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domingo, 23 de agosto de 2026

O Coelho Branco da Censura

 

Bellacosa Mainframe em historias da epoca da censura

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

O Coelho Branco da Censura

Ou: enquanto a Rainha de Copas procurava grandes inimigos, talvez a informação simplesmente pegasse o ônibus


Existem histórias sobre censura que começam com generais.

Outras começam com jornalistas.

Algumas começam com compositores, escritores, cineastas, estudantes, sindicalistas, intelectuais ou políticos.

Esta começa com um sujeito olhando desesperadamente para o relógio.

Ele tem uma pasta debaixo do braço.

Alguns envelopes.

Talvez uma guia que precisa ser carimbada.

Uma assinatura que precisa buscar.

Um documento que deveria ter chegado ao outro lado da cidade quinze minutos atrás.

O ônibus não vem.

Ele olha novamente para o relógio.

Está atrasado.

Muito atrasado.

E, em algum escritório distante, existe uma Rainha de Copas corporativa pronta para berrar:

— CORTEM-LHE A CABEÇA!

Ou, traduzindo para o português empresarial:

— Se você não entregar isso hoje, está na rua!

Nosso personagem não é jornalista.

Não é líder estudantil.

Não é guerrilheiro.

Não é agente secreto.

Não usa sobretudo.

Não possui câmera escondida dentro de uma caneta.

Não sabe artes marciais.

Provavelmente não dirige um Aston Martin.

Ele é apenas...

o office-boy.

O coadjuvante do coadjuvante.

E justamente por isso talvez seja uma das figuras mais interessantes para pensarmos quando falamos sobre circulação de informação num mundo anterior à Internet.



🐇 O Coelho Branco da burocracia

Quem viveu o escritório brasileiro antes da digitalização conhece aquele personagem.

— Leva isso ao banco.

— Passa no cartório.

— Entrega esse envelope.

— Busca assinatura no doutor Fulano.

— Depois vai à gráfica.

— Aproveita e deixa isto no prédio da Rua Boa Vista.

— Volta antes das quatro.

O garoto pega a pasta.

Olha para o relógio.

E começa a correr.

🐇💨

É difícil imaginar metáfora melhor que o Coelho Branco de Alice no País das Maravilhas.

Sempre atrasado.

Sempre atravessando portas.

Sempre desaparecendo por corredores.

Só que nosso Coelho Branco pega ônibus.

Entra numa repartição.

— É aqui que entrega?

— Terceiro andar.

Terceiro andar:

— Não, mudou para o prédio ao lado.

Prédio ao lado:

— Falta o carimbo.

— Onde carimba?

— No primeiro prédio.

CARALHO.

Volta correndo.

E Lewis Carroll provavelmente teria reconhecido imediatamente aquele universo.

Porque poucas coisas são tão próximas do País das Maravilhas quanto uma burocracia que exige um documento para fornecer o documento necessário para solicitar o documento anterior.



👑 A Rainha de Copas

Agora mudemos a câmera.

Estamos durante a ditadura militar brasileira.

Existe censura.

Textos são examinados.

Músicas são vetadas.

Filmes enfrentam cortes ou proibições.

Peças encontram obstáculos.

Reportagens podem desaparecer.

Há documentos, pareceres, processos, cópias, formulários e decisões circulando por estruturas administrativas.

E a imagem tradicional que construímos desse sistema costuma olhar para cima.

Quem mandava?

Quem censurava?

Quem foi censurado?

Quem resistiu?

Quem assinou?

Quem foi preso?

Quem publicou?

Perguntas fundamentais.

Mas existe outra pergunta muito menos glamourosa:

quem carregava os papéis?



📂 Para censurar uma informação, alguém precisa conhecê-la

Existe um pequeno paradoxo operacional em qualquer sistema de censura.

Para decidir que alguma coisa não deve circular, alguém precisa primeiro ter acesso àquilo.

A música precisa ser ouvida.

O texto precisa ser lido.

O filme precisa ser assistido.

O roteiro precisa ser analisado.

O jornal precisa ser examinado.

Isso gera registros.

Cópias.

Pareceres.

Anotações.

Protocolos.

Pessoas.

Em linguagem de mainframe:

CONTENT_STATUS = BLOCKED
REASON_CODE    = CENSURA
PAYLOAD        = RESTRICTED

O censor tenta eliminar o payload público.

Mas cria metadados.

E às vezes o metadado mais poderoso de todos é simplesmente:

CENSURADO

Porque essa palavra comunica duas coisas simultaneamente.

A primeira:

Você não pode ver isto.

A segunda:

Existe aqui alguma coisa que alguém não quer que você veja.

Adivinhe qual das duas interessa mais ao chimpanzé.

🐒

— Onde?



📰 O ancestral analógico do “não olhe”

Muito antes de Google, Twitter, Facebook, Reddit, TikTok ou qualquer algoritmo de recomendação, já existia um fenômeno profundamente humano:

proibir pode aumentar a curiosidade.

Isso não significa que censura seja ineficiente.

Seria historicamente absurdo afirmar isso.

