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quarta-feira, 6 de abril de 2022

🔧 WINRY ROCKBELL E A OFICINA DOS TRÊS PONTEIROS DO MAINFRAME

 

Bellacosa Mainframe latency, throughput, availability e capacity

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

🔧 WINRY ROCKBELL E A OFICINA DOS TRÊS PONTEIROS DO MAINFRAME

Latency, Throughput, Availability, Capacity, COBOL, CICS, Db2, MQ, WLM, SMF, RMF, Parallel Sysplex, filas, percentis, locks, COMMIT — e o dia em que Winry descobriu que trocar a CPU não consertava uma transação esperando 4 segundos por um lock.

Sob a tutela de Winry Rockbell, de Fullmetal Alchemist: porque antes de trocar uma peça cara, um bom mecânico descobre exatamente onde a máquina está rangendo.


 



🎬 PRÓLOGO — WINRY, TEM ALGUMA COISA ERRADA COM O MAINFRAME!

O jovem programador COBOL entrou correndo na oficina carregando um relatório de produção.

— Winry! Temos um problema!

Winry Rockbell nem levantou a cabeça.

Continuou ajustando uma pequena engrenagem sobre a bancada.

— Quebrou?

— Pior. Está lento.

Agora ela parou.

O que está lento?

Silêncio.

— O... sistema.

Winry colocou a chave sobre a bancada.

— Qual sistema?

— O mainframe.

Ela respirou fundo.

— Qual aplicação? Qual transação? Qual horário? Qual volume? Qual tempo de resposta? Qual percentil? Está consumindo CPU ou esperando? Existe fila? O Db2 está esperando lock? O CICS está saturado? O MQ está acumulando mensagens? Houve aumento de workload?

O programador ficou olhando.

— Eu só ia dizer que o COBOL estava lento.

Winry pegou a chave inglesa novamente.

— Então você ainda não sabe se o COBOL está lento.

E assim começou nossa aula.

Porque existem três números que aparecem repetidamente quando estudamos sistemas computacionais:

Latency. Throughput. Availability.

Mas, quando atravessamos a porta do datacenter e chegamos ao IBM Z, descobrimos rapidamente que existem outros personagens escondidos na oficina.

Principalmente:

Capacity, Reliability e Recoverability.

Vamos desmontar essa máquina peça por peça.



🔧 CAPÍTULO 1 — NÃO TROQUE A PEÇA ANTES DE DESCOBRIR O DEFEITO

Uma das grandes lições de uma boa mecânica é extremamente aplicável à computação:

sintoma não é causa.

O usuário diz:

"Está lento."

Isso é um sintoma.

Você ainda não sabe se o problema está em:

Rede
 ↓
API Gateway
 ↓
z/OS Connect
 ↓
CICS
 ↓
COBOL
 ↓
Db2
 ↓
Storage

Ou talvez exista MQ no caminho:

Aplicação
    │
    ▼
API
    │
    ▼
z/OS Connect
    │
    ▼
CICS
    │
    ▼
COBOL
    │
    ├────────► Db2
    │
    └────────► MQ ─────► Outro sistema

Se o cliente esperou quatro segundos pela resposta, isso não significa que o programa COBOL executou durante quatro segundos.

Essa diferença é fundamental.

Temos que separar:

Response Time de Service Time, CPU Time e tempos de espera.

Imagine:

Tempo total percebido:     2.400 ms

CPU COBOL:                    15 ms
Db2 processamento:            70 ms
Rede:                         40 ms
CICS queue:                  300 ms
Db2 lock wait:             1.800 ms
Outros:                      175 ms
                           --------
TOTAL:                     2.400 ms

O programa COBOL consumiu apenas 15 milissegundos de CPU.

Mesmo assim, alguém provavelmente abrirá o chamado:

"COBOL lento em produção."

Bem-vindo ao primeiro parafuso solto da nossa oficina.



⏱️ CAPÍTULO 2 — LATENCY: QUANTO TEMPO O CLIENTE FICOU ESPERANDO?

Latency responde, em sua forma mais simples:

Quanto tempo uma operação leva?

Em uma aplicação moderna integrada ao mainframe, poderíamos ter:

Usuário
  │
  │  REQUEST
  ▼
Internet
  ▼
API Gateway
  ▼
z/OS Connect
  ▼
CICS
  ▼
COBOL
  ▼
Db2
  │
  │ RESPONSE
  ▼
Usuário

O relógio começa quando a solicitação é enviada e termina quando a resposta relevante chega.

Suponha:

Request ─────────────────────────►
                                  Server
Response ◄────────────────────────

              120 ms

Temos uma latência de aproximadamente 120 ms para aquela observação.

Parece simples.

O problema começa quando alguém pergunta:

"Qual é a latência da aplicação?"

E alguém responde:

"120 ms."

Winry imediatamente perguntaria:

120 ms de quê? Quando? Para quem? Em qual percentil? Com qual carga?

Porque uma média isolada pode esconder um desastre.



📊 CAPÍTULO 3 — A MÉDIA É AQUELA PEÇA BONITA QUE ESCONDE A FERRUGEM

Imagine milhares ou milhões de transações.

O relatório mostra:

Average Response Time = 150 ms

Excelente?

Talvez.

Agora observamos a distribuição:

p50     = 110 ms
p90     = 170 ms
p95     = 250 ms
p99     = 2.100 ms
p99.9   = 6.500 ms

A história mudou.

p50 significa que 50% das observações ficaram naquele valor ou abaixo dele.

p95 indica que aproximadamente 95% ficaram naquele valor ou abaixo.

p99 mostra a fronteira abaixo da qual ficaram aproximadamente 99%.

Isso nos permite enxergar a chamada:

tail latency — latência de cauda.

E a cauda pode morder.

Se você processa 10 milhões de operações e 1% sofre comportamento ruim, não estamos falando de "só 1%".

Estamos falando potencialmente de:

10.000.000 × 1%

= 100.000 operações

A média pode continuar linda enquanto milhares de clientes estão irritados.



🔍 CAPÍTULO 4 — O MISTÉRIO DO p99

Imagine:

p50 = 90 ms
p95 = 140 ms
p99 = 4.000 ms

Winry não começaria trocando o processador.

Ela procuraria onde existe espera.

No mainframe poderíamos investigar hipóteses como:

Db2 lock wait
CICS dispatch delay
fila de transações
I/O
MQ backlog
TCP/IP
serviço externo
contenção
storage
limites de concorrência
WLM

Isso nos ensina uma regra preciosa:

Latência não é sinônimo de CPU.

Um programa pode consumir pouquíssima CPU e apresentar péssimo response time.

Por quê?

Porque computadores também passam muito tempo esperando.


🚦 CAPÍTULO 5 — THROUGHPUT: QUANTOS CARROS PASSAM PELA OFICINA?

Se Latency pergunta:

Quanto tempo levou?

Throughput pergunta:

Quanto trabalho conseguimos processar por unidade de tempo?

Em aplicações web você encontrará muito:

RPS — Requests Per Second.

Em ambientes transacionais:

TPS — Transactions Per Second.

No universo mainframe podemos encontrar diferentes medidas, dependendo do workload:

transações/segundo
mensagens/segundo
registros/segundo
jobs/hora
MB/segundo
GB/hora

Imagine um sistema processando:

5.000 TPS

Em um minuto:

5.000 × 60

= 300.000 transações

Em uma hora, se essa taxa fosse sustentada:

18.000.000

Agora começamos a compreender por que throughput é tão importante em sistemas de grande volume.


🏎️ CAPÍTULO 6 — UMA FERRARI PRESA NUM PEDÁGIO CONTINUA PARADA

Aqui está um erro clássico:

"Minha transação executa em 10 ms, portanto meu sistema é rápido."

Não necessariamente.

Imagine que cada transação realmente possa executar rapidamente, mas o sistema consiga atender apenas dez simultaneamente.

Chegam 10.000 solicitações.

Temos:

REQUESTS

↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓↓

┌────────────────────┐
│       QUEUE        │
│       QUEUE        │
│       QUEUE        │
│       QUEUE        │
│       QUEUE        │
└────────────────────┘
          │
          ▼
       SERVIÇO

O código pode continuar rápido quando finalmente recebe recursos.

O usuário continuará esperando.

Winry apontaria para a fila:

— O motor não está quebrado. Você construiu uma estrada com um pedágio pequeno demais.

É aqui que Latency e Throughput começam a conversar.


🧮 CAPÍTULO 7 — LITTLE'S LAW ENTRA NA OFICINA

Existe uma relação extremamente elegante em teoria das filas conhecida como Little's Law:

L = λ × W

Simplificando:

L = quantidade média de itens dentro do sistema
λ = taxa média de chegada/throughput em estado estável
W = tempo médio que cada item permanece no sistema

Imagine:

Throughput = 2.000 TPS
Tempo médio = 0,25 s

Então:

L = 2.000 × 0,25

L = 500

Sob as premissas da lei, temos em média cerca de 500 transações dentro daquele sistema ou trecho analisado.

Agora a latência aumenta para um segundo:

L = 2.000 × 1

L = 2.000

Temos muito mais trabalho simultaneamente em voo.

E aqui pode começar uma reação em cadeia:

mais workload
     ↓
mais concorrência
     ↓
mais filas
     ↓
mais espera
     ↓
mais latency
     ↓
mais transações pendentes
     ↓
mais contenção

Esse ciclo pode transformar uma pequena degradação em um incidente enorme.


🏛️ CAPÍTULO 8 — WLM: O CHEFE DA OFICINA

No z/OS existe um personagem importantíssimo nessa história:

WLM — Workload Manager.

Um iniciante pode imaginar gerenciamento de recursos simplesmente como:

"Programa A recebe CPU; programa B recebe CPU."

A realidade é muito mais sofisticada.

O WLM trabalha com conceitos como:

WORKLOAD
    │
    ▼
SERVICE CLASS
    │
    ▼
GOALS
    │
    ▼
IMPORTANCE

A organização descreve objetivos de serviço e importância para diferentes workloads, e o z/OS usa essas informações em sua gestão dinâmica de recursos.

