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sexta-feira, 23 de agosto de 2024

🧿📜 Shikigami — Os Scripts Espirituais que Executam Ordens no Mundo Invisível

 

Bellacosa Mainframe explora os shikigami

🧿📜 Shikigami — Os Scripts Espirituais que Executam Ordens no Mundo Invisível

Se yokai são processos autônomos e ayakashi são bugs emocionais…
os Shikigami são scripts invocados sob comando direto.

Eles não agem por vontade própria.
Eles executam.

E se você errar a instrução…
o erro não dá rollback.


🧠 Conceito — Invocação como Código

O termo Shikigami (式神) pode ser entendido como:

  • “espírito comandado”
  • “entidade invocada”
  • “servo espiritual”

📌 Bellacosa traduz:

Shikigami = script que executa tarefas no plano espiritual.


📜 Origem — O Sistema Operacional do Onmyōdō

Os shikigami vêm do Onmyōdō, sistema esotérico japonês baseado em:

  • Yin-Yang (equilíbrio de forças)
  • Elementos naturais
  • Astrologia e espiritualidade

Figura central:

👉 Abe no Seimei — o “arquiteto root” dos shikigami

📌 Ele era conhecido por:

  • Invocar espíritos
  • Controlar entidades invisíveis
  • Operar no limite entre mundo físico e espiritual

🧬 Classificação — Não São Monstros, São Ferramentas

Shikigami não são criaturas independentes como yokai.

Eles são:

  • 🧿 Espíritos controlados
  • 📜 Manifestados via talismãs
  • 🧠 Dependentes do invocador
  • ⚙️ Extensões da vontade do usuário

👉 Em termos técnicos:

Não são processos autônomos — são subprocessos.


👁 Aparência — Do Papel ao Pesadelo

Formas comuns:

  • Papéis animados (ofuda)
  • Animais espirituais (raposas, aves)
  • Criaturas humanoides
  • Entidades grotescas

📌 Regra:

Quanto mais forte o invocador… mais complexo o “código”.


⚙️ Funcionamento — Execução Sob Comando

Para invocar um shikigami:

  1. Preparação espiritual
  2. Uso de talismãs
  3. Canalização de energia
  4. Comando direto

👉 Ele então:

  • Ataca
  • Espiona
  • Protege
  • Executa tarefas específicas

📌 Bellacosa:

Input errado = comportamento inesperado.


🎲 Atributos (Estilo RPG/Anime)

  • Dependência: Alta (do invocador)
  • Força: Variável
  • Inteligência: Limitada ou programada
  • Habilidades:
    • Ataque espiritual
    • Selamento
    • Rastreamento
    • Defesa

🧠 Comportamento

  • Não têm vontade própria (em teoria)
  • Seguem ordens
  • Podem se rebelar se mal controlados
  • Refletem o poder do invocador

👉 São estáveis… até não serem.


🤫 Fofoquices Espirituais

  • Dizem que invocadores fracos perdem controle
  • Alguns shikigami “ganham consciência” com o tempo
  • Mestres escondem seus shikigami mais poderosos
  • Há histórias de shikigami que mataram seus próprios donos

📌 Fofoquinha:

Nem todo script aceita ser encerrado.


🕹️ Easter Eggs nos Animes

  • Jujutsu Kaisen → invocações como shikigami (Megumi)
  • Naruto → invocações têm base conceitual semelhante
  • Onmyoji → representação direta
  • Nioh → uso histórico e espiritual

🎮 Easter Egg clássico:

Todo summon controlado em anime tem DNA de shikigami.


🧠 Diferença Rápida (Bellacosa Mode)

EntidadeFunção
YokaiProcesso autônomo
AyakashiBug emocional
MajuuMonstro físico
ShikigamiScript controlado

🧠 Interpretação Profunda

Shikigami representam:

  • Controle sobre o invisível
  • Poder mediado por conhecimento
  • Relação entre criador e criação
  • Responsabilidade sobre aquilo que você invoca

📌 Comentário Final — O Poder Não Está no Espírito

Você pode:

  • Invocar
  • Controlar
  • Executar

Mas no final…

o risco nunca está no shikigami
está em quem escreveu o comando.


🔥 Conclusão — Nem Todo Código Deve Ser Executado

No mundo dos animes (e da vida):

  • Nem tudo que pode ser invocado deve ser usado
  • Nem todo controle é absoluto
  • Nem toda ferramenta é segura

Porque quando você começa a rodar scripts no invisível…

você também passa a fazer parte do sistema.

quinta-feira, 22 de agosto de 2024

☕💥 VSAM sem Mistério: Do Zero ao Jedi dos Datasets — O LAB que vai destravar sua mente Mainframe!

 

Bellacosa Mainframe VSAM em primeiros passos para padawans

☕💥 VSAM sem Mistério: Do Zero ao Jedi dos Datasets — O LAB que vai destravar sua mente Mainframe!

Se você é um padawan COBOL tentando entender VSAM e ainda acha que KSDS é nome de sindicato… chegou a hora da virada.

Aqui não tem teoria chata. É mão na massa, com JCL, IDCAMS, conceitos e aquele tempero Bellacosa: história + prática + sacadas que só quem já tomou dump às 3 da manhã entende 😄


🧠 ANTES DE COMEÇAR — O MAPA DA FORÇA (VSAM em 1 minuto)

VSAM (Virtual Storage Access Method) é o método de acesso mais poderoso do z/OS para dados estruturados.

👉 Tipos principais:

  • ESDS → Sequencial (sem chave)
  • KSDS → Indexado (com chave)
  • RRDS → Acesso direto por número (RRN)

👉 Conceitos fundamentais:

  • CI (Control Interval) → menor unidade de I/O
  • CA (Control Area) → conjunto de CIs
  • INDEX → árvore B usada no KSDS

🧪 LAB 1 — Criando seu primeiro ESDS (o “arquivo raiz”)

🎯 Objetivo

Criar um dataset sequencial VSAM.

🔧 JCL + IDCAMS

//ESDSJOB JOB (ACCT),'LAB ESDS',CLASS=A,MSGCLASS=X
//STEP1 EXEC PGM=IDCAMS
//SYSPRINT DD SYSOUT=*
//SYSIN DD *
DEFINE CLUSTER(NAME(LAB.VSAM.ESDS)
RECORDSIZE(80 80)
TRACKS(1 1)
CISZ(4096)
NONINDEXED)
/*

💡 Insights Bellacosa

  • ESDS não tem chave → leitura sequencial pura
  • Ideal para logs, trilhas, arquivos históricos
  • CISZ(4096) → tuning começa aqui!

🧪 LAB 2 — KSDS: o cérebro do VSAM (com índice)

🎯 Objetivo

Criar um dataset indexado com chave.

🔧 JCL

//KSDSJOB JOB (ACCT),'LAB KSDS',CLASS=A,MSGCLASS=X
//STEP1 EXEC PGM=IDCAMS
//SYSPRINT DD SYSOUT=*
//SYSIN DD *
DEFINE CLUSTER(NAME(LAB.VSAM.KSDS)
RECORDSIZE(80 80)
KEYS(10 0)
INDEXED
TRACKS(1 1)
CISZ(4096))
/*

💡 Insights de guerra

  • KEYS(10 0) → chave começa na posição 0 com tamanho 10
  • KSDS usa árvore B (index) → acesso rápido tipo DB2-lite
  • Pode acessar:
    • sequencial
    • random (pela chave)

🧪 LAB 3 — RRDS: acesso direto estilo “memória RAM”

🎯 Objetivo

Criar dataset por número relativo.

