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quarta-feira, 24 de julho de 2024

Arquétipos narrativos em anime entenda como fuinciona

 

Bellacosa Maifnrame e os arquetipos narativos em anime

Arquétipos narrativos em anime

Por que eles funcionam e como moldam nossas maratonas

Todo fã de anime já percebeu que certas personalidades aparecem repetidas vezes nas histórias. A tsundere que esconde o coração mole, o mestre misterioso que sabe mais do que diz, o protagonista desengonçado que descobre poderes absurdos. Esses padrões não surgem por falta de criatividade. Eles são arquétipos narrativos: modelos simbólicos que refletem emoções e comportamentos humanos recorrentes.

Durante minhas últimas maratonas, percebi que muitos desses arquétipos não apenas estruturam enredos, mas se tornaram parte da identidade cultural do anime.

A pergunta é: por que voltamos a eles com tanto prazer?


Conceito rápido

Arquétipos narrativos são personagens que representem ideias universais. Carl Jung falava de imagens que habitam o imaginário coletivo. O anime adotou essa lógica, adicionando exagero, humor e estética própria.

Esses arquétipos facilitam a identificação imediata. Só de olhar para um personagem, sabemos o que esperar. Isso cria conexão rápida com o público e mantém a fantasia fluindo sem explicações longas.


Os principais arquétipos e por que os amamos

1️⃣ Tsundere

Quem é: rude na superfície, apaixonada no fundo. Oscila entre “vai embora” e “não me deixa”.
Função narrativa: gera tensão romântica e humor.
Exemplo popular: Taiga Aisaka (Toradora!).
Curiosidade: “tsun” significa ríspido. “Dere” significa derretido de amor.
Comentário pessoal: talvez seja o arquétipo mais exportado do Japão. Encanta porque mostra que até quem parece forte esconde fragilidade.


2️⃣ Protagonista improvável

Quem é: comum, distraído, meio azarado. De repente, escolhido pelo destino.
Função narrativa: aproxima o espectador.
Exemplo: Subaru (Re:Zero) e Deku (My Hero Academia).
Por que funciona: fantasia de transformação. Todo otaku já sonhou em sair da rotina para um mundo extraordinário.


3️⃣ A idol inocente

Quem é: símbolo de pureza, sempre sorrindo por trás do esforço brutal.
Exemplo: personagens de Love Live!
Comentário: representa a cultura idol japonesa e sua relação contraditória entre fofura e disciplina extrema.


4️⃣ Mestre misterioso

Quem é: guia que guarda segredo importante.
Exemplo: Kakashi (Naruto).
Função: entrega conhecimento aos poucos, move mistérios, instiga teorias.


5️⃣ O senpai inalcançável

Quem é: aquele que admiramos e torcemos para notar o protagonista.
Símbolo: desejo não correspondido.
Exemplo: muitos senpais escolares em animes slice of life.
Curiosidade: o termo senpai tem peso cultural no Japão. Representa hierarquia, mentoria e respeito.


6️⃣ A catgirl ou o arquétipo animal

Quem é: humana com traços de animal.
Exemplo: catgirls, kitsune, coelhinhas mágicas.
Função narrativa: simboliza instinto, liberdade, fofura exagerada.
Comentário: também se conecta com fetiches e fanservice, conforme discutido em outro post.


7️⃣ O vilão filosófico

Quem é: antagonista que acredita estar certo.
Exemplo: Meruem (Hunter x Hunter).
Função: obriga o herói e o público a refletir moralmente.
Impacto: os melhores vilões são aqueles que quase nos convencem.


O que esses arquétipos revelam sobre nós

A estrutura repetida não significa sempre repetitiva. Os japoneses entendem que arquétipos são portais para emoções profundas. Eles servem para:

• Estabelecer empatia imediata
• Guiar evolução emocional do público
• Misturar humor com drama de forma eficaz
• Refletir valores culturais (trabalho duro, disciplina, comunidade)

Quando bem trabalhados, criam personagens memoráveis. Quando mal usados, viram caricatura vazia.


Por que continuamos consumindo isso?

Talvez porque os arquétipos funcionem como espelhos confortáveis. Reconhecemos nossas quedas, medos, paixões e sonhos nesses personagens.

A cada nova obra, esperamos que o roteiro traga algo familiar, porém com toque inédito. É o equilíbrio entre tradição e surpresa que nos mantém maratonando madrugada adentro.


Conclusão da minha experiência de otaku viajante

Toda vez que uma tsundere cora ou um protagonista fracassado descobre seu propósito, sentimos a mesma fagulha que nos fez começar. Não importam quantos animes já vimos.

Arquétipos narrativos não limitam a criatividade. Eles são o alicerce sobre o qual surpresas incríveis podem ser construídas.

Da próxima vez que um mestre misterioso aparecer com tapa olho e um sorriso suspeito, respire fundo. Você sabe que coisa boa está por vir.

terça-feira, 23 de julho de 2024

Vinte Mil Datoms Submarinos: COBOL, Datomic e a Viagem ao Centro de um Banco de Dados que Decidiu que UPDATE Era uma Ideia Suspeita

 

Bellacosa Mainframe e os 20mil datoms submarinos

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Vinte Mil Datoms Submarinos: COBOL, Datomic e a Viagem ao Centro de um Banco de Dados que Decidiu que UPDATE Era uma Ideia Suspeita

🌊 Clojure, Rich Hickey, Cognitect, Nubank, Datalog, EAVT, imutabilidade, transações ACID, Transactor, peers, caches, AWS, DynamoDB e a extraordinária viagem de um COBOLzeiro acostumado a VSAM, IMS, Adabas e Db2 até uma máquina de 2012 que parecia ter sido trazida do futuro pelo capitão Nemo


Nota do diário de bordo — 2012

Existem momentos na história da tecnologia em que alguém olha para aquilo que todos fazem há décadas e comete a inconveniência de perguntar:

“Mas por que fazemos assim?”

Normalmente essa pessoa é convidada a parar de atrapalhar a reunião.

Às vezes ela cria Clojure.

Depois cria Datomic.

Se Júlio Verne tivesse trabalhado com bancos de dados, talvez Vinte Mil Léguas Submarinas começasse numa sala de processamento.

O professor Pierre Aronnax seria um programador COBOL.

Conseil seria DBA.

Ned Land provavelmente trabalharia em Produção.

E o capitão Nemo surgiria diante de uma máquina desconhecida dizendo:

— Senhores, apresento-lhes o Datomic.