Censura destruiu carreiras, impediu circulação de obras, dificultou acesso à informação e foi acompanhada por repressão muito mais séria que simplesmente riscar algumas linhas de jornal.

Mas existe uma diferença enorme entre:

informação invisivelmente eliminada

e

informação visivelmente proibida.

Quando o público percebe a intervenção, nasce uma pergunta:

O que havia ali?

E perguntas são criaturas perigosas.

Porque viajam sem precisar de papel.



📻 A informação aprende a procurar outra estrada

Uma música é proibida.

Mas alguém conhece a letra.

Outro ouviu num show.

Outro possui uma gravação.

Outro conta para um amigo.

Um texto desaparece.

Mas existe uma cópia.

Um mimeógrafo.

Uma universidade.

Uma redação.

Uma mala vindo do exterior.

Um filme não pode circular oficialmente.

Mas alguém encontra uma fita.

Outra pessoa copia.

Uma terceira leva para outra cidade.

Um quarto sujeito assiste.

Depois conta para vinte.

A arquitetura oficial funciona assim:

CENTRALIZAR → INSPECIONAR → AUTORIZAR

A cultura responde:

COPIAR → DISTRIBUIR → RECONTAR

De repente temos algo muito parecido com uma rede peer-to-peer.

Só que os peers usam sapatos.



🚌 Napster de ônibus

Hoje é fácil esquecer o custo físico da informação.

Copiar um arquivo:

Ctrl+C

Copiar uma fita cassete exigia outra fita.

Copiar VHS exigia equipamento e tempo.

Mimeografar exigia papel, matriz e tinta.

Fotocopiar custava dinheiro.

Transportar informação exigia pernas.

Carro.

Trem.

Ônibus.

Correio.

Mala.

E gente.

Muita gente.

A rede social existia antes da rede social.

Só não tinha botão Compartilhar.

Tinha:

— Passa isso para o Carlos.



🕵️ Todo mundo procura James Bond

Quando pensamos em vazamento de informação, nossa imaginação procura imediatamente alguém importante.

Um agente infiltrado.

Um funcionário graduado.

Um jornalista famoso.

Um intelectual.

Um opositor conhecido.

Alguém que mereça relatório, fotografia e vigilância.

Porque histórias gostam de protagonistas.

E instituições também.

Se chega à mesa de um chefe:

“Possível jornalista ligado à oposição.”

Interessante.

Investigue.

Agora chega:

“Office-boy de dezenove anos levou alguns envelopes para outro prédio.”

— E daí?

Aí mora uma vulnerabilidade organizacional maravilhosa.

Não porque office-boys fossem automaticamente agentes clandestinos.

Não eram.

Não devemos transformar uma possibilidade estrutural numa afirmação histórica sem documentação.

Mas porque sistemas frequentemente confundem:

baixo status

com

baixa relevância informacional.

E essas coisas não são iguais.



🔐 LOW PRIVILEGE, HIGH MOBILITY

O diretor possui poder.

Mas passa boa parte do dia dentro de determinada estrutura.

O office-boy possui quase nenhum poder.

Mas atravessa estruturas.

Diretoria.

Financeiro.

Banco.

Correio.

Cartório.

Gráfica.

Fornecedor.

Outro escritório.

Outra repartição.

Outra portaria.

Outro office-boy.

Ele pode possuir:

LOW FORMAL PRIVILEGE

mas simultaneamente:

HIGH PHYSICAL MOBILITY

HIGH CONTACT SURFACE

INCIDENTAL INFORMATION ACCESS

Para um profissional moderno de segurança, isso deveria soar familiar.

Porque aprendemos dolorosamente que uma conta aparentemente insignificante pode representar um caminho excelente até alguma coisa importante.



👻 A invisibilidade social

Existe ainda uma propriedade mais interessante.

Algumas pessoas tornam-se invisíveis não porque ninguém literalmente as veja, mas porque são percebidas como parte do ambiente.

O motorista está dirigindo.

A copeira está servindo café.

O faxineiro está limpando.

O porteiro está na porta.

O técnico está consertando alguma coisa.

O office-boy está esperando o envelope.

E pessoas conversam.

Às vezes conversam como se ninguém estivesse ali.

Deixam papéis sobre mesas.

Comentam nomes.

Discutem decisões.

Entregam envelopes.

Porque aquele sujeito não pertence ao círculo de poder.

Ele é cenário.

Só que cenário também possui olhos.

E ouvidos.

Daí nasce uma frase que merece ficar:

Invisibilidade social pode produzir visibilidade informacional.



🕸️ O organograma mentia

Pegue um organograma antigo.

Presidente.

Diretor.

Gerente.

Supervisor.

Funcionário.

Tudo perfeitamente hierárquico.

Agora desenhe outra rede por cima:

office-boy ↔ recepcionista ↔ motorista ↔ gráfica ↔ banco ↔ outro office-boy ↔ estudante ↔ jornalista ↔ músico

Essa rede não aparece no organograma.

Mas existe.

São relações construídas esperando elevador.

Tomando café.

Entregando documento.

Encontrando sempre o mesmo funcionário no protocolo.

Pegando ônibus.

