sem um padrão de caracteres...

Nem mesmo APIs modernas existiriam.

No fim das contas...

Todo sistema continua dependendo de um "alfabeto".

A diferença é apenas qual deles.


Dicas para quem está começando no Mainframe

Nunca abra arquivos EBCDIC diretamente no Notepad.

Use ferramentas que suportem conversão.


Aprenda a diferença entre arquivo texto e arquivo binário.

Nem tudo pode ser convertido.

Campos COMP, COMP-3 e binários jamais devem ser tratados como texto.


Conheça sua Code Page.

CP037 não é igual à CP1047.

Esse detalhe salva horas de investigação.


Aprenda como funciona FTP ASCII e FTP Binary.

Uma configuração incorreta pode "corromper" um arquivo apenas durante a transferência.

Na verdade, o arquivo original continua íntegro.


Não tenha medo do EBCDIC.

Ele parece estranho apenas porque crescemos utilizando ASCII e UTF-8.

Depois de alguns dias convivendo com Mainframe ele se torna completamente natural.


O verdadeiro legado do EBCDIC

Existe uma frase famosa na engenharia:

"Se algo funciona perfeitamente há cinquenta anos, talvez exista uma boa razão para não mexer."

O EBCDIC sobreviveu não porque o mercado ficou parado.

Mas porque ele faz parte de uma arquitetura extremamente estável.

Enquanto tecnologias aparecem e desaparecem a cada cinco anos...

O IBM Z continua processando alguns dos sistemas mais críticos do planeta.

Não porque seja antigo.

Mas porque foi projetado para durar.


Um Café Antes de Ir...

O programador júnior normalmente olha para o EBCDIC e enxerga um problema.

O desenvolvedor experiente enxerga compatibilidade.

O arquiteto enxerga engenharia.

E o engenheiro de Mainframe enxerga algo ainda maior: uma decisão de projeto que atravessou gerações sem interromper negócios, preservando décadas de investimentos e garantindo que milhões de pessoas possam sacar dinheiro, comprar passagens, pagar contas e realizar transações todos os dias.

Da próxima vez que você abrir um arquivo EBCDIC e encontrar uma "sopa de caracteres", lembre-se: o arquivo não está errado. Apenas está falando a língua nativa de um dos ecossistemas computacionais mais robustos já construídos.

Porque, no fim das contas, o EBCDIC nunca foi um obstáculo ao futuro. Ele sempre foi a ponte silenciosa entre mais de 60 anos de história da computação e o IBM Z que continua sustentando o mundo digital de hoje.

E essa, meu colega Padawan, é uma das maiores lições que o Mainframe pode ensinar: boas arquiteturas envelhecem muito melhor do que modismos tecnológicos.


quinta-feira, 17 de agosto de 2023

A Hipocrisia Digital Existe? Ou Apenas Somos Mais Complexos do Que Gostamos de Admitir?

 


Bellacosa Mainframe e a hioocrisia digital existe

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

A Hipocrisia Digital Existe? Ou Apenas Somos Mais Complexos do Que Gostamos de Admitir?

O Que Todo Programador COBOL Padawan Precisa Saber Sobre Psicologia, Sociologia, Conformidade Social e Por Que Muitas Pessoas Defendem Uma Ideia nas Redes Sociais e Agem de Forma Diferente na Vida Real

"O algoritmo registra nossos cliques. A sociedade registra nossas palavras. Mas somente a consciência conhece nossas verdadeiras motivações."


Introdução

Quem trabalha com IBM Mainframe aprende uma regra simples.

Existe o que o sistema declara.

E existe o que realmente acontece nos logs.

Muitas vezes eles são diferentes.

O programa informa:

PROCESSAMENTO FINALIZADO COM SUCESSO

Mas o Sysprog abre o SMF, o RMF, o SYSLOG e descobre dezenas de erros ocultos.

A sociedade moderna parece funcionar da mesma maneira.

As pessoas dizem uma coisa.

Mas fazem outra.

Nas redes sociais defendem determinados valores.

Na vida privada comportam-se de forma completamente diferente.

Será hipocrisia?

Ou existe algo muito mais profundo acontecendo?

A resposta talvez seja uma das descobertas mais importantes da Psicologia Social.

Talvez os seres humanos nunca tenham sido tão contraditórios.

Talvez agora apenas deixemos rastros digitais suficientes para perceber isso.


O Ser Humano Nunca Foi Totalmente Coerente

Existe uma expectativa moderna de que uma pessoa deva possuir opiniões absolutamente consistentes.

Mas a Psicologia mostra exatamente o contrário.

Somos compostos por:

  • emoções;

  • impulsos;

  • valores;

  • medo;

  • desejo de aceitação;

  • necessidade de pertencimento;

  • experiências pessoais.

Nem sempre esses componentes apontam para a mesma direção.

Na verdade, frequentemente entram em conflito.


Leon Festinger e a Dissonância Cognitiva

Uma das teorias mais importantes para entender esse fenômeno foi proposta por Leon Festinger, em 1957.