Isso introduz uma mudança mental importante.

Em vez de perguntar somente:

"Quanto de CPU está sendo utilizado?"

pergunte também:

"Os objetivos de serviço estão sendo cumpridos?"


🔥 CAPÍTULO 9 — 90% DE CPU NÃO É NECESSARIAMENTE UM INCÊNDIO

O programador entra correndo:

— WINRY! CPU 90%!

Ela olha para o painel.

— E?

— Noventa por cento!

— Os objetivos estão sendo cumpridos?

— Sim.

— O throughput?

— Normal.

— Response time?

— Normal.

— Filas?

— Controladas.

— Então por que você quer desligar a máquina?

Essa é uma bela lição de performance.

Utilização alta não significa automaticamente problema.

Você comprou capacidade computacional para utilizá-la.

O inverso também é verdadeiro.

Você pode ter:

CPU = 35%

e uma aplicação horrorosa.

Por exemplo:

CPU       35%
Db2 lock  ██████████████████

As CPUs não precisam estar saturadas para que usuários fiquem esperando.


🗄️ CAPÍTULO 10 — Db2 E O PARAFUSO QUE NINGUÉM CONSEGUIA SOLTAR

Vamos construir um incidente.

Às 10h:

Throughput = 3.200 TPS
p95        = 180 ms
p99        = 350 ms
Errors     = 0,02%

Às 11h30:

Throughput = 5.800 TPS
p95        = 900 ms
p99        = 4.800 ms
Errors     = 2,1%

Primeira suspeita:

CPU.

Mas CPU não explica o comportamento.

CICS parece razoável.

Então a investigação chega ao Db2.

Descobrimos:

LOCK WAIT ↑↑↑↑

Uma transação está mantendo determinados locks durante muito mais tempo.

A corrente passa a ser:

Unit of Work longa
        ↓
locks permanecem
        ↓
outras transações esperam
        ↓
fila aumenta
        ↓
latency cresce
        ↓
timeouts
        ↓
retries
        ↓
mais workload

Winry sorri.

Encontramos a peça problemática.


💾 CAPÍTULO 11 — COMMIT NÃO É UM BOTÃO DE SALVAR

O iniciante COBOL precisa entender isso cedo.

Considere conceitualmente:

PERFORM 10000 TIMES
    EXEC SQL
       UPDATE ...
    END-EXEC
END-PERFORM

EXEC SQL
   COMMIT
END-EXEC

Dependendo da aplicação, desenho das transações, isolamento e acesso aos dados, uma Unit of Work excessivamente longa pode contribuir para contenção e dificultar recuperação.

Mas cuidado.

A solução não é simplesmente:

"Coloque COMMIT depois de cada UPDATE."

Isso também pode ser errado.

A fronteira do COMMIT deve respeitar a unidade lógica do negócio.

Uma transferência bancária, por exemplo, não deveria terminar assim:

Debita conta A
COMMIT

                 💥 ABEND

Credita conta B

Parabéns.

Inventamos dinheiro desaparecendo.

O correto é projetar cuidadosamente a Unit of Work, considerando atomicidade, integridade, locking, logging, restart e recuperação.

Performance nunca deve destruir consistência.


📦 CAPÍTULO 12 — BATCH TAMBÉM TEM THROUGHPUT

Até agora falamos bastante sobre aplicações online.

Mas mainframe respira batch.

Imagine uma janela:

23:00 ───────────────────────── 05:00
             BATCH

Durante esse período precisamos executar:

Clearing
Settlement
Billing
Accounting
Reconciliation
Reports

Suponha que existam 500 milhões de registros para processar.

Perguntar:

"Quanto tempo levou um registro?"

pode ser muito menos importante do que:

"O processamento completo terminou antes das 05:00?"

Aqui throughput pode aparecer como:

records/sec
GB/hour
jobs/hour
elapsed time

Esse é um excelente exemplo de por que métricas precisam de contexto.


🟢 CAPÍTULO 13 — AVAILABILITY: A MÁQUINA ESTÁ LIGADA, MAS O CLIENTE NÃO CONSEGUE PAGAR

Chegamos ao terceiro ponteiro.

Availability pergunta:

Durante quanto tempo o serviço esteve disponível?

E aqui encontramos uma armadilha.

Imagine:

z/OS      UP
CICS      UP
Db2       UP
MQ        UP
TCP/IP    UP

O operador diz:

"Tudo funcionando."

Mas existe uma dependência externa:

API Gateway = DOWN

O cliente não consegue concluir a operação.

Quem está certo?

Tecnicamente, vários componentes estão funcionando.

Mas o serviço de negócio está indisponível para o cliente.

Portanto precisamos diferenciar:

component availability

de:

service availability.

Essa distinção é fundamental.


9️⃣ CAPÍTULO 14 — OS FAMOSOS NOVES

Disponibilidade costuma aparecer como porcentagem.

Considerando aproximadamente um ano de 365 dias:

DisponibilidadeIndisponibilidade anual aproximada
99%3 dias, 15h e 36min
99,9%8h e 46min
99,99%52min e 34s
99,999%5min e 15s

Parece existir pouca diferença entre:

99,9%

e:

99,999%

Só existem alguns noves extras.

Mas esses noves podem exigir mudanças profundas em arquitetura, operação e investimento.

Você começa a pensar em:

redundância
automação
failover
eliminação de SPOFs
replicação
observabilidade
capacity headroom
procedimentos operacionais
testes de recuperação
disaster recovery
resiliência

Cada nove adicional pode ser uma peça extremamente cara da oficina.


🏰 CAPÍTULO 15 — PARALLEL SYSPLEX E A OFICINA QUE NÃO PODIA FECHAR

No ecossistema IBM Z, uma tecnologia fundamental para alta disponibilidade e escalabilidade é o Parallel Sysplex.

Conceitualmente:

                WORKLOAD
                   │
          ┌────────┴────────┐
          │                 │
          ▼                 ▼
       z/OS A             z/OS B
          │                 │
          └────────┬────────┘
                   │
            COUPLING FACILITY
                   │
             SHARED DATA

Temos múltiplas imagens z/OS capazes de cooperar dentro da arquitetura, com mecanismos sofisticados de coordenação e compartilhamento.

Mas Winry faria uma advertência:

Duas peças não significam automaticamente redundância real.

Se ambas dependem do mesmo ponto único de falha, o problema continua existindo.

Alta disponibilidade exige procurar os famosos:

SPOFs — Single Points of Failure.


💣 CAPÍTULO 16 — QUANDO LATENCY DESTRÓI AVAILABILITY

Agora conectaremos dois ponteiros.

Imagine:

CICS = UP
Db2  = UP
MQ   = UP

A transação responde em:

45 segundos

Mas o aplicativo móvel possui timeout de:

10 segundos

Para o usuário:

O SERVIÇO CAIU.

Para a monitoração superficial:

TUDO VERDE.

Temos então uma descoberta importante:

Um sistema tecnicamente disponível pode estar funcionalmente indisponível.

Performance degradada pode atravessar uma fronteira e virar problema de disponibilidade.


🌪️ CAPÍTULO 17 — A TEMPESTADE DE RETRIES

Existe ainda algo pior.

O cliente faz uma requisição.

Ela demora.

O aplicativo recebe timeout.

Então tenta novamente.

REQUEST
   ↓
TIMEOUT
   ↓
RETRY
   ↓
mais carga
   ↓
mais fila
   ↓
mais latency
   ↓
mais TIMEOUT
   ↓
mais RETRY

Acabamos de construir uma retry storm.

O mecanismo criado para aumentar resiliência começou a amplificar o incidente.

Essa é uma curiosidade maravilhosa da engenharia de sistemas:

Um mecanismo de proteção mal configurado pode se transformar em mecanismo de ataque contra o próprio sistema.

Por isso estratégias de retry costumam exigir coisas como limites, backoff, jitter, idempotência e entendimento da operação que está sendo repetida.


📐 CAPÍTULO 18 — CAPACITY: O QUARTO PONTEIRO ESCONDIDO

Latency, Throughput e Availability são excelentes conceitos.

Mas Winry encontra outro mostrador atrás do painel:

CAPACITY.

Capacity pergunta:

Quanto workload conseguimos sustentar mantendo os objetivos desejados?

Imagine testes mostrando:

4.000 TPS → p95 = 120 ms
6.000 TPS → p95 = 170 ms
8.000 TPS → p95 = 300 ms
9.000 TPS → p95 = 800 ms
9.500 TPS → p95 = 4.000 ms

Veja o comportamento:

Latency
  │
  │                         /
  │                       /
  │                    __/
  │                 __/
  │________________/
  └──────────────────────────── TPS
                      ↑
                 SATURAÇÃO

Existe uma região em que adicionar workload provoca crescimento muito maior da latência.

Encontrar esse comportamento antes da Black Friday é muito mais agradável do que descobri-lo durante a Black Friday.

Isso é parte do espírito de Capacity Planning.


🔭 CAPÍTULO 19 — SMF E RMF: WINRY ENCONTRA O MANUAL DE MANUTENÇÃO

Como investigamos tudo isso?

O z/OS produz uma quantidade extraordinária de telemetria.

Dois nomes precisam entrar cedo no vocabulário do iniciante:

SMF — System Management Facilities

e

RMF — Resource Measurement Facility.

Simplificando muito:

             MAINFRAME
                 │
       ┌─────────┴─────────┐
       ▼                   ▼
      SMF                 RMF
       │                   │
       ▼                   ▼
 atividade/             recursos/
 registros              performance

Além deles, investigamos informações específicas dos subsistemas:

CICS
Db2
MQ
TCP/IP
WLM
JES
Storage

E, em ambientes híbridos:

API Gateway
OpenShift
Kubernetes
Java
cloud
network
serviços externos

Porque a transação não respeita o organograma da empresa.