O COBOLzeiro examinaria cuidadosamente o equipamento.

— Onde estão minhas tabelas?

— Não pense em tabelas.

— Onde está o UPDATE?

— Não precisamos pensar dessa maneira.

— Onde fica o servidor de banco?

— É complicado.

— Qual linguagem?

— Clojure.

Silêncio.

— Podemos voltar para o barco?

Não.

Já mergulhamos.

E estamos indo fundo.


⚓ Capítulo I — O monstro desconhecido

Para entender por que Datomic parece tão alienígena, precisamos lembrar o mundo em que apareceu.

Era 2012.

Oracle, Db2, SQL Server e PostgreSQL já eram tecnologias extremamente estabelecidas.

MongoDB havia aparecido em 2009.

Cassandra crescia.

Hadoop estava em plena ascensão.

A palavra NoSQL estava por toda parte.

A discussão frequentemente parecia:

RELACIONAL
    │
    │ ACID
    │ SQL
    │ schema
    │ joins
    ▼

       versus

NoSQL
    │
    │ scale-out
    │ distribuição
    │ schema flexível
    │ eventual consistency
    ▼

E no meio dessa batalha aparece uma criatura estranha.

Em março de 2012, a equipe da então Relevance, depois Cognitect, apresentou Datomic ao público. A tecnologia estava profundamente ligada a Rich Hickey, criador da linguagem Clojure. A própria Cognitect contou posteriormente que a equipe havia trabalhado por quase dois anos para transformar a visão de Hickey em um banco de dados.

A edição gratuita apareceria em junho daquele mesmo ano.

Não era IBM.

Não era Oracle.

Não era Microsoft.

Não era uma universidade produzindo um protótipo acadêmico.

Era uma empresa relativamente pequena propondo:

Talvez estejamos decompondo bancos de dados de maneira errada.

O COBOLzeiro experiente imediatamente pergunta:

“E quem decidiu colocar dinheiro de cliente nisso?”

Calma.

Chegaremos lá.


🌊 Capítulo II — Antes de mergulhar, consulte os mapas antigos

Para quem começou diretamente com PostgreSQL ou MySQL, Datomic pode parecer completamente extraterrestre.

Para quem conhece a história dos bancos de dados, nem tanto.

Nossa viagem começa muito antes.

VSAM
 │
 ▼
IMS
 │
 ▼
ADABAS
 │
 ▼
RELACIONAL / DB2
 │
 ▼
DATOMIC

Cada tecnologia respondeu de maneira diferente à pergunta:

O que é um dado e como chegamos até ele?


🗃️ VSAM — encontre o registro

No VSAM KSDS você pensa naturalmente:

KEY
 │
 ▼
INDEX
 │
 ▼
CONTROL AREA
 │
 ▼
CONTROL INTERVAL
 │
 ▼
RECORD

Quer o cliente 12345?

Procure a chave.

O mundo ainda está muito próximo do armazenamento físico.

O programador conhece:

KSDS
ESDS
RRDS
LDS

E aprende rapidamente uma verdade eterna:

A maneira como organizamos dados influencia brutalmente a maneira como conseguimos acessá-los.

Guarde essa frase.

Ela voltará quando encontrarmos:

EAVT
AEVT
AVET
VAET

🌳 Capítulo III — IMS constrói uma árvore no fundo do oceano

IMS oferece outro universo.

CLIENTE
   │
   ├── CONTA
   │     │
   │     └── MOVIMENTO
   │
   └── ENDEREÇO

Hierarquia.

Parent.

Child.

Segmentos.

DL/I.

Agora o programador precisa entender:

Qual é o caminho até meu dado?

O banco não precisa ser uma coleção de tabelas.

Esse detalhe será importante daqui a pouco.


🧙 Capítulo IV — ADABAS aparece com seus descritores

Então encontramos Adabas.

Outra filosofia.

Temos conceitos como:

FILE
FIELD
ISN
DESCRIPTOR
SUPERDESCRIPTOR

A estrutura física e a maneira lógica de localizar informações tornam-se novamente interessantes.

Nosso viajante aprende outra lição:

A visão apresentada à aplicação não precisa reproduzir literalmente a organização física.

Portanto, quando Datomic disser:

ENTITY
ATTRIBUTE
VALUE
TRANSACTION

um veterano pode estranhar.

Mas não deveria entrar em pânico.

Já vimos criaturas mais estranhas.


🏛️ Capítulo V — Db2 e a grande revolução declarativa

Então chega o modelo relacional.

Agora você pode escrever:

SELECT NOME, SALDO
FROM CONTA
WHERE CLIENTE = 12345;

Observe a revolução.

Você não disse:

vá para CI
localize índice
ande três registros
encontre ponteiro

Você disse:

Quero isto.

O otimizador decide como encontrar.

Essa abstração foi monumental.

Mas nosso cérebro passou décadas construindo outra imagem:

TABLE
  │
  ├── ROW
  ├── ROW
  ├── ROW
  └── ROW

E depois:

UPDATE CONTA
SET SALDO = 800
WHERE CLIENTE = 12345;

Antes:

SALDO = 1000

Depois:

SALDO = 800

Naturalmente Db2 possui logging, recovery, temporal tables, auditoria e uma enorme infraestrutura para preservar e reconstruir estados.

Mas nosso modelo mental da aplicação normalmente continua:

ESTADO ANTIGO
     │
   UPDATE
     │
     ▼
ESTADO NOVO

É justamente aqui que o Nautilus aparece.


🐙 Capítulo VI — Capitão Rich Hickey pergunta: “Por que destruir o passado?”

Rich Hickey vem do mundo da programação funcional.

Uma de suas grandes obsessões intelectuais é estado e identidade ao longo do tempo.

Em vez de:

X = 10

X = 20

X = 30

pense:

X em T1 = 10
X em T2 = 20
X em T3 = 30

Parece uma pequena mudança.

Não é.

É a entrada para o submarino.

Datomic leva essa ideia para o banco de dados.

Em vez de pensar primordialmente:

“O banco é um conjunto de registros que vou modificando.”

pense:

“O banco acumula fatos ao longo do tempo.”

A documentação oficial descreve Datomic justamente em torno de database values imutáveis e informação acumulada transacionalmente.

Documentação oficial do Datomic


🔬 Capítulo VII — Descobrimos o Datom

A unidade fundamental é o:

DATOM

Conceitualmente:

E A V Tx Added?

