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domingo, 16 de agosto de 2026

O Guia do Mochileiro das Galáxias para a Crise de Skills no IBM Z

 

Bellacosa Mainframe e a crise dos skills no mundo ibm z

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

O Guia do Mochileiro das Galáxias para a Crise de Skills no IBM Z

🚀 Como um programador COBOL iniciante pode sobreviver a badges, cursos de 15 semanas, veteranos de 40 anos, abends inexplicáveis e à perturbadora descoberta de que MAXCC=0 não significa que você entendeu alguma coisa

NÃO ENTRE EM PÂNICO.
Especialmente se alguém disser que você virou especialista em mainframe depois de quinze semanas.

Existe, em algum lugar do universo corporativo, provavelmente em uma sala com carpete cinza, café requentado e uma televisão exibindo dashboards coloridos, uma pessoa extremamente satisfeita porque um gráfico ficou verde.

O gráfico provavelmente se chama:

IBM Z SKILLS PIPELINE — STATUS: HEALTHY

Ao lado dele há números impressionantes:

2.437 estudantes treinados
1.982 badges emitidos
784 laboratórios concluídos
97% satisfaction score
42 parceiros
15 semanas

Todos aplaudem.

Alguém tira uma fotografia.

Um executivo diz:

— Excelente! Resolvemos o problema de skills.

Nesse exato momento, a aproximadamente 37 metros dali, um especialista de Db2 com 31 anos de experiência está preenchendo sua documentação de aposentadoria.

Ninguém percebe.

Ele sabe por que determinada subsystem parameter foi alterada em 2004.

Ninguém mais sabe.

Ele lembra por que um batch aparentemente absurdo precisa executar antes das 04:17.

Ninguém documentou.

Ele sabe que existe um programa COBOL compilado em uma determinada opção porque, sem ela, um arquivo produzido por um sistema comprado em 1998 gera um problema extremamente específico que só aparece em fevereiro, em anos bissextos, quando o processamento acontece depois de uma determinada janela.

O programa chama-se:

XPTO047B

Naturalmente.

E assim começa a nossa aventura.

Porque a crise de habilidades do mainframe não é simplesmente uma crise de gente.

É uma crise de continuidade de conhecimento.

E se você é um programador COBOL iniciante entrando agora nesse universo, tenho duas notícias.

A primeira é ótima:

Nunca houve tanto material para aprender mainframe.

A segunda é ligeiramente perturbadora:

Aprender material não significa aprender mainframe.

Pegue sua toalha.

Vamos conversar sobre isso.



🧭 Capítulo 1 — Você não precisa saber IBM Z para começar IBM Z

Comecemos eliminando uma bobagem imediatamente.

Existem pessoas que ficam indignadas quando aparece um curso anunciando:

No previous IBM Z experience required.

Isso, por si só, não é um problema.

Na realidade, é excelente.

Se para aprender mainframe fosse necessário já conhecer mainframe, teríamos criado um paradoxo digno de um departamento burocrático intergaláctico:

Para conseguir experiência:
    você precisa trabalhar com mainframe.

Para trabalhar com mainframe:
    você precisa ter experiência com mainframe.

Resultado:

RC=12
REASON=HUMAN_RESOURCE_NOT_FOUND

Todo ecossistema precisa de portas de entrada.

Precisamos de universidades.

Precisamos de cursos.

Precisamos de bootcamps.

Precisamos de laboratórios.

Precisamos de vídeos.

Precisamos de badges.

Precisamos de ambientes educacionais.

Precisamos até daquele sujeito no YouTube que grava um tutorial às três da manhã explicando JCL enquanto um gato atravessa o teclado.

Tudo isso é valioso.

O problema surge quando confundimos:

porta de entrada

com

linha de chegada.

Um curso de 15 semanas pode apresentar você ao IBM Z.

Ele pode ensinar conceitos fundamentais.

Pode fazer você executar JCL.

Pode mostrar COBOL.

Pode apresentar Db2.

Pode colocar você diante de CICS.

Pode ensinar conceitos de RACF.

Pode fazer você entender datasets, JES, TSO, ISPF e talvez z/OSMF.

Fantástico.

Mas quinze semanas não transformam automaticamente alguém em especialista.

Da mesma forma que quinze semanas de aulas de medicina não transformam alguém em neurocirurgião.

Você pode aprender onde fica o cérebro.

Isso já ajuda bastante.

Mas eu não entregaria imediatamente uma furadeira.



🪪 Capítulo 2 — O Badge não é seu inimigo

Existe uma tendência divertida em tecnologia de atacar badges como se pequenos arquivos PNG fossem responsáveis pela decadência da civilização ocidental.

Eles não são.

Um badge é simplesmente um marcador.

Ele pode dizer:

Esta pessoa concluiu determinada formação.

Perfeito.

O problema aparece quando alguém interpreta:

Esta pessoa concluiu determinada formação.

como:

Esta pessoa domina profundamente a tecnologia.

A diferença é gigantesca.

Para um programador COBOL iniciante, eu gosto de imaginar cinco níveis.

Nível 1 — Exposure

Você já ouviu falar das coisas.

Sabe que:

JCL não é COBOL.
Db2 não é VSAM.
CICS não é um banco de dados.
RACF não é antivírus.
JES2 não é Jesus 2.0.

O último esclarecimento evita algumas reuniões constrangedoras.


Nível 2 — Literacy

Agora você consegue explicar aproximadamente como as coisas se relacionam.

Você entende que um programa COBOL batch pode:

  • receber arquivos;

  • acessar Db2;

  • executar dentro de um JOB;

  • produzir datasets;

  • ser controlado por JCL;

  • retornar códigos;

  • gerar dumps;

  • participar de uma cadeia de processamento.

Você começa a montar o mapa mental.


Nível 3 — Competence

Agora consegue fazer trabalho real.

Você recebe um programa COBOL.

Identifica um problema.

Compila.

Executa.

Interpreta resultados.

Corrige erros.

Entende alguns abends.

Analisa JCL.

Usa ferramentas.

Sabe que mexer em produção sem compreender impacto pode resultar em pessoas pronunciando seu nome em reuniões onde você não foi convidado.


