| Bellacosa Mainframe e o spread do conhecimento por que $200/h não é igual $50/h |
☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
O Spread do Conhecimento: Matrix, COBOL e o Profissional de R$ 200/h que Recebe R$ 55
🔴🔵 Uma viagem pela Matrix corporativa para entender quanto custa o conhecimento, quem assume o risco e por que o profissional que faz o trabalho pode receber apenas uma pequena parcela do valor cobrado por ele
Por Vagner Bellacosa
Há uma cena de Matrix que sempre me chamou atenção.
Thomas Anderson trabalha em uma grande empresa de software.
Não parece ser um desempregado.
Não parece ser alguém sem qualificação.
Muito pelo contrário.
Anderson é programador.
Conhece computadores.
Entende sistemas.
E, quando deixa o escritório e assume sua segunda identidade, descobrimos que Neo possui habilidades suficientemente valiosas para existir também em uma pequena economia clandestina.
Mesmo assim, sua vida é surpreendentemente modesta.
Apartamento pequeno.
Pouco luxo.
Noites diante do computador.
Um emprego durante o dia.
Outra vida durante a noite.
E boletos.
Sempre os boletos.
Talvez os verdadeiros Agentes da Matrix nunca tenham usado terno preto.
Talvez venham impressos com código de barras.
Porque existe uma característica extraordinária nos boletos:
RECEITA: EVENTUAL
EMPREGO: INSTÁVEL
PROJETO: TEMPORÁRIO
BOLETO: 24x7
Você pode perder o emprego.
Pode terminar o projeto.
Pode ficar alguns meses procurando uma nova oportunidade.
Mas tente explicar isso para a conta de energia.
Ela não demonstra muita empatia.
Foi pensando nisso que comecei a observar uma das contradições mais curiosas da indústria de tecnologia.
Um banco pode movimentar bilhões.
Um sistema pode processar milhões de transações.
Uma aplicação pode permanecer funcionando durante vinte ou trinta anos.
Mas o profissional que ajudou a construir tudo aquilo pode terminar o projeto numa sexta-feira e começar a segunda-feira seguinte procurando emprego.
Não estou dizendo que existe necessariamente algo errado nisso.
Também não estou dizendo que o programador deveria ser proprietário do banco.
Muito menos que consultorias são parasitas ou que empresas não assumem riscos.
A realidade é muito mais interessante.
E justamente por isso merece uma conversa.
Morpheus está esperando.
Sobre a mesa existem duas pílulas.
🔵 A azul diz:
"Você foi contratado para fazer um trabalho. Recebeu por ele. O contrato terminou. Vida que segue."
🔴 A vermelha pergunta:
"Quanto realmente custou produzir o conhecimento que tornou aquele trabalho possível — e quem capturou o valor produzido por ele?"
Pegue seu café.
Vamos descobrir até onde vai essa toca do coelho.
💊 A pílula azul: você recebeu pelo trabalho
Vamos começar pelo argumento mais óbvio.
Uma empresa contrata alguém.
Esse profissional aceita determinadas condições.
Executa o serviço.
Recebe aquilo que foi combinado.
Fim.
Existe algo errado nisso?
Em princípio, não.
A empresa possui capital.
Possui infraestrutura.
Consegue clientes.
Assume riscos.
Paga impostos.
Mantém departamentos jurídicos, comerciais, administrativos e técnicos.
Pode investir milhões em um projeto que fracassa completamente.
Se houver prejuízo, normalmente ninguém telefona para o programador dizendo:
— João, aquele sistema que você ajudou a desenvolver perdeu R$ 30 milhões. Poderia depositar sua parte do prejuízo?
Naturalmente não.
Portanto, existe um argumento perfeitamente razoável:
quem assume maior risco econômico também espera capturar parte maior do retorno econômico.
Isso é capitalismo básico.
Mas...
Sempre existe um BUT escondido em algum lugar do código.
IF ARGUMENTO = "SIMPLES"
PERFORM OLHAR-MAIS-DE-PERTO
END-IF.
Porque existe outro risco que raramente aparece nessa conta.
O risco do profissional.
🔴 Quanto custou você aprender aquilo que sabe?
Imagine um programador COBOL experiente.
Quando uma empresa o contrata, ela não está comprando apenas oito horas daquele dia.
Está acessando algo que levou talvez vinte anos para ser construído.
COBOL.
JCL.
Db2.
CICS.
VSAM.
MQ.
IMS.