Ela simplesmente percorre o caminho necessário.


🕵️ CAPÍTULO 20 — PASSO A PASSO: COMO INVESTIGAR "O MAINFRAME ESTÁ LENTO"

Winry agora entrega uma prancheta ao jovem programador.

Quando alguém disser:

"Está lento."

não comece alterando código.

Faça perguntas.

1. Identifique o serviço afetado. Descubra qual transação, aplicação, API, job ou fluxo apresenta problema.

2. Determine quando começou. Horário é crucial para correlacionar workload, mudanças e eventos.

3. Meça a latência. Não fique apenas na média. Procure distribuição e percentis relevantes.

4. Observe o throughput. O volume aumentou? Diminuiu? Continua igual?

5. Observe erros e timeouts. Latência pode estar virando falha percebida.

6. Verifique filas e esperas. CICS, Db2, MQ, I/O e dependências podem introduzir queueing.

7. Observe CPU no contexto. CPU é evidência, não veredito.

8. Investigue contenção. Locks, serializações e recursos compartilhados merecem atenção.

9. Compare com o baseline. Saber que p95 está em 400 ms não ajuda tanto quanto saber que normalmente está em 90 ms.

10. Correlacione o caminho completo.

Pense:

Cliente
 ↓
Rede
 ↓
API
 ↓
z/OS Connect
 ↓
CICS
 ↓
COBOL
 ↓
Db2 / MQ
 ↓
Dependências

Nunca pare simplesmente porque encontrou o primeiro gráfico vermelho.


🧰 CAPÍTULO 21 — A CAIXA DE FERRAMENTAS DO PROGRAMADOR COBOL

O iniciante costuma começar preocupado com:

IF
PERFORM
MOVE
EVALUATE
READ
WRITE

Naturalmente.

Mas seu crescimento profissional começa quando percebe que o programa não vive sozinho.

Ele existe dentro de um ecossistema.

Aprenda gradualmente:

COBOL
  ↓
JCL
  ↓
CICS
  ↓
Db2
  ↓
VSAM
  ↓
MQ
  ↓
z/OS
  ↓
WLM
  ↓
SMF/RMF

Você não precisa dominar tudo amanhã.

Mas precisa entender que tudo pode participar da mesma transação.


🤖 CAPÍTULO 22 — RELIABILITY NÃO É AVAILABILITY

Outro conceito merece entrar na oficina.

Availability e Reliability estão relacionados, mas não são sinônimos.

Uma maneira didática de pensar:

Availability: o serviço está acessível quando necessário?

Reliability: ele consegue operar corretamente, de forma consistente, ao longo do período considerado?

Imagine um serviço que cai frequentemente, mas reinicia em segundos.

Sua disponibilidade agregada pode até parecer boa dependendo da medição.

Mesmo assim, sua confiabilidade operacional pode ser péssima.

Winry resumiria:

Não basta o braço mecânico estar preso ao corpo. Ele precisa funcionar corretamente quando Edward precisar dele.


♻️ CAPÍTULO 23 — RECOVERABILITY: E DEPOIS DO ABEND?

Existe ainda outro ponteiro:

Recoverability.

Pergunta:

Depois da falha, conseguimos voltar corretamente?

No mainframe isso nos leva a temas fundamentais:

logging
checkpoint
restart
rollback
backup
recovery
RTO
RPO
disaster recovery
cyber resilience

Imagine um batch processando 500 milhões de registros.

Ele sofre ABEND no registro:

487.321.998

Se o único plano de recuperação for:

"Roda tudo novamente."

temos espaço para melhorar o projeto.

Checkpoint/restart, quando apropriado, pode mudar completamente a recuperação operacional.


🥚 EASTER EGG — 03:17 E TODOS OS DASHBOARDS ESTAVAM VERDES

Às 03:17, o telefone toca.

Produção.

— O cliente não consegue fazer pagamentos.

O jovem programador abre o dashboard.

Tudo verde.

CPU       🟢
CICS      🟢
Db2       🟢
MQ        🟢
z/OS      🟢

Ele sorri.

— Impossível. Está tudo funcionando.

Winry entra na sala.

Olha para os gráficos.

Depois olha para ele.

— O cliente consegue pagar?

— Não.

— Então alguma coisa importante não está funcionando.

Silêncio.

Esse talvez seja o easter egg mais importante deste artigo:

Não confunda ausência de alerta com ausência de problema.

Um dashboard mostra aquilo que você decidiu medir.

O cliente experimenta o serviço inteiro.


🔩 CAPÍTULO 24 — A REGRA DE OURO DE WINRY ROCKBELL

Depois de horas na oficina, Winry coloca quatro mostradores sobre a mesa:

┌──────────────────────┐
│ LATENCY              │
│ Quanto demora?       │
├──────────────────────┤
│ THROUGHPUT           │
│ Quanto processamos?  │
├──────────────────────┤
│ AVAILABILITY         │
│ Quanto fica no ar?   │
├──────────────────────┤
│ CAPACITY             │
│ Quanto sustentamos?  │
└──────────────────────┘

Ao lado, acrescenta mais dois:

RELIABILITY
Funciona corretamente?

RECOVERABILITY
Como voltamos quando falha?

Agora temos uma visão muito mais madura.

Nenhum desses indicadores sozinho descreve a saúde do serviço.

Você pode ter:

baixa latency e baixo throughput;

alto throughput e baixa availability;

alta availability com latency tão ruim que o usuário recebe timeout;

capacidade suficiente hoje e nenhuma margem para amanhã;

ótima performance e péssima recuperação após uma falha.

Engenharia acontece justamente nas relações entre essas dimensões.


🎓 EPÍLOGO — O PROGRAMADOR COBOL SAI DA OFICINA DIFERENTE

No começo deste artigo nosso jovem programador olhava para:

IF SALDO >= VALOR
   SUBTRACT VALOR FROM SALDO
END-IF

e perguntava:

"O programa funciona?"

Essa continua sendo uma pergunta importante.

Mas agora ele possui outras:

Quanto tempo a transação leva?

Qual é seu p95 e p99?

Quanto desse tempo é processamento e quanto é espera?

Quantas transações por segundo conseguimos sustentar?

Onde aparecem filas?

Existe contenção?

Qual é a Unit of Work?

Quanto tempo mantemos locks?

O COMMIT está na fronteira correta do negócio?

O WLM está cumprindo os objetivos definidos?

O serviço continua disponível quando um componente falha?

Existe um SPOF?

O que acontece quando aparecem timeouts?

Os clientes fazem retry?

Quanto workload conseguimos absorver antes da saturação?

Como sabemos que algo está errado?

Como recuperamos depois de um ABEND?

Essas perguntas transformam alguém que simplesmente escreve COBOL em alguém que começa a compreender sistemas.

E essa é uma mudança gigantesca.

O mainframe nunca foi apenas COBOL.

COBOL pode estar no coração da aplicação, mas ao redor dele existe uma verdadeira máquina:

                     CLIENTE
                        │
                        ▼
                   LATENCY
                        │
                        ▼
                  THROUGHPUT
                        │
                        ▼
                    CAPACITY
                        │
        ┌───────────────┼───────────────┐
        ▼               ▼               ▼
       CICS            Db2              MQ
        │               │               │
        └───────────────┼───────────────┘
                        ▼
                       WLM
                        │
                 ┌──────┴──────┐
                 ▼             ▼
                SMF           RMF
                 │             │
                 └──────┬──────┘
                        ▼
                  IBM Z / z/OS
                        │
                        ▼
                 AVAILABILITY
                        │
                        ▼
                 RECOVERABILITY

E talvez essa seja a grande lição que Winry Rockbell deixaria para um padawan do COBOL:

Não saia trocando peças porque alguém disse que a máquina está lenta. Primeiro descubra o caminho do trabalho, meça onde o tempo está sendo gasto, encontre onde a fila nasceu e só então abra a caixa de ferramentas.

Porque Latency conta quanto uma transação esperou.

Throughput conta quantas conseguiram atravessar.

Availability conta durante quanto tempo o serviço permaneceu utilizável.

Capacity revela até onde conseguimos aumentar a carga antes de a oficina começar a ranger.

Reliability pergunta se a máquina continua fazendo corretamente aquilo para que foi construída.

E Recoverability responde à pergunta inevitável em qualquer sistema sério:

Quando alguma coisa finalmente quebrar, como voltaremos?

Às vezes o culpado será CPU.

Às vezes será CICS.

Às vezes será Db2.

Às vezes será MQ.

Às vezes será uma dependência fora do mainframe.

E, de vez em quando, depois de horas investigando SMF, RMF, WLM, traces, logs, locks e filas, você encontrará um COMMIT colocado no lugar errado anos atrás.

Winry provavelmente limparia as mãos sujas de graxa, apontaria para o código e diria:

Eu avisei. Antes de trocar o motor, descubra qual parafuso está solto.

E o programador COBOL nunca mais olharia para um simples gráfico de Latency × Throughput × Availability da mesma maneira.

Porque agora ele não vê três números.

Ele vê o comportamento de uma máquina inteira. ☕🔧🖥️


terça-feira, 5 de abril de 2022

⚡🎭 Tokusatsu — A Magia Explosiva dos Heróis Japoneses

 

Bellacosa Mainframe e o fenomeno do tokusatsu

⚡🎭 Tokusatsu — A Magia Explosiva dos Heróis Japoneses

Se você vibra com heróis mascarados, monstros gigantes e transformações cheias de efeitos práticos, então já é, oficialmente, um fã de tokusatsu — mesmo que ainda não saiba disso!
Esse gênero é o coração pulsante do entretenimento japonês, um misto de ficção científica, moralidade heroica e muita criatividade visual. 🦸‍♂️🔥


🎥 O Que é Tokusatsu?

A palavra "tokusatsu" (特撮) vem de tokushu satsuei, que significa “filmagem especial” — ou seja, efeitos especiais práticos usados em filmes e séries.