Onde:

E  = Entity
A  = Attribute
V  = Value
Tx = Transaction

Imagine:

[1001 :cliente/nome "Arthur Dent" 5001 true]

Leia:

Na transação 5001 foi afirmado que a entidade 1001 possui nome Arthur Dent.

Outro:

[1001 :cliente/limite 5000 5002 true]

Depois o limite muda.

Não precisamos imaginar simplesmente:

5000 → destruído
8000 → colocado no lugar

Podemos representar conceitualmente:

T1

CLIENTE 1001
LIMITE 5000

Depois:

T2

RETRACT
CLIENTE 1001
LIMITE 5000

ASSERT
CLIENTE 1001
LIMITE 8000

Agora Datomic conhece:

T1 → 5000
T2 → 8000

O passado continua fazendo parte da história.


⏰ Capítulo VIII — O banco possui uma máquina do tempo

Aqui Júlio Verne provavelmente pediria licença para escrever outro livro.

Imagine uma auditoria.

— Qual é o limite do cliente?

R$ 8.000

— Qual era ontem?

R$ 5.000

— E antes?

R$ 3.000

Datomic possui conceitos como:

as-of
since
history

que permitem trabalhar naturalmente com diferentes visões temporais do database.

Isso produz uma imagem maravilhosa:

DATABASE T0
     │
     ▼
DATABASE T1
     │
     ▼
DATABASE T2
     │
     ▼
DATABASE T3

Você está em T3.

Mas pode perguntar como o mundo era em T1.

Para finanças, auditoria e investigação, isso é sedutor.


💰 Capítulo IX — “Agora entendi por que um banco gostou disso”

Exatamente.

Bancos vivem de perguntas temporais.

Qual era o saldo?

Quando mudou?

Qual regra estava vigente?

Quando o limite foi alterado?

Que informação conhecíamos naquele momento?

Qual transação introduziu esse fato?

Datomic torna o tempo parte fundamental do modelo.

Mas atenção!

Isso não significa automaticamente que Datomic seja melhor que Db2 para bancos.

Db2 possui recursos temporais, logs, auditoria, recovery, CDC e décadas de engenharia financeira.

A diferença interessante é filosófica:

DATOMIC

TEMPO + IMUTABILIDADE
        │
        ▼
estão no coração
do modelo

🧭 Capítulo X — Mas quem teve coragem de escolher isso?

E aqui chegamos ao Nubank.

Quando uma instituição tradicional escolhe um database, normalmente existe um questionário quase jurássico:

Quantos bancos usam?

Há quanto tempo existe?

Quem fornece suporte?

Quantos DBAs existem?

Tem HA?

Tem DR?

Tem backup?

Tem recovery?

Tem ferramentas?

Tem referência?

Quem atende domingo às 03:00?

E essas perguntas são excelentes.

Agora imagine Datomic por volta de 2014:

Datomic
lançamento: 2012
ecossistema: pequeno
Clojure
Cognitect
Datalog
modelo incomum

COBOLzeiro:

“Vocês perderam completamente o juízo?”

😂

Mas Nubank possuía uma vantagem gigantesca:

não havia legado.

Uma instituição tradicional começa:

NOVO SISTEMA
     │
     ▼
40 ANOS DE HISTÓRIA
     │
 ┌───┼────┐
 │   │    │
CICS DB2 IMS
 │   │    │
COBOL MQ  BATCH

Uma startup começa muito mais perto de:

┌───────────────────┐
│                   │
│       VAZIO       │
│                   │
└───────────────────┘

Ela pode perguntar:

Se começássemos agora, o que escolheríamos?

Essa liberdade permitiu escolhas muito mais ousadas.


🧬 Capítulo XI — Clojure entra no submarino

E aqui finalmente chegamos à linguagem que assustou nosso COBOLzeiro.

Clojure é uma linguagem funcional da família Lisp criada por Rich Hickey.

Você encontra:

(+ 1 2)

COBOLzeiro:

— Por que o operador está antes dos números?

Capitão Nemo:

— Continue.

Depois:

(when (> saldo limite)
  (bloquear-conta conta))

— Certo. Estranho, mas sobrevivo.

Então aparecem funções, estruturas persistentes, composição e imutabilidade.

A ideia central começa a emergir:

COBOL IMPERATIVO

ESTADO A
   │
 MOVE
 COMPUTE
 ADD
 SUBTRACT
   │
   ▼
ESTADO B

Clojure favorece pensar:

VALOR A
   │
 FUNÇÃO
   │
   ▼
VALOR B

Sem necessariamente destruir A.

Agora coloque Datomic ao lado:

CLOJURE
    │
    ▼
IMUTABILIDADE
    │
    ▼
VALORES
    │
    ▼
DATOMIC
    │
    ▼
FATOS
    │
    ▼
TEMPO

De repente Clojure + Datomic deixam de parecer um casamento acidental.

São parentes intelectuais.


🗺️ Capítulo XII — Datalog: SQL desapareceu!

O COBOLzeiro pergunta:

— Certo. Quero fazer um SELECT.

Capitão Nemo:

— Datalog.

— Um quê?

Uma query pode parecer:

[:find ?nome
 :where
 [?e :cliente/nome ?nome]]

Leia:

encontre valores ?nome onde exista uma entidade ?e cujo atributo :cliente/nome tenha esse valor.

Conceitualmente:

SELECT NOME
FROM CLIENTE;

Outra:

[:find ?nome
 :where
 [?e :cliente/nome ?nome]
 [?e :cliente/status :ativo]]

Aproximadamente:

SELECT NOME
FROM CLIENTE
WHERE STATUS = 'ATIVO';

Não tente transformar Datalog em SQL palavra por palavra.

Aprenda a lógica.


🧭 Capítulo XIII — Quatro bússolas: EAVT, AEVT, AVET, VAET

Agora nosso velho conhecimento de VSAM retorna triunfante.

Datomic mantém diferentes ordenações dos datoms:

EAVT
AEVT
AVET
VAET

Pense:

E = ENTITY
A = ATTRIBUTE
V = VALUE
T = TRANSACTION

EAVT:

ENTITY
 ATTRIBUTE
  VALUE
   TRANSACTION

Bom para perguntar:

O que sabemos sobre esta entidade?

AVET:

ATTRIBUTE
 VALUE
  ENTITY
   TRANSACTION

Interessante quando buscamos entidades através de valores indexados.

