| Bellacosa Mainframe e mais um dia de viagem de fretado |
☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
☕ Mais um dia de trabalho — Itatiba, Vila Olímpia e os malditos boletos
Uma pequena memória de quando trabalhar em São Paulo significava começar a jornada muito antes de chegar ao escritório — e terminá-la muitas horas depois de sair dele.
Era mais um daqueles dias.
E, naquela época, “mais um dia de trabalho” começava quando boa parte da cidade ainda estava dormindo.
Acordava de madrugada e começava a primeira operação crítica do dia: correr feito um espartano para não perder o fretado.
Não existia tolerância, retry, rollback ou botão para reiniciar a manhã.
Perdeu o ônibus?
ABEND na rotina.
Eu descia até a concessionária da Ford que ficava em frente ao antigo hipermercado Extra, na rotatória de Itatiba. Ali estava um dos meus pontos de conexão com São Paulo.
Às 5h45, embarcava no fretado.
E começava a peregrinação diária.
🚌 Itatiba → Jundiaí → Bandeirantes → São Paulo
O ônibus seguia atravessando a região de Jundiaí até alcançar a Rodovia dos Bandeirantes.
Depois vinham quilômetros e mais quilômetros de estrada.
São Paulo começava a aparecer.
Entrávamos pela Marginal Pinheiros e, finalmente, eu descia na região da Avenida dos Bandeirantes.
Mas o trabalho ainda não havia começado.
Ou talvez já tivesse começado fazia algumas horas.
Do ponto onde o fretado me deixava, seguia caminhando até a Rua Funchal, na Vila Olímpia.
Todos os dias.
Era uma rotina perfeitamente absurda quando vista de fora e perfeitamente normal para quem precisava pagar as contas.
Malditos boletos.
⏰ 7h30 — cedo demais para trabalhar, tarde demais para voltar
Normalmente chegava à região do escritório por volta das 7h30.
Meu expediente começava oficialmente às 9h.
Isso significa que eu havia acordado de madrugada, atravessado cidades, rodovias, marginais e avenidas para chegar ao trabalho aproximadamente uma hora e meia antes do necessário.
Por quê?
Logística.
O fretado não existia para atender exatamente ao meu horário. Eu é que precisava adaptar minha vida ao horário dele.
Essa diferença parece pequena quando colocada numa planilha:
Entrada: 09:00
Chegada: 07:30
Diferença: 01:30
Só que uma hora e meia multiplicada por cinco dias significa sete horas e meia por semana.
Praticamente outro dia de trabalho.
Sem salário.
Sem banco de horas.
Era simplesmente o custo invisível de morar em Itatiba e trabalhar na Zona Sul de São Paulo.
☕ O café da manhã da Vila Olímpia
Às vezes aproveitava aquele tempo para parar em alguma padaria e tomar café da manhã.
Era agradável.
Até chegar a conta.
Os preços da Zona Sul paulistana tinham uma capacidade extraordinária de destruir qualquer orçamento de trabalhador pendular.
Um cafezinho aqui.
Um pão na chapa ali.
Alguma coisa para acompanhar.
Repita isso vinte vezes durante o mês e surge mais um boleto disfarçado de café da manhã.
Por isso, muitas vezes simplesmente seguia para o escritório.
Chegava cedo, sentava, lia jornal, navegava um pouco pela Internet, acompanhava as notícias e organizava o dia.
E havia outro efeito inevitável.
Já que estava ali...
começava a trabalhar.
Assim, muitas vezes o expediente que oficialmente começaria às nove começava muito antes.
💻 E finalmente começava o expediente
Às nove horas, quando teoricamente começava o dia de trabalho, eu já estava acordado havia horas.
Já tinha atravessado Itatiba.
Jundiaí.
Rodovia dos Bandeirantes.
Marginal Pinheiros.
Avenida dos Bandeirantes.
Vila Olímpia.
Já havia caminhado algumas boas quadras.
Talvez tomado café.
Talvez lido o jornal.
Talvez respondido alguma coisa.
E agora começava oficialmente a jornada pela qual realmente seria pago.
O relógio corporativo dizia:
09:00 — início do expediente.
Meu corpo provavelmente dizia:
“Amigo, esse JOB começou faz tempo.”
🕠 17h45 — agora CORRE!
Por volta das 17h45, começava outra operação crítica.
Fechar tudo.
Guardar as coisas.
Sair.
E correr.
O destino agora era a Estação Cidade Jardim da CPTM.
A volta tinha uma característica diferente da manhã.
Parte do caminho passava pelo enorme parque da região.
Depois de um dia inteiro dentro do escritório, aquela caminhada acabava funcionando como uma espécie de descompressão.
Árvores.
Espaço aberto.
Pessoas caminhando.
A cidade acontecendo ao redor.
Durante alguns minutos eu podia simplesmente andar.
Era uma pequena pausa mental entre dois mundos.
O mundo do escritório tinha acabado.
O mundo da viagem de volta estava começando.
🚆 Cidade Jardim
Então vinha a CPTM.
Estação Cidade Jardim.
Trem.
Conexões.
Deslocamentos.
Esperas.
