☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
🚋 O Bondinho Indo Embora — Uma Máquina do Tempo Sobre Trilhos
Há máquinas que merecem um lugar no museu. Outras merecem continuar trabalhando.
Mais um delicioso final de semana.
Eu, Juliana e o Formiga novamente em um daqueles lugares que, durante muito tempo, funcionaram como nosso pequeno templo sagrado da diversão familiar: o Parque Portugal, em Campinas, muito mais conhecido por todos simplesmente como Lagoa do Taquaral.
Não precisava existir uma grande programação.
Não precisava viajar centenas de quilômetros, reservar hotel ou preparar uma expedição.
Às vezes bastava chegar ao parque, caminhar, olhar as árvores, observar a lagoa, descobrir alguma coisa diferente e deixar o pequeno Formiga decidir qual seria a próxima aventura.
E naquele dia havia uma máquina do tempo esperando por nós.
Ela não tinha painel cheio de luzes.
Não precisava de plutônio.
Muito menos de um capacitor de fluxo.
Tinha trilhos.
Tinha rodas de aço.
E fazia:
Clanc... clanc... clanc...
🚋
Era o bondinho da Lagoa do Taquaral.
🚋 Um pedaço da cidade que se recusou a morrer
Para uma criança, provavelmente aquilo era simplesmente uma coisa muito divertida.
Um veículo diferente.
Entrava-se nele, sentava-se e começava o passeio.
Para um adulto, entretanto, aquele pequeno bonde carregava algo muito maior.
Ele representava uma época em que nossas cidades possuíam uma relação muito diferente com o transporte coletivo.
Antes de ônibus, automóveis e avenidas dominarem definitivamente a paisagem urbana brasileira, os trilhos atravessavam várias de nossas cidades.
Bondes transportavam trabalhadores, estudantes, famílias, comerciantes e todo tipo de passageiro.
Durante décadas fizeram parte da rotina urbana.
Então desapareceram.
Os trilhos foram arrancados ou cobertos.
As redes elétricas desapareceram.
Garagens foram demolidas.
Veículos foram desmontados, abandonados ou transformados em sucata.
Pouco a pouco, aquilo que havia sido absolutamente cotidiano virou curiosidade histórica.
Por isso gosto tanto do que acontece no Taquaral.
Porque aquele bonde não está simplesmente exposto.
Ele ainda trabalha.
🔧 Não é uma peça de museu
Existe uma diferença gigantesca entre preservar uma máquina e simplesmente guardar uma máquina.
Imagine uma locomotiva perfeitamente restaurada dentro de um museu.
Você pode observá-la.
Fotografá-la.
Ler uma placa contando quando foi construída.
Pode olhar para suas rodas, cabine, bancos e instrumentos.
Tudo isso possui enorme valor histórico.
Mas existe outra experiência completamente diferente:
ouvir a máquina funcionando.
Sentir a vibração.
Escutar as rodas passando sobre os trilhos.
Entrar.
Sentar.
E ser transportado por ela.
É exatamente isso que torna o bondinho do Taquaral tão especial para mim.
Ele continua cumprindo a função para a qual aquelas máquinas foram construídas:
transportar pessoas.
Mesmo que seja apenas durante um pequeno circuito dentro de um parque.
Mesmo que hoje seus passageiros estejam ali principalmente para passear.
Durante alguns minutos, aquela tecnologia deixa de ser passado.
Volta a ser presente.
👦 E então entra o Formiga
Para as crianças aquilo naturalmente é fantástico.
Imagine enxergar aquela geringonça pela primeira vez.
Não parece um ônibus.
Não parece um carro.
Não parece exatamente um trem.
Mas anda sobre trilhos.
Você entra e ela começa a se movimentar.
Para quem nasceu em um mundo de automóveis, ônibus e metrôs modernos, existe algo quase mágico naquele veículo antigo caminhando lentamente pelo parque.
