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sábado, 13 de março de 2021

DotCom : Capítulo XV — Vinte Anos Depois: O Veredito da História Sobre a Bolha da Internet

 

Bellacosa Mainframe e o estouro da bolha dotcom capitulo xv

Capítulo XV — Vinte Anos Depois: O Veredito da História Sobre a Bolha da Internet

O que realmente aconteceu com as previsões feitas em 2000 e por que a História absolveu a Internet, mas condenou a especulação

"O tempo é o melhor arquiteto de software e o juiz mais imparcial da economia. Ele remove o código desnecessário, elimina as ilusões e preserva apenas aquilo que realmente cria valor."

Chegamos ao último capítulo desta jornada.

Foram mais de quatrocentos anos de história.

Da Tulipomania às criptomoedas.

Das ferrovias à Inteligência Artificial.

Dos cartões perfurados aos agentes autônomos.

Da bolha das Dot-Com ao renascimento da economia digital.

Mas ainda falta responder uma pergunta.

Afinal... quem estava certo?

Os otimistas?

Ou os pessimistas?

A Internet foi realmente uma bolha?

Ou foi a maior revolução tecnológica da história?

A resposta, como quase tudo na engenharia, não é um simples "sim" ou "não".

Ela é muito mais interessante.


A Internet Nunca Foi a Bolha

Este talvez seja o maior equívoco histórico.

Quando alguém diz:

"A bolha da Internet estourou."

A frase está incompleta.

O que estourou nunca foi a Internet.

O que explodiu foi a expectativa financeira construída ao redor dela.

A Internet continuou funcionando.

Os protocolos TCP/IP continuaram evoluindo.

Os servidores continuaram processando requisições.

Os cabos continuaram transmitindo dados.

Os engenheiros continuaram desenvolvendo software.

As universidades continuaram pesquisando.

A tecnologia permaneceu.

Quem desapareceu foi a especulação.

Essa diferença muda completamente a interpretação da história.


Os Pessimistas Erraram

Após o colapso de 2000 surgiram inúmeras manchetes.

"O fim da Nova Economia."

"A Internet fracassou."

"As empresas digitais foram uma moda."

Hoje sabemos que essas previsões estavam profundamente equivocadas.

A Internet tornou-se a infraestrutura mais importante da economia mundial.

Ela conecta bilhões de pessoas.

Movimenta trilhões de dólares.

Transformou praticamente todos os setores da sociedade.

O problema nunca foi a tecnologia.

Foi o exagero.


Os Otimistas Também Erraram

Curiosamente...

Os maiores entusiastas também cometeram erros.

Eles acreditavam que qualquer empresa ligada à Internet se tornaria automaticamente bem-sucedida.

Isso jamais aconteceu.

A maioria desapareceu.

Não porque a Internet fosse ruim.

Mas porque administrar uma empresa continua sendo extremamente difícil.

Tecnologia reduz barreiras.

Não elimina os desafios fundamentais dos negócios.


A História Escolheu os Construtores

Quando observamos os sobreviventes percebemos um padrão muito claro.

Google.

Amazon.

PayPal.

Salesforce.

Netflix.

Eles não venceram porque eram os mais barulhentos.

Nem porque possuíam os maiores escritórios.

Nem porque faziam mais propaganda.

Venceram porque construíram.

Infraestrutura.

Engenharia.

Processos.

Pessoas.

Conhecimento.

Enquanto outros vendiam sonhos...

Eles construíam fundações.


O Tempo Elimina o Ruído

Existe algo fascinante quando analisamos tecnologia sob uma perspectiva de vinte anos.

O marketing desaparece.

As manchetes desaparecem.

As apresentações desaparecem.

As promessas desaparecem.

O que permanece?

Produtos úteis.

Clientes satisfeitos.

Infraestrutura funcionando.

Empresas sustentáveis.

É como observar um grande sistema legado.

Após décadas, apenas o código realmente importante continua sendo executado.

Todo o restante foi removido.


A Engenharia Sempre Vence

Ao longo deste livro encontramos uma conclusão repetidas vezes.

Marketing chama atenção.

Engenharia sustenta negócios.

A história da Internet comprova isso.

Empresas que investiram apenas em publicidade desapareceram rapidamente.

Empresas que investiram em arquitetura sobreviveram.

Essa continua sendo uma das maiores lições para qualquer profissional de tecnologia.


O Mainframe Nunca Precisou Provar Nada

Existe uma ironia interessante.

