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sábado, 21 de maio de 2016

8120 - Teatro na estaçao: O encurralado

Bellacosa Mainframe e o teatro na estação

Um Café no Bellacosa Mainframe

🎭 Teatro na Estação — O Encurralado

A aula de teatro da Ana Paula havia terminado. Era para ser apenas mais um sábado na Estação Cultura. Mas uma peça nos fisgou — e começamos a segui-la por salas, corredores e espaços da velha estação ferroviária.

Campinas, maio de 2016.

Aquele sábado tinha começado de uma maneira que já havia se tornado quase uma rotina.

Enquanto Ana Paula fazia sua aula de teatro amador, eu aproveitava o tempo para zanzar pela Estação Cultura de Campinas.

E havia muito onde zanzar.

A antiga estação ferroviária era para mim praticamente um parque de diversões histórico: plataformas, trilhos, salas, corredores, antigas estruturas ferroviárias e pequenos detalhes sobreviventes de uma Campinas construída em torno dos trens.

Eu explorava.

Fotografava.

Filmava.

Procurava coisas.

Até que a aula terminou.

Ana Paula se juntou a mim.

Em circunstâncias normais, provavelmente aquele seria o momento de irmos embora.

Mas havia alguma coisa acontecendo na estação.

🎭 Fomos fisgados

Uma apresentação teatral ocupava o complexo.

Paramos para assistir.

Depois acompanhamos outro ato.

E mais outro.

Quando percebemos, a peça havia nos fisgado.

Já não éramos duas pessoas esperando uma atividade terminar para depois seguir com o sábado.

Éramos espectadores.

E começamos a acompanhar aqueles personagens pelos diferentes espaços da Estação Cultura.

Isso fazia uma diferença enorme.

Não estávamos sentados em poltronas numeradas diante de um palco italiano esperando a cortina abrir.

Nós nos deslocávamos junto com a história.

Um espaço virava palco.

Depois outro.

Uma sala ganhava outra função.

Um corredor podia representar uma passagem entre dois momentos.

A velha arquitetura ferroviária ajudava a contar a história.


🚂 A estação fazia parte da peça

Talvez essa seja uma das coisas que mais ficaram na minha memória daquela apresentação.

A Estação Cultura não era simplesmente o endereço do espetáculo.

Ela participava dele.

Se tudo aquilo tivesse acontecido dentro de um teatro convencional, certamente continuaria sendo teatro.

Mas seria outra experiência.

Ali havia paredes que carregavam décadas de história.

Havia enormes espaços construídos para circulação de passageiros.

Havia salas que um dia haviam servido à ferrovia.

Havia plataformas.

Trilhos.

Portas.

Escadas.

Passagens.

E agora aquele labirinto ferroviário era ocupado por atores e espectadores.

A cada novo ato, tínhamos a sensação de estar descobrindo também um novo pedaço da estação.

Era quase uma exploração.

Só que alguém havia colocado uma peça de teatro dentro dela.


🚶 O público também precisava viajar

E isso combinava maravilhosamente com aquilo que estávamos assistindo.

Os personagens viajavam.

Nós viajávamos atrás deles.

O espetáculo mudava de ambiente.

Nós mudávamos junto.

A estação deixava de ser um edifício estático e passava a funcionar como um enorme palco fragmentado.

Cada sala parecia um pequeno mundo.

Cada deslocamento funcionava quase como uma transição cinematográfica — com uma diferença importante:

nós estávamos dentro do filme.

Não havia corte.

Não havia edição.

Não aparecia na tela:

"CENA SEGUINTE".

Nós simplesmente caminhávamos até ela.

Ana Paula, que havia acabado justamente de uma aula de teatro amador, agora estava do outro lado da experiência.

Minutos antes, aluna.

Agora, espectadora.

E eu, que passara parte do dia explorando aquela velha estação ferroviária, comecei a perceber seus espaços de outra maneira.

Aquilo que antes era patrimônio arquitetônico tornava-se cenografia.