🔧 JCL

//RRDSJOB JOB (ACCT),'LAB RRDS',CLASS=A,MSGCLASS=X
//STEP1 EXEC PGM=IDCAMS
//SYSPRINT DD SYSOUT=*
//SYSIN DD *
DEFINE CLUSTER(NAME(LAB.VSAM.RRDS)
RECORDSIZE(80 80)
NUMBERED
TRACKS(1 1)
CISZ(4096))
/*

💡 Sacada ninja

  • Acesso via RRN (Relative Record Number)
  • Tipo array:
    • Registro 1
    • Registro 2
    • Registro 3…

👉 Muito usado em sistemas antigos de alta performance


🔍 LAB 4 — Explorando INDEX (o segredo do KSDS)

🎯 Ver o INDEX

//LISTCAT JOB (ACCT),'LISTCAT',CLASS=A,MSGCLASS=X
//STEP1 EXEC PGM=IDCAMS
//SYSPRINT DD SYSOUT=*
//SYSIN DD *
LISTCAT ENT(LAB.VSAM.KSDS) ALL
/*

💡 O que observar:

  • INDEX LEVELS
  • CI/CA splits
  • FREESPACE

👉 Aqui você começa a pensar como performance engineer 😎


⚙️ LAB 5 — Brincando com CI e CA (onde mora a performance)

🎯 Criar KSDS com tuning

DEFINE CLUSTER(NAME(LAB.VSAM.KSDS.TUNED)
RECORDSIZE(80 80)
KEYS(10 0)
CISZ(8192)
FREESPACE(20 10)
INDEXED)

💡 Tradução prática

  • CISZ(8192) → menos I/O (mais dados por leitura)
  • FREESPACE(20 10):
    • 20% no CI
    • 10% no CA

👉 Evita CA SPLIT (o terror do desempenho)


🔥 LAB 6 — Carga de dados (REPRO)

//LOADJOB JOB (ACCT),'LOAD',CLASS=A,MSGCLASS=X
//STEP1 EXEC PGM=IDCAMS
//SYSPRINT DD SYSOUT=*
//INFILE DD *
0000000001CLIENTE001
0000000002CLIENTE002
/*
//OUTFILE DD DSN=LAB.VSAM.KSDS,DISP=SHR
//SYSIN DD *
REPRO INFILE(INFILE) OUTFILE(OUTFILE)
/*

💻 LAB 7 — COBOL acessando VSAM (o momento Jedi)

📌 Exemplo KSDS

SELECT ARQ-KSDS ASSIGN TO 'LAB.VSAM.KSDS'
ORGANIZATION IS INDEXED
ACCESS MODE IS RANDOM
RECORD KEY IS WS-KEY.

FD ARQ-KSDS.
01 REGISTRO.
05 WS-KEY PIC X(10).
05 WS-DADOS PIC X(70).

🧠 MENTALIDADE DE PRODUÇÃO (ouro puro)

👉 ESDS = simples, rápido, bruto
👉 KSDS = flexível, poderoso, mais caro
👉 RRDS = ultra rápido, mas limitado

👉 Problemas reais que você vai ver:

  • CI SPLIT
  • CA SPLIT
  • Fragmentação
  • Performance degradando com o tempo

⚡ DESAFIO FINAL (modo Bellacosa ON)

  1. Crie um KSDS com chave cliente
  2. Insira 100 registros
  3. Faça leitura random via COBOL
  4. Gere LISTCAT antes/depois
  5. Analise splits

👉 Se você fizer isso, você deixou de ser padawan.


FECHAMENTO

VSAM não é só dataset.

É:

  • engenharia de performance
  • organização de dados
  • base de sistemas críticos há décadas

E quando você entende CI, CA e INDEX…

👉 você começa a enxergar o mainframe como ele realmente é.


quarta-feira, 21 de agosto de 2024

Como os algoritmos sequestraram a liberdade de escolha

 

Bellacosa Mainframe e como os algoritmos sequestraram a liberdade de escolha

Como os algoritmos sequestraram a liberdade de escolha

Quando a internet decide por você

A promessa inicial da internet era simples: liberdade. Escolher o que ler, o que assistir, o que explorar. Mas, pouco a pouco, a realidade se distanciou dessa utopia. Hoje, parece que não escolhemos mais — somos escolhidos por algoritmos.

Mas como isso aconteceu? E por que sentimos que nossas decisões online não são mais nossas?


1. Algoritmos como “curadores invisíveis”

Tudo que aparece no feed, no TikTok, no Instagram ou no YouTube é resultado de cálculos matemáticos. O algoritmo decide:

  • O que você verá primeiro

  • O que é “relevante” para você

  • O que gera engajamento — e, portanto, lucro

O efeito é sutil, mas poderoso: o usuário passa a acreditar que está explorando livremente, quando na verdade está sendo conduzido.


2. O princípio da recompensa constante

Algoritmos exploram gatilhos psicológicos: likes, comentários, cliques e recompensas imediatas. Cada ação é registrada e usada para refinar o conteúdo entregue.

O problema é que isso modela o comportamento, reforçando apenas aquilo que já gostamos ou com o que reagimos.
Exemplo: alguém que gosta de memes de anime tende a receber apenas memes similares, perdendo exposição a obras diferentes ou críticas construtivas.


3. Filtragem de ideias e censura algorítmica

Além de moldar gostos, os algoritmos filtram informações consideradas sensíveis, ofensivas ou politicamente arriscadas.
O resultado é:

  • Conteúdos legítimos sendo ocultados

  • Opiniões divergentes sufocadas

  • Narrativas uniformizadas

A sensação de que tudo que é fora do padrão é proibido não é coincidência — é efeito direto da automação de decisões.


4. Ilusão de escolha

O perigo é o mais sutil: acreditamos que temos autonomia. Escolhemos clicar, mas as opções já foram pré-selecionadas.

É como entrar em uma loja onde apenas algumas prateleiras são visíveis. Você acha que decide livremente, mas o inventário real é maior — e invisível.


5. Consequências culturais e individuais

  • Cultura: algoritmos uniformizam tendências e tornam o consumo previsível

  • Psicológico: reforçam bolhas, vícios de atenção e reforço de comportamentos

  • Criativo: conteúdos arriscados, inovadores ou complexos desaparecem, pois não garantem engajamento imediato

Em resumo: o algoritmo substituiu a curiosidade por conforto e previsibilidade.


6. O que ainda podemos fazer

  • Reconhecer os padrões: entender que a maioria do que vemos é curadoria automática

  • Procurar fontes alternativas: feeds não convencionais, blogs, fóruns especializados

  • Praticar consumo crítico: questionar “por que estou vendo isso?”

  • Experimentar o “offline”: criar espaço fora do fluxo de recomendação

Mesmo sob controle algorítmico, ainda existe espaço de liberdade consciente.


Conclusão

O algoritmo sequestrou a liberdade de escolha, mas não a eliminou completamente.
Ele organiza, recomenda e direciona, mas cabe ao usuário redescobrir o sentido de navegar por vontade própria.

A pergunta que fica: estamos usando a internet ou apenas sendo usados por ela?

terça-feira, 20 de agosto de 2024

Debugando programa COBOL

DISPLAY e BUG TRAP as melhores maneiras de debugar um programa COBOL. Qual é a sua técnica? #ibm #mainframe #cobol #debug #trap #bug #returncode #maxcc #jcl #sdsf #job

segunda-feira, 19 de agosto de 2024

Conversão do REAL um grande trabalho da informática mainframe


A resiliência e a tenacidade técnica dos Analistas de Sistemas Mainframe, que em quatro dias conseguiram virar a chave, convertendo sistemas críticos para a conversão de moeda, do URV para o REAL. 



Feriado bancário na Sexta-feira, mas Segunda-feira estava tudo no ar, funcionando, quatro dias de loucura no Departamento de Informatica, muita pizza, companheirismo, horas-extra, mas sensação de dever cumprido. 