Nível 4 — Proficiency

Você começa a trabalhar independentemente.

Recebe problemas menos estruturados.

Não existe tutorial dizendo exatamente o que fazer.

Você encontra caminhos.

Começa a correlacionar sintomas.


Nível 5 — Mastery

Aqui a brincadeira muda.

Você consegue lidar com problemas que não estavam no treinamento.

Essa é uma definição extremamente importante.

Um especialista não é simplesmente quem sabe responder perguntas conhecidas.

É quem consegue raciocinar quando a pergunta é nova.


🧠 Capítulo 3 — O verdadeiro patrimônio do mainframe não está no DASD

Está dentro da cabeça das pessoas.

Chamamos isso de:

conhecimento tácito.

Conhecimento explícito é relativamente fácil de registrar:

Comando X faz Y.
Parâmetro Z controla W.
Arquivo possui LRECL 100.

Conhecimento tácito é diferente.

É quando o especialista olha para determinada situação e diz:

— Isso está estranho.

Você pergunta:

— Por quê?

Ele responde:

— Não sei ainda.

Isso parece pouco científico.

Mas geralmente significa:

Meu cérebro comparou essa situação com aproximadamente 27 anos de incidentes, padrões, falhas, mudanças, madrugadas, dumps e decisões e encontrou alguma discrepância ainda não verbalizada.

Esse tipo de percepção não aparece instantaneamente.

É acumulada.

Considere dois programadores.

Programador A terminou um curso sobre CICS.

Programador B trabalha com CICS há vinte anos.

Ambos sabem que existe:

EXEC CICS LINK

Mas o segundo talvez tenha vivenciado:

  • problemas de storage;

  • loops;

  • short-on-storage;

  • runaway tasks;

  • deadlocks;

  • transaction dumps;

  • problemas de terminal;

  • mudanças de region;

  • falhas em integração;

  • incidentes envolvendo Db2;

  • problemas de performance;

  • erros provocados por parâmetros aparentemente inocentes.

O conhecimento não é apenas:

“Como funciona CICS?”

É também:

“Como CICS costuma falhar de maneiras que parecem ser outra coisa?”

Essa segunda categoria vale ouro.



🏺 Capítulo 4 — Arqueologia orientada a produção

Em sistemas antigos existe uma disciplina raramente ensinada nas universidades.

Ela se chama:

Arqueologia de Software

Você encontra:

       IF WS-FLAG = 'Y'
           MOVE 'N' TO WS-FLAG
           PERFORM 9000-TRATAMENTO-ESPECIAL.

Você pergunta:

— Por que isso existe?

Ninguém sabe.

O Git não possui histórico porque o programa nasceu antes do Git.

Talvez antes do Linux.

Talvez antes de alguns membros da equipe.

O comentário diz:

* ALTERACAO 12/08/1996 - JORGE

Jorge desapareceu da empresa em 2003.

Ninguém sabe onde Jorge está.

Talvez Jorge esteja pescando.

Talvez Jorge esteja em Portugal.

Talvez Jorge tenha transcendido e virado uma entidade puramente energética.

Mas aquele IF continua executando três milhões de vezes por dia.

O desenvolvedor moderno então pensa:

Código morto.

Remove.

Compila.

Teste passa.

Produção recebe.

Às 03:11 ocorre algo que não acontecia desde 1997.

Parabéns.

Você acabou de descobrir por que Jorge escreveu aquilo.

Esse é um dos motivos pelos quais veteranos são tão valiosos.

Eles frequentemente carregam o contexto histórico do código.


💳 Capítulo 5 — Technical Debt ganhou um primo: Knowledge Debt

Você provavelmente já ouviu falar de Technical Debt.

É quando fazemos escolhas que criam custo futuro.

Existe outra dívida silenciosa:

Knowledge Debt

Ela acontece quando uma organização depende de conhecimento que não está sendo transferido.

Exemplo.

Maria trabalha com Db2 há 28 anos.

Ela conhece profundamente:

performance
utilities
locking
bind
packages
statistics
reorg
recovery
SQL

Todos sabem que Maria sabe.

Então ninguém se preocupa.

Maria resolve problemas.

Maria responde mensagens.

Maria entra nas bridges.

Maria salva a madrugada.

Excelente.

Até o dia em que Maria anuncia:

Vou me aposentar.

Repentinamente surge um PowerPoint:

KNOWLEDGE TRANSFER PLAN

Slide 1:

Duration: 3 weeks

Naturalmente.

Porque obviamente 28 anos podem ser compactados em três semanas através da misteriosa tecnologia conhecida como Microsoft Teams.

Isso é Knowledge Debt vencendo.


🧑‍🏫 Capítulo 6 — Apprenticeship: a tecnologia revolucionária inventada há milhares de anos

Existe uma abordagem surpreendentemente eficiente para formar pessoas.

Coloque alguém menos experiente próximo de alguém experiente.

Deixe trabalhar juntos.

Parece radical.

Antigamente chamávamos isso de:

aprendizagem.

No mundo moderno poderíamos chamar:

Human Knowledge Replication Framework 2.0

e cobrar consultoria.

O processo saudável costuma parecer assim:

OBSERVAR
   ↓
EXECUTAR COM AJUDA
   ↓
EXECUTAR SOZINHO
   ↓
RESOLVER PROBLEMAS
   ↓
TOMAR DECISÕES
   ↓
ENSINAR OUTROS

Observe a última etapa.

Ensinar é importantíssimo.

Quando você consegue ensinar alguém, precisa organizar mentalmente aquilo que sabe.

É por isso que recomendo que programadores iniciantes criem pequenos registros.

Pode ser:

  • blog;

  • notas;

  • Markdown;

  • Git;

  • wiki;

  • caderno;

  • Obsidian;

  • arquivos pessoais.

Depois de resolver um problema, escreva:

O que aconteceu?

O que pensei inicialmente?

O que estava errado?

Como diagnostiquei?

Qual era a causa?

O que faria diferente?

Depois de alguns anos isso vira seu próprio Knowledge Vault.


🧪 Capítulo 7 — O laboratório perfeito não deve funcionar

Isso mesmo.

Se você está aprendendo mainframe, laboratórios onde tudo funciona são úteis apenas até certo ponto.