🍺 E então encontramos nosso pobre amigo...

Em determinado momento dessa peregrinação teatral encontramos um homem com um problema.

Um problema bastante antigo.

Nosso amigo estava voltando para casa depois da bebedeira.

E não apenas da bebedeira.

Da esbórnia.

😂

Para complicar um pouco mais a situação, tratava-se de um homem adúltero.

Agora estava diante de casa tentando decidir aquilo que qualquer sistema crítico deveria ter definido antes de entrar em produção:

qual é o procedimento de retorno?

Não havia runbook.

Não havia rollback.

Não havia plano de contingência.

Havia apenas uma porta.

E atrás dela...

a esposa.



🚪 Entrar ou não entrar, eis a questão

Nosso amigo está do lado de fora.

Pensa.

Hesita.

Quer entrar.

Talvez não queira.

Resolve bater.

Nada.

Bate novamente.

Nada.

Então começa a esmurrar a porta.

PÁ! PÁ! PÁ!

Bate sem dó.

Quer desesperadamente que aquela porta seja aberta.

Nós acompanhamos aquilo sabendo que talvez o melhor resultado possível para ele fosse justamente um:

ninguém abrir.

Mas ele insiste.

Bate.

Chama.

Reclama.

Até que finalmente acontece.

🚪 A porta abre

Pronto!

Problema resolvido.

Ou melhor...

problema promovido para severidade máxima.

😂

A porta que ele tanto desejava abrir finalmente está aberta.

E nosso amigo trava.

Porque agora surge outro dilema:

entrar ou não entrar?

Há poucos segundos ele estava quase derrubando a porta.

Agora que conseguiu aquilo que queria, começa a considerar seriamente se realmente queria aquilo.

O homem está encurralado.

Mas esse é o detalhe delicioso da cena:

ninguém o está segurando.

Ele não está fisicamente preso.

O encurralamento está dentro dele.

❤️ Chorou tanto pelo amor perdido...

E existe ainda outra contradição.

Nosso pobre bêbado havia chorado pelo amor perdido.

Sofreu.

Lamentou.

Bebeu.

Fez toda aquela liturgia universal do coração partido.

Agora finalmente está diante da possibilidade de enfrentar aquilo que tanto lamentava.

A porta está aberta.

O amor está do outro lado.

E...

SYSTEM WAIT.

😂

Talvez exista uma pequena verdade escondida naquela comédia.

É muito fácil imaginar o reencontro.

Difícil é atravessar a porta quando ele finalmente acontece.

👦 E escute aquele garotinho...

Há uma coisa no vídeo que hoje considero especialmente preciosa.

As vozes do público.

Escute.

Há comentários.

Risadas.

Reações.

E em determinado momento podemos ouvir um garotinho participando.

Isso não atrapalha o espetáculo.

Pelo contrário.

Aquilo é parte do espetáculo.

A criança reage ao personagem.

Outras pessoas comentam.

O ator recebe essas reações.

Existe uma conversa invisível acontecendo entre quem representa e quem assiste.

Nenhuma apresentação poderia ser exatamente igual àquela.

🎭 Teatro vivo

É justamente aí que uma gravação aparentemente simples de 2016 se torna interessante tantos anos depois.

Uma apresentação tradicional poderia ter sido registrada por uma câmera fixa.

Mas aquele espetáculo dependia também dos espaços e das pessoas.

Nós acompanhávamos os atos.

Os atores mudavam de ambiente.

A plateia se reorganizava.

Novas pessoas apareciam.

Alguém ria.

Uma criança falava.

O ator reagia.

A estação interferia.

Era teatro vivo.

E a Estação Cultura amplificava essa sensação.

🏚️ Cada porta podia esconder outra história

Talvez por isso a imersão tenha sido tão forte.

A estação possuía uma quantidade enorme de ambientes.

Salas.

Corredores.

Plataformas.

Escadas.

Portas.

Espaços pequenos.