Mas, mais do que uma técnica, o tokusatsu virou um gênero completo, que engloba desde monstros gigantes até heróis coloridos com armaduras e robôs.
Seja um guerreiro que cresce 50 metros de altura, um robô que protege o universo ou um grupo de jovens com uniformes metálicos — tudo isso é tokusatsu. 🌈


🕰️ Origem e História

Tudo começou no Japão do pós-guerra, com um país que buscava esperança e reconstrução.
Em 1954, surge o mito: Godzilla (Gojira) 🦖 — criado por Ishirō Honda e Eiji Tsuburaya.
O filme misturava drama humano, destruição e crítica às armas nucleares.
E com ele, nasceu o estilo tokusatsu moderno.

💥 A partir daí, Tsuburaya levou a magia dos efeitos práticos para a TV:

  • Ultraman (1966) trouxe o herói espacial que enfrenta kaijus em batalhas épicas.

  • Kamen Rider (1971) combinou motos, insetos e justiça social.

  • Super Sentai (1975) coloriu o gênero com equipes, robôs e coreografias em grupo.

Nos anos 80 e 90, o tokusatsu dominou as tardes da TV japonesa (e brasileira!), e muitos heróis viraram ícones pop — de Jaspion a Changeman, de Cybercops a Metalder.


🌟 Principais Ramos do Tokusatsu

SubgêneroDescriçãoExemplo Clássico
🦖 Kaiju EigaFilmes de monstros gigantes.Godzilla, Gamera
👽 Ultra SeriesHeróis alienígenas que defendem a Terra.Ultraman, Ultraseven
🏍️ Kamen RiderHeróis solitários com armaduras e motos.Kamen Rider Ichigo, Black RX
🧑‍🤝‍🧑 Super SentaiEquipes de heróis coloridos que lutam juntos.Goranger, Zyuranger
🤖 Metal Hero SeriesGuerreiros cibernéticos e policiais espaciais.Jaspion, Jiban, Winspector

💫 Curiosidades Que Todo Otaku Vai Curtir

  • 🎬 O mestre dos efeitos, Eiji Tsuburaya, também trabalhou em Godzilla e criou o primeiro Ultraman. Ele é considerado o “pai do tokusatsu”.

  • 👹 Os monstros (kaijus) são feitos com fantasias enormes de borracha e espuma, filmados em maquetes incríveis — técnica chamada suitmation.

  • 🦸 As lutas são coreografadas por dublês lendários, conhecidos no Japão como suit actors.

  • 🎶 A trilha sonora é sempre marcante — cada série tem aquele tema que gruda na alma (“Jaspion, o guerreiro do futurooo!” 🎵).

  • 🧠 Muitos roteiros têm mensagens filosóficas ou ecológicas, falando sobre humanidade, progresso e respeito à natureza.


🔍 Alguns Clássicos Antigos Que Valem a Revisita

  • 🦸‍♂️ Ultraman (1966) — o pai de todos os heróis gigantes.

  • 👹 Spectreman (1971) — herói dourado ecológico e reflexivo.

  • 🏍️ Kamen Rider Black (1987) — clássico sombrio e amado no Brasil.

  • ⚙️ Metalder (1987) — um guerreiro poético em busca de sentido.

  • 🚓 Jiban (1989) — o policial biônico com coração humano.

  • 🚀 Winspector (1990) — patrulha de heróis tecnológicos com espírito de equipe.


💥 E Alguns Que Você Não Pode Perder Hoje

  • 🔥 Kamen Rider Build (2017) — ciência, emoção e política num só pacote.

  • 💎 Ultraman Z (2020) — mistura de nostalgia e efeitos modernos.

  • 🦾 Gokaiger (2011) — um tributo épico a toda a história dos Super Sentai.

  • 🌌 Shin Godzilla (2016) — repensa o mito original de forma brilhante.

  • 🧬 Kamen Rider Black Sun (2022) — releitura adulta e cinematográfica.


💡 Dicas Para Quem Quer Mergulhar no Universo Tokusatsu

  1. 🕰️ Comece pelos clássicos curtos (Spectreman, Jaspion, Ultraman).

  2. 📱 Use plataformas oficiais — canais como Tsuburaya Official e Toei Tokusatsu World têm episódios grátis no YouTube.

  3. 🌈 Observe os temas sociais — cada série fala mais sobre o Japão (e sobre nós) do que parece.

  4. 👁️ Curta os efeitos práticos — maquetes, miniaturas e explosões reais têm um charme que CGI nenhum substitui.

  5. 💬 Participe das comunidades otaku — troque teorias, memes e nostalgia com outros fãs.


🌸 Por Que Tokusatsu Continua Encantando

Mais do que explosões e monstros, o tokusatsu é sobre esperança.
Ele nasceu em um país que precisava acreditar de novo — e ensinou que a justiça pode vir em qualquer forma, até de um guerreiro mascarado com um coração puro. 💖

É um lembrete de que, mesmo diante do caos, ainda podemos escolher proteger o que é bom.
E é por isso que, décadas depois, ainda nos emocionamos quando ouvimos:

“Transformar!” ⚡


🧭 Resumo Rápido

ItemDetalhes
🎬 SignificadoTokusatsu = “filmagem especial”
🗓️ OrigemJapão, década de 1950
🧙‍♂️ Criadores-chaveEiji Tsuburaya, Shotaro Ishinomori
🧠 TemasHeroísmo, tecnologia, natureza, ética
🌍 SubgênerosKaiju, Sentai, Kamen Rider, Metal Hero
🎞️ LegadoInfluenciou cinema, anime e cultura pop mundial

✨ Tokusatsu é, no fim das contas, uma celebração do impossível — o encontro entre o humano e o heróico.
E como todo bom fã sabe:

“Quando a esperança brilha, o herói aparece.” 🌟

💻 Bellacosa Mainframe Blog — IBM System z16: O Mainframe da Era da Inteligência Artificial e Confiança Digital

 


💻 Bellacosa Mainframe Blog — IBM System z16: O Mainframe da Era da Inteligência Artificial e Confiança Digital




🕰️ Ano de lançamento

2022 — O IBM System z16 foi anunciado em 5 de abril de 2022 e lançado oficialmente em 31 de maio de 2022.
Ele marcou um divisor de águas na história dos mainframes ao introduzir IA on-chip, prevenção de fraudes em tempo real e computação confiável de ponta a ponta.


🧩 Modelos disponíveis

  • IBM z16 Model A01 – versão corporativa de grande porte, sucessora direta do z15 T01.

  • IBM z16 Model A02 – versão de rack padrão (2023), projetada para integração com infraestruturas híbridas e cloud-native.

Ambos modelos suportam z/OS, z/VM, z/VSE, z/TPF, Linux on Z e Red Hat OpenShift de forma nativa.


⚙️ CPU e arquitetura

  • Processador: IBM Telum – o primeiro chip mainframe com acelerador de IA integrado no silício

  • Tecnologia: 7 nanômetros (projetado em parceria com a Samsung)

  • Cores por chip: 8

  • Cores por sistema: até 200 em configurações de alta densidade

  • Frequência: 5,2 GHz

  • Memória máxima: 40 TB RAM

  • Cache L3 compartilhado: 256 MB por drawer (com rede de cache cross-chip de altíssima velocidade)

  • IA On-Chip: permite inferência de machine learning em tempo real, diretamente no hardware, sem latência de rede


🧠 Versão do z/OS compatível

  • z/OS 2.5 (lançada em 2021, preparada para o z16)

  • Suporte também a z/VM 7.2, z/VSE 6.2, Linux on Z (RHEL, SUSE, Ubuntu) e Red Hat OpenShift 4.x


🧬 Introdução técnica

O IBM z16 inaugurou a era da computação preditiva segura.
Com o processador Telum, o mainframe ganhou a capacidade de analisar e reagir a eventos em tempo real, como fraudes em transações bancárias, sem sair do fluxo operacional.

Entre os avanços:

  • Inferência de IA embutida no processador: permitindo executar modelos de Machine Learning com latência inferior a 1 milissegundo.

  • IBM Quantum Safe Cryptography: criptografia resistente a ataques quânticos, baseada em novos algoritmos pós-quânticos.

  • Cloud híbrida segura: integração total com Red Hat OpenShift e IBM Cloud Pak para Data e Automation.

  • Zero Trust Architecture: segurança “de dentro para fora”, com verificação contínua de identidade e acesso.


🔁 O que muda em relação ao System z15

RecursoSystem z15System z16Evolução
Processadorz15 Core (7 nm)Telum (7 nm, IA on-chip)IA nativa e novo cache interconectado
Cores Máx.190200+5% e desempenho por core otimizado
CriptografiaPervasive + Privacy PassportQuantum Safe EncryptionProteção contra ataques quânticos
IAExterna (via frameworks)On-chip, em tempo realInferência embutida
NuvemOpenShift / Cloud PakOpenShift com IA + AIOpsCloud híbrida inteligente
RecuperaçãoInstant RecoveryResilient Recovery com IARecuperação orientada a padrões preditivos

🧾 Curiosidades

  • O chip Telum foi 100% projetado pela IBM, em Poughkeepsie (EUA), e fabricado pela Samsung.

  • O z16 foi o primeiro servidor corporativo do mundo com IA embutida no processador para inferência em tempo real.

  • É capaz de processar 300 bilhões de inferências de IA por dia sem comprometer o desempenho das cargas de trabalho tradicionais.

  • Internamente, o projeto era conhecido como “Project Telum”, nome derivado do latim “lança”, simbolizando precisão e velocidade.

  • Cada chip Telum contém 22 bilhões de transistores, um salto técnico gigantesco frente ao z15.


🧠 Dica técnica Bellacosa

👉 Use o IBM AI Toolkit for z/OS para criar e treinar modelos de IA compatíveis com o Acelerador Telum.
Os modelos podem ser desenvolvidos em Python (TensorFlow, PyTorch) e executados diretamente dentro do CICS ou DB2, eliminando latência e custo de transferência de dados.

