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sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Quando o Escritório Era uma Família Estendida

 


☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Quando o Escritório Era uma Família Estendida

Ou: antes do Teams, do escritório inteligente e do RH falar em “engajamento”, já existiam o Clube da Veja, o Clube da Bolacha, a vaquinha do aniversário, o churrasco da firma — e uma certa Rosalaine capaz de fazer um office-boy correr mais rápido que Hermes

Pegue um café.

Hoje não vamos falar de COBOL.

Não haverá CICS, Db2, VSAM, JCL nem abend misterioso esperando no fim do artigo.

Hoje vamos abrir um arquivo muito mais antigo e talvez mais complicado de restaurar.

O backup da memória.

A culpa começou com a revista Veja.

Outro dia, enquanto remexia algumas lembranças envolvendo a revista, aconteceu aquilo que frequentemente ocorre com quem já possui algumas décadas de dados armazenados no HD biológico: você procura um arquivo e descobre um diretório inteiro.

Uma lembrança chamou outra.

Depois outra.

E mais outra.

Quando percebi, não estava mais pensando na revista.

Estava novamente dentro de um escritório da Avenida Paulista, antes do ano 2000, numa época em que palavras como smart office, employee experience, collaboration platform, digital workplace e people analytics ainda não haviam sido inventadas para explicar coisas que nós simplesmente chamávamos de:

trabalhar com gente.

Para otimizar essa memória, convoquei três consultores especializados em observar o comportamento do brasileiro:

Laerte, Glauco e Angeli.

E, naturalmente, deixei o temível Leão de Chácara cuidando da porta.

Porque memória corporativa antiga não é assunto para amadores.


🏢 O escritório antes de virar “workspace”

Quem começou a trabalhar nas últimas duas décadas talvez tenha dificuldade para imaginar o tamanho de alguns departamentos empresariais dos anos 1980 e 1990.

Hoje uma atividade pode passar por ERP, workflow, e-mail, portal corporativo, API, chatbot, RPA, inteligência artificial e meia dúzia de sistemas.

Naquela época, boa parte dessa infraestrutura tinha nome, sobrenome e crachá.

Eram pessoas.

Muitas pessoas.

Departamentos com cinquenta, sessenta, oitenta funcionários não eram particularmente estranhos.

Alguns chegavam perto de uma centena.

Dentro deles havia setores menores, frequentemente três ou quatro, cada qual com sua chefia, suas mesas, seus arquivos, seus telefones e seus pequenos universos.

Existia o organograma oficial:

Diretor → Gerente → Chefes → Setores → Funcionários.

Mas havia outro organograma.

Nunca impresso.

Nunca aprovado pela diretoria.

Nunca enviado ao RH.

E provavelmente muito mais importante para entender como aquela empresa realmente funcionava.


Era o organograma social.

Nele estavam as secretárias, os office-boys, o pessoal que sabia onde ficava determinada pasta, quem conhecia alguém na contabilidade, quem sabia qual gerente estava de bom humor, quem organizava o aniversário, quem cobrava a vaquinha, quem fazia o café e quem sabia onde estava a revista que desaparecera havia três dias.

Era uma rede.

Só não chamávamos de rede social.


👩‍💼 A secretária era o roteador social do departamento

A secretária daquela época merece um capítulo próprio.

Aliás, merece uma homenagem.

Sua função formal podia envolver agenda, telefone, correspondência, documentos, reuniões e suporte administrativo.

Mas sua função real era muito maior.

Ela sabia quem estava de férias.

Quem faltara.

Quem precisava falar com o gerente.

Quem estava esperando uma ligação.

Quem fazia aniversário naquela semana.

Quem ia casar.

Quem acabara de ter filho.

Quem estava prestes a se aposentar.

Quem ainda não havia pago a vaquinha.

E, naturalmente, quem estava enrolando para pagar a assinatura da revista.

Em termos mainframeiros, a secretária era simultaneamente:

Scheduler + Service Desk + Workflow + Event Manager + Social Network + Knowledge Base.

Com uma vantagem importante:

ela conhecia as pessoas.

E existia uma hierarquia entre elas.

Cada setor podia possuir sua secretária e uma secretária departamental ajudava a coordenar aquele pequeno universo.

Não estava escrito no organograma informal.

Não precisava.

Todo mundo sabia.


📰 O Clube da Assinatura

Eis uma instituição praticamente desaparecida:

o Clube da Assinatura.

O departamento assinava uma revista.

No nosso caso, entre elas estava a Veja.

Cada participante contribuía com uma pequena cota e, quando chegava o vencimento, entrava em funcionamento um sofisticadíssimo sistema financeiro.

A secretária.

— Pessoal, chegou a hora da assinatura.

Pronto.

Começava a arrecadação.

Não havia PIX.

Não havia aplicativo.

Não havia link de pagamento.

Havia dinheiro, controle, cobrança e memória.

Especialmente memória.

Porque a secretária sabia perfeitamente quem ainda não tinha pago.

Quando a revista chegava, começava outro protocolo.

Ela circulava.

Alguém lia.

Passava para outro.

Esse levava para o almoço.

Outro perguntava:

— Cadê a Veja?

— Está com o fulano.

Era uma espécie de Token Ring editorial.

O pacote precisava circular pelos nós da rede até completar o percurso.

E ninguém precisava de Wi-Fi.


🍪 O Clube da Bolacha

Mas o verdadeiro sistema crítico ficava dentro de um armário.