O velho VSAMzeiro sorri.

“Ahhhhh. Diferentes caminhos ordenados para chegar aos dados.”

Não é VSAM.

Mas o cérebro encontrou uma ponte.


⚙️ Capítulo XIV — Onde está o database server?

Agora começa a parte realmente Verne.

No Datomic Pro clássico, temos algo como:

                    TRANSACTOR
                        │
                     WRITES
                        │
                        ▼
                     STORAGE
                    ↗       ↖
                   /         \
                PEER         PEER
                 │             │
               QUERY         QUERY
                 │             │
               CACHE         CACHE

O Transactor coordena as transações.

Os Peers podem executar consultas próximos/dentro dos processos das aplicações.

O Storage persiste informação.

É uma decomposição diferente daquela imagem clássica:

APPLICATION
     │
     ▼
DATABASE SERVER
     │
     ▼
DISK

🔐 Capítulo XV — ACID continua a bordo

Datomic não respondeu ao problema de escala dizendo:

“Consistência é superestimada.”

Ele mantém transações ACID.

A — Atomicity
C — Consistency
I — Isolation
D — Durability

E mantém uma ordem transacional.

Para um sistema financeiro isso é extremamente relevante.

Mas aqui aparece a primeira grande limitação arquitetural que nosso dinossauro imediatamente detectaria.


🚨 Capítulo XVI — “Onde está o gargalo?”

Leituras podem escalar horizontalmente através de peers/compute.

              STORAGE

       ↙         ↓         ↘

    PEER       PEER       PEER
      │          │          │
    READ       READ       READ

Bonito.

Mas as escritas precisam respeitar a coordenação transacional.

Então:

READS
  │
  ├── PEER
  ├── PEER
  ├── PEER
  └── PEER

podem escalar muito bem

Enquanto:

WRITES
  │
  ▼
ordenação transacional

O COBOLzeiro levanta a mão.

— Qual é o limite de escrita?

Excelente pergunta.

Muito melhor que perguntar simplesmente:

“Quantos terabytes suporta?”


🧠 Capítulo XVII — CPU × memória × storage

Aqui voltamos ao capacity planning.

Datomic pode possuir uma base muito maior que a memória disponível porque trabalha com índices segmentados e camadas de cache.

Portanto:

DATABASE SIZE ≠ REQUIRED RAM

Imagine:

DATABASE = 20 TB

WORKING SET = 15 GB

CACHE/RAM = 64 GB

Potencialmente excelente.

Grande parte daquilo que a aplicação toca frequentemente cabe próximo da CPU.

Agora:

DATABASE = 2 TB

WORKING SET = 1,5 TB

CACHE/RAM = 64 GB

Problema.

QUERY
  │
  ▼
CACHE MISS
  │
  ▼
CACHE MISS
  │
  ▼
STORAGE
  │
  ▼
LATENCY

Portanto, a pergunta correta não é:

“Qual é o tamanho da base?”

É:

“Qual é o working set?”

Um veterano de buffer pool já ouviu música semelhante.


🧊 Capítulo XVIII — A imutabilidade produz caches deliciosos

Cache tradicional possui um problema clássico:

DATABASE = X
CACHE    = X

DATABASE muda para Y

CACHE continua X

OPS.

Precisamos invalidar.

Atualizar.

Sincronizar.

Datomic possui segmentos imutáveis.

Um segmento histórico que era correto continua correto.

Isso produz:

IMMUTABILITY
     │
     ▼
CACHE SEGURO
     │
     ▼
LOCALITY
     │
     ▼
READ PERFORMANCE

É uma consequência extremamente elegante da arquitetura.


🗄️ Capítulo XIX — Mas imutabilidade cobra aluguel no storage

Nada é grátis.

Imagine:

SALDO

T1  1000
T2   800
T3  1200
T4   950
T5  1400

Se você preserva história, está armazenando mais informação.

Além disso, Datomic mantém diferentes índices dos datoms.

Portanto:

MAIS HISTÓRIA
      +
MAIS INDEXAÇÃO
      =
MAIS STORAGE

Isso é intencional.

A filosofia poderia ser resumida:

Storage é relativamente barato; perder conhecimento sobre o passado pode ser caríssimo.

Em finanças, essa frase ganha outro peso.


🏎️ Capítulo XX — E a indexação precisa acompanhar o submarino

Transações produzem novos datoms.

Simplificando:

TRANSACTIONS
      │
      ▼
MEMORY INDEX
      │
      ▼
BACKGROUND INDEXING
      │
      ▼
PERSISTENT INDEX

Agora imagine:

ENTRADA DE NOVOS DATOMS
         >
CAPACIDADE DE INDEXAÇÃO

O memory index começa a crescer.

Se isso continuar, Datomic precisa exercer back pressure, reduzindo a capacidade de aceitar novas transações enquanto a indexação recupera terreno.

Eis uma lição universal:

Você não pode escrever eternamente mais rápido do que consegue organizar aquilo que escreveu.

Nem no Nautilus.

Nem na AWS.

Nem no z17.


☁️ Capítulo XXI — A AWS entra na expedição

Datomic Cloud utiliza serviços da AWS para diferentes funções, incluindo tecnologias como DynamoDB e S3, além de camadas de compute/cache. A arquitetura oficial detalha essa separação.

Isso permite explorar:

DURABILITY
     │
     ▼
STORAGE

+

COMPUTE
     │
     ▼
CACHE / QUERY

Mas lembre-se:

cloud não aboliu capacity planning.

Ela apenas mudou o formulário de compra.

Antigamente:

PRECISO DE CPU

↓
capacity planning
↓
hardware
↓
instalação

Cloud:

PRECISO DE CPU

↓
API

↓
FATURA

A física continua lá.


🐘 Capítulo XXII — Até onde uma base Datomic pode crescer?

A resposta correta não é um número mágico.

Não existe:

DATOMIC MAXIMUM =
37,42 TB

que resolva nossa arquitetura.

Precisamos analisar:

database size
+
datom count
+
working set
+
write rate
+
read rate
+
query complexity
+
cache hit ratio
+
indexing rate
+
storage latency
+
CPU
+
RAM
+
GC
+
data model

Portanto:

CAPACITY =
f(storage,
  cpu,
  memory,
  workload,
  locality,
  writes,
  reads,
  indexes)

Muito familiar, não?


🧟 Capítulo XXIII — O fantasma chamado Garbage Collection

Lembremos:

Clojure/JVM.