Enquanto jornais anunciavam diariamente "o fim do mainframe", milhões de pessoas utilizavam serviços processados justamente por ele.

Compravam.

Vendiam.

Recebiam salários.

Pagavam impostos.

Realizavam transferências.

Utilizavam cartões.

Tudo isso acontecia silenciosamente.

O IBM Z nunca precisou vencer debates na Internet.

Precisava apenas continuar funcionando.

E continuou.

Talvez essa seja uma das maiores demonstrações de maturidade tecnológica.


A Revolução Não Acontece na Superfície

Quando pensamos em inovação normalmente imaginamos aquilo que aparece.

Aplicativos.

Interfaces.

Sites.

Inteligência Artificial.

Mas as maiores revoluções frequentemente acontecem onde poucos observam.

Data centers.

Protocolos.

Bancos de dados.

Infraestrutura.

Redes.

Segurança.

Mainframes.

Cloud.

APIs.

São esses elementos invisíveis que sustentam toda a economia digital.

Sem eles...

Nenhuma inovação permaneceria em pé.


O Futuro Também Será Invisível

Provavelmente ocorrerá exatamente o mesmo com a Inteligência Artificial.

Hoje falamos muito sobre chatbots.

Geradores de imagens.

Agentes inteligentes.

Mas daqui a vinte anos talvez a IA esteja tão integrada ao cotidiano que quase ninguém falará sobre ela.

Assim como ninguém diz atualmente:

"Estou utilizando TCP/IP."

Ou:

"Estou usando DNS."

Ou:

"Acabei de fazer uma requisição HTTPS."

Essas tecnologias desapareceram da conversa.

Não porque falharam.

Mas porque tiveram sucesso.

A verdadeira inovação deixa de ser novidade.

Torna-se infraestrutura.


O Ciclo Nunca Termina

Talvez daqui a quinze ou vinte anos outra tecnologia ocupe todas as manchetes.

Talvez alguém afirme novamente:

"Agora tudo será diferente."

Novos investidores aparecerão.

Novas startups surgirão.

Novas promessas serão feitas.

E, muito provavelmente...

Alguns repetir-se-ão os mesmos erros.

Porque computadores evoluem rapidamente.

Mas o comportamento humano evolui muito mais devagar.


O Que Nunca Mudará

Independentemente da próxima revolução tecnológica, algumas perguntas continuarão fundamentais.

Existe valor para o cliente?

A solução resolve um problema real?

O sistema é confiável?

Pode crescer?

É seguro?

É sustentável financeiramente?

Existe boa engenharia?

Se essas perguntas forem respondidas positivamente...

As chances de sucesso aumentam enormemente.


O Programador COBOL do Século XXI

Chegamos então ao personagem central desta obra.

O Programador COBOL Padawan.

Durante muito tempo disseram que ele representava o passado.

Hoje percebemos que ele carrega conhecimentos extremamente valiosos para o futuro.

Pensamento estruturado.

Integridade de dados.

Transações.

Disponibilidade.

Confiabilidade.

Governança.

Esses princípios tornaram-se ainda mais importantes na era da Inteligência Artificial.

Talvez o maior diferencial do profissional moderno não seja abandonar o passado.

Mas utilizá-lo como alicerce para construir o futuro.


O Verdadeiro Significado da Bolha

Depois de toda esta análise podemos finalmente responder à pergunta inicial.

O que foi, afinal, a bolha da Internet?

Não foi um fracasso.

Não foi um sucesso.

Foi um processo de seleção.

Uma gigantesca prova de resistência.

Ela eliminou empresas frágeis.

Fortaleceu as sólidas.

Acelerou a maturidade da engenharia.

Transformou investidores.

Mudou universidades.

Preparou profissionais.

Construiu infraestrutura.

Criou gigantes.

E abriu caminho para praticamente todas as revoluções digitais das décadas seguintes.

Poucos acontecimentos produziram consequências tão profundas.


Uma Última Reflexão no Centro de Processamento de Dados

Voltemos uma última vez ao velho CPD.

Os enormes gabinetes continuam funcionando.

As luzes piscam discretamente.

O relógio marca três horas da manhã.

Milhões de transações atravessam silenciosamente os canais de comunicação.

Do lado de fora, pessoas utilizam smartphones.

Conversam com Inteligência Artificial.

Compram pela Internet.

Assistem filmes em streaming.

Realizam Pix.

Chamam carros por aplicativos.

Tudo parece extremamente moderno.

Poucos imaginam que, em algum lugar daquele enorme ecossistema, um programa COBOL escrito anos atrás continua executando exatamente aquilo para que foi criado.