Fazendo favor.

— Quando passar lá, entrega isso para mim?

Pronto.

Criamos outra aresta.

O organograma descreve autoridade.

Não necessariamente descreve circulação.



📼 A cópia que misteriosamente não morreu

E então chegamos às histórias deliciosamente nebulosas daquele período.

Uma obra desaparece oficialmente.

Mas reaparece.

Uma música proibida continua sendo conhecida.

Um texto circula.

Um panfleto aparece.

Uma gravação atravessa fronteiras.

Um filme encontra algum caminho alternativo.

Às vezes sabemos como.

Outras vezes a cadeia de transmissão se perde.

Décadas depois sobra apenas:

“Alguém conseguiu uma cópia.”

Quem?

Não sabemos.

E talvez justamente aí esteja uma das partes mais fascinantes da história da informação.

Nós lembramos de quem escreveu.

Lembramos de quem cantou.

Lembramos de quem dirigiu.

Lembramos de quem proibiu.

Mas frequentemente esquecemos de quem:

carregou.



🐇 O coadjuvante do coadjuvante

Imagine nosso personagem novamente.

Ele não está tentando derrubar governo nenhum.

Talvez nem saiba exatamente o que existe dentro da pasta.

Está preocupado com uma coisa muito mais urgente:

o ônibus está atrasado.

Olha o relógio.

Corre.

Entra no prédio.

Sobe.

Desce.

Pega assinatura.

Recebe outro envelope.

Alguém diz:

— Leva isso também.

Ele coloca na pasta.

E continua.

Enquanto a Rainha de Copas procura inimigos importantes...

🐇💨

...o Coelho Branco atravessa outra porta.

Essa é a imagem que me interessa.

Não porque possamos afirmar que todo office-boy era mensageiro clandestino.

Mas porque ela revela uma verdade organizacional muito maior:

Informação importante não precisa ser transportada por pessoas importantes.


💾 O office-boy desapareceu. A vulnerabilidade não.

Avancemos quarenta anos.

O office-boy praticamente desapareceu de muitos escritórios.

Documentos viraram arquivos.

Assinaturas viraram certificados.

Correspondência virou e-mail.

Memorandos viraram mensagens.

Pastas viraram diretórios.

O Coelho Branco ganhou login.

E então descobrimos:

conta de serviço esquecida;

usuário terceirizado;

credencial antiga;

fornecedor;

estagiário;

API mal configurada;

permissão herdada;

servidor legado.

O princípio permanece.

Todo mundo protege o CEO.

O atacante olha para a lavanderia.

Porque ninguém precisa invadir o portão principal do castelo quando existe uma janela lateral aberta.



🧠 Zero Trust encontrou o Coelho Branco

A segurança moderna criou expressões sofisticadas:

Least Privilege.

Need to Know.

Insider Threat.

Data Loss Prevention.

Zero Trust.

Por trás de todas existe uma descoberta pouco glamourosa:

não importa quanto poder alguém possui no organograma.

Importa:

o que consegue acessar, para onde consegue ir e o que consegue transportar.

O office-boy de ontem carregava envelopes.

A identidade digital de hoje carrega tokens.

Mudou o veículo.

Não mudou completamente o problema.



👑 A Rainha continua procurando protagonistas

Existe ainda uma lição para além da segurança.

Instituições adoram olhar para cima.

A imprensa olha para celebridades.

Empresas olham para executivos.

Governos olham para lideranças.

Historiadores olham para personagens conhecidos.

Algoritmos olham para aquilo que já possui atenção.

Enquanto isso, uma quantidade enorme de história acontece nas mãos de pessoas cujos nomes jamais chegam ao índice remissivo.

Alguém guardou aquele papel.

Alguém fez aquela cópia.

Alguém levou aquela fita.

Alguém entregou aquele envelope.

Alguém contou aquela história.

E provavelmente estava atrasado.



🐒 Os chimpanzés aparecem novamente

Evidentemente eles apareceriam.

Começamos falando sobre sonhos.

Fomos parar numa estação impossível da CPTM.

Depois loteria.

Depois Lost.

Depois números malditos.

Probabilidade.

Lei dos Grandes Números.

Um milhão de chimpanzés.

Imprensa.

Efeito VEJA.

Censura.

Vazamentos.

Office-boys.

Até que um sujeito atrasado olhando para o relógio resolveu atravessar correndo a história de Lewis Carroll.

Quando percebemos, havia outro artigo sobre a mesa.

Os chimpanzés são assim.

Você entrega uma máquina de escrever.

Eles devolvem uma banana.

Você pergunta sobre a banana.

Eles devolvem um artigo.



☕ Epílogo — A informação simplesmente pegou o ônibus

Talvez nunca saibamos quantas histórias sobreviveram porque alguém aparentemente irrelevante resolveu guardar alguma coisa.

Talvez nunca saibamos quantas informações atravessaram sistemas rígidos porque seus criadores observaram cuidadosamente os protagonistas...

e esqueceram dos figurantes.

Não devemos romantizar.

Havia risco.

Havia repressão.

Havia consequências reais.

