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sexta-feira, 21 de agosto de 2026

A VEJA do Conhecimento Proibido — Quando o Alerta aos Pais Virava Manual para os Filhos


☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

A VEJA do Conhecimento Proibido — Quando o Alerta aos Pais Virava Manual para os Filhos

Ou: como uma reportagem de dez páginas, três boxes amarelos, um endereço em letras miúdas e um “NÃO FAÇA ISSO” podiam ensinar uma geração inteira exatamente onde começar a procurar

Senta.

Pegue uma caneca de café.

Mas café velho.

Café de repartição.

Café preparado numa garrafa térmica bege que provavelmente já estava sobre a mesa quando Tancredo Neves foi eleito.

Porque hoje vamos voltar para uma época em que conhecimento obscuro não chegava até você.

Você precisava caçá-lo.

E nossos guias nesta expedição serão alguns dos maiores especialistas brasileiros em caminhar por lugares onde pessoas respeitáveis recomendariam não entrar:

os Fradins, Graúna e Ubaldo.

Henfil não precisará dizer muita coisa.

Ele ficará discretamente sentado no canto da página olhando para nós com aquela expressão de quem já percebeu a confusão muito antes dos demais.

Porque estamos entrando nos anos 1990.

E a Internet ainda cheira a naftalina.



📰 Era uma vez uma coisa chamada escassez de informação

É difícil explicar isso para alguém que nasceu depois do Google.

Hoje você manifesta interesse por alguma coisa durante aproximadamente onze segundos e o sistema inteiro começa a trabalhar.

Assista a um vídeo sobre fechaduras.

Pronto.

Daqui a pouco aparecem fechaduras.

Depois chaveiros.

Depois lockpicking.

Depois um sujeito explicando ferramentas.

Depois outro vendendo um curso.

Depois uma apostila.

Depois um camarada de boné dizendo que “o mercado não quer que você saiba disso”.

Em 48 horas o algoritmo transformou uma curiosidade inocente numa pós-graduação em Picaretagem Aplicada.

Você nem procurou.

A informação procurou você.

Nos anos 1990 era o contrário.

Existia uma enorme zona cinzenta do conhecimento.

Você sabia que determinadas coisas existiam.

Só não sabia como se chamavam.

E esse era um problema gigantesco.

Porque para pesquisar alguma coisa você precisava primeiro conhecer a palavra que permitia pesquisar aquela coisa.

Sem a palavra, não havia porta.

Sem porta, não havia corredor.

Sem corredor, não havia cofre.

E então, semanalmente, chegava às bancas uma espécie de dispositivo nacional de descoberta aleatória:

a revista VEJA.


🧐 A autoridade máxima entrou na sala

Não estamos falando de um panfleto mimeografado encontrado debaixo da mesa de uma feira de informática.

Era a VEJA.

A revista estava em consultórios.

Salas de espera.

Bibliotecas.

Escritórios.

Casas.

Empresas.

Bancas de jornal.

Você podia discordar dela, reclamar dela, escrever uma carta furiosa para ela e provavelmente cancelar a assinatura jurando nunca mais comprá-la.

Mas ninguém confundia VEJA com um papelzinho distribuído na Santa Ifigênia.

A reportagem vinha com jornalista.

Fotógrafo.

Infográfico.

Entrevistas.

Especialistas.

Polícia.

Autoridades.

Números.

Datas.

Mapas.

E, principalmente:

boxes.

Ah, os boxes.

O chimpanzé da Olivetti acaba de parar de datilografar.

Ele sabe onde estamos chegando.



📦 O maravilhoso box amarelo

Havia uma reportagem sobre algum fenômeno terrível que ameaçava a juventude brasileira.

Muito bem.

O cidadão responsável lia:

“Isso é perigosíssimo.”

O adolescente curioso lia:

“Opa.”

A reportagem prosseguia explicando que determinados grupos utilizavam uma tecnologia chamada IRC.

O pai:

— Meu Deus.

O filho:

— IRC?

Anotava.

Depois vinha:

Internet Relay Chat.

Anotava também.

Então aparecia um pequeno quadro lateral:

COMO FUNCIONA

Pronto.

Acabou.

O jornalista estava tentando contextualizar o fenômeno.

O curioso acabava de receber o primeiro capítulo do manual.

Servidor.

Canal.

Nickname.

Comando.

Terminologia.

Às vezes aparecia até o nome de algum canal citado como exemplo do ambiente que deveria preocupar os pais.

O pai terminava a matéria pensando:

“precisamos proteger nossos filhos disso.”

O filho terminava pensando:

“preciso instalar esse tal de mIRC.”

Graúna observa tudo.

Fradim sorri.

Ubaldo provavelmente já está conectado.




🐒 A informação proibida precisava de uma palavra

Esse talvez seja o ponto mais importante.

Os primeiros mecanismos de busca não eram oráculos.

Você precisava perguntar direito.

E como perguntar sobre algo cujo nome você desconhecia?

Era aí que uma grande reportagem tinha um poder extraordinário.

Ela fornecia vocabulário.

Você descobria que determinada prática possuía um nome.

Que determinado programa existia.

Que determinado protocolo era usado.

Que determinada comunidade frequentava certo serviço.

Que havia uma expressão específica utilizada naquele universo.

Agora você possuía a chave.

Não precisava mais procurar:

“aquele negócio estranho que umas pessoas fazem no computador”.

Você possuía o termo técnico.

Digitava a palavra.

E uma pequena passagem secreta aparecia na parede da Internet.



🏴‍☠️ Cuidado com a pirataria — endereço na página 47

Outro clássico.

A reportagem denunciava o comércio ilegal.

Excelente.

Mostrava uma loja.

Nome.

Rua.

Região.

Às vezes fotografia.

Às vezes explicava como funcionava o esquema.

A Polícia Federal havia fechado o estabelecimento.

O leitor responsável pensava:

— Muito bem! Fecharam!

O leitor brasileiro experimental pensava:

— Interessante...