Ela recebeu o nome de Dissonância Cognitiva.

Quando nossas ações entram em conflito com nossos valores, surge um desconforto psicológico.

Para reduzir esse desconforto podemos:

  • mudar o comportamento;

  • mudar a opinião;

  • racionalizar a situação;

  • minimizar a importância da contradição.

É um mecanismo profundamente humano.


Solomon Asch e o Poder do Grupo

Na década de 1950, Solomon Asch realizou um experimento clássico.

Participantes eram colocados em um grupo onde todos davam uma resposta claramente errada para uma pergunta extremamente simples.

Surpreendentemente, muitas pessoas repetiam a resposta errada apenas para não discordar do grupo.

Não era falta de inteligência.

Era conformidade social.

Esse estudo mostrou algo inquietante.

O desejo de pertencimento pode ser mais forte do que a percepção da realidade.


O Cardume Humano

Na natureza, cardumes aumentam as chances de sobrevivência.

Quem sai sozinho torna-se vulnerável.

Nosso cérebro evoluiu dentro dessa lógica.

Ser aceito significava sobreviver.

Ser excluído significava enorme risco.

Mesmo vivendo em cidades modernas, carregamos parte dessa programação biológica.

Nas redes sociais, o medo já não é ser expulso da tribo física.

É ser cancelado pela tribo digital.


Elisabeth Noelle-Neumann e a Espiral do Silêncio

A cientista política Elisabeth Noelle-Neumann chamou esse fenômeno de Espiral do Silêncio.

As pessoas tendem a esconder opiniões que acreditam ser impopulares.

Não necessariamente porque mudaram de ideia.

Mas porque temem isolamento.

Nas redes sociais isso pode ser amplificado.

Curtidas funcionam como aprovação.

Comentários negativos funcionam como punição.

O cérebro aprende rapidamente quais opiniões geram aceitação.


Erving Goffman e o Teatro Social

O sociólogo Erving Goffman propôs que a vida social funciona como um palco.

Existe o palco.

Existe o bastidor.

Nas redes sociais esse modelo tornou-se quase literal.

Publicamos uma versão cuidadosamente editada de nós mesmos.

Não mostramos tudo.

Mostramos aquilo que acreditamos que será melhor recebido.

Não é necessariamente mentira.

É seleção.


A Gestão da Impressão

Goffman chamava isso de Impression Management.

Administramos constantemente a imagem que desejamos transmitir.

No LinkedIn parecemos extremamente profissionais.

No Instagram parecemos felizes.

No Facebook parecemos sociáveis.

No X parecemos politicamente engajados.

Mas somos tudo isso ao mesmo tempo?

Ou apenas enfatizamos facetas diferentes conforme o ambiente?


Jung e a Persona

Carl Gustav Jung utilizou o conceito de Persona.

A Persona é a máscara social.

Ela facilita nossa convivência.

O problema surge quando começamos a acreditar que somos apenas essa máscara.

As redes sociais incentivam justamente esse risco.

Quanto maior a recompensa por determinada imagem, maior a tentação de viver permanentemente dentro dela.


O Experimento de Milgram

Stanley Milgram mostrou que pessoas comuns podem obedecer autoridades mesmo quando isso entra em conflito com seus valores.

Embora seu experimento trate de obediência e não de redes sociais, ele ilustra um ponto importante:

O contexto influencia profundamente nosso comportamento.

Mudamos quando muda o ambiente.


Philip Zimbardo

O Experimento da Prisão de Stanford também reforçou essa ideia.

Papéis sociais alteram comportamentos.

Nas redes assumimos papéis constantemente.

Especialista.

Militante.

Influenciador.

Vítima.

Empreendedor.

Cada papel possui expectativas próprias.


René Girard e o Desejo Mimético

René Girard propôs que desejamos aquilo que observamos outras pessoas desejando.

Talvez opiniões também funcionem assim.

Não adotamos apenas produtos.

Adotamos discursos.

Slogans.

Narrativas.

Palavras.

Porque pertencimento também é imitação.


Pierre Bourdieu e o Capital Social

Para Pierre Bourdieu, opiniões também podem gerar capital.

Capital simbólico.

Capital social.

Determinadas posições aumentam prestígio dentro de certos grupos.

Isso não significa que sejam falsas.

Mas significa que opiniões também possuem valor social.


Byung-Chul Han

Byung-Chul Han argumenta que vivemos uma sociedade onde nos tornamos empreendedores de nós mesmos.

Nossa imagem tornou-se patrimônio.

Nossa reputação tornou-se investimento.

Perder seguidores pode significar perder oportunidades.

Isso cria incentivos para adaptar discursos às expectativas do público.


A Psicologia do Cancelamento

O cancelamento funciona como mecanismo informal de controle social.

Historicamente, toda sociedade utilizou recompensas e punições.

Hoje elas assumem novas formas.

Curtidas.

Compartilhamentos.

Bloqueios.

Exposição pública.

Silêncio coletivo.

