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Capítulo VII — Os Sobreviventes da Seleção Natural Digital: Por Que Amazon, Google e eBay Venceram Quando Quase Todos Perderam
Como algumas empresas transformaram a maior crise da Internet em uma oportunidade para construir impérios tecnológicos que mudariam o século XXI
"Uma tempestade não cria um grande navegador. Ela apenas revela quem realmente sabe navegar."
Quando estudamos a bolha da Internet, existe uma tendência natural de focarmos apenas nas empresas que desapareceram.
Pets.com.
Webvan.
Boo.com.
eToys.
Excite.
GeoCities.
Broadcast.com.
Centenas de outras.
É uma lista enorme.
Mas existe uma pergunta muito mais interessante.
Por que algumas empresas sobreviveram?
Afinal...
Todas faziam parte da mesma Internet.
Todas enfrentaram o mesmo colapso.
Todas perderam investidores.
Todas sofreram com a queda do NASDAQ.
O que havia de diferente?
Será que tiveram sorte?
Ou existia algo mais profundo?
A resposta é uma das maiores lições de gestão, tecnologia e engenharia da história moderna.
A Natureza Também Funciona Assim
Charles Darwin jamais estudou empresas de tecnologia.
Mesmo assim, sua teoria da evolução explica muito do que aconteceu entre 2000 e 2003.
Na natureza, sobreviver não significa ser o maior.
Nem o mais forte.
Nem o mais bonito.
Sobrevive quem melhor consegue adaptar-se às mudanças do ambiente.
No mundo corporativo acontece exatamente o mesmo.
Quando o dinheiro era abundante...
Quase todas as empresas pareciam saudáveis.
Quando o dinheiro desapareceu...
Descobriu-se quais realmente possuíam capacidade de adaptação.
Amazon: A Empresa que Quase Morreu
Hoje parece impossível imaginar.
Mas houve um momento em que analistas afirmavam seriamente que a Amazon jamais sobreviveria.
Suas ações perderam aproximadamente 95% do valor após o estouro da bolha.
Jeff Bezos tornou-se alvo de críticas.
Jornais publicavam manchetes questionando:
"A Amazon ainda existirá daqui a alguns anos?"
A empresa acumulava prejuízos.
Investia pesadamente em infraestrutura.
Construía centros de distribuição enormes.
Comprava servidores.
Desenvolvia software.
Naquele momento, muitos acreditavam que tudo aquilo era desperdício.
Hoje sabemos que era exatamente o contrário.
Bezos estava construindo a fundação de um império.
Jeff Bezos Não Pensava em Trimestres
Existe uma característica interessante nos fundadores que sobreviveram.
Eles olhavam para décadas.
Não para o próximo trimestre.
Enquanto investidores exigiam resultados imediatos, Bezos repetia constantemente uma filosofia simples.
"Estamos construindo uma empresa para o longo prazo."
Essa visão permitiu decisões extremamente difíceis.
Redução de despesas.
Demissões.
Cancelamento de projetos.
Renegociação de contratos.
O objetivo não era impressionar Wall Street.
Era sobreviver.
Sem sobrevivência...
Não existiria futuro.
Google Chegou na Hora Certa
Outro caso fascinante é o Google.
Ao contrário da maioria das startups da época, o Google nasceu praticamente no momento em que a bolha começava a mostrar sinais de desgaste.
Larry Page e Sergey Brin tinham um problema muito específico para resolver.
Como encontrar informação relevante na Web.
Naquela época já existiam buscadores.
AltaVista.
Lycos.
Excite.
Infoseek.
Yahoo!.
Entretanto...
Os resultados eram frequentemente ruins.
Google resolveu um problema concreto.
Seu algoritmo PageRank organizava resultados de forma muito superior aos concorrentes.
Perceba a diferença.
Eles não criaram uma empresa porque a Internet estava na moda.
Criaram porque existia um problema real.
Resolver Problemas Vale Mais do que Seguir Tendências
Esse talvez seja o maior ensinamento de Google.
Tecnologia é consequência.
Problemas vêm primeiro.
Quando um produto resolve algo importante...
Os clientes permanecem.
Quando ele existe apenas porque está acompanhando uma tendência...
A sobrevivência torna-se muito mais difícil.
Esse princípio continua válido vinte anos depois.
Na era da Inteligência Artificial, a pergunta permanece exatamente a mesma.
Que problema estamos resolvendo?
eBay Descobriu o Poder da Comunidade
Enquanto muitas startups gastavam fortunas em publicidade, o eBay crescia principalmente através dos próprios usuários.
Compradores atraíam vendedores.
Vendedores atraíam compradores.
Esse fenômeno recebe hoje o nome de efeito de rede.
Quanto maior a comunidade...
Maior o valor da plataforma.
Esse crescimento orgânico reduziu drasticamente a necessidade de investimentos gigantescos em marketing.
Era um modelo muito mais sustentável.
PayPal Sobreviveu Porque Existia um Problema Real
Comprar pela Internet no final dos anos 1990 não era simples.
Cartões de crédito ainda geravam desconfiança.
Fraudes eram frequentes.
Pagamentos internacionais eram complicados.
PayPal apareceu justamente para resolver esse problema.
A empresa enfrentou enormes dificuldades.
Mudou diversas vezes de estratégia.
Lutou contra fraudes diariamente.
Mesmo assim...
Persistiu.
Porque seu serviço atendia uma necessidade concreta do mercado.
Não era uma solução procurando um problema.
Era exatamente o contrário.
Salesforce Mudou o Modelo de Negócio
Outro sobrevivente importante foi a Salesforce.
Marc Benioff defendia uma ideia considerada quase absurda na época.