E não devemos inventar heróis onde os documentos históricos não permitem encontrá-los.

Mas podemos aprender alguma coisa observando a arquitetura.

Sistemas de controle enxergam hierarquias.

Informação enxerga caminhos.

E caminhos podem passar pelos lugares mais improváveis.

Uma pasta.

Uma gráfica.

Um mimeógrafo.

Uma fita cassete.

Uma mala.

Um amigo.

Um office-boy.

Um ônibus.

Enquanto a Rainha de Copas procurava grandes inimigos, talvez alguma informação proibida estivesse simplesmente atravessando São Paulo no colo de um garoto desesperado porque precisava voltar ao escritório antes das cinco.

Ele olha para o relógio.

🐇

— Estou atrasado!

Corre.

A porta fecha.

O ônibus parte.

E dentro da pasta...

a história continua viajando.

Para ir mais longe



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P.S. — O que meu pai nunca me contou

Depois de terminar este causo, fiquei diante de uma pergunta muito menos divertida que o Coelho Branco, a Rainha de Copas e o office-boy correndo atrás do ônibus:

eu teria coragem de escrever tudo isso naquela época?

Não sei.

É fácil imaginar coragem retrospectiva.

Hoje posso sentar diante de um computador, escrever sobre censura, questionar autoridades, fazer piada, publicar, pesquisar documentos e transformar até os mecanismos de repressão em personagens de uma história de boteco.

Naquele tempo, a conta era outra.

E talvez eu saiba disso não apenas pelos livros.

Meu pai foi militar da Polícia do Exército entre 1969 e 1970.

Décadas depois, quando passávamos pela região da Estação da Luz, eu percebia nele uma reação particular diante do lugar que eu associaria mais tarde ao antigo DOPS.

Eu era apenas o filho.

Não conhecia organogramas da repressão.

Não sabia distinguir DOPS, DOI-CODI, Polícia do Exército ou qualquer uma das engrenagens daquele sistema.

Mas criança não precisa conhecer organograma para perceber medo.

Basta conhecer o rosto do próprio pai.

Hoje conheço muito mais sobre aquele período do que conhecia então.

Mas existe uma coisa que continuo não sabendo.

O que exatamente meu pai sabia?

O que ouviu?

O que viu?

O que lhe contaram?

Por que aquele lugar provocava aquela reação?

Não sei.

E não vou completar a história por ele.

Seria fácil juntar as datas, seu serviço militar, aquele prédio e minha lembrança e construir uma narrativa perfeita.

Perfeita demais.

Seria pintar o alvo depois do tiro.

Seria colocar o nosso famoso sexto dedo.

Há histórias em que aquilo que não sabemos precisa permanecer escrito exatamente assim:

não sei.

Talvez ele simplesmente conhecesse a reputação daquele lugar.

Talvez tivesse ouvido histórias durante o serviço militar.

Talvez existisse alguma experiência que nunca compartilhou comigo.

Talvez a explicação fosse outra.

A resposta pertencia a ele.

E foi embora com ele.

Foi então que percebi que havia esquecido um personagem neste artigo inteiro.

Falamos sobre o censor.

Sobre o censurado.

Sobre o jornalista.

Sobre o músico.

Sobre a fita clandestina.

Sobre o panfleto.

Sobre o documento que escapava.

Sobre o office-boy que atravessava a cidade carregando envelopes.

Mas existe uma forma de informação muito mais difícil de encontrar nos arquivos:

aquilo que alguém decidiu nunca contar.

A reportagem censurada pode deixar um espaço em branco.

A música proibida pode deixar um processo.

O filme cortado pode sobreviver numa cópia.

O panfleto clandestino pode reaparecer quarenta anos depois dentro de uma caixa.

Mas uma história que alguém resolveu guardar consigo talvez não deixe documento algum.

Nenhuma assinatura.

Nenhum protocolo.

Nenhum carimbo.

Nenhum arquivo.

Apenas pequenos sinais.

Uma mudança de expressão.

Um silêncio inesperado.

Um olhar para determinado prédio.

Talvez uma frase interrompida.

E um filho que percebe que alguma coisa aconteceu ali, embora não saiba exatamente o quê.

Foi assim que compreendi outra dimensão da censura.

A mais eficiente talvez não seja aquela que coloca um carimbo vermelho sobre uma página.

É aquela que consegue fazer alguém pensar:

“É melhor não falar sobre isso.”

Nesse momento o censor já nem precisa estar presente.

O medo executa o programa sozinho.

E talvez seja por isso que não consigo responder heroicamente à pergunta que abriu este P.S.

Eu teria escrito este artigo naquela época?

Gostaria de dizer que sim.

Seria uma bela história.

Eu, enfrentando a Rainha de Copas, escondendo textos na pasta do Coelho Branco e mandando a censura para /dev/null.

Mas não sei.

Eu vi, muitos anos depois, algo daquele período ainda existir no rosto do meu pai.

Isso basta para desconfiar de qualquer coragem que eu invente retrospectivamente para mim mesmo.

Hoje posso escrever.

Posso perguntar.

Posso discordar.

Posso pesquisar.