Esses mecanismos influenciam o que as pessoas dizem, mesmo quando não mudam o que pensam.


O Algoritmo Amplifica ou Cria?

Essa é uma pergunta fundamental.

O algoritmo raramente cria uma opinião do zero.

Ele tende a amplificar comportamentos que já encontram algum terreno fértil.

Isso vale para:

  • humor;

  • medo;

  • indignação;

  • empatia;

  • polarização;

  • pertencimento.

Ele acelera processos humanos.

Não substitui completamente a agência humana.


Hipocrisia ou Adaptação?

Talvez este seja o maior equívoco.

Nem toda incoerência é hipocrisia.

Uma pessoa pode sinceramente acreditar em um valor e, ainda assim, falhar em colocá-lo em prática.

Pode mudar de ideia ao longo do tempo.

Pode adaptar sua linguagem conforme o contexto.

Pode sentir medo da rejeição.

Isso não elimina a responsabilidade individual, mas mostra que o comportamento humano é mais complexo do que um simples rótulo de "hipócrita".


O Mainframe Explica Melhor

Imagine um sistema bancário.

Existe:

  • aplicação;

  • middleware;

  • banco de dados;

  • sistema operacional;

  • hardware.

Nenhum problema complexo pode ser explicado observando apenas uma camada.

O ser humano também possui camadas.

Biologia.

Psicologia.

Família.

Cultura.

Economia.

Tecnologia.

História.

Reduzir tudo à hipocrisia seria como culpar apenas o COBOL por uma falha causada por rede, banco de dados ou hardware.


O Que Fazer?

A primeira resposta é desconfortável.

Olhar para dentro.

Antes de perguntar:

"Por que os outros são incoerentes?"

Talvez devêssemos perguntar:

"Em quais situações eu também adapto meu discurso para ser aceito?"

Todos fazemos isso em algum grau.

A diferença está na frequência, na intensidade e nas consequências.

A segunda resposta é fortalecer ambientes onde discordar não signifique automaticamente exclusão.

Sociedades abertas dependem da possibilidade de divergência respeitosa.

Quando toda discordância é tratada como ameaça, cresce o incentivo para que as pessoas escondam o que realmente pensam.


Conclusão

Talvez o maior erro da era digital tenha sido imaginar que as redes sociais revelariam nossa verdadeira identidade.

Elas revelam apenas uma parte dela.

Assim como o palco de um teatro não mostra os bastidores, o perfil de uma rede social não revela toda a complexidade de uma pessoa.

Somos simultaneamente:

  • racionais e emocionais;

  • coerentes e contraditórios;

  • independentes e influenciáveis;

  • autênticos e adaptáveis.

O algoritmo registra aquilo que fazemos.

A sociedade ouve aquilo que dizemos.

Mas existe uma terceira dimensão que continua invisível para ambos:

aquilo que realmente acreditamos quando ninguém está olhando.

Talvez essa seja a última região verdadeiramente privada do ser humano.

E talvez seja justamente por isso que ela tenha se tornado tão valiosa na era da Inteligência Artificial.

quarta-feira, 16 de agosto de 2023

🍳 Tondemo Skill de Isekai Hourou Meshi: Quando o Melhor Superpoder Não É Destruir o Rei Demônio, Mas Fazer um Curry que Coloca um Fenrir em Estado de Espera (WAIT)

 

Bellacosa Mainframe e as aventuras de tondemo skill de isekai hourou meshi

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

🍳 Tondemo Skill de Isekai Hourou Meshi (とんでもスキルで異世界放浪メシ): Quando o Melhor Superpoder Não É Destruir o Rei Demônio, Mas Fazer um Curry que Coloca um Fenrir em Estado de Espera (WAIT)

"Enquanto outros protagonistas recebem Excalibur, magia suprema ou habilidades capazes de destruir continentes, Mukouda recebe um cartão de supermercado. O resultado? Um dos isekais mais inteligentes, confortáveis e surpreendentemente realistas da última década."


Ficha Técnica

ItemInformação
Título Originalとんでもスキルで異世界放浪メシ
Título InternacionalCampfire Cooking in Another World with My Absurd Skill
AutorRen Eguchi
Ilustrações (Light Novel)Masa
MangáAkagishi K
EstúdioMAPPA
DireçãoKiyoshi Matsuda
LançamentoJaneiro de 2023
Temporadas2 (a segunda estreou em 2025)
Episódios12 (1ª temporada)
OrigemLight Novel
GêneroIsekai, Fantasia, Slice of Life, Gourmet, Comédia, Aventura

O curioso nascimento da obra

Assim como diversos sucessos modernos, Tondemo Skill começou como uma Web Novel publicada no Shōsetsuka ni Narō, o maior portal japonês de romances amadores.

Foi exatamente o mesmo caminho seguido por:

  • Mushoku Tensei

  • Overlord

  • Re:Zero

  • Slime Datta Ken

  • Kumo Desu ga

  • Arifureta

A diferença?

Enquanto quase todos escolheram o caminho do herói lendário...

