| Bellacosa Mainframe e o estouro da bolha dotcom capitulo xiii |
Capítulo XIII — A Nova Corrida do Ouro: A Inteligência Artificial Está Repetindo a Bolha da Internet?
Como separar o verdadeiro nascimento de uma revolução tecnológica da inevitável onda de exageros, promessas e especulação que sempre acompanha grandes transformações
"A história nunca se repete exatamente. Mas costuma rimar de maneira impressionante." — Frase frequentemente atribuída a Mark Twain
Chegamos ao ponto em que passado e presente finalmente se encontram.
Durante toda esta jornada analisamos como a bolha das Dot-Com nasceu.
Como cresceu.
Como explodiu.
Como destruiu empresas.
Como transformou carreiras.
Como mudou definitivamente a engenharia de software.
Agora surge a pergunta inevitável.
Estamos vivendo outra bolha?
A resposta não é simples.
Nem deveria ser.
Porque quando falamos em Inteligência Artificial estamos diante de um fenômeno muito mais complexo do que simplesmente comparar gráficos de bolsas de valores.
Existe tecnologia real.
Existe inovação verdadeira.
Existe transformação econômica.
Mas também existe entusiasmo exagerado.
Existe marketing.
Existe FOMO.
Existe especulação.
E, principalmente...
Existe um comportamento humano que já vimos diversas vezes ao longo da história.
Para entender o presente, precisamos primeiro aprender a separar tecnologia de narrativa.
A IA Não É Apenas Mais uma Moda
Existe um erro que alguns analistas cometem.
Comparar a Inteligência Artificial com modismos passageiros.
Não é.
Assim como a Internet não foi apenas uma moda.
A IA representa uma mudança estrutural.
Ela altera a maneira como produzimos conhecimento.
Como escrevemos software.
Como pesquisamos.
Como atendemos clientes.
Como fazemos diagnósticos.
Como descobrimos medicamentos.
Como automatizamos processos.
Como ensinamos.
Como aprendemos.
Seu impacto provavelmente será comparável ao surgimento da eletricidade, da Internet ou do computador pessoal.
O problema não está na tecnologia.
O problema está nas expectativas.
A Primeira Semelhança: Todo Mundo Quer Estar Dentro
Voltemos para 1999.
Empresas adicionavam ".com" ao nome.
Suas ações valorizavam imediatamente.
Pouco importava se possuíam um modelo de negócios consistente.
Bastava parecer parte da revolução.
Agora observe o cenário atual.
Empresas anunciam:
"Utilizamos Inteligência Artificial."
"Nossos produtos possuem IA."
"Somos AI First."
Muitas vezes isso representa inovação genuína.
Em outras...
É apenas marketing.
Existe até um termo para isso.
AI Washing.
Assim como existiu o "Dot-Com Washing" vinte e cinco anos atrás.
O Capital Está Fluindo Novamente
Outro paralelo impressionante.
Nunca se investiu tanto dinheiro em IA.
Grandes empresas anunciam investimentos bilionários.
Startups captam recursos recordes.
Novos fundos surgem constantemente.
Infraestruturas gigantescas estão sendo construídas.
Data centers.
GPUs.
TPUs.
NPUs.
Redes ópticas.
Usinas de energia dedicadas.
Cabos submarinos.
Tudo isso lembra bastante a corrida pela infraestrutura da Internet durante os anos 1990.
Existe uma diferença importante, porém.
Hoje sabemos que infraestrutura demora anos para mostrar todo seu valor.
Essa lição veio justamente das Dot-Com.
A Escassez Mudou de Lugar
Na bolha da Internet, o recurso mais disputado era largura de banda.
Servidores.
Programadores Web.
Hoje...
O recurso escasso é diferente.
GPUs.
Energia elétrica.
Dados de qualidade.
Especialistas em IA.
Pesquisadores.
Engenheiros de Machine Learning.
Especialistas em MLOps.
Especialistas em Governança.