RACF.
Git.
APIs.
Regras de negócio.
Experiência em produção.
Incidentes.
Madrugadas.
Erros.
Livros.
Cursos.
Certificações.
Laboratórios.
Documentação.
Projetos anteriores.
E milhares de pequenas experiências que nunca aparecerão no currículo.
Quanto custou isso?
Normalmente calculamos assim:
Curso .................... R$ 500
Livro .................... R$ 150
Certificação ............. R$ 800
Mas existe uma linha invisível nessa planilha:
TEMPO .................... ???
Suponha que você tenha estudado 100 horas para aprender determinada tecnologia.
Foram 100 horas que poderiam ter sido usadas para trabalhar.
Ou dormir.
Ou viajar.
Ou brincar com os filhos.
Ou assistir Matrix pela 37ª vez procurando Easter Eggs.
Ou simplesmente ficar olhando para o teto.
O ócio também possui valor.
Economistas chamam isso de custo de oportunidade.
Você escolheu estudar.
Logo, abriu mão de alguma outra coisa.
Agora multiplique isso por dez, vinte ou trinta anos de carreira.
De repente percebemos algo curioso:
o profissional é uma empresa que investe continuamente em P&D sobre si próprio.
E geralmente faz isso com capital próprio.
🧪 O laboratório chamado "você"
Existe ainda outro problema.
Nem todo conhecimento adquirido dará retorno.
Você pode passar seis meses aprendendo uma tecnologia porque todo mundo garante:
"Isso é o futuro!"
Seis meses depois:
"Aquilo morreu. Agora o futuro é outra coisa."
Bem-vindo à tecnologia.
Você assumiu o risco.
Comprou o curso.
Gastou noites.
Montou laboratório.
Leu documentação.
Talvez tenha pago certificação.
E descobriu que o mercado mudou.
Quem indeniza esse investimento?
Ninguém.
Você escolheu a pílula errada.
Tente novamente.
Isso significa que empresas não assumem riscos?
Claro que não.
Elas assumem enormes riscos.
Mas precisamos abandonar uma simplificação:
"A empresa assume o risco e o trabalhador recebe salário."
Existem diferentes tipos de risco.
A empresa possui risco empresarial e de capital.
O profissional possui risco de empregabilidade, renda, formação e obsolescência.
São riscos diferentes.
E podem coexistir.
🏦 Bem-vindo ao banco
Agora nosso Neo consegue um projeto.
Parabéns!
Existe um grande banco precisando de alguém com seus conhecimentos.
O banco possui dinheiro para contratar especialistas.
Digamos, apenas para construir um exemplo hipotético, que esteja disposto a pagar:
R$ 200 por hora.
Mas grandes organizações raramente contratam cada especialista diretamente.
Então aparece uma consultoria.
BANCO
│
│ R$ 200/h
▼
CONSULTORIA A
A consultoria possui contrato.
Conhece procurement.
Atende requisitos de compliance.
Mantém estrutura comercial.
Possui seguros.
Gerencia contratos.
Assume responsabilidades.
Isso possui valor.
Portanto:
BANCO
│ R$ 200/h
▼
CONSULTORIA A
│ R$ 160/h
▼
Até aqui, perfeitamente compreensível.
Mas talvez a Consultoria A também não possua aquele especialista.
Ela procura um parceiro.
BANCO
│ R$ 200
▼
CONSULTORIA A
│ R$ 160
▼
CONSULTORIA B
│ R$ 120
▼
A Consultoria B encontra outro fornecedor.
BANCO
│ R$ 200
▼
CONSULTORIA A
│ R$ 160
▼
CONSULTORIA B
│ R$ 120
▼
FORNECEDOR C
│ R$ 85
▼
PROFISSIONAL
R$ 55
ATENÇÃO.
Esses valores são deliberadamente ilustrativos.
Não estou afirmando que essa seja a margem real de qualquer empresa ou setor.
A pergunta é conceitual.
O banco desembolsa R$ 200 por uma hora de determinada capacidade técnica.
O profissional que efetivamente possui essa capacidade recebe R$ 55.
Entre os dois existem R$ 145.
Esse dinheiro não desapareceu.
Ele remunerou alguma coisa.
Administração.
Comercial.
Risco.
Impostos.
Gestão.
Compliance.
Recrutamento.
Lucro.
Infraestrutura.
E margens intermediárias.
Talvez tudo seja perfeitamente justificável.
