| Bellacosa Mainframe e uma tarde no Parque e achamos uma sucuri |
☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
A sucuri no parque Taquaral
O pequeno Formiga se divertia.
Mas boa parte daquela diversão não estava propriamente nos brinquedos do parque. Estava nas histórias malucas que eu inventava na hora.
Bastava encontrar alguma coisa diferente pelo caminho.
Uma estátua.
Um animal.
Um trilho.
Uma construção estranha.
Uma velha caravela parada junto à lagoa.
Ou uma enorme sucuri que, evidentemente, não precisava ser apenas uma escultura.
Na nossa imaginação, qualquer coisa podia ganhar uma história.
E assim explorávamos o Parque Portugal — muito mais conhecido pelos campineiros simplesmente como Parque Taquaral.
Não havia roteiro.
Não havia horário.
Muito menos obrigação de chegar a algum lugar.
Nós simplesmente vasculhávamos.
Procurávamos.
Explorávamos.
Aquelas coisas aparentemente comuns, que depois de centenas de visitas acabam desaparecendo na paisagem para os adultos, ainda eram extraordinárias para uma criança. E eu aproveitava justamente isso.
Se alguma coisa merecesse atenção, nós parávamos.
Olhávamos.
Inventávamos alguma história.
Tirávamos uma fotografia.
Brincávamos um pouco.
E depois continuávamos andando.
🐍 Cuidado com a sucuri!
Foi assim com a famosa sucuri do parque.
Para um adulto, uma escultura.
Para uma criança acompanhada por um adulto disposto a falar algumas bobagens, aquilo poderia ser praticamente qualquer coisa.
Talvez uma gigantesca serpente amazônica que tivesse atravessado secretamente metade do Brasil.
Talvez estivesse dormindo.
Talvez estivesse esperando alguém chegar perto.
Talvez nós fôssemos exploradores enviados numa missão ultrassecreta para descobrir como aquela criatura havia aparecido em Campinas.
Não precisava fazer sentido.
Aliás, era muito melhor quando não fazia sentido algum.
Durante aqueles minutos, não existia necessidade de ser real.
Era fantasia criada exclusivamente para aquele momento, naquele lugar, naquela hora.
E depois seguíamos adiante.
🌳 Um parque que é muitos parques
Talvez o Taquaral seja especialmente adequado para esse tipo de aventura porque ele nunca foi apenas uma lagoa cercada por uma pista de caminhada.
Há os pedalinhos navegando pela água.
Há o velho bonde e seus trilhos.
Há a Concha Acústica.
Há a pista de skate.
Há brinquedos.
Há esculturas.
Há animais.
Há a caravela.
Há ainda aquelas coisas curiosas e quase surreais, sobreviventes de outros tempos, que uma pessoa apressada pode atravessar sem sequer perceber.
Mas, quando estamos procurando aventuras, tudo isso serve de gancho para uma história.
E o parque continua para além de seus próprios limites.
Do lado de fora, quando a rua é fechada aos automóveis, o asfalto muda de função. Onde normalmente passariam carros, aparecem pessoas caminhando, correndo, pedalando, conversando e simplesmente aproveitando o espaço.
O Taquaral se transforma em um enorme organismo vivo.
E talvez essa seja uma de suas características mais bonitas.
Ele acolhe muitas tribos ao mesmo tempo.
Há quem esteja ali para correr.
Quem queira caminhar.
Quem leve a bicicleta.
Quem prefira o skate.
Quem queira andar de pedalinho.
Quem vá pela música.
Quem esteja passeando com a família.
Quem queira fotografar.
Quem simplesmente queira sentar debaixo de uma árvore e não fazer absolutamente nada.
E havia nós.
Nossa atividade era outra:
procurar coisas que pudessem virar histórias.
🔎 O extraordinário escondido no comum
Talvez tenha sido essa a verdadeira brincadeira.
Não era simplesmente levar o Formiga para passear no parque.
Era ensinar, mesmo sem perceber que estava ensinando, que vale a pena prestar atenção.
Uma estátua que milhares de pessoas atravessam sem olhar pode esconder uma aventura.
Um velho trilho pode provocar perguntas.
Para onde ia esse bonde?
Quem andou nele?
Por que ainda existem trilhos aqui?
Uma caravela estacionada no interior de São Paulo é praticamente um convite para uma criança perguntar:
— O que esse negócio está fazendo aqui?
E pronto.
Acabamos de encontrar material para outra história.
Não era necessário preparar nada antecipadamente. A própria paisagem fornecia os elementos e nossa imaginação fazia o restante.
Essa talvez seja uma das lembranças mais gostosas daqueles passeios.
Não tínhamos pressa.
Não precisávamos cumprir uma lista de atrações.
Não existia a obrigação moderna de transformar o passeio numa sucessão de lugares que precisam ser visitados rapidamente antes de seguir para o próximo.
Se alguma coisa despertasse nossa curiosidade, ficávamos ali.
Cinco minutos.
Dez minutos.
O tempo que fosse.
Porque naquele momento aquilo era importante.
📸 E então vinha a fotografia
Cada pequena descoberta que merecia atenção ganhava também uma fotografia.
Naquele instante era apenas mais uma foto.
Anos depois, ela se transforma em outra coisa.
A fotografia da sucuri já não registra apenas uma escultura do Parque Taquaral.
Ela guarda o pequeno Formiga.
Guarda aquela idade.
Guarda uma tarde.
Guarda uma brincadeira.
E, principalmente, guarda uma maneira de enxergar o mundo.
Talvez seja por isso que, tantos anos depois, algumas dessas imagens aparentemente banais adquiram um valor que jamais poderíamos calcular no momento em que apertamos o botão da câmera.
A sucuri continua lá na fotografia.
Mas o menino cresceu.
O dia terminou.
A história inventada naquela hora provavelmente foi esquecida.
E justamente por isso a fotografia ficou tão importante.
Ela é uma pequena âncora lançada naquele instante.
Olho para ela e consigo novamente encontrar aquele parque onde uma escultura não precisava ser simplesmente uma escultura.
Podia ser uma criatura monstruosa.
O bonde podia levar para algum lugar impossível.
A caravela podia estar preparando uma expedição.
E cada curva do caminho podia esconder alguma coisa que ainda não havíamos descoberto.
Talvez essa seja uma das melhores coisas que podemos oferecer a uma criança:
não apenas mostrar o mundo, mas ensinar que o mundo merece ser observado.
Porque uma tarde no parque pode ser apenas uma tarde no parque.
Ou pode ser uma expedição extraordinária.
Depende de quem está olhando.
E naquele dia, no Taquaral, nós estávamos procurando aventuras.
Até uma sucuri apareceu pelo caminho.