Uma árvore solitária, o romanzeiro do bisavô Paco
Ao melhor estilo Bellacosa Mainframe, registro aqui uma memória que roda em batch noturno, daquelas que não dá abend, não precisa de restart e segue ativa no coração desde sempre.
Estou falando do meu bisavô Paco, o espanhol. Homem sisudo, poucas palavras, olhar firme — daqueles que parecem um programa antigo em assembler: econômico, direto, sem comentários no código, mas absolutamente funcional e confiável.
A cena é sempre a mesma quando faço o IPL dessa lembrança. Ele lá fora, na antiga rua de terra, cuidando da horta, das plantas do jardim e principalmente da sarjeta, que insistia em entupir. Trabalho de formiguinha, diário, repetitivo, quase um JOB em loop infinito, mas feito com disciplina de quem sabe que se não limpar hoje, amanhã o problema dobra. Às vezes eu ajudava. Ganhava umas coroas para segurar a pá, puxar o barro, aprender que manutenção preventiva evita desastre — lição que anos depois eu reencontraria no mundo do mainframe, só que com outro tipo de sujeira.
O bisavô Paco tinha a
mão esquerda semioperacional, consequência de um AVC provocado por um acidente doméstico. Nada de vitimismo. Ele seguia firme, fazendo exercícios com uma
bolinha de tênis, apertando, soltando, insistindo. Era o
recovery manual do corpo, numa época em que reabilitação era força de vontade e teimosia. No frio de São Paulo, usava luva para aquecer a mão — imagem gravada em
storage protegido da minha memória.
Apesar do jeito fechado, ele tinha seus logs de ternura. Um deles era comigo. Sempre elogiava minhas caricaturas, como ele chamava meus desenhos, incentivava, observava, aprovava com um aceno curto de cabeça. Poucas palavras, mas impacto máximo. Era como um RC=0 silencioso.
Mas o verdadeiro dataset crítico dessa história é outro.
O pé de romã.
Um romanzeiro solitário, ali no quintal, cuidado com um afinco quase ritualístico. Podar, adubar, observar. Nada era feito às pressas. Era um processamento em modo síncrono, respeitando o tempo da planta. E quando surgia um fruto — às vezes um só, às vezes dois — a alegria do meu bisavô era genuína, quase infantil. Um sorriso raro, um brilho no olho. No final do ano, comer romã virava um pequeno evento, desses que não precisam de anúncio nem plateia.
Sempre me perguntei, já adulto, que memória aquela árvore despertava nele. Espanha? Infância? Alguma terra seca deixada para trás? Algum quintal que não pude conhecer? A romã, para ele, parecia ser mais que fruto. Era checkpoint emocional, uma âncora silenciosa entre passado e presente.
Hoje, quando vejo uma romã, faço um link-edit automático com essa imagem: o homem calado, a mão lutando para não desistir, a rua de terra, a sarjeta limpa, o cuidado diário, o fruto raro. Entendo, finalmente, que aquele carinho todo não era só pela planta. Era pela memória que ela mantinha viva.
E algumas memórias, assim como certos sistemas legados, precisam ser preservadas, não porque são antigas, mas porque continuam funcionando perfeitamente.
A tradição de comer romãs na virada do ano
Existe um hábito nos países latinos de comer romãs e guardar suas sementes para dar boa sorte no decorrer do ano, justamente na virada do ano, dando as boas vindas para o Ano Novo.