✨ Bem-vindo ao meu espaço! ✨
Este blog é o diário de um otaku apaixonado por animes, tecnologia de mainframe e viagens.
Cada entrada é uma mistura única: relatos de viagem com fotos, filmes, links, artigos e desenhos, sempre buscando enriquecer a experiência de quem lê.
Sou quase um turista profissional: adoro dormir em uma cama diferente, acordar em um lugar novo e registrar tudo com minha câmera sempre à mão.
Entre uma viagem e outra, compartilho também reflexões sobre cultura otaku/animes
ACEE – Troubleshooting, Dumps, IPCS, ICH408I, S047, S106 e Como Encontrar um ACEE Perdido às 3h da Manhã
O Guia de Sobrevivência do Sysprog Padawan
"Todo Sysprog tem duas fases na carreira: antes de abrir seu primeiro dump de produção e depois de passar uma madrugada inteira procurando um ACEE corrompido."
Bellacosa Mainframe
Introdução
Nas quatro primeiras partes conhecemos:
O que é ACEE
Anatomia interna
Como nasce
Performance e escalabilidade
Agora chegamos na parte que separa os Padawans dos Jedis do Reino IBM Z.
Como diagnosticar problemas relacionados ao ACEE?
Sintomas clássicos
Usuário jura:
Ontem funcionava.
Hoje não.
CICS retorna.
NOT AUTHORIZED
DB2
SQLCODE -551
MQ
2035
USS
Permission denied
SSH
Login rejected
TSO
ICH408I
Batch
S047
Started Task
S106
O grande segredo
Na maioria dos casos.
ACEE não é o culpado.
Ele é a vítima.
Problema geralmente está em:
RACF
SAF
APF
OMVS
Certificates
Labels
Classes
Tokens
Ferramentas do Sysprog Jedi
IPCS
Nosso sabre de luz.
SDSF
Nosso radar.
SMF
Nosso livro de história.
zSecure
Nosso detector mágico.
RACF
Nosso cartório.
Ferramenta 1 — IPCS
Sempre presente.
Exemplo
IP
Entrar no dump.
Analisar.
Localizar control blocks.
Procurando o ACEE
Fluxo clássico.
PSA
↓
TCB
↓
ASCB
↓
ASXB
↓
ACEE
É praticamente uma caça ao tesouro.
VERBX
Muito usado.
Exemplo
VERBX
Permite interpretar estruturas.
Evita leitura hexadecimal.
Problema 1
ICH408I
Mensagem mais famosa do RACF.
Exemplo
ICH408I USER(VBELLACO)
ACCESS DENIED
Causas
Perfil ausente
READ inexistente
Classe errada
Grupo removido
Senha revogada
Passphrase expirada
Solução
LU
LG
RLIST
SEARCH
SETROPTS
Problema 2
S047
Muito comum.
Contexto inválido.
ACEE inconsistente.
Cross-memory.
Passagem incorreta.
Clone defeituoso.
Programa APF.
Solução
Verificar dump.
IPCO.
IPID.
Control blocks.
Problema 3
S106
Sysprog conhece.
Autorização APF.
AC(1).
Biblioteca.
PROGxx.
LNKLST.
Comando útil
D PROG,APF
Problema 4
USS
SSH falha.
Mensagem
Permission denied
Causa
UID ausente.
HOME inválido.
OMVS.
Diagnóstico
LU USERID
Verificar
UID
HOME
PROGRAM
Problema 5
DB2
SQLCODE
-551
Usuário.
Não autorizado.
Pacote.
Plano.
Tabela.
Solução
DSNR.
Permissões.
ACEE válido.
Problema 6
MQ
Erro
2035
MQRC_NOT_AUTHORIZED
SAF.
MQADMIN.
ACEE.
Problema 7
CICS
Transação.
PAY1
Resposta.
NOT AUTHORIZED
Classe.
TCICSTRN
Perfil.
Ausente.
Auditoria
SMF80.
Nosso melhor amigo.
Registra.
LOGON
LOGOFF
Falhas.
Revogações.
VERIFY.
MFA.
O que procurar
RC
Reason
Timestamp
Userid
Classe
Resource
zSecure
Facilita.