O Clube da Bolacha.

Cada participante contribuía com um ticket-almoço e, com os recursos arrecadados, abastecíamos um dos armários do departamento.

Aquilo era um pequeno paraíso da gula.

Bolachas.

Biscoitos.

Doces.

Salgados.

Coisas destinadas a salvar funcionários naquele momento crítico entre o almoço e o fim do expediente.

Hoje talvez alguém criasse um projeto chamado:

Corporate Employee Snack Experience Initiative.

Nós chamávamos de:

armário da bolacha.

Funcionava perfeitamente.

Até alguém comer a última.

Aí tínhamos um incidente de produção.

— QUEM ACABOU COM A BOLACHA E NÃO AVISOU?

Severity 1.

War Room imediatamente.

Laerte, Glauco e Angeli poderiam passar uma semana naquele departamento e sair com material para cinco anos.


🎂 A indústria da vaquinha

Outro componente essencial da infraestrutura corporativa era a:

vaquinha.

Tudo justificava uma.

Aniversário?

Vaquinha.

Casamento?

Vaquinha.

Nascimento de filho?

Vaquinha.

Aposentadoria?

Vaquinha.

Dia da Secretária?

Vaquinha.

Ocasião especial?

Evidentemente:

vaquinha.

Nos aniversariantes do mês, juntava-se dinheiro para comprar bolo e alguma lembrancinha.

E então surgia outro artefato arqueológico maravilhoso:

o cartão.

O cartão circulava clandestinamente pelo departamento.

Todo mundo precisava assinar sem que o homenageado percebesse.

Era uma operação de inteligência.

— Passa para o João.

— Mas não deixa a Maria ver.

— O Carlos ainda não assinou.

— Cadê o cartão?

— Está no financeiro.

No final apareciam dezenas de assinaturas.

Algumas simplesmente:

Parabéns!

Outras:

Muitas felicidades!

Outras continham piadas internas que provavelmente seriam completamente indecifráveis para qualquer arqueólogo digital de 2126.

Mas aquele cartão tinha uma coisa que nenhum botão de 👍 conseguiu substituir completamente.

Ele havia passado pelas mãos das pessoas.



❤️ A empresa entrava um pouco na vida

É preciso tomar cuidado para não transformar nostalgia em história cor-de-rosa.

Os escritórios antigos também tinham problemas.

Hierarquias pesadas.

Burocracia.

Chefias ruins.

Fofocas.

Favoritismos.

Conflitos.

Tecnologia limitada.

Processos que hoje consideraríamos absurdamente ineficientes.

Não estou propondo ressuscitar tudo aquilo.

Mas havia uma característica interessante:

a fronteira entre vida profissional e convivência social era diferente.

Quando alguém casava, o departamento comemorava.

Quando nascia um filho, comemorava.

Quando alguém fazia aniversário, comemorava.

Quando se aposentava depois de décadas, aquilo era um acontecimento.

E quando algo ruim acontecia, aquela mesma rede também aparecia.

Éramos colegas de trabalho.

Mas frequentemente funcionávamos como uma espécie de família estendida.

Com todas as vantagens e todos os defeitos que famílias estendidas possuem.


🏃 E no meio disso tudo havia o office-boy

Agora chegamos ao personagem que vos escreve.

O office-boy.

Hoje talvez seja difícil explicar a importância daquele sujeito correndo de um lado para outro.

O office-boy atravessava a empresa inteira.

Levava documentos.

Buscava assinaturas.

Ia ao banco.

Passava pelo protocolo.

Entregava correspondência.

Subia.

Descia.

Entrava no elevador.

Saía do prédio.

Atravessava a Paulista.

Voltava.

Levava outro documento.

Recebia outra missão.

Era uma espécie de:

TCP/IP humano.

Os pacotes eram envelopes.

O roteamento era feito de memória.

E o traceroute podia envolver quinze andares e uma agência bancária.

Como office-boy, tive a sorte de conhecer muita gente.

E entre as pessoas que marcaram aqueles primeiros tempos estavam algumas das primeiras secretárias com quem trabalhei.

Elizabeth, nossa Bethinha.

Ana Maria.

Terezinha.

Cecilia.

Depois vieram Maria Aparecida, Nilce, Eliza, Benzão, Debora, Cristina, Adriana e tantas outras mulheres com quem tive a honra de trabalhar.

E havia...

Rosalaine.


🐺 “É o lobo... é o lobo!”

Rosalaine tinha uma característica impossível de registrar num currículo.

A voz.

Era uma voz de fada.

Angelical.

Leve.

Quase adolescente.

Mas Rosalaine era uma mulher adulta.

E havia um antigo personagem de desenho animado cuja fala eu adorava ouvi-la imitar.

Eu chegava perto.

— Rosalaine...

Ela provavelmente já sabia.

— O quê, Vagner?

— Fala.

— Falar o quê?

Eu insistia.

Até que vinha aquela voz:

— É o lobo... é o lobo!

Pronto.

Podia acabar o expediente.

O dia já tinha valido a pena.

Para aquele office-boy, ouvir Rosalaine dizendo “é o lobo, é o lobo” era praticamente um benefício corporativo não declarado.

E havia outro pequeno problema.

Eu era apaixonado por ela.

Consequentemente, o sistema de prioridades do office-boy apresentava uma pequena vulnerabilidade conhecida pelas demais secretárias.