 Programas em COBOL, PLI e Natural em Sistemas Mainframe alterados para a conversão da Moeda, sem perdas ou prejuízos aos clientes e empresas. Sendo um Caso de Estudo de Sucesso, visto de perto pelas autoridades europeias, que passado 7 anos repetiram o processo na Conversão do Euro.

#ibm #mainframe #real #urv #conversao #cobol #natural #jcl #pli #db2 #adabas #job #sistemas #dev #programador #sucesso
 

domingo, 18 de agosto de 2024

Inteligência Artificial na Segurança Bancária sem Mistérios

Bellacosa Mainframe e a inteligencia artificial na seguranca bancaria


☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Inteligência Artificial na Segurança Bancária sem Mistérios

O Guia do Programador COBOL Padawan para Entender Biometria, Fraudes, Autenticação Contínua e os Escudos Digitais da Frota Estelar

Imagine, jovem programador COBOL Padawan, que você está sentado diante de um terminal 3270 em uma madrugada silenciosa.

Ao lado do teclado, uma caneca de café ainda quente. Na tela verde, um programa aparentemente simples processa uma transferência bancária. Ele recebe uma conta de origem, uma conta de destino, um valor e uma data. Depois de algumas validações, o sistema autoriza ou rejeita a operação.

Durante décadas, essa lógica pareceu suficiente.

O cliente informava a senha correta, o saldo era consultado, os limites eram verificados e a transação seguia seu caminho pelos corredores eletrônicos do banco.

Mas a galáxia financeira mudou.

Hoje, o usuário pode estar acessando o banco por um celular, conectado a uma rede pública, utilizando reconhecimento facial, fazendo um PIX para um novo destinatário e movimentando um valor muito diferente de seu padrão habitual.

Ao mesmo tempo, o criminoso pode possuir a senha verdadeira, o CPF, o número do telefone, documentos vazados, gravações da voz da vítima e até uma cópia artificial de seu rosto produzida por inteligência artificial.

A pergunta deixou de ser apenas:

“A senha está correta?”

Agora o banco precisa perguntar:

“Essa operação parece realmente estar sendo realizada pelo cliente?”

Essa mudança representa uma das maiores transformações na história da segurança bancária.

A segurança deixou de ser apenas um portão na entrada do sistema. Ela passou a acompanhar o cliente durante toda a jornada.

É como se os sistemas financeiros tivessem aprendido uma antiga lição da Frota Estelar:

Não basta identificar quem entrou na nave. É necessário observar o que essa pessoa faz depois de entrar.

Prepare o café, ajuste seu comunicador e abra uma nova sessão no TSO. Nossa missão será entender como inteligência artificial, biometria, autenticação multifator, análise comportamental, modelos de risco e mainframes trabalham juntos para proteger o sistema financeiro moderno.


1. O velho modelo: usuário, senha e confiança

Durante muito tempo, a segurança digital funcionou com uma lógica simples.

O usuário informava:

  • identificação;

  • senha;

  • eventualmente um código adicional.

Se tudo estivesse correto, o acesso era concedido.

Em pseudocódigo COBOL, poderíamos imaginar algo assim:

IF SENHA-INFORMADA = SENHA-CADASTRADA
    MOVE 'S' TO ACESSO-AUTORIZADO
ELSE
    MOVE 'N' TO ACESSO-AUTORIZADO
END-IF

A lógica é clara, objetiva e fácil de compreender.

O problema é que ela responde apenas a uma pergunta:

A credencial apresentada corresponde à credencial armazenada?

Ela não responde:

  • quem digitou a senha;

  • onde a senha foi digitada;

  • em qual dispositivo;

  • em qual horário;

  • em qual contexto;

  • com qual intenção;

  • se o comportamento é compatível com o histórico do cliente.

Se um criminoso roubar a senha verdadeira, o sistema tradicional poderá tratá-lo como usuário legítimo.

Esse é um dos princípios fundamentais para compreender a segurança moderna:

Uma credencial válida não significa necessariamente uma identidade legítima.

Senhas podem ser descobertas por phishing, engenharia social, vazamentos de dados, malware, observação física, reutilização em vários serviços ou manipulação psicológica.

Um cliente pode entregar voluntariamente um código de segurança acreditando estar falando com um funcionário do banco.

Nesse caso, tecnicamente, as informações estão corretas. Porém, a operação continua sendo fraudulenta.

A segurança bancária moderna precisou evoluir de uma validação estática para uma avaliação contínua de risco.


2. O criminoso não precisa arrombar a porta

Existe uma imagem clássica do invasor digital: alguém tentando quebrar uma senha, explorar uma falha ou invadir um servidor.

Esse tipo de ataque continua existindo.

Porém, muitos golpes atuais seguem um caminho mais silencioso.

O fraudador pode convencer a própria vítima a:

  • instalar um aplicativo;

  • compartilhar a tela;

  • fornecer um código;

  • transferir dinheiro;

  • cadastrar um novo dispositivo;

  • autorizar um pagamento;

  • entregar informações pessoais.

O criminoso não precisa destruir os escudos da nave.

Ele pode convencer o oficial de segurança a desativá-los.

Essa é a essência da engenharia social.

Os ataques modernos exploram não apenas sistemas, mas também emoções humanas:

  • medo;

  • urgência;

  • autoridade;

  • curiosidade;

  • ganância;

  • confiança;

  • pressão psicológica.

Uma mensagem pode dizer:

“Sua conta será bloqueada em dez minutos.”

Outra pode afirmar:

“Identificamos uma compra suspeita. Confirme seus dados agora.”

O cliente, preocupado, segue as instruções do próprio fraudador.

Por isso, proteger apenas a senha é insuficiente. O sistema precisa avaliar o contexto completo da operação.


3. A autenticação não termina no login

No modelo antigo, o login era considerado o grande momento da segurança.

A sequência era:

Identificação
      ↓
Senha
      ↓
Acesso autorizado

Depois do acesso, o sistema passava a confiar no usuário.

No modelo moderno, a sequência é muito mais ampla:

Identificação
      ↓
Senha ou credencial
      ↓
Biometria
      ↓
Dispositivo
      ↓
Localização
      ↓
Comportamento
      ↓
Análise de risco
      ↓
Monitoramento da sessão
      ↓
Reavaliação a cada operação

A autenticação tornou-se contínua.

Isso significa que uma sessão pode começar com baixo risco e, alguns minutos depois, apresentar sinais suspeitos.

Por exemplo:

  1. O cliente acessa o aplicativo em seu celular habitual.

  2. Consulta o saldo.

  3. Navega normalmente.

  4. Em seguida, cadastra um novo favorecido.

  5. Solicita um empréstimo.

  6. Transfere imediatamente todo o valor.

  7. O destino é uma conta nunca utilizada.

  8. O comportamento de digitação é diferente.

  9. O aparelho parece estar sendo controlado remotamente.

Cada ação, isoladamente, pode ser legítima.

Porém, o conjunto forma um padrão de alto risco.

A inteligência artificial consegue observar essa sequência em tempo real e recalcular a probabilidade de fraude.

Em outras palavras, o sistema deixa de perguntar apenas:

“Quem entrou?”

E passa a perguntar constantemente:

“O que está acontecendo agora?”


4. Zero Trust: nunca confiar automaticamente

Um dos conceitos mais importantes da segurança moderna é o chamado Zero Trust.

O nome pode parecer severo, mas sua lógica é bastante racional:

Nunca confie automaticamente. Sempre verifique.

Isso não significa tratar todos os clientes como criminosos.

Significa não depender de uma única prova de identidade.

Mesmo um usuário autenticado precisa continuar sendo avaliado.