Relatórios.
Comparações.
Compliance.
Pesquisa rápida.
Security Server
Também ajuda.
Ferramentas IBM.
Auditoria.
Análise.
Caso real Bellacosa
03:12 da manhã.
Banco parado.
SSH não conecta.
Equipe Linux culpa zOS.
Equipe Segurança culpa RACF.
Equipe MQ culpa certificados.
Sysprog abre IPCS.
Analisa ACEE.
Descobre.
UID removido.
Corrige.
03:24.
Tudo volta.
Café salvo.
Produção salva.
Checklist Sysprog Jedi
Verificar USER
LU
Verificar grupo
LG
Verificar perfil
RLIST
Verificar APF
D PROG,APF
Verificar OMVS
ALTUSER
Verificar SMF80
Verificar Dump
IPCO
Verificar Certificates
RACDCERT
Verificar MFA
Verificar Labels
Easter Egg Bellacosa ☕
Existe um momento.
Na carreira.
Em que você olha um dump.
Encontra.
TCB.
ASCB.
ACEE.
Flags.
UID.
Certificados.
SPECIAL.
E pensa.
Acho que finalmente comecei a entender o Reino IBM Z.
Frase Bellacosa Mainframe
"O Sysprog iniciante procura mensagens. O Sysprog experiente procura control blocks. O Sysprog Jedi conversa com o dump até que ele conte toda a história."
☕💥 Continua na Parte 6
ACEE – Easter Eggs, Segredos de Sysprog, Curiosidades Históricas, Entrevistas IBM Z, Checklist Definitivo de Auditoria e Como Impressionar um Security Architect em Cinco Minutos.
Cheguei em Portugal sob o sol impiedoso do verão europeu.
Trazia comigo muitos sonhos e poucos projetos de pé — coragem em excesso, medo quase nenhum, e reservas que prometiam durar um ano.
Nos dois primeiros meses, virei mochileiro de mim mesmo: explorava cidades, buscava um teto, um rumo, um pedaço de chão para chamar de lar.
O idioma era o mesmo — mas soava diferente, com sotaques que dançavam entre o estranho e o familiar.
Era um aprendizado novo: o de reaprender o que eu achava que já sabia.
Viviam dentro de mim a alegria pela novidade e a tristeza pela saudade.
Ainda pensava em Giovana — os olhos azuis me perseguiam nas vitrines, nos cafés, nas janelas de Lisboa — mas lá no fundo, o desejo de um recomeço batia mais forte.
Vieram as dúvidas, o medo de ficar sem dinheiro, a busca por um trabalho que pagasse mais do que apenas as contas.
Descobri o que é ser estrangeiro: de respeitado e invejado no Brasil, passei a ser apenas mais um imigrante tentando provar seu valor.
Mas era um recomeço — e eu sabia que todo recomeço começa do chão.
Portugal me encantava.
As ruas limpas, o cheiro de mar misturado ao de pastel de nata, o euro brilhando como promessa de um futuro dourado.
Mas também vinham os choques de realidade, os “nãos” que pareciam testar a minha paciência e fé.
Até que um dia, o primeiro emprego apareceu — simples, mas suficiente para reacender o fogo da esperança.
Foi ali, entre e-mails trocados com o Brasil e longas chamadas no Skype, que percebi:
a vida tinha virado outra.
O sonho era o mesmo — mas agora tinha sotaque português, calor europeu e a coragem de quem recomeça do zero.
Bellacosa Mainframe e o choque cultural de estudar fora
☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
Senhor Professor-Doutor, Posso Fazer uma Pergunta?
🎓 O dia em que um universitário brasileiro atravessou o Atlântico e descobriu que, em Portugal, até a hierarquia acadêmica vinha com metadata
São Paulo, anos 1990: professor era professor. Lisboa, 2002: aparentemente eu precisava consultar o catálogo antes de dizer bom dia.
Existe uma diferença enorme entre visitar um país e permitir que um país execute código dentro de você.
Turista fotografa monumentos.
Quem mora começa a descobrir os protocolos.
