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quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

☕🎻 Tonico da Viola — O Fantasma Vivo do Jardim Garcez

 

Bellacosa Mainframe e o lendario mendigo Tonico da Viola

☕🎻 Tonico da Viola — O Fantasma Vivo do Jardim Garcez

Todo bairro tem sua lenda.

Todo bairro possui aquele personagem que parece existir fora das regras normais da realidade.

Uma figura tão marcante que, décadas depois, continua viva na memória coletiva.

No Jardim Garcez, em Taubaté, esse personagem atendia pelo nome de:

Tonico da Viola.

Ou pelo menos era assim que todos o chamavam.

Porque, na verdade, ninguém sabia muito sobre ele.

Ninguém sabia sua idade.

Ninguém sabia de onde tinha vindo.

Ninguém sabia para onde ia.

E talvez ninguém soubesse sequer seu verdadeiro nome.

Para nós, os garotos do bairro, ele parecia existir desde o início dos tempos.

Como uma criatura saída de uma lenda sertaneja.

Como um personagem esquecido entre as páginas de algum livro de Monteiro Lobato.

Tonico era um andarilho.

Daqueles que carregavam a própria vida nas costas.

Vivia cercado por sacolas, trouxas, sacos amarrados por barbantes e cordas.

Parecia que todo seu patrimônio cabia naquele emaranhado de objetos pendurados pelo corpo.

Nas costas carregava uma velha viola.

Ou melhor.

Os restos de uma viola.

O instrumento já estava tão gasto pelo tempo, pelo sol e pela chuva que parecia ter sobrevivido a uma guerra.

Um enorme chapéu de palha completava a figura.

Magro.

Barbudo.

Sujo.

Queimado de sol.

Com olhos fundos.

E aquele ar permanente de quem conversava com coisas invisíveis aos demais mortais.

Para uma criança, aquilo era fascinante.

E assustador.

Ao mesmo tempo.

As histórias sobre Tonico eram infinitas.

Cada morador tinha uma versão diferente.

Alguns juravam que havia sido fazendeiro.

Outros diziam que perdera a família inteira.

Uns afirmavam que tinha ficado louco por amor.

Outros garantiam que era um antigo músico famoso.

Havia até quem jurasse que ele possuía poderes sobrenaturais.

Nenhuma história batia com a outra.

Mas todas eram contadas com absoluta convicção.

O mais curioso era que, apesar da aparência assustadora, Tonico nunca fez mal a ninguém.

Nunca.

Era um homem pacífico.

Às vezes aparecia na porta da escola.

Outras vezes era visto dormindo debaixo de uma árvore.

Ou em algum pasto.

Ou próximo aos riachos.

Ou simplesmente caminhando sem rumo pelas ruas de terra.

Como uma alma livre.

Sem destino.

Sem relógio.

Sem endereço.

Sem patrão.

Sem compromisso com nada além da próxima curva da estrada.

Quando tinha fome, pedia um prato de comida.

E quase sempre alguém ajudava.

Quando não conseguia ajuda, improvisava.

Fazia uma pequena fogueira.

Pegava uma velha panela amassada.

Misturava o que encontrasse.

E preparava sua refeição.

Aquilo despertava a curiosidade da molecada.

Ficávamos observando de longe.

Tentando entender aquele universo paralelo.

Tentando decifrar aquele homem.

Às vezes ele estava feliz.

Muito feliz.

Pegava a viola.

Ou o que restava dela.

E começava a cantar.

Canções sem dono.

Modas antigas.

Trechos de histórias.

Versos improvisados.

Ninguém entendia tudo.

Mas todos paravam para ouvir.

Em outros dias aparecia embriagado.

E então começava outro espetáculo.

Palavrões.

Improvisos.

Discussões imaginárias.

Conversas com pessoas invisíveis.

A molecada ria até perder o fôlego.

Mas sempre mantendo uma distância respeitosa.

Porque havia algo nele que inspirava cautela.

Especialmente o olhar.

Ah, aquele olhar...

Os cães do bairro pareciam compreender algo que nós não entendíamos.

Quando Tonico surgia na rua, muitos cachorros fugiam imediatamente.

Os mais valentes avançavam.

Latiam.

Rosnavam.

Cercavam.

Mas bastava Tonico parar.

Virar lentamente a cabeça.

E encarar o animal.

Pronto.

O cão recuava.

Muitas vezes ganindo.

Como se tivesse visto algo que não deveria ver.

Aquilo alimentava ainda mais as lendas.

E nós, é claro, adorávamos cada detalhe.

Anos depois, indo para a Biblioteca Municipal de Taubaté, ainda o encontrava.

Caminhando pelo centro.

Sem destino.

Sem pressa.

Sem rumo aparente.

Enquanto todos corriam atrás de alguma coisa, Tonico parecia não perseguir nada.

Era uma figura quase impossível de enquadrar.

Mendigo?

Filósofo?

Louco?

Poeta?

Andarilho?

Músico?

Talvez um pouco de tudo.

Talvez nada disso.

Hoje penso que ele representava algo raro.

A liberdade absoluta.

Aquela liberdade que assusta.

Que não possui amarras.

Que não possui endereço.

Que não possui garantias.

Tonico da Viola era um homem sem posses.

Mas também sem correntes.

E talvez por isso tenha permanecido tão vivo na memória.

Porque enquanto todos nós pertencíamos ao bairro...

Parecia que o bairro inteiro pertencia a ele.

E quando o sol desaparecia atrás dos morros de Taubaté e uma figura magra de chapéu de palha surgia caminhando pela estrada de terra, a molecada já sabia:

A lenda estava passando novamente.