Na Frota Estelar, possuir um uniforme não seria suficiente para acessar o núcleo de dobra. O sistema também verificaria:

  • identidade;

  • patente;

  • autorização;

  • localização;

  • horário;

  • missão;

  • contexto;

  • nível de risco.

No setor bancário, acontece algo semelhante.

Uma transferência pode exigir verificações adicionais conforme o risco.

Por exemplo:

EVALUATE NIVEL-RISCO
    WHEN 'BAIXO'
        PERFORM AUTORIZAR-TRANSACAO
    WHEN 'MEDIO'
        PERFORM SOLICITAR-SEGUNDO-FATOR
    WHEN 'ALTO'
        PERFORM BLOQUEAR-TRANSACAO
        PERFORM GERAR-ALERTA
    WHEN OTHER
        PERFORM ENCAMINHAR-ANALISE-MANUAL
END-EVALUATE

Esse exemplo mostra um ponto importante: segurança moderna não é apenas “permitir” ou “negar”.

Ela pode aplicar diferentes respostas:

  • liberar;

  • solicitar biometria;

  • solicitar token;

  • limitar valor;

  • atrasar a operação;

  • enviar alerta;

  • bloquear temporariamente;

  • encaminhar para análise humana.

O sistema adapta a proteção ao risco observado.


5. A IA não procura apenas criminosos

Muitas pessoas imaginam que a inteligência artificial possui uma lista de fraudadores conhecidos e compara cada usuário com essa lista.

Isso pode fazer parte do processo, mas é apenas uma pequena parte.

Na prática, a IA busca principalmente anomalias.

Uma anomalia é algo diferente do padrão esperado.

Considere um cliente que, durante vários anos:

  • acessa o aplicativo entre 7h e 22h;

  • utiliza sempre o mesmo celular;

  • mora no interior de São Paulo;

  • movimenta valores entre R$ 50 e R$ 1.000;

  • realiza pagamentos para poucos destinatários conhecidos.

Agora imagine a seguinte operação:

  • acesso às 3h17;

  • novo aparelho;

  • nova localização;

  • uso de VPN;

  • tentativa de empréstimo;

  • transferência de R$ 48.000;

  • destinatário recém-cadastrado.

Nenhum desses elementos, sozinho, prova uma fraude.

Um cliente pode viajar, trocar de celular ou realizar uma transferência elevada.

Mas o conjunto aumenta fortemente o risco.

A IA analisa dezenas ou centenas de sinais ao mesmo tempo.

Ela não pergunta simplesmente:

“Essa pessoa é criminosa?”

Ela pergunta:

“Esse comportamento é compatível com o histórico e o contexto esperado?”

Essa diferença é essencial.


6. Machine Learning: ensinando o sistema a reconhecer padrões

O aprendizado de máquina, ou Machine Learning, permite que sistemas identifiquem padrões a partir de grandes volumes de dados.

Um sistema antifraude pode aprender com:

  • transações legítimas;

  • fraudes confirmadas;

  • horários;

  • valores;

  • localização;

  • dispositivos;

  • destinatários;

  • canais utilizados;

  • comportamento de navegação;

  • velocidade das ações;

  • respostas a autenticações;

  • histórico de contestação.

Imagine milhões de transações sendo processadas diariamente.

Nenhum analista humano conseguiria revisar cada uma em tempo real.

A inteligência artificial consegue calcular rapidamente a probabilidade de uma operação ser legítima ou suspeita.

Um modelo simplificado poderia considerar:

Dispositivo conhecido: risco reduzido
Localização habitual: risco reduzido
Valor muito elevado: risco aumentado
Novo favorecido: risco aumentado
Horário incomum: risco aumentado
Biometria válida: risco reduzido
Aparelho comprometido: risco elevado

O resultado final pode ser transformado em um score.

Exemplo:

Score de risco: 12 de 100
Decisão: autorizar

Outro caso:

Score de risco: 87 de 100
Decisão: bloquear e solicitar validação

Para o programador COBOL iniciante, pense no score como um campo calculado a partir de várias condições.

MOVE ZERO TO SCORE-RISCO

IF DISPOSITIVO-NOVO = 'S'
    ADD 20 TO SCORE-RISCO
END-IF

IF LOCALIZACAO-INCOMUM = 'S'
    ADD 25 TO SCORE-RISCO
END-IF

IF VALOR-ACIMA-PADRAO = 'S'
    ADD 30 TO SCORE-RISCO
END-IF

IF BIOMETRIA-VALIDA = 'S'
    SUBTRACT 20 FROM SCORE-RISCO
END-IF

Os modelos reais são muito mais complexos, mas o princípio permanece semelhante: sinais são combinados para apoiar uma decisão.


7. Biometria: muito além da impressão digital

A biometria utiliza características humanas para validar a identidade.

As formas mais conhecidas incluem:

  • impressão digital;

  • reconhecimento facial;

  • voz;

  • íris;

  • geometria da mão.

A grande vantagem é que características biométricas são mais difíceis de compartilhar, esquecer ou digitar acidentalmente em um site falso.

Entretanto, biometria não deve ser tratada como solução mágica.

Uma fotografia pode ser roubada. Uma voz pode ser gravada. Um rosto pode ser reproduzido por deepfake.

Por isso, sistemas modernos utilizam mecanismos chamados de prova de vida, ou liveness detection.

A prova de vida tenta verificar se existe uma pessoa real diante do dispositivo.

Ela pode observar:

  • profundidade facial;

  • movimentos naturais;

  • reflexos;

  • textura da pele;

  • resposta a comandos;

  • movimentação dos olhos;

  • sincronização labial;

  • pequenas variações impossíveis em uma fotografia estática.

Um sistema pode pedir:

“Mova o rosto para a esquerda.”

Ou analisar silenciosamente características tridimensionais.

O objetivo é diferenciar uma pessoa real de:

  • fotografia;

  • vídeo;

  • máscara;

  • tela reproduzindo outro rosto;

  • conteúdo sintético.

Curiosidade de bordo: em histórias de ficção científica, scanners biométricos quase sempre reconhecem rostos instantaneamente. Na vida real, iluminação, câmera, ângulo, envelhecimento e qualidade do sensor tornam o problema muito mais complexo.


8. Biometria comportamental: a assinatura invisível

A biometria tradicional analisa características físicas.

A biometria comportamental analisa como uma pessoa interage com o sistema.

Ela pode observar:

  • ritmo de digitação;

  • tempo entre teclas;

  • força aplicada na tela;

  • velocidade do toque;

  • inclinação do aparelho;

  • forma de segurar o celular;

  • movimento do mouse;

  • padrão de rolagem;

  • tempo de leitura;

  • sequência de navegação.

Imagine duas pessoas digitando a mesma senha.

A primeira digita rapidamente, utilizando os dois polegares.

A segunda faz pausas, utiliza um dedo e pressiona determinadas teclas por mais tempo.

O texto é igual, mas o comportamento é diferente.

Essas diferenças formam uma espécie de assinatura invisível.

Outro exemplo:

O cliente legítimo normalmente abre o aplicativo, verifica o saldo, consulta o extrato e depois faz uma transferência.

O fraudador pode entrar diretamente na opção de empréstimo, contratar o valor máximo e transferir imediatamente.

O caminho percorrido dentro da aplicação também é um sinal.

A grande vantagem da biometria comportamental é que ela pode funcionar silenciosamente, sem exigir ações adicionais do usuário.

O cliente legítimo percebe menos fricção.

O fraudador encontra mais barreiras.


9. Autenticação contextual: onde, quando, como e com quê

A autenticação contextual analisa as circunstâncias da operação.