Ren Eguchi resolveu escrever sobre...

...um cozinheiro.

E isso muda absolutamente tudo.


Sinopse

Mukouda Tsuyoshi é um funcionário comum de uma empresa japonesa.

Durante uma invocação de heróis para salvar um reino, ele acaba sendo transportado por acidente junto com três jovens escolhidos.

Após perceber que existe algo estranho naquele reino, decide ir embora antes de ser usado politicamente.

Seu único poder recebido chama-se:

Net Super (ネットスーパー)

Uma habilidade aparentemente ridícula.

Ela permite comprar produtos alimentícios diretamente do Japão.

Nada de espada sagrada.

Nada de magia divina.

Nada de dragões pessoais.

Apenas...

Mercado online.

Ou pelo menos era isso que todos imaginavam.


A maior mentira do anime

Todos acreditam que Mukouda possui uma habilidade inútil.

Na verdade...

Ela é provavelmente uma das habilidades mais quebradas (overpowered) já criadas.

Porque ela fornece:

  • alimentos infinitos

  • temperos modernos

  • medicamentos

  • bebidas

  • utensílios

  • ingredientes impossíveis naquele mundo

Na prática...

Mukouda possui uma cadeia logística global inteira dentro do bolso.


Bellacosa Mainframe ☕

Imagine um ambiente IBM Z.

Todos os operadores trabalham usando datasets locais.

De repente chega alguém conectado diretamente à Internet...

Com acesso ao Amazon, Mercado Livre, IBM Fix Central, GitHub e Stack Overflow.

Essa pessoa pareceria um mago.

É exatamente isso que Mukouda representa naquele universo.

Seu poder não é força.

É acesso à infraestrutura.

No Mainframe chamamos isso de vantagem arquitetural.


A verdadeira história

À primeira vista parece um anime de culinária.

Depois parece um anime de aventura.

Mais tarde parece um anime de monstros.

Mas nenhum deles define corretamente a obra.

Na realidade...

É uma história sobre independência.

Mukouda rejeita completamente o papel clássico do herói.

Ele não deseja:

  • fama

  • poder

  • trono

  • reconhecimento

Seu sonho é incrivelmente adulto.

Ter dinheiro suficiente.

Boa comida.

Viajar.

Dormir em paz.

Não ser incomodado.

Quem já passou dos 35 anos entende perfeitamente esse objetivo.


Os personagens

🍳 Mukouda

Talvez seja um dos protagonistas mais humanos dos isekais.

Ele sente medo.

Evita conflitos.

Negocia.

Economiza.

Compra promoções.

Pensa antes de agir.

Não quer matar ninguém.

Não deseja dominar o mundo.

É praticamente um analista de produção de Mainframe.


🐺 Fel

Fenrir.

Uma criatura mitológica capaz de destruir exércitos.

Mas existe uma vulnerabilidade crítica.

Carne bem temperada.

Fel aceita tornar-se familiar de Mukouda simplesmente porque nunca havia experimentado comida japonesa.

Sua personalidade lembra um DBA veterano.

Extremamente competente.

Arrogante.

Impaciente.

Mas confiável.


💧 Sui

Sui talvez seja um dos slimes mais adoráveis dos animes.

Enquanto Rimuru representa evolução política...

Sui representa inocência.

Cada episódio mostra seu crescimento emocional.

Ele aprende.

Erra.

Brinca.

E lentamente torna-se uma máquina de combate absurda.


As Deusas

Existe uma crítica social muito divertida.

As deusas literalmente aceitam bênçãos em troca de:

  • chocolate

  • refrigerante

  • sorvete

  • doces

Uma sátira elegante ao consumismo moderno.

Nem entidades divinas resistem ao açúcar industrializado.


O verdadeiro protagonista

Pode parecer estranho.

Mas o protagonista da série não é Mukouda.

É a comida.

Toda narrativa gira em torno dela.

Ela:

resolve conflitos.

cria amizades.

forma contratos.

abre caminhos.

atrai monstros.

agrada deuses.

movimenta a economia.

É praticamente um personagem invisível.


A culinária como linguagem universal

Poucos animes entendem tão bem um conceito simples:

Boa comida elimina preconceitos.

Um Fenrir aceita um humano.

Um slime torna-se família.

Deusas aproximam-se dos mortais.

Mercadores criam amizade.

Tudo começa ao redor da mesa.


O diferencial da obra

Enquanto praticamente todos os isekais seguem esta arquitetura:

Invocação

↓

Treinamento

↓

Guilda

↓

Rei Demônio

↓

Grande Guerra

↓

Final

Tondemo Skill segue outra completamente diferente:

Mercado

↓

Receita

↓

Jantar

↓

Viagem

↓

Novo ingrediente

↓

Nova receita

É quase um "pipeline gastronômico" em vez de uma jornada do herói.


O trabalho impressionante do MAPPA

O estúdio MAPPA ficou conhecido por produções intensas como:

  • Attack on Titan (temporadas finais)

  • Jujutsu Kaisen

  • Chainsaw Man

  • Vinland Saga (2ª temporada)

Por isso, muita gente esperava batalhas espetaculares.

