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terça-feira, 5 de julho de 2016

Mainframe History : Parte VII — Cartões Perfurados, Hollerith e a IBM: Quando Dois Mundos Caminhavam para o Mesmo Futuro

 

Bellacosa Mainframe e o outro computador z parte vii

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Muito Antes do IBM Z Existia Outro "Z"

Parte VII — Cartões Perfurados, Hollerith e a IBM: Quando Dois Mundos Caminhavam para o Mesmo Futuro

"Nem toda revolução nasce da mesma ideia. Às vezes, duas estradas completamente diferentes acabam chegando ao mesmo destino."

Até aqui acompanhamos a extraordinária trajetória de Konrad Zuse.

Vimos um engenheiro transformar a sala de estar de seus pais em um laboratório improvisado.

Construir o Z1 utilizando milhares de peças mecânicas.

Trocar engrenagens por relés no Z2.

Criar o Z3, considerado por muitos o primeiro computador digital programável totalmente funcional.

Levar o Z4 até a ETH Zürich.

E, por fim, conceber o Plankalkül, uma linguagem tão avançada que o mundo levaria décadas para compreendê-la.

Mas existe uma pergunta inevitável.

Onde estava a IBM enquanto tudo isso acontecia?

A resposta costuma surpreender.

Porque a IBM não estava construindo computadores iguais aos de Konrad Zuse.

Na verdade, estava resolvendo um problema completamente diferente.

E talvez seja justamente por isso que ambas mudaram a história.


Dois Sonhos Diferentes

Imagine duas oficinas trabalhando no mesmo período.

Na primeira, em Berlim, Konrad Zuse tenta construir uma máquina capaz de executar qualquer algoritmo.

Na segunda, espalhada por escritórios, fábricas e órgãos governamentais ao redor do mundo, a IBM aperfeiçoa máquinas capazes de organizar milhões de registros administrativos.

Uma busca flexibilidade.

A outra busca produtividade.

Uma atende engenheiros.

A outra atende empresas.

Uma quer resolver equações diferenciais.

A outra quer processar folhas de pagamento, censos populacionais, seguros e estatísticas.

À primeira vista parecem tecnologias incompatíveis.

Na verdade, ambas eram indispensáveis.


Antes da IBM Existia Herman Hollerith

Toda boa história possui um prólogo.

A da IBM começa muito antes de Thomas J. Watson.

Começa com um engenheiro chamado Herman Hollerith.

No final do século XIX, os Estados Unidos enfrentavam um enorme problema.

O Censo de 1880 levou quase oito anos para ser totalmente processado.

O país crescia rapidamente.

Havia o risco de que o próximo censo terminasse apenas quando o seguinte já estivesse começando.

Era necessário acelerar drasticamente o processamento dos dados.

Hollerith teve uma ideia brilhante.

Representar informações por meio de furos em cartões de papel.

Cada posição representava uma característica.

Sexo.

Idade.

Estado civil.

Profissão.

Nacionalidade.

Os cartões eram lidos por máquinas eletromecânicas capazes de contar e classificar registros em uma velocidade inédita.

O resultado foi espetacular.

O Censo de 1890 foi concluído em uma fração do tempo esperado.

Nascia ali uma nova indústria.


☕ Café com Naftalina

Quando hoje executamos um SORT FIELDS=COPY em um IBM Z, é difícil imaginar que existe uma linhagem histórica ligando essa operação às antigas máquinas classificadoras de cartões perfurados.

O princípio continua o mesmo.

Organizar informação.

A tecnologia é que mudou.


Da CTR à IBM

A empresa criada por Hollerith evoluiu ao longo dos anos e participou de diversas fusões.

Em 1911 surgiu a Computing-Tabulating-Recording Company (CTR).

Poucos anos depois, um executivo extremamente ambicioso assumiu sua liderança.

Seu nome era Thomas John Watson Sr.

Foi Watson quem percebeu que aquela empresa poderia tornar-se muito mais do que uma fabricante de máquinas.

Em 1924, a CTR passou a chamar-se International Business Machines.

Ou simplesmente:

IBM.

O nome já revelava a ambição.

Não era uma empresa local.

Nem nacional.

Era uma empresa que pretendia atender o mundo.


Muito Antes do Mainframe

Quando ouvimos "IBM", imediatamente pensamos em System/360, z/OS, Db2, CICS, RACF e IBM Z.

Mas, nas décadas de 1920 e 1930, a realidade era outra.

A IBM produzia principalmente:

  • perfuradoras de cartões;

  • verificadoras;

  • classificadoras;

  • tabuladores;

  • calculadoras eletromecânicas;

  • máquinas de contabilidade.

Esses equipamentos dominavam o processamento administrativo.

Não eram computadores de propósito geral.

Mas eram extraordinariamente eficientes para seu objetivo.


Como Funcionava um Centro de Processamento de Dados em 1935?

Imagine entrar em um CPD daquela época.

Nada de racks.

Nada de fibras ópticas.

Nada de SAN.

Você encontraria enormes equipamentos metálicos.

Mesas repletas de cartões perfurados.

Operadores cuidadosamente alimentando máquinas.

Funcionárias especializadas em perfuração de cartões.

Classificadoras organizando milhares de registros.

Tabuladores imprimindo relatórios.

O ambiente era barulhento.

Cheio de engrenagens.

Motores elétricos.

E o característico som dos cartões deslizando por mecanismos de leitura.

Era um datacenter.

Só que feito de papel.