Mas Morpheus coloca novamente as duas pílulas sobre a mesa.
🔵 Quanto custa contratar esse profissional?
🔴 Quanto valor cada camada realmente adicionou até ele chegar ao teclado?
São perguntas diferentes.
💰 O Spread do Conhecimento
Quem trabalha em banco conhece muito bem uma palavra:
spread.
Simplificando bastante, existe uma diferença entre o custo de determinado recurso financeiro e o preço pelo qual ele é disponibilizado.
Então pensei:
talvez exista algo semelhante na indústria de conhecimento.
Chamo isso, provocativamente, de:
Spread do Conhecimento
Podemos representar assim:
VALOR PAGO PELO CONHECIMENTO
-
VALOR RECEBIDO POR QUEM POSSUI O CONHECIMENTO
=
SPREAD DO CONHECIMENTO
Cuidado.
O spread não é automaticamente lucro.
Existem custos legítimos no meio.
A provocação é outra:
quanto maior a cadeia de intermediação, maior pode se tornar a distância entre o valor pago pelo cliente e o valor recebido pelo especialista.
E aparece uma pergunta fascinante:
O profissional sabe quanto sua hora custa na outra ponta?
Frequentemente, não.
E talvez o banco também não saiba quanto chega efetivamente ao profissional.
Essa opacidade interessa a quem?
Boa pergunta.
Pílula vermelha ou azul?
Você decide.
🧑💻 O paradoxo do profissional indispensável e descartável
Durante o projeto:
— Precisamos urgentemente de alguém com COBOL, CICS, Db2, VSAM, MQ, RACF, APIs, Git e experiência no mercado financeiro!
Depois do projeto:
— Obrigado. Seu acesso será desativado às 18h.
Três meses depois:
— Alguém sabe por que o programa XPTO possui esse IF?
Silêncio.
— Quem escreveu isso?
— Era um terceiro.
— Onde ele está?
— O contrato terminou.
— Temos documentação?
...
Houston, temos um problema.
Ou melhor:
Morpheus, temos um problema.
Existe conhecimento que pode ser documentado.
E existe conhecimento tácito.
É aquilo que o profissional aprendeu convivendo com o sistema.
Ele sabe que determinada rotina precisa rodar antes de outra.
Sabe que aquele campo aparentemente inútil existe porque um sistema externo ainda o utiliza.
Sabe que aquele IF estranho foi colocado ali depois de um incidente ocorrido quinze anos atrás.
Na documentação existe:
CAMPO-STATUS PIC X.
Na cabeça do veterano existe:
"Não coloque '9' nisso entre 23:55 e 00:10 porque o sistema Y ainda está fechando o movimento e você vai acordar metade da operação."
Boa sorte colocando isso no inventário patrimonial.
🧠 O ativo que não aparece no balanço
Hardware aparece.
Software aparece.
Licenças aparecem.
Contratos aparecem.
Cloud aparece.
Datacenter aparece.
Mas uma parte enorme do conhecimento organizacional vive em pessoas.
E pessoas possuem uma característica inconveniente:
elas vão embora.
Principalmente quando são tratadas exclusivamente como:
RESOURCE_ID = 92731
STATUS = CONTRACTOR
END_DATE = 30/09/2026
A empresa pode ser proprietária do código.
Mas isso não significa que seja proprietária de todas as conexões mentais utilizadas para construí-lo.
Essa diferença só costuma ficar evidente quando alguma coisa quebra.
🚨 03:17 da manhã
Produção parou.
War Room aberta.
Executivos entrando.
Operação olhando logs.
DBA olhando banco.
Sysprog olhando sistema.
Desenvolvimento olhando código.
Até alguém dizer:
— Chamem o Carlos.
— Carlos?
— Sim. Ele trabalhou nisso.
— Ele ainda está aqui?
— Não.
— Quando saiu?
— Dois anos atrás.
— Para onde foi?
...
Nesse momento acontece um milagre contábil.
Um profissional que aparentemente valia R$ 55/h às 17h de sexta-feira pode adquirir valor extraordinário às 03:17 da terça-feira.
O código não mudou.
O conhecimento não mudou.
Mudou apenas nossa percepção sobre seu valor.
💊 Mas existe outra pílula azul importante
Seria intelectualmente desonesto transformar essa discussão em:
"programador bom, empresa má."
Não funciona assim.
Uma aplicação bancária não produz bilhões simplesmente porque alguém escreveu COBOL.
Existem milhares de pessoas envolvidas.