Arquitetos de infraestrutura.
Toda revolução tecnológica cria novos gargalos.
A IA não é diferente.
A Corrida Pelos Talentos
Durante os anos da bolha, empresas disputavam programadores Java, administradores Unix e especialistas em redes.
Hoje ocorre algo semelhante.
Pesquisadores recebem ofertas milionárias.
Engenheiros especializados tornam-se extremamente disputados.
Universidades ampliam cursos.
Empresas criam academias internas.
Governos começam a investir em formação.
O mercado percebeu que tecnologia não se constrói apenas com dinheiro.
Ela depende principalmente de pessoas.
O Marketing Está Novamente Acelerado
Outro elemento familiar.
Promessas grandiosas.
Mudanças revolucionárias.
Apresentações impressionantes.
Demonstrações cuidadosamente preparadas.
Não há nada de errado nisso.
Toda inovação precisa ser apresentada.
O problema surge quando demonstrações começam a ser confundidas com produtos prontos.
Essa diferença tornou-se famosa recentemente.
Uma demonstração impressionante não significa que existe um sistema escalável por trás dela.
Foi exatamente esse erro que destruiu inúmeras Dot-Com.
O Dinheiro Está Mais Inteligente
Existe, entretanto, uma diferença importante entre 1999 e hoje.
Os investidores atuais carregam a memória da bolha.
Eles ainda financiam inovação.
Mas fazem perguntas muito mais difíceis.
Quanto custa cada inferência?
Qual é o consumo energético?
Existe vantagem competitiva sustentável?
Como será monetizado?
Qual o custo operacional?
Como proteger propriedade intelectual?
Como evitar vazamento de dados?
Essas perguntas dificilmente apareciam durante a primeira corrida da Internet.
O Cliente Também Mudou
Os consumidores atuais são muito mais exigentes.
Não basta impressionar.
É preciso funcionar.
Se um chatbot responde incorretamente.
O usuário abandona.
Se um agente de IA demora demais.
O cliente procura outro.
Se um sistema alucina frequentemente.
A confiança desaparece.
Na era da IA, qualidade tornou-se tão importante quanto inovação.
O Maior Desafio Não É Tecnológico
Curiosamente...
Os principais obstáculos da Inteligência Artificial talvez nem sejam técnicos.
São organizacionais.
Governança.
Segurança.
Privacidade.
Aspectos legais.
Direitos autorais.
Viés algorítmico.
Explicabilidade.
Auditoria.
Conformidade regulatória.
Integração com sistemas existentes.
Exatamente como aconteceu após a bolha da Internet.
Quando a tecnologia amadurece...
Os desafios passam a ser empresariais.
O Mainframe Volta ao Centro do Palco
Existe uma ironia fascinante.
Quanto mais avançamos na IA...
Mais importantes tornam-se os sistemas corporativos.
Por quê?
Porque eles armazenam os dados.
Os modelos aprendem com informações.
E onde estão as informações mais valiosas?
Nos bancos.
Nas seguradoras.
Nos governos.
Nas indústrias.
Nos sistemas ERP.
Nos programas COBOL.
Nos bancos de dados Db2.
Nos arquivos VSAM.
Nos sistemas IMS.
A IA não substitui esses ambientes.
Ela amplia seu valor.
Os Custos Começam a Aparecer
Outro paralelo extremamente interessante.
Durante a bolha da Internet, muitas empresas ignoravam custos.
Hoje acontece algo semelhante em alguns projetos de IA.
Treinar modelos gigantescos custa milhões.
Executar inferências continuamente também.
Consumir energia.
Armazenar dados.
Manter infraestrutura.
Tudo possui custo.
Mais cedo ou mais tarde, toda empresa precisa responder à mesma pergunta.
Quem paga essa conta?
Foi exatamente essa pergunta que separou sobreviventes e desaparecidos das Dot-Com.
Provavelmente acontecerá novamente.
