| Bellacosa Mainframe e a viagem sem visibilidade na SP 065 |
SP 065: Viagem sem visibilidade
✨ Bem-vindo ao meu espaço! ✨ Este blog é o diário de um otaku apaixonado por animes, tecnologia de mainframe e viagens. Cada entrada é uma mistura única: relatos de viagem com fotos, filmes, links, artigos e desenhos, sempre buscando enriquecer a experiência de quem lê. Sou quase um turista profissional: adoro dormir em uma cama diferente, acordar em um lugar novo e registrar tudo com minha câmera sempre à mão. Entre uma viagem e outra, compartilho também reflexões sobre cultura otaku/animes
| Bellacosa Mainframe e a viagem sem visibilidade na SP 065 |
| Bellacosa Mainframe passeando por Campos do Jordão |
Acompanhando os caminhos de ferro, eu observava a paisagem passar lentamente pela janela.
As casinhas típicas apareciam uma depois da outra, quase acompanhando os trilhos. Pelas ruas, havia um movimento anormal de turistas. Muitas motos cortavam o trânsito, surgindo entre carros, esquinas e pequenas multidões.
Era inverno.
Do lado de fora, a cidade parecia especialmente viva.
O roncar dos motores misturava-se a uma música disco que tocava no rádio. Uma combinação estranha, mas perfeita para aquele momento. Eu não tinha pressa. Apenas apreciava a paisagem urbana enquanto o carro avançava lentamente.
Ou tentava avançar.
O trânsito estava um verdadeiro fuá.
Carros por todos os lados, motos passando pelos espaços impossíveis, turistas atravessando, gente procurando onde estacionar, gente olhando mapas, gente simplesmente parada admirando aquilo que para os moradores provavelmente já fazia parte da rotina.
E nós seguíamos devagar.
Metro após metro.
O rádio tocando.
Os motores roncando.
Os trilhos aparecendo de vez em quando ao nosso lado.
E aquela paisagem de inverno passando lentamente pela janela.
Naquele momento, o congestionamento não parecia exatamente um problema.
Era parte da viagem.
| Bellacosa Mainframe e mais um dia de viagem de fretado |
Uma pequena memória de quando trabalhar em São Paulo significava começar a jornada muito antes de chegar ao escritório — e terminá-la muitas horas depois de sair dele.
Era mais um daqueles dias.
E, naquela época, “mais um dia de trabalho” começava quando boa parte da cidade ainda estava dormindo.
Acordava de madrugada e começava a primeira operação crítica do dia: correr feito um espartano para não perder o fretado.
Não existia tolerância, retry, rollback ou botão para reiniciar a manhã.
Perdeu o ônibus?
ABEND na rotina.
Eu descia até a concessionária da Ford que ficava em frente ao antigo hipermercado Extra, na rotatória de Itatiba. Ali estava um dos meus pontos de conexão com São Paulo.
Às 5h45, embarcava no fretado.
E começava a peregrinação diária.
O ônibus seguia atravessando a região de Jundiaí até alcançar a Rodovia dos Bandeirantes.
Depois vinham quilômetros e mais quilômetros de estrada.
São Paulo começava a aparecer.
Entrávamos pela Marginal Pinheiros e, finalmente, eu descia na região da Avenida dos Bandeirantes.
Mas o trabalho ainda não havia começado.
Ou talvez já tivesse começado fazia algumas horas.
Do ponto onde o fretado me deixava, seguia caminhando até a Rua Funchal, na Vila Olímpia.
Todos os dias.
Era uma rotina perfeitamente absurda quando vista de fora e perfeitamente normal para quem precisava pagar as contas.
Malditos boletos.
Normalmente chegava à região do escritório por volta das 7h30.
Meu expediente começava oficialmente às 9h.
Isso significa que eu havia acordado de madrugada, atravessado cidades, rodovias, marginais e avenidas para chegar ao trabalho aproximadamente uma hora e meia antes do necessário.
Por quê?
Logística.
O fretado não existia para atender exatamente ao meu horário. Eu é que precisava adaptar minha vida ao horário dele.
Essa diferença parece pequena quando colocada numa planilha:
Entrada: 09:00
Chegada: 07:30
Diferença: 01:30
Só que uma hora e meia multiplicada por cinco dias significa sete horas e meia por semana.