Arquitetura.
Operações.
Segurança.
Auditoria.
Compliance.
Jurídico.
Produto.
Negócio.
Infraestrutura.
Atendimento.
Gestão.
Regulação.
Executivos.
Investidores.
Clientes.
E décadas de capital acumulado.
O programador não criou sozinho aquele valor.
Da mesma forma, movimentar R$ 10 bilhões através de um programa não significa que o programador produziu R$ 10 bilhões.
Essa distinção é essencial.
Caso contrário nossa pílula vermelha vira apenas outra ilusão.
🔴 Então qual é a verdadeira pergunta?
Talvez seja esta:
A maneira como remuneramos conhecimento especializado representa adequadamente o investimento, o risco e o valor econômico desse conhecimento?
Não sei.
E desconfio de qualquer pessoa que tenha uma resposta simples.
Mas sei que vale perguntar.
Principalmente quando terceirização vira quarteirização.
E quarteirização vira uma cadeia tão grande que o profissional que efetivamente faz o trabalho sequer conhece quem originalmente está pagando por ele.
📚 "Mas você aceitou o contrato"
Sim.
Esse argumento também é válido.
Neo poderia continuar na MetaCortex.
Anderson poderia chegar no horário.
O profissional pode recusar determinado valor.
Em teoria.
Mas mercados reais possuem assimetria de poder e informação.
O banco sabe quanto paga.
A primeira consultoria sabe quanto recebe.
A segunda conhece sua margem.
O fornecedor conhece sua margem.
O profissional normalmente conhece apenas:
R$ 55/h
ACEITA?
SIM / NÃO
Ele pode negociar.
Mas negocia conhecendo toda a cadeia?
Provavelmente não.
Isso torna o contrato inválido?
Não.
Mas torna o mercado perfeitamente transparente?
Também não.
Duas coisas podem ser verdade ao mesmo tempo.
Bem-vindo à Matrix.
👔 Os agentes não precisam ser vilões
Talvez essa seja a parte mais importante deste café.
Não precisamos procurar vilões.
O gerente da consultoria provavelmente também possui metas.
O recrutador possui metas.
O procurement possui metas.
O executivo precisa reduzir custos.
O banco precisa gerar retorno.
O profissional precisa pagar boletos.
Cada pessoa está executando racionalmente sua pequena parte do sistema.
E o resultado agregado pode produzir algo que nenhuma delas planejou individualmente.
Isso é muito mais interessante do que uma conspiração.
Sistemas não precisam de vilões para produzir resultados estranhos.
Às vezes basta cada agente seguir suas próprias regras.
Quem trabalha com mainframe deveria entender isso melhor do que ninguém.
🐇 Follow the white rabbit
Talvez abrir os olhos da comunidade não signifique dizer:
"Vocês estão sendo explorados."
Isso seria simplista.
Talvez signifique ensinar cada profissional a perguntar:
Quanto investi na minha formação?
Quanto vale minha experiência?
Quanto custa substituir meu conhecimento?
Quanto minha hora custa para o cliente?
Quantas camadas existem entre mim e ele?
Que riscos a empresa assume?
Que riscos eu assumo?
Que valor cada intermediário adiciona?
Estou sendo remunerado apenas pelo meu tempo ou também pela raridade do meu conhecimento?
Estou construindo conhecimento transferível para minha próxima oportunidade?
Minha dependência deste contrato é maior do que a dependência da empresa em relação a mim?
E principalmente:
eu conheço meu próprio valor econômico ou apenas conheço meu salário?
Essa última pergunta pode ser desconfortável.
Talvez seja justamente por isso que vale fazê-la.
🤖 E então chegou a Inteligência Artificial
Agora coloque IA generativa dentro dessa equação.
Ficou interessante, não?
Durante décadas, profissionais produziram:
código,
documentação,
livros,
artigos,
perguntas,
respostas,
exemplos,
tutoriais,
fóruns,
manuais,
experiência coletiva.
Agora construímos máquinas capazes de transformar grandes quantidades de conhecimento em novas respostas e novos códigos.
E as antigas perguntas retornam maiores:
Quem produziu o conhecimento original?
Quem financiou sua produção?
Quem possui o resultado?
Quem captura o ganho de produtividade?
Se um desenvolvedor com IA produz aquilo que antes exigia três profissionais, quem captura essa diferença?
O desenvolvedor?
O cliente?
A consultoria?
O fornecedor da IA?