Entre os sinais avaliados estão:

  • localização;

  • endereço IP;

  • operadora;

  • rede Wi-Fi;

  • horário;

  • idioma;

  • fuso horário;

  • modelo do dispositivo;

  • versão do sistema;

  • navegador;

  • resolução da tela;

  • presença de VPN;

  • histórico do aparelho.

Imagine um cliente que mora em Campinas e acessa o banco às 14h.

Cinco minutos depois, ocorre outro acesso a partir de outro continente.

Fisicamente, isso seria impossível.

Esse tipo de evento pode ser classificado como viagem impossível.

O sistema pode bloquear a nova sessão ou solicitar validação adicional.

Outro exemplo:

Um cliente sempre utiliza o aplicativo em um aparelho Android específico. De repente, ocorre um acesso em um emulador, com sistema modificado e ferramentas de automação.

Esse contexto aumenta o risco, mesmo que a senha esteja correta.

A autenticação contextual não substitui a senha ou a biometria. Ela adiciona mais evidências.

É como uma investigação vulcana: nenhuma conclusão é baseada em uma única pista.


10. Token e autenticação multifator

A autenticação multifator combina diferentes tipos de prova.

Os fatores costumam ser divididos em três categorias:

Algo que você sabe

  • senha;

  • PIN;

  • resposta secreta.

Algo que você possui

  • celular;

  • cartão;

  • token físico;

  • aplicativo autenticador.

Algo que você é

  • rosto;

  • impressão digital;

  • voz;

  • íris.

Usar dois ou mais fatores reduz o risco de uma única credencial comprometida permitir acesso completo.

Porém, até a autenticação multifator pode ser atacada.

Códigos podem ser interceptados. Usuários podem ser convencidos a aprovar notificações. Chips podem ser clonados ou transferidos ilegalmente.

Por isso, o setor caminha para uma combinação mais ampla:

Senha
+
Dispositivo
+
Biometria
+
Contexto
+
Comportamento
+
Análise de risco

Quanto mais coerentes forem os sinais, maior a confiança.

Quanto mais contraditórios, maior a necessidade de verificação.


11. A luta contra falsos positivos

Bloquear fraudes é importante.

Mas bloquear clientes legítimos também causa problemas.

Imagine um cliente tentando pagar uma cirurgia, comprar uma passagem ou transferir dinheiro em uma emergência. Se o banco bloquear a operação sem necessidade, a experiência será péssima.

Isso é chamado de falso positivo.

Um falso positivo ocorre quando uma operação legítima é classificada como fraude.

Já um falso negativo ocorre quando uma fraude é classificada como legítima.

O grande desafio é equilibrar os dois.

Se o sistema for rígido demais, bloqueia clientes honestos.

Se for permissivo demais, deixa passar fraudes.

A inteligência artificial ajuda a encontrar um equilíbrio mais preciso.

Em vez de criar uma regra fixa como:

Toda transferência acima de R$ 10.000 deve ser bloqueada.

O sistema pode analisar:

  • renda do cliente;

  • histórico;

  • destinatário;

  • horário;

  • dispositivo;

  • localização;

  • motivo;

  • frequência;

  • comportamento.

Para um cliente, R$ 10.000 pode ser altamente incomum.

Para outro, pode ser uma operação diária.

A análise precisa ser contextual.


12. Aprendizado contínuo: o inimigo também evolui

Fraudadores testam constantemente novas técnicas.

Quando os bancos melhoram a autenticação, surgem novos golpes de engenharia social.

Quando os sistemas detectam determinados padrões, os criminosos tentam imitá-los.

Quando a biometria facial avança, aparecem deepfakes mais sofisticados.

É uma corrida permanente.

Por isso, modelos antifraude precisam ser atualizados continuamente.

O ciclo pode ser representado assim:

Fraude acontece
      ↓
Caso é investigado
      ↓
Padrão é identificado
      ↓
Modelo é ajustado
      ↓
Novas transações são protegidas
      ↓
Resultados são monitorados

Esse processo exige participação humana.

Analistas investigam alertas, confirmam fraudes, corrigem classificações e ajudam a melhorar os modelos.

A inteligência artificial não elimina o especialista.

Ela amplia sua capacidade.

Um analista que antes revisava cem casos pode concentrar-se nos casos mais críticos, enquanto o sistema automatiza a triagem inicial.


13. Inteligência artificial generativa na segurança bancária

Além dos modelos tradicionais de Machine Learning, a inteligência artificial generativa também pode apoiar equipes de segurança.

Ela pode:

  • resumir alertas;

  • explicar motivos de bloqueio;

  • organizar evidências;

  • gerar relatórios;

  • auxiliar investigações;

  • consultar políticas internas;

  • traduzir documentos;

  • correlacionar eventos;

  • apoiar equipes de atendimento.

Imagine um analista recebendo milhares de logs.

Uma IA pode produzir um resumo:

“A operação foi classificada como alto risco devido a novo dispositivo, localização incomum, valor 14 vezes superior à média e cadastramento recente do beneficiário.”

Isso reduz o tempo necessário para entender o caso.

Porém, decisões críticas não devem depender cegamente de uma resposta gerada.

Modelos generativos podem cometer erros, interpretar dados incorretamente ou produzir explicações convincentes, porém falsas.

Por isso, devem operar com:

  • dados confiáveis;

  • limites claros;

  • revisão humana;

  • rastreabilidade;

  • controle de acesso;

  • monitoramento.

Na ponte da nave, a IA pode ser um excelente oficial científico. Mas o comando final ainda exige responsabilidade.


14. LGPD, privacidade e governança

Quanto mais dados são analisados, maior a responsabilidade.

Sistemas antifraude podem processar:

  • identidade;

  • localização;

  • comportamento;

  • dispositivo;

  • histórico financeiro;

  • biometria;

  • dados de navegação.

Essas informações são extremamente sensíveis.

No Brasil, a LGPD estabelece princípios para o tratamento de dados pessoais.

Os bancos precisam considerar:

  • finalidade;

  • necessidade;

  • transparência;

  • segurança;

  • prevenção;

  • responsabilização;

  • direitos do titular.

Não basta dizer:

“Usamos muitos dados porque segurança é importante.”

A instituição precisa demonstrar:

  • por que os dados são necessários;

  • como são protegidos;

  • quem pode acessá-los;

  • por quanto tempo são mantidos;

  • como decisões são tomadas;

  • como incidentes são tratados.

Também existem exigências relacionadas a:

  • prevenção à lavagem de dinheiro;

  • conhecimento do cliente;

  • monitoramento de operações;

  • auditoria;

  • gestão de riscos;

  • identidade digital;

  • controles internos.

A segurança precisa proteger o cliente sem transformar o sistema em uma máquina de vigilância sem limites.

Esse equilíbrio é um dos maiores desafios éticos e regulatórios da era da IA.


15. IA explicável e responsabilidade

Imagine receber a seguinte mensagem:

“Sua transação foi bloqueada pela inteligência artificial.”

Isso não explica nada.

Em sistemas críticos, decisões precisam ser auditáveis.

O banco deve conseguir responder:

  • qual modelo tomou a decisão;

  • qual versão estava em uso;

  • quais dados foram considerados;

  • quais sinais aumentaram o risco;

  • quem revisou o caso;

  • qual política foi aplicada.

Esse campo é conhecido como Explainable AI, ou IA explicável.

Nem todo modelo complexo é fácil de explicar. Porém, instituições financeiras precisam buscar formas de tornar decisões compreensíveis e rastreáveis.

Um relatório pode mostrar:

Motivos principais do bloqueio:

1. Novo dispositivo.
2. Localização incompatível.
3. Transferência 20 vezes superior à média.
4. Beneficiário cadastrado há menos de cinco minutos.
5. Comportamento de navegação fora do padrão.