Guardava a edição.

Algum tempo depois passava pelo endereço.

E eis que ocorria um fenômeno conhecido pela ciência brasileira como:

RESSURREIÇÃO COMERCIAL ESPONTÂNEA.

A loja estava novamente funcionando.

Talvez com outra placa.

Talvez com o mesmo sujeito.

Talvez com o mesmo balcão.

Talvez o único avanço tecnológico fosse um novo cadeado na porta.

A reportagem que pretendia documentar uma repressão havia inadvertidamente preservado algo extremamente precioso:

a coordenada geográfica.



🇵🇾 Preciso comprar um computador

Hoje você abre vinte comparadores de preços.

Em algum momento dos anos 1990, entretanto, você podia descobrir numa reportagem que existia um lugar chamado:

Ciudad del Este.

Paraguai.

Computadores.

Componentes.

Eletrônicos.

Importação.

Contrabando.

Sacoleiros.

Fronteira.

Lojas.

Preços.

Rotas.

A matéria pretendia explicar um fenômeno econômico e policial.

Mas o sujeito que estava olhando para o preço de um computador no Brasil começava a fazer uma matemática diferente.

— Então quer dizer que...

Fradim imediatamente coloca a mão na boca dele.

Não conclua em voz alta.



💾 Santa Ifigênia.exe

São Paulo tinha ainda uma versão especial desse mecanismo.

A imprensa nacional mostrava o fenômeno.

A imprensa local mostrava o CEP.

Podia aparecer uma matéria na VEJA São Paulo sobre determinada região do centro.

Xavier de Toledo.

Santa Ifigênia.

Galerias.

Lojas.

Software.

Hardware.

Camelôs.

Alguma coisa acontecendo discretamente atrás de um balcão.

Duas semanas depois, uma reportagem maior explicava a pirataria de software no Brasil.

Depois vinha o caderno de informática de algum jornal.

Depois uma revista especializada.

Era possível montar o quebra-cabeça.

Nenhuma peça precisava conter o mapa inteiro.

Uma fornecia o lugar.

Outra fornecia o nome.

Outra explicava a tecnologia.

Outra apresentava a gíria.

Outra mostrava o fenômeno internacional.

E o cérebro humano fazia uma coisa maravilhosa:

A + B + C + curiosidade = vou dar uma olhada nisso

Não havia algoritmo de recomendação.

O algoritmo era você.



🔎 AltaVista, Cadê?, Yahoo! e a arqueologia da palavra certa

Quando os mecanismos de busca começaram a melhorar, surgiu uma nova modalidade de caça ao tesouro.

Uma reportagem mencionava um termo obscuro.

Você anotava.

Depois procurava.

E descobria outra palavra.

Procurava a segunda.

Encontrava uma terceira.

Era uma espécie de árvore de conhecimento construída manualmente.

Hoje chamamos isso de navegação.

Naquela época parecia exploração.

Porque frequentemente você não sabia onde terminaria.

Começava procurando alguma coisa perfeitamente inocente.

Quarenta minutos depois estava lendo uma página hospedada numa universidade da Finlândia escrita por um sujeito chamado DarkWizard73 explicando algo que você nem sabia que existia naquela manhã.

A Internet não possuía estradas asfaltadas.

Possuía trilhas.

E algumas revistas funcionavam como sujeitos numa taverna medieval dizendo:

— Não aconselho ninguém a atravessar aquela floresta.

— Por quê?

— Porque depois do moinho existe uma trilha à esquerda que leva até uma ponte...

Espere.

Depois do moinho?

Trilha à esquerda?

Graúna olha para Fradim.

Fradim pega o mapa.



📡 O curioso caso do canal que cresceu 30%

Esta é uma das imagens mais divertidas de imaginar.

Uma grande reportagem nacional menciona algum pequeno canto obscuro da Internet.

Um servidor.

Um fórum.

Uma página.

Um canal de IRC.

Na segunda-feira havia 80 pessoas.

Sai a revista.

Terça-feira:

Quarta:

Sexta:

218 brasileiros.

E em algum lugar do planeta o administrador provavelmente olhava para os logs:

— What the hell happened in Brazil?

Começavam as teorias.

Algum hacker famoso indicou?

Universidade?

Lista de discussão?

Conferência?

Não.

Saiu um box amarelo na página 63.



✉️ E então surgia o sistema de recuperação de backup

Mas havia um recurso ainda mais espetacular.

As cartas dos leitores.

Imagine que você perdeu uma reportagem maravilhosa.

Não sabia que ela existia.

Acabou.

Certo?

Errado.

Três semanas depois aparecia:

“A reportagem publicada na edição nº XXXX sobre determinado assunto foi irresponsável...”

Opa.

QUE REPORTAGEM?

O leitor furioso acabava de funcionar como mecanismo de indexação.

Você anotava a edição.

Ia até uma biblioteca.

Pedia os números antigos.

Localizava a revista.

Encontrava a matéria.

E começava a investigação retroativa.

Era praticamente:

Google Alerts movido a indignação.

O sujeito escreveu para reclamar.

Você leu a reclamação e descobriu algo que não sabia que precisava conhecer.

O Fradim agradece respeitosamente ao cidadão indignado.



🧠 VEJA + Superinteressante: RAID 1 da curiosidade brasileira

E havia uma combinação particularmente deliciosa.

Uma revista abordava o fenômeno pelo lado jornalístico.

Outra mergulhava na ciência, comportamento, tecnologia ou curiosidade.

Às vezes os assuntos coincidiam.

Às vezes se complementavam.

Você lia uma reportagem numa publicação e algumas semanas depois encontrava outra peça em outra.

A segunda matéria fornecia palavras novas.

As palavras levavam à Internet.

A Internet levava a uma BBS.

A BBS indicava IRC.

IRC levava a FTP.

FTP levava a um arquivo TXT escrito em 1989.

E pronto.

Sua tarde havia acabado.

Não existia autoplay.