O verdadeiro aprendizado começa quando alguma coisa quebra.

Um ótimo laboratório deveria dizer:

Aqui está o JOB.

Ele não funciona.

Descubra por quê.

Talvez exista:

DISP incorreto

Talvez:

LRECL incompatível

Talvez:

dataset inexistente

Talvez:

SQLCODE -805

Talvez:

S0C7

Talvez:

AEI9

Talvez seja apenas uma vírgula.

Essa última opção costuma causar mais sofrimento.

O objetivo é criar musculatura diagnóstica.


🩺 Capítulo 8 — House M.D. entra no CPD

Imagine o Dr. House analisando um incidente COBOL.

Operações diz:

— O batch falhou.

House:

— Isso é um sintoma.

Desenvolvimento:

— O programa deu S0C7.

House:

— Outro sintoma.

Gerente:

— Ontem funcionava.

House:

— Impressionante. Ontem também não é hoje.

Então começa o diagnóstico.

A pergunta errada é:

Como elimino o S0C7?

A pergunta correta é:

O que fez o programa interpretar esses bytes como número?

Pode ser:

PIC incorreta

Pode ser arquivo errado.

Pode ser layout diferente.

Pode ser REDEFINES.

Pode ser campo não inicializado.

Pode ser alteração upstream.

Pode ser dados corrompidos.

Pode ser compilação diferente.

O especialista pensa em cadeia causal.

Essa é a diferença entre aprender mensagens e aprender sistemas.


🌌 Capítulo 9 — Systems Thinking: a habilidade secreta

Mainframe ensina uma coisa muito importante:

Nada acontece sozinho.

Programa COBOL pode depender de:

JCL
 ↓
PROC
 ↓
dataset
 ↓
catalog
 ↓
SMS
 ↓
Db2
 ↓
CICS
 ↓
MQ
 ↓
RACF
 ↓
network
 ↓
WLM
 ↓
storage

Um erro aparece no COBOL.

A causa pode estar cinco camadas atrás.

Essa capacidade de pensar em relações é o que chamamos de systems thinking.

Comece a praticar isso imediatamente.

Sempre pergunte:

O que chama isso?

O que isso chama?

Quais dados entram?

Quem produz esses dados?

Quem consome a saída?

Quais configurações externas influenciam?

O que mudou recentemente?

Essas perguntas valem mais do que decorar cem mensagens de erro.


🪜 Capítulo 10 — O caminho real para quem está começando

Se eu estivesse começando COBOL hoje, montaria esta progressão.

Etapa 1 — COBOL puro

Aprenda muito bem:

DIVISION
SECTION
PARAGRAPH
PIC
MOVE
COMPUTE
IF
EVALUATE
PERFORM
OCCURS
REDEFINES
COMP
COMP-3

Entenda dados.

COBOL é profundamente orientado a dados.

Não trate PIC como decoração.


Etapa 2 — Arquivos

Aprenda:

SEQUENTIAL
INDEXED
VSAM
KSDS
ESDS

Entenda:

RECFM
LRECL
BLKSIZE

Arquivo errado é fonte inesgotável de aventuras.


Etapa 3 — JCL

Não diga:

“Sou desenvolvedor, JCL não é comigo.”

Isso é aproximadamente equivalente a ser piloto dizendo:

“Combustível é coisa da equipe de solo.”

Aprenda:

JOB
EXEC
DD
DISP
SPACE
DSN
SYSOUT
COND
IF
PROC
GDG

Etapa 4 — Db2

Entenda:

SELECT
INSERT
UPDATE
DELETE
COMMIT
ROLLBACK
CURSOR
HOST VARIABLES
NULL INDICATOR
SQLCODE

Depois vá mais fundo.


Etapa 5 — CICS

Aprenda pelo menos os conceitos.

COMMAREA
CHANNEL
CONTAINER
LINK
XCTL
RETURN
READ
WRITE
REWRITE
START

E sobretudo entenda transação.


Etapa 6 — Debugging

Comece a amar mensagens de erro.

Não porque seja saudável.

Mas porque é inevitável.

Leia:

compile listing
runtime messages
joblog
sysout
dump

O dump é o romance policial do mainframe.

O assassino está lá.

Você só precisa descobrir quem é.


🧯 Capítulo 11 — MAXCC=0 não significa que o mundo está salvo

Esse merece moldura.

Você executou:

MAXCC=0

Excelente.

Isso significa aproximadamente:

O utilitário não detectou determinados tipos de problema segundo seus critérios.

Não significa:

Sua solução está correta.

Exemplo.

Você pode executar um SORT perfeitamente.

MAXCC=0

Mas ordenar pelo campo errado.

O computador fez exatamente aquilo que você pediu.

A tragédia é que você pediu uma coisa absurda.

Computadores possuem esse hábito desagradável.


🪐 Easter Egg 42

Em O Guia do Mochileiro das Galáxias, a resposta para a grande pergunta sobre a vida, o universo e tudo mais é:

42.

No mainframe também existe uma grande pergunta.

Quantos anos são necessários para dominar completamente IBM Z?

Resposta:

42.

A diferença é que, no ano 42, provavelmente alguém instalará uma atualização e você terá que estudar novamente.


📊 Capítulo 12 — O Grande Deus Dashboard

Organizações adoram métricas.

Não há nada errado nisso.

O problema é medir aquilo que é fácil em vez daquilo que importa.

É fácil medir:

NUMBER_OF_BADGES
NUMBER_OF_STUDENTS
COURSES_COMPLETED
LABS_FINISHED

Muito mais difícil medir:

CAN_HANDLE_PRODUCTION_INCIDENT
CAN_EXPLAIN_ARCHITECTURE
CAN_RECOVER_SERVICE
CAN_MENTOR_JUNIOR
CAN_REPLACE_RETIRING_SME

Imagine dois programas.

Programa A:

1.000 certificados

Programa B:

20 pessoas
18 meses
shadowing
incidentes
laboratórios
mentoria
responsabilidade progressiva

O primeiro produz slide bonito.

O segundo talvez salve seu banco às três da manhã.


👴 Capítulo 13 — Não transforme veteranos em sacerdotes secretos

Agora uma advertência importante.