Espaços monumentais.

E nunca sabíamos exatamente o que encontraríamos no próximo.

Seguíamos a peça quase como quem explora um edifício desconhecido.

Era uma mistura curiosa de teatro, passeio e descoberta.

E isso nos manteve ali.

A aula da Ana Paula havia terminado fazia tempo.

Poderíamos ter ido embora.

Não fomos.

Queríamos descobrir o próximo ato.

🚂 Um edifício construído para viagens voltou a transportar pessoas

Existe ainda uma ironia histórica muito bonita nisso tudo.

Aquela estação havia sido construída para transportar pessoas.

Durante décadas, passageiros entraram ali para viajar fisicamente de um lugar para outro.

Agora os trens de passageiros já não cumpriam aquela função.

Mas naquele sábado...

a estação voltou a nos transportar.

Só que de outra maneira.

De sala em sala.

De personagem em personagem.

De realidade em ficção.

O edifício ferroviário havia encontrado uma nova forma de viagem.

E nós embarcamos.

📹 Eu continuei registrando

Como sempre, estava com a câmera.

Filmei pequenos trechos.

Na época, provavelmente não pensei muito sobre o valor documental daquilo.

Era simplesmente:

8120 — Teatro na Estação — O Encurralado.

Mais um vídeo.

Mais algumas linhas no blog.

Mais um fragmento daquele sábado.

Dez anos depois, porém, aqueles fragmentos começam a se encaixar.

O saxofonista nos carris.

O músico.

A noiva fantasma.

O baile no mezanino.

O boteco no vagão.

Ulisses à Deriva.

O bordel.

O encurralado.

O bêbado.

Separadamente são pequenos vídeos.

Juntos, começam a reconstruir a experiência de caminhar pela Estação Cultura naquele dia.

🧠 E finalmente entendo melhor o título

O Encurralado.

Nosso personagem tinha várias opções.

Entrar.

Não entrar.

Ir embora.

Continuar batendo.

Talvez procurar outro boteco — embora isso provavelmente apenas transferisse o incidente para o próximo turno.

😂

Mas nenhuma alternativa parecia boa.

Ele havia criado uma prisão formada pelas próprias decisões.

E talvez seja por isso que a cena seja tão engraçada.

Porque todos nós, em algum momento, já fizemos alguma versão muito menos alcoólica da mesma coisa:

lutamos desesperadamente para abrir uma porta...

e quando ela finalmente abriu pensamos:

"Puta merda. E agora?"

🎮 CHECKPOINT — ESTAÇÃO CULTURA, 2016

Ana Paula: aula de teatro amador concluída
Vagner: zanzando pela estação
Plano original: provavelmente ir embora
Evento inesperado: espetáculo em andamento
Resultado: fomos fisgados
Estrutura: diversos atos em diferentes ambientes
Cenografia: a própria Estação Cultura
Missão atual: acompanhar o bêbado
Problema inicial: porta fechada
Solução: esmurrar a porta
Resultado: porta aberta
Novo problema: porta aberta
NPC especial: garotinho da plateia
Nível de imersão: aumentando
Próximo ato: impossível não acompanhar

STATUS DO SISTEMA:

CONTINUE? [S/N]

S.

Claro que continuamos.

☕ Dez anos depois

Hoje percebo que não estava apenas filmando uma peça.

Estava registrando uma experiência.

Ana Paula havia saído de sua aula de teatro e se juntado a mim.

Eu havia passado aquele tempo explorando minha velha paixão ferroviária.

Então, quase sem planejamento, os dois mundos se encontraram.

O teatro dela.

A estação que me fascinava.

E talvez seja exatamente por isso que fomos tão facilmente fisgados.

Naquele sábado, a Estação Cultura conseguiu ser simultaneamente escola, patrimônio ferroviário, palco, cenário e labirinto.

Nós caminhávamos atrás dos atores sem saber exatamente onde terminaria aquela história.

E isso era parte da diversão.