Não existia feed infinito.

Não existia “conteúdo recomendado para você”.

Existia algo muito mais perigoso:

curiosidade.



📰 Folha e Estadão também entregavam munição intelectual

Naturalmente, VEJA não estava sozinha.

Os cadernos de informática dos grandes jornais eram preciosos.

Havia revistas de informática.

Colunas.

Suplementos.

Livros.

BBSs.

Listas de discussão.

Programas de televisão.

A diferença era a capacidade ocasional de uma grande revista semanal de entregar dez páginas de contexto de uma só vez.

História.

Personagens.

Tecnologia.

Vocabulário.

Fotografias.

Endereços.

Infográficos.

E o inevitável:

ALERTA AOS PAIS

O equivalente editorial de colocar uma placa luminosa diante de milhares de adolescentes:

TEM ALGUMA COISA MUITO INTERESSANTE AQUI.



🚨 “Não procure estas palavras”

Talvez uma das maiores contradições da comunicação sobre perigos seja esta:

Para avisar alguém sobre determinado conteúdo, frequentemente precisamos identificar o conteúdo.

E identificar fornece uma chave de busca.

Imagine o censor perfeito:

“Existem palavras que não devem ser pesquisadas.”

Excelente.

Quais?

“Não podemos dizer.”

Perfeito.

Sistema seguro.

Agora imagine:

“Especialistas alertam os pais para que os filhos não pesquisem termos como X, Y e Z.”

Muito obrigado.

Fradim já anotou X.

Graúna ficou com Y.

Ubaldo está procurando Z.

Os chimpanzés pediram mais papel para a Olivetti.



🐒 O efeito chimpanzé

E aqui chegamos ao mecanismo central desta história.

Não era necessário que jornalista algum desejasse ensinar nada.

Muito pelo contrário.

A reportagem podia estar corretamente denunciando, contextualizando ou alertando.

Mas informação possui uma propriedade curiosa:

o leitor escolhe qual problema pretende resolver com ela.

O repórter escreve:

“Veja como funciona este esquema para que você possa reconhecê-lo.”

Um leitor interpreta:

“Agora sei reconhecer.”

Outro:

“Agora sei procurar.”

Outro:

“Então é esse o nome?”

Outro:

“Onde fica mesmo?”

Outro:

“Qual era aquele programa citado?”

E finalmente surge nosso chimpanzé.

Ele fecha a revista.

Liga o 486.

O Windows 95 começa sua cerimônia litúrgica.

O modem acorda.

Piiiiiiii...

KRRRRRRR...

TCHHHHHHHHH...

GRRRR-PI-PI-PI...

Conectado.

33.6 kbps.

E começa a procurar.



🕵️ O editor jamais conheceria todos os usos possíveis daquela informação

Essa talvez seja a parte mais fascinante olhando décadas depois.

Durante uma ditadura, o censor procurava palavras, ideias, imagens e mensagens consideradas perigosas.

Décadas mais tarde, numa sociedade democrática e numa imprensa muito mais aberta, surgia outro problema completamente diferente:

ninguém conseguia prever o que um leitor curioso faria com informação perfeitamente legítima.

Não era preciso esconder mensagem alguma.

Não havia código secreto.

Não havia conspiração.

O conteúdo estava publicado.

Revisado.

Impresso.

Distribuído nacionalmente.

Aprovado editorialmente.

E justamente por isso tinha enorme autoridade.

Era quase uma certificação:

EXISTE.

Esse simples carimbo possuía valor gigantesco.

Porque antes de saber como encontrar algo, frequentemente precisávamos saber que aquilo existia.



🤖 Hoje o problema virou do avesso

Trinta anos depois, temos o problema contrário.

A dificuldade não é descobrir.

É escapar da descoberta.

Curta um vídeo.

O algoritmo oferece vinte.

Pare três segundos diante de uma publicação.

Ele percebe.

Pesquise uma coisa.

Durante uma semana aparecem anúncios relacionados.

A velha zona cinzenta desapareceu em muitos lugares.

Em compensação surgiu uma avalanche.

Antes tínhamos:

escassez de pistas.

Hoje temos:

superprodução de pistas.

Antes você precisava juntar três revistas, dois jornais, uma conversa no IRC e uma página encontrada no AltaVista.

Hoje um influenciador entrega:

“OS SETE SEGREDOS QUE NÃO QUEREM QUE VOCÊ SAIBA — O SEXTO VAI TE SURPREENDER.”

E, naturalmente, vende a apostila por R$ 29,90.

Perdemos alguma coisa nessa transição.

Não necessariamente porque o passado fosse melhor.

Era terrivelmente ineficiente.

Mas justamente a ineficiência produzia acidentes maravilhosos.

Você procurava A.

Encontrava B.

Precisava entender C.

Descobria D.

E terminava apaixonado por Z.



🧭 A serendipidade analógica

Talvez seja esse o verdadeiro objeto desta homenagem.

Não pirataria.

Não contrabando.

Não IRC.

Não lojas obscuras.

Mas uma forma desaparecida de serendipidade.

A descoberta acidental que exigia esforço.

A revista fornecia uma pista.

A biblioteca fornecia outra.

O jornal confirmava.

A Superinteressante acrescentava contexto.

Um amigo lembrava de alguma coisa.

Você procurava uma edição antiga.

Encontrava outro artigo ao lado.

Esquecia completamente o assunto original.

Saía da biblioteca sabendo alguma coisa que jamais havia planejado aprender.

Hoje o algoritmo tenta prever o que você quer.

Naquela época, frequentemente, nem você sabia o que queria.

E justamente por isso encontrava coisas extraordinárias.



☕ Epílogo — O box amarelo

Imagino uma biblioteca em algum momento de 1996.

Uma mesa.

Uma VEJA aberta.

Um adolescente ou jovem adulto copiando alguma palavra para um pedaço de papel.

Talvez um endereço.

Talvez o nome de um programa.

Talvez uma expressão em inglês.