Peers.

Caches.

Objetos.

RAM.

E então surge das profundezas:

          GC
         /  \
        /    \
       /      \
      👻

O COBOLzeiro:

“EU SABIA!”

😂

Mais RAM nem sempre significa simplesmente:

MAIS RAM = MAIS RÁPIDO

Heap, cache, allocation patterns e garbage collection precisam ser observados.

O submarino continua sujeito às leis da JVM.


🏦 Capítulo XXIV — Então Nubank colocou tudo numa database monstruosa?

Não.

E isso é crucial.

O sucesso do Datomic dentro do Nubank não deve ser imaginado assim:

         ONE DATOMIC

█████████████████████████████
TODOS OS CLIENTES
TODOS OS PRODUTOS
TODAS AS TRANSAÇÕES
█████████████████████████████

A arquitetura evoluiu em torno de muitos serviços e databases.

Ou seja, escala pode ser obtida também decompondo:

PLATFORM
   │
   ├── SERVICE A → DATABASE A
   │
   ├── SERVICE B → DATABASE B
   │
   ├── SERVICE C → DATABASE C
   │
   └── SERVICE D → DATABASE D

Agora temos outro tipo de escalabilidade.

Em vez de perguntar:

“Até onde uma única database consegue crescer?”

perguntamos:

“Como particionamos o domínio?”


🔬 Capítulo XXV — O experimento que virou banco gigantesco

Aqui está o aspecto extraordinário.

Quando Nubank escolheu Datomic, não colocou imediatamente cem milhões de clientes sobre ele.

O processo foi aproximadamente:

STARTUP
   │
   ▼
milhares
   │
   ▼
centenas de milhares
   │
   ▼
milhões
   │
   ▼
dezenas de milhões
   │
   ▼
100+ milhões

A arquitetura amadureceu junto com a instituição.

Esse é um experimento completamente diferente de:

BANCO TRADICIONAL

SEXTA 23:59
DESLIGAR DB2

SEGUNDA 06:00
LIGAR DATOMIC

BOA SORTE.

😂


🏭 Capítulo XXVI — Quem mais usa?

E aqui encontramos uma peculiaridade.

Datomic possui outros clientes públicos e o mantenedor fala em centenas de organizações, mas ele jamais alcançou a ubiquidade de:

Oracle
Db2
PostgreSQL
SQL Server
MongoDB

Seu ecossistema continua relativamente especializado.

Isso explica por que alguém pode trabalhar décadas com bancos de dados e praticamente nunca encontrá-lo.

Seu grafo tecnológico está muito mais próximo de:

CLOJURE
   │
   ▼
FUNCTIONAL PROGRAMMING
   │
   ▼
RICH HICKEY
   │
   ▼
COGNITECT
   │
   ▼
DATOMIC

que do universo:

COBOL
 │
CICS
 │
DB2
 │
IMS

Os continentes existem no mesmo planeta.

Mas poucas rotas marítimas os ligavam.


💜 Capítulo XXVII — O cliente compra o construtor do submarino

Agora vem um dos melhores Easter eggs da história.

Datomic era produzido pela Cognitect.

Nubank tornou-se enorme usuário de Clojure e Datomic.

Então, em 23 de julho de 2020, Nubank anunciou a aquisição da Cognitect.

Nubank — aquisição da Cognitect

A sequência fica:

COGNITECT
    │
    ├── CLOJURE
    │
    └── DATOMIC
          │
          ▼
       NUBANK
          │
          ▼
       USA MUITO
          │
          ▼
       ESCALA
          │
          ▼
2020 ─ NUBANK COMPRA COGNITECT

É como se o passageiro do Nautilus dissesse:

“Gostei do submarino.”

E comprasse o estaleiro.


⚠️ Capítulo XXVIII — Mas quem declarou que isso era seguro para finanças?

Ninguém em Brasília publicou:

RESOLUÇÃO Nº 42

Art. 1º Datomic está aprovado.

Art. 2º Clojure está liberado.

Art. 3º Pode ir tranquilo.

😂

Reguladores normalmente não homologam linguagens e bancos de dados dessa maneira.

A responsabilidade continua com a instituição.

A pergunta regulatória é muito mais:

Você controla o risco?

Você protege os dados?

Você garante continuidade?

Você possui governança?

Você testa recuperação?

Você monitora?

Você audita?

Você consegue provar integridade?

Tecnologia é uma parte.

Arquitetura e controles são outra.


🚨 Capítulo XXIX — ACID não significa “banco seguro”

Essa distinção merece uma placa no submarino.

ACID
 ≠
HA
 ≠
DR
 ≠
CYBERSECURITY
 ≠
CORRECTNESS
 ≠
CAPACITY
 ≠
RECONCILIATION

Um database pode funcionar perfeitamente enquanto sua aplicação executa uma regra errada.

AWS       OK
DATOMIC   OK
NETWORK   OK
CPU       OK
MEMORY    OK

BUSINESS RULE
       ↓
      BUG

Parabéns.

Você possui uma infraestrutura extremamente confiável executando o cálculo errado.

Em altíssima velocidade.


💵 Capítulo XXX — Dinheiro precisa fechar

Aqui desaparecem modismos.

Não importa se usamos:

COBOL
CLOJURE
JAVA
RUST

nem:

VSAM
IMS
ADABAS
DB2
DATOMIC

Em algum momento alguém precisa provar:

SALDO INICIAL
+
CRÉDITOS
-
DÉBITOS
=
SALDO FINAL

E:

Σ DÉBITOS
=
Σ CRÉDITOS

E reconciliar:

LEDGER
   ↕
PIX
   ↕
CARTÕES
   ↕
LIQUIDAÇÃO
   ↕
CONTABILIDADE

A tecnologia pode mudar radicalmente.

A contabilidade permanece brutalmente conservadora.

E ainda bem.


🦖 Capítulo XXXI — O dinossauro faz as perguntas certas

Quando um veterano pergunta:

“Quem mais usa?”

isso não é necessariamente resistência à inovação.

É análise de risco.

Quando pergunta:

“Quem fornece suporte?”

é análise de risco.

Quando pergunta:

“Como recupera?”

é análise de risco.

Quando pergunta:

“Qual é o limite?”

é análise de risco.

Quando pergunta:

“Quem atende às 03:47?”

é experiência adquirida através de trauma operacional.