E foi assim que, em 2002, atravessei o Atlântico para viver uma experiência acadêmica em Lisboa carregando na bagagem uma formação universitária brasileira, algumas certezas, muitos hábitos e uma absoluta ignorância sobre uma coisa importantíssima:
eu não conhecia a API social da universidade portuguesa.
Não era apenas outro país.
Não era apenas outro sotaque.
Não era apenas uma universidade diferente.
Era outro sistema operacional.
E eu estava tentando executar:
PATROPI.EXE
num ambiente que esperava:
SR_BELLACOSA.PT
O resultado, naturalmente, foi maravilhoso.
🇧🇷 No Brasil, professor era professor
Minha referência vinha da universidade brasileira dos anos 1990.
Eu conhecia professores excelentes, professores medianos, professores engraçados, professores carrancudos e provavelmente professores que sobreviviam academicamente movidos a café e força do ódio.
Mas havia uma característica curiosa:
eu não fazia ideia do pedigree acadêmico de boa parte deles.
Mestre?
Doutor?
Doutorando?
Professor-assistente?
Pós-doutor?
Eu provavelmente sabia menos sobre os títulos acadêmicos de alguns professores do que sobre a configuração do computador do laboratório.
E isso não fazia muita diferença na interação cotidiana.
Professor era:
professor.
— Professor, posso perguntar uma coisa?
Pronto.
Handshake realizado.
SESSION ESTABLISHED
Não precisava executar:
DISPLAY ACADEMIC.CREDENTIALS
antes de iniciar a conversa.
Talvez isso variasse entre universidades, cursos e pessoas — certamente variava —, mas aquela era a minha experiência cultural.
E nela havia ainda outro problema.
Eu nunca fui particularmente talentoso para permanecer dentro de compartimentos sociais.
🧪 Antes do Senhor Bellacosa existia Patropi
Na universidade brasileira eu tinha uma alcunha:
Patropi, o Químico.
Não porque estivesse desenvolvendo novos polímeros.
Nem porque estivesse destinado ao Nobel.
A química envolvida era ocasionalmente mais...
etílica.
Conhaques.
Gins.
Batidinhas.
Experimentos líquidos cuja fórmula talvez fosse melhor não submeter a revisão por pares.
Em algumas festas, eu era convidado já com uma expectativa implícita:
Se Patropi aparecer, provavelmente aparecerá também alguma garrafa contendo um líquido estranho e surpreendentemente bom.
Isso é reputação acadêmica.
Talvez não a que conste no Lattes.
Mas reputação.
E Patropi circulava.
Sala.
Corredor.
Laboratório.
Cantina.
Biblioteca.
Ou melhor...
Biblioteca.
Com B maiúsculo.
Porque havia a biblioteca oficial, aquela com livros, silêncio e fichários.
E havia a Biblioteca, o boteco do Manoel, onde estudantes, funcionários, professores, veteranos eternos e toda aquela maravilhosa fauna universitária encontravam um protocolo comum.
🍺
Ali ninguém precisava consultar o organograma.
A cerveja implementava interoperabilidade.
✈️ Então Patropi atravessou o Atlântico
Lisboa, 2002.
UTL a famosa Universidade Técnica de Lisboa, ISEG e IDEFE.
Outro continente.
Outro país.
Mesma língua.
Teoricamente.
Essa última afirmação começaria a apresentar exceções logo nas primeiras semanas.
Eu imaginava encontrar diferenças acadêmicas.
Currículos diferentes.
Bibliografia diferente.
Métodos diferentes.
O que não esperava era encontrar diferenças impressas na própria gramática das relações humanas.
Uma das primeiras foi o título.
Não era simplesmente:
— Professor...
Havia:
Senhor Professor-Doutor.
Senhor Professor-Assistente.
E outras combinações que faziam o brasileiro recém-chegado imaginar que tinha entrado acidentalmente numa árvore genealógica acadêmica.
O detalhe fundamental é que não se tratava apenas de conhecer o título.
Em certos contextos e com certas pessoas, esperava-se que ele fosse utilizado.
Aquilo me causou um pequeno ABEND.
🎓 Senhor. Professor. Doutor.
Três palavras.
Três níveis de encapsulamento.
Eu pensava:
Mas eu já sei que ele é professor. Ele está dando aula.
O sistema respondia:
Informação insuficiente.