Talvez apenas alguma coisa que parecesse estranha.

Naquela noite ele liga o computador.

O modem chia.

A linha telefônica da casa fica ocupada.

A mãe reclama:

— DESLIGA ESSA INTERNET QUE EU PRECISO USAR O TELEFONE!

Ele pede mais cinco minutos.

Abre o mecanismo de busca.

Digita aquela palavra.

Enter.

E uma porta aparece.

Décadas depois, talvez ele nem lembre o que encontrou.

Mas lembra perfeitamente da sensação.

Existe alguma coisa depois daqui.

Henfil continua quieto no canto.

Graúna observa aquela humanidade complicada.

Ubaldo já desapareceu dentro de algum servidor IRC.

E o Fradim pega discretamente o box amarelo da reportagem, dobra, coloca no bolso e olha para nós:

— Então isso aqui é justamente o que disseram para não procurar?

É.

— E imprimiram o nome?

Imprimiram.

— Explicaram onde fica?

Também.

— E disseram como funciona?

Tem infográfico na página seguinte.

Silêncio.

Ao fundo, um milhão de chimpanzés abandonam simultaneamente suas Olivettis e correm em direção aos modems.

Piiiiiiii...

KRRRRRRR...

TCHHHHHHHHH...

Algum editor, em algum lugar, sente um arrepio inexplicável.

E numa pequena sala iluminada por um monitor CRT, alguém acaba de descobrir uma coisa que não sabia que existia quinze minutos antes.

Não foi o algoritmo.

Não foi um influenciador.

Não foi uma recomendação personalizada.

Foi uma revista séria, conceituada e respeitável dizendo solenemente:

“Não vá até lá.”

E fornecendo o mapa.

Bons tempos.

Não necessariamente melhores.

Mas certamente muito mais trabalhosos para os chimpanzés.


Para ir mais longe



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segunda-feira, 14 de novembro de 2022

💬 mIRC — o templo dos deuses da tecla e do @nick

 

Bellacosa Mainframe relembra o mIRC

💬 mIRC — o templo dos deuses da tecla e do @nick

Ah, padawan… se o John Castaway era o náufrago solitário da tela, o mIRC era o porto onde todos os náufragos digitais se encontravam. Antes do WhatsApp, antes do Discord, antes de qualquer “meta” existir, havia um santuário de texto, silêncio e códigos coloridos piscando — o mIRC, lançado em 1995 pelo lendário Khaled Mardam-Bey, um programador sírio radicado em Londres que, sem saber, criou a primeira grande república digital da humanidade.

⚙️ O nascimento do império do /join
mIRC era o cliente mais popular do IRC (Internet Relay Chat), aquele protocolo raiz que fazia a internet parecer um grande confessionário coletivo. Você escolhia um nick (geralmente algo entre místico e vergonhoso — tipo DarkAngelBR_88), entrava num canal como #brasil ou #hackers, e pronto: era parte da elite cibernética.
Sem stories, sem filtros, sem stickers — só texto, scripts, e a adrenalina de um /msg secreto.



💾 A cultura mIRCiana
O mIRC não era só um programa, era uma forma de vida.
Quem viveu sabe: madrugadas regadas a ICQ tocando uh-oh, trocas de MP3s via DCC, scripts com janelas pop-up piscando como boates eletrônicas e duelos de bots automáticos que respondiam insultos em CAPS LOCK.
Era o tempo em que “entrar na internet” era uma cerimônia: conectar o modem 56k, ouvir o chiado divino e digitar /server irc.brasnet.org.

Impacto cultural (e sentimental)
O mIRC criou o primeiro microcosmo social da web. Foi onde nasceram amizades, paixões, tretas homéricas e até casamentos (e divórcios).
Ali o anonimato era libertador — você podia ser quem quisesse, e ninguém ligava se usava Comic Sans no status.
Foi também o berço dos clãs digitais e das guerras de flood, onde honra se defendia com código e sarcasmo.



🧠 Curiosidades dignas de El Jefe:

  • Khaled Mardam-Bey nunca fez fortuna com o mIRC. Ele vendia licenças baratinhas e doava boa parte da grana pra caridade.

  • O mIRC tinha sua própria linguagem de programação — o mIRC Scripting Language (MSL) — e muitos hackers e devs começaram a carreira escrevendo scripts ali.

  • Nos anos 2000, existiam mais de 10 milhões de usuários ativos trocando mensagens em milhares de redes IRC no mundo.

  • No Brasil, a BrasNET e a IRCBrasil eram templos sagrados. Tinha até campeonato de nick mais criativo.

  • E sim, o mIRC ainda existe. Atualizado. Em pleno 2022. Porque o culto não morre.

💡 Dica do Bellacosa:
Quer sentir o gosto do caos romântico da internet raiz? Baixe o mIRC, entre num servidor ativo (sim, ainda há muitos) e escreva:

/join #nostalgia

Deixe o nick piscar, observe as mensagens fluírem e sinta o cheiro de modem queimando em sua alma.

🔥 Reflexão estilo Bellacosa Mainframe:
O mIRC foi o berço da nossa curiosidade digital, quando cada /whois era um mistério e cada /away escondia uma história.
Era um mundo sem algoritmo, sem likes, onde a popularidade vinha pela língua afiada e o script bem feito.
No mIRC, aprendemos que conexão não é banda larga — é sintonia.

E no fim das contas, padawan…
talvez o mIRC nunca tenha morrido. Ele só entrou em away mode. 💭

#BellacosaMainframe #ElJefe #InternetRaiz #mIRC #NostalgiaDigital


terça-feira, 10 de abril de 2018

O Mistério das Regiões Invisíveis : Como o MRO Transformou o CICS em uma Cidade Secreta Onde Cada Região Guarda um Segredo

 

Bellacosa Mainframe e o misterio das regioes invisiveis

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

O Mistério das Regiões Invisíveis

Como o MRO Transformou o CICS em uma Cidade Secreta Onde Cada Região Guarda um Segredo

"Naquela manhã, o operador jurava que a transação havia desaparecido. O terminal permaneceu em silêncio por menos de um segundo. Quando a resposta voltou, parecia mágica. Mas não era magia. Era engenharia. E como todo bom mistério, existiam corredores invisíveis, mensageiros silenciosos e guardiões que ninguém via..."