Isso ajuda:

  • analistas;

  • auditores;

  • reguladores;

  • atendimento;

  • clientes;

  • equipes jurídicas.

A responsabilidade não pode ser transferida para a máquina.

Dizer “o algoritmo decidiu” não encerra a discussão.


16. Onde entra o mainframe?

Agora chegamos ao território familiar do programador COBOL Padawan.

Muitos grandes bancos continuam utilizando mainframes para processar operações críticas.

O IBM Z pode participar de funções como:

  • manutenção de contas;

  • atualização de saldos;

  • processamento de cartões;

  • liquidação;

  • crédito;

  • cadastro;

  • movimentação financeira;

  • auditoria;

  • processamento em lote;

  • integração com redes externas.

A inteligência artificial não necessariamente substitui esses sistemas.

Ela pode atuar ao redor deles ou integrada a eles.

Uma arquitetura simplificada poderia ser:

Aplicativo móvel
      ↓
API de autenticação
      ↓
Biometria e análise de dispositivo
      ↓
Motor antifraude com IA
      ↓
Score de risco
      ↓
API bancária
      ↓
CICS / IMS / Db2 / COBOL
      ↓
Autorização ou rejeição

O programa COBOL pode receber um indicador de risco.

Exemplo:

01  DADOS-TRANSACAO.
    05 CONTA-ORIGEM        PIC 9(10).
    05 CONTA-DESTINO       PIC 9(10).
    05 VALOR-TRANSACAO     PIC 9(11)V99.
    05 SCORE-RISCO         PIC 9(03).
    05 STATUS-BIOMETRIA    PIC X.
    05 DISPOSITIVO-NOVO    PIC X.

IF SCORE-RISCO GREATER THAN 80
    MOVE 'B' TO STATUS-TRANSACAO
    PERFORM REGISTRAR-BLOQUEIO
ELSE
    PERFORM PROCESSAR-TRANSFERENCIA
END-IF

Esse é apenas um exemplo didático.

Em uma arquitetura real, a decisão pode envolver motores especializados, regras, APIs, filas, eventos, banco de dados, monitoração e aprovação humana.

O ponto principal é:

O mainframe não está separado da inteligência artificial. Ele pode ser parte central da cadeia de decisão.

A IA funciona como sensor e oficial de análise.

O core bancário funciona como motor transacional.

Ambos precisam conversar de maneira rápida, confiável e segura.


17. Passo a passo de uma transação moderna

Vamos acompanhar uma transferência do início ao fim.

Passo 1 — O cliente abre o aplicativo

O sistema identifica:

  • modelo do aparelho;

  • versão do sistema;

  • endereço IP;

  • localização aproximada;

  • integridade do dispositivo;

  • histórico de uso.

Passo 2 — O cliente autentica

Pode utilizar:

  • senha;

  • PIN;

  • impressão digital;

  • reconhecimento facial;

  • token.

Passo 3 — O comportamento é observado

O sistema analisa:

  • velocidade de navegação;

  • forma de digitação;

  • sequência de telas;

  • padrão de toque;

  • tempo de resposta.

Passo 4 — A transferência é criada

São coletados:

  • valor;

  • destinatário;

  • banco;

  • horário;

  • frequência;

  • histórico entre as contas.

Passo 5 — A IA calcula o risco

O modelo compara a operação com:

  • padrão do cliente;

  • padrões de fraude;

  • comportamento de contas semelhantes;

  • alertas recentes;

  • reputação do dispositivo;

  • sinais de comprometimento.

Passo 6 — O motor de decisão atua

A operação pode ser:

  • aprovada;

  • aprovada com limite;

  • submetida a biometria;

  • submetida a segundo fator;

  • colocada em espera;

  • bloqueada;

  • enviada para análise.

Passo 7 — O core bancário processa

O sistema transacional verifica:

  • saldo;

  • limite;

  • situação da conta;

  • regras financeiras;

  • disponibilidade;

  • consistência.

Passo 8 — Tudo é registrado

Logs e trilhas de auditoria armazenam:

  • decisão;

  • horário;

  • modelo;

  • score;

  • fatores utilizados;

  • resultado final.

Passo 9 — O sistema aprende

Se a operação for confirmada como fraude, o caso pode alimentar melhorias futuras.

Se o cliente confirmar que era legítima, o sistema também aprende.

Esse ciclo acontece milhões de vezes.


18. Dicas para o programador COBOL Padawan

Mesmo que você não trabalhe diretamente com IA, existem conhecimentos importantes para sua carreira.

Entenda a origem dos dados

Pergunte sempre:

  • quem gerou o score;

  • quando foi calculado;

  • qual o formato;

  • qual a validade;

  • o que fazer se estiver ausente.

Nunca confie cegamente em um campo externo

Um score recebido por API precisa ser validado.

IF SCORE-RISCO NOT NUMERIC
    PERFORM TRATAR-ERRO
END-IF

Registre decisões importantes

Operações críticas precisam de auditoria.

Não basta bloquear. É necessário registrar por quê.

Trate indisponibilidade

O que acontece se o motor de IA estiver fora do ar?

O sistema deve:

  • bloquear tudo;

  • liberar operações de baixo valor;

  • usar regras locais;

  • encaminhar para contingência?

Essa decisão precisa ser definida antecipadamente.

Evite decisões sem explicação

Um campo “RISCO-ALTO” pode ser insuficiente.

Sempre que possível, receba códigos de motivo.

01 — Dispositivo novo
02 — Valor anormal
03 — Localização suspeita
04 — Beneficiário recente

Proteja dados sensíveis

Logs não devem expor:

  • senha;

  • token;

  • biometria;

  • número completo de cartão;

  • informações pessoais desnecessárias.

Pense em performance

Uma análise antifraude não pode levar vários segundos durante uma compra.

Tempo de resposta é parte da experiência e da arquitetura.

Conheça o fluxo completo

O programador não deve enxergar apenas o programa COBOL.

Ele deve compreender:

  • canal digital;

  • API;

  • mensageria;

  • motor de risco;

  • CICS;

  • Db2;

  • logs;

  • monitoração;

  • atendimento;

  • auditoria.

É assim que um Padawan se transforma em arquiteto da Frota.


19. Curiosidades da galáxia antifraude

Curiosidade 1 — Seu jeito de usar o celular pode identificá-lo

A forma como você inclina o aparelho, toca a tela e digita pode compor um padrão comportamental.

Curiosidade 2 — Uma transação legítima pode parecer suspeita

Comprar uma passagem internacional, trocar de telefone e fazer uma transferência elevada no mesmo dia pode gerar alertas, mesmo sendo legítimo.

Curiosidade 3 — Fraude não é apenas invasão de conta

Também pode envolver:

  • abertura de conta falsa;

  • documentos adulterados;

  • crédito obtido ilegalmente;

  • lavagem de dinheiro;

  • uso de contas de terceiros;

  • identidades sintéticas.

Curiosidade 4 — O cliente pode estar autenticado e ainda assim ser vítima

Em golpes de falsa central, a própria vítima realiza a operação sob orientação do criminoso.

Nesse caso, senha, biometria e dispositivo podem estar corretos.

A análise comportamental e contextual torna-se ainda mais importante.

Curiosidade 5 — Regras antigas ainda têm valor

A IA não elimina regras tradicionais.

Muitas arquiteturas combinam:

  • regras fixas;

  • modelos estatísticos;

  • Machine Learning;

  • listas de bloqueio;

  • análise humana.

A melhor defesa costuma ser híbrida.


20. Easter egg para quem chegou até aqui

Em algum ponto desta missão, talvez você tenha percebido que o sistema antifraude se comporta como o computador da USS Enterprise.