Professor.
Doutor.
E senhor.
Não esqueça o senhor.
Era quase:
TITLE=SR ROLE=PROFESSOR ACADEMIC_LEVEL=PHD
Só então:
CALL PROFESSOR
😂
Para alguém vindo de um ambiente em que eu muitas vezes sequer sabia quais professores possuíam doutorado, aquilo era fascinante.
Não necessariamente melhor.
Não necessariamente pior.
Diferente.
E diferenças culturais ficam particularmente interessantes quando ninguém precisa explicá-las.
Porque é justamente aí que você descobre as regras invisíveis.
📏 Descobri também o protocolo de um metro
Essa talvez tenha sido uma das descobertas mais sutis.
Distância física.
Patropi tinha um defeito de fabricação.
Ele se aproximava das pessoas.
Queria perguntar alguma coisa?
Chegava perto.
Conversava.
Gesticulava.
O corpo fazia parte da comunicação.
Em Lisboa comecei a perceber algo curioso.
Eu me aproximava de determinados professores...
e eles discretamente reconstruíam a distância.
Um passo.
Eu avançava naturalmente.
Outro pequeno recuo.
Durante alguns segundos aquilo podia transformar-se numa dança acadêmica extremamente sofisticada.
💃
Bellacosa:
MOVE +30CM
Professor:
MOVE -30CM
Bellacosa:
MOVE +20CM
Professor:
RESTORE SAFE_DISTANCE
Até meu cérebro finalmente identificar o protocolo:
Talvez eu deva ficar aqui.
Não havia fita amarela no chão.
Não havia placa:
MANTENHA 1 METRO DO SENHOR PROFESSOR-DOUTOR.
Não estava no regulamento.
Não aparecia no programa da disciplina.
Era metadata cultural.
E metadata cultural é cruel justamente porque todos que nasceram dentro do sistema sabem interpretá-la.
Menos você.
🧠 Cultura é documentação que ninguém escreveu
Essa experiência me ensinaria algo que depois reencontrei inúmeras vezes em tecnologia.
Existem dois sistemas funcionando simultaneamente.
O sistema documentado:
regulamentos;
títulos;
cargos;
disciplinas;
avaliações;
horários.
E o sistema real:
quem pode interromper quem;
quem chama quem pelo primeiro nome;
quem permanece em pé;
quem senta;
quanto você se aproxima;
quando pode brincar;
quando deve ficar sério;
quem bebe com quem depois da aula.
Esse segundo sistema não vem no manual.
Você aprende observando.
Em mainframe chamaríamos de conhecimento tribal.
Em antropologia poderíamos falar de códigos culturais.
Patropi provavelmente chamaria de:
“Tem alguma coisa acontecendo aqui e ninguém me passou o JCL.”
🎶 E então apareceram as tunas
Mas seria profundamente injusto transformar Portugal numa caricatura de formalidade acadêmica.
Porque bastava caminhar um pouco além daquela primeira camada para começar a encontrar outra coisa.
Música.
Convívio.
Tradição estudantil.
Humor.
Noite.
E, naturalmente:
as tunas acadêmicas.
Para um brasileiro, as tunas são uma daquelas instituições que inicialmente parecem ter escapado de outro século e recusado educadamente a atualização.
Trajes.
Instrumentos.
Canções.
Serenatas.
Rituais.
Hierarquias internas.
Tradições.
Gente jovem executando costumes antigos com absoluta naturalidade.
E aquilo começou a desmontar uma interpretação simplista que eu poderia ter construído.
A universidade portuguesa podia parecer mais formal em determinadas relações.
Mas isso não significava ausência de vida universitária.
Muito pelo contrário.
Ela simplesmente organizava essa vida através de outros códigos.
⛏️ E Bellacosa começou a escavar
Porque há uma coisa que o tempo faz com o estrangeiro curioso.
Ele escava.
Primeiro você vê a superfície.
Depois encontra uma rachadura.
Depois outra.
E finalmente percebe que aquela sociedade aparentemente alienígena possui exatamente aquilo que todas as sociedades humanas possuem:
fauna.
😂
O professor formal tinha amigos.
O aluno cerimonioso contava piadas.