Software não precisava mais ser instalado.
Poderia funcionar diretamente pela Internet.
Hoje chamamos isso de SaaS.
Software as a Service.
Naquele período parecia uma heresia.
Empresas estavam acostumadas a comprar CDs, instalar programas e manter servidores próprios.
Salesforce mostrou que era possível fazer diferente.
Não venceu porque possuía o software mais bonito.
Venceu porque criou um modelo econômico melhor.
O Que Todas Tinham em Comum?
Quando analisamos essas empresas percebemos padrões bastante claros.
Elas possuíam objetivos diferentes.
Mercados diferentes.
Produtos diferentes.
Mas compartilhavam características fundamentais.
Primeiro.
Resolvendo problemas reais.
Segundo.
Pensando no longo prazo.
Terceiro.
Investindo fortemente em engenharia.
Quarto.
Aceitando adaptar modelos de negócio sempre que necessário.
Quinto.
Controlando cuidadosamente recursos durante a crise.
Nenhuma delas ignorou a realidade financeira.
Enquanto Isso... Milhares Desapareciam
No mesmo período, centenas de startups continuavam apostando que novos investidores resolveriam seus problemas.
Não reduziram custos.
Não mudaram estratégias.
Não adaptaram produtos.
Esperaram que o mercado voltasse ao normal.
Ele nunca voltou.
A crise mostrou uma diferença importante entre esperança e planejamento.
Esperança é importante.
Mas não substitui estratégia.
A Engenharia Tornou-se Diferencial Competitivo
Existe outra característica curiosa.
As empresas sobreviventes investiram pesadamente em infraestrutura.
Google construiu data centers gigantescos.
Amazon desenvolveu plataformas logísticas extremamente sofisticadas.
PayPal criou mecanismos antifraude avançados.
eBay investiu em escalabilidade.
Nenhuma delas acreditava que apenas marketing seria suficiente.
Todas compreenderam que crescimento exige engenharia.
Essa continua sendo uma das maiores diferenças entre demonstrações impressionantes e produtos duradouros.
O Mainframe Sempre Conheceu Esse Princípio
Para um profissional COBOL, essa conclusão parece quase óbvia.
Durante décadas, sistemas bancários sempre foram projetados pensando em:
crescimento;
disponibilidade;
redundância;
recuperação;
desempenho;
segurança.
Ninguém constrói um sistema de pagamentos imaginando apenas a demonstração para um cliente.
Ele precisa continuar funcionando durante anos.
É exatamente essa mentalidade que começou a reaparecer na indústria de software após a bolha.
As empresas voltaram a valorizar arquitetura.
Não apenas velocidade.
A Crise Eliminou Concorrentes
Existe uma consequência pouco comentada sobre grandes crises.
Elas reduzem drasticamente a concorrência.
Quando centenas de startups desapareceram, empresas sobreviventes passaram a disputar um mercado muito menos congestionado.
Amazon encontrou menos competidores.
Google tornou-se rapidamente referência em buscas.
eBay consolidou sua liderança.
Salesforce expandiu-se praticamente sozinha no mercado de CRM em nuvem.
Paradoxalmente...
A crise abriu espaço para gigantes crescerem ainda mais.
A Internet Ficou Mais Forte
Pode parecer contraditório.
Mas a bolha fortaleceu a própria Internet.
Como?
Eliminando modelos insustentáveis.
Concentrando investimentos em empresas mais eficientes.
Incentivando engenharia de melhor qualidade.
Criando consumidores mais confiantes.
Melhorando infraestrutura.
Fortalecendo meios de pagamento.
Quando a década seguinte começou...
A Internet estava muito mais preparada para crescer.
A crise havia funcionado como uma gigantesca poda.
As raízes permaneceram.
Os galhos fracos desapareceram.
O Paralelo com a Inteligência Artificial
Estamos vivendo algo semelhante atualmente.
Existem milhares de startups de IA.
Nem todas sobreviverão.
Isso não significa que a Inteligência Artificial fracassará.
Muito provavelmente ocorrerá o oposto.
Assim como aconteceu após as Dot-Com, algumas poucas empresas construirão infraestrutura sólida, resolverão problemas relevantes e permanecerão durante décadas.
Outras desaparecerão.
A tecnologia continuará evoluindo.
A história mostra que inovação costuma sobreviver às bolhas.
O que normalmente não sobrevive são os modelos econômicos mal planejados.
Lições para o Padawan COBOL
Existe uma razão pela qual programas COBOL escritos há quarenta anos continuam executando milhões de transações diariamente.
Eles foram desenvolvidos para resolver problemas concretos.
Não para impressionar investidores.
Essa talvez seja a maior diferença entre sistemas críticos e muitos produtos criados durante períodos de euforia.
Um sistema duradouro nasce da combinação entre boa engenharia, visão de longo prazo e disciplina operacional.
Empresas também.
No universo da Frota Estelar, durante uma batalha, as naves mais vistosas nem sempre sobrevivem. Muitas possuem armamentos impressionantes, mas pouca resistência estrutural. Já as naves projetadas por engenheiros cuidadosos suportam impactos, adaptam-se aos danos, redistribuem energia e continuam cumprindo sua missão.
Foi exatamente isso que aconteceu após a bolha da Internet.
As empresas que sobreviveram não eram necessariamente as mais rápidas.
Eram as mais resilientes.
No próximo capítulo conheceremos uma das maiores ironias dessa história: como justamente o colapso das Dot-Com abriu caminho para a Web 2.0, as redes sociais, os smartphones e praticamente toda a economia digital que conhecemos hoje. Às vezes, destruir o excesso é exatamente o que permite o verdadeiro crescimento.