Também não devemos romantizar demais o passado.

Existia — e ainda existe — o profissional conhecido como:

“Só o Carlos sabe.”

Pergunta:

— Como funciona esse processo?

Resposta:

— Pergunta pro Carlos.

— Onde está documentado?

— Carlos sabe.

— O que acontece se Carlos sair?

Silêncio.

Carlos não é arquitetura.

Carlos é um risco operacional humano.

O conhecimento precisa circular.

Um bom especialista não apenas resolve.

Ele deixa rastros.

Documenta.

Ensina.

Explica contexto.

Forma sucessores.


🗺️ Capítulo 14 — Como aprender com um veterano sem sequestrá-lo

Quando encontrar alguém experiente, não faça apenas perguntas genéricas.

Pergunte histórias.

Em vez de:

Como funciona Db2?

Pergunte:

Qual foi o pior incidente Db2 que você já viu?

Depois:

Como vocês perceberam?

Qual foi a hipótese inicial?

O que enganou vocês?

Qual era a verdadeira causa?

O que mudou depois?

Isso extrai conhecimento tácito.

Profissionais veteranos frequentemente possuem centenas dessas histórias.

Cada história contém:

contexto
hipótese
erro
diagnóstico
causa
solução
prevenção

Isso vale ouro.


⚠️ Capítulo 15 — Não tenha pressa de parecer sênior

Esse talvez seja o conselho mais importante para um iniciante.

Não tenha vergonha de dizer:

Não sei.

Em sistemas complexos, fingir conhecimento é muito mais perigoso do que admitir desconhecimento.

O bom iniciante pergunta.

O iniciante perigoso inventa.

Você encontrará pessoas exibindo uma coleção impressionante de badges.

Ótimo.

Você também encontrará pessoas com trinta anos de experiência e nenhum badge.

Não trate nenhuma das duas coisas isoladamente como prova definitiva.

Observe capacidade.

Observe raciocínio.

Observe comportamento diante de problemas.


🛠️ Capítulo 16 — Seu plano pessoal de apprenticeship

Mesmo que sua empresa não tenha um programa formal, crie um informal.

Faça isso:

1. Escolha um domínio

Por exemplo:

COBOL batch

2. Encontre alguém mais experiente

Não precisa ser o maior guru do planeta.

Só precisa estar alguns quilômetros à sua frente.


3. Observe problemas reais

Sempre respeitando segurança e acesso.


4. Reproduza em laboratório

Transforme incidentes em exercícios.


5. Documente

Crie notas.


6. Explique para outra pessoa

Se você não consegue explicar, talvez ainda não tenha entendido.


7. Volte seis meses depois

Você ficará horrorizado com suas primeiras anotações.

Isso é bom.

Significa evolução.


🧬 Capítulo 17 — Expertise não é uma coleção de comandos

Esse é o ponto central de toda esta conversa.

Expertise não é:

quantidade de sintaxe memorizada

É uma mistura de:

conhecimento
+
experiência
+
contexto
+
julgamento
+
memória de falhas
+
capacidade de investigação
+
capacidade de ensinar

É por isso que ela demora.

E talvez seja bom que demore.

Porque sistemas que movimentam bancos, governos, seguradoras, companhias aéreas, indústrias e redes gigantescas não deveriam depender de uma cultura onde qualquer pessoa é declarada especialista depois de algumas semanas.


🚨 Capítulo 18 — Production Disaster Nobody Predicted

Todo treinamento deveria possuir um módulo final chamado:

“Algo aconteceu e ninguém sabe o quê.”

Descrição:

03:07

Produção degradada.

Nenhuma mudança aparente.

Aplicação parcialmente funcionando.

Usuários reclamando.

Batch atrasado.

CICS estranho.

Db2 aparentemente saudável.

Uma alteração ocorreu 14 horas atrás.

Ninguém lembra qual.

Objetivo:

sobreviva.

Sem múltipla escolha.

Sem botão “Hint”.

Sem resposta imediatamente disponível.

Esse tipo de exercício aproxima treinamento de realidade.


🧙 Capítulo 19 — O verdadeiro mestre Jedi do mainframe

Você reconhece um grande profissional porque ele não precisa fingir onisciência.

Ele diz:

Não sei ainda.

Depois começa a investigar.

Ele sabe onde procurar.

Sabe formular hipótese.

Sabe descartar hipótese.

Sabe evitar mudanças destrutivas.

Sabe pedir ajuda.

Sabe interpretar evidência.

Sabe documentar descoberta.

E depois ensina alguém.

Essa última parte transforma especialista em legado.


🛰️ Capítulo 20 — Então o que fazemos com os programas de 15 semanas?

Usamos.

Melhoramos.

Expandimos.

Mas chamamos as coisas pelo nome correto.

Um programa curto pode ser:

Foundation Program

Excelente.

Depois crie:

FOUNDATION
    ↓
LAB
    ↓
APPRENTICESHIP
    ↓
PRODUCTION SHADOWING
    ↓
RESPONSIBILITY
    ↓
SPECIALIZATION
    ↓
MENTORSHIP

Agora temos um pipeline.

Não um evento.

A crise de skills não será resolvida através de um único curso.

Será resolvida construindo gerações sobre gerações de profissionais.

Exatamente como o próprio mainframe foi construído.


☕ Epílogo — NÃO ENTRE EM PÂNICO

Se você é iniciante e chegou até aqui preocupado porque aparentemente precisa de trinta anos para aprender IBM Z, relaxe.

Você não precisa aprender tudo.

Ninguém sabe tudo.

IBM Z é grande demais.

Escolha uma trilha.

Aprenda profundamente.

Construa conexões com outras áreas.

Pergunte.

Quebre coisas em laboratório.

Leia mensagens.

Leia listings.

Leia dumps.

Leia documentação.

Converse com veteranos.

Ensine iniciantes.

E principalmente:

não confunda velocidade de formação com profundidade de conhecimento.

Badge é ótimo.

Curso é ótimo.

Certificação é ótima.

Laboratório é ótimo.

Mas todos são partes de algo maior.

A verdadeira formação acontece quando conhecimento encontra experiência.

Quando teoria encontra produção.

Quando documentação encontra memória.