Produtos maduros carregam milhares de funcionalidades aparentemente burocráticas porque algum cliente, em algum domingo, descobriu que precisava delas.


🧭 Capítulo XXXII — O roteiro para um COBOLzeiro aprender Datomic

Não comece por Clojure.

Eu seguiria esta rota:

ETAPA 1
DATOM
E A V T

Entenda o fato.

Depois:

ETAPA 2
ENTITY
ATTRIBUTE
VALUE

Depois:

ETAPA 3
ASSERT
RETRACT

Depois:

ETAPA 4
TIME
HISTORY
AS-OF

Depois:

ETAPA 5
EAVT
AEVT
AVET
VAET

Depois:

ETAPA 6
TRANSACTOR
PEER
STORAGE

Depois:

ETAPA 7
CACHE
MEMORY INDEX
BACKGROUND INDEXING

Depois:

ETAPA 8
DATALOG

E só então:

ETAPA 9

CLOJURE

Porque aí os parênteses terão um motivo para existir.


🐋 Capítulo XXXIII — As dez perguntas universais

Pegue qualquer banco de dados.

Faça sempre estas perguntas:

1. O que representa um dado?

2. Como identifico uma entidade?

3. Como encontro o dado?

4. Como relaciono informações?

5. Como altero estado?

6. Como indexo?

7. Como transaciono?

8. Como recupero?

9. Como escalo?

10. O que acontece quando tudo dá errado?

Aplique a:

VSAM
IMS
ADABAS
DB2
DATOMIC

As respostas mudam.

As perguntas permanecem.

Isso é arquitetura.


🌊 Epílogo — O Nautilus chega ao século XXI

Depois de vinte mil datoms submarinos, nosso COBOLzeiro finalmente encontra o capitão Nemo na sala de máquinas.

— Admito que é interessante.

Nemo sorri.

— Datomic?

— Sim.

— Imutabilidade?

— Interessante.

— Datalog?

— Sobreviverei.

— Clojure?

O COBOLzeiro fica em silêncio.

— Ainda não abuse da sorte.

😂

Ele observa pela janela.

Do lado de fora passam:

EAVT
AEVT
AVET
VAET

como enormes criaturas marinhas.

No painel:

CPU       63%
MEMORY    71%
CACHE HIT 96%
INDEXING  OK
STORAGE   GROWING

O programador sorri.

Porque finalmente reconheceu alguma coisa.

Capacity planning.

Mudamos:

CONTROL INTERVAL

por:

DATOM

Mudamos:

BUFFER POOL

por outras camadas de:

CACHE

Mudamos:

SQL

por:

DATALOG

Mudamos:

DBMS SERVER

por uma arquitetura de:

TRANSACTOR
+
PEERS
+
STORAGE

Mudamos:

UPDATE

por uma filosofia de:

ASSERT
+
RETRACT
+
HISTORY

Mas não conseguimos eliminar:

CPU
MEMÓRIA
STORAGE
I/O
LATÊNCIA
CONTENÇÃO
INDEXAÇÃO
RECOVERY
CAPACITY
AUDITORIA
RISCO

Porque Rich Hickey pode desafiar quarenta anos de design de bancos de dados.

Pode transformar database em valor.

Pode transformar alterações em fatos.

Pode tornar o tempo uma dimensão natural.

Pode separar query, transação e armazenamento.

Pode até convencer um banco brasileiro recém-nascido a apostar numa tecnologia de aproximadamente dois anos e vê-la crescer junto com uma instituição gigantesca.

Mas existe uma força contra a qual nem Clojure consegue argumentar:

a física.

E talvez seja essa a conclusão mais bonita desta viagem.

Datomic não é interessante porque provou que Db2, IMS, Adabas ou VSAM estavam errados.

É interessante porque alguém teve coragem de perguntar se algumas decisões que considerávamos inevitáveis eram realmente inevitáveis.

Em 2012, aquilo parecia quase uma máquina de Júlio Verne.

Em 2014, escolher aquilo para ajudar a construir um banco parecia uma expedição ao fundo do oceano.

Em 2020, o passageiro comprou o estaleiro: o Nubank adquiriu a Cognitect.

E hoje podemos olhar para a experiência acumulada e descobrir algo ainda mais fascinante:

PASSADO

VSAM
IMS
ADABAS
DB2

        ↓

PRESENTE

DATOMIC
CLOJURE
CLOUD

        ↓

FUTURO

?????????

Não precisamos declarar vencedor.

O verdadeiro aprendizado está em entender por que cada geração tomou suas decisões.

Porque daqui a vinte anos algum jovem provavelmente entrará no CPD — ou seja lá como aquilo se chamar — olhará para Datomic, Kubernetes e AWS e dirá:

“Vocês realmente faziam banco desse jeito?”

O velho COBOLzeiro tomará um gole de café.

Olhará para o Nautilus atracado ao lado de um IBM Z.

E responderá:

“Meu jovem, sente-se. Essa história começou muito antes de você imaginar. Primeiro preciso lhe explicar o que era um KSDS.”

E assim começará outra viagem.

Vinte mil datoms abaixo do SELECT. ☕🌊🦖

domingo, 21 de julho de 2024

Por que existe uma perseguição ao fetichismo nos animes?

 

Bellacosa Mainframe e a polemica do fanservice dos animes

Por que existe uma perseguição ao fetichismo nos animes?

Durante uma maratona recente, percebi algo que se tornou cada vez mais evidente: a presença constante do fetichismo nos animes e, ao mesmo tempo, a onda de críticas e tentativas de censura que vem crescendo ao redor dele. Entre saias esvoaçantes, meias que vão até o meio da coxa e personagens com caudas felinas, o fetiche não é apenas um detalhe estético. Ele virou campo de batalha cultural.

Afinal, por que o fetichismo é tão atacado, mesmo sendo parte da identidade visual e narrativa de tantos animes?


Antes de tudo: o contexto

O anime nasceu em um Japão que encara a sensualidade de forma diferente do Ocidente. É um país que mistura tradição conservadora com uma indústria de entretenimento ousada. Os fetiches estéticos aparecem como:

• Estilo visual (meias, óculos, cosplay)
• Arquétipos narrativos (tsundere, maid, nekomimi)
• Exagero artístico ligado à fantasia e escapismo

Ou seja, o fetichismo não é apenas sexual. É parte da linguagem do anime. O problema surge quando essa linguagem esbarra em diferentes valores culturais, especialmente quando o público é global.


