| Bellacosa mainframe e o dia que a impresna errou |
☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
Capítulo 8 — Business Week (1994)
O Dia em que a Imprensa Percebeu que Talvez Tivesse Enterrado o Mainframe Cedo Demais
Uma análise da reportagem publicada pela Business Week em 1994, mostrando como a indústria começou a reconhecer que as previsões sobre o fim do mainframe haviam sido exageradas e como o IBM Z continuou sua evolução tecnológica.
Por Vagner Bellacosa
"Quando os fatos mudam, a engenharia muda de direção. Quando o marketing muda de direção, normalmente muda também o discurso."
Contexto histórico
Após anos de previsões sobre o desaparecimento dos grandes sistemas, empresas descobriram que migrar aplicações críticas era muito mais caro, complexo e arriscado do que parecia nas apresentações de marketing.
George Colony, da Forrester Research, sintetizou essa mudança ao afirmar que era "o fim do fim dos mainframes", reconhecendo que a plataforma continuava estratégica para grandes organizações.
A grande lição
A Business Week mostrou que tendências tecnológicas precisam ser avaliadas à luz dos resultados reais e não apenas das expectativas do mercado.
O IBM Mainframe continuou evoluindo nas décadas seguintes, incorporando Linux, Java, virtualização, DevOps, APIs, cloud híbrida, OpenShift, Inteligência Artificial e chegando ao IBM z17 como uma das plataformas mais resilientes da computação corporativa.
Janeiro de 1994
Estamos agora em um momento extremamente interessante da nossa história.
Até aqui vimos uma sequência de previsões pessimistas.
"O dinossauro."
"O último mainframe será desligado."
"O mainframe está correndo rumo à extinção."
Parecia que existia um consenso.
O funeral já estava marcado.
Faltava apenas escolher quem faria o discurso de despedida.
Mas então aconteceu algo curioso.
O mercado começou a olhar para os números.
E os números possuem um defeito terrível para quem vive de buzzwords.
Eles não ligam para apresentações em PowerPoint.
Alguma coisa não fechava
As vendas de servidores realmente cresciam.
Os PCs realmente dominavam os escritórios.
As redes locais realmente se expandiam.
Mas...
Os bancos continuavam comprando mainframes.
As seguradoras também.
As bolsas de valores igualmente.
As companhias aéreas não desligavam seus CPDs.
Os governos continuavam investindo em grandes sistemas.
As empresas mais críticas da economia simplesmente... não estavam abandonando o IBM Mainframe.
Isso começou a chamar atenção.
O Business Week muda o tom
Em 10 de janeiro de 1994, a Business Week, uma das revistas de negócios mais respeitadas do mundo, publicou uma reportagem que destoava da narrativa predominante.
Em vez de insistir na ideia da morte inevitável do mainframe, a matéria citava George Colony, fundador da Forrester Research, com uma frase que se tornaria histórica:
"It's the end of the end for the mainframes."
Em tradução livre:
"É o fim do fim dos mainframes."
Parece um jogo de palavras.
E é exatamente isso.
Mas também representa uma mudança profunda de percepção.
Pela primeira vez, uma publicação de grande circulação reconhecia que talvez a indústria tivesse exagerado nas previsões anteriores. Essa mudança de tom foi registrada por Wolfgang Spruth em The Death of the Mainframe como um marco importante na evolução do debate sobre a plataforma IBM.
Traduzindo o economês
Vamos simplificar.
George Colony estava dizendo algo parecido com:
"Talvez tenhamos exagerado."
Ou ainda:
"Talvez o problema nunca tenha sido o mainframe."
Ou, numa tradução Bellacosa Mainframe:
"Pessoal... acho que enterramos o paciente antes de confirmar o óbito."
A realidade começou a aparecer
Entre 1991 e 1994 muitas empresas iniciaram grandes projetos de migração.
Alguns deram certo.
Outros...
Nem tanto.
Sistemas previstos para serem reescritos em dezoito meses completavam quatro anos de projeto.
Os custos disparavam.
A complexidade aparecia.
Regras de negócio esquecidas voltavam a assombrar as equipes.
Interfaces que ninguém conhecia surgiam do nada.
Programas COBOL escritos quinze anos antes continuavam funcionando perfeitamente.
Descobriu-se algo que nenhum folder de marketing mencionava.
Legado não significa velho.
Significa importante.
O verdadeiro patrimônio da empresa
Imagine uma seguradora.
Ela possui vinte milhões de clientes.
Cada contrato depende de dezenas de regras.
Regras legais.
Regras fiscais.
Regras atuariais.
Regras internas.
Agora imagine alguém dizendo:
— Vamos reescrever tudo.
A pergunta não é:
"Conseguimos?"
A pergunta é:
"Vale a pena?"
Essa simples mudança de perspectiva transformou completamente a discussão.
| Bellacosa Mainframe e o Cobol como o vilão favorito |
O COBOL virou o vilão favorito
Durante anos, COBOL foi apresentado como um símbolo do passado.
Parecia existir uma competição para descobrir quem faria a manchete mais dramática.
"O fim do COBOL."
"A última geração de programadores."
"Ninguém mais aprende COBOL."
Enquanto isso...
Universidades deixavam de ensinar COBOL.
Mas bancos continuavam contratando especialistas.
Governos continuavam executando milhões de linhas de código.
Seguradoras ampliavam seus sistemas.