Prólogo — O Caso do Banco que Nunca Dormia

Imagine entrar em uma agência bancária às oito horas da manhã.

Ao mesmo tempo em que você consulta seu saldo:

  • milhares de pessoas pagam boletos;

  • empresas enviam folhas de pagamento;

  • cartões são autorizados;

  • caixas eletrônicos distribuem dinheiro;

  • aplicativos móveis fazem PIX;

  • APIs atendem fintechs;

  • internet banking consulta investimentos.

Tudo isso acontece em menos de um segundo.

Quem faz esse milagre?

Muitos responderiam:

"O CICS."

Mas essa resposta está incompleta.

A verdadeira resposta é muito mais interessante.

O CICS não trabalha sozinho.

Ele coordena uma pequena cidade.

Uma cidade composta por especialistas.

Cada edifício possui uma função.

Cada habitante conhece exatamente seu trabalho.

E todos se comunicam através de túneis invisíveis.

Esse sistema secreto atende por um nome:

MRO — Multi-Region Operation.

Hoje vamos abrir a porta desse mundo escondido.

Pegue seu café.

A investigação começou.


Capítulo 1 — Quando Um Único CICS Não Era Mais Suficiente

No início da computação corporativa era comum existir apenas uma única região CICS.

Ela fazia tudo.

Recebia usuários.

Executava COBOL.

Acessava VSAM.

Conversava com DB2.

Controlava impressoras.

Respondia terminais.

Era uma verdadeira central de operações.

Visualmente:

Usuários
     │
     ▼
+----------------+
|    CICS        |
| Tudo acontece  |
| aqui           |
+----------------+
     │
     ▼
Arquivos / DB2

Parecia perfeito.

Até que chegaram milhões de usuários.

Foi como transformar uma pequena delegacia em uma capital inteira.

A fila aumentou.

A CPU começou a sofrer.

Os tempos de resposta cresceram.

E surgiu uma pergunta:

"E se dividíssemos as responsabilidades?"

Essa simples ideia mudaria a história do CICS.


Capítulo 2 — O Nascimento da Cidade Secreta

A IBM percebeu algo extremamente elegante.

Nem todo mundo precisava fazer tudo.

Assim como uma cidade possui:

  • prefeitura;

  • hospital;

  • biblioteca;

  • fórum;

  • correios;

o CICS também poderia criar especialistas.

Nascia o conceito de Multi-Region Operation.

Agora existiam regiões especializadas.

Cada uma extremamente eficiente.

Não era mais um prédio gigantesco.

Era uma metrópole inteira.


Capítulo 3 — Conheça os Três Grandes Personagens

Se o MRO fosse um filme noir dos anos 1950, existiriam três protagonistas.

TOR

O Porteiro.

O Concierge.

O Recepcionista.

Nunca resolve o problema.

Mas sabe exatamente para quem enviar.

Ele recebe o visitante e pergunta:

"Em que posso ajudar?"

Depois encaminha a pessoa ao especialista correto.

Jamais executa o trabalho pesado.

Sua missão é apenas direcionar.


AOR

O Detetive.

Aqui mora o cérebro.

É onde vivem os programas COBOL.

Onde estão:

  • EXEC CICS

  • EXEC SQL

  • CALL

  • LINK

  • XCTL

É nessa região que a lógica de negócio acontece.

Quando alguém consulta saldo...

Quem calcula?

O AOR.

Quem faz validações?

O AOR.

Quem chama programas?

O AOR.

Ele é o verdadeiro investigador do caso.


FOR

O Arquivista.

Imagine um enorme cofre.

Centenas de estantes.

Milhões de documentos.

O FOR é responsável por guardar tudo.

VSAM.

KSDS.

RRDS.

ESDS.

Nada entra.

Nada sai.

Sem passar por ele.


Capítulo 4 — Os Túneis Invisíveis

Agora surge a pergunta.

Como essas regiões conversam?

Resposta:

IRC — Interregion Communication.

O IRC é o correio secreto da cidade.

Imagine túneis subterrâneos ligando todos os prédios.

As pessoas caminham por eles sem serem vistas.

No CICS acontece exatamente isso.

TOR
 │
 │ IRC
 ▼
AOR
 │
 │ IRC
 ▼
FOR

O usuário nunca percebe.

Para ele existe apenas uma resposta.

Mas internamente houve uma verdadeira viagem.


Capítulo 5 — A Jornada de uma Consulta de Saldo

Vamos acompanhar uma única transação.

Você abre o aplicativo do banco.

Digita sua senha.

Pressiona:

Consultar Saldo

O que acontece?

Passo 1

O pedido chega ao TOR.

O TOR olha a fila.

Existem oito AOR disponíveis.

Qual está mais livre?

Escolhe uma.


Passo 2

Via MRO.

O pedido atravessa o IRC.

Chega ao AOR.


Passo 3

O programa COBOL inicia.

Ele verifica:

  • agência;

  • conta;

  • autenticação;

  • permissões.


Passo 4

Agora precisa acessar o cadastro.

Quem possui os arquivos?

O FOR.

Nova viagem.


Passo 5

O FOR abre o VSAM.

Localiza o cliente.

Retorna:

Saldo:

R$ 8.435,91


Passo 6

O COBOL monta a tela.


Passo 7

O TOR devolve a resposta.

Tudo isso pode ocorrer em poucos milissegundos.

Parece magia.

Mas é apenas uma arquitetura brilhantemente organizada.


Capítulo 6 — O Grande Segredo da Escalabilidade

Imagine uma loja.

Existem apenas dois caixas.

Forma-se fila.

O gerente faz o quê?

Contrata mais caixas.