Mas o estúdio decidiu investir em outro tipo de espetáculo: a culinária.

Cada prato recebe uma animação extremamente detalhada. O brilho dos molhos, a textura da carne, o vapor subindo da panela e o som dos ingredientes sendo preparados transformam receitas simples em momentos memoráveis. É um uso incomum do talento técnico do MAPPA, mostrando que boa animação não depende apenas de cenas de ação.


As aventuras

Cada arco representa um novo bioma.

Florestas.

Montanhas.

Ruínas.

Cidades.

Guildas.

Dragões.

Mercadores.

Mas tudo é visto sob outra perspectiva.

Ao invés de perguntar:

"Como derrotar esse monstro?"

Mukouda pergunta:

"Será que essa carne fica boa grelhada?"

É brilhante.


As mensagens ocultas

A felicidade não depende da ambição

Mukouda nunca quer ser rei.

Nunca quer ser o mais forte.

Mesmo assim...

É feliz.


Competência silenciosa

Ele nunca faz propaganda das próprias habilidades.

Simplesmente entrega resultado.

Lembra muito os profissionais veteranos de Mainframe: raramente aparecem, mas sustentam sistemas críticos há décadas.


A tecnologia muda a sociedade

O supermercado online simboliza tecnologia aplicada ao cotidiano.

Não é uma arma.

É infraestrutura.

A mensagem é clara: acesso a bons recursos pode transformar uma sociedade inteira sem uma única batalha.


O valor da mesa compartilhada

As refeições aproximam pessoas, monstros e até divindades. Em um mundo fragmentado por diferenças de raça e poder, cozinhar funciona como um protocolo universal de integração.


Impacto cultural

Embora não tenha provocado o mesmo fenômeno comercial de gigantes como Mushoku Tensei ou Re:Zero, a obra consolidou um subgênero que mistura fantasia com gastronomia e "vida confortável". Também impulsionou o interesse por receitas japonesas inspiradas no anime, gerando vídeos, adaptações culinárias e discussões entre fãs sobre os pratos apresentados.

Além disso, reforçou uma tendência dos isekais modernos: protagonistas adultos, experientes e que preferem resolver problemas com conhecimento, organização e criatividade em vez de violência.


Houve censura?

Não houve casos relevantes de censura envolvendo o anime.

A adaptação preservou o tom leve da obra original. Algumas cenas foram condensadas para adequar o ritmo dos episódios, e certos detalhes da light novel sobre economia, viagens e culinária receberam menos tempo de tela, mas isso faz parte do processo normal de adaptação. Não há registros de cortes significativos por motivos políticos, religiosos ou de classificação indicativa.


Classificação indicativa

A série costuma ser recomendada para adolescentes e adultos, com classificação equivalente a 12 anos em muitos mercados. Há combates contra monstros e algumas cenas de violência fantasiosa, mas sem excesso de sangue ou conteúdo sexual.


Bellacosa Mainframe: A Grande Analogia

Imagine um datacenter onde todos dependem de recursos limitados, processos lentos e infraestrutura local.

Então chega um analista com acesso direto a um catálogo infinito de componentes modernos, documentação, ferramentas e automação. Ele não precisa ser o mais forte da equipe; basta saber escolher os recursos certos e combiná-los com inteligência.

Mukouda é exatamente esse profissional. Seu "Net Super" não é uma espada lendária, mas uma camada de integração entre dois mundos. Cada refeição equivale a um job executado com sucesso: ingredientes entram como input, a receita é o programa, o prato pronto é a saída e Fel aprova o resultado com um RC=0000.


Vale a pena assistir?

Sem dúvida.

Se você procura batalhas intermináveis, torneios e protagonistas obcecados por poder, talvez este não seja o anime ideal. Mas se aprecia personagens maduros, humor inteligente, um ritmo tranquilo e uma obra que celebra a criatividade, a amizade e o prazer das pequenas coisas, Tondemo Skill de Isekai Hourou Meshi é uma experiência única.

É um lembrete de que nem toda grande aventura começa com uma espada lendária. Às vezes, ela começa com uma panela, um pouco de shoyu e um protagonista que descobriu que a habilidade mais poderosa de um mundo fantástico não é lançar magia, mas saber preparar uma refeição capaz de reunir humanos, monstros e deuses em torno da mesma mesa.


terça-feira, 15 de agosto de 2023

16 Animes de Zumbis que Todo Engenheiro de Software, Padawan COBOL e Fã de Horror Deveria Conhecer

Bellacosa Mainframe e os zombies em anime



☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

O Holocron dos Mortos-Vivos

Ao contrário do imaginário ocidental, em que os zumbis costumam representar apenas uma ameaça apocalíptica, a cultura japonesa trata os mortos-vivos de maneira muito mais ampla e simbólica. Influenciado pelo budismo, pelo xintoísmo e pelo rico folclore dos yōkai, o Japão vê a morte como uma passagem, permitindo que espíritos, fantasmas e corpos reanimados expressem sentimentos inacabados, arrependimentos ou o desejo de proteger aqueles que permaneceram vivos. Por isso, os mortos-vivos nos animes raramente são apenas monstros sem consciência.