O pobre bêbado continuava diante de sua porta.

Nós continuávamos atrás dele.

E uma estação construída mais de um século antes para fazer pessoas viajarem conseguiu novamente cumprir sua missão.

Só não precisou de locomotiva.

☕🚂🎭

-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

O pobre amigo após a bebedeira retorna a casa.


O dilema do homem adultero, entrar ou não entrar em casa, retornando da esborneia, preso do lado de fora da casa, nosso amigo, pensa se entra ou não entra.



Esmurra a porta, bate sem do, ate que por fim a porta se abre... eis outro dilema entrar ou não entrar...

Chorou tanto pelo amor perdido e agora não sabe o que fazer.

Ouça um garotinho participando, os comentários do publico a interacção que tornam cada espectáculo único.
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🎭 Teatro na Estação — Campinas 2016

Uma viagem pelos registros do Teatro na Estação, na Estação Cultura de Campinas, incluindo a passagem de Ulisses à Deriva em 21 de maio de 2016.

Esta coleção reúne vídeos, relatos e memórias registrados durante o evento Teatro na Estação, preservando diferentes momentos da programação cultural realizada na antiga estação ferroviária de Campinas.

🚂 Uma estação transformada em palco

Em maio de 2016, a Estação Cultura de Campinas recebeu apresentações em que teatro, música, performances e personagens ocuparam plataformas, vagões e antigos espaços ferroviários.

Estes registros formam uma pequena memória digital daquele encontro entre ferrovia, patrimônio histórico, teatro, música e cultura em Campinas.

Entre as apresentações estava Ulisses à Deriva, montagem relacionada ao universo de Ulysses, de James Joyce, transformando a antiga estação em mais uma parada na longa viagem de Leopold Bloom.

📺 Visor — Teatro na Estação Artigo principal carregado
↗ Abrir publicação

📚 Teatro, ferrovia e memória cultural de Campinas

O projeto Teatro na Estação ocupou a histórica Estação Cultura de Campinas com apresentações, música, teatro e performances. Estes registros publicados no Bellacosa Mainframe preservam diferentes fragmentos daquela experiência cultural.

A coleção inclui cenas relacionadas a Ulisses à Deriva, além de músicos, personagens, performances e intervenções realizadas no ambiente ferroviário.

O conjunto conecta temas como Campinas, Estação Cultura, patrimônio ferroviário, teatro brasileiro, James Joyce, Ulysses, Leopold Bloom, Molly Bloom, literatura, música e memória cultural.

8119 Teatro na Estaçao Ulisses passa no Bordel

Bellacosa Mainframe e Ulisses chega ao bordel

Um Café no Bellacosa Mainframe

🔴 A luz vermelha e a ferida que ainda doía

Há cenas de teatro que assistimos.

E há cenas que, sem pedir licença, encontram alguma coisa dentro de nós.

Naquela noite, enquanto acompanhávamos a descida de Ulisses, percebi que Ana Paula estava desconfortável.

Não era simplesmente por causa da história.

Havia uma história anterior àquela história.

Em seu passado, existia a lembrança de um ex-marido que procurava bordéis, aparentemente buscando fora de casa alguma coisa que acreditava não encontrar dentro dela.

E então o teatro fez aquilo que às vezes sabe fazer de maneira quase cruel: encontrou uma cicatriz.

Uma cicatriz pode permanecer quieta durante anos. Você quase esquece que está ali. Mas basta alguma coisa arrancar aquela pequena casquinha para descobrir que, por baixo dela, talvez ainda exista uma região sensível.

E doía.

Talvez por isso aquela parte da peça tenha ficado tão marcada na minha memória.

🌑 Primeiro, não vemos nada

A construção da cena era extraordinária justamente porque o bordel não aparecia imediatamente.

Primeiro caminhávamos pela escuridão.

Não havia uma explicação.

Nenhuma placa dizendo:

“Agora vocês estão entrando em um prostíbulo.”