O lado que acusa: “isso é exploração e infantilização”

A crítica atual vem principalmente de três frentes:

1️⃣ Preocupação com a sexualização de menores
A linha entre “adolescentes estilizados” e menor de idade mal definida causa atrito. Personagens que aparentam pouca idade geram desconforto legítimo.

2️⃣ Receio do fetiche virar fetichização
Quando o recurso visual não adiciona nada à história e vira único objetivo da obra, muitos afirmam que se trata apenas de exploração comercial.

3️⃣ O embate com padrões ocidentais
Países com visões mais rígidas sobre sexualidade pressionam plataformas a censurar conteúdo, criando a narrativa de que “anime normaliza comportamentos nocivos”.

Argumento principal deste lado: fetichismo descontrolado banaliza temas sensíveis.



O lado que defende: “faz parte da liberdade artística”

Quem apoia a permanência desse elemento nos animes, normalmente diz:

1️⃣ O fetiche no anime é simbólico
Catgirls, por exemplo, não são “objetos”, mas arquétipos que representam liberdade, fofura e transgressão visual.

2️⃣ Arte precisa de espaço para exagerar
Animes não buscam realismo. Ou seja, fantasia sexual funciona como catarse e imaginação.

3️⃣ Não consumir é mais fácil do que censurar
Há gêneros para todos. Existe anime sem fanservice e existe anime que é só fanservice. A escolha do público deveria prevalecer.

Argumento principal deste lado: limitar fetichismo significa limitar criatividade.


Onde está o equilíbrio?

Como fã, percebo que o debate fica polarizado pela falta de nuances. Alguns pontos parecem razoáveis para ambos os lados:

• Obras que lidam com personagens menores exigem responsabilidade estética e narrativa.
• Fetiche pode ser usado como ferramenta visual legítima, desde que não destrua a própria história.
• Crítica construtiva e liberdade artística não precisam ser inimigas.

O problema não é o fetichismo existir, e sim quando ele substitui enredo, desenvolvimento de personagem ou propósito narrativo.


Conclusão de um otaku apaixonado

O fetichismo nos animes não nasceu para provocar polêmica, mas para enriquecer a fantasia. No entanto, a globalização do anime trouxe novas sensibilidades para o jogo. O fandom está mudando e as produtoras também.

Talvez a verdadeira questão não seja “por que existe fetichismo nos animes?”, mas sim:

“Como equilibrar liberdade artística com responsabilidade cultural?”

Até lá, cada temporada trará novos exemplos da luta entre o “ai meu Deus” e o “ai, que delícia”.

O importante é continuar assistindo com senso crítico e, acima de tudo, entender que o anime é um espelho das nossas fantasias. Algumas nos orgulham. Outras nos assustam. Todas dizem algo sobre nós.

sábado, 20 de julho de 2024

Road Map para Aprender Mainframe

Bellacosa Mainframe e o roadmap mainframe 


☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

A Volta ao Mainframe em 80 Dias — O Road Map de Phileas Fogg para se Tornar um Mainframeiro

🎩🦖 80 dias, oito grandes escalas, COBOL, JCL, z/OS, TSO/ISPF, VSAM, Db2, CICS, RACF, Git, APIs e uma aposta aparentemente impossível: sair de Londres como turista e voltar como programador mainframe

Londres.

Reform Club.

Um cavalheiro inglês consulta seu relógio.

Phileas Fogg.

Metódico.

Pontual.

Imperturbável.

Um homem capaz de tomar café às 08:23 e provavelmente considerar uma execução às 08:24 um incidente de produção.

Sobre a mesa está o Daily Telegraph.

Mas existe uma notícia estranha:

“É possível aprender mainframe em apenas 80 dias?”

Os cavalheiros riem.

Um deles comenta:

— Mainframe? Meu caro Fogg, seriam necessários anos!

Outro acrescenta:

— COBOL possui DIVISIONs!

Um terceiro, claramente traumatizado:

— E existe JCL!

Fogg fecha o jornal.

Consulta o relógio.

Oitenta dias.

Silêncio.

— Impossível!

Fogg responde:

“Então aposto vinte mil libras.”

Nesse exato momento, seu criado Passepartout percebe que provavelmente escolheu o pior dia da história para começar no emprego.

Pegam as malas.

Destino:

IBM Z.

E assim começa nossa...

🌍 VOLTA AO MAINFRAME EM 80 DIAS


🗺️ O mapa da expedição

Nossa viagem terá oito grandes escalas:

LONDRES
   ↓
z/OS + TSO/ISPF
   ↓
SUEZ
   ↓
JCL + JES2 + SDSF
   ↓
BOMBAIM
   ↓
COBOL
   ↓
CALCUTÁ
   ↓
VSAM + DATASETS
   ↓
HONG KONG
   ↓
Db2
   ↓
YOKOHAMA
   ↓
CICS
   ↓
SAN FRANCISCO
   ↓
RACF + USS + Zowe + Git + APIs
   ↓
NOVA YORK
   ↓
INTEGRAÇÃO + DEVOPS + TESTES
   ↓
LONDRES

80 dias.

Não para transformar alguém em especialista.

Isso seria picaretagem.

Mas para fazer algo perfeitamente possível:

construir um mapa mental sólido do ecossistema mainframe e conseguir desenvolver, executar, investigar e integrar uma aplicação simples.

Temos uma aposta.

O relógio começou.


🎩 DIAS 1–10 — LONDRES

Primeira escala: entender o monstro

Antes de programar mainframe precisamos cometer um ato revolucionário:

entender o que é um mainframe.

Não é:

“um computador velho.”

Também não é:

“um PC gigante.”

E definitivamente não é aquele monitor verde que Hollywood coloca em filmes quando alguém precisa invadir o Pentágono.

Precisamos compreender conceitos básicos:

IBM Z
   ↓
z/OS
   ↓
LPAR
   ↓
CPU / CP / zIIP
   ↓
MEMÓRIA
   ↓
STORAGE
   ↓
I/O

E principalmente:

por que essas máquinas existem?

Bancos.

Seguradoras.

Governos.

Companhias aéreas.

Cartões.

Grandes varejistas.

Ambientes que precisam processar volumes enormes com confiabilidade e previsibilidade.


🏛️ Dia 1 — Arquitetura

Aprenda:

IBM Z
LPAR
PR/SM
z/OS
JES
USS
STORAGE

Não tente decorar tudo.