Posso publicar.

Posso olhar para um documento marcado CENSURADO e perguntar o que havia embaixo.

E posso contar que meu pai serviu na Polícia do Exército entre 1969 e 1970 e que havia coisas sobre aquele tempo que ele nunca me contou.

Sem acusá-lo.

Sem absolvê-lo.

Sem completar os espaços vazios.

Apenas preservando aquilo que realmente sei.

Porque talvez os arquivos mais difíceis de recuperar sejam justamente aqueles que nunca chegaram a ser gravados.

Meu pai carregou alguma coisa daquele período.

Não sei o quê.

Mas lembro do seu rosto.

E há memórias que o tempo não consegue censurar.






sexta-feira, 21 de agosto de 2026

A VEJA do Conhecimento Proibido — Quando o Alerta aos Pais Virava Manual para os Filhos


☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

A VEJA do Conhecimento Proibido — Quando o Alerta aos Pais Virava Manual para os Filhos

Ou: como uma reportagem de dez páginas, três boxes amarelos, um endereço em letras miúdas e um “NÃO FAÇA ISSO” podiam ensinar uma geração inteira exatamente onde começar a procurar

Senta.

Pegue uma caneca de café.

Mas café velho.

Café de repartição.

Café preparado numa garrafa térmica bege que provavelmente já estava sobre a mesa quando Tancredo Neves foi eleito.

Porque hoje vamos voltar para uma época em que conhecimento obscuro não chegava até você.

Você precisava caçá-lo.

E nossos guias nesta expedição serão alguns dos maiores especialistas brasileiros em caminhar por lugares onde pessoas respeitáveis recomendariam não entrar:

os Fradins, Graúna e Ubaldo.

Henfil não precisará dizer muita coisa.

Ele ficará discretamente sentado no canto da página olhando para nós com aquela expressão de quem já percebeu a confusão muito antes dos demais.

Porque estamos entrando nos anos 1990.

E a Internet ainda cheira a naftalina.



📰 Era uma vez uma coisa chamada escassez de informação

É difícil explicar isso para alguém que nasceu depois do Google.

Hoje você manifesta interesse por alguma coisa durante aproximadamente onze segundos e o sistema inteiro começa a trabalhar.

Assista a um vídeo sobre fechaduras.

Pronto.

Daqui a pouco aparecem fechaduras.

Depois chaveiros.

Depois lockpicking.

Depois um sujeito explicando ferramentas.

Depois outro vendendo um curso.

Depois uma apostila.

Depois um camarada de boné dizendo que “o mercado não quer que você saiba disso”.

Em 48 horas o algoritmo transformou uma curiosidade inocente numa pós-graduação em Picaretagem Aplicada.

Você nem procurou.

A informação procurou você.

Nos anos 1990 era o contrário.

Existia uma enorme zona cinzenta do conhecimento.

Você sabia que determinadas coisas existiam.

Só não sabia como se chamavam.

E esse era um problema gigantesco.

Porque para pesquisar alguma coisa você precisava primeiro conhecer a palavra que permitia pesquisar aquela coisa.

Sem a palavra, não havia porta.

Sem porta, não havia corredor.

Sem corredor, não havia cofre.

E então, semanalmente, chegava às bancas uma espécie de dispositivo nacional de descoberta aleatória:

a revista VEJA.


🧐 A autoridade máxima entrou na sala

Não estamos falando de um panfleto mimeografado encontrado debaixo da mesa de uma feira de informática.

Era a VEJA.

A revista estava em consultórios.

Salas de espera.

Bibliotecas.

Escritórios.

Casas.

Empresas.

Bancas de jornal.

Você podia discordar dela, reclamar dela, escrever uma carta furiosa para ela e provavelmente cancelar a assinatura jurando nunca mais comprá-la.

Mas ninguém confundia VEJA com um papelzinho distribuído na Santa Ifigênia.

A reportagem vinha com jornalista.

Fotógrafo.

Infográfico.

Entrevistas.

Especialistas.

Polícia.

Autoridades.

Números.

Datas.

Mapas.

E, principalmente:

boxes.

Ah, os boxes.

O chimpanzé da Olivetti acaba de parar de datilografar.

Ele sabe onde estamos chegando.



📦 O maravilhoso box amarelo

Havia uma reportagem sobre algum fenômeno terrível que ameaçava a juventude brasileira.

Muito bem.

O cidadão responsável lia:

“Isso é perigosíssimo.”

O adolescente curioso lia:

“Opa.”

A reportagem prosseguia explicando que determinados grupos utilizavam uma tecnologia chamada IRC.

O pai:

— Meu Deus.

O filho:

— IRC?

Anotava.

Depois vinha:

Internet Relay Chat.

Anotava também.

Então aparecia um pequeno quadro lateral:

COMO FUNCIONA

Pronto.

Acabou.

O jornalista estava tentando contextualizar o fenômeno.

O curioso acabava de receber o primeiro capítulo do manual.

Servidor.

Canal.

Nickname.

Comando.

Terminologia.

Às vezes aparecia até o nome de algum canal citado como exemplo do ambiente que deveria preocupar os pais.