O teatro fazia algo muito mais inteligente.

Fazia nossos ouvidos chegarem antes dos nossos olhos.

À medida que avançávamos, começavam a surgir sons na escuridão.

Vozes.

Gritos.

Gemidos.

Risadas.

Conversas embaralhadas.

Ruídos que vinham de lugares que não conseguíamos identificar perfeitamente.

E nossa imaginação começava a construir aquilo que os olhos ainda não podiam enxergar.

Era quase como caminhar por um programa sem ter acesso ao source code.

Você recebe apenas os eventos.

Os sinais.

Os sintomas.

E tenta descobrir que sistema existe por trás deles.

👂 O cenário começava dentro da cabeça

Isso talvez seja uma das coisas mais interessantes daquela encenação.

O bordel não precisava ser completamente construído pelo cenógrafo.

Metade dele era construída pelo público.

Cada pessoa preenchia a escuridão com seu próprio repertório, seus preconceitos, suas experiências, seus medos e suas lembranças.

Então surgiu o vermelho.

Uma luz vermelha cortando a escuridão.

Depois, o neon.

BORDEL.

Pronto.

Aquilo que nossos ouvidos já haviam descoberto finalmente recebia um nome.

Mas, naquele momento, o cenário físico quase se tornava secundário.

O verdadeiro bordel já estava funcionando dentro da imaginação de cada espectador.

🍷 Ulisses entra

E então Ulisses, perdido, bêbado, ferido e à deriva, atravessa aquela fronteira.

Ele não entra simplesmente em um estabelecimento.

Ele desce mais um degrau.

Outras mulheres aparecem.

Outras figuras circulam.

Há clientes.

Há sombras.

Há vozes.

Há movimento.

Mas continuamos vendo muito pouco.

A luz vermelha domina tudo.

E isso torna a cena ainda mais poderosa.

Porque aquilo que não conseguimos enxergar completamente somos obrigados a completar.

O teatro entrega talvez vinte por cento.

Nossa cabeça produz os outros oitenta.



🔴 O vermelho não ilumina — esconde

Normalmente pensamos na luz como algo que permite enxergar.

Ali acontecia praticamente o contrário.

Aquela iluminação vermelha mostrava o suficiente para sabermos onde estávamos, mas escondia o suficiente para permitir que nossa imaginação trabalhasse.

Rostos deixavam de ser perfeitamente definidos.

Corpos transformavam-se em silhuetas.

Movimentos apareciam e desapareciam.

As pessoas que frequentavam aquele ambiente pareciam pertencer temporariamente àquele universo paralelo.

E Ulisses mergulhava nele.

Não porque o bordel fosse necessariamente o destino de sua viagem.

Mas porque ele estava perdido.

Talvez essa seja a diferença.

🧭 O homem que perdeu a bússola

Ulisses não parece entrar ali como um conquistador.

Entra como alguém que perdeu sua referência.

Existe uma enorme diferença entre procurar alguma coisa e simplesmente não saber mais para onde ir.

Naquele momento da peça, eu não enxergava um homem celebrando liberdade.

Eu enxergava um homem descendo.

E quanto mais ele descia, mais distante parecia ficar daquilo que realmente procurava.

Esse é um mecanismo humano assustadoramente comum.

Sentimos um vazio.

Tentamos preenchê-lo.

Não funciona.

Então aumentamos a dose.

Mais bebida.

Mais barulho.

Mais gente.

Mais distração.

Mais excessos.

Até que aquilo que deveria preencher o vazio passa apenas a impedir que escutemos o próprio vazio.




💔 Mas havia outra peça acontecendo ao meu lado

Enquanto Ulisses atravessava seu inferno particular, percebi que Ana Paula assistia a outra história.

O mesmo cenário.

As mesmas luzes.

Os mesmos atores.

Mas outra peça.

Porque para ela a palavra bordel possuía memória.

Possuía contexto.

Possuía perguntas.