Os Vencedores Talvez Ainda Nem Tenham Nascido
Essa talvez seja a reflexão mais fascinante.
Em 1997 ninguém imaginava que Google dominaria buscas.
Em 1998 poucos acreditavam na Amazon.
Em 2003 quase ninguém conhecia Facebook.
Em 2005 o YouTube era apenas uma startup.
Em 2006 a AWS ainda parecia um experimento.
Talvez os maiores vencedores da revolução da Inteligência Artificial ainda nem existam.
Ou talvez estejam neste momento funcionando em uma pequena sala de pesquisa.
Exatamente como aconteceu há vinte e cinco anos.
O Que Realmente Aprendemos
A maior lição da bolha da Internet nunca foi:
"Não invista em tecnologia."
Foi exatamente o contrário.
Invista.
Mas compreenda profundamente aquilo em que está investindo.
Separe inovação de propaganda.
Separe engenharia de marketing.
Separe crescimento de sustentabilidade.
Essa diferença vale para empresas.
Vale para investidores.
Vale para profissionais.
Vale para governos.
O Padawan COBOL Possui Uma Vantagem Inesperada
Muitos acreditam que profissionais experientes em sistemas legados possuem dificuldade para compreender novas tecnologias.
A realidade frequentemente mostra o oposto.
Quem passou anos desenvolvendo sistemas críticos aprende algo extremamente valioso.
Pensar em confiabilidade.
Pensar em disponibilidade.
Pensar em integridade.
Pensar em continuidade.
Esses princípios tornam-se ainda mais importantes na era da Inteligência Artificial.
Talvez o maior diferencial do Programador COBOL Padawan não seja conhecer uma linguagem antiga.
Seja compreender fundamentos que continuam absolutamente modernos.
A Última Grande Comparação
A corrida pela Inteligência Artificial lembra muito a corrida da Internet.
Mas existe uma diferença decisiva.
Na década de 1990 estávamos aprendendo pela primeira vez.
Hoje carregamos décadas de experiência.
Conhecemos bolhas anteriores.
Conhecemos erros anteriores.
Conhecemos armadilhas anteriores.
Isso não impede novas crises.
Mas aumenta significativamente nossa capacidade de enfrentá-las.
É como um capitão da Frota Estelar que já atravessou diversas tempestades espaciais.
Ele continua respeitando cada nova missão.
Mas já sabe interpretar sinais que um cadete ainda não percebe.
Lições para o Padawan COBOL
Imagine que você acaba de ser designado para servir na USS Enterprise durante o lançamento de uma tecnologia revolucionária de propulsão quântica.
Todos estão entusiasmados.
Os jornais afirmam que as antigas naves se tornarão obsoletas.
Empresas investem fortunas.
Novos fabricantes aparecem diariamente.
Alguns prometem viagens instantâneas entre galáxias.
Outros garantem velocidade infinita.
Um engenheiro veterano, porém, observa tudo com serenidade.
Ele não rejeita a nova tecnologia.
Pelo contrário.
Estuda cuidadosamente seus benefícios.
Mas também pergunta:
Ela é confiável?
É segura?
Pode ser mantida durante décadas?
Quanto consome de energia?
Como reage em caso de falha?
Essas perguntas não diminuem a inovação.
Elas tornam a inovação sustentável.
É exatamente esse o papel do Programador COBOL Padawan no século XXI.
Abraçar a Inteligência Artificial.
Aprender continuamente.
Experimentar.
Construir.
Mas nunca abandonar os fundamentos que mantêm sistemas críticos funcionando há mais de meio século.
No próximo e último capítulo desta jornada, faremos uma reflexão sobre o futuro dos próximos vinte anos, explorando quais tecnologias provavelmente sobreviverão, quais desaparecerão e quais competências transformarão os profissionais de tecnologia na próxima geração. Afinal, a história da bolha da Internet não termina em 2000 — ela continua sendo escrita todos os dias, inclusive por nós.