Todos?
Em quais proporções?
A toca do coelho ficou muito mais funda.
🏦 Juros compostos do conhecimento
Existe uma última ironia que adoro.
Bancos compreendem perfeitamente juros compostos.
Um capital aplicado hoje pode produzir valor durante anos.
Conhecimento funciona de maneira semelhante.
Você aprende COBOL.
Depois aprende CICS.
CICS ajuda a compreender transações.
Transações ajudam a entender sistemas distribuídos.
Depois chegam APIs.
Depois cloud.
Depois DevOps.
Depois IA.
O conhecimento novo não simplesmente substitui o anterior.
Frequentemente ele se conecta.
EXPERIÊNCIA
+
ESTUDO
+
ERROS
+
PROJETOS
+
TEMPO
=
CAPITAL INTELECTUAL
São os juros compostos da carreira.
Só existe uma diferença curiosa.
O banco sabe calcular perfeitamente os juros compostos do dinheiro.
Nós, profissionais, frequentemente somos péssimos em calcular os juros compostos do nosso próprio conhecimento.
🏛️ Espera... faltou alguém na Matrix
Até agora nossa arquitetura tinha esta aparência:
BANCO
↓
CONSULTORIA A
↓
CONSULTORIA B
↓
FORNECEDOR
↓
PROFISSIONAL
Mas está faltando uma entidade importante.
Muito importante.
ESTADO
│
┌───────────┼───────────┐
↓ ↓ ↓
TRIBUTOS TRABALHO PREVIDÊNCIA
│ │ │
└───────────┼───────────┘
↓
BANCO → CONSULTORIA → PROFISSIONAL
Agora nossa Matrix ficou um pouco mais completa.
Porque o valor que chega ao profissional também não corresponde necessariamente ao dinheiro que estará disponível para ele consumir, poupar ou investir.
Existem impostos.
Existem contribuições.
Existe previdência.
Existem diferentes regimes de contratação.
Existe CLT.
Existe PJ.
Existe autônomo.
Existe terceirizado.
Existe quarteirizado.
E existe uma pergunta que acompanha o trabalhador brasileiro durante décadas:
quanto daquilo que estou entregando hoje está realmente construindo minha segurança amanhã?
Essa pergunta merece outra xícara de café.
☕ O salário bruto é outra Matrix
Existe uma pequena experiência filosófica que todo trabalhador conhece.
Alguém pergunta:
— Quanto você ganha?
Existe uma resposta.
Depois chega o demonstrativo de pagamento.
E existe outra resposta.
SALÁRIO BRUTO
↓
DESCONTOS
↓
CONTRIBUIÇÕES
↓
IMPOSTOS
↓
SALÁRIO LÍQUIDO
↓
ALUGUEL
↓
ENERGIA
↓
ÁGUA
↓
ALIMENTAÇÃO
↓
TRANSPORTE
↓
BOLETOS
↓
"PARABÉNS! VOCÊ SOBREVIVEU AO MÊS."
Naturalmente, imposto não é simplesmente dinheiro desaparecendo em um buraco negro.
O Estado financia serviços públicos, infraestrutura, saúde, educação, segurança, previdência e inúmeras estruturas necessárias para a sociedade funcionar.
Da mesma maneira que seria intelectualmente desonesto dizer que toda margem de uma consultoria é lucro, seria igualmente simplista tratar toda tributação como dinheiro confiscado sem contrapartida.
A questão interessante continua sendo outra:
qual é a relação entre aquilo que entregamos, aquilo que contribuímos e a segurança que esperamos receber no futuro?
E aqui entramos numa das salas mais desconfortáveis da Matrix brasileira.
👴 A promessa chamada aposentadoria
Quando alguém começa a trabalhar jovem, aposentadoria parece uma abstração.
Aos vinte anos, sessenta parece pertencer a outra civilização.
Você pensa:
"Um dia."
E continua trabalhando.
Ano após ano.
Projeto após projeto.
Segunda-feira após segunda-feira.
20 anos
↓
25
↓
30
↓
35
↓
40
↓
45
↓
50
↓
...
Durante esse percurso existe uma espécie de contrato social implícito:
trabalhe, contribua e, no futuro, haverá proteção.
Não é uma conta de investimento individual simples. Sistemas previdenciários são muito mais complexos, envolvem solidariedade entre gerações, regras contributivas, demografia, financiamento e políticas públicas.