O funcionário conhecia atalhos.
O sujeito aparentemente sisudo sabia onde beber.
Alguém conhecia alguém.
Alguém tinha uma história.
Alguém conhecia um lugar.
E pouco a pouco o ambiente deixou de parecer uma interface estrangeira.
Eu começava a encontrar as APIs internas.
🎩 Patropi morreu. Nasceu o Sr. Bellacosa
Ou pelo menos oficialmente.
Patropi pertencia à universidade brasileira.
Àquele tempo.
Àquela fauna.
Às festas.
Às garrafas experimentais.
Ao Manoel.
Em Portugal surgiu outro personagem:
Sr. Bellacosa.
O nome já parecia vir acompanhado de casaco.
😂
Mas aconteceu algo ainda mais interessante.
Quando a formalidade diminuía e a intimidade aumentava, surgia outro identificador:
o Brasileiro.
Isso é fantástico.
Porque existe um momento na vida de um estrangeiro em que sua nacionalidade deixa de funcionar apenas como informação geográfica.
Ela vira apelido.
— Chama o Brasileiro.
E todos sabem qual brasileiro.
Nesse momento:
BRASILEIRO
já não é atributo.
É hostname.
🍷 E então Portugal começou a ficar perigoso
Não politicamente.
Gastronomicamente.
Porque depois que você atravessa a camada protocolar de uma cultura, começa a chegar aos lugares realmente interessantes.
E aparecem:
bagaceiras;
vinhos;
Portos;
ginjinhas;
e pastéis de bacalhau cuja análise laboratorial provavelmente encontraria moléculas contemporâneas ao Marquês de Pombal.
O óleo não era utilizado para fritar.
Era patrimônio histórico.
Você olhava para aquilo e pensava:
Isso pode me matar.
Depois comia.
Excelente.
🍷 O choque do vinho do Porto
Uma das pequenas descobertas culturais de que mais gostei foi justamente esta:
em Portugal, vinho do Porto é vinho do Porto.
Parece uma frase idiota.
Mas não é.
No Brasil, o vinho do Porto havia adquirido para mim um peso cerimonial.
Tacinha.
Ocasião.
Produto importado.
Digestivo.
Quase um pequeno ritual.
— Aceita um Porto?
A própria entonação acrescentava solenidade.
Em Portugal:
— Queres um Porto?
— Quero.
Fim.
😂
Nenhum quarteto de cordas entra na sala.
Ninguém reduz a iluminação.
Nenhum embaixador aparece para explicar o Tratado de Methuen.
É Porto.
Beba.
E essa diferença me ensinou outra coisa maravilhosa sobre viver fora:
aquilo que é símbolo para o estrangeiro frequentemente é cotidiano para quem mora ali.
O turista encontra Portugal.
O português encontra uma garrafa.
🍒 Até Patropi ressuscitar diante da ginjinha
E então veio a ginjinha.
Nesse momento alguma rotina esquecida começou a carregar:
LOAD PATROPI
Porque o Químico olhou para aquilo e reconheceu imediatamente uma arquitetura familiar.
Fruta.
Álcool.
Açúcar.
Tempo.
Espere.
Eu conheço esse sistema.
😂
A ginjinha lisboeta, como tradição comercial conhecida, possui sua história própria. Mas a família tecnológica à qual pertence — macerações, bebidas aromatizadas, destilados, frutas, ervas — atravessa civilizações.
Romanos.
Séculos de presença islâmica na Península.
Tradições medievais.
Mosteiros.
Camponeses.
Rotas comerciais.
Açúcar.
Destilação.
Expansão marítima.
E Patropi, olhando aquele copinho vermelho, podia chegar à conclusão cientificamente irresponsável, porém culturalmente deliciosa:
“Porra, isso é uma batidinha com dois mil anos de versionamento.”
🤣
Ali finalmente havia interoperabilidade completa.
🥃 A bagaceira derruba o firewall
E ainda havia a bagaceira.
A expressão:
“tome lá um copito”
deveria constar nos manuais internacionais de segurança como exemplo de engenharia social.
Copinho, ´para os tugas, COPITO número um:
— Interessante.
Copinho número dois:
— Muito agradável.