Quando o iniciante pergunta:

Por que fazemos isso assim?

E, em vez de receber:

Porque sempre foi assim.

recebe uma história.

Talvez uma história envolvendo um abend.

Talvez um IPL.

Talvez um banco.

Talvez alguém chamado Jorge.

Talvez 1996.

Talvez um PROC.

Talvez uma madrugada particularmente infeliz.

Essas histórias são o DNA invisível do mainframe.

Preservá-las é tão importante quanto preservar código.

Porque máquinas podem executar programas durante cinquenta anos.

Mas somente pessoas conseguem explicar por que aquele programa ainda deveria existir.

E se algum dashboard corporativo disser que resolvemos tudo depois de quinze semanas, faça aquilo que todo bom programador COBOL aprende cedo ou tarde.

Leia o detalhe.

Procure a mensagem.

Questione a condição.

E desconfie profundamente de qualquer universo onde:

SKILLS-CRISIS = 'SOLVED'

foi definido simplesmente porque:

BADGE-COUNT > 1000

Afinal, como diria um guia extremamente confiável de viagens intergalácticas:

NÃO ENTRE EM PÂNICO.

Mas mantenha o dump por perto.

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/o-caso-tsb-bank-como-uma-migracao-de.html

https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2026/08/quanto-custa-um-programador-salario.htm



domingo, 26 de julho de 2026

Os Três Bugs Invisíveis do Padawan COBOL : Como vencer a hesitação, a ingenuidade e o excesso de confiança

Bellacosa Mainframe e os 3 bugs invisiveis do padawan cobol



☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Os Três Bugs Invisíveis do Padawan COBOL

Como vencer a hesitação, a ingenuidade e o excesso de confiança antes que eles provoquem o primeiro ABEND da sua carreira

"O primeiro programa raramente derruba o banco. O primeiro erro de julgamento, sim."


Introdução

Existe um momento curioso na carreira de praticamente todo programador COBOL.

Não importa se ele estudou durante seis meses, um ano ou cinco anos.

Não importa se tirou certificações IBM.

Não importa se domina PROCEDURE DIVISION, PERFORM VARYING, OCCURS DEPENDING ON, SQL EMBEDDED, CICS ou VSAM.

O verdadeiro teste começa no primeiro dia em produção.

É ali que nasce o verdadeiro programador.

Durante décadas observando profissionais entrando em grandes bancos, seguradoras, empresas aéreas, órgãos públicos e processadoras de cartões, percebi um padrão curioso.

Os novatos quase nunca fracassam por falta de conhecimento técnico.

Eles tropeçam em três inimigos invisíveis.

São eles:

  • Hesitação

  • Ingenuidade

  • Excesso de confiança

Esses três defeitos aparecem em praticamente toda profissão crítica.

Na aviação.

Na medicina.

Na engenharia.

Na investigação criminal.

E, principalmente, em ambientes IBM Mainframe.

O curioso é que eles aparecem em momentos diferentes da evolução profissional.

E quase sempre na mesma ordem.

Hoje vamos investigar cada um deles como se estivéssemos em um episódio de CSI.

Porque um sistema crítico deixa rastros.

E a mente do programador também.


Cena do Crime 1

A Hesitação

Imagine a seguinte situação.

Você acabou de entrar na empresa.

Seu líder diz:

"Precisamos alterar o programa FINA340."

Você abre o programa.

28.000 linhas.

Escrito em 1989.

Última alteração:
há quatro dias.

Autores:

  • João

  • Carlos

  • Equipe Y2K

  • Projeto PIX

  • Open Banking

  • Adequação LGPD

Você olha aquilo.

O cursor pisca.

Cinco minutos.

Dez minutos.

Quinze minutos.

Você simplesmente não consegue tocar em nada.

Isso é completamente normal.


O cérebro entra em modo de sobrevivência

Nosso cérebro odeia destruir algo que parece importante.

Quanto maior a responsabilidade...

Maior a hesitação.

É um mecanismo biológico.

O problema é que hesitação excessiva paralisa.

E um programador parado não aprende.


O primeiro segredo

Veteranos não têm menos medo.

Eles apenas sabem investigar antes.

Essa é uma diferença gigantesca.

O novato pensa:

"Vou alterar."

O veterano pensa:

"Vou entender."


O método Bellacosa

Nunca altere antes de responder:

O que este programa faz?

Quem chama este programa?

Quem ele chama?

Quais arquivos atualiza?

Quais tabelas Db2 altera?

Existe rollback?

Existe commit?

Existe checkpoint?

Existe controle de versão?

Existe scheduler?

Existe impacto batch?

Existe impacto online?

Existe interface MQ?

Existe interface CICS?

Existe API?

Quando todas essas respostas aparecem...

A hesitação desaparece.

Porque ela foi substituída por conhecimento.


Easter Egg

Sherlock Holmes dizia:

"É um erro teorizar antes de possuir os fatos."

Todo programador COBOL deveria colocar essa frase no monitor.


Cena do Crime 2

A Ingenuidade

Depois do primeiro mês...

A hesitação diminui.

Agora nasce outro inimigo.

O iniciante acredita em tudo.

Documentação.

Comentários.

Fluxogramas.

Diagramas.

PowerPoint.

Wiki.

Chamados.

Manuais.


A maior mentira do Mainframe

Imagine encontrar isso:

* Atualiza somente clientes ativos

Bonito.

Organizado.

Profissional.

Mas você olha o código...

MOVE "S" TO WS-ATIVO

Nada mais.

Nenhuma validação.

Nenhuma regra.

Nenhum IF.

O comentário está errado há quinze anos.

Quem escreveu?

Provavelmente alguém que saiu da empresa em 2004.


A documentação envelhece

Código muda.

Documentação nem sempre.

O sistema continua funcionando.

Mas o documento virou arqueologia.

É como encontrar um mapa romano tentando dirigir em São Paulo.


A regra de ouro

Nunca confie totalmente em:

Comentários

Diagramas

Documentação

Fluxogramas

Apresentações

Emails antigos

Confie no comportamento do sistema.

Ele não mente.


Curiosidade

Muitos bancos possuem documentação cuja última atualização ocorreu antes do PIX existir.