E talvez essa seja uma das maneiras mais bonitas de ensinar história.
Sem aula.
Sem prova.
Sem obrigação de decorar datas.
A criança simplesmente entra dentro da história.
Literalmente.
O Formiga podia não saber naquele momento toda a história dos bondes brasileiros.
E não precisava saber.
Primeiro vinha a experiência.
Depois, algum dia, poderia vir a curiosidade.
"Pai, antigamente tinha isso na rua?"
E pronto.
A porta da máquina do tempo estava aberta.
👴 Os adultos fazem outra viagem
As crianças viajam pelo parque.
Os adultos muitas vezes viajam para outro lugar.
Para as histórias dos pais.
Dos avós.
Para fotografias antigas das cidades.
Para aquela São Paulo, Campinas, Santos ou Rio de Janeiro que já não existe mais.
Mesmo quem nunca utilizou regularmente um bonde urbano acaba reconhecendo alguma coisa familiar naquela imagem.
Porque os bondes permaneceram no nosso imaginário.
Nas fotografias.
Nos cartões-postais.
Nas histórias familiares.
Nos filmes.
Nos livros.
E na própria arquitetura das cidades.
Às vezes caminhamos hoje por uma avenida sem imaginar que, décadas atrás, dois trilhos passavam exatamente debaixo de nossos pés.
🚌 Então chegaram os ônibus
A história do transporte urbano mudou.
Os ônibus conquistaram as cidades brasileiras.
Tinham uma vantagem óbvia: não precisavam seguir trilhos.
Uma linha poderia ser alterada.
Um novo bairro poderia ser atendido sem construir quilômetros de infraestrutura ferroviária.
Mas essa flexibilidade também ajudou a construir cidades cada vez mais dependentes de veículos sobre pneus e, durante décadas, de motores queimando combustível pelas ruas.
O velho bonde elétrico acabou parecendo antiquado.
Curiosamente, muitas décadas depois, cidades do mundo inteiro voltariam a investir justamente em sistemas modernos de transporte elétrico sobre trilhos.
Mudaram os nomes.
Mudaram os veículos.
Mudou a tecnologia.
Mas alguns dos princípios continuam surpreendentemente familiares.
Às vezes o futuro possui uma estranha mania de reencontrar o passado.
🏛️ Máquinas precisam funcionar
Talvez seja isso que mais me fascine no Taquaral.
Existe uma oficina.
Existem outros carros.
As composições podem se revezar.
Há manutenção.
Há conhecimento envolvido.
Há pessoas capazes de fazer aquelas máquinas continuarem se movimentando.
Isso transforma o lugar em algo maior que uma exposição.
É uma espécie de museu operacional.
E aqui meu lado de homem de tecnologia inevitavelmente encontra meu lado saudosista.
Porque penso imediatamente nos mainframes.
Podemos colocar um computador antigo dentro de uma vitrine.
Podemos colocar ao lado dele uma placa:
IBM — década de 1960.
Interessante.
Mas imagine poder ligar a máquina.
Ouvir seus componentes.
Carregar um programa.
Executar alguma coisa.
Mostrar para uma pessoa jovem:
"Era assim que funcionava."
A experiência muda completamente.
O conhecimento deixa de ser abstrato.
A máquina fala.
🚋 Pequenas sobrevivências sobre trilhos
Infelizmente experiências desse tipo tornaram-se raras.
Durante algum tempo São Paulo também manteve um pequeno passeio de bonde na região do Museu da Imigração, no complexo da antiga Hospedaria dos Imigrantes.
Santos conseguiu preservar uma experiência ainda mais ampla com seus bondes históricos circulando pelo centro.
E Campinas tem essa pequena preciosidade no Taquaral.
São sobreviventes.
Pequenos fragmentos de uma enorme rede de transporte urbano que existiu no Brasil.
Talvez alguém veja apenas um carrinho antigo dando uma volta num parque.