⚡ SLA ROSALAINE

As outras perceberam rapidamente.

Pedido normal?

Vagner executava.

Pedido urgente?

Vagner corria.

Pedido da Rosalaine?

O espaço-tempo sofria uma pequena deformação.

E naturalmente começaram as piadas.

Uma delas ficou na memória:

“Se for a Rosalaine a pedir para o Vagner, ele faz mais rápido que Hermes.”

Eu provavelmente protestava.

— Nada a ver!

E elas:

— Sei...

— Eu faço rápido para todo mundo!

— Claro, Vagner.

— Faço mesmo!

Bastaria então alguém chamar:

— Rosalaine, pede você para ele.

Fim da discussão.

Porque provavelmente, antes que ela terminasse:

— Vagner, você poderia...

FUUUUSH!

Cadê o office-boy?

Já estava no elevador.


🪽 Mais rápido que Hermes

Décadas depois percebo que a piada era melhor do que talvez imaginássemos.

Hermes, na mitologia grega, era justamente o mensageiro dos deuses.

E o que fazia o office-boy?

Levava mensagens.

Documentos.

Envelopes.

Ordens.

Papéis.

Atravessava territórios carregando informação.

Eu era praticamente um Hermes corporativo da Avenida Paulista.

Só havia uma diferença.

Hermes tinha velocidade divina.

Eu tinha Rosalaine dizendo:

— Vagner...

Nesse momento, meu caro Hermes:

saia da frente.


🎄 O churrasco e a festa da firma

E então chegávamos ao encerramento anual daquele grande organismo social.

O churrasco.

Às vezes viajávamos para uma pousada da própria empresa.

Em outras ocasiões alugávamos uma chácara.

E lá ia o departamento.

Chefes.

Funcionários.

Secretárias.

Famílias.

Namorados.

Maridos.

Esposas.

Filhos.

O sujeito que durante onze meses aparecia impecavelmente vestido surgia de bermuda diante da churrasqueira.

O gerente encontrava seus subordinados fora do habitat corporativo.

As famílias finalmente conheciam aquelas pessoas cujos nomes ouviam durante o ano inteiro.

— Ahhh, então VOCÊ é o fulano!

Frase perigosíssima.

Dependendo da quantidade de cerveja consumida, segredos corporativos podiam começar a vazar.

E então havia a grande instituição:

A Festa de Final de Ano da Empresa

Comentadíssima.

Esperada.

Patrocinada pela empresa.

Não era simplesmente um evento no calendário.

Era um ritual.

Porque naquela época existia uma regra não escrita:

Não bastava ser funcionário. Tinha que participar.


🧠 A empresa que não aparecia no organograma

Quarenta anos depois, algo curioso acontece.

Eu não consigo lembrar de todos os documentos que transportei.

Não lembro de todos os protocolos.

Não lembro de cada assinatura que busquei.

Não lembro de cada tarefa considerada urgentíssima.

Muitas coisas pelas quais alguém provavelmente disse:

“Vagner, isso precisa estar pronto HOJE!”

desapareceram completamente.

Urgentíssimas em 1980 e tantos.

Irrelevantes em 2026.

Mas lembro do Clube da Assinatura.

Lembro do armário da bolacha.

Lembro das vaquinhas.

Lembro dos cartões.

Lembro dos aniversários.

Lembro dos churrascos.

Lembro das festas.

Lembro das secretárias.

E lembro de uma voz dizendo:

“É o lobo... é o lobo!”

Talvez exista uma lição interessante nisso.

A memória humana possui seu próprio algoritmo de retenção.

E aparentemente ele não respeita as prioridades corporativas.


🤖 Então chegou o escritório inteligente

Nas décadas seguintes fizemos uma coisa extraordinária.

Automatizamos.

Digitalizamos.

Otimizamos.

Reduzimos departamentos.

Criamos workflows.

ERPs.

CRMs.

Portais.

Self-service.

E-mail.

Mensagens instantâneas.

Videoconferência.

Automação.

Inteligência artificial.

Hoje equipes muito menores conseguem realizar trabalhos que antigamente exigiam dezenas de pessoas.

Isso é progresso.

Não tenho saudade de carregar papel porque alguém precisava fisicamente transportar informação entre dois pontos.

Não quero trocar APIs por office-boys.

Não quero substituir workflow por pastas circulando de mesa em mesa.

Seria absurdo.

Mas talvez tenhamos cometido um pequeno erro conceitual.

Ao eliminar a ineficiência, às vezes eliminamos junto coisas que não eram ineficiência.

O armário da bolacha não era workflow.

O cartão de aniversário não era processo.

A vaquinha do casamento não era produtividade.

O churrasco não era KPI.

A secretária sabendo que alguém estava vivendo uma semana difícil não era people analytics.

A piada sobre Rosalaine e Hermes não aparecia em nenhuma métrica de desempenho.

Mas tudo isso criava uma coisa dificílima de medir:

pertencimento.


🏭 Quando eficiência demais transforma gente em recurso

Hoje projetamos escritórios fantásticos.

Estações compartilhadas.

Hot desks.

Sensores.

Reserva automática de mesa.

Salas inteligentes.

Dashboards.

Indicadores de ocupação.

Colaboração remota.

Processos digitais.

Tudo muito eficiente.

Tudo muito funcional.

Mas existe uma pergunta que talvez devesse aparecer em algum desses dashboards:

As pessoas ainda conhecem umas às outras?