A partir dos anos 2000, especialmente após o sucesso mundial dos filmes de George A. Romero e dos videogames Resident Evil e House of the Dead, os zumbis passaram a ocupar espaço também na animação japonesa. Obras como Highschool of the Dead, Shiki, School-Live!, Zom 100, Sankarea e Zombieland Saga reinterpretaram o conceito sob diferentes perspectivas: horror, drama psicológico, romance, comédia e até musical. 

Em vez de focar apenas na sobrevivência, esses animes exploram temas como isolamento social, colapso das instituições, pressão do trabalho, saúde mental, preconceito e a busca por uma segunda oportunidade. Assim, o zumbi japonês torna-se uma poderosa metáfora para indivíduos que continuam existindo, mas perderam seus sonhos, identidade ou propósito. No fim, essas histórias mostram que o verdadeiro horror nem sempre está nos mortos-vivos, mas nas fragilidades e escolhas da própria sociedade.

16 Animes de Zumbis que Todo Engenheiro de Software, Padawan COBOL e Fã de Horror Deveria Conhecer

"Em um datacenter, um processo zumbi consome recursos sem produzir trabalho.
No Japão, um zumbi normalmente revela muito mais sobre a sociedade do que sobre monstros."

Enquanto Hollywood costuma transformar mortos-vivos em máquinas de matar, o anime japonês utiliza zumbis como metáforas para colapso social, depressão, isolamento, consumismo, identidade e até cultura idol.

Assim como um sistema legado que continua executando décadas depois de seu criador desaparecer, muitos destes personagens estão... tecnicamente mortos... mas continuam funcionando.

Vamos analisar cada obra como um arquiteto IBM Z analisaria um sistema crítico.


⭐ 1. Highschool of the Dead

Título original

学園黙示録 HIGHSCHOOL OF THE DEAD

Ano

2010

Estúdio

Madhouse

Episódios

12 + 1 OVA 

Nota Bellacosa

⭐⭐⭐⭐⭐ (9,5/10)

Personagens

  • Takashi Komuro

  • Rei Miyamoto

  • Saeko Busujima

  • Saya Takagi

  • Kouta Hirano

  • Shizuka Marikawa

Resumo

O apocalipse zumbi começa durante uma manhã comum em uma escola japonesa.

Os estudantes precisam sobreviver enquanto toda a sociedade entra em colapso.

O que torna a obra especial

Não são os zumbis.

São as pessoas.

O anime mostra como instituições entram em ABEND.

  • polícia

  • governo

  • hospitais

  • escolas

  • mídia

Tudo falha.

Sofreu censura?

Sim.

Em diversas transmissões internacionais foram aplicados escurecimento de tela, cortes e redução de violência. O fanservice também gerou controvérsia. 

Preste atenção

  • Psicologia coletiva

  • Colapso organizacional

  • Liderança

  • Engenharia social

  • Como pessoas comuns se tornam perigosas


⭐ 2. Shiki

Título original

屍鬼

Ano

2010

Estúdio

Daume

Episódios

22 + OVAs

Nota

⭐⭐⭐⭐⭐⭐ (10/10)

Personagens

  • Toshio Ozaki

  • Natsuno Yuuki

  • Sunako Kirishiki

  • Seishin Muroi

Resumo

Uma pequena vila começa a sofrer mortes misteriosas.

O problema não são exatamente zumbis.

São vampiros chamados Shiki.

O diferencial

É provavelmente o anime de horror psicológico mais inteligente já produzido.

Não existe herói.

Não existe vilão.

Existe sobrevivência.

Sofreu censura?

Pouca.

As versões Blu-ray possuem cenas mais explícitas.

Preste atenção

  • Moralidade

  • Ética médica

  • Fanatismo

  • Pânico coletivo

  • Quem realmente é o monstro?


⭐ 3. School-Live!

Título original

がっこうぐらし!

Ano

2015

Estúdio

Lerche

Episódios

12

Nota

⭐⭐⭐⭐⭐

Personagens

  • Yuki

  • Kurumi

  • Miki

  • Yuuri

Resumo

Quatro garotas vivem felizes na escola.

Ou pelo menos é isso que uma delas acredita.

O diferencial

Jamais leia spoilers.

O primeiro episódio muda completamente sua percepção.

Sofreu censura?

Não significativamente.

Preste atenção

  • Trauma

  • TEPT

  • Negação psicológica

  • Saúde mental


⭐ 4. Zombieland Saga

Título original

ゾンビランドサガ

Ano

2018

Estúdio

MAPPA

Episódios

24 (2 temporadas) + filme anunciado 

Nota

⭐⭐⭐⭐⭐

Personagens

  • Sakura Minamoto

  • Kotaro Tatsumi

  • Tae Yamada

  • Junko

  • Ai

  • Lily

Resumo

Sete garotas mortas são revividas para salvar economicamente a província de Saga formando um grupo idol.