Praticamente outro dia de trabalho.
Sem salário.
Sem banco de horas.
Era simplesmente o custo invisível de morar em Itatiba e trabalhar na Zona Sul de São Paulo.
Às vezes aproveitava aquele tempo para parar em alguma padaria e tomar café da manhã.
Era agradável.
Até chegar a conta.
Os preços da Zona Sul paulistana tinham uma capacidade extraordinária de destruir qualquer orçamento de trabalhador pendular.
Um cafezinho aqui.
Um pão na chapa ali.
Alguma coisa para acompanhar.
Repita isso vinte vezes durante o mês e surge mais um boleto disfarçado de café da manhã.
Por isso, muitas vezes simplesmente seguia para o escritório.
Chegava cedo, sentava, lia jornal, navegava um pouco pela Internet, acompanhava as notícias e organizava o dia.
E havia outro efeito inevitável.
Já que estava ali...
começava a trabalhar.
Assim, muitas vezes o expediente que oficialmente começaria às nove começava muito antes.
Às nove horas, quando teoricamente começava o dia de trabalho, eu já estava acordado havia horas.
Já tinha atravessado Itatiba.
Jundiaí.
Rodovia dos Bandeirantes.
Marginal Pinheiros.
Avenida dos Bandeirantes.
Vila Olímpia.
Já havia caminhado algumas boas quadras.
Talvez tomado café.
Talvez lido o jornal.
Talvez respondido alguma coisa.
E agora começava oficialmente a jornada pela qual realmente seria pago.
O relógio corporativo dizia:
09:00 — início do expediente.
Meu corpo provavelmente dizia:
“Amigo, esse JOB começou faz tempo.”
Por volta das 17h45, começava outra operação crítica.
Fechar tudo.
Guardar as coisas.
Sair.
E correr.
O destino agora era a Estação Cidade Jardim da CPTM.
A volta tinha uma característica diferente da manhã.
Parte do caminho passava pelo enorme parque da região.
Depois de um dia inteiro dentro do escritório, aquela caminhada acabava funcionando como uma espécie de descompressão.
Árvores.
Espaço aberto.
Pessoas caminhando.
A cidade acontecendo ao redor.
Durante alguns minutos eu podia simplesmente andar.
Era uma pequena pausa mental entre dois mundos.
O mundo do escritório tinha acabado.
O mundo da viagem de volta estava começando.
Então vinha a CPTM.
Estação Cidade Jardim.
Trem.
Conexões.
Deslocamentos.
Esperas.
E a certeza de uma coisa:
eu não chegaria a Itatiba antes das 20 horas.
Esse talvez seja o detalhe mais impressionante quando olho para aquela rotina tantos anos depois.
O trabalho tinha oito ou nove horas.
Mas o dia de trabalho era muito maior.
Começava antes das 5h45.
Terminava depois das 20h.
Entre acordar, caminhar, esperar, viajar, trabalhar, caminhar novamente, pegar trem e finalmente retornar para casa, uma parcela gigantesca do dia simplesmente desaparecia.
Não era lazer.
Não era trabalho remunerado.
Não era descanso.
Era deslocamento.
Durante muito tempo, trabalhar em São Paulo morando fora da capital podia ser cansativo, mas ainda razoavelmente administrável.
Os fretados eram uma solução fantástica.
Você entrava no ônibus.
Sentava.
Podia cochilar.
Podia ler.
Podia simplesmente olhar pela janela.
E, principalmente, não precisava enfrentar pessoalmente o inferno de dirigir diariamente naquele trânsito.
Mas São Paulo foi ficando cada vez mais congestionada.
As regras de circulação dos fretados também mudaram ao longo dos anos, restringindo a maneira como esses veículos podiam penetrar em determinadas regiões da cidade.
Para quem morava fora, aquilo que havia sido uma solução extremamente prática começou a perder parte de sua eficiência.
O trânsito já estava machucando o sistema.
As restrições aos fretados ajudaram a colocar uma lápide sobre uma solução que, para milhares de trabalhadores metropolitanos, havia sido extremamente prática e confortável.
E o resultado aparecia na rotina.