Era uma situação curiosa.
Todo mundo dizia que COBOL estava morrendo.
Mas ninguém queria desligar o sistema que pagava salários.
O humor do velho operador
Imagine um operador de CPD lendo aquela reportagem da Business Week.
Ele olha para o relógio.
Depois para o console.
Mais um JOB termina normalmente.
Outro começa.
Ele comenta com o colega:
— Parece que cancelaram meu funeral.
O colega responde:
— Ainda bem.
Temos o fechamento contábil às oito.
A IBM não ficou parada
Existe um detalhe frequentemente esquecido.
Muitas análises daquela época tratavam o mainframe como se fosse uma tecnologia congelada.
Como se a IBM tivesse parado de inovar.
Isso simplesmente não era verdade.
Enquanto o mercado discutia Client/Server...
A IBM continuava investindo bilhões em pesquisa.
Novos processadores.
Mais memória.
Melhores canais de entrada e saída.
Virtualização cada vez mais sofisticada.
Novos sistemas operacionais.
Ferramentas de desenvolvimento.
Integração com redes abertas.
A plataforma evoluía continuamente.
A diferença é que evolução incremental raramente vira manchete.
O mercado aprendeu uma palavra nova
Na metade da década de 1990 começou a surgir um conceito importante.
Integração.
Até então o debate parecia binário.
Ou era Mainframe.
Ou era Client/Server.
Com o amadurecimento dos projetos, as empresas descobriram que poderiam ter os dois.
O front-end poderia rodar em PCs.
As aplicações departamentais em servidores distribuídos.
E o processamento crítico permanecer no mainframe.
Hoje isso parece óbvio.
Na época foi quase revolucionário.
O Padawan visita uma reunião de diretoria
Nosso Padawan COBOL entra discretamente na sala.
Um consultor termina sua apresentação.
— Precisamos substituir completamente o mainframe.
O diretor financeiro faz apenas uma pergunta.
— Quanto custará?
O consultor responde.
— Aproximadamente cinquenta milhões de dólares.
O diretor permanece em silêncio.
Depois pergunta novamente.
— E se não substituirmos?
Outro silêncio.
Nesse momento o arquiteto da empresa comenta:
— Podemos integrar os novos sistemas ao ambiente existente.
A reunião muda completamente de direção.
Porque, no mundo corporativo, arquitetura sempre precisa conversar com orçamento.
O início da convivência
Foi justamente nessa época que a indústria começou a abandonar uma visão extremamente simplista.
Não era mais uma guerra.
Não existia vencedor absoluto.
Cada plataforma possuía seu espaço.
Mainframe para grandes volumes transacionais.
Servidores distribuídos para aplicações departamentais.
PCs para produtividade.
Mais tarde chegariam Linux.
Java.
Web Services.
Cloud.
Containers.
OpenShift.
Todos convivendo.
Essa mudança de mentalidade talvez tenha sido muito mais importante do que qualquer evolução de hardware.
O "fim do fim"
A frase de George Colony continua brilhante porque resume perfeitamente aquele momento.
Não significava que o mainframe venceria todas as disputas.
Também não significava que nada mudaria.
Significava apenas que a narrativa da morte inevitável começava a perder força.
A indústria finalmente compreendia algo essencial.
Uma tecnologia pode deixar de ser a única solução.
Sem deixar de ser uma solução excelente.
Trinta e dois anos depois
Estamos em 2026.
O IBM z17 integra Inteligência Artificial diretamente na plataforma.
O watsonx fornece modelos corporativos.
O BOB automatiza pipelines modernos.
O Zowe aproxima desenvolvedores open source.
O Ansible automatiza operações.
O COBOL continua recebendo novas versões.
O Db2 continua evoluindo.
O CICS continua sendo um dos monitores transacionais mais eficientes do mundo.
A grande surpresa?
Nada disso exigiu abandonar a arquitetura construída ao longo de décadas.
A plataforma simplesmente evoluiu.
A quarta grande lição
A reportagem da Business Week representa um momento raro na história da tecnologia.
O instante em que parte da imprensa começou a perceber que previsões muito otimistas também precisam ser revisadas.
Esse talvez seja o maior ensinamento deste capítulo.
Boa engenharia não se apaixona por modismos.
Ela mede.
Testa.
Observa.
Corrige.
E muda de opinião quando os fatos mudam.
Foi exatamente isso que começou a acontecer em 1994.
O mercado percebeu que a pergunta nunca deveria ter sido:
"Quem vai substituir o mainframe?"
A pergunta correta era:
"Como integrar novas tecnologias ao que já funciona extraordinariamente bem?"
Essa mudança de pergunta moldou praticamente toda a computação corporativa das três décadas seguintes.
E talvez explique por que, em vez de um túmulo...
Encontramos em 2026 um IBM z17 executando COBOL, Db2, CICS, Linux, OpenShift, APIs REST, DevOps, watsonx e Inteligência Artificial.
O funeral foi cancelado.
A evolução, não.
Fonte histórica
Business Week, 10 de janeiro de 1994, citando George Colony (Forrester Research) com a frase "It's the end of the end for the mainframes." O artigo, preservado por Wolfgang Spruth em The Death of the Mainframe, marcou uma inflexão importante no discurso da indústria: pela primeira vez, uma grande publicação reconhecia que as previsões sobre a extinção do mainframe talvez tivessem sido precipitadas.
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