O pai terminava a matéria pensando:

“precisamos proteger nossos filhos disso.”

O filho terminava pensando:

“preciso instalar esse tal de mIRC.”

Graúna observa tudo.

Fradim sorri.

Ubaldo provavelmente já está conectado.




🐒 A informação proibida precisava de uma palavra

Esse talvez seja o ponto mais importante.

Os primeiros mecanismos de busca não eram oráculos.

Você precisava perguntar direito.

E como perguntar sobre algo cujo nome você desconhecia?

Era aí que uma grande reportagem tinha um poder extraordinário.

Ela fornecia vocabulário.

Você descobria que determinada prática possuía um nome.

Que determinado programa existia.

Que determinado protocolo era usado.

Que determinada comunidade frequentava certo serviço.

Que havia uma expressão específica utilizada naquele universo.

Agora você possuía a chave.

Não precisava mais procurar:

“aquele negócio estranho que umas pessoas fazem no computador”.

Você possuía o termo técnico.

Digitava a palavra.

E uma pequena passagem secreta aparecia na parede da Internet.



🏴‍☠️ Cuidado com a pirataria — endereço na página 47

Outro clássico.

A reportagem denunciava o comércio ilegal.

Excelente.

Mostrava uma loja.

Nome.

Rua.

Região.

Às vezes fotografia.

Às vezes explicava como funcionava o esquema.

A Polícia Federal havia fechado o estabelecimento.

O leitor responsável pensava:

— Muito bem! Fecharam!

O leitor brasileiro experimental pensava:

— Interessante...

Guardava a edição.

Algum tempo depois passava pelo endereço.

E eis que ocorria um fenômeno conhecido pela ciência brasileira como:

RESSURREIÇÃO COMERCIAL ESPONTÂNEA.

A loja estava novamente funcionando.

Talvez com outra placa.

Talvez com o mesmo sujeito.

Talvez com o mesmo balcão.

Talvez o único avanço tecnológico fosse um novo cadeado na porta.

A reportagem que pretendia documentar uma repressão havia inadvertidamente preservado algo extremamente precioso:

a coordenada geográfica.



🇵🇾 Preciso comprar um computador

Hoje você abre vinte comparadores de preços.

Em algum momento dos anos 1990, entretanto, você podia descobrir numa reportagem que existia um lugar chamado:

Ciudad del Este.

Paraguai.

Computadores.

Componentes.

Eletrônicos.

Importação.

Contrabando.

Sacoleiros.

Fronteira.

Lojas.

Preços.

Rotas.

A matéria pretendia explicar um fenômeno econômico e policial.

Mas o sujeito que estava olhando para o preço de um computador no Brasil começava a fazer uma matemática diferente.

— Então quer dizer que...

Fradim imediatamente coloca a mão na boca dele.

Não conclua em voz alta.



💾 Santa Ifigênia.exe

São Paulo tinha ainda uma versão especial desse mecanismo.

A imprensa nacional mostrava o fenômeno.

A imprensa local mostrava o CEP.

Podia aparecer uma matéria na VEJA São Paulo sobre determinada região do centro.

Xavier de Toledo.

Santa Ifigênia.

Galerias.

Lojas.

Software.

Hardware.

Camelôs.

Alguma coisa acontecendo discretamente atrás de um balcão.

Duas semanas depois, uma reportagem maior explicava a pirataria de software no Brasil.

Depois vinha o caderno de informática de algum jornal.

Depois uma revista especializada.

Era possível montar o quebra-cabeça.

Nenhuma peça precisava conter o mapa inteiro.

Uma fornecia o lugar.

Outra fornecia o nome.

Outra explicava a tecnologia.

Outra apresentava a gíria.

Outra mostrava o fenômeno internacional.

E o cérebro humano fazia uma coisa maravilhosa:

A + B + C + curiosidade = vou dar uma olhada nisso

Não havia algoritmo de recomendação.

O algoritmo era você.



🔎 AltaVista, Cadê?, Yahoo! e a arqueologia da palavra certa

Quando os mecanismos de busca começaram a melhorar, surgiu uma nova modalidade de caça ao tesouro.

Uma reportagem mencionava um termo obscuro.

Você anotava.

Depois procurava.

E descobria outra palavra.

Procurava a segunda.

Encontrava uma terceira.

Era uma espécie de árvore de conhecimento construída manualmente.

Hoje chamamos isso de navegação.

Naquela época parecia exploração.

Porque frequentemente você não sabia onde terminaria.

Começava procurando alguma coisa perfeitamente inocente.

Quarenta minutos depois estava lendo uma página hospedada numa universidade da Finlândia escrita por um sujeito chamado DarkWizard73 explicando algo que você nem sabia que existia naquela manhã.

A Internet não possuía estradas asfaltadas.

Possuía trilhas.

E algumas revistas funcionavam como sujeitos numa taverna medieval dizendo:

— Não aconselho ninguém a atravessar aquela floresta.

— Por quê?

— Porque depois do moinho existe uma trilha à esquerda que leva até uma ponte...

Espere.

Depois do moinho?