Talvez inclusive aquela pergunta terrível que algumas pessoas acabam fazendo depois de uma traição:

“O que ele foi procurar lá que não encontrou comigo?”

É uma pergunta perigosa porque frequentemente transforma a escolha de outra pessoa em um julgamento sobre nós mesmos.

E o teatro não precisava responder.

Aliás, provavelmente nem deveria.

Bastava provocar.



🎭 É aqui que o teatro deixa de ser entretenimento

Foi então que compreendi uma coisa que aquele pequeno vídeo de 2016 jamais conseguiria registrar completamente.

Nós não estávamos simplesmente seguindo atores pelos espaços da antiga estação.

Estávamos carregando nossas próprias histórias atrás deles.

Cada espectador levava consigo um banco de dados invisível.

Amores.

Separações.

Traições.

Desejos.

Culpas.

Medos.

Lembranças.

Quando determinada cena encontrava a chave correta, fazia um SELECT numa tabela que talvez estivesse há anos sem ser consultada.

E o resultado aparecia.

Às vezes bonito.

Às vezes engraçado.

Às vezes doloroso.

Ana Paula provavelmente encontrou naquela luz vermelha registros que preferiria manter arquivados.

💾 O banco de dados emocional não possui DELETE

Talvez essa seja uma das grandes ilusões humanas.

Achamos que esquecer significa apagar.

Não significa.

Muitas vezes apenas deixamos de acessar.

O registro continua lá.

Uma música pode recuperá-lo.

Um perfume.

Uma estação ferroviária.

Uma frase.

Uma fotografia.

Ou uma placa de neon vermelha encontrada inesperadamente durante uma peça de teatro.

Para um programador COBOL, eu explicaria assim:

não era um arquivo apagado.

Era um registro marcado como inativo.

E aquela cena realizou inesperadamente um:

READ MEMORIA

STATUS: 00

Registro encontrado.

🌑 E Ulisses continuou descendo

A peça, entretanto, não parava para explicar nada disso.

Esse talvez fosse seu maior mérito.

Ulisses continuava caminhando.

Nós continuávamos seguindo.

A escuridão continuava.

As vozes continuavam surgindo de lugares que não conseguíamos localizar.

E aquela luz vermelha permanecia atrás de nós.

Mas alguma coisa já tinha mudado.

Porque descobrimos que a verdadeira cenografia não estava apenas naquela antiga estação.

Estava dentro de cada pessoa que caminhava por ela.

Para alguns, aquela sequência poderia ser engraçada.

Para outros, provocativa.

Para outros, simplesmente mais uma etapa da aventura de Ulisses.

Para Ana Paula, entretanto, havia uma ferida antiga escondida naquele corredor.

E talvez esteja justamente aí a força daquele momento.

Ulisses entrou perdido no bordel.

Nós entramos atrás dele.

Mas cada espectador levou consigo seus próprios fantasmas.

E alguns fantasmas conheciam muito bem o caminho.

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Ulisses desce ao fundo do poço


Perdido em sua noitada de bebedeira, nosso amigo Ulisses vai parar em um bordel, perdido, alcoolizado ele entra na esbornia.



O negocio esta feio, perdeu o amor próprio, choraminga, reclama se perde e agora vai ao bordel, seu pobre amor esta em casa, sozinha abandonada e ele aqui na perdição.

Incrivelmente divertida esta passagem do nosso amigo, sem eira nem beira, indo ao fundo e tentando se descobrir e reencontrar.

Sera que esta historia terminara bem?

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🎭 Teatro na Estação — Campinas 2016

Uma viagem pelos registros do Teatro na Estação, na Estação Cultura de Campinas, incluindo a passagem de Ulisses à Deriva em 21 de maio de 2016.

Esta coleção reúne vídeos, relatos e memórias registrados durante o evento Teatro na Estação, preservando diferentes momentos da programação cultural realizada na antiga estação ferroviária de Campinas.