Eu vejo outra coisa.
Vejo engenharia preservada em movimento.
⏳ Próxima parada: final do século XIX
Entrar em um desses veículos é fazer uma pequena viagem para uma tecnologia que começou a transformar nossas cidades ainda no século XIX e marcou profundamente parte do século XX.
Olhe os bancos.
As janelas.
Os controles.
A estrutura.
O desenho do veículo.
Depois imagine que aquilo não era uma atração turística.
Era transporte público.
Alguém entrava para trabalhar.
Outro passageiro carregava compras.
Uma criança ia para a escola.
Um senhor lia jornal.
Pessoas namoravam.
Discutiam.
Chegavam atrasadas.
Perdiam o bonde.
Aliás...
"Perder o bonde."
A tecnologia desapareceu de grande parte das cidades.
Mas até a expressão ficou.
😂 E talvez esse seja o maior Easter egg
O bonde conseguiu uma façanha maravilhosa.
Foi retirado das ruas, mas permaneceu estacionado dentro da língua portuguesa.
Quem nunca ouviu:
"Fulano perdeu o bonde da história."
Talvez uma criança de hoje use a expressão sem sequer imaginar como era possível literalmente perder um bonde.
No Taquaral ela pode descobrir.
E, dependendo da velocidade das perninhas...
Pode até perder um de verdade.
😂
🎥 O bondinho indo embora
Foi justamente um desses pequenos momentos que registrei.
O bondinho estava indo embora.
Nada extraordinário parecia estar acontecendo.
Nenhum grande acontecimento.
Nenhuma cerimônia.
Nenhuma data histórica.
Era apenas mais um final de semana.
Eu.
Juliana.
Formiga.
O parque.
E um velho bonde seguindo seu caminho pelos trilhos.
Na época aquilo mereceu apenas um pequeno vídeo e algumas linhas neste blog.
Anos depois percebo que havia muito mais naquela cena.
Eu estava registrando três tempos simultaneamente.
O passado, representado pelo bonde.
O presente, representado por nós três observando aquela máquina.
E o futuro, representado por uma criança conhecendo algo que havia pertencido ao cotidiano de seus bisavós.
Talvez seja justamente para isso que servem essas pequenas filmagens aparentemente sem importância.
Nós pensamos que estamos registrando um passeio.
Na verdade estamos construindo memória.
☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
Continuo acreditando que preservar tecnologia é muito mais interessante quando conseguimos mantê-la viva.
Uma locomotiva merece correr.
Um relógio mecânico merece marcar as horas.
Uma máquina de escrever merece escrever.
Um computador antigo merece executar um programa.
E um bonde...
Bem...
um bonde merece transportar passageiros.
Por isso gosto tanto daquela pequena linha dentro da Lagoa do Taquaral.
Durante alguns minutos, crianças descobrem uma tecnologia antiga.
Adultos encontram lembranças que talvez nem sejam propriamente suas, mas herdadas de pais e avós.
E uma velha máquina continua fazendo exatamente aquilo para o qual foi construída.
Transportando pessoas.
Só existe uma diferença.
Antigamente ela transportava passageiros de um ponto da cidade para outro.
Hoje transporta passageiros através do tempo.
🚋 Clanc... clanc... clanc...
Lá vai o bondinho indo embora.
E nós ficamos olhando.
Talvez esperando, sem perceber, a próxima viagem.
Uma atração divertida.
Para aqueles que não conhecem o parque do Taquaral recomendo vivamente que o visitem. Este parque é fantástico cheio de segredos para serem explorados e descobertos.
Tem um que relembra o passado glorioso dos Bondes Eletricos que percorre boa parte do parque levando os turistas a viajarem ao passado e relembrarem como era o transporte publico no passado.
As crianças deliram ao verem o bondinho passando, os trilhos no parque dão um certo charme e as plataformas estrategicamentes distribuídas permitem um bom passeio.