Trilha à esquerda?

Graúna olha para Fradim.

Fradim pega o mapa.



📡 O curioso caso do canal que cresceu 30%

Esta é uma das imagens mais divertidas de imaginar.

Uma grande reportagem nacional menciona algum pequeno canto obscuro da Internet.

Um servidor.

Um fórum.

Uma página.

Um canal de IRC.

Na segunda-feira havia 80 pessoas.

Sai a revista.

Terça-feira:

Quarta:

Sexta:

218 brasileiros.

E em algum lugar do planeta o administrador provavelmente olhava para os logs:

— What the hell happened in Brazil?

Começavam as teorias.

Algum hacker famoso indicou?

Universidade?

Lista de discussão?

Conferência?

Não.

Saiu um box amarelo na página 63.



✉️ E então surgia o sistema de recuperação de backup

Mas havia um recurso ainda mais espetacular.

As cartas dos leitores.

Imagine que você perdeu uma reportagem maravilhosa.

Não sabia que ela existia.

Acabou.

Certo?

Errado.

Três semanas depois aparecia:

“A reportagem publicada na edição nº XXXX sobre determinado assunto foi irresponsável...”

Opa.

QUE REPORTAGEM?

O leitor furioso acabava de funcionar como mecanismo de indexação.

Você anotava a edição.

Ia até uma biblioteca.

Pedia os números antigos.

Localizava a revista.

Encontrava a matéria.

E começava a investigação retroativa.

Era praticamente:

Google Alerts movido a indignação.

O sujeito escreveu para reclamar.

Você leu a reclamação e descobriu algo que não sabia que precisava conhecer.

O Fradim agradece respeitosamente ao cidadão indignado.



🧠 VEJA + Superinteressante: RAID 1 da curiosidade brasileira

E havia uma combinação particularmente deliciosa.

Uma revista abordava o fenômeno pelo lado jornalístico.

Outra mergulhava na ciência, comportamento, tecnologia ou curiosidade.

Às vezes os assuntos coincidiam.

Às vezes se complementavam.

Você lia uma reportagem numa publicação e algumas semanas depois encontrava outra peça em outra.

A segunda matéria fornecia palavras novas.

As palavras levavam à Internet.

A Internet levava a uma BBS.

A BBS indicava IRC.

IRC levava a FTP.

FTP levava a um arquivo TXT escrito em 1989.

E pronto.

Sua tarde havia acabado.

Não existia autoplay.

Não existia feed infinito.

Não existia “conteúdo recomendado para você”.

Existia algo muito mais perigoso:

curiosidade.



📰 Folha e Estadão também entregavam munição intelectual

Naturalmente, VEJA não estava sozinha.

Os cadernos de informática dos grandes jornais eram preciosos.

Havia revistas de informática.

Colunas.

Suplementos.

Livros.

BBSs.

Listas de discussão.

Programas de televisão.

A diferença era a capacidade ocasional de uma grande revista semanal de entregar dez páginas de contexto de uma só vez.

História.

Personagens.

Tecnologia.

Vocabulário.

Fotografias.

Endereços.

Infográficos.

E o inevitável:

ALERTA AOS PAIS

O equivalente editorial de colocar uma placa luminosa diante de milhares de adolescentes:

TEM ALGUMA COISA MUITO INTERESSANTE AQUI.



🚨 “Não procure estas palavras”

Talvez uma das maiores contradições da comunicação sobre perigos seja esta:

Para avisar alguém sobre determinado conteúdo, frequentemente precisamos identificar o conteúdo.

E identificar fornece uma chave de busca.

Imagine o censor perfeito:

“Existem palavras que não devem ser pesquisadas.”

Excelente.

Quais?

“Não podemos dizer.”

Perfeito.

Sistema seguro.

Agora imagine:

“Especialistas alertam os pais para que os filhos não pesquisem termos como X, Y e Z.”

Muito obrigado.

Fradim já anotou X.

Graúna ficou com Y.

Ubaldo está procurando Z.

Os chimpanzés pediram mais papel para a Olivetti.



🐒 O efeito chimpanzé

E aqui chegamos ao mecanismo central desta história.

Não era necessário que jornalista algum desejasse ensinar nada.

Muito pelo contrário.

A reportagem podia estar corretamente denunciando, contextualizando ou alertando.

Mas informação possui uma propriedade curiosa:

o leitor escolhe qual problema pretende resolver com ela.

O repórter escreve:

“Veja como funciona este esquema para que você possa reconhecê-lo.”

Um leitor interpreta:

“Agora sei reconhecer.”

Outro:

“Agora sei procurar.”

Outro:

“Então é esse o nome?”

Outro:

“Onde fica mesmo?”

Outro:

“Qual era aquele programa citado?”

E finalmente surge nosso chimpanzé.

Ele fecha a revista.

Liga o 486.

O Windows 95 começa sua cerimônia litúrgica.

O modem acorda.

Piiiiiiii...

KRRRRRRR...

TCHHHHHHHHH...

GRRRR-PI-PI-PI...

Conectado.

33.6 kbps.

E começa a procurar.