O mesmo ocorre com o CICS.

Hoje:

TOR

↓

AOR1
AOR2

Amanhã:

TOR

↓

AOR1
AOR2
AOR3
AOR4
AOR5

Nenhuma linha do COBOL precisou mudar.

Esse é um dos maiores poderes do MRO.

Escalar sem reescrever aplicações.

Décadas antes da computação em nuvem.


Capítulo 7 — Alta Disponibilidade

Imagine um AOR travando.

Antigamente...

Tudo parava.

Hoje:

TOR

↓

AOR1

AOR2

AOR3 (OFF)

AOR4

AOR5

As novas transações seguem para as demais regiões.

O cliente sequer percebe.

Essa capacidade é um dos motivos pelos quais bancos conseguem funcionar praticamente vinte e quatro horas por dia.


Capítulo 8 — MRO Não é ISC

Essa confusão aparece em praticamente toda entrevista técnica.

Vamos resolver isso de uma vez.

MRO

Mesmo z/OS.

Mesmo computador.

Mesma LPAR.

Regiões diferentes.


ISC

Outro computador.

Outra LPAR.

Outro ambiente.

Outra máquina.

Em outras palavras:

MRO trabalha "dentro da cidade".

ISC comunica cidades diferentes.

Uma excelente forma de memorizar.


Capítulo 9 — O CICS Antecipou os Microsserviços?

Curiosamente...

Muito antes da palavra "microsserviços" existir...

O CICS já fazia algo parecido.

Observe.

Cada região possui uma responsabilidade.

TOR:

Entrada.

AOR:

Processamento.

FOR:

Persistência.

Separação.

Especialização.

Baixo acoplamento.

Balanceamento.

Escalabilidade.

Isso soa familiar?

Sim.

Muitas ideias atribuídas às arquiteturas modernas já estavam presentes no mundo mainframe há décadas, embora implementadas de maneira diferente e com objetivos próprios.


Capítulo 10 — Como um Programador COBOL Deve Pensar

Um erro comum do iniciante é imaginar:

"Meu programa roda no CICS."

Na verdade...

Seu programa normalmente roda:

No AOR.

Quem recebeu o usuário foi outro.

Quem abriu o VSAM foi outro.

Quem fez o roteamento foi outro.

Seu COBOL é apenas uma peça da investigação.

Quanto antes compreender isso...

Mais fácil será entender:

  • performance;

  • dumps;

  • rastreamento;

  • problemas de produção;

  • roteamento.


Capítulo 11 — Onde Entram os Comandos EXEC CICS?

Quando o COBOL executa:

EXEC CICS READ FILE('CLIENTE')
END-EXEC.

Você imagina:

"CICS abriu o arquivo."

Na realidade, dependendo da arquitetura, a solicitação pode viajar:

Programa COBOL

AOR

MRO

FOR

VSAM

FOR

AOR

Programa COBOL

Essa viagem inteira acontece antes da próxima instrução COBOL ser executada.

É por isso que compreender arquitetura é tão importante quanto aprender sintaxe.


Capítulo 12 — Dicas de Ouro para Quem Está Começando

✔ Não memorize apenas siglas. Entenda a responsabilidade de cada região.

✔ Sempre desenhe o fluxo de uma transação antes de estudar comandos.

✔ Aprenda primeiro TOR, depois AOR, depois FOR e só então MRO.

✔ Quando estudar desempenho, pergunte sempre: "Em qual região estou?"

✔ Ao analisar um problema de produção, descubra primeiro onde a transação foi roteada.

✔ Entender MRO ajuda a interpretar logs, SMF, rastreamentos e ferramentas de monitoramento com muito mais clareza.


Curiosidades do CPD

☕ Alguns ambientes bancários possuem dezenas de AORs trabalhando simultaneamente.

☕ O usuário nunca sabe por qual região passou.

☕ Uma mesma transação pode ser atendida por AORs diferentes ao longo do dia.

☕ Em ambientes grandes, o número de regiões CICS pode ultrapassar uma centena, cada uma com funções específicas.

☕ Muitas arquiteturas modernas de alta disponibilidade adotam princípios semelhantes aos usados pelo CICS desde os anos 1980.


Easter Eggs do Bellacosa Mainframe 🕵️

🔎 Easter Egg #1 — O Porteiro Invisível

Assim como Alfred organizava discretamente a Mansão Wayne enquanto Batman enfrentava os vilões, o TOR raramente recebe os holofotes. Ele apenas garante que cada visitante encontre o caminho certo.


🔎 Easter Egg #2 — A Cidade Subterrânea

Os túneis do IRC lembram passagens secretas de romances policiais clássicos. O cidadão comum nunca os vê, mas toda a cidade depende deles.


🔎 Easter Egg #3 — O Arquivista

O FOR faz lembrar os grandes arquivos de bibliotecas históricas: silencioso, organizado e indispensável. Sem ele, encontrar um único registro entre milhões seria um pesadelo.


🔎 Easter Egg #4 — A Ponte para o Futuro

Quando ouvir alguém dizer que microsserviços inventaram a separação de responsabilidades, sorria. O CICS já demonstrava esse princípio décadas antes, em um contexto completamente diferente, provando que boas ideias atravessam gerações.


Perguntas de Entrevista

O que significa MRO?

Multi-Region Operation.


Qual seu objetivo?

Permitir comunicação entre regiões CICS executando no mesmo z/OS.


Quem recebe usuários?

TOR.


Quem executa COBOL?

AOR.


Quem controla VSAM?

FOR.


Quem liga tudo?

IRC através do MRO.


MRO funciona entre máquinas diferentes?

Não.

Para isso normalmente utiliza-se ISC.


Conclusão — O Mistério Resolvido

Durante décadas, milhares de profissionais observaram apenas a superfície do CICS. Viam uma tela 3270 responder em menos de um segundo e imaginavam existir apenas um grande programa fazendo todo o trabalho. A realidade é muito mais fascinante.

