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| Bellacosa Mainframe e a pescaria na quermesse |
☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
🎣 Uma Pescaria dos Miúdos na Quermesse — Quando o Formiga Recarregou a Bateria
No Colégio São José de Campinas havia quadrilha, sanfona, comes e bebes — mas nenhuma boa festa junina estaria completa sem aquele pequeno universo de pescarias, argolas, latas, bingo, cadeia e brincadeiras onde o prêmio importava muito menos que a aventura.
Há pequenos vídeos que parecem registrar quase nada.
Algumas crianças brincando.
Uma barraca.
Uma vara de pescaria.
Adultos observando.
Barulho de festa ao fundo.
Talvez alguns segundos.
Mas quase dez anos depois, quando voltamos a assistir, descobrimos que a câmera estava gravando muito mais.
Ela estava fazendo backup de uma tarde inteira.
E voltamos novamente àquele nosso dia mágico no Colégio São José, em Campinas.
🌽 Muito além da quadrilha
Já contei em outros pequenos fragmentos dessa festa sobre as apresentações, as quadrilhas, o forró, o sanfoneiro, as crianças fantasiadas e aquele pequeno personagem que naquele dia parecia possuir energia suficiente para alimentar metade de Campinas:
o Formiga.
Mas uma festa junina brasileira não vive apenas de dança.
Também não vive apenas de comida — embora seja bastante difícil explicar isso diante de uma mesa contendo pastel, cachorro-quente, pipoca, bolo, paçoca, milho, doces e outras maravilhas capazes de transformar qualquer tentativa de dieta em ficção científica.
Existe outro elemento fundamental da velha quermesse:
as barracas de jogos.
E talvez seja justamente nelas que sobreviva uma das partes mais antigas e bonitas dessas festas.
Não precisamos de videogame.
Não precisamos de realidade virtual.
Não precisamos de uma GPU monstruosa.
Precisamos apenas de algumas latas, uma bola feita de meia, argolas, garrafas, varinhas improvisadas, papel, barbante e...
imaginação.
O resto as crianças fazem.
🎣 A pescaria que não precisa de rio
Uma das barracas mais tradicionais é a pescaria.
Pequenos peixes ficam escondidos ou espalhados em uma área decorada, normalmente com números que correspondem aos prêmios.
A criança recebe uma pequena vara.
Na ponta, algum mecanismo simples permite “pescar” o peixe.
E começa a operação.
Olhos atentos.
Mão tentando ficar firme.
A vara balançando.
— Aquele!
Não.
— O outro!
Quase.
— Vai, Formiga!
Até que finalmente...
PESCAMOS!
Para um adulto é apenas uma brincadeira.
Para uma criança, naquele instante, provavelmente estamos diante de uma operação de pesca comercial no Atlântico Norte.
O peixinho é levantado como se tivesse quinze quilos.
Descobre-se o número.
Procura-se o prêmio correspondente.
E nasce aquele sorriso.
O objeto recebido pode ser simples.
Mas existe uma diferença gigantesca entre ganhar alguma coisa e conquistar alguma coisa.
O brinquedinho agora possui uma história.
Eu pesquei.
E isso muda tudo.
🔋 Formiga.exe voltou com CPU em 100%
Antes dessa etapa da festa, naturalmente existiu uma operação extremamente importante:
abastecimento.
O Formiga havia passado pelos comes e bebes.
Comeu.
Bebeu.
Recuperou energia.
E retornou para a festa aparentemente com a bateria novamente em:
100%.
Se existisse SDSF para crianças, provavelmente veríamos algo semelhante:
JOBNAME CPU% STATUS
FORMIGA 99.9 RUNNING
VAGUINHO 47.2 FOLLOWING
JULIANA 63.8 FOLLOWING
E lá fomos nós.
Eu e Juliana acompanhando o pequeno em sua peregrinação pelas barracas.
Para ele, cada uma representava uma aventura diferente.
Para nós, existia outro espetáculo acontecendo simultaneamente:
ver a alegria dele.
🎯 O parque de diversões construído pela comunidade
Essas barracas possuem algo que sempre achei fascinante.
Elas são simples.
Muito simples.
A famosa brincadeira de derrubar latas, por exemplo, pode utilizar literalmente:
latas vazias + bola de meia.
Hardware praticamente gratuito.
Mas o software?
Esse está instalado na imaginação.
De repente aquelas latas tornam-se um grande desafio de precisão.
O jogo de argolas transforma algumas garrafas em alvos disputadíssimos.