👉 Ative o IBM Quantum Safe Security Module no z/OS 2.5 para testar a criptografia pós-quântica — essencial para quem trabalha com dados financeiros ou governamentais sensíveis.


🔍 Nota técnica

  • O z16 oferece até 40% mais throughput por drawer em cargas mistas.

  • Implementa o IBM Z Integrated Accelerator for AI, um componente físico do Telum que permite rodar modelos ONNX diretamente na CPU.

  • O barramento de interconexão entre chips foi redesenhado, aumentando a largura de banda em 30%.

  • Suporte a SMT-2 (Simultaneous Multithreading) aprimorado, melhorando o desempenho de Linux on Z.

  • Em workloads de inferência, o Telum pode atingir 300.000 inferências por segundo, sem GPU dedicada.


🏁 Resumo técnico

ItemDetalhe
Ano2022
ModelosA01 (Enterprise) / A02 (Rack-mounted)
CPUTelum (7 nm, 8 cores/chip, IA on-chip)
Memória Máx.40 TB
z/OS2.5 (nativo)
DestaquesIA em tempo real, segurança quântica, cloud híbrida inteligente
Codinome internoProject Telum

🧭 História e legado

O System z16 representa o auge da engenharia IBM Z — misturando segurança, IA e performance em uma só arquitetura.
Ele trouxe o mainframe para o mundo da decisão em tempo real, tornando possível detectar fraudes, prever falhas e automatizar ações sem intervenção humana.

Mais do que um upgrade, o z16 é o símbolo da transição do mainframe para o futuro da computação confiável e cognitiva.
E sim, padawans da Stack Mainframe: o gigante preto agora pensa — literalmente. ⚡


segunda-feira, 4 de abril de 2022

☕💣 OPERADOR, O SINAL => ACABOU DE INVADIR O DATA CENTER! Arrow Functions: A Revolução das Funções Modernas Explicada para Quem Vem do COBOL Mainframe

 

Bellacosa Mainframe 

☕💣 OPERADOR, O SINAL => ACABOU DE INVADIR O DATA CENTER!

Arrow Functions: A Revolução das Funções Modernas Explicada para Quem Vem do COBOL Mainframe

Se você programa COBOL há anos, provavelmente está acostumado com estruturas como:

PERFORM CALCULA-IMPOSTO.

ou

CALL "PROGRAMA1" USING WS-DADOS.

Quando entra no mundo JavaScript moderno, uma das primeiras coisas que aparecem é um símbolo aparentemente estranho:

() => {}

Essa construção é chamada de Arrow Function (Função Seta).

À primeira vista parece criptografia de hacker.

Mas, na prática, ela representa apenas uma forma mais moderna e compacta de escrever funções.


Um Pouco de História

As Arrow Functions foram introduzidas em:

ECMAScript 6 (ES6) - 2015

O ECMAScript é a especificação oficial do JavaScript.

A proposta foi desenvolvida por diversos membros do comitê TC39, responsável pela evolução da linguagem JavaScript.

A inspiração veio principalmente de linguagens funcionais como:

  • Haskell

  • Scala

  • CoffeeScript

  • C#

  • Java 8 (Lambdas)

O objetivo era:

  • Escrever menos código

  • Tornar funções mais legíveis

  • Resolver problemas com o contexto do this


Como Era Antes

Função tradicional:

function soma(a, b) {
   return a + b;
}

Uso:

console.log(soma(10,5));

Resultado:

15

A Mesma Coisa com Arrow Function

const soma = (a, b) => {
   return a + b;
};

Resultado:

15

Mesma lógica.

Sintaxe diferente.


Traduzindo para a Cabeça de um Coboleiro

Imagine:

CALCULA-SOMA.
    COMPUTE WS-RESULTADO = WS-A + WS-B.

Arrow Function:

(a,b) => a+b

É como se fosse:

ENTRADA -> PROCESSAMENTO

O símbolo:

=>

significa aproximadamente:

"transforma isso em"

ou

"recebe isto e executa aquilo"

Anatomia da Arrow Function

Exemplo:

const dobro = (numero) => {
   return numero * 2;
};

Partes:

(numero)

Parâmetro de entrada.

=>

Arrow.

{
   return numero * 2;
}

Bloco executado.


Forma Super Compacta

Quando existe apenas um retorno:

const dobro = numero => numero * 2;

Equivale a:

const dobro = function(numero){
   return numero * 2;
}

Comparação Lado a Lado

Tradicional

function quadrado(x){
   return x*x;
}

Arrow

const quadrado = x => x*x;

Exemplo Prático de Mainframe

Imagine um arquivo contendo salários.

COBOL:

PERFORM VARYING I FROM 1 BY 1
   UNTIL I > TOTAL-REGISTROS

   COMPUTE WS-NOVO-SALARIO =
           WS-SALARIO(I) * 1.10

END-PERFORM

JavaScript:

salarios.map(salario => salario * 1.10);

Observe:

salario => salario * 1.10

é uma Arrow Function.


O Que é map()?

O método percorre uma lista.

Para cada elemento executa a função.

Visualmente:

1000
2000
3000

Passa por:

salario => salario * 1.10

Resultado:

1100
2200
3300

Por Que Virou Tão Popular?

Antes:

numeros.forEach(function(numero){
   console.log(numero);
});

Depois:

numeros.forEach(numero => console.log(numero));

Menos código.

Mais legibilidade.


O Grande Problema Que Ela Resolve

No JavaScript existe algo chamado:

this

Ele gera muita confusão.

Exemplo antigo:

function Pessoa() {

   this.nome = "Bellacosa";

   setTimeout(function() {

      console.log(this.nome);

   },1000);

}

Resultado:

undefined

Porque o this muda de contexto.


Com Arrow Function

function Pessoa() {

   this.nome = "Bellacosa";

   setTimeout(() => {

      console.log(this.nome);

   },1000);

}

Resultado:

Bellacosa

A Arrow Function herda o contexto externo.

Isso eliminou milhares de bugs.


Vantagens

1. Menos Código

Antes:

function(x){
   return x*2;
}

Depois:

x => x*2

2. Melhor Leitura

Especialmente em:

filter()
map()
reduce()
forEach()

3. Resolve Problemas de this

Grande vantagem.


4. Ideal para Programação Funcional

Muito usada em:

  • React

  • Angular

  • Vue

  • Node.js


Desvantagens

Não Possui Próprio this

Às vezes isso é ruim.

const pessoa = {
   nome: "João",
   falar: () => {
      console.log(this.nome);
   }
}

Pode não funcionar como esperado.


Não Pode Ser Usada Como Construtor

Isto funciona:

function Pessoa(){}
new Pessoa();

Isto não:

const Pessoa = () => {};
new Pessoa();

Erro.


Menos Clara em Funções Grandes

Isto:

const calcula = () => {
   ...
   ...
   ...
   ...
}

Às vezes fica menos legível que uma função tradicional.


Linguagens que Possuem Conceito Semelhante

Java

x -> x * 2

C#

x => x * 2

Kotlin

{ x -> x * 2 }

Scala

x => x * 2

Python

lambda x: x * 2

Ruby

->(x) { x * 2 }

Como Ler uma Arrow Function

Quando encontrar:

(cliente) => cliente.nome

Leia mentalmente:

Receba cliente
Retorne cliente.nome

Outro exemplo:

(a,b) => a+b

Leia:

Receba A e B
Retorne A+B

Como Construir Uma

Passo 1

Escreva a função tradicional.

function multiplica(a,b){
   return a*b;
}

Passo 2

Remova a palavra function.

(a,b){
   return a*b;
}

Passo 3

Adicione a seta.

(a,b) => {
   return a*b;
}

Passo 4

Se houver apenas um retorno:

(a,b) => a*b

Pronto.


Truque Para Coboleiros

Sempre pense:

ENTRADA => SAÍDA

Exemplos:

x => x*2

"Recebe X e devolve o dobro."


nome => nome.toUpperCase()

"Recebe nome e devolve maiúsculo."


cliente => cliente.saldo

"Recebe cliente e devolve saldo."


Regra de Ouro

Se você enxergar:

=> 

Pergunte:

O que entra?

Está à esquerda.

(cliente)

O que sai?

Está à direita.

cliente.nome

Então:

(cliente) => cliente.nome

significa:

ENTRA CLIENTE
SAI O NOME

Exatamente como uma pequena rotina COBOL que recebe um registro e devolve um campo.


Resumo Bellacosa Mainframe

Se fosse explicar Arrow Function para um operador ou programador COBOL em uma única frase:

Arrow Function é uma forma moderna, compacta e mais inteligente de escrever rotinas pequenas em JavaScript, funcionando como um "PERFORM inline" que recebe dados à esquerda da seta e devolve um resultado à direita.

Quando você começar a estudar React, Node.js, APIs REST, automações em N8N ou agentes de IA em JavaScript, verá Arrow Functions em praticamente todo lugar. Entender => é equivalente a aprender PERFORM, CALL e SECTION nos primeiros dias de COBOL: é um dos fundamentos da linguagem moderna.


domingo, 3 de abril de 2022

☕💣👁️ OPERADOR, ANOTHER NÃO FOI APENAS UM ANIME. FOI UMA ANOMALIA CULTURAL.

 

Bellacosa Mainframe e o impacto cultural de Another

☕💣👁️ OPERADOR, ANOTHER NÃO FOI APENAS UM ANIME. FOI UMA ANOMALIA CULTURAL.

A resposta curta é: sim, Another teve um impacto cultural muito maior do que seus apenas 12 episódios sugerem.

Curiosamente, ele não alcançou o status de gigantes como Death Note, Attack on Titan ou Evangelion, mas tornou-se uma obra de referência dentro do terror e mistério sobrenatural.


O Contexto Histórico de 2012

Quando Another estreou em 2012, o cenário dos animes era diferente.

O mercado estava dominado por:

  • Shounen de batalha

  • Comédias escolares

  • Moe

  • Slice of Life

O terror puro era relativamente raro.