Ele observa milhares de sensores, compara padrões, calcula probabilidades e alerta a tripulação quando algo foge do esperado.

Mas existe uma diferença importante.

Nos episódios clássicos, o computador frequentemente anunciava:

“Intruder alert.”

Nos bancos modernos, o alerta pode ser muito mais discreto.

Talvez o cliente apenas receba uma solicitação de biometria adicional.

Talvez a transferência seja atrasada por alguns segundos.

Talvez um analista receba uma notificação.

Talvez um programa COBOL execute um simples:

MOVE 'N' TO TRANSACAO-AUTORIZADA

Por trás desse único caractere podem existir:

  • milhões de registros;

  • dezenas de algoritmos;

  • centenas de sinais;

  • decisões regulatórias;

  • motores de risco;

  • APIs;

  • mainframes;

  • criptografia;

  • auditoria;

  • análise humana.

O humilde MOVE 'N' pode ser o último escudo antes de uma fraude milionária.

Essa é a beleza invisível dos sistemas corporativos.


Conclusão: os novos escudos da Frota Financeira

A segurança bancária não pode mais depender apenas de senhas.

O cenário moderno exige uma combinação de:

  • inteligência artificial;

  • biometria;

  • autenticação multifator;

  • análise comportamental;

  • contexto;

  • tokens;

  • monitoramento contínuo;

  • governança;

  • auditoria;

  • intervenção humana.

A IA permite analisar enormes volumes de transações em tempo real, identificar comportamentos anormais, calcular riscos e responder antes que o prejuízo aconteça.

A biometria ajuda a validar identidade.

A análise comportamental observa como o cliente interage.

A autenticação contextual avalia onde, quando e em qual dispositivo a operação ocorre.

O mainframe garante que a transação seja processada com consistência, disponibilidade e segurança.

Nenhuma dessas tecnologias funciona perfeitamente sozinha.

A verdadeira força está na integração.

Assim como uma nave da Frota Estelar depende de sensores, escudos, computadores, motores, oficiais e protocolos, um banco moderno depende de várias camadas trabalhando em conjunto.

Para o programador COBOL iniciante, a principal lição é clara:

O código que processa uma transação é apenas uma parte de uma missão muito maior.

Por trás de cada autorização existem decisões de segurança, dados, modelos, regras, APIs, auditoria e responsabilidade.

Aprender COBOL continua sendo importante.

Mas compreender o ecossistema ao redor do COBOL é o que transforma um simples programador em um profissional preparado para os sistemas financeiros do futuro.

Quando você encontrar no código um campo chamado SCORE-RISCO, STATUS-BIOMETRIA, IND-FRAUDE ou COD-MOTIVO-BLOQUEIO, não o veja apenas como mais uma variável.

Veja-o como uma mensagem enviada pelos sensores da nave.

Analise.

Valide.

Registre.

Proteja.

E nunca se esqueça da principal diretriz da segurança moderna:

Confiança não é um estado permanente. É uma conclusão que precisa ser reavaliada continuamente.

Vida longa ao COBOL.

Vida longa ao mainframe.

E que os escudos permaneçam ativos em todas as transações da galáxia financeira.


sábado, 17 de agosto de 2024

Quando as Máquinas Aprenderam a Escutar : A fascinante história do IBM ViaVoice, dos laboratórios lendários da Xerox

 

Bellacosa Mainframe e a evolução dos comandos de voz na informatica

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Quando as Máquinas Aprenderam a Escutar

A fascinante história do IBM ViaVoice, dos laboratórios lendários da Xerox e da longa evolução do reconhecimento de voz até a Inteligência Artificial Generativa

"Toda tecnologia revolucionária passa por três fases: primeiro parece impossível, depois parece inútil e, finalmente, todos juram que ela sempre existiu."

Se você trabalhou com informática entre os anos 1980 e 2000, provavelmente lembra de um curioso paradoxo.

Os computadores ficavam cada vez mais rápidos.

Os processadores dobravam de desempenho a cada poucos anos.

Os discos rígidos cresciam.

A memória aumentava.

As interfaces gráficas evoluíam.

Mas havia uma barreira aparentemente intransponível.

O computador simplesmente não entendia pessoas.

Ele entendia teclados.

Mouse.

Cartões perfurados.

Arquivos.

Bytes.

Mas voz humana?

Parecia algo pertencente à ficção científica.

Curiosamente, essa história começou muito antes do IBM ViaVoice.

Muito antes da Siri.

Muito antes da Alexa.

Na verdade...

ela começa em alguns dos laboratórios mais lendários da história da computação.


O sonho nasceu antes mesmo do computador pessoal

Na década de 1950, Bell Labs, RCA, IBM e diversas universidades já pesquisavam reconhecimento automático da fala.

Naquela época nem existia PC.

Muito menos Windows.

O objetivo inicial era extremamente modesto.

Reconhecer...

os números de zero a nove.

Nada mais.

O famoso sistema Audrey, desenvolvido pela Bell Laboratories em 1952, conseguia reconhecer apenas dígitos pronunciados por uma única pessoa treinada.

Hoje isso parece trivial.

Na época era quase magia.

Imagine.

Computadores ocupando salas inteiras.

Centenas de válvulas.

Milhares de relés.

Mesmo assim...

alguém ousou ensinar uma máquina a ouvir.


IBM entra na corrida

Durante os anos 60 e 70 a IBM começou diversas pesquisas em reconhecimento de padrões.

Embora a empresa fosse conhecida pelos mainframes, internamente existiam enormes grupos dedicados à inteligência artificial, linguística computacional e processamento de sinais.

A IBM entendia algo importante.

Os computadores ficariam menores.

Mais baratos.

Mais rápidos.

E um dia...

as pessoas deixariam de querer aprender a linguagem das máquinas.

As máquinas precisariam aprender a linguagem das pessoas.

Essa visão acompanharia a IBM pelas décadas seguintes.


Xerox PARC: onde o futuro era inventado diariamente

Falar sobre interfaces homem-máquina sem mencionar o Xerox PARC seria praticamente um crime histórico.

Criado em 1970, o Palo Alto Research Center reuniu algumas das maiores mentes da computação.

Ali nasceram ou amadureceram conceitos como:

  • interface gráfica;

  • mouse;

  • janelas;

  • Ethernet;

  • impressoras laser;

  • programação orientada a objetos;

  • WYSIWYG;

  • computação distribuída.

Embora o PARC não tenha criado sozinho o reconhecimento de voz moderno, ele ajudou a consolidar uma filosofia revolucionária: o computador deveria adaptar-se ao ser humano, e não o contrário.

Essa ideia influenciou profundamente toda a indústria.


Dragon Systems: o gigante esquecido

Enquanto IBM avançava em seus laboratórios, outra empresa começava discretamente uma revolução.

A Dragon Systems.

Fundada em 1982 por James e Janet Baker.

O casal passou décadas desenvolvendo algoritmos extremamente sofisticados para reconhecimento contínuo da fala.

Foi a Dragon que popularizou o conceito de ditado de textos.

Médicos.

Advogados.

Pesquisadores.

Começaram a abandonar parte da digitação.

Em muitos aspectos, a Dragon estava anos à frente do restante do mercado.

Décadas depois seria adquirida pela Nuance.

E ironicamente...

a tecnologia da Nuance acabaria alimentando diversos produtos da Microsoft e, posteriormente, soluções de IA médica.


IBM ViaVoice: quando a voz chegou às empresas

No final dos anos 90 surge aquele que provavelmente foi o software de reconhecimento de voz mais famoso da época.

IBM ViaVoice.

Era impressionante para os padrões daquele período.

Pela primeira vez um usuário comum podia instalar um software e conversar com o computador.

Claro...

existiam limitações.