O sistema evoluiu.

O documento não.


Cena do Crime 3

O Excesso de Confiança

Esse é o mais perigoso.

Porque normalmente aparece depois dos primeiros sucessos.

Você já resolveu alguns chamados.

Corrigiu ABEND.

Alterou tela CICS.

Fez alguns programas.

Agora pensa:

"Estou dominando."

É aí que mora o perigo.


O efeito Dunning-Kruger no Mainframe

Existe um fenômeno psicológico famoso.

Quanto menos sabemos...

Mais acreditamos saber.

Depois de alguns anos...

Percebemos o tamanho do universo.

É curioso.

O profissional de cinco meses costuma parecer mais confiante que o de vinte anos.

Porque ainda não descobriu tudo o que desconhece.


O veterano faz mais perguntas

O iniciante responde rápido.

O veterano pergunta mais.

Isso parece contraditório.

Mas faz sentido.

O veterano conhece centenas de armadilhas.

Ele sabe que sistemas críticos escondem surpresas.


Exemplo clássico

Você altera:

IF SALDO > 0

Parece simples.

Mas esquece que existe outro programa batch.

Outro online.

Outro scheduler.

Outro MQ.

Outro API Gateway.

Outro processo noturno.

Outro job semanal.

Outro fechamento mensal.

Outro processamento anual.

Seu IF alterou uma cadeia inteira.


O código nunca vive sozinho

Essa talvez seja a maior descoberta da carreira.

Programas COBOL não são ilhas.

São organismos.

Cada programa conversa com dezenas de outros.

Às vezes centenas.

Você altera uma linha.

Pode movimentar uma cidade inteira.


CSI Mainframe

Imagine Gil Grissom entrando no CPD.

Ele nunca começaria perguntando:

"Quem é o culpado?"

Ele perguntaria:

"O que aconteceu primeiro?"

Depois:

"O que mudou?"

Depois:

"Quem foi impactado?"

É exatamente assim que um analista experiente investiga incidentes.


Indiana Jones no Data Center

O código legado lembra uma cidade perdida.

Você entra com uma tocha.

Cada COPYBOOK é uma sala.

Cada PERFORM é um corredor.

Cada CALL é uma porta secreta.

Cada JCL é um mapa.

Cada PROC é um túnel subterrâneo.

E cada alteração pode ativar uma armadilha escondida.

O aventureiro imprudente corre.

O arqueólogo observa.


A Regra dos Cinco "Por Quês"

Sempre pergunte:

Por que isso existe?

Por que foi escrito assim?

Por que não removeram?

Por que ainda funciona?

Por que ninguém mexe nisso?

A quinta resposta normalmente revela uma decisão de negócio esquecida.


O Erro Mais Caro

Não é apagar um arquivo.

Nem provocar um ABEND.

Nem esquecer um END-IF.

O erro mais caro é assumir.

Assumir que entendeu.

Assumir que ninguém usa.

Assumir que é simples.

Assumir que o comentário está correto.

Assumir que aquele campo nunca recebe zeros.

Mainframe odeia suposições.


O Poder da Humildade Técnica

Existe uma frase muito comum entre grandes especialistas IBM.

"Não sei. Vamos verificar."

Observe.

Eles não respondem imediatamente.

Eles investigam.

Essa postura não demonstra fraqueza.

Demonstra maturidade.


O Ritual Bellacosa Antes de Alterar Qualquer Programa

Criei ao longo dos anos um pequeno ritual que evita boa parte dos problemas em produção. Antes de salvar qualquer alteração, faça estas perguntas:

  1. Entendi exatamente qual é o problema de negócio?

  2. Descobri todos os programas envolvidos?

  3. Verifiquei os COPYBOOKs relacionados?

  4. Analisei impactos em Db2, VSAM, CICS ou IMS?

  5. Procurei alterações semelhantes no histórico?

  6. Executei testes com dados normais e dados extremos?

  7. Pensei no que acontece se um campo vier vazio, nulo ou inesperado?

  8. Existe plano de retorno (rollback) caso algo dê errado?

  9. Alguém mais experiente revisou minha lógica?

  10. Eu conseguiria explicar esta alteração para outra pessoa em cinco minutos?

Se alguma resposta for "não", ainda há investigação a fazer.


Os Três Mestres da Carreira

Todo grande profissional aprende a equilibrar três características:

Coragem
Para enfrentar programas enormes sem fugir.

Curiosidade
Para investigar antes de alterar.

Humildade
Para aceitar que sempre existe algo escondido no sistema.

Esses três pilares são muito mais importantes do que decorar todas as instruções do COBOL.


O Último Easter Egg

Na saga Star Wars, Luke Skywalker acreditava que vencer significava lutar melhor.

Yoda ensinou outra coisa.

Primeiro, controlar a própria mente.

Só depois controlar o sabre de luz.

No Mainframe acontece exatamente o mesmo.

O COBOL não é o sabre.

O sabre é apenas uma ferramenta.

O verdadeiro combate acontece dentro da cabeça do programador.

A hesitação precisa ser transformada em investigação.

A ingenuidade precisa ser substituída por validação.

O excesso de confiança precisa dar lugar à disciplina.

Quando isso acontece, nasce um profissional capaz de trabalhar em ambientes onde milhões de transações financeiras, folhas de pagamento, benefícios governamentais, seguros, cartões de crédito e operações bancárias dependem de algumas linhas de código escritas décadas atrás.


Conclusão — O Primeiro Grande Upgrade Não é no Código, é no Programador

No universo Bellacosa Mainframe, costumo dizer que existem dois tipos de iniciantes.

O primeiro acredita que aprender COBOL significa memorizar verbos, comandos, JCLs e utilitários. Ele mede seu progresso pela quantidade de sintaxes que conhece.

O segundo entende que COBOL é apenas a linguagem usada para conversar com um ecossistema gigantesco de regras de negócio, processos, integrações e pessoas. Ele mede seu progresso pela qualidade das perguntas que faz, pela capacidade de investigar antes de modificar e pela prudência ao assumir responsabilidades.

É esse segundo profissional que evolui para analista, arquiteto, líder técnico e mentor.