Na época, muitos fãs lembravam de clássicos como:

  • Higurashi (2006)

  • Shiki (2010)

  • Ghost Hunt (2006)

Mas não existia um grande fenômeno recente de horror escolar.

Another chegou exatamente nesse espaço.


Ele Foi Influenciado Por Quais Obras?

1. Final Destination (Premonição)

A influência mais evidente.

Embora o autor Yukito Ayatsuji nunca tenha descrito a obra como uma adaptação conceitual, muitos elementos lembram:

  • Mortes encadeadas

  • Fatalidades improváveis

  • Destino inevitável

  • Acidentes absurdos

Muitos fãs chamam Another de:

"Final Destination versão anime."


2. Higurashi no Naku Koro ni 

Aqui a influência é estrutural.

Temos:

  • Cidade pequena

  • Mistério oculto

  • Segredos coletivos

  • Clima de paranoia

  • Jovens investigando algo maior

Mas Another é menos complexo narrativamente.

Seu foco está mais na atmosfera.


3. Ring (Ringu)

O horror japonês clássico influenciou profundamente a obra.

Elementos herdados:

  • Melancolia

  • Silêncio

  • Fatalismo

  • Maldição inevitável

O medo em Another raramente vem de monstros.

Vem da sensação de que algo está errado.


4. Ju-On

A ideia de uma força inevitável e impessoal também aparece aqui.

Em Ju-On:

  • A maldição não odeia ninguém.

Em Another:

  • O fenômeno também parece operar sem emoção.

Isso torna o horror mais perturbador.


O Que Another Trouxe de Novo?

Aqui está sua maior contribuição.

Até então muitos animes de terror dependiam de:

  • Fantasmas

  • Demônios

  • Espíritos

Another popularizou uma ideia diferente:

O Horror da Probabilidade

Não existe necessariamente um monstro perseguindo alguém.

O próprio mundo parece conspirar.

Escadas.

Portas.

Vidros.

Objetos comuns.

Tudo pode virar ameaça.

Essa abordagem influenciou diversos animes posteriores.


Quais Obras Foram Influenciadas?

Não existe uma lista oficial, mas críticos e fãs costumam citar semelhanças em:

Corpse Party (anime 2013)

A popularização do horror escolar gráfico ganhou força após Another.


Dark Gathering (2023)

Mistura horror moderno com investigação sobrenatural.

Possui forte DNA do terror japonês popularizado por Another.


Mieruko-chan (2021)

Embora seja mais comédia de horror, aproveita a ideia de tensão constante.


Summer Time Rendering (2022)

Muito mais complexo, mas herda:

  • Mistério crescente

  • Atmosfera paranoica

  • Descoberta gradual da verdade


O Impacto nos Memes

Poucos animes de terror geraram tantos memes.

Os mais famosos:

☂️ Guarda-chuva

🪜 Escadas

🚪 Portas

🛗 Elevadores

📂 "Mais um aluno da Classe 3-3"

Até hoje essas referências aparecem em fóruns de anime.


Another Ainda é Comentado?

Sim.

E isso é impressionante.

Estamos falando de uma série de 2012.

Mais de uma década depois ainda aparecem:

  • Vídeos no YouTube

  • Reações

  • Reviews

  • Rankings de terror

  • Recomendações para iniciantes

Sempre que alguém pergunta:

"Qual anime de terror devo assistir?"

Another quase sempre aparece.


Existe Fandom Atualmente?

Sim.

Não é gigantesco.

Mas é extremamente fiel.

O fandom moderno vive principalmente em:

  • Reddit

  • Discord

  • YouTube

  • MyAnimeList

  • X/Twitter

  • TikTok

Os fãs costumam discutir:

  • Teorias

  • Simbolismos

  • Personagens

  • Mortes mais marcantes

  • Relação entre novel e anime


O Caso Curioso de Mei Misaki 

Existe um fenômeno interessante.

Mesmo pessoas que nunca assistiram Another frequentemente reconhecem:

  • O tapa-olho

  • O uniforme

  • A aparência de Mei

Ela tornou-se um ícone visual do horror anime.

Algo semelhante ao que ocorreu com:

  • Rei Ayanami (Evangelion)

  • Kurisu Makise (Steins;Gate)

  • Rika Furude (Higurashi)


Por Que Another Sobreviveu ao Tempo?

A maioria dos animes de terror envelhece mal.

O susto perde força.

A surpresa desaparece.

Mas Another possui três características que continuam funcionando:

Atmosfera

Ainda hoje parece moderno.


Mistério

Funciona mesmo após anos.


Psicologia

Os temas de:

  • medo

  • ansiedade

  • exclusão

  • conformidade social

  • luto

continuam universais.


Avaliação Bellacosa Mainframe

Se analisarmos o impacto cultural como um sistema legado:

CritérioNota
Popularidade Geral8/10
Influência no Horror Anime9/10
Presença em Memes10/10
Reconhecimento de Personagens9/10
Comunidade Atual8/10
Relevância Histórica9/10

Veredito Final do Operador

Another não revolucionou a indústria como Evangelion.

Não vendeu como Demon Slayer.

Não redefiniu o mercado como Attack on Titan.

Mas fez algo raro:

Tornou-se o anime que praticamente todo fã de terror conhece.

Hoje ele ocupa uma posição semelhante à de um sistema legado extremamente respeitado.

Não é o maior.

Não é o mais popular.

Mas quando alguém pergunta:

"Qual é o clássico moderno do terror anime?"

O nome Another continua aparecendo no relatório.

☕💣👁️ Status Cultural: ATIVO
📂 Fandom: OPERACIONAL
☂️ Guarda-chuvas: ainda geram desconfiança em veteranos do anime.

☕💣💔 OPERADOR, O VERDADEIRO ABEND DE SCHOOL DAYS NÃO FOI O FINAL... FOI O QUE FIZERAM COM KOTONOHA KATSURA

 

Bellacosa Mainframe a dolorosa historia de Kotonoha Katsura

☕💣💔 OPERADOR, O VERDADEIRO ABEND DE SCHOOL DAYS NÃO FOI O FINAL...

FOI O QUE FIZERAM COM KOTONOHA KATSURA

Existem animes que nos chocam.

Existem animes que nos assustam.

Existem animes que nos deixam revoltados.

E existem aqueles raros animes que nos fazem sentir culpa.

School Days pertence a essa última categoria.

Curiosamente, quando o anime termina, muitas pessoas falam sobre o final.

Outras falam sobre Makoto.

Outras discutem Sekai.

Mas para uma parcela enorme dos espectadores existe uma sensação diferente.

Uma sensação que permanece durante dias.

Às vezes anos.

Uma sensação que você descreveu perfeitamente:

"Senti muita pena da Kotonoha."

E eu entendo completamente.

Porque o verdadeiro desastre operacional de School Days não é um assassinato.

Não é uma traição.

Não é um triângulo amoroso.

O verdadeiro desastre é assistir a destruição gradual de uma pessoa que, no começo da história, talvez fosse a mais inocente de todas.


O PRIMEIRO ERRO DE ANÁLISE

Quando assistimos School Days pela primeira vez fazemos uma avaliação equivocada.

Pensamos:

  • Makoto é o protagonista.

  • Sekai é a rival.

  • Kotonoha é a heroína.

Mas isso não está totalmente correto.

Analisando a obra anos depois, quase parece que Kotonoha é a verdadeira protagonista trágica.

Na prática estamos acompanhando a história pela perspectiva de Makoto.

Mas emocionalmente estamos testemunhando a queda de Kotonoha.

Ela é quem mais perde.

Ela é quem mais sofre.

Ela é quem paga a conta.


QUEM ERA KOTONOHA NO INÍCIO?

Quando aparece pela primeira vez, Kotonoha parece quase perfeita.

Bonita.

Educada.

Inteligente.

Gentil.

Reservada.

Ela não possui malícia.

Não possui segundas intenções.

Não possui jogos emocionais.

Ela simplesmente gosta de Makoto.

E isso é importante.

Porque em School Days quase todos os personagens possuem algum grau de egoísmo.

Kotonoha não.

Ela ama de forma sincera.

Talvez até excessivamente sincera.


O DETALHE QUE ME SEMPRE ME INCOMODOU

Existe uma cena simbólica que muita gente ignora.

Quando ela abre sua vida para Makoto.

Quando ela o recebe.

Quando ela o aproxima de seu mundo.

Quando ela apresenta sua rotina.

Sua família.

Sua irmã.

Seu espaço seguro.

Isso é gigantesco.

Talvez mais do que muitos espectadores percebam.


O SIGNIFICADO REAL DE APRESENTAR A FAMÍLIA

Operador.

Vamos traduzir isso para linguagem de mainframe.

Imagine que você administra um sistema crítico.

Você possui um ambiente altamente protegido.

Existem:

  • RACF

  • Firewalls

  • Auditoria

  • Controle de acesso

Ninguém entra ali facilmente.

Então um dia você entrega a alguém:

  • USERID

  • PASSWORD

  • Documentação

  • Diagramas

  • Chaves de acesso

Você está demonstrando confiança absoluta.

É exatamente isso que Kotonoha faz.

Ela abre seus ambientes internos.

Ela permite acesso ao seu universo pessoal.

E isso torna tudo mais doloroso.

Porque o que acontece depois não é apenas rejeição.

É violação de confiança.


O PECADO DE MAKOTO

Muitas análises simplificam Makoto.

Chamam-no apenas de:

"canalha"

Mas isso é superficial.

O problema dele é mais complexo.

Makoto não é um monstro.

Ele é pior para a narrativa.

Ele é humano.

Humanamente egoísta.

Humanamente fraco.

Humanamente irresponsável.


O QUE TORNA TUDO TÃO DOLOROSO?

Porque Kotonoha não sofre por um acidente.

Ela sofre por uma sequência de pequenas decisões.

E isso é assustadoramente real.

Ninguém acorda e decide destruir outra pessoa.

Normalmente acontece assim:

Pequena mentira.