Não apenas o cargo.

Não apenas o avatar.

Não apenas o nome no Teams.

Conhecem?

Sabem quem está fazendo aniversário?

Sabem quem acabou de ter filho?

Sabem quem vai se aposentar?

Sabem quem conta a pior piada?

Sabem quem sempre rouba a última bolacha?

Existe algum equivalente moderno daquela secretária que percebia o departamento como um organismo humano?

Porque uma empresa pode otimizar perfeitamente o fluxo de trabalho e, ao mesmo tempo, transformar seres humanos em unidades intercambiáveis de capacidade.

E aí talvez tenhamos criado o escritório mais inteligente da história...

para tratar pessoas como gado com extraordinária eficiência.


🎨 Laerte, Glauco, Angeli e o departamento invisível

É justamente por isso que gosto de imaginar Laerte, Glauco e Angeli caminhando por aquele escritório.

Eles sabiam observar o Brasil que não aparece nos documentos oficiais.

O Brasil da conversa lateral.

Da piada.

Da fila.

Do cafezinho.

Do sujeito tentando escapar da vaquinha.

Da secretária que sabe tudo.

Do funcionário que esconde a revista.

Do armário comunitário.

Do chefe que muda completamente depois da segunda cerveja no churrasco.

E o Leão de Chácara?

Naturalmente ficaria na entrada.

Talvez cobrando:

— Você pagou a cota da bolacha?

— Ainda não.

— Então volta.

Governança.


☕ Epílogo — O mainframe social

Talvez aquela empresa antiga tivesse dois sistemas funcionando simultaneamente.

O primeiro processava negócios.

Pedidos.

Contas.

Contratos.

Documentos.

Pagamentos.

Relatórios.

O segundo processava gente.

Aniversários.

Casamentos.

Nascimentos.

Paixões.

Amizades.

Piadas.

Brigas.

Reconciliações.

Festas.

Café.

Bolachas.

O primeiro sistema foi substituído inúmeras vezes.

Mainframes, minis, PCs, cliente-servidor, web, cloud, APIs, inteligência artificial.

O segundo nunca teve documentação.

E talvez por isso tenhamos perdido partes dele durante a migração.

Esta história é uma pequena tentativa de restaurar o backup.

E principalmente uma homenagem carinhosa a Elizabeth, a Bethinha; Ana Maria; Terezinha; Cecilia; Maria Aparecida; Nilce; Eliza; Benzão; Debora; Cristina; Adriana e tantas outras secretárias com quem tive a honra de trabalhar.

Mulheres que provavelmente jamais aparecerão no organograma histórico dessas empresas, mas que ajudaram a fazer aqueles departamentos funcionarem como comunidades.

E, claro, uma lembrança especial para Rosalaine.

A mulher de voz de fada que, sem saber, descobriu uma vulnerabilidade crítica no sistema operacional de determinado office-boy. Sabe que vendo hoje, descobri de onde gosto das vozes das personagens de anime, talvez Freud explique, mas agora entendo um pouco melhor a magia da voz feminina dos animes, o efeito que me provoque e a pessoa que iniciou esse processo.

Bastava chamar:

— Vagner...

E qualquer prioridade anterior era imediatamente reavaliada.

Se depois viesse:

— É o lobo... é o lobo!

pronto.

O expediente estava ganho.

Hoje temos máquinas capazes de processar bilhões de instruções por segundo.

Temos inteligência artificial.

Temos escritórios inteligentes.

Temos automação suficiente para eliminar departamentos inteiros.

Mas até hoje ninguém conseguiu construir um sistema capaz de reproduzir perfeitamente aquele estranho protocolo social que fazia cinquenta pessoas assinarem escondidas um cartão de aniversário.

Talvez porque aquilo nunca tenha sido tecnologia.

Era simplesmente gente vivendo parte da vida junto.

E quando alguém perguntar como eram aqueles escritórios antes do ano 2000, talvez eu não precise explicar organogramas, máquinas de escrever, arquivos de aço ou processos administrativos.

Posso simplesmente responder:

Havia um armário cheio de bolachas.

Uma Veja circulando pelo departamento.

Um cartão esperando a última assinatura.

Uma secretária cobrando a vaquinha.

Um churrasco sendo planejado.

E um office-boy atravessando a Avenida Paulista mais rápido que Hermes porque, em algum lugar do escritório, Rosalaine havia acabado de chamá-lo.

Bons tempos.

Bons e imperfeitos tempos.

Agora pegue mais uma bolacha.

Mas, pelo amor de Deus:

se pegar a última, avise.

☕🐺


Para ir mais longe

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sábado, 13 de março de 2021

DotCom : Capítulo XV — Vinte Anos Depois: O Veredito da História Sobre a Bolha da Internet

 

Bellacosa Mainframe e o estouro da bolha dotcom capitulo xv

Capítulo XV — Vinte Anos Depois: O Veredito da História Sobre a Bolha da Internet

O que realmente aconteceu com as previsões feitas em 2000 e por que a História absolveu a Internet, mas condenou a especulação

"O tempo é o melhor arquiteto de software e o juiz mais imparcial da economia. Ele remove o código desnecessário, elimina as ilusões e preserva apenas aquilo que realmente cria valor."

Chegamos ao último capítulo desta jornada.

Foram mais de quatrocentos anos de história.

Da Tulipomania às criptomoedas.

Das ferrovias à Inteligência Artificial.