Recebendo novos módulos.

Novas APIs.

Novas integrações.

Novas camadas de Inteligência Artificial.

Mas preservando aquilo que sempre foi sua maior qualidade.

Confiabilidade.

Talvez essa seja a metáfora perfeita para toda a computação.

A inovação não substitui completamente o passado.

Ela constrói novos andares sobre fundações que já provaram seu valor.


Epílogo — O Conselho do Velho Engenheiro

Se este livro pudesse terminar com apenas uma única mensagem para um Programador COBOL Padawan, talvez fosse esta.

Não tenha medo das novas tecnologias.

Aprenda Inteligência Artificial.

Aprenda Python.

Aprenda Cloud.

Aprenda Kubernetes.

Aprenda Agentes.

Aprenda Computação Quântica quando ela chegar.

Mas nunca abandone aquilo que transforma um simples programador em um verdadeiro engenheiro.

Pensar antes de programar.

Projetar antes de implementar.

Testar antes de entregar.

Documentar antes de esquecer.

Medir antes de otimizar.

Questionar antes de acreditar.

No universo da Frota Estelar, existe uma antiga tradição.

Quando um engenheiro conclui sua formação, recebe um pequeno distintivo com uma frase gravada na parte interna, invisível para todos.

Ela diz:

"Tecnologias passam. Princípios permanecem."

Talvez essa seja também a maior lição da bolha da Internet.

E talvez seja exatamente essa lição que continuará guiando os engenheiros que construirão os próximos cinquenta anos da computação.

Porque, no final de toda grande revolução tecnológica, aquilo que realmente permanece não são as manchetes, nem as avaliações bilionárias ou as modas passageiras.

Permanecem as pessoas que aprenderam a construir sistemas capazes de atravessar o tempo.


sexta-feira, 31 de julho de 2020

DotCom : Capítulo VII — Os Sobreviventes da Seleção Natural Digital: Por Que Amazon, Google e eBay Venceram Quando Quase Todos Perderam

 

Bellacosa Mainframe e o estouro da bolha dotcom capitulo vii

Capítulo VII — Os Sobreviventes da Seleção Natural Digital: Por Que Amazon, Google e eBay Venceram Quando Quase Todos Perderam

Como algumas empresas transformaram a maior crise da Internet em uma oportunidade para construir impérios tecnológicos que mudariam o século XXI

"Uma tempestade não cria um grande navegador. Ela apenas revela quem realmente sabe navegar."

Quando estudamos a bolha da Internet, existe uma tendência natural de focarmos apenas nas empresas que desapareceram.

Pets.com.

Webvan.

Boo.com.

eToys.

Excite.

GeoCities.

Broadcast.com.

Centenas de outras.

É uma lista enorme.

Mas existe uma pergunta muito mais interessante.

Por que algumas empresas sobreviveram?

Afinal...

Todas faziam parte da mesma Internet.

Todas enfrentaram o mesmo colapso.

Todas perderam investidores.

Todas sofreram com a queda do NASDAQ.

O que havia de diferente?

Será que tiveram sorte?

Ou existia algo mais profundo?

A resposta é uma das maiores lições de gestão, tecnologia e engenharia da história moderna.


A Natureza Também Funciona Assim

Charles Darwin jamais estudou empresas de tecnologia.

Mesmo assim, sua teoria da evolução explica muito do que aconteceu entre 2000 e 2003.

Na natureza, sobreviver não significa ser o maior.

Nem o mais forte.

Nem o mais bonito.

Sobrevive quem melhor consegue adaptar-se às mudanças do ambiente.

No mundo corporativo acontece exatamente o mesmo.

Quando o dinheiro era abundante...

Quase todas as empresas pareciam saudáveis.

Quando o dinheiro desapareceu...

Descobriu-se quais realmente possuíam capacidade de adaptação.


Amazon: A Empresa que Quase Morreu

Hoje parece impossível imaginar.

Mas houve um momento em que analistas afirmavam seriamente que a Amazon jamais sobreviveria.

Suas ações perderam aproximadamente 95% do valor após o estouro da bolha.

Jeff Bezos tornou-se alvo de críticas.

Jornais publicavam manchetes questionando:

"A Amazon ainda existirá daqui a alguns anos?"

A empresa acumulava prejuízos.

Investia pesadamente em infraestrutura.

Construía centros de distribuição enormes.

Comprava servidores.

Desenvolvia software.

Naquele momento, muitos acreditavam que tudo aquilo era desperdício.