Quando alguém recebe uma proposta de emprego, normalmente calcula:
Salário.
Benefícios.
Vale-refeição.
Plano de saúde.
Férias.
Talvez participação nos lucros.
Pouca gente coloca na conta:
tempo de deslocamento.
E tempo talvez seja o benefício mais caro de todos.
Imagine sair de casa ainda de madrugada e retornar depois das oito da noite.
Agora multiplique isso por cinco.
Depois por quatro semanas.
Depois por onze meses.
Depois por anos.
De repente percebemos que trabalhar a dezenas de quilômetros de casa não custa apenas combustível, passagem ou fretado.
Custa vida.
Horas em que você não está trabalhando, mas também não está verdadeiramente livre.
Hoje consigo olhar para aqueles dias com certo fascínio.
Porque o fretado também era uma espécie de observatório.
Eu via a cidade acordando.
Via as estradas mudando.
Via o trânsito crescendo.
Via São Paulo surgindo pela janela.
Marginal Pinheiros.
Prédios.
Pontes.
Avenidas.
Vila Olímpia.
E, no final da tarde, fazia o caminho inverso.
Esses pequenos vídeos que publiquei naquela época pareciam banais.
Um ônibus entrando em São Paulo.
Uma avenida.
Uma estação.
Um pedaço de estrada.
Mais um dia de trabalho.
Só isso.
Mas dez anos depois percebo que não era “só isso”.
Era o registro de uma rotina.
De uma época.
De uma São Paulo.
E de uma versão minha que acordava de madrugada, corria até aquele ponto de fretado em Itatiba e atravessava dezenas de quilômetros porque havia uma razão universal para continuar fazendo aquilo:
os malditos boletos.
Talvez por isso eu goste tanto de recuperar essas postagens antigas.
Em 2016 escrevi poucas linhas.
Não precisava explicar.
Eu estava vivendo aquilo.
Hoje preciso.
Porque aquilo que naquele momento parecia absolutamente cotidiano tornou-se história.
A concessionária Ford.
O Extra.
A rotatória.
O fretado das 5h45.
Jundiaí.
Bandeirantes.
Marginal Pinheiros.
A caminhada até a Rua Funchal.
O café caro da Vila Olímpia.
O jornal antes do expediente.
A correria das 17h45.
O parque.
Cidade Jardim.
A CPTM.
E finalmente Itatiba, depois das oito da noite.
Cada elemento era como um pequeno STEP de um JCL gigantesco chamado:
MAIS UM DIA DE TRABALHO.
E o COND CODE esperado era muito simples:
chegar em casa.
No dia seguinte?
//RESTART=STEP001
E tudo começava novamente.
☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
Porque algumas rotinas parecem insignificantes enquanto estamos vivendo-as. Dez anos depois, descobrimos que estávamos documentando história.
| Bellacosa Mainframe e a neblina na estrada |
Este é um daqueles pequenos momentos do cotidiano que, quando aconteceram, provavelmente não pareciam merecer mais do que algumas fotografias e poucas linhas.
Era apenas mais um dia de trabalho.
Mas, olhando tantos anos depois, percebo que aquela neblina também registrou uma rotina inteira.
Morar em Itatiba e trabalhar na Vila Olímpia significava começar o expediente muito antes de chegar ao escritório. Havia a hora de levantar, preparar as coisas e, principalmente, a corrida para não perder o fretado.
Perder alguns minutos não significava simplesmente chegar alguns minutos atrasado.
Podia significar perder o transporte inteiro.
Naquela manhã, havia ainda outro personagem esperando na estrada: a neblina.
São Paulo nem sempre era aquela cidade bonita de céu azul que aparece nas fotografias.
Também havia manhãs frias, cinzentas e úmidas.
A pista molhada aumentava os riscos. A neblina diminuía a visibilidade. E cada quilômetro lembrava silenciosamente que aquela viagem aparentemente banal nos expunha diariamente a uma enorme quantidade de variáveis.
Automóveis mudando de faixa.
Caminhões.
Freios repentinos.
Acidentes.
Congestionamentos.
E motociclistas surgindo entre os carros quase sem aviso.
Dentro do fretado, porém, havia pouco a fazer além de observar.