Dos cartões perfurados aos agentes autônomos.

Da bolha das Dot-Com ao renascimento da economia digital.

Mas ainda falta responder uma pergunta.

Afinal... quem estava certo?

Os otimistas?

Ou os pessimistas?

A Internet foi realmente uma bolha?

Ou foi a maior revolução tecnológica da história?

A resposta, como quase tudo na engenharia, não é um simples "sim" ou "não".

Ela é muito mais interessante.


A Internet Nunca Foi a Bolha

Este talvez seja o maior equívoco histórico.

Quando alguém diz:

"A bolha da Internet estourou."

A frase está incompleta.

O que estourou nunca foi a Internet.

O que explodiu foi a expectativa financeira construída ao redor dela.

A Internet continuou funcionando.

Os protocolos TCP/IP continuaram evoluindo.

Os servidores continuaram processando requisições.

Os cabos continuaram transmitindo dados.

Os engenheiros continuaram desenvolvendo software.

As universidades continuaram pesquisando.

A tecnologia permaneceu.

Quem desapareceu foi a especulação.

Essa diferença muda completamente a interpretação da história.


Os Pessimistas Erraram

Após o colapso de 2000 surgiram inúmeras manchetes.

"O fim da Nova Economia."

"A Internet fracassou."

"As empresas digitais foram uma moda."

Hoje sabemos que essas previsões estavam profundamente equivocadas.

A Internet tornou-se a infraestrutura mais importante da economia mundial.

Ela conecta bilhões de pessoas.

Movimenta trilhões de dólares.

Transformou praticamente todos os setores da sociedade.

O problema nunca foi a tecnologia.

Foi o exagero.


Os Otimistas Também Erraram

Curiosamente...

Os maiores entusiastas também cometeram erros.

Eles acreditavam que qualquer empresa ligada à Internet se tornaria automaticamente bem-sucedida.

Isso jamais aconteceu.

A maioria desapareceu.

Não porque a Internet fosse ruim.

Mas porque administrar uma empresa continua sendo extremamente difícil.

Tecnologia reduz barreiras.

Não elimina os desafios fundamentais dos negócios.


A História Escolheu os Construtores

Quando observamos os sobreviventes percebemos um padrão muito claro.

Google.

Amazon.

PayPal.

Salesforce.

Netflix.

Eles não venceram porque eram os mais barulhentos.

Nem porque possuíam os maiores escritórios.

Nem porque faziam mais propaganda.

Venceram porque construíram.

Infraestrutura.

Engenharia.

Processos.

Pessoas.

Conhecimento.

Enquanto outros vendiam sonhos...

Eles construíam fundações.


O Tempo Elimina o Ruído

Existe algo fascinante quando analisamos tecnologia sob uma perspectiva de vinte anos.

O marketing desaparece.

As manchetes desaparecem.

As apresentações desaparecem.

As promessas desaparecem.

O que permanece?

Produtos úteis.

Clientes satisfeitos.

Infraestrutura funcionando.

Empresas sustentáveis.

É como observar um grande sistema legado.

Após décadas, apenas o código realmente importante continua sendo executado.

Todo o restante foi removido.


A Engenharia Sempre Vence

Ao longo deste livro encontramos uma conclusão repetidas vezes.

Marketing chama atenção.

Engenharia sustenta negócios.

A história da Internet comprova isso.

Empresas que investiram apenas em publicidade desapareceram rapidamente.

Empresas que investiram em arquitetura sobreviveram.

Essa continua sendo uma das maiores lições para qualquer profissional de tecnologia.


O Mainframe Nunca Precisou Provar Nada

Existe uma ironia interessante.

Enquanto jornais anunciavam diariamente "o fim do mainframe", milhões de pessoas utilizavam serviços processados justamente por ele.

Compravam.

Vendiam.

Recebiam salários.

Pagavam impostos.

Realizavam transferências.

Utilizavam cartões.

Tudo isso acontecia silenciosamente.

O IBM Z nunca precisou vencer debates na Internet.

Precisava apenas continuar funcionando.

E continuou.

Talvez essa seja uma das maiores demonstrações de maturidade tecnológica.


A Revolução Não Acontece na Superfície

Quando pensamos em inovação normalmente imaginamos aquilo que aparece.

Aplicativos.

Interfaces.

Sites.

Inteligência Artificial.

Mas as maiores revoluções frequentemente acontecem onde poucos observam.

Data centers.

Protocolos.

Bancos de dados.

Infraestrutura.

Redes.

Segurança.

Mainframes.

Cloud.

APIs.

São esses elementos invisíveis que sustentam toda a economia digital.

Sem eles...

Nenhuma inovação permaneceria em pé.


O Futuro Também Será Invisível

Provavelmente ocorrerá exatamente o mesmo com a Inteligência Artificial.

Hoje falamos muito sobre chatbots.

Geradores de imagens.

Agentes inteligentes.

Mas daqui a vinte anos talvez a IA esteja tão integrada ao cotidiano que quase ninguém falará sobre ela.

Assim como ninguém diz atualmente:

"Estou utilizando TCP/IP."

Ou:

"Estou usando DNS."

Ou:

"Acabei de fazer uma requisição HTTPS."

Essas tecnologias desapareceram da conversa.

Não porque falharam.

Mas porque tiveram sucesso.

A verdadeira inovação deixa de ser novidade.

Torna-se infraestrutura.