Mas, para o trabalhador olhando de dentro da cabine, a percepção pode ser muito mais simples:
"Estou entregando parte da minha renda e décadas da minha vida em troca de alguma segurança futura."
E então as regras mudam.
🐇 A linha de chegada que se movimenta
Aqui precisamos tomar cuidado com números simplificados.
Não podemos dizer literalmente:
COMEÇOU EM 1980 → TRABALHA 35 ANOS
COMEÇOU EM 1990 → TRABALHA 40 ANOS
COMEÇOU EM 2000 → TRABALHA 50 ANOS
COMEÇOU EM 2010 → TRABALHA 60 ANOS
A legislação brasileira nunca funcionou segundo essa progressão matemática.
Existem regras diferentes, reformas, idades, tempos de contribuição, categorias e sistemas de transição.
Mas como metáfora geracional, existe algo poderosíssimo aí.
Imagine uma esteira.
Você começa a correr.
No horizonte existe uma placa:
APOSENTADORIA
10 KM
Você corre.
Corre.
Corre.
Quando finalmente se aproxima:
ATUALIZAÇÃO DO SISTEMA...
NOVAS REGRAS APLICADAS.
A placa parece um pouco mais distante.
Continue correndo.
Isso não significa necessariamente que exista alguém maliciosamente movimentando a placa.
Existe uma questão demográfica real por trás disso.
As pessoas vivem mais.
A proporção entre trabalhadores ativos e beneficiários muda.
A natalidade cai.
O sistema precisa continuar financiável.
Existem contas que precisam fechar.
Essa é a pílula azul.
Mas existe também a vermelha.
🔴 Quanto da vida cabe numa planilha atuarial?
Um sistema previdenciário olha para:
EXPECTATIVA DE VIDA
NÚMERO DE CONTRIBUINTES
NÚMERO DE BENEFICIÁRIOS
IDADE
CONTRIBUIÇÕES
RECEITAS
DESPESAS
PROJEÇÕES
Tudo perfeitamente racional.
Mas existe uma variável difícil de colocar na planilha:
MELHORES ANOS DA VIDA
Dos vinte aos trinta.
Dos trinta aos quarenta.
Dos quarenta aos cinquenta.
Dos cinquenta aos sessenta.
Existe uma coisa que nenhum sistema previdenciário consegue devolver:
tempo.
Dinheiro pode ser compensado.
Salário pode aumentar.
Investimento pode render.
Patrimônio pode valorizar.
Tempo não possui ROLLBACK.
💾 TIME-USED PIC 9(02)
Imagine nosso programa COBOL da existência:
01 WS-IDADE PIC 9(03).
01 WS-TEMPO-TRABALHADO PIC 9(03).
01 WS-TEMPO-DISPONIVEL PIC 9(03).
01 WS-APOSENTADORIA PIC X(10).
PROCEDURE DIVISION.
PERFORM TRABALHAR
UNTIL WS-APOSENTADORIA = 'LIBERADA'.
PERFORM APROVEITAR-VIDA.
Parece razoável.
Só existe um pequeno problema de arquitetura.
Quanto mais tarde executamos:
PERFORM APROVEITAR-VIDA
menos sabemos sobre as condições em que essa rotina será executada.
Essa talvez seja uma das maiores ilusões modernas:
"Quando eu me aposentar, faço."
Quando me aposentar, viajo.
Quando me aposentar, estudo aquilo.
Quando me aposentar, vou morar naquele lugar.
Quando me aposentar, caminho por aquele país.
Quando me aposentar, escrevo meu livro.
Quando me aposentar, finalmente terei tempo.
Existe apenas uma variável que ninguém conhece:
FUTURO AVAILABLE? Y/N
🔵 Mas Morpheus precisa mostrar a outra pílula
Seria fácil transformar isso em:
"Previdência é uma fraude."
Não.
Seria uma conclusão irresponsável.
Previdência social possui uma função importantíssima.
Sem mecanismos coletivos de proteção, milhões de pessoas chegariam à velhice sem nenhuma fonte de renda.
Nem todo trabalhador consegue investir.
Nem toda carreira permite acumular patrimônio.
Existem doenças, desemprego, crises, acidentes, desigualdade e acontecimentos completamente imprevisíveis.
Proteção social existe justamente porque a vida não executa sempre com:
RETURN-CODE = 00
Às vezes vem:
S0C7
sem aviso.
Portanto, a discussão não deveria ser:
Estado ou indivíduo?