Hoje sabemos que era exatamente o contrário.

Bezos estava construindo a fundação de um império.


Jeff Bezos Não Pensava em Trimestres

Existe uma característica interessante nos fundadores que sobreviveram.

Eles olhavam para décadas.

Não para o próximo trimestre.

Enquanto investidores exigiam resultados imediatos, Bezos repetia constantemente uma filosofia simples.

"Estamos construindo uma empresa para o longo prazo."

Essa visão permitiu decisões extremamente difíceis.

Redução de despesas.

Demissões.

Cancelamento de projetos.

Renegociação de contratos.

O objetivo não era impressionar Wall Street.

Era sobreviver.

Sem sobrevivência...

Não existiria futuro.


Google Chegou na Hora Certa

Outro caso fascinante é o Google.

Ao contrário da maioria das startups da época, o Google nasceu praticamente no momento em que a bolha começava a mostrar sinais de desgaste.

Larry Page e Sergey Brin tinham um problema muito específico para resolver.

Como encontrar informação relevante na Web.

Naquela época já existiam buscadores.

AltaVista.

Lycos.

Excite.

Infoseek.

Yahoo!.

Entretanto...

Os resultados eram frequentemente ruins.

Google resolveu um problema concreto.

Seu algoritmo PageRank organizava resultados de forma muito superior aos concorrentes.

Perceba a diferença.

Eles não criaram uma empresa porque a Internet estava na moda.

Criaram porque existia um problema real.


Resolver Problemas Vale Mais do que Seguir Tendências

Esse talvez seja o maior ensinamento de Google.

Tecnologia é consequência.

Problemas vêm primeiro.

Quando um produto resolve algo importante...

Os clientes permanecem.

Quando ele existe apenas porque está acompanhando uma tendência...

A sobrevivência torna-se muito mais difícil.

Esse princípio continua válido vinte anos depois.

Na era da Inteligência Artificial, a pergunta permanece exatamente a mesma.

Que problema estamos resolvendo?


eBay Descobriu o Poder da Comunidade

Enquanto muitas startups gastavam fortunas em publicidade, o eBay crescia principalmente através dos próprios usuários.

Compradores atraíam vendedores.

Vendedores atraíam compradores.

Esse fenômeno recebe hoje o nome de efeito de rede.

Quanto maior a comunidade...

Maior o valor da plataforma.

Esse crescimento orgânico reduziu drasticamente a necessidade de investimentos gigantescos em marketing.

Era um modelo muito mais sustentável.


PayPal Sobreviveu Porque Existia um Problema Real

Comprar pela Internet no final dos anos 1990 não era simples.

Cartões de crédito ainda geravam desconfiança.

Fraudes eram frequentes.

Pagamentos internacionais eram complicados.

PayPal apareceu justamente para resolver esse problema.

A empresa enfrentou enormes dificuldades.

Mudou diversas vezes de estratégia.

Lutou contra fraudes diariamente.

Mesmo assim...

Persistiu.

Porque seu serviço atendia uma necessidade concreta do mercado.

Não era uma solução procurando um problema.

Era exatamente o contrário.


Salesforce Mudou o Modelo de Negócio

Outro sobrevivente importante foi a Salesforce.

Marc Benioff defendia uma ideia considerada quase absurda na época.

Software não precisava mais ser instalado.

Poderia funcionar diretamente pela Internet.

Hoje chamamos isso de SaaS.

Software as a Service.

Naquele período parecia uma heresia.

Empresas estavam acostumadas a comprar CDs, instalar programas e manter servidores próprios.

Salesforce mostrou que era possível fazer diferente.

Não venceu porque possuía o software mais bonito.

Venceu porque criou um modelo econômico melhor.


O Que Todas Tinham em Comum?

Quando analisamos essas empresas percebemos padrões bastante claros.

Elas possuíam objetivos diferentes.

Mercados diferentes.

Produtos diferentes.

Mas compartilhavam características fundamentais.

Primeiro.

Resolvendo problemas reais.

Segundo.

Pensando no longo prazo.

Terceiro.

Investindo fortemente em engenharia.

Quarto.

Aceitando adaptar modelos de negócio sempre que necessário.

Quinto.

Controlando cuidadosamente recursos durante a crise.

Nenhuma delas ignorou a realidade financeira.


Enquanto Isso... Milhares Desapareciam

No mesmo período, centenas de startups continuavam apostando que novos investidores resolveriam seus problemas.

Não reduziram custos.

Não mudaram estratégias.