O Ciclo Nunca Termina

Talvez daqui a quinze ou vinte anos outra tecnologia ocupe todas as manchetes.

Talvez alguém afirme novamente:

"Agora tudo será diferente."

Novos investidores aparecerão.

Novas startups surgirão.

Novas promessas serão feitas.

E, muito provavelmente...

Alguns repetir-se-ão os mesmos erros.

Porque computadores evoluem rapidamente.

Mas o comportamento humano evolui muito mais devagar.


O Que Nunca Mudará

Independentemente da próxima revolução tecnológica, algumas perguntas continuarão fundamentais.

Existe valor para o cliente?

A solução resolve um problema real?

O sistema é confiável?

Pode crescer?

É seguro?

É sustentável financeiramente?

Existe boa engenharia?

Se essas perguntas forem respondidas positivamente...

As chances de sucesso aumentam enormemente.


O Programador COBOL do Século XXI

Chegamos então ao personagem central desta obra.

O Programador COBOL Padawan.

Durante muito tempo disseram que ele representava o passado.

Hoje percebemos que ele carrega conhecimentos extremamente valiosos para o futuro.

Pensamento estruturado.

Integridade de dados.

Transações.

Disponibilidade.

Confiabilidade.

Governança.

Esses princípios tornaram-se ainda mais importantes na era da Inteligência Artificial.

Talvez o maior diferencial do profissional moderno não seja abandonar o passado.

Mas utilizá-lo como alicerce para construir o futuro.


O Verdadeiro Significado da Bolha

Depois de toda esta análise podemos finalmente responder à pergunta inicial.

O que foi, afinal, a bolha da Internet?

Não foi um fracasso.

Não foi um sucesso.

Foi um processo de seleção.

Uma gigantesca prova de resistência.

Ela eliminou empresas frágeis.

Fortaleceu as sólidas.

Acelerou a maturidade da engenharia.

Transformou investidores.

Mudou universidades.

Preparou profissionais.

Construiu infraestrutura.

Criou gigantes.

E abriu caminho para praticamente todas as revoluções digitais das décadas seguintes.

Poucos acontecimentos produziram consequências tão profundas.


Uma Última Reflexão no Centro de Processamento de Dados

Voltemos uma última vez ao velho CPD.

Os enormes gabinetes continuam funcionando.

As luzes piscam discretamente.

O relógio marca três horas da manhã.

Milhões de transações atravessam silenciosamente os canais de comunicação.

Do lado de fora, pessoas utilizam smartphones.

Conversam com Inteligência Artificial.

Compram pela Internet.

Assistem filmes em streaming.

Realizam Pix.

Chamam carros por aplicativos.

Tudo parece extremamente moderno.

Poucos imaginam que, em algum lugar daquele enorme ecossistema, um programa COBOL escrito anos atrás continua executando exatamente aquilo para que foi criado.

Recebendo novos módulos.

Novas APIs.

Novas integrações.

Novas camadas de Inteligência Artificial.

Mas preservando aquilo que sempre foi sua maior qualidade.

Confiabilidade.

Talvez essa seja a metáfora perfeita para toda a computação.

A inovação não substitui completamente o passado.

Ela constrói novos andares sobre fundações que já provaram seu valor.


Epílogo — O Conselho do Velho Engenheiro

Se este livro pudesse terminar com apenas uma única mensagem para um Programador COBOL Padawan, talvez fosse esta.

Não tenha medo das novas tecnologias.

Aprenda Inteligência Artificial.

Aprenda Python.

Aprenda Cloud.

Aprenda Kubernetes.

Aprenda Agentes.

Aprenda Computação Quântica quando ela chegar.

Mas nunca abandone aquilo que transforma um simples programador em um verdadeiro engenheiro.

Pensar antes de programar.

Projetar antes de implementar.

Testar antes de entregar.

Documentar antes de esquecer.

Medir antes de otimizar.

Questionar antes de acreditar.

No universo da Frota Estelar, existe uma antiga tradição.

Quando um engenheiro conclui sua formação, recebe um pequeno distintivo com uma frase gravada na parte interna, invisível para todos.

Ela diz:

"Tecnologias passam. Princípios permanecem."

Talvez essa seja também a maior lição da bolha da Internet.

E talvez seja exatamente essa lição que continuará guiando os engenheiros que construirão os próximos cinquenta anos da computação.

Porque, no final de toda grande revolução tecnológica, aquilo que realmente permanece não são as manchetes, nem as avaliações bilionárias ou as modas passageiras.

Permanecem as pessoas que aprenderam a construir sistemas capazes de atravessar o tempo.


sexta-feira, 31 de julho de 2020

DotCom : Capítulo VII — Os Sobreviventes da Seleção Natural Digital: Por Que Amazon, Google e eBay Venceram Quando Quase Todos Perderam

 

Bellacosa Mainframe e o estouro da bolha dotcom capitulo vii

Capítulo VII — Os Sobreviventes da Seleção Natural Digital: Por Que Amazon, Google e eBay Venceram Quando Quase Todos Perderam

Como algumas empresas transformaram a maior crise da Internet em uma oportunidade para construir impérios tecnológicos que mudariam o século XXI

"Uma tempestade não cria um grande navegador. Ela apenas revela quem realmente sabe navegar."

Quando estudamos a bolha da Internet, existe uma tendência natural de focarmos apenas nas empresas que desapareceram.

Pets.com.

Webvan.

Boo.com.

eToys.