Talvez seja:
quanto da nossa segurança futura deveria depender exclusivamente de uma promessa cuja regra pode mudar ao longo de quarenta anos?
Essa pergunta é muito mais interessante.
🔴 O risco regulatório do trabalhador
Falamos anteriormente sobre risco empresarial.
Depois falamos sobre risco profissional.
Agora aparece outro:
risco regulatório.
Você pode planejar sua carreira considerando determinadas regras existentes aos 25 anos.
Mas possui pouquíssimo controle sobre quais regras existirão quando tiver 55.
Esse risco é particularmente curioso porque o horizonte é gigantesco.
Imagine contratar um serviço cujo prazo de entrega seja:
quarenta anos.
Durante esses quarenta anos:
governos mudarão,
leis mudarão,
moedas poderão mudar,
economias entrarão em crise,
tecnologias desaparecerão,
profissões nascerão,
demografia mudará,
e talvez o próprio conceito de trabalho seja transformado.
Mesmo assim, fazemos planejamento previdenciário atravessando todo esse período.
É quase um projeto mainframe.
Só que o sistema legado é você.
🧑💻 E o terceirizado?
Agora voltamos ao nosso profissional de R$ 55/h.
Dependendo da relação contratual, ele pode ter diferentes níveis de proteção.
Pode ser CLT.
Pode ser PJ.
Pode trabalhar por projeto.
Pode passar períodos sem contrato.
Pode precisar financiar sozinho sua formação.
Pode precisar formar sua própria reserva.
Pode ter benefícios diferentes.
Pode contribuir para a previdência de maneiras diferentes.
E talvez exista aqui uma das maiores contradições da chamada flexibilização do trabalho:
quanto mais risco transferimos ao indivíduo, mais necessário se torna que ele compreenda finanças, previdência e seu próprio valor econômico.
O antigo modelo dizia aproximadamente:
TRABALHE
↓
RECEBA
↓
CONTRIBUA
↓
APOSENTE
O novo mundo pode se parecer mais com:
ESTUDE
↓
PAGUE O ESTUDO
↓
ENCONTRE PROJETO
↓
TRABALHE
↓
PROJETO TERMINA
↓
PROCURE OUTRO
↓
ATUALIZE-SE
↓
PAGUE SUA PROTEÇÃO
↓
FORME RESERVA
↓
ACOMPANHE AS REGRAS
↓
RECOMECE
Isso é liberdade?
Pode ser.
Isso é precarização?
Também pode ser.
Depende de quem está olhando, das condições oferecidas e principalmente de quanto poder de escolha aquela pessoa realmente possui.
Outra vez:
pílula azul.
Pílula vermelha.
🕶️ Anderson entregou os melhores anos
E finalmente retornamos ao apartamento pequeno.
Talvez seja por isso que Thomas Anderson continue sendo tão reconhecível décadas depois.
Ele não começa como escolhido.
Começa como trabalhador.
Acorda.
Vai trabalhar.
Entrega tempo.
Recebe salário.
Volta para casa.
Tenta construir outra identidade durante as horas que sobraram.
E repete.
A grande provocação de Matrix talvez não seja simplesmente:
"Nossa realidade é falsa?"
Existe outra pergunta muito mais cotidiana:
"Quanto da sua realidade foi escolhido por você?"
Estudar foi escolha?
Trabalhar foi escolha?
Aceitar aquele projeto foi escolha?
Adiar aquela viagem foi escolha?
Trabalhar naquele sábado foi escolha?
Guardar dinheiro foi escolha?
Não guardar porque não sobrava foi escolha?
Esperar pela aposentadoria foi escolha?
Talvez algumas respostas sejam sim.
Outras não.
E muitas provavelmente sejam:
mais ou menos.
⏳ O único ativo não renovável
Dinheiro perdido pode voltar.
Emprego perdido pode ser substituído.
Uma certificação vencida pode ser renovada.
Uma tecnologia esquecida pode ser reaprendida.
Um sistema destruído pode ser restaurado do backup.
Mas existe um recurso sem disaster recovery:
TIME
Não existe:
RESTORE TIME
FROM BACKUP
WHERE YEAR = 1997.
Talvez essa seja a verdadeira pílula vermelha deste artigo.
Não é descobrir que bancos ganham dinheiro.
Sabíamos.
Não é descobrir que consultorias possuem margens.
Sabíamos.
Não é descobrir que o Estado cobra impostos.
Definitivamente sabíamos.