Pequena omissão.

Pequena traição.

Pequena covardia.

Pequena falta de empatia.

Pequena manipulação.

Depois outra.

E outra.

E outra.

Até que o sistema inteiro entra em colapso.


O ESPECTADOR COMEÇA A SE SENTIR IMPOTENTE

Existe um fenômeno psicológico interessante.

Em determinado momento não estamos mais assistindo School Days.

Estamos torcendo.

Implorando.

Esperando.

Queremos que alguém perceba.

Queremos que alguém intervenha.

Queremos que alguém proteja Kotonoha.

Mas ninguém faz isso.

E isso gera desconforto.


A SOLIDÃO DELA É DEVASTADORA

Quanto mais a história avança mais isolada ela fica.

Observe.

Ela não possui uma rede forte de apoio.

Não possui dezenas de amigos.

Não possui alguém que a defenda continuamente.

Ela vai ficando cada vez mais sozinha.

E a solidão potencializa o sofrimento.


UMA DAS PERSONAGENS MAIS HUMANAS DOS ANIMES

A razão pela qual tantos espectadores sentem pena dela é simples.

Ela parece real.

Muito real.

Todos conhecemos alguém parecido.

A garota tímida.

O rapaz apaixonado.

A pessoa boa que foi usada.

A pessoa que acreditou demais.

A pessoa que confiou demais.

A pessoa que amou demais.

Kotonoha representa isso.


O ESPECTADOR NÃO ESTÁ VENDO UMA PERSONAGEM

Está vendo um reflexo.

Talvez de alguém conhecido.

Talvez de uma antiga namorada.

Talvez de um amigo.

Talvez de si mesmo.


A CRUELDADE NÃO ESTÁ NO QUE ACONTECE

Este é o ponto mais importante.

A crueldade não está apenas nos eventos.

A crueldade está na forma.

O anime não oferece alívio.

Não oferece conforto.

Não oferece justiça imediata.

Não oferece proteção.

Você assiste tudo acontecer.

E não pode fazer nada.


O COLAPSO PSICOLÓGICO

Uma das coisas mais tristes é perceber que Kotonoha não perde apenas um relacionamento.

Ela perde referências.

Perde estabilidade.

Perde segurança emocional.

Perde confiança.

Perde identidade.

Perde esperança.

É um efeito cascata.


UM DOS MAIORES ERROS DE MAKOTO

Muita gente acredita que a maior falha dele foi a infidelidade.

Discordo.

A maior falha foi a indiferença.

A infidelidade já é dolorosa.

Mas a indiferença destrói algo mais profundo.

Porque transmite uma mensagem cruel:

"Seus sentimentos não importam."

E isso é devastador.


O DETALHE DA IRMÃZINHA

Você mencionou algo que muitos espectadores esquecem.

A irmã.

Esse detalhe torna tudo ainda mais humano.

Porque mostra que Kotonoha não existe apenas como interesse romântico.

Ela possui família.

Rotina.

Afetos.

Responsabilidades.

Laços.

Sonhos.

Quando vemos isso, ela deixa de ser personagem.

Ela vira pessoa.

E quando vira pessoa, o sofrimento pesa muito mais.


POR QUE SCHOOL DAYS MARCA TANTO?

Porque não fala sobre monstros.

Fala sobre pessoas comuns.

Pessoas comuns podem destruir outras pessoas.

Sem perceber.

Sem planejar.

Sem intenção explícita.

Apenas através da irresponsabilidade emocional.


O VERDADEIRO TERROR DE SCHOOL DAYS

Muita gente classifica o anime como romance.

Outros como drama.

Alguns como terror psicológico.

Para mim o verdadeiro gênero é:

Tragédia Humana.

Porque o que assusta não é o que acontece no final.

O que assusta é perceber que situações parecidas acontecem diariamente no mundo real.

Sem trilha sonora.

Sem encerramento.

Sem créditos finais.


A LIÇÃO QUE FICA

Anos depois, quando as cenas chocantes já desapareceram da memória, algo permanece.

Não é Makoto.

Não é Sekai.

Não é sequer o final.

O que permanece é Kotonoha.

Sua gentileza.

Sua confiança.

Sua vulnerabilidade.

Sua capacidade de amar.

E talvez seja exatamente por isso que tantos espectadores nunca a esquecem.


☕💣 VEREDITO BELLACOSA MAINFRAME

Se School Days fosse um relatório de incidente em um ambiente z/OS, provavelmente seria algo assim:

INCIDENT REPORT

APPLICATION:
RELATIONSHIP MANAGEMENT SYSTEM

ROOT CAUSE:
FALTA DE RESPONSABILIDADE EMOCIONAL

SECONDARY FAILURES:
MENTIRAS
OMISSÕES
COVARDIA
INDIFERENÇA

MOST AFFECTED RESOURCE:
KOTONOHA KATSURA

BUSINESS IMPACT:
MÁXIMO

RECOVERY:
IMPOSSÍVEL

E talvez seja por isso que você continua pensando nela.

Não porque Kotonoha seja a personagem mais forte.

Nem a mais inteligente.

Nem a mais popular.

Mas porque ela representa algo raro.

Ela representa aquela pessoa que abriu todas as portas do próprio coração para alguém.

Confiou.

Acolheu.

Compartilhou sua vida.

Apresentou sua família.

Mostrou seu mundo.

E recebeu em troca algo que nenhum sistema, humano ou computacional, consegue processar sem danos.

Uma quebra completa de confiança.

E quando um relacionamento sofre um ABEND desse tipo, às vezes o dump fica gravado na memória para sempre. ☕💔📼


sexta-feira, 1 de abril de 2022

O Tesouro Perdido de Itatiba — Quando Jack Sparrow Desembarcou no Jacaré, Procurou Dois Milhões numa Chácara e Descobriu que Toda Cidade Tem sua Ilha da Caveira

 


☕ Lendas de Itatiba

O Tesouro Perdido de Itatiba — Quando Jack Sparrow Desembarcou no Jacaré, Procurou Dois Milhões numa Chácara e Descobriu que Toda Cidade Tem sua Ilha da Caveira

Ou: uns juram que eram 600 mil, outros aumentam para 2 milhões, um segredo teria morrido durante a pandemia, paredes foram interrogadas a marretadas — e até hoje ninguém sabe se o tesouro existiu, desapareceu ou já paga gasolina de carro novo.

Nota ao leitor — antes que Igor chame a perícia: este texto registra uma lenda oral do imaginário popular de Itatiba. Não é denúncia, investigação nem afirmação de fatos. Não apresentamos documentos, provas ou testemunhos verificáveis. Os personagens são tratados de forma genérica, os valores variam conforme a versão e nenhuma pessoa ou organização deve ser considerada identificada ou acusada. É um “causo”: mistura de diz que me diz, memória coletiva, humor e folclore político.


Prólogo — Um pirata pergunta onde fica o porto

Jack Sparrow chegou a Itatiba sem navio.

Isso, por si só, não o incomodou. Jack já perdera embarcações, tripulações, bússolas, garrafas, reputações e provavelmente alguns processos administrativos. O que realmente o deixou desconcertado foi descobrir que a cidade não tinha mar.

— Toda cidade com tesouro deveria ter um porto — reclamou, diante do Ribeirão Jacaré. — É uma questão de organização narrativa.

Igor, que fora designado guia por ninguém em particular, apontou para a água e garantiu que, em época de chuva, aquilo quase parecia o Caribe.

Jack examinou o ribeirão, depois Igor e, por fim, a garrafa que trazia no casaco.

— O Caribe piorou muito.

Mas o capitão não atravessara metade do imaginário popular para discutir hidrografia. Uma história extraordinária circulava pelos balcões, grupos de mensagens e conversas ditas em voz baixa — embora sempre alta o suficiente para a mesa ao lado ouvir.

Em algum lugar de Itatiba estaria escondido um tesouro político.

Uns diziam 600 mil reais. Outros, mais generosos com o dinheiro alheio, garantiam 2 milhões. Havia quem falasse numa mala, quem preferisse caixas e quem descrevesse pacotes escondidos como se tivesse pessoalmente conferido o lacre. De acordo com a lenda, seria dinheiro de uma campanha política. Entretanto, o único guardião da localização teria morrido de Covid durante a pandemia, levando consigo a coordenada final.

Não havia mapa. Não havia recibo. Não havia fotografia. Não havia prova de que o tesouro existira.

Ou seja: para Jack Sparrow, era uma pista perfeita.


1. Todo bom tesouro começa com uma conta que não fecha

No primeiro boteco, o valor era de 600 mil.

No segundo, depois de dois cafés e uma cerveja, subiu para 800 mil.

No terceiro, um homem que conhecia um primo de alguém que “esteve perto de tudo” bateu a mão na mesa:

— Dois milhões. Posso não saber onde estão, mas sei quanto havia.

Jack inclinou-se para Igor.

— Admirável. O homem desconhece o esconderijo, a embalagem, a origem e o destino, mas conhece o saldo.

— É a contabilidade oral — explicou Igor. — Não precisa de planilha.

Essa é uma das leis mais antigas das lendas urbanas: o número nunca permanece quieto. Ele engorda a cada narrador porque a memória coletiva não trabalha com auditoria; trabalha com impacto. Seiscentos mil podem caber numa conversa. Dois milhões exigem iluminação, trilha sonora e alguém olhando para os lados antes de continuar.

O dinheiro da história, portanto, rendia sem precisar estar aplicado. Bastava mudar de mesa.


2. O homem que, segundo a lenda, conhecia o X

Toda caça ao tesouro precisa de alguém que tenha visto o mapa.

Na lenda itatibense, esse papel caberia a um secretário partidário. Segundo o causo, ele seria o único a conhecer o esconderijo. Não o prefeito, não o tesoureiro, não os candidatos, não os aliados, não o sujeito responsável por buscar café. Somente ele.