Era necessário treinar o sistema.

Ler textos.

Corrigir erros.

Ensinar pronúncias.

Mas quando funcionava...

parecia inacreditável.

Foi exatamente nessa época que muitas grandes empresas participaram de programas piloto.

Bancos.

Universidades.

Centros de pesquisa.

Empresas multinacionais.

Muitos profissionais nem imaginavam que estavam ajudando a construir uma das tecnologias mais importantes do século XXI.


Como o ViaVoice realmente funcionava?

Hoje usamos modelos neurais gigantescos.

O ViaVoice pertencia a outra geração.

Ele utilizava principalmente:

  • Modelos Ocultos de Markov (Hidden Markov Models — HMM);

  • modelos acústicos;

  • modelos fonéticos;

  • dicionários de pronúncia;

  • modelos estatísticos de linguagem (n-gramas).

Em vez de "entender" uma frase, o software calculava probabilidades.

Cada fonema era comparado a milhares de possibilidades.

O algoritmo escolhia a sequência mais provável.

Era engenharia estatística em estado puro.

Para a época...

uma obra-prima.


Por que Shakespeare?

Muitos usuários lembram desse detalhe curioso.

O software solicitava a leitura de textos relativamente longos.

Não era por acaso.

Esses textos continham:

  • diversas combinações fonéticas;

  • diferentes vogais;

  • consoantes difíceis;

  • mudanças naturais de entonação;

  • pausas;

  • velocidade variável.

Era um excelente material para calibrar o modelo acústico individual.

Cada pessoa acabava construindo um "perfil vocal".


O grande inimigo: o hardware

Hoje esquecemos como eram os computadores daquela época.

Pentium II.

Pentium III.

64 MB de RAM.

Processadores abaixo de 500 MHz.

Microfones baratos.

Placas Sound Blaster.

Mesmo algoritmos brilhantes sofriam com a falta de processamento.

Grande parte das limitações do ViaVoice não estava no software.

Estava no computador.


A explosão do reconhecimento de voz

Durante os anos 2000 surgiram diversos concorrentes.

Dragon NaturallySpeaking

O grande padrão profissional.

Muito utilizado por médicos e advogados.

Excelente precisão.

Ditado contínuo.

Vocabulários especializados.


Microsoft Speech API (SAPI)

A Microsoft resolveu criar uma infraestrutura padrão.

Diversos programas passaram a compartilhar mecanismos de reconhecimento.

Nascia um ecossistema.


Microsoft Speech Recognition

Integrado ao Windows Vista e posteriormente ao Windows 7.

Pela primeira vez milhões de computadores já vinham preparados para comandos de voz.


IBM Embedded ViaVoice

A IBM percebeu rapidamente que o futuro não estava apenas no desktop.

ViaVoice passou a ser embarcado em:

  • centrais telefônicas;

  • URAs;

  • automóveis;

  • equipamentos industriais;

  • sistemas médicos.

Foi uma mudança estratégica importante.


Philips SpeechMagic

Muito forte no mercado hospitalar europeu.

Especializado em documentação clínica.


Nuance

A Nuance tornou-se praticamente sinônimo de reconhecimento de voz profissional.

Após adquirir a Dragon Systems, consolidou grande parte do mercado corporativo.

Em 2021 foi adquirida pela Microsoft, reforçando sua importância estratégica.


O nascimento dos assistentes inteligentes

Até então os softwares apenas reconheciam palavras.

Depois veio uma mudança radical.

Eles começaram a entender intenções.

A Apple apresentou a Siri em 2011.

Depois vieram:

Google Now.

Google Assistant.

Amazon Alexa.

Samsung Bixby.

Microsoft Cortana.

Cada um adicionando um elemento novo:

contexto.

Aprendizado.

Integração com serviços.

Computação em nuvem.


Deep Learning mudou tudo

Por quase quarenta anos o reconhecimento de voz evoluiu lentamente.

Então...

entre 2012 e 2016 aconteceu uma verdadeira explosão.

As Redes Neurais Profundas substituíram boa parte dos antigos modelos baseados em HMM.

Depois vieram arquiteturas como:

LSTM.

Attention.

Transformers.

Self-supervised Learning.

Modelos multimodais.

O salto de qualidade foi impressionante.


OpenAI Whisper: um novo capítulo

Em 2022 a OpenAI apresentou o Whisper.

Ao contrário dos sistemas tradicionais, ele foi treinado com centenas de milhares de horas de áudio multilíngue.

Resultado?

Reconhecimento extremamente robusto.

Sotaques.

Ruído.

Múltiplos idiomas.

Mistura de idiomas.

Tudo começou a funcionar de maneira muito mais natural.

Whisper mostrou que reconhecimento de voz deixava de ser um produto isolado para tornar-se parte integrante dos modelos de IA.


Hoje a voz é apenas mais um tipo de dado

Essa talvez seja a maior mudança conceitual.

Antes existia um software especializado em reconhecer voz.

Hoje...

GPT.

Gemini.

Claude.

Copilot.

Llama.

Mistral.

Todos tratam voz, texto, imagem e vídeo como diferentes representações da mesma informação.

O reconhecimento de voz deixou de ser um fim.

Passou a ser apenas a porta de entrada para sistemas capazes de compreender contexto, memória, intenção e até emoção.


E o que aconteceu com o ViaVoice?

Curiosamente, ele não desapareceu por ser ruim.

Desapareceu porque o mundo mudou.

A IBM percebeu que o futuro estava menos no software de consumo e mais em soluções corporativas, middleware, analytics, computação cognitiva e, posteriormente, no Watson.

Muitas ideias do ViaVoice sobreviveram em produtos empresariais e influenciaram toda a indústria.

Seu legado não está em um ícone na área de trabalho.

Está nos bilhões de dispositivos que hoje entendem comandos de voz sem exigir que o usuário leia Shakespeare três vezes.


Bellacosa Mainframe — Epílogo

Sempre achei curioso lembrar daquele disquete recebido no Banco Real.

Naquele momento eu acreditava estar apenas testando um programa interessante.

Hoje vejo que estava diante de um pedaço da história da computação.

O ViaVoice não foi apenas um software.

Foi uma ponte entre duas eras.

De um lado, a computação clássica, baseada em regras, probabilidades e modelos estatísticos cuidadosamente construídos por engenheiros.

Do outro, a era da Inteligência Artificial moderna, em que modelos gigantescos aprendem com bilhões de exemplos e são capazes de conversar, traduzir, interpretar imagens e compreender intenções humanas.

Talvez essa seja a maior lição dessa história.

As revoluções tecnológicas raramente acontecem da noite para o dia.

Elas amadurecem em silêncio, escondidas em laboratórios, universidades e programas piloto, até que um dia parecem surgir "de repente".

Na realidade, passaram décadas sendo preparadas por milhares de pesquisadores anônimos.

Entre eles estavam engenheiros da Bell Labs, cientistas da IBM, pesquisadores da Xerox PARC, desenvolvedores da Dragon Systems e incontáveis profissionais que, sem saber, participaram de testes lendo um trecho de Shakespeare diante de um microfone.

Às vezes, a História da Computação não começa com um grande anúncio.

Começa com uma voz humana dizendo:

"Ser ou não ser..."

...e um computador tentando entender a resposta.

Se existe uma moral para essa história, talvez seja esta: o IBM ViaVoice foi para a IA conversacional o que o Altair 8800 foi para o computador pessoal. Limitado, às vezes frustrante, mas visionário. Assim como poucos imaginavam em 1975 que um kit eletrônico daria origem ao PC moderno, quase ninguém percebeu que aquele software que pedia para ler Shakespeare estava plantando uma das sementes da era da Inteligência Artificial que hoje transforma o mundo.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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