Excite.

GeoCities.

Broadcast.com.

Centenas de outras.

É uma lista enorme.

Mas existe uma pergunta muito mais interessante.

Por que algumas empresas sobreviveram?

Afinal...

Todas faziam parte da mesma Internet.

Todas enfrentaram o mesmo colapso.

Todas perderam investidores.

Todas sofreram com a queda do NASDAQ.

O que havia de diferente?

Será que tiveram sorte?

Ou existia algo mais profundo?

A resposta é uma das maiores lições de gestão, tecnologia e engenharia da história moderna.


A Natureza Também Funciona Assim

Charles Darwin jamais estudou empresas de tecnologia.

Mesmo assim, sua teoria da evolução explica muito do que aconteceu entre 2000 e 2003.

Na natureza, sobreviver não significa ser o maior.

Nem o mais forte.

Nem o mais bonito.

Sobrevive quem melhor consegue adaptar-se às mudanças do ambiente.

No mundo corporativo acontece exatamente o mesmo.

Quando o dinheiro era abundante...

Quase todas as empresas pareciam saudáveis.

Quando o dinheiro desapareceu...

Descobriu-se quais realmente possuíam capacidade de adaptação.


Amazon: A Empresa que Quase Morreu

Hoje parece impossível imaginar.

Mas houve um momento em que analistas afirmavam seriamente que a Amazon jamais sobreviveria.

Suas ações perderam aproximadamente 95% do valor após o estouro da bolha.

Jeff Bezos tornou-se alvo de críticas.

Jornais publicavam manchetes questionando:

"A Amazon ainda existirá daqui a alguns anos?"

A empresa acumulava prejuízos.

Investia pesadamente em infraestrutura.

Construía centros de distribuição enormes.

Comprava servidores.

Desenvolvia software.

Naquele momento, muitos acreditavam que tudo aquilo era desperdício.

Hoje sabemos que era exatamente o contrário.

Bezos estava construindo a fundação de um império.


Jeff Bezos Não Pensava em Trimestres

Existe uma característica interessante nos fundadores que sobreviveram.

Eles olhavam para décadas.

Não para o próximo trimestre.

Enquanto investidores exigiam resultados imediatos, Bezos repetia constantemente uma filosofia simples.

"Estamos construindo uma empresa para o longo prazo."

Essa visão permitiu decisões extremamente difíceis.

Redução de despesas.

Demissões.

Cancelamento de projetos.

Renegociação de contratos.

O objetivo não era impressionar Wall Street.

Era sobreviver.

Sem sobrevivência...

Não existiria futuro.


Google Chegou na Hora Certa

Outro caso fascinante é o Google.

Ao contrário da maioria das startups da época, o Google nasceu praticamente no momento em que a bolha começava a mostrar sinais de desgaste.

Larry Page e Sergey Brin tinham um problema muito específico para resolver.

Como encontrar informação relevante na Web.

Naquela época já existiam buscadores.

AltaVista.

Lycos.

Excite.

Infoseek.

Yahoo!.

Entretanto...

Os resultados eram frequentemente ruins.

Google resolveu um problema concreto.

Seu algoritmo PageRank organizava resultados de forma muito superior aos concorrentes.

Perceba a diferença.

Eles não criaram uma empresa porque a Internet estava na moda.

Criaram porque existia um problema real.


Resolver Problemas Vale Mais do que Seguir Tendências

Esse talvez seja o maior ensinamento de Google.

Tecnologia é consequência.

Problemas vêm primeiro.

Quando um produto resolve algo importante...

Os clientes permanecem.

Quando ele existe apenas porque está acompanhando uma tendência...

A sobrevivência torna-se muito mais difícil.

Esse princípio continua válido vinte anos depois.

Na era da Inteligência Artificial, a pergunta permanece exatamente a mesma.

Que problema estamos resolvendo?


eBay Descobriu o Poder da Comunidade

Enquanto muitas startups gastavam fortunas em publicidade, o eBay crescia principalmente através dos próprios usuários.

Compradores atraíam vendedores.

Vendedores atraíam compradores.

Esse fenômeno recebe hoje o nome de efeito de rede.

Quanto maior a comunidade...

Maior o valor da plataforma.

Esse crescimento orgânico reduziu drasticamente a necessidade de investimentos gigantescos em marketing.

Era um modelo muito mais sustentável.


PayPal Sobreviveu Porque Existia um Problema Real

Comprar pela Internet no final dos anos 1990 não era simples.

Cartões de crédito ainda geravam desconfiança.

Fraudes eram frequentes.

Pagamentos internacionais eram complicados.

PayPal apareceu justamente para resolver esse problema.

A empresa enfrentou enormes dificuldades.

Mudou diversas vezes de estratégia.

Lutou contra fraudes diariamente.

Mesmo assim...

Persistiu.

Porque seu serviço atendia uma necessidade concreta do mercado.

Não era uma solução procurando um problema.

Era exatamente o contrário.


Salesforce Mudou o Modelo de Negócio

Outro sobrevivente importante foi a Salesforce.

Marc Benioff defendia uma ideia considerada quase absurda na época.

Software não precisava mais ser instalado.

Poderia funcionar diretamente pela Internet.

Hoje chamamos isso de SaaS.

Software as a Service.

Naquele período parecia uma heresia.

Empresas estavam acostumadas a comprar CDs, instalar programas e manter servidores próprios.