E a certeza de uma coisa:
eu não chegaria a Itatiba antes das 20 horas.
Esse talvez seja o detalhe mais impressionante quando olho para aquela rotina tantos anos depois.
O trabalho tinha oito ou nove horas.
Mas o dia de trabalho era muito maior.
Começava antes das 5h45.
Terminava depois das 20h.
Entre acordar, caminhar, esperar, viajar, trabalhar, caminhar novamente, pegar trem e finalmente retornar para casa, uma parcela gigantesca do dia simplesmente desaparecia.
Não era lazer.
Não era trabalho remunerado.
Não era descanso.
Era deslocamento.
🚦 São Paulo começou a ficar longe demais
Durante muito tempo, trabalhar em São Paulo morando fora da capital podia ser cansativo, mas ainda razoavelmente administrável.
Os fretados eram uma solução fantástica.
Você entrava no ônibus.
Sentava.
Podia cochilar.
Podia ler.
Podia simplesmente olhar pela janela.
E, principalmente, não precisava enfrentar pessoalmente o inferno de dirigir diariamente naquele trânsito.
Mas São Paulo foi ficando cada vez mais congestionada.
As regras de circulação dos fretados também mudaram ao longo dos anos, restringindo a maneira como esses veículos podiam penetrar em determinadas regiões da cidade.
Para quem morava fora, aquilo que havia sido uma solução extremamente prática começou a perder parte de sua eficiência.
O trânsito já estava machucando o sistema.
As restrições aos fretados ajudaram a colocar uma lápide sobre uma solução que, para milhares de trabalhadores metropolitanos, havia sido extremamente prática e confortável.
E o resultado aparecia na rotina.
🧮 O custo que não aparece no salário
Quando alguém recebe uma proposta de emprego, normalmente calcula:
Salário.
Benefícios.
Vale-refeição.
Plano de saúde.
Férias.
Talvez participação nos lucros.
Pouca gente coloca na conta:
tempo de deslocamento.
E tempo talvez seja o benefício mais caro de todos.
Imagine sair de casa ainda de madrugada e retornar depois das oito da noite.
Agora multiplique isso por cinco.
Depois por quatro semanas.
Depois por onze meses.
Depois por anos.
De repente percebemos que trabalhar a dezenas de quilômetros de casa não custa apenas combustível, passagem ou fretado.
Custa vida.
Horas em que você não está trabalhando, mas também não está verdadeiramente livre.
🚌 Mas havia também algo curioso naquela rotina
Hoje consigo olhar para aqueles dias com certo fascínio.
Porque o fretado também era uma espécie de observatório.
Eu via a cidade acordando.
Via as estradas mudando.
Via o trânsito crescendo.
Via São Paulo surgindo pela janela.
Marginal Pinheiros.
Prédios.
Pontes.
Avenidas.
Vila Olímpia.
E, no final da tarde, fazia o caminho inverso.
Esses pequenos vídeos que publiquei naquela época pareciam banais.
Um ônibus entrando em São Paulo.
Uma avenida.
Uma estação.
Um pedaço de estrada.
Mais um dia de trabalho.
Só isso.
Mas dez anos depois percebo que não era “só isso”.
Era o registro de uma rotina.
De uma época.
De uma São Paulo.
E de uma versão minha que acordava de madrugada, corria até aquele ponto de fretado em Itatiba e atravessava dezenas de quilômetros porque havia uma razão universal para continuar fazendo aquilo:
os malditos boletos.
☕ Bellacosa Mainframe — processamento encerrado
Talvez por isso eu goste tanto de recuperar essas postagens antigas.
Em 2016 escrevi poucas linhas.
Não precisava explicar.
Eu estava vivendo aquilo.
Hoje preciso.
Porque aquilo que naquele momento parecia absolutamente cotidiano tornou-se história.
A concessionária Ford.
O Extra.
A rotatória.
O fretado das 5h45.
Jundiaí.
Bandeirantes.
Marginal Pinheiros.
A caminhada até a Rua Funchal.
O café caro da Vila Olímpia.
O jornal antes do expediente.
A correria das 17h45.
O parque.
Cidade Jardim.
A CPTM.
E finalmente Itatiba, depois das oito da noite.
Cada elemento era como um pequeno STEP de um JCL gigantesco chamado:
MAIS UM DIA DE TRABALHO.
E o COND CODE esperado era muito simples:
chegar em casa.
No dia seguinte?
//RESTART=STEP001
E tudo começava novamente.
☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
Porque algumas rotinas parecem insignificantes enquanto estamos vivendo-as. Dez anos depois, descobrimos que estávamos documentando história.
Aqui estamos de novo...
Nova semana , novo dia de trabalho e la vamos chegando em Sampa... o fretado saindo da marginal Pinheiros e entrando na Avenida Bandeirantes.
A vida é dura para quem apanha o fretado, saindo cedo de Itatiba, por volta das 17:40 e chegando tarde de Sampa por volta das 19:30.
Ainda esta melhor do que usar o sistema de transportes de Sampa... ai o bicho pega... experimente pegar o trem da vila Olimpia da CPTM oou o metro da Paulista