É perceber que, no centro de toda essa arquitetura, existe alguém pagando com uma moeda que nenhum dos outros participantes consegue fabricar:
tempo de vida.
E isso não significa abandonar o trabalho.
Não significa abandonar a CLT.
Não significa abandonar a previdência.
Não significa declarar guerra ao Estado, aos bancos ou às consultorias.
Significa apenas acrescentar uma variável ao nosso planejamento:
IF DINHEIRO > 0
AND TEMPO = 0
DISPLAY 'TRANSACTION FAILED'
END-IF.
Porque talvez tenhamos passado gerações ensinando trabalhadores a perguntar:
Quanto vou receber quando me aposentar?
Quando deveríamos também ensinar:
Quanto da minha vida estou disposto a adiar até lá?
Essa pergunta não cabe numa folha de pagamento.
Não aparece no Imposto de Renda.
Não aparece no contrato.
Não aparece no extrato previdenciário.
Mas talvez seja uma das contas mais importantes que faremos.
🔵 A pílula azul diz:
trabalhe agora para viver depois.
🔴 A vermelha pergunta:
e se "depois" não puder entregar aquilo que você adiou?
Nenhuma das duas elimina a necessidade de trabalhar.
Nenhuma elimina os boletos.
Nenhuma resolve a previdência.
Mas uma delas talvez faça você olhar para o relógio de maneira diferente.
E desta vez...
não estou falando do relógio de ponto.
🕶️ Wake up, Neo
Talvez seja isso que mais me fascine em Thomas Anderson.
Durante o dia, alguém dizia quanto ele valia.
Tinha cargo.
Salário.
Horário.
Chefe.
Identificação.
Lugar no organograma.
Na outra vida existia Neo.
Neo começou a descobrir que aquilo que sabia fazer tinha valor fora da estrutura que definia Anderson.
Não precisamos abandonar nossos empregos.
Não precisamos declarar guerra às consultorias.
Não precisamos exigir royalties por cada MOVE A TO B.
Não precisamos enxergar exploração em toda relação comercial.
Mas talvez devêssemos fazer algo muito mais simples.
Entender a Matrix.
Entender quem paga.
Quem recebe.
Quem arrisca.
Quem investe.
Quem aprende.
Quem intermedeia.
Quem mantém.
Quem captura valor.
E quem pode ser descartado quando o projeto termina.
Porque liberdade profissional não começa quando você pede demissão.
Começa quando você entende sua posição dentro do sistema.
☕ Cambio final, Torre de Controle
Da próxima vez que alguém disser:
— Sua hora vale R$ 55.
Talvez a resposta não precise ser:
— Isso é injusto!
Talvez seja simplesmente:
— Interessante. Quanto ela vale para o cliente?
Essa pergunta não acusa ninguém.
Não exige nada.
Não quebra contrato.
Não transforma empresa em inimiga.
Apenas acende uma luz.
E sistemas complexos ficam muito mais interessantes quando conseguimos enxergar suas conexões.
Talvez você descubra que os R$ 55 são perfeitamente razoáveis.
Talvez descubra que existem custos que nunca havia considerado.
Talvez perceba que a consultoria realmente adiciona enorme valor.
Ou talvez descubra cinco camadas entre seu teclado e o cliente, cada uma retirando uma pequena fatia de algo que começou em R$ 200.
Nesse momento você terá uma escolha.
Não entre capitalismo e socialismo.
Não entre empregado e empresário.
Não entre banco e programador.
Uma escolha muito mais simples.
🔵 Continuar olhando apenas para o número que aparece no contrato.
Ou...
🔴 Começar a entender toda a arquitetura econômica que existe atrás dele.
Morpheus provavelmente sorriria.
Porque a pílula vermelha nunca prometeu que aquilo que encontraríamos seria necessariamente injusto.
Prometeu apenas uma coisa:
ver o sistema como ele realmente funciona.
E para um programador COBOL...
convenhamos...
não existe convite mais irresistível do que esse.
IDENTIFICATION DIVISION.
PROGRAM-ID. WAKE-UP-NEO.
PROCEDURE DIVISION.
PERFORM ENTENDER-O-SISTEMA
UNTIL FIM-DA-CARREIRA.
DISPLAY 'KNOWLEDGE HAS VALUE'.
DISPLAY 'KNOW YOURS.'.
STOP RUN.
☕🕶️💊
Cambio final, Torre de Controle.
Wake up, Neo.
Os boletos já acordaram.