A pescaria transforma papelão e plástico em um lago cheio de tesouros.
O bingo transforma números sorteados em suspense coletivo.
E cada escola, igreja, bairro ou comunidade acaba inventando suas próprias variações.
Essa talvez seja uma das grandes características da quermesse:
ela é hackeável.
Cada geração modifica alguma coisa.
Alguém inventa uma brincadeira.
Outro professor acrescenta uma regra.
Um grupo de pais constrói uma barraca.
Os alunos ajudam.
E no ano seguinte alguém copia a ideia.
É quase um software open source cultural.
💌 Correio elegante
Existe ainda aquele clássico absolutamente maravilhoso:
o correio elegante.
Alguém escreve um bilhetinho.
Um mensageiro atravessa a festa.
Procura o destinatário.
Entrega.
Às vezes existe assinatura.
Às vezes não.
Às vezes é declaração.
Às vezes brincadeira.
Às vezes alguém passa os próximos vinte minutos tentando descobrir:
QUEM MANDOU ISSO?!
Muito antes de WhatsApp, Instagram, mensagens instantâneas e notificações, a quermesse já possuía sua própria rede social.
Só que o protocolo de transporte era um aluno correndo pelo pátio.
🚔 Você está preso!
Outra brincadeira clássica, hoje menos comum em algumas festas, era a famosa cadeia.
A lógica era maravilhosamente absurda.
Você pagava ao “delegado” para prender alguém.
Dois voluntários apareciam.
A vítima era conduzida para a cadeia da festa.
E precisava cumprir alguma condição da brincadeira para sair.
Era inevitável.
Amigos prendiam amigos.
Namorados prendiam namoradas.
Crianças queriam prender os pais.
Pais conspiravam contra outros pais.
Durante algumas horas surgia no meio da quermesse um sistema jurídico paralelo administrado provavelmente por alguém usando um chapéu de xerife comprado numa loja de fantasias.
E funcionava perfeitamente.
Ou quase.
🎁 De onde vinham os prêmios?
Existe ainda uma história escondida atrás das barracas.
Os prêmios não apareciam magicamente.
Durante os preparativos da festa, alunos e famílias ajudavam a arrecadar brindes.
Havia doações.
Pequenos presentes.
Objetos oferecidos por comerciantes.
Colaborações de pais.
Doações de verdadeiros mecenas da quermesse.
Depois tudo aquilo era organizado e distribuído pelas diferentes brincadeiras.
Um pequeno ecossistema comunitário começava a funcionar semanas antes de a primeira música tocar.
É fácil chegar à festa pronta e enxergar somente bandeirinhas.
Mas existe muito trabalho escondido ali.
Professores.
Funcionários.
Pais.
Alunos.
Voluntários.
Gente carregando mesa.
Gente montando barraca.
Gente separando prêmio.
Gente preparando comida.
Gente testando brincadeira.
Quando finalmente os portões abrem, toda aquela infraestrutura desaparece atrás da festa.
Como deve acontecer com uma boa infraestrutura.
🇧🇷🇯🇵 Espera... eu já vi isso em algum anime
Anos depois comecei a perceber uma coisa curiosa assistindo aos meus animes.
Especialmente os slice of life.
Chega determinado episódio e os personagens vão para algum festival.
Barracas.
Comida.
Jogos.
Prêmios.
Amigos caminhando juntos.
Crianças tentando ganhar alguma coisa.
Casais tímidos.
Luzes.
Música.
Gente circulando.
E inevitavelmente pensei:
peraí... isso é uma quermesse!
Naturalmente existem diferenças culturais enormes entre uma festa junina brasileira e os diversos festivais tradicionais japoneses.
Mas a lógica social por trás de muitos desses momentos é surpreendentemente familiar.
A comunidade se reúne.
Existem comidas características.
Existem brincadeiras.
Existem barracas.
Existem pequenos prêmios.
Existe o prazer de caminhar sem muita pressa.
E existe principalmente aquela sensação de que, durante algumas horas, aquele lugar pertence às pessoas que estão ali juntas.
Talvez seja por isso que essas cenas de anime pareçam tão familiares mesmo acontecendo do outro lado do planeta.
Troque algumas lanternas por bandeirinhas.
Troque determinadas comidas por pastel, milho e paçoca.
Coloque uma sanfona tocando ao fundo.
E talvez algum brasileiro olhe para aquilo e pense:
— Rapaz... conheço esse ambiente.