Não adaptaram produtos.

Esperaram que o mercado voltasse ao normal.

Ele nunca voltou.

A crise mostrou uma diferença importante entre esperança e planejamento.

Esperança é importante.

Mas não substitui estratégia.


A Engenharia Tornou-se Diferencial Competitivo

Existe outra característica curiosa.

As empresas sobreviventes investiram pesadamente em infraestrutura.

Google construiu data centers gigantescos.

Amazon desenvolveu plataformas logísticas extremamente sofisticadas.

PayPal criou mecanismos antifraude avançados.

eBay investiu em escalabilidade.

Nenhuma delas acreditava que apenas marketing seria suficiente.

Todas compreenderam que crescimento exige engenharia.

Essa continua sendo uma das maiores diferenças entre demonstrações impressionantes e produtos duradouros.


O Mainframe Sempre Conheceu Esse Princípio

Para um profissional COBOL, essa conclusão parece quase óbvia.

Durante décadas, sistemas bancários sempre foram projetados pensando em:

  • crescimento;

  • disponibilidade;

  • redundância;

  • recuperação;

  • desempenho;

  • segurança.

Ninguém constrói um sistema de pagamentos imaginando apenas a demonstração para um cliente.

Ele precisa continuar funcionando durante anos.

É exatamente essa mentalidade que começou a reaparecer na indústria de software após a bolha.

As empresas voltaram a valorizar arquitetura.

Não apenas velocidade.


A Crise Eliminou Concorrentes

Existe uma consequência pouco comentada sobre grandes crises.

Elas reduzem drasticamente a concorrência.

Quando centenas de startups desapareceram, empresas sobreviventes passaram a disputar um mercado muito menos congestionado.

Amazon encontrou menos competidores.

Google tornou-se rapidamente referência em buscas.

eBay consolidou sua liderança.

Salesforce expandiu-se praticamente sozinha no mercado de CRM em nuvem.

Paradoxalmente...

A crise abriu espaço para gigantes crescerem ainda mais.


A Internet Ficou Mais Forte

Pode parecer contraditório.

Mas a bolha fortaleceu a própria Internet.

Como?

Eliminando modelos insustentáveis.

Concentrando investimentos em empresas mais eficientes.

Incentivando engenharia de melhor qualidade.

Criando consumidores mais confiantes.

Melhorando infraestrutura.

Fortalecendo meios de pagamento.

Quando a década seguinte começou...

A Internet estava muito mais preparada para crescer.

A crise havia funcionado como uma gigantesca poda.

As raízes permaneceram.

Os galhos fracos desapareceram.


O Paralelo com a Inteligência Artificial

Estamos vivendo algo semelhante atualmente.

Existem milhares de startups de IA.

Nem todas sobreviverão.

Isso não significa que a Inteligência Artificial fracassará.

Muito provavelmente ocorrerá o oposto.

Assim como aconteceu após as Dot-Com, algumas poucas empresas construirão infraestrutura sólida, resolverão problemas relevantes e permanecerão durante décadas.

Outras desaparecerão.

A tecnologia continuará evoluindo.

A história mostra que inovação costuma sobreviver às bolhas.

O que normalmente não sobrevive são os modelos econômicos mal planejados.


Lições para o Padawan COBOL

Existe uma razão pela qual programas COBOL escritos há quarenta anos continuam executando milhões de transações diariamente.

Eles foram desenvolvidos para resolver problemas concretos.

Não para impressionar investidores.

Essa talvez seja a maior diferença entre sistemas críticos e muitos produtos criados durante períodos de euforia.

Um sistema duradouro nasce da combinação entre boa engenharia, visão de longo prazo e disciplina operacional.

Empresas também.

No universo da Frota Estelar, durante uma batalha, as naves mais vistosas nem sempre sobrevivem. Muitas possuem armamentos impressionantes, mas pouca resistência estrutural. Já as naves projetadas por engenheiros cuidadosos suportam impactos, adaptam-se aos danos, redistribuem energia e continuam cumprindo sua missão.

Foi exatamente isso que aconteceu após a bolha da Internet.

As empresas que sobreviveram não eram necessariamente as mais rápidas.

Eram as mais resilientes.

No próximo capítulo conheceremos uma das maiores ironias dessa história: como justamente o colapso das Dot-Com abriu caminho para a Web 2.0, as redes sociais, os smartphones e praticamente toda a economia digital que conhecemos hoje. Às vezes, destruir o excesso é exatamente o que permite o verdadeiro crescimento.