Sim.

A premissa parece absurda.

Funciona perfeitamente.

Sofreu censura?

Não por violência, mas enfrentou restrições em alguns países por questões ligadas à temática de reencarnação. 

Preste atenção

  • Marketing territorial

  • Gestão de equipes

  • Segunda chance

  • Desenvolvimento de pessoas


⭐ 5. Sankarea

Título original

さんかれあ

Ano

2012

Estúdio

Studio Deen

Episódios

12 + OVAs

Nota

⭐⭐⭐⭐☆

Personagens

  • Chihiro Furuya

  • Rea Sanka

Resumo

Um garoto apaixonado por zumbis acaba transformando uma garota em uma morta-viva.

Mas a história é muito mais um romance dramático do que horror.

Sofreu censura?

Algumas edições internacionais foram distribuídas em versão editada antes do lançamento da versão integral.

Preste atenção

  • Relações familiares

  • Dependência emocional

  • Aceitação da morte


⭐ 6. Kabaneri of the Iron Fortress

Título original

甲鉄城のカバネリ

Ano

2016

Estúdio

Wit Studio

Episódios

12 + filme

Nota

⭐⭐⭐⭐☆

Personagens

  • Ikoma

  • Mumei

  • Ayame

Resumo

Imagine Attack on Titan.

Troque os Titãs por zumbis.

Adicione locomotivas blindadas.

Resultado:

Uma das melhores direções de arte da década.

Preste atenção

  • Engenharia ferroviária

  • Revolução Industrial

  • Classes sociais


⭐ 7. Corpse Princess (Shikabane Hime)

Título original

屍姫

Ano

2008

Estúdio

Gainax

Episódios

25

Nota

⭐⭐⭐⭐☆

Personagens

  • Makina Hoshimura

  • Keisei

  • Ouri

Resumo

Garotas mortas retornam para eliminar mortos-vivos.

Mistura budismo, ação e sobrenatural.

Preste atenção

A filosofia budista por trás da obra.


⭐ 8. Is This a Zombie?

Título original

これはゾンビですか?

Ano

2011

Estúdio

Studio Deen

Episódios

22 + OVAs

Nota

⭐⭐⭐⭐☆

Personagens

  • Ayumu Aikawa

  • Eucliwood Hellscythe

  • Haruna

  • Seraphim

Resumo

Uma das comédias mais absurdas já produzidas.

O protagonista é um zumbi.

E também uma magical girl.

Não pergunte.

Apenas assista.


⭐ 9. Zombie-Loan

Título original

ZOMBIE-LOAN

Ano

2007

Estúdio

Xebec M2

Episódios

13 (11 exibidos na TV + 2 lançados em DVD) (Wikipedia)

Nota

⭐⭐⭐⭐☆

Personagens

  • Michiru Kita

  • Chika Akatsuki

  • Shito Tachibana

Resumo

Dois mortos-vivos trabalham para pagar literalmente sua dívida com a morte.

Uma ideia extremamente original.

Preste atenção

Os conceitos de destino e dívida existencial.


⭐ 10. Zom 100

Título original

ゾン100

Ano

2023

Estúdio

BUG FILMS

Episódios

12

Nota

⭐⭐⭐⭐⭐

Personagens

  • Akira Tendou

  • Kencho

  • Shizuka

Resumo

O protagonista odeia tanto seu emprego que considera o apocalipse zumbi... uma libertação.

Uma crítica feroz ao excesso de trabalho no Japão.

Preste atenção

Burnout.

Corporate life.

Qualidade de vida.


⭐ 11. The Empire of Corpses

Filme.

Steampunk.

Mary Shelley.

Frankenstein.

Uma excelente ficção científica filosófica.


⭐ 12. Seoul Station

Filme coreano.

Prequel de Train to Busan.

Muito mais pesado psicologicamente.


⭐ 13. The Legendary Hero Is Dead!

Mais fantasia e comédia do que horror.

Ótimo humor.


⭐ 14. Train to the End of the World

Não possui zumbis tradicionais.

Mas trabalha o conceito de colapso da civilização.


⭐ 15. Hitori no Shita

Mistura taoísmo, imortais e mortos-vivos chineses.

Excelente animação de luta.


⭐ 16. Clevatess

Fantasia sombria recente.

Não é exatamente um anime de zumbis, mas explora sobrevivência, monstros e decadência de civilizações.


☕ Conclusão Bellacosa Mainframe

Se um Sysprog analisasse esses animes, perceberia que todos falam da mesma coisa:

  • Sistemas resilientes.

  • Falhas em cascata.

  • Recuperação após desastre.

  • Continuidade operacional.

  • Liderança sob pressão.

  • Decisões impossíveis.

  • O comportamento humano quando todas as "regras do sistema operacional" deixam de existir.