🧠 A brincadeira é maior que o prêmio
Talvez esteja aí uma coisa que os adultos frequentemente esquecem.
Nós avaliamos o prêmio pelo valor.
Uma criança avalia pela história.
Um brinquedinho barato comprado numa loja pode ser apenas um brinquedinho.
Mas aquele mesmo objeto conquistado depois de três tentativas para derrubar uma pilha de latas torna-se:
O PRÊMIO QUE EU GANHEI.
Existe esforço.
Existe expectativa.
Existe ritual.
Existe testemunha.
— Olha, Juju!
— Olha, Vaguinho!
E então o pequeno prêmio entra no inventário afetivo daquela criança.
Alguns desaparecem dias depois.
Outros quebram.
Outros ficam esquecidos numa gaveta.
Mas curiosamente a lembrança pode sobreviver ao próprio objeto.
🐜 E o Formiga?
O Formiga estava exatamente onde uma criança deveria estar naquela tarde.
Correndo.
Brincando.
Experimentando.
Gastando toda a energia recém-adquirida nos comes e bebes.
Descobrindo cada barraca.
Provavelmente pensando muito pouco sobre memória, tradição, cultura brasileira ou antropologia das festas populares.
Ainda bem.
Essa parte ficou conosco.
Ele tinha uma tarefa muito mais importante:
divertir-se.
Eu e Juliana simplesmente acompanhávamos a farra.
Naquele momento talvez não percebêssemos que estávamos armazenando algo.
Hoje percebo.
🥚 Easter egg — o prêmio verdadeiro estava fora da barraca
Existe um pequeno easter egg escondido nesse vídeo.
Durante toda a pescaria, naturalmente olhamos para a criança tentando pegar o peixe.
Depois olhamos para o prêmio.
Qual número saiu?
O que ele ganhou?
Mas quase uma década depois o objeto já não importa muito.
Talvez nem consigamos lembrar qual foi.
O verdadeiro prêmio estava fora da barraca.
Era aquela tarde.
Era Juliana.
Era o Formiga.
Era eu.
Era a música ao fundo.
Eram dezenas de famílias circulando.
Era aquele pequeno mundo do Colégio São José funcionando durante algumas horas como se nada mais existisse.
A pescaria era apenas a interface.
O prêmio era estar lá.
💾 Um backup chamado vídeo
Talvez seja por isso que gosto tanto desses pequenos vídeos aparentemente banais.
Não são grandes acontecimentos.
Não existe monumento.
Não existe viagem internacional.
Não existe acontecimento histórico.
Existe uma criança brincando numa quermesse.
Mas são justamente essas coisas que o tempo destrói primeiro.
O jeito de falar.
A altura da criança.
A voz.
A roupa.
O movimento.
As pessoas passando ao fundo.
Uma decoração que nunca mais será montada exatamente daquela maneira.
Até aquele pequeno brinquedo desaparecido.
Então apertamos REC sem imaginar muito.
Anos depois apertamos PLAY.
E acontece uma coisa extraordinária.
Por alguns segundos...
o Formiga volta a estar com a bateria em 100%.
Juliana está ali.
Eu estou acompanhando.
A pescaria continua funcionando.
A quadrilha ainda não terminou.
O sanfoneiro continua tocando em algum outro fragmento daquele dia.
As barracas continuam cheias.
E a festa junina do Colégio São José ainda não acabou.
Talvez essa seja uma das funções mais bonitas desses velhos vídeos.
Eles não registram simplesmente o passado.
São pequenos RESTORE POINTS da nossa vida.
E enquanto conseguirmos apertar PLAY...
aquele JOB ainda pode rodar novamente.
//FORMIGA JOB (SAOJOSE),'FESTA JUNINA'
//STEP01 EXEC PGM=MEMORIA
//SYSIN DD *
PESCAR
BRINCAR
RIR
GUARDAR
/*
MAXCC = 0000
☕ Bellacosa Mainframe — porque algumas das rotinas mais importantes da nossa vida nunca foram documentadas. Apenas vividas.
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Uma festa junina digna desse nome não pode deixar de ter as famosas barraquinhas que fazem a alegria da criançada, jogos sociais típicos das Festas Populares tais como pescaria, roleta, tiro ao alvo com bolas, bingo e outras barracas.
Na quermesse do São José teve barraca de pescaria, da cadeia, de acertar o alvo, chutar bolo no gol....
O formiga adorou a pescaria e ficou ali um bom tempo lutando para conseguir apanhar seus peixinhos.