Copinho número três:
— Portugal possui realmente uma extraordinária complexidade histórica.
Copinho número quatro:
— SENHOR PROFESSOR-DOUTOR, VENHA CÁ DAR-ME UM ABRAÇO!
Pronto.
O perímetro de segurança de um metro finalmente havia sido derrotado.
Não por uma revolução pedagógica.
Por aguardente.
😂
🧬 A verdadeira integração não aparece no passaporte
Esse talvez seja o ponto que mais gosto ao restaurar essas memórias tantos anos depois.
Minha lembrança inicial de Portugal acadêmico é marcada pela diferença.
Títulos.
Formalidade.
Hierarquia.
Distância.
Protocolos.
Mas quando continuo escavando, as memórias começam a mudar.
Aparecem música.
Tunas.
Conversas.
Pessoas.
Comida.
Vinho.
Ginjinha.
Bagaceira.
Piadas.
Lugares.
Aparece aquela extraordinária transformação pela qual o estrangeiro deixa de comparar cada detalhe com seu país de origem.
Ele começa simplesmente a viver.
O vinho do Porto deixa de representar Portugal.
É vinho.
A ginjinha deixa de ser atração.
É ginjinha.
O professor deixa de ser espécime cultural.
É aquele professor que as vezes parecia estar com prisão de ventre ao dar aula.
E Bellacosa deixa de ser simplesmente estrangeiro.
Vira:
o Brasileiro.
💾 Talvez cultura seja um gigantesco sistema legado
Quanto mais velho fico, mais gosto dessa metáfora.
Uma cultura parece um sistema legado gigantesco.
Possui documentação oficial.
Possui regras.
Possui versões.
Possui interfaces.
Mas grande parte do comportamento verdadeiro está escondida em milhões de linhas que ninguém mais sabe exatamente por que existem.
Por que esse tratamento?
Porque sempre foi assim.
Por que essa distância?
É o costume.
Por que essa tradição?
Porque veio de antes.
Quem implementou?
Ninguém sabe.
Pode remover?
NÃO TOCA QUE ESTÁ FUNCIONANDO.
Mainframeiro entende imediatamente.
😂
E o estrangeiro chega como desenvolvedor novo:
— Por que fazemos isso?
A equipe inteira responde:
— Fazemos o quê?
Essa talvez seja a definição perfeita de norma cultural.
🏛️ Dois mundos acadêmicos, nenhuma caricatura
Trinta anos depois da universidade brasileira e mais de duas décadas depois daquela experiência portuguesa, seria fácil cair numa comparação preguiçosa.
Brasil informal.
Portugal formal.
Fim.
Mas não foi isso que vivi.
Encontrei formalidade no Brasil.
Encontrei enorme informalidade em Portugal.
Encontrei hierarquia.
Encontrei transgressão.
Encontrei professores acessíveis.
Encontrei professores protocolares.
Encontrei estudantes sérios.
Encontrei fauna.
Muita fauna.
Porque instituições podem possuir culturas nacionais diferentes, mas continuam sendo ocupadas pela mesma espécie problemática:
Homo sapiens universitarius.
E onde há humanos durante tempo suficiente, inevitavelmente surgem:
hierarquia,
amizade,
ritual,
atalho,
fofoca,
conhecimento,
cerveja e é claro copitos
e alguém que sabe exatamente onde conseguir alguma coisa que oficialmente ninguém sabe onde fica.
🍺 Toda universidade acaba encontrando sua Biblioteca
Talvez essa seja minha conclusão favorita.
Em São Paulo havia a Biblioteca.
O boteco do Manoel.
Não aquela biblioteca.
A outra.
Aquela onde departamentos que oficialmente não conversavam conseguiam interoperabilidade depois da segunda cerveja.
Onde aluno encontrava veterano.
Veterano conhecia funcionário.
Funcionário conhecia professor.
Professor sabia uma história.
E Manoel provavelmente sabia todas.
Portugal possuía outras interfaces.
Outros rituais.
Outros lugares.
Outra arquitetura social.
Mas, escavando suficientemente fundo, encontrei novamente aquilo que procurava sem saber:
gente.