🔧 Oficina do Engenheiro

O cartão perfurado tornou-se um padrão porque reunia três características fundamentais:

  • era barato;

  • podia ser transportado facilmente;

  • permitia armazenar informações de forma relativamente confiável.

Durante décadas, milhões de programas COBOL também seriam distribuídos em cartões perfurados.

A mídia mudou.

O conceito de representar dados de forma padronizada permaneceu.


Enquanto Isso, em Berlim...

Enquanto a IBM aperfeiçoava suas máquinas administrativas, Konrad Zuse seguia outro caminho.

Ele não queria apenas processar registros.

Queria construir uma máquina universal.

Uma máquina capaz de executar qualquer sequência lógica.

Essa diferença é fundamental.

As máquinas IBM da época eram configuráveis, mas especializadas.

O Z3 era programável para diferentes problemas matemáticos.

Não competiam entre si.

Atendiam mercados distintos.


A Dehomag

Na Alemanha, a IBM atuava por meio de sua subsidiária Dehomag (Deutsche Hollerith-Maschinen Gesellschaft).

A empresa fabricava e mantinha equipamentos baseados na tecnologia Hollerith para clientes alemães.

Como outras empresas multinacionais da época, sua atuação durante os anos do regime nazista continua sendo objeto de intensa pesquisa histórica. Há consenso de que máquinas Hollerith foram utilizadas por órgãos do governo alemão em atividades administrativas, mas historiadores ainda discutem o grau de autonomia da Dehomag, o nível de controle exercido pela matriz da IBM e as responsabilidades corporativas naquele contexto.

Para quem estuda história da computação, é importante separar duas questões distintas:

  • a evolução tecnológica das máquinas;

  • o contexto político em que elas foram utilizadas.

Misturar esses temas sem cuidado costuma gerar interpretações simplificadas.


📦 Baú do Sysprog

Tecnologia é uma ferramenta.

Ela pode ser utilizada para ampliar conhecimento, organizar empresas, desenvolver medicamentos ou administrar sistemas financeiros.

Também pode ser utilizada em contextos profundamente negativos.

Conhecer a história completa ajuda engenheiros e profissionais de TI a refletirem sobre a responsabilidade associada às tecnologias que desenvolvem e administram.


IBM e Zuse Nunca Foram Inimigos

Existe um mito recorrente.

Muitos imaginam que Konrad Zuse e IBM travavam uma corrida direta.

Na realidade, isso nunca aconteceu.

A IBM era líder absoluta em processamento de dados comerciais.

Zuse trabalhava praticamente sozinho desenvolvendo computadores científicos.

Os clientes eram diferentes.

Os objetivos eram diferentes.

As arquiteturas eram diferentes.

Décadas depois, essas duas linhas evolutivas começariam a convergir.

Os computadores deixariam de ser apenas calculadoras científicas.

As empresas passariam a exigir máquinas programáveis para aplicações comerciais.

Era exatamente o ponto onde a experiência da IBM encontraria as ideias pioneiras de Zuse e de outros pesquisadores.


O Que um Sysprog Aprende?

Todo Sysprog conhece a importância de escolher a ferramenta certa.

Não utilizamos um utility de REORG para fazer um BACKUP.

Não usamos um SORT para administrar segurança.

Cada componente possui um propósito.

A história da computação ensina exatamente a mesma lição.

As máquinas Hollerith eram extraordinárias para organizar grandes volumes de dados administrativos.

Os computadores de Zuse eram extraordinários para cálculos científicos programáveis.

Ambos estavam corretos.

Ambos resolveram problemas reais.

E ambos deixaram contribuições fundamentais para aquilo que décadas depois se transformaria nos modernos ambientes IBM Z.


O Encontro de Dois Mundos

No início dos anos 1960, quando a IBM apresentou o System/360, algo extraordinário aconteceu.

Pela primeira vez, uma arquitetura comercial reunia:

  • processamento científico;

  • processamento administrativo;

  • programação de propósito geral;

  • compatibilidade entre modelos;

  • expansão contínua.

De certa forma, era a convergência das duas grandes correntes que acompanhamos nesta série.

A visão universal de Konrad Zuse.

E a experiência empresarial construída pela IBM desde Herman Hollerith.

O resultado dessa união moldaria toda a computação corporativa das décadas seguintes.


No Próximo Café...

Até agora acompanhamos a evolução da computação alemã e o crescimento silencioso da IBM.

Mas existiam outros protagonistas espalhados pelo mundo.

Na Inglaterra, uma máquina ajudava a decifrar mensagens secretas.

Nos Estados Unidos, universidades desenvolviam computadores eletromecânicos gigantescos.

Na próxima parte responderemos uma pergunta que até hoje desperta debates apaixonados:

Quem realmente inventou o primeiro computador?

Conheceremos o Colossus, o Harvard Mark I, o ENIAC, o EDVAC e veremos por que a resposta depende muito mais da definição de "computador" do que da data em que cada máquina entrou em funcionamento.

Prepare outro café.

A viagem pela história da computação está apenas começando.

Esse capítulo faz a ponte entre a linha evolutiva de Herman Hollerith → IBM → System/360 → IBM Z e a linha de Konrad Zuse → computadores programáveis, preparando o terreno para o grande debate histórico da próxima parte: afinal, quem merece o título de "primeiro computador"?

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Viaje pelas origens da computação, conhecendo Konrad Zuse, Herman Hollerith, Tommy Flowers, John von Neumann, o Colossus, o EDVAC, o IBM System/360 e os pioneiros que construíram o caminho até o IBM Z.

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Bellacosa Mainframe — tecnologia, história, COBOL, IBM Z e memória.