A verdadeira iniciação de um Padawan Mainframe não acontece quando ele compila seu primeiro programa sem erros. Ela acontece no dia em que percebe que um sistema legado é como um templo antigo: cada rotina foi construída por gerações diferentes, cada COPYBOOK guarda um pedaço da história da empresa e cada linha de código existe por um motivo — mesmo que esse motivo tenha sido esquecido pelo tempo.

Se você conseguir vencer a hesitação sem perder a prudência, abandonar a ingenuidade sem perder a curiosidade e controlar o excesso de confiança sem perder a coragem, terá desenvolvido a característica mais valiosa de todas: o julgamento técnico.

E julgamento técnico não se aprende em um manual. Ele é construído a cada investigação, a cada revisão de código, a cada incidente resolvido e a cada lição deixada por um erro.

No fim das contas, o maior sistema que um programador COBOL precisa aprender a administrar não é o z/OS, o CICS ou o Db2.

É a própria mente. Só quando ela trabalha de forma disciplinada, investigativa e humilde é que o restante do ecossistema Mainframe deixa de parecer um labirinto e passa a revelar sua verdadeira arquitetura. Nesse momento, o Padawan deixa de apenas escrever programas e começa, de fato, a pensar como um guardião dos sistemas que sustentam parte da economia do mundo.

sexta-feira, 30 de julho de 2021

E-E-A-T: Muito Além do SEO

Bellacosa Mainframe evoluindo em seo o conceito de eeat


☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

E-E-A-T: Muito Além do SEO

O Que Todo Programador COBOL Padawan Precisa Saber Sobre Experiência, Credibilidade e Como Inspirar a Próxima Geração de Profissionais IBM Mainframe

"As pessoas não seguem quem sabe mais. Elas seguem quem demonstra conhecimento, compartilha experiências e ajuda os outros a crescer."

Durante décadas trabalhando com IBM Mainframe, aprendi uma lição que vale muito mais do que qualquer linguagem de programação, banco de dados ou sistema operacional.

Tecnologia muda.

Ferramentas evoluem.

Linguagens surgem.

Arquiteturas são reinventadas.

Mas existe algo que continua exatamente igual desde os primeiros computadores da IBM até a era da Inteligência Artificial.

As pessoas aprendem com pessoas.

Essa talvez seja a maior lição que podemos tirar quando falamos de E-E-A-T.

Muitos imaginam que seja apenas mais uma sigla criada pelo Google para classificar páginas na Internet.

Na realidade, ela representa algo muito maior.

Representa confiança.

E confiança sempre foi a moeda mais valiosa da engenharia.

Vamos tomar um café.

Porque essa conversa não é sobre SEO.

É sobre legado.


O que significa E-E-A-T?

A sigla representa quatro pilares.

Experience — Experiência

Você realmente viveu aquilo?

Expertise — Especialização

Você domina o assunto?

Authoritativeness — Autoridade

Outras pessoas reconhecem seu conhecimento?

Trustworthiness — Confiabilidade

Aquilo que você publica pode ser considerado seguro e verdadeiro?

Observe uma curiosidade.

Nenhum desses pilares fala de palavras-chave.

Nenhum fala de algoritmos.

Nenhum fala de Inteligência Artificial.

Todos falam sobre pessoas.


Imagine um incidente em produção

São duas horas da manhã.

O banco inteiro depende de um sistema CICS.

Uma transação começa a falhar.

Quem você gostaria que estivesse ao seu lado?

Alguém que leu três artigos na Internet?

Ou alguém que passou vinte anos resolvendo problemas semelhantes?

A resposta é óbvia.

Você procura experiência.

E é exatamente isso que o Google tenta identificar quando avalia conteúdo.


Experience: o poder de dizer "eu já vivi isso"

Existe uma enorme diferença entre escrever:

"Um ABEND S0C7 ocorre devido a erro de conversão."

E escrever:

"Na primeira vez que enfrentei um S0C7 em produção, descobri que um campo COMP-3 estava sendo alimentado por dados inválidos vindos de um arquivo legado. Foram horas até localizar a origem do problema, mas aquela madrugada mudou completamente minha forma de validar dados."

O primeiro texto informa.

O segundo ensina.

Porque existe experiência.

Experiência não pode ser copiada.

Não pode ser baixada.

Não pode ser gerada automaticamente.

Ela é construída.


Expertise: conhecimento profundo

Conhecer comandos não significa compreender sistemas.

Qualquer pessoa pode decorar:

EXEC CICS LINK

Outra coisa completamente diferente é entender:

  • quando utilizar LINK;

  • quando utilizar XCTL;

  • como isso afeta o fluxo de execução;

  • impacto na manutenção;

  • implicações de desempenho;

  • boas práticas adotadas em grandes bancos.

Especialização aparece nos detalhes.


Autoridade não é vaidade

Muitos confundem autoridade com fama.

Não é.

Autoridade é consequência.

Quando alguém pergunta:

"Quem explica bem COBOL?"

Se vários profissionais respondem:

"Leia os artigos do Bellacosa."

Você construiu autoridade.

Ela não foi comprada.

Foi conquistada.


Confiabilidade é patrimônio

Imagine um artigo ensinando um comando IDCAMS.

O exemplo contém erro.

Centenas de iniciantes copiam aquele código.

Todos falham.

Quanto tempo leva para perder credibilidade?

Pouquíssimos minutos.

Confiabilidade demora anos para ser construída.

Pode desaparecer em um único artigo mal revisado.


O Mainframe sempre viveu de E-E-A-T

Muito antes do Google existir.

Pense nos grandes analistas dos bancos.

Eles eram referência porque:

Tinham experiência.

Dominavam tecnologia.

Eram respeitados.

E inspiravam confiança.

O Google apenas deu nome a algo que nossa profissão sempre valorizou.


O desafio da nossa geração

Existe uma percepção equivocada sobre IBM Mainframe.

Muitos jovens imaginam que seja uma tecnologia antiga.

Ultrapassada.

Sem futuro.

Isso acontece porque, durante muito tempo, nós mesmos falamos pouco sobre ela.

Enquanto comunidades de linguagens modernas produziam milhares de vídeos, blogs e cursos, muitos especialistas em Mainframe compartilhavam conhecimento apenas dentro das empresas.