Então veio a pandemia — aquele período real, trágico e desorganizador, no qual tantas vidas e histórias foram interrompidas. O suposto guardião faleceu. Com ele, teria desaparecido a última indicação do lugar onde o dinheiro estaria.

A partir desse ponto, o relato deixa de parecer política municipal e começa a funcionar como lenda de piratas.

O morto se torna o único possuidor do segredo. O segredo se torna impossível de confirmar. E a impossibilidade de confirmação, em vez de matar a história, passa a alimentá-la.

Jack abriu sua bússola. O ponteiro girou, parou numa padaria, hesitou diante de uma adega e depois apontou para lugar nenhum.

— Ela indica aquilo que mais desejamos — disse o capitão.

— Então não serve para encontrar dinheiro dos outros — respondeu Igor.

— Meu caro, dinheiro dos outros é uma das coisas que piratas mais desejam.


3. O apartamento e a arqueologia da suspeita

Segundo uma das versões, depois da morte do guardião alguém teria entrado em seu apartamento e revirado tudo.

No edifico Praxx confusão não faltou, pobre Gavetas abertas. Armários examinados. Papéis vasculhados. Fundos falsos procurados. Talvez colchões apertados, livros sacudidos e potes de mantimentos interrogados. Ninguém sabe exatamente o que aconteceu; cada narrador reorganiza o cenário conforme a própria experiência com filmes policiais.

Nada teria sido encontrado.

Mas numa lenda, “nada encontrado” não significa que nada existia. Significa apenas que o próximo capítulo precisa de um cenário maior.

Jack avaliou a situação com autoridade:

— Apartamentos são péssimos para tesouros. Muitos vizinhos, paredes finas e síndicos que tratam papagaios como infração condominial.

— E onde um profissional esconderia? — perguntou Igor.

— Numa ilha deserta.

— Não temos.

— Num navio naufragado.

— Também não.

— Numa chácara?

Igor sorriu.

O capitão percebeu que finalmente encontrara o Caribe itatibense.


4. A chácara, as paredes e a pá patriótica

Outra versão da lenda fala de uma chácara que diziam “pertencer” ao guardião. As aspas são importantes: em causos políticos, propriedade é um conceito tão flexível quanto o valor do tesouro.

Foi ali, conforme o relato popular, que a busca teria ganhado entusiasmo de expedição espanhola. Paredes teriam sido quebradas. Pontos considerados promissores teriam sido escavados. Talvez alguém tenha batido nos tijolos à procura de som oco, observado pisos recentes ou desconfiado daquela árvore plantada num ângulo excessivamente misterioso.

Não sabemos quem teria procurado, quando, com qual autorização ou se a escavação ocorreu como contam. Sabemos apenas que a imagem sobreviveu: homens sérios, possivelmente ligados à política, convertidos por algumas horas em caçadores de tesouro, perguntando a uma parede onde estavam os milhões.

Jack Sparrow caminhou pela representação imaginária da propriedade, encostou o ouvido num muro e bateu três vezes.

— O que ele disse? — perguntou Igor.

— Que deseja um advogado.

As paredes, aparentemente, conheciam melhor seus direitos do que os exploradores.


5. Hernán Cortés de Itatiba entra na expedição

Foi então que surgiu Don Alonso de los Cofres Perdidos, caçador espanhol de tesouros, falsificador de mapas turísticos e autoproclamado especialista em ouro que jamais encontrou.

Don Alonso usava chapéu largo, botas cobertas de barro e um detector de metais comprado pela internet. Falava como se cada terreno baldio fosse a entrada secreta de El Dorado.

— Capitán — anunciou —, todo tesoro deja una señal.

— Qual? — perguntou Jack.

— Gente nerviosa alrededor.

— Isso não reduz muito o mapa quando envolve política — observou Igor.

Don Alonso apresentou três pergaminhos. O primeiro marcava o apartamento. O segundo indicava a chácara. O terceiro era um mapa de pizzaria que ele havia apanhado por engano.

O detector apitou perto de uma cerca. Todos correram. Cavaram cuidadosamente e encontraram uma ferradura, duas latas enferrujadas e uma ficha telefônica.

— Sinais de uma civilização avançada — declarou Don Alonso.

Jack discordou:

— Se fosse avançada, teria escondido rum.



6. A cidade inteira transforma-se num mapa

Quando uma busca não encontra nada, duas conclusões seriam razoáveis: o objeto não estava ali ou talvez nunca tenha existido.

Mas a lenda oferece uma terceira possibilidade, muito mais divertida: procuraram no lugar errado.

Assim, qualquer imóvel relacionado remotamente à história pode ganhar um X imaginário. Um muro reformado torna-se pista. Um piso trocado parece confissão. Uma árvore removida vira operação noturna. Uma venda apressada de propriedade passa a significar que alguém sabia de alguma coisa.

Até a prosperidade posterior de qualquer conhecido pode ser absorvida pelo enredo.

Comprou carro? Achou uma parte.

Abriu empresa? Lavou o tesouro.

Reformou a cozinha? O dinheiro estava atrás do azulejo.

Mudou de cidade? Fugiu com a mala.

Continua pobre? Está disfarçando muito bem.

É assim que uma boa lenda se protege contra a realidade: qualquer evidência serve, inclusive a ausência de evidência.


7. O maior esconderijo é aquele que não pode ser revelado

O tesouro de Itatiba possui uma qualidade superior ao ouro pirata: se alguém o encontrar, provavelmente não contará.

Imagine a cena. Uma pá toca algo sólido. Surge uma caixa. Dentro dela, maços preservados pelo acaso e pela criatividade logística. O descobridor olha para os lados, fecha o buraco e passa os dez anos seguintes tentando explicar por que sua vida financeira melhorou justamente depois de uma pescaria numa chácara sem lago.

Se o dinheiro tivesse origem ilícita, apresentá-lo ao mundo seria convidar perguntas. Se tivesse origem inocente, ainda assim seria necessário explicar propriedade, localização e circunstâncias. O silêncio seria parte do prêmio.

Por isso, mesmo uma descoberta não encerraria a narrativa. Apenas criaria novos indícios: uma viagem, uma compra, uma reforma, uma generosidade inesperada.

Jack resumiu:

— O tesouro perfeito não é aquele que ninguém encontra. É aquele que, depois de encontrado, obriga o homem a continuar fingindo que procura.

Don Alonso tirou o chapéu. Igor anotou a frase para usar numa postagem sem dar crédito.


8. O que a lenda conta quando não consegue contar a verdade

Talvez nunca tenha existido dinheiro algum.

Talvez tenha existido dinheiro, mas não como a história descreve.

Talvez as buscas tenham sido reformas comuns, transformadas em escavações por vizinhos atentos. Talvez alguém realmente tenha procurado alguma coisa — documentos, objetos pessoais, papéis — e a imaginação coletiva tenha colocado maços de notas no fundo da cena.

Sem documentos e provas, não é possível ir além dessas hipóteses. E não precisamos ir.

O valor cultural do causo não está em provar um crime, mas em mostrar como uma cidade processa seus silêncios. Quando instituições não esclarecem rumores, quando personagens desaparecem e quando a política produz mais desconfiança que respostas, o povo escreve sua própria versão. Acrescenta cifras, constrói mapas e convoca testemunhas que sempre ouviram de alguém confiável.

A lenda é uma forma popular de preencher espaços vazios. Não é necessariamente verdade, mas revela aquilo que uma comunidade considerou plausível — e isso também diz muito sobre uma época.


9. Manual do caçador de tesouros que deseja continuar fora da cadeia

Antes de alguém comprar uma pá, Jack Sparrow pediu a palavra para uma rara manifestação de responsabilidade cívica.

— Não invadam imóveis. Não derrubem paredes. Não escavem propriedades. Não acusem pessoas. Não publiquem nomes. E, principalmente, não levem Igor.

O capitão estava certo.

Registrar folclore não autoriza perseguição, invasão, dano ao patrimônio ou difamação. Terrenos têm donos; mortos têm famílias; suspeitas não substituem provas. A graça está em preservar a narrativa, não em reiniciar uma suposta operação de busca.

Se algum documento autêntico surgir um dia, ele pertencerá ao campo do jornalismo, da história ou das autoridades competentes. Até lá, o tesouro vive onde sempre viveu: na conversa.


Epílogo — A bússola aponta para o boteco

Depois de dias seguindo pistas que não existiam, Jack Sparrow abriu novamente sua bússola. Dessa vez, o ponteiro permaneceu firme.

Ele atravessou algumas ruas, dobrou uma esquina e entrou no boteco onde a história começara. Na mesa do fundo, um homem contava para outros três que o valor correto não era 600 mil nem 2 milhões.

— Eram 5 milhões — sussurrou. — Meu cunhado conhece uma pessoa que viu as caixas.

Jack sorriu. Don Alonso pediu outra rodada. Igor abriu uma planilha para atualizar o patrimônio lendário.

O tesouro acabara de render novamente.

Talvez o dinheiro nunca tenha existido. Talvez tenha sido encontrado. Talvez continue sob uma parede, uma árvore ou um piso que ninguém ainda considerou promissor. Não sabemos — e qualquer pessoa honesta precisa admitir isso.

Mas, como toda boa lenda, o Tesouro Perdido de Itatiba já encontrou um esconderijo melhor que qualquer cofre: a memória da cidade.

Ali ele não mofa, não desvaloriza e não pode ser apreendido. A cada nova narração, recebe mais alguns zeros, uma parede adicional e outra testemunha indireta.

E se um dia alguém perguntar quem conhece a verdade, haverá sempre um sujeito no canto do boteco disposto a olhar para os lados, baixar a voz e dizer:

— Eu não posso provar nada… mas sei onde começaram a cavar.

Jack erguerá a caneca.

Igor salvará o mapa.

E Itatiba responderá, em seu dialeto oficial para histórias grandes demais para caber num documento:

Piu. Corcorcó.

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2018/04/um-dos-ultimos-boteco-analogico-de.html

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2018/02/carnaval-de-itatiba-foi-invadido-pelos.html



Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

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