Por trás de cada transação existe uma verdadeira cidade invisível: porteiros que recebem visitantes, investigadores que resolvem problemas, arquivistas que protegem informações e mensageiros que percorrem túneis secretos levando pedidos e respostas em velocidade impressionante. Essa organização permitiu que o CICS acompanhasse a evolução da computação por gerações, mantendo confiabilidade, desempenho e disponibilidade em ambientes que processam milhões de transações diariamente.

Para quem está iniciando em COBOL, compreender o MRO é um divisor de águas. A partir desse momento, o CICS deixa de ser uma "caixa-preta" e passa a ser um organismo vivo, formado por regiões especializadas que cooperam de maneira elegante. Você não verá apenas comandos EXEC CICS; enxergará o caminho percorrido por cada solicitação, entenderá por que a arquitetura foi desenhada dessa forma e perceberá que muitos conceitos considerados modernos já eram praticados no universo IBM Z muito antes de se tornarem tendências.

E da próxima vez que uma consulta de saldo aparecer instantaneamente na tela, talvez você se lembre desta investigação. Em algum lugar, um TOR abriu a porta, um AOR resolveu o caso, um FOR encontrou a prova escondida em um arquivo VSAM, e o MRO garantiu que todos trabalhassem em perfeita harmonia.

Porque, no fim das contas, o maior mistério do mainframe nunca foi a velocidade.

Foi fazer parecer simples aquilo que, nos bastidores, é uma das mais elegantes obras de engenharia da história da computação.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

ECHELON — O Fantasma que Escutava o Mundo

 

Bellacosa Mainframe e echelon o fantasma que executava o mundo

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

ECHELON — O Fantasma que Escutava o Mundo

Memórias de um Hackerativismo Inocente, de uma Internet Livre e da Máquina que Parecia Ouvir Tudo

"Houve um tempo em que bastava escrever uma palavra em um canal de IRC para alguém perguntar: 'Será que o Echelon acabou de registrar isso?'"

No final da década de 1990 existia um tipo de internet que praticamente desapareceu.

Não havia redes sociais.

Não existia Facebook.

Não havia WhatsApp.

O Google ainda engatinhava.

A maioria das pessoas usava ICQ, mIRC, IRC, listas de discussão, Usenet, e-mail e páginas pessoais hospedadas no Geocities.

Era uma internet mais lenta.

Mas, curiosamente, era uma internet muito mais misteriosa.

Foi nessa época que uma palavra começou a circular quase como uma entidade sobrenatural:

ECHELON.

Para alguns era apenas um sistema militar.

Para outros, era o maior sistema de espionagem já criado.

Havia quem acreditasse que qualquer e-mail contendo determinadas palavras era automaticamente lido por agentes da NSA.

E existiam milhares de jovens hackers, curiosos, administradores de BBS e usuários de IRC que resolveram brincar justamente com essa possibilidade.

Você mesmo comentou que participou, em 1999, da chamada Brigada Anti-Echelon, quando grupos ao redor do mundo combinavam "a palavra do dia" e inundavam IRCs, e-mails e listas de discussão com termos considerados sensíveis para gerar milhares de falsos positivos. É uma lembrança muito representativa daquele momento histórico: uma mistura de ativismo digital, curiosidade técnica e humor típico da internet daquela época.

Hoje aquilo parece quase folclore.

Mas, durante alguns anos, parecia que estávamos vivendo dentro de um romance de espionagem.


O nascimento de um gigante invisível

A história do Echelon não começa com computadores.

Ela começa muito antes.

Na Segunda Guerra Mundial.

Enquanto Alan Turing ajudava a quebrar a máquina Enigma, ingleses e americanos perceberam algo revolucionário:

Informação vale mais que bombas.

Depois da guerra, essa cooperação continuou.

Em 1946 surgiu o acordo secreto UKUSA, reunindo inicialmente Estados Unidos e Reino Unido e, posteriormente, Canadá, Austrália e Nova Zelândia — o grupo que mais tarde ficou conhecido como Five Eyes. (Wikipedia)

O objetivo era simples:

Compartilhar inteligência.

Interceptar comunicações.

Dividir o planeta em áreas de monitoramento.

Décadas depois surgiria aquilo que receberia o codinome:

ECHELON.


A Guerra Fria mudou tudo

Durante os anos 60 e 70, quase toda comunicação internacional importante passava por satélites.

Isso facilitava enormemente a interceptação.

Em vez de grampear milhões de telefones individualmente, bastava instalar enormes antenas parabólicas apontadas para satélites de telecomunicações.

Foi exatamente isso que aconteceu.

Bases como:

  • Menwith Hill (Reino Unido)

  • Yakima (EUA)

  • Pine Gap (Austrália)

  • Waihopai (Nova Zelândia)

passaram a capturar enormes volumes de comunicações internacionais. (Duncan Campbell)

As famosas cúpulas brancas (radomes) vistas em fotografias protegiam gigantescas antenas direcionais.

Pareciam cenários de filme de ficção científica.

E eram reais.


Como o ECHELON funcionava?

Ao contrário do que muitos imaginavam, ele não era um "supercomputador único".

Era uma enorme rede distribuída.

Imagine um funil.

Milhões de comunicações entram.

O sistema tenta identificar quais podem ter interesse.

Entre elas:

  • ligações telefônicas

  • fax

  • rádio

  • satélite

  • telex

  • posteriormente e-mails

Tudo isso era processado por sistemas automáticos de SIGINT (Signals Intelligence). (Telepolis)


As famosas palavras-chave

Aqui nasceu a maior lenda da internet dos anos 90.

Dizia-se que existia uma lista secreta contendo milhares de palavras.

Exemplos imaginados pela comunidade da época:

  • bomb

  • plutonium

  • missile

  • anthrax

  • assassination

  • nuclear

Se qualquer comunicação contivesse essas palavras...

O sistema destacaria aquela mensagem.