São Paulo aparecia lentamente através da névoa.
E então chegava o cheiro do Rio Pinheiros.
Não precisava nem olhar pela janela para saber exatamente onde estávamos.
O rio, durante muitos anos transformado praticamente em um esgoto a céu aberto, fazia parte daquela experiência sensorial nada turística de chegar à Vila Olímpia.
Era São Paulo dizendo:
— Bom dia. Você chegou.
Daqui a alguns minutos eu estaria no escritório.
Computador ligado.
E-mails.
Problemas.
Reuniões.
Sistemas.
Telefonemas.
Mais uma jornada cheia.
Mas havia uma diferença fundamental entre quem morava relativamente perto do trabalho e quem precisava voltar para outra cidade.
Para mim, o expediente possuía horário de encerramento físico.
Não era uma abstração corporativa.
Tinha quatro rodas.
Chamava-se fretado.
E ia embora sem mim.
Por isso existia uma regra quase inviolável:
17:59 — fechar tudo e vazar.
Não era preguiça.
Era logística.
Porque sempre existia a possibilidade de aparecer, justamente naquele momento, alguém com a frase mais assustadora do escritório:
— Podemos fazer uma reunião rapidinha?
Rapidinha.
Claro.
Duas horas depois, alguém que morava a quinze minutos dali simplesmente pegaria seu carro e iria para casa.
Eu estaria calculando rotas de contingência.
Perder o fretado significava iniciar uma verdadeira operação de recuperação de desastre.
Primeiro seria necessário atravessar São Paulo até a Rodoviária do Tietê.
Só isso já poderia consumir um tempo absurdo.
Depois ainda seria preciso encontrar o ônibus intermunicipal para Itatiba.
E havia outro problema.
O ônibus não ficaria esperando porque alguém resolveu marcar uma reunião importantíssima às 18 horas.
Se o trânsito estivesse particularmente infernal, existia até a possibilidade de perder também esse ônibus.
Uma pequena reunião no final do expediente podia transformar uma volta relativamente organizada para casa numa peregrinação através de São Paulo.
Por isso 17:59 não era simplesmente um horário.
Era meu SLA de evacuação.
Às 17:58 começava o shutdown.
Às 17:59:
LOGOFF.
Disconnect.
Vagner has left the building.
😄
Existe ainda uma das grandes ironias de trabalhar em São Paulo.
Quem mora na própria cidade muitas vezes descobre que não vale a pena sair às 18 horas.
É justamente quando milhares de pessoas fazem a mesma coisa.
As ruas enchem.
As avenidas travam.
As marginais tornam-se enormes estacionamentos.
Então aparece aquele cruel incentivo:
continue trabalhando.
Às 19 horas, boa parte daquela primeira onda de veículos já estará no meio do caminho.
O trânsito começa a respirar.
Para determinadas pessoas, ficar mais uma hora no escritório pode significar chegar praticamente no mesmo horário que chegariam saindo antes.
Mas esse privilégio logístico não existia para mim.
Meu transporte tinha horário.
Minha cidade estava dezenas de quilômetros distante.
Meu dia não terminava quando eu desligava o computador.
Ainda havia uma estrada inteira pela frente.
E talvez seja justamente isso que torne aquela fotografia da neblina interessante tantos anos depois.
Não aconteceu nenhuma grande aventura.
Não houve nenhum acontecimento histórico.
Não ganhei na loteria.
Não encontrei uma celebridade.
Não aconteceu nada extraordinário.
Eu estava simplesmente indo trabalhar.
Mas nossa vida é formada principalmente por esses dias.
A neblina.
A pista molhada.
O vidro do fretado.
Os prédios desaparecendo entre as nuvens baixas.
O trânsito.
O cheiro desagradável do Pinheiros.
A Vila Olímpia se aproximando.
A preocupação silenciosa com os riscos da estrada.
E a certeza de que, dentro de alguns minutos, eu entraria no escritório e começaria outra jornada.
Horas depois, às 17:59, começaria outra corrida.
Desta vez no sentido contrário.
Porque trabalhar em São Paulo morando em Itatiba significava aprender uma coisa que nenhum contrato de trabalho explicava:
o caminho também fazia parte do expediente.