🚂 Uma estação transformada em palco

Em maio de 2016, a Estação Cultura de Campinas recebeu apresentações em que teatro, música, performances e personagens ocuparam plataformas, vagões e antigos espaços ferroviários.

Estes registros formam uma pequena memória digital daquele encontro entre ferrovia, patrimônio histórico, teatro, música e cultura em Campinas.

Entre as apresentações estava Ulisses à Deriva, montagem relacionada ao universo de Ulysses, de James Joyce, transformando a antiga estação em mais uma parada na longa viagem de Leopold Bloom.

📺 Visor — Teatro na Estação Artigo principal carregado
↗ Abrir publicação

📚 Teatro, ferrovia e memória cultural de Campinas

O projeto Teatro na Estação ocupou a histórica Estação Cultura de Campinas com apresentações, música, teatro e performances. Estes registros publicados no Bellacosa Mainframe preservam diferentes fragmentos daquela experiência cultural.

A coleção inclui cenas relacionadas a Ulisses à Deriva, além de músicos, personagens, performances e intervenções realizadas no ambiente ferroviário.

O conjunto conecta temas como Campinas, Estação Cultura, patrimônio ferroviário, teatro brasileiro, James Joyce, Ulysses, Leopold Bloom, Molly Bloom, literatura, música e memória cultural.

8118 Teatro na Estaçao: Ulisses a deriva

Bellacosa Mainframe e o teatro amador na estação cultura em campinas

🚂 8118 — Teatro na Estação: Ulisses à Deriva

Até perdi a conta do capítulo...

Em algum ponto desta história eu deveria estar simplesmente gravando uma apresentação de teatro amador.

Esse era o plano.

Mas planos, como horários ferroviários e documentação de sistemas legados, possuem uma relação bastante flexível com a realidade.

Estamos nos corredores do antigo prédio administrativo da Companhia Paulista, posteriormente incorporado à Fepasa, testemunha de uma época em que os trilhos cortavam São Paulo rumo ao oeste carregando passageiros, trabalhadores, histórias e uma quantidade incalculável de café.

E lá estou eu.

Câmera na mão.

Completamente à deriva.

Nosso grupo teatral continua avançando pelos corredores, salas e salões do antigo complexo ferroviário, enquanto eu sigo atrás tentando descobrir onde termina a peça e começa a exploração do prédio.

A essa altura, sinceramente, já perdi a conta do capítulo.



🍺 Recapitulando o episódio anterior...

Porque toda grande saga precisa de um resumo.

Já passamos pelo boteco.

Filamos a breja na faixa.

Ouvimos os músicos tocando.

Observamos personagens que provavelmente nem faziam parte oficialmente do espetáculo, mas que imediatamente foram incorporados ao universo cinematográfico desta produção absolutamente descontrolada.

E agora seguimos para o interior da estação.

Sem mapa.

Sem GPS.

Sem documentação.

Sem garantia de que alguém saiba exatamente para onde estamos indo.

Perfeito.



🚪 Uma porta leva a outra

Entramos em novos ambientes.

Corredores aparecem.

Salões surgem.

Portas conduzem a outras portas.

E aquele velho prédio administrativo começa a revelar pequenas partes de uma história muito maior do que nossa apresentação teatral.

Durante décadas, pessoas trabalharam ali.

Papéis circularam por aquelas salas.

Decisões ferroviárias foram tomadas.

Funcionários chegaram pela manhã, tomaram café, reclamaram dos chefes, olharam relógios e foram embora no final do expediente.

Agora, anos depois, um grupo de teatro atravessa os mesmos espaços.

E atrás deles segue um sujeito com uma câmera registrando tudo.

Há algo maravilhosamente estranho nisso.



🎭 Ulisses continua à deriva

Talvez por isso o título funcione tão bem.

Ulisses passou anos tentando encontrar o caminho de casa.

Eu estou tentando encontrar o próximo ato.

Cada sala parece uma pequena ilha.

Cada corredor oferece uma nova possibilidade.