🕵️ O editor jamais conheceria todos os usos possíveis daquela informação

Essa talvez seja a parte mais fascinante olhando décadas depois.

Durante uma ditadura, o censor procurava palavras, ideias, imagens e mensagens consideradas perigosas.

Décadas mais tarde, numa sociedade democrática e numa imprensa muito mais aberta, surgia outro problema completamente diferente:

ninguém conseguia prever o que um leitor curioso faria com informação perfeitamente legítima.

Não era preciso esconder mensagem alguma.

Não havia código secreto.

Não havia conspiração.

O conteúdo estava publicado.

Revisado.

Impresso.

Distribuído nacionalmente.

Aprovado editorialmente.

E justamente por isso tinha enorme autoridade.

Era quase uma certificação:

EXISTE.

Esse simples carimbo possuía valor gigantesco.

Porque antes de saber como encontrar algo, frequentemente precisávamos saber que aquilo existia.



🤖 Hoje o problema virou do avesso

Trinta anos depois, temos o problema contrário.

A dificuldade não é descobrir.

É escapar da descoberta.

Curta um vídeo.

O algoritmo oferece vinte.

Pare três segundos diante de uma publicação.

Ele percebe.

Pesquise uma coisa.

Durante uma semana aparecem anúncios relacionados.

A velha zona cinzenta desapareceu em muitos lugares.

Em compensação surgiu uma avalanche.

Antes tínhamos:

escassez de pistas.

Hoje temos:

superprodução de pistas.

Antes você precisava juntar três revistas, dois jornais, uma conversa no IRC e uma página encontrada no AltaVista.

Hoje um influenciador entrega:

“OS SETE SEGREDOS QUE NÃO QUEREM QUE VOCÊ SAIBA — O SEXTO VAI TE SURPREENDER.”

E, naturalmente, vende a apostila por R$ 29,90.

Perdemos alguma coisa nessa transição.

Não necessariamente porque o passado fosse melhor.

Era terrivelmente ineficiente.

Mas justamente a ineficiência produzia acidentes maravilhosos.

Você procurava A.

Encontrava B.

Precisava entender C.

Descobria D.

E terminava apaixonado por Z.



🧭 A serendipidade analógica

Talvez seja esse o verdadeiro objeto desta homenagem.

Não pirataria.

Não contrabando.

Não IRC.

Não lojas obscuras.

Mas uma forma desaparecida de serendipidade.

A descoberta acidental que exigia esforço.

A revista fornecia uma pista.

A biblioteca fornecia outra.

O jornal confirmava.

A Superinteressante acrescentava contexto.

Um amigo lembrava de alguma coisa.

Você procurava uma edição antiga.

Encontrava outro artigo ao lado.

Esquecia completamente o assunto original.

Saía da biblioteca sabendo alguma coisa que jamais havia planejado aprender.

Hoje o algoritmo tenta prever o que você quer.

Naquela época, frequentemente, nem você sabia o que queria.

E justamente por isso encontrava coisas extraordinárias.



☕ Epílogo — O box amarelo

Imagino uma biblioteca em algum momento de 1996.

Uma mesa.

Uma VEJA aberta.

Um adolescente ou jovem adulto copiando alguma palavra para um pedaço de papel.

Talvez um endereço.

Talvez o nome de um programa.

Talvez uma expressão em inglês.

Talvez apenas alguma coisa que parecesse estranha.

Naquela noite ele liga o computador.

O modem chia.

A linha telefônica da casa fica ocupada.

A mãe reclama:

— DESLIGA ESSA INTERNET QUE EU PRECISO USAR O TELEFONE!

Ele pede mais cinco minutos.

Abre o mecanismo de busca.

Digita aquela palavra.

Enter.

E uma porta aparece.

Décadas depois, talvez ele nem lembre o que encontrou.

Mas lembra perfeitamente da sensação.

Existe alguma coisa depois daqui.

Henfil continua quieto no canto.

Graúna observa aquela humanidade complicada.

Ubaldo já desapareceu dentro de algum servidor IRC.

E o Fradim pega discretamente o box amarelo da reportagem, dobra, coloca no bolso e olha para nós:

— Então isso aqui é justamente o que disseram para não procurar?

É.

— E imprimiram o nome?

Imprimiram.

— Explicaram onde fica?

Também.

— E disseram como funciona?

Tem infográfico na página seguinte.

Silêncio.

Ao fundo, um milhão de chimpanzés abandonam simultaneamente suas Olivettis e correm em direção aos modems.

Piiiiiiii...

KRRRRRRR...

TCHHHHHHHHH...

Algum editor, em algum lugar, sente um arrepio inexplicável.

E numa pequena sala iluminada por um monitor CRT, alguém acaba de descobrir uma coisa que não sabia que existia quinze minutos antes.

Não foi o algoritmo.

Não foi um influenciador.

Não foi uma recomendação personalizada.

Foi uma revista séria, conceituada e respeitável dizendo solenemente:

“Não vá até lá.”

E fornecendo o mapa.

Bons tempos.

Não necessariamente melhores.

Mas certamente muito mais trabalhosos para os chimpanzés.


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Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

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