E, algumas vezes, a neblina estava lá apenas para nos lembrar disso.
Se um mainframe controlasse minha saída da Vila Olímpia, provavelmente existiria um job mais ou menos assim:
17:58:00 SHUTDOWN IN PROGRESS
17:58:30 SAVE ALL
17:58:45 LOGOFF
17:59:00 RUN VAGNER RUN
18:00:00 FRETADO DEPARTED
Porque certos ABENDs a gente simplesmente não quer descobrir em produção.
Durante muitos anos, morar em Itatiba e trabalhar em São Paulo fazia sentido.
A distância era grande, o deslocamento cansativo, mas existia uma compensação importante: a diferença salarial era brutal.
Os salários oferecidos na capital, principalmente para profissionais especializados em tecnologia, justificavam acordar cedo, pegar o fretado e percorrer diariamente dezenas de quilômetros. Morávamos no interior, com um custo de vida relativamente menor, enquanto recebíamos salários do mercado paulistano.
A conta fechava.
Só que o tempo passou.
Entre o começo dos anos 2000 e aquela segunda-feira fria de 2016, muita coisa mudou.
Os salários sofreram um verdadeiro arrocho. O ganho real diminuiu enquanto praticamente todo o resto ficou mais caro.
E São Paulo ficou cada vez mais distante.
Não geograficamente.
Distante em horas.
A Rodovia dos Bandeirantes, que durante muito tempo representou uma ligação relativamente rápida com a capital, começou a encontrar seus próprios gargalos. Depois vinham as Marginais, onde aquilo que já era ruim conseguiu ficar ainda pior.
Mas apareceu outro complicador: as restrições impostas aos ônibus fretados.
Foram criadas áreas onde eles não podiam mais circular livremente. Para quem vinha do interior, isso significava descer antes do destino e procurar outra maneira de completar a viagem.
Metrô.
Ônibus.
Táxi.
Caminhada.
Mais dinheiro.
Mais tempo.
Mais uma conexão em uma viagem que já era longa.
E então comecei a perceber que havia algo errado naquela velha equação.
Porque trabalhar em São Paulo nunca custou apenas o fretado.
Havia o almoço.
O café.
O lanche.
Uma refeição que no interior custava determinado valor facilmente podia custar duas ou três vezes mais na Vila Olímpia.
Havia também outro custo quase invisível: vestir-se para trabalhar em São Paulo.
Camisa adequada.
Calça social.
Sapatos impecáveis e engraxados.
Um guarda-roupa compatível com aquele ambiente corporativo também fazia parte do preço de estar ali.
E ainda faltava colocar na planilha o item mais caro de todos:
tempo.
O Vilão Kassab como uma canetada afetou milhares de trabalhadores e piorou o transito em Sampa
Duas horas para ir.
Duas horas para voltar.
Quatro horas do meu dia que jamais apareceram no holerite.
Quatro horas que não eram consideradas jornada de trabalho, mas também não eram exatamente minhas.
Naquela segunda-feira de abril de 2016 fazia frio.
Chovia.
Eu estava cansado.
Dentro do fretado aquecido ainda existia algum conforto. Talvez alguns minutos de sono enquanto observava São Paulo despertar através da janela.
Mas inevitavelmente a porta se abriria.
Era preciso colocar o gorro, enfrentar a chuva e completar o caminho até o escritório.
Naquele momento talvez eu não estivesse fazendo todas essas contas conscientemente.
Hoje, olhando para trás, consigo enxergá-las.
O problema nunca foi apenas uma segunda-feira braba.
Era uma equação econômica que lentamente deixava de funcionar.
Salário da capital.
Alimentação da capital.
Roupa da capital.
Trânsito da capital.
E o custo de morar longe sendo pago todos os dias.
Talvez a pergunta correta nunca tenha sido:
“Quanto posso ganhar trabalhando em São Paulo?”
A pergunta deveria ser:
“Quanto São Paulo precisa me pagar para comprar quatro horas da minha vida todos os dias?”
Naquela segunda-feira fria e chuvosa, a resposta começava a ficar evidente.
A conta já não fechava como antigamente.
E ainda era preciso trabalhar o dia inteiro antes de enfrentar todo o caminho de volta para casa.
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Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.