No universo IBM Z, chamamos isso de Resilience Engineering.

Nos animes, chamamos de sobreviver até o próximo episódio.

Talvez seja por isso que essas histórias continuam tão fascinantes: os zumbis são apenas a exceção que revela o verdadeiro funcionamento do sistema — seja um datacenter, uma cidade ou a própria sociedade. (reddit.com)

segunda-feira, 14 de agosto de 2023

Quem está comendo a memória? — O “ranking dos famintos” do z/OS

 

Bellacosa Mainframe aponta alguns dos grandes consumidores de storage no Mainframe

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Quem está comendo a memória? — O “ranking dos famintos” do z/OS

Até agora vimos:

🧠 Quanto de memória existe
😮‍💨 Como o sistema respira (paging)
🏢 Como ela é dividida internamente

Agora vem a pergunta mais humana de todas:

👉 Quem exatamente está usando tudo isso?

TSO SDSF Simulatord

 

A tela mostra algo assim:

DB2PRD01 3850M
CICSAPPL 2672M
TSOUSER1 1240M
BATCHJOB1 984M

Bem-vindo ao placar de consumo de memória do mainframe


🍽️ Pense nisso como um rodízio de memória

Imagine um buffet livre onde cada cliente come à vontade.

Essas linhas mostram:

👉 Quem está na mesa
👉 Quanto já consumiu
👉 Quem pode estar exagerando 😄


🗄️ DB2PRD01 — 3850M

👉 Provavelmente um subsistema de banco de dados DB2 em produção

DB2 é o cérebro de dados de muitos sistemas críticos:

  • Bancos

  • Cartões

  • Governo

  • Seguros

  • Telecom

3,8 GB pode parecer muito…

👉 Para DB2, é absolutamente normal.

💬 Fofoquinha técnica:

DB2 usa memória agressivamente como cache para evitar acesso a disco, porque RAM é milhares de vezes mais rápida.


🏦 CICSAPPL — 2672M

👉 Aplicações online rodando em CICS

Se você:

  • Fez um PIX

  • Consultou saldo

  • Comprou algo no cartão

  • Emitiu uma passagem

Há grandes chances de ter passado por um CICS.

Memória aqui sustenta:

  • Sessões de usuários

  • Programas COBOL

  • Filas de transação

  • Buffers

  • Tabelas


🧑‍💻 TSOUSER1 — 1240M

👉 Um usuário interativo (ou vários via TSO)

TSO é o “desktop” do mainframe.

Pode incluir:

  • Desenvolvedores

  • Operadores

  • Sysprogs

  • Ferramentas ISPF

  • Compiladores

  • Debuggers

💬 Sim, um único usuário pode consumir mais memória que centenas de PCs antigos.


⚙️ BATCHJOB1 — 984M

👉 Job batch em execução

Batch é o trabalho pesado invisível:

  • Processamento noturno

  • Fechamento bancário

  • Cálculos massivos

  • Relatórios gigantes

  • ETL

  • Atualizações em massa

Quase 1 GB é comum para jobs modernos.


🕵️ O que essa tela realmente revela?

👉 A distribuição do consumo entre subsistemas.

Ela responde perguntas como:

  • Quem está pressionando a memória?

  • Há algum job fora do normal?

  • Um usuário está exagerando?

  • Um subsistema precisa de tuning?


🤫 Easter Egg Mainframe

Existe um clássico entre operadores:

“Quando a performance cai, procure primeiro quem está comendo storage.”

Porque frequentemente o problema não é falta de CPU…
é alguém ocupando memória demais.


🧓 História curiosa

Antigamente, relatórios assim eram impressos em papel contínuo.

Operadores literalmente:

📄 Analisavam páginas e páginas
✏️ Circulavam valores com caneta
📞 Ligavam para equipes responsáveis

Hoje tudo aparece em tempo real.


🏥 Diagnóstico desta tela

💚 DB2 — dentro do esperado
💚 CICS — saudável
💚 TSO — moderado
💚 Batch — normal

Nada indica desastre iminente.

Parece um ambiente produtivo funcionando normalmente.


🧃 Explicação ultra simples

Se o IBM Z fosse um hotel:

  • DB2 → hóspede corporativo ocupando várias suítes

  • CICS → conferência cheia de participantes

  • TSO → hóspedes individuais

  • Batch → equipe de manutenção trabalhando à noite


🚀 Por que isso impressiona?

Porque todos esses sistemas estão:

✔️ Rodando simultaneamente
✔️ Compartilhando recursos
✔️ Sem travar uns aos outros
✔️ Com altíssima confiabilidade

Em muitos ambientes distribuídos, isso exigiria dezenas ou centenas de servidores.


☕ Conclusão

Esta tela mostra o lado humano do mainframe:

👉 Não apenas “quanto” de memória existe
👉 Mas “quem” está usando

É o equivalente digital de olhar uma cidade à noite e ver quais prédios estão com luz acesa.

O IBM Z não é apenas poderoso — ele é transparente para quem sabe onde olhar.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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