E é engraçado perceber que tudo isso voltou porque, décadas depois, uma notícia sobre inteligência artificial e ensino fez meu cérebro executar um comando que eu não havia solicitado:
RESTORE UNIVERSITY.MEMORIES
Primeiro vieram os ghostwriters.
Depois os senpais eternos.
Depois o antiplágio.
Depois a Biblioteca.
Depois Manoel.
Depois Patropi.
E quando percebi...
eu estava novamente em Lisboa.
☕ Senhor Professor-Doutor, posso fazer uma pergunta?
Hoje eu responderia ao Bellacosa de 2002:
Pode.
Mas primeiro observe.
Toda sociedade possui um protocolo.
Toda instituição possui metadata.
Toda universidade possui um organograma oficial e outro completamente invisível.
Aprenda os dois.
Respeite aquilo que ainda não entende.
Não confunda diferença com defeito.
E depois...
escave.
Porque atrás do Senhor Professor-Doutor existe uma pessoa.
Atrás da formalidade existe uma história.
Atrás da tuna existe uma tradição.
Atrás daquela garrafa existe uma civilização inteira trocando receitas, técnicas e hábitos durante séculos.
E atrás do Sr. Bellacosa ainda estava aquele velho processo adormecido esperando alguma ginjinha executar:
READY
> LOAD PATROPI
PATROPI THE CHEMIST 1.0
COPYRIGHT 1990s
STATUS: LEGACY
COMPATIBILITY: SURPRISINGLY GOOD
> RUN
🍒 SYSTEM READY.
Talvez essa tenha sido a verdadeira aula que Lisboa me deu.
Não estava no currículo.
Não valia créditos.
Não apareceu no diploma.
Mas continua instalada mais de vinte anos depois:
Você não conhece realmente uma cultura quando aprende suas regras.
Começa a conhecê-la quando descobre onde — e com quem — essas regras podem relaxar.
E, se durante essa descoberta alguém colocar diante de você um pastel de bacalhau frito num óleo cuja origem parece anterior ao Iluminismo...
não faça perguntas demais.
Você já perguntou demais ao Senhor Professor-Doutor.
Coma o pastel.
Beba o Porto.
Escute a tuna.
E continue escavando.
☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
Porque algumas das melhores aulas da universidade jamais tiveram sala, chamada ou professor — mas quase sempre havia uma mesa por perto.
Bellacosa mainframe e a lista de expressoes faciais
🎭 LISTA DE EXPRESSÕES FACIAIS IMPROVISADAS (ESPONTÂNEAS / ORGÂNICAS)
Antes da palavra existe o rosto. Antes do discurso cuidadosamente elaborado, da legenda e até daquele providencial “não foi isso que eu quis dizer”, existe uma sobrancelha que sobe, um canto da boca que escapa e dois olhos que entregam o sistema inteiro antes que o cérebro consiga apertar ENTER.
No Bellacosa Mainframe, expressões faciais podem ser entendidas como pequenos logs visuais do processamento humano. Surpresa, medo, curiosidade, desprezo, alegria, hesitação ou aquele maravilhoso sorriso malicioso de quem aparentemente já sabe onde essa história vai terminar aparecem no rosto como mensagens espontâneas de um console emocional. Algumas permanecem por segundos; outras são tão rápidas que parecem uma microexpressão executada antes que o operador perceba.
Esta lista não pretende transformar pessoas em máquinas previsíveis nem criar um manual definitivo para “ler pensamentos”. Contexto, cultura, personalidade, postura, voz e situação modificam completamente a interpretação de um gesto. O interessante está justamente na combinação desses sinais.
Para atores, escritores, ilustradores, fotógrafos, criadores de personagens ou simplesmente curiosos pelo comportamento humano, observar essas pequenas mudanças oferece um extraordinário laboratório.
Portanto, ajuste o monitor, carregue o dataset emocional e observe: o rosto humano talvez seja o painel de controle mais antigo, complexo e divertido que já tentamos interpretar.
Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe
desde 1988
,
é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2,
z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais,
conhecimento técnico, história da computação e práticas
do universo mainframe para aproximar novas gerações das
tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos
ao redor do mundo.
IBM Champion
IBM Z
COBOL
CICS
Db2
z/OS
Mainframe desde 1988