E seguimos.

Depois da cerveja.

Depois dos músicos.

Depois do boteco.

Depois de tantos capítulos que o departamento responsável pela continuidade simplesmente desistiu.

Agora resta apenas uma ordem operacional:

vamos que vamos.


E talvez seja justamente esse o encanto desses vídeos.

Não existe roteiro perfeito.

Não existe fotografia cuidadosamente planejada.

Não existe alguém explicando solenemente diante da câmera a importância histórica de cada parede.

Existe simplesmente gente ocupando novamente um prédio antigo.

Existe música.

Existe teatro.

Existe cerveja.

Existe ferrovia.

Existe história.

E existe uma câmera curiosa registrando aquilo que, naquele momento, parecia apenas uma noite divertida.

Anos depois, o vídeo ganha outra função.

Vira documento.

Mostra corredores que talvez tenham mudado.

Salas que podem ter recebido outras funções.

Paredes restauradas ou desaparecidas.

Pessoas mais jovens.

Vozes.

Roupas.

Sons.

Pequenos detalhes que ninguém pensou em registrar deliberadamente.


📼 E o capítulo?

Não faço a menor ideia.

Talvez seja o 8118.

Talvez seja o capítulo 37.

Talvez seja apenas:

ULISSES.A.DERIVA.CONTINUA

Mas isso pouco importa.

Porque filamos a breja.

Ouvimos os músicos.

Sobrevivemos ao boteco.

Entramos novamente na estação.

E agora continuamos seguindo o grupo teatral pelos corredores da velha ferrovia para descobrir onde diabos esta história vai terminar.

Se é que vai terminar.

🚂🍺🎭

Vamos que vamos...

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8118 Teatro na Estação: Ulisses a deriva 

ate perdi a conta do capitulo


Nos corredores do antigo prédio administrativo da Cia Paulista, posteriormente Fepasa na extinta ferrovia que cortava São Paulo rumo a oeste, esta eu gravando teatro amador. mas perdido entre salas e salões continuo seguindo o grupo teatral, após passarmos no boteco, seguimos para o interior da estação e vamos descobrir novos ambientes.... esperando para ver o desenlace da historia. filamos a breja na faixa, ouvimos os músicos no boteco e agora vamos que vamos...



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🎭 Teatro na Estação — Campinas 2016

Uma viagem pelos registros do Teatro na Estação, na Estação Cultura de Campinas, incluindo a passagem de Ulisses à Deriva em 21 de maio de 2016.

Esta coleção reúne vídeos, relatos e memórias registrados durante o evento Teatro na Estação, preservando diferentes momentos da programação cultural realizada na antiga estação ferroviária de Campinas.

🚂 Uma estação transformada em palco

Em maio de 2016, a Estação Cultura de Campinas recebeu apresentações em que teatro, música, performances e personagens ocuparam plataformas, vagões e antigos espaços ferroviários.

Estes registros formam uma pequena memória digital daquele encontro entre ferrovia, patrimônio histórico, teatro, música e cultura em Campinas.

Entre as apresentações estava Ulisses à Deriva, montagem relacionada ao universo de Ulysses, de James Joyce, transformando a antiga estação em mais uma parada na longa viagem de Leopold Bloom.

📺 Visor — Teatro na Estação Artigo principal carregado
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📚 Teatro, ferrovia e memória cultural de Campinas

O projeto Teatro na Estação ocupou a histórica Estação Cultura de Campinas com apresentações, música, teatro e performances. Estes registros publicados no Bellacosa Mainframe preservam diferentes fragmentos daquela experiência cultural.

A coleção inclui cenas relacionadas a Ulisses à Deriva, além de músicos, personagens, performances e intervenções realizadas no ambiente ferroviário.

O conjunto conecta temas como Campinas, Estação Cultura, patrimônio ferroviário, teatro brasileiro, James Joyce, Ulysses, Leopold Bloom, Molly Bloom, literatura, música e memória cultural.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
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Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

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