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quarta-feira, 4 de maio de 2016

Neblina na estrada

Bellacosa Mainframe e a neblina na estrada

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🌫️ Neblina na Estrada

A corrida pelo fretado, a pista molhada e mais um dia atravessando São Paulo para trabalhar

Este é um daqueles pequenos momentos do cotidiano que, quando aconteceram, provavelmente não pareciam merecer mais do que algumas fotografias e poucas linhas.

Era apenas mais um dia de trabalho.

Mas, olhando tantos anos depois, percebo que aquela neblina também registrou uma rotina inteira.

Morar em Itatiba e trabalhar na Vila Olímpia significava começar o expediente muito antes de chegar ao escritório. Havia a hora de levantar, preparar as coisas e, principalmente, a corrida para não perder o fretado.

Perder alguns minutos não significava simplesmente chegar alguns minutos atrasado.

Podia significar perder o transporte inteiro.

Naquela manhã, havia ainda outro personagem esperando na estrada: a neblina.



🌫️ A Terra da Garoa

São Paulo nem sempre era aquela cidade bonita de céu azul que aparece nas fotografias.

Também havia manhãs frias, cinzentas e úmidas.

A pista molhada aumentava os riscos. A neblina diminuía a visibilidade. E cada quilômetro lembrava silenciosamente que aquela viagem aparentemente banal nos expunha diariamente a uma enorme quantidade de variáveis.

Automóveis mudando de faixa.

Caminhões.

Freios repentinos.

Acidentes.

Congestionamentos.

E motociclistas surgindo entre os carros quase sem aviso.

Dentro do fretado, porém, havia pouco a fazer além de observar.

São Paulo aparecia lentamente através da névoa.

E então chegava o cheiro do Rio Pinheiros.

Não precisava nem olhar pela janela para saber exatamente onde estávamos.

O rio, durante muitos anos transformado praticamente em um esgoto a céu aberto, fazia parte daquela experiência sensorial nada turística de chegar à Vila Olímpia.

Era São Paulo dizendo:

— Bom dia. Você chegou.

🚌 O escritório era apenas metade da viagem

Daqui a alguns minutos eu estaria no escritório.

Computador ligado.

E-mails.

Problemas.

Reuniões.

Sistemas.

Telefonemas.

Mais uma jornada cheia.

Mas havia uma diferença fundamental entre quem morava relativamente perto do trabalho e quem precisava voltar para outra cidade.

Para mim, o expediente possuía horário de encerramento físico.

Não era uma abstração corporativa.

Tinha quatro rodas.

Chamava-se fretado.

E ia embora sem mim.

Por isso existia uma regra quase inviolável:

17:59 — fechar tudo e vazar.

Não era preguiça.

Era logística.

Porque sempre existia a possibilidade de aparecer, justamente naquele momento, alguém com a frase mais assustadora do escritório:

— Podemos fazer uma reunião rapidinha?

Rapidinha.

Claro.

Duas horas depois, alguém que morava a quinze minutos dali simplesmente pegaria seu carro e iria para casa.

Eu estaria calculando rotas de contingência.



⚠️ ABEND no plano de retorno

Perder o fretado significava iniciar uma verdadeira operação de recuperação de desastre.

Primeiro seria necessário atravessar São Paulo até a Rodoviária do Tietê.

Só isso já poderia consumir um tempo absurdo.

Depois ainda seria preciso encontrar o ônibus intermunicipal para Itatiba.

E havia outro problema.

O ônibus não ficaria esperando porque alguém resolveu marcar uma reunião importantíssima às 18 horas.

Se o trânsito estivesse particularmente infernal, existia até a possibilidade de perder também esse ônibus.

Uma pequena reunião no final do expediente podia transformar uma volta relativamente organizada para casa numa peregrinação através de São Paulo.

Por isso 17:59 não era simplesmente um horário.

Era meu SLA de evacuação.

Às 17:58 começava o shutdown.

Às 17:59:

LOGOFF.

Disconnect.

Vagner has left the building.

😄

🚗 A curiosa vantagem de sair mais tarde

Existe ainda uma das grandes ironias de trabalhar em São Paulo.

Quem mora na própria cidade muitas vezes descobre que não vale a pena sair às 18 horas.

É justamente quando milhares de pessoas fazem a mesma coisa.

As ruas enchem.

As avenidas travam.

As marginais tornam-se enormes estacionamentos.

Então aparece aquele cruel incentivo:

continue trabalhando.

Às 19 horas, boa parte daquela primeira onda de veículos já estará no meio do caminho.

O trânsito começa a respirar.

Para determinadas pessoas, ficar mais uma hora no escritório pode significar chegar praticamente no mesmo horário que chegariam saindo antes.

Mas esse privilégio logístico não existia para mim.

Meu transporte tinha horário.

Minha cidade estava dezenas de quilômetros distante.

Meu dia não terminava quando eu desligava o computador.

Ainda havia uma estrada inteira pela frente.

☕ Apenas mais uma manhã

E talvez seja justamente isso que torne aquela fotografia da neblina interessante tantos anos depois.

Não aconteceu nenhuma grande aventura.

Não houve nenhum acontecimento histórico.

Não ganhei na loteria.

Não encontrei uma celebridade.

Não aconteceu nada extraordinário.

Eu estava simplesmente indo trabalhar.

Mas nossa vida é formada principalmente por esses dias.

A neblina.

A pista molhada.

O vidro do fretado.

Os prédios desaparecendo entre as nuvens baixas.

O trânsito.

O cheiro desagradável do Pinheiros.

A Vila Olímpia se aproximando.

A preocupação silenciosa com os riscos da estrada.

E a certeza de que, dentro de alguns minutos, eu entraria no escritório e começaria outra jornada.

Horas depois, às 17:59, começaria outra corrida.

Desta vez no sentido contrário.

Porque trabalhar em São Paulo morando em Itatiba significava aprender uma coisa que nenhum contrato de trabalho explicava:

o caminho também fazia parte do expediente.

E, algumas vezes, a neblina estava lá apenas para nos lembrar disso.


🥚 Easter egg do Bellacosa Mainframe

Se um mainframe controlasse minha saída da Vila Olímpia, provavelmente existiria um job mais ou menos assim:

17:58:00 SHUTDOWN IN PROGRESS

17:58:30 SAVE ALL

17:58:45 LOGOFF

17:59:00 RUN VAGNER RUN

18:00:00 FRETADO DEPARTED

Porque certos ABENDs a gente simplesmente não quer descobrir em produção.

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Um dia cheio de névoa.


Para completar nosso registro fotográfico das viagens a Sampa, temos uma chegada com neblina. Vejam o alto dos prédios, a serração que a tudo cobre, diminuindo a visibilidade e deixando a pista escorregadia como um sabão.



Tirando os riscos que todos corremos devido a ma visibilidade, fica um registro bonito e poético ver a cidade toda cheia de névoa.

Delicia de momento que antecede mais uma jornada de trabalho.

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Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
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Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

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