Salesforce mostrou que era possível fazer diferente.

Não venceu porque possuía o software mais bonito.

Venceu porque criou um modelo econômico melhor.


O Que Todas Tinham em Comum?

Quando analisamos essas empresas percebemos padrões bastante claros.

Elas possuíam objetivos diferentes.

Mercados diferentes.

Produtos diferentes.

Mas compartilhavam características fundamentais.

Primeiro.

Resolvendo problemas reais.

Segundo.

Pensando no longo prazo.

Terceiro.

Investindo fortemente em engenharia.

Quarto.

Aceitando adaptar modelos de negócio sempre que necessário.

Quinto.

Controlando cuidadosamente recursos durante a crise.

Nenhuma delas ignorou a realidade financeira.


Enquanto Isso... Milhares Desapareciam

No mesmo período, centenas de startups continuavam apostando que novos investidores resolveriam seus problemas.

Não reduziram custos.

Não mudaram estratégias.

Não adaptaram produtos.

Esperaram que o mercado voltasse ao normal.

Ele nunca voltou.

A crise mostrou uma diferença importante entre esperança e planejamento.

Esperança é importante.

Mas não substitui estratégia.


A Engenharia Tornou-se Diferencial Competitivo

Existe outra característica curiosa.

As empresas sobreviventes investiram pesadamente em infraestrutura.

Google construiu data centers gigantescos.

Amazon desenvolveu plataformas logísticas extremamente sofisticadas.

PayPal criou mecanismos antifraude avançados.

eBay investiu em escalabilidade.

Nenhuma delas acreditava que apenas marketing seria suficiente.

Todas compreenderam que crescimento exige engenharia.

Essa continua sendo uma das maiores diferenças entre demonstrações impressionantes e produtos duradouros.


O Mainframe Sempre Conheceu Esse Princípio

Para um profissional COBOL, essa conclusão parece quase óbvia.

Durante décadas, sistemas bancários sempre foram projetados pensando em:

  • crescimento;

  • disponibilidade;

  • redundância;

  • recuperação;

  • desempenho;

  • segurança.

Ninguém constrói um sistema de pagamentos imaginando apenas a demonstração para um cliente.

Ele precisa continuar funcionando durante anos.

É exatamente essa mentalidade que começou a reaparecer na indústria de software após a bolha.

As empresas voltaram a valorizar arquitetura.

Não apenas velocidade.


A Crise Eliminou Concorrentes

Existe uma consequência pouco comentada sobre grandes crises.

Elas reduzem drasticamente a concorrência.

Quando centenas de startups desapareceram, empresas sobreviventes passaram a disputar um mercado muito menos congestionado.

Amazon encontrou menos competidores.

Google tornou-se rapidamente referência em buscas.

eBay consolidou sua liderança.

Salesforce expandiu-se praticamente sozinha no mercado de CRM em nuvem.

Paradoxalmente...

A crise abriu espaço para gigantes crescerem ainda mais.


A Internet Ficou Mais Forte

Pode parecer contraditório.

Mas a bolha fortaleceu a própria Internet.

Como?

Eliminando modelos insustentáveis.

Concentrando investimentos em empresas mais eficientes.

Incentivando engenharia de melhor qualidade.

Criando consumidores mais confiantes.

Melhorando infraestrutura.

Fortalecendo meios de pagamento.

Quando a década seguinte começou...

A Internet estava muito mais preparada para crescer.

A crise havia funcionado como uma gigantesca poda.

As raízes permaneceram.

Os galhos fracos desapareceram.


O Paralelo com a Inteligência Artificial

Estamos vivendo algo semelhante atualmente.

Existem milhares de startups de IA.

Nem todas sobreviverão.

Isso não significa que a Inteligência Artificial fracassará.

Muito provavelmente ocorrerá o oposto.

Assim como aconteceu após as Dot-Com, algumas poucas empresas construirão infraestrutura sólida, resolverão problemas relevantes e permanecerão durante décadas.

Outras desaparecerão.

A tecnologia continuará evoluindo.

A história mostra que inovação costuma sobreviver às bolhas.

O que normalmente não sobrevive são os modelos econômicos mal planejados.


Lições para o Padawan COBOL

Existe uma razão pela qual programas COBOL escritos há quarenta anos continuam executando milhões de transações diariamente.

Eles foram desenvolvidos para resolver problemas concretos.

Não para impressionar investidores.

Essa talvez seja a maior diferença entre sistemas críticos e muitos produtos criados durante períodos de euforia.

Um sistema duradouro nasce da combinação entre boa engenharia, visão de longo prazo e disciplina operacional.

Empresas também.

No universo da Frota Estelar, durante uma batalha, as naves mais vistosas nem sempre sobrevivem. Muitas possuem armamentos impressionantes, mas pouca resistência estrutural. Já as naves projetadas por engenheiros cuidadosos suportam impactos, adaptam-se aos danos, redistribuem energia e continuam cumprindo sua missão.

Foi exatamente isso que aconteceu após a bolha da Internet.

As empresas que sobreviveram não eram necessariamente as mais rápidas.

Eram as mais resilientes.

No próximo capítulo conheceremos uma das maiores ironias dessa história: como justamente o colapso das Dot-Com abriu caminho para a Web 2.0, as redes sociais, os smartphones e praticamente toda a economia digital que conhecemos hoje. Às vezes, destruir o excesso é exatamente o que permite o verdadeiro crescimento.


Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

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