O resultado foi previsível.

Quem pesquisava na Internet encontrava pouco conteúdo acessível.

Não porque o Mainframe fosse irrelevante.

Mas porque seus especialistas eram discretos.


Evangelizar é abrir portas

A palavra "evangelizar" não significa convencer alguém a pensar como você.

Significa compartilhar boas notícias.

E existe uma excelente notícia para quem está começando.

O Mainframe continua processando algumas das operações mais críticas do planeta.

Pagamentos.

Seguros.

Companhias aéreas.

Governo.

Saúde.

Grandes bancos.

Bilhões de transações passam diariamente por plataformas IBM Z.

Isso merece ser contado.


O Padawan não procura um herói

Ele procura um guia.

Muitos iniciantes chegam assustados.

Encontram termos como:

  • JES2;

  • RACF;

  • VSAM;

  • IMS;

  • JCL;

  • CICS;

  • DB2.

Tudo parece um idioma alienígena.

Nosso papel não é impressionar.

É traduzir.

Quando explicamos com calma, usando exemplos e analogias, diminuímos a distância entre o medo e a curiosidade.


Mostrar o propósito antes da sintaxe

É comum ensinar COBOL começando por IDENTIFICATION DIVISION.

Mas talvez a primeira pergunta devesse ser outra.

"Por que o COBOL ainda existe?"

Quando o aluno entende que aquele programa pode movimentar milhões de reais por minuto, processar aposentadorias, autorizar cartões ou registrar voos, a linguagem deixa de ser apenas código.

Ela ganha significado.

Pessoas aprendem melhor quando enxergam propósito.


Criar uma onda positiva

Toda comunidade cresce quando celebra conquistas.

Compartilhe quando um aluno conseguir o primeiro emprego.

Comemore a primeira certificação.

Divulgue projetos pessoais.

Mostre laboratórios feitos em casa.

Valorize pequenas vitórias.

Essas histórias inspiram muito mais do que estatísticas.


Conte histórias, não apenas comandos

Ninguém lembra de uma lista enorme de parâmetros do SORT.

Mas todos lembram da história daquele processamento que terminou cinco horas antes porque alguém reorganizou corretamente os arquivos.

Histórias criam memória.

Memória cria aprendizado.


Transforme complexidade em curiosidade

Em vez de dizer:

"Hoje vamos estudar RACF."

Experimente:

"Você já imaginou como um banco garante que apenas a pessoa certa tenha acesso aos dados certos, no momento certo? É exatamente isso que o RACF faz."

A curiosidade abre caminho para o conhecimento.


Seja transparente sobre os desafios

Evangelizar não significa romantizar.

Mainframe exige estudo.

COBOL exige disciplina.

JCL parece estranho no início.

TSO pode assustar.

Mas tudo isso faz parte da jornada.

O iniciante respeita quem apresenta os desafios com honestidade e, ao mesmo tempo, mostra que eles podem ser superados.


A Inteligência Artificial também pode ser uma aliada

Muitos Padawans estudam com apoio de IA.

Isso não diminui o aprendizado.

Quando usada corretamente, ela acelera a compreensão.

Pode explicar um programa COBOL.

Comparar JCLs.

Gerar exercícios.

Responder dúvidas.

Mas sempre existe um detalhe importante.

A IA oferece respostas.

O mentor oferece contexto.

E contexto continua sendo um diferencial humano.


Compartilhe os bastidores

Mostre como funciona um ambiente real.

Explique o papel do operador.

Do desenvolvedor.

Do administrador CICS.

Do DBA DB2.

Do especialista em segurança.

Do sysprog.

Quando o aluno enxerga o ecossistema, percebe que existe espaço para diferentes perfis.


Incentive a curiosidade permanente

O profissional de Mainframe nunca para de aprender.

Hoje estudamos COBOL 6.5.

Amanhã APIs REST.

Depois OpenTelemetry.

Ansible.

Containers.

IA Generativa.

O IBM Z continua evoluindo.

Quem entra nessa área também evolui.


O legado mais importante não é um sistema

É uma pessoa preparada.

Quando um especialista compartilha conhecimento, ele não entrega apenas documentação.

Entrega confiança.

Entrega segurança.

Entrega continuidade.

Cada Padawan que aprende corretamente torna-se o próximo elo dessa corrente.


Muito Além do Google

No final das contas, E-E-A-T não serve apenas para ranquear melhor.

Serve para lembrar por que alguém escolheria ler um artigo seu em vez de milhares de outros disponíveis na Internet.

Porque você viveu aquilo.

Porque estudou profundamente.

Porque conquistou respeito.

Porque escreve com responsabilidade.

Esses mesmos princípios transformam um profissional em referência, um professor em mentor e um conteúdo técnico em fonte de inspiração.

Como evangelizadores do IBM Mainframe, temos uma missão que vai muito além de ensinar COBOL, CICS ou DB2.

Precisamos mostrar que existe um universo fascinante por trás dessas siglas. Um universo que sustenta bancos, companhias aéreas, governos, seguradoras e empresas que movem a economia mundial.

Precisamos contar histórias, compartilhar experiências, celebrar conquistas e acolher quem está dando os primeiros passos.

Cada artigo publicado, cada aula gravada, cada dúvida respondida e cada Padawan incentivado ajuda a construir uma comunidade mais forte.

Talvez o maior legado de um profissional não seja o sistema que desenvolveu nem a arquitetura que projetou.

Talvez seja a quantidade de pessoas que decidiu continuar estudando porque encontrou alguém disposto a ensinar.

E, se conseguirmos fazer isso, estaremos praticando o verdadeiro E-E-A-T.

Não apenas para agradar algoritmos.

Mas para fortalecer uma comunidade inteira.

Porque Mainframe nunca foi apenas sobre computadores.

Sempre foi sobre pessoas que confiam umas nas outras para manter o mundo funcionando.

E essa continua sendo a tecnologia mais importante de todas.


Perguntas Frequentes

O que significa E-E-A-T?

Experience, Expertise, Authoritativeness e Trustworthiness.

Posso usar IA para criar artigos?

Sim. O Google analisa a qualidade do conteúdo e não apenas a ferramenta utilizada.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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