Na prática, havia mecanismos automatizados de filtragem por critérios definidos pelas agências de inteligência, mas a ideia popular de uma simples "lista mágica" que acionava automaticamente agentes humanos foi bastante exagerada. (Telepolis)

Mesmo assim...

A imaginação coletiva fez o resto.


A internet respondeu com humor

Foi aí que nasceu um movimento curioso.

A chamada Anti-Echelon Brigade.

Milhares de usuários passaram a colocar listas enormes de palavras "suspeitas" em:

  • assinaturas de e-mail

  • páginas pessoais

  • IRC

  • newsletters

  • fóruns

O objetivo?

Gerar tanto ruído que o sistema ficasse sobrecarregado.

Hoje sabemos que isso dificilmente teria impacto operacional significativo.

Mas a ideia era brilhante como forma de protesto simbólico.

Era uma espécie de "negação de serviço" filosófica.


Eu lembro daquela internet...

Se você viveu aquela época...

Talvez também se lembre de coisas como:

ICQ fazendo "Uh-oh!"

mIRC colorido.

Scripts em TCL.

Eggdrop.

Bots.

BNC.

XDCC.

Napster.

IRCnet.

Brasnet.

DALnet.

EFnet.

Undernet.

E, claro...

As intermináveis discussões sobre:

"Será que o Echelon está lendo isso?"

Era quase um personagem invisível.


Quando a conspiração encontrou a realidade

Durante muitos anos governos simplesmente negavam tudo.

Até que jornalistas começaram a juntar peças.

O britânico Duncan Campbell foi um dos primeiros a investigar publicamente o sistema, ainda nos anos 1980. Depois vieram pesquisas como o livro Secret Power, de Nicky Hager, e estudos para o Parlamento Europeu, que consolidaram o debate público. (Duncan Campbell)

Durante anos...

Muita gente dizia:

"Isso é teoria da conspiração."

Depois...

Vieram documentos.

Relatórios.

Investigações.

E, em 2013, as revelações de Edward Snowden ampliaram a compreensão pública sobre a vigilância eletrônica em larga escala, mostrando programas modernos da NSA e de seus parceiros e reforçando que sistemas de interceptação global realmente existiam, embora nem sempre exatamente como descritos pelas lendas urbanas. (Wikipédia)

Foi um daqueles raros momentos em que parte do que era tratado como conspiração revelou ter um núcleo real — ainda que muitos detalhes populares fossem incorretos ou exagerados.


O maior mito

O maior mito era acreditar que:

"Um agente da NSA lia todos os e-mails."

Isso nunca fez sentido.

Nem tecnicamente.

Nem operacionalmente.

O verdadeiro poder estava na automação.

Os computadores faziam a triagem.

Os analistas humanos examinavam apenas uma pequena fração do material considerado relevante.


Easter Eggs da época

Algumas curiosidades quase esquecidas:

🥚 Muitos sites tinham um botão chamado:

"Anti-Echelon"

que automaticamente adicionava centenas de palavras-chave no rodapé.


🥚 Existiam plugins para Outlook.


🥚 Alguns assinavam TODOS os e-mails com dezenas de termos militares.


🥚 Havia até listas atualizadas com a "palavra da semana".


🥚 Alguns provedores proibiam esse tipo de assinatura.


🥚 No IRC existiam bots que inseriam automaticamente listas enormes de palavras em canais públicos.


A evolução

O mundo mudou.

Os satélites deixaram de ser o principal meio de comunicação.

Vieram:

fibra óptica

Internet

Cloud Computing

Smartphones

Redes sociais

Streaming

Hoje grande parte da inteligência eletrônica envolve muito mais do que comunicações via satélite: cabos submarinos, infraestrutura de internet, metadados, cooperação internacional e, em alguns casos, dados obtidos legalmente por diferentes mecanismos previstos em cada país. (Wikipedia)

O espírito do ECHELON evoluiu.

O nome ficou famoso.

Mas a tecnologia seguiu adiante.


O legado

O curioso é que ECHELON acabou se tornando muito maior como símbolo do que como nome técnico.

Hoje falamos muito mais sobre:

  • privacidade

  • criptografia ponta a ponta

  • VPN

  • Signal

  • Matrix

  • Tor

  • proteção de metadados

Esses debates nasceram, em parte, porque histórias como a do ECHELON despertaram a atenção do público para o poder da vigilância eletrônica.


Bellacosa Memories

Às vezes sinto saudades daquela internet.

Não porque fosse melhor.

Ela era lenta.

Barulhenta.

Caótica.

Caía quando alguém levantava o telefone.

Mas havia algo mágico.

Éramos exploradores.

Entrávamos em canais obscuros do IRC apenas para conversar com pessoas do outro lado do planeta.

Aprendíamos TCP/IP lendo RFCs.

Montávamos servidores em casa.

Descobríamos Linux compilando kernels.

E, entre uma conversa e outra, alguém aparecia dizendo:

"A palavra da semana do Echelon saiu."

Então dezenas de pessoas começavam a repetir aquelas palavras em canais públicos.

Hoje sabemos que provavelmente aquilo jamais abalou um sistema de inteligência global.

Mas talvez esse nunca tenha sido o verdadeiro objetivo.

O que importava era a mensagem.

Era uma geração inteira dizendo:

"A internet também pertence aos seus usuários."

Talvez tenha sido um gesto ingênuo.

Talvez tenha sido inútil.

Mas também foi um dos primeiros movimentos espontâneos em defesa da privacidade digital, quando a maioria das pessoas sequer imaginava que, décadas depois, carregaria no bolso um smartphone produzindo continuamente dados sobre localização, hábitos, contatos e comunicações.

O ECHELON desapareceu das manchetes.

Mas a discussão que ele iniciou continua viva.

E talvez esse seja o seu maior legado.

Porque algumas máquinas envelhecem.

Alguns programas são aposentados.

Mas uma pergunta continua ecoando desde aqueles dias de IRC, ICQ e modems de 56 kbps:

"Quem está ouvindo?"

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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