Objetivo:

saber desenhar aproximadamente onde sua aplicação vive.


🖥️ Dias 2–4 — TSO e ISPF

Phileas Fogg entra pela primeira vez no terminal.

Tela:

---------------- ISPF PRIMARY OPTION MENU ----------------

0  Settings
1  View
2  Edit
3  Utilities
4  Foreground
5  Batch
6  Command

Passepartout pergunta:

— Monsieur, onde está o mouse?

Fogg:

— Não precisamos dele.

Passepartout começa a reconsiderar suas escolhas profissionais.

Aprenda:

TSO
ISPF
PF KEYS
COMMAND LINE
MEMBERS
LIBRARIES
EDIT
VIEW
BROWSE

E comandos fundamentais do editor:

I
D
R
C
M
A
B
CC
MM

Aqui começa a alfabetização mainframe.


📦 Dias 5–7 — Datasets

Antes de COBOL:

datasets.

Entenda:

PS
PDS
PDSE
MEMBER
RECFM
LRECL
BLKSIZE
DSORG
DISP

Você precisa conseguir olhar:

BELLACOSA.COBOL.SOURCE

e compreender que isso não é simplesmente uma “pasta”.


🧭 Dias 8–10 — Navegação

Pratique.

Crie datasets.

Crie members.

Edite.

Copie.

Renomeie.

Delete.

Liste.

Phileas Fogg olha para o relógio.

DAY 10
STATUS: ON SCHEDULE

Passepartout comemora.

Erro.

Ainda faltam 70 dias.


🚂 DIAS 11–20 — SUEZ

JCL: comprando a passagem do JOB

Agora precisamos fazer alguma coisa executar.

Entramos no território do:

JCL — Job Control Language

JCL não é exatamente uma linguagem de programação convencional.

É mais parecido com preencher documentos de imigração para convencer o z/OS a deixar seu programa trabalhar.


🎫 JOB

//FOGG80   JOB (ACCT),'AROUND WORLD',
//             CLASS=A,
//             MSGCLASS=X

Nosso passaporte.


🚂 EXEC

//STEP01 EXEC PGM=FOGGCOB

Nosso trem.


🧳 DD

//INPUT DD DSN=FOGG.WORLD.INPUT,DISP=SHR

Nossa bagagem.

Agora aprenda:

JOB
EXEC
DD
DSN
DISP
SPACE
DCB
SYSOUT
STEPLIB
SYSPRINT
SYSIN

🚦 JES2

O JOB é submetido.

SUBMIT

E desaparece.

Passepartout entra em pânico.

— Perdemos o programa!

Não.

Ele entrou no maravilhoso sistema ferroviário chamado:

JES2

Precisamos aprender:

INPUT
EXECUTION
OUTPUT
PURGE

E então:

SDSF

Aqui você aprende a investigar:

JOB STATUS
RC
SYSOUT
JESMSGLG
JESJCL
JESYSMSG

Primeira grande vitória:

MAXCC=0000

Fogg:

— Excelente.

Bellacosa:

— Calma.

Porque todo mainframeiro precisa aprender cedo:

MAXCC=0 significa que o JOB terminou; não significa que você fez a coisa certa.


🐘 DIAS 21–35 — BOMBAIM

COBOL: finalmente encontramos Grace Hopper no caminho

Chegamos à grande escala.

Quinze dias.

Agora COBOL.

Primeiro compreenda sua anatomia:

IDENTIFICATION DIVISION
ENVIRONMENT DIVISION
DATA DIVISION
PROCEDURE DIVISION

Não comece decorando comandos.

Entenda a arquitetura.


🪪 IDENTIFICATION DIVISION

IDENTIFICATION DIVISION.
PROGRAM-ID. FOGG80.

Quem sou eu?


🌍 ENVIRONMENT DIVISION

Onde vivo?

Com quais recursos trabalho?


📦 DATA DIVISION

Aqui está uma das grandes diferenças culturais do COBOL.

Dados são cidadãos de primeira classe.

Aprenda:

PIC X
PIC 9
PIC S9
V
COMP
COMP-3
88 LEVEL
REDEFINES
OCCURS
COPYBOOK

Exemplo:

01 WS-PASSENGER.
   05 WS-NAME       PIC X(30).
   05 WS-AGE        PIC 9(03).
   05 WS-BALANCE    PIC S9(9)V99 COMP-3.
   05 WS-STATUS     PIC X.
      88 ACTIVE     VALUE 'A'.

Não pule essa parte.

Quem não entende DATA DIVISION acaba passando metade da carreira perguntando por que tomou S0C7.


⚙️ PROCEDURE DIVISION

Agora fazemos coisas.

Aprenda:

MOVE
IF
EVALUATE
PERFORM
COMPUTE
ADD
SUBTRACT
MULTIPLY
DIVIDE
DISPLAY
STRING
UNSTRING
INSPECT

Depois:

OPEN
READ
WRITE
REWRITE
CLOSE

🔄 O coração do batch

Você precisa conseguir escrever sozinho algo parecido com:

OPEN
 ↓
READ
 ↓
VALIDATE
 ↓
PROCESS
 ↓
WRITE
 ↓
READ AGAIN
 ↓
CLOSE

Isso parece simples.

É simples.

E variações dessa arquitetura movimentaram quantidades absurdas de negócios durante décadas.


💥 Dias 31–35 — Aprenda a quebrar COBOL

Agora provoque erros.

Sim.

De propósito.

Crie situações que gerem problemas.

Investigue:

S0C7
S0C4
FILE STATUS
RETURN CODE

Use:

DISPLAY 'WS-VALUE=' WS-VALUE

Leia compile listing.

Entenda offsets.

Procure mensagens.

Porque aprender programação sem aprender debugging é como Phileas Fogg aprender a embarcar em navios sem aprender o que fazer quando o navio quebra.


🚢 DIAS 36–43 — CALCUTÁ

VSAM: os dados precisam morar em algum lugar

Agora entramos no universo dos arquivos corporativos.

Aprenda primeiro arquivos sequenciais.

Depois:

VSAM

Conceitos:

KSDS
ESDS
RRDS
LDS
VRRDS

Para começar, concentre-se principalmente no:

KSDS

Entenda:

KEY
RECORD
CI
CA
INDEX
DATA COMPONENT

Depois:

IDCAMS

Comandos:

DEFINE
DELETE
REPRO
LISTCAT

Agora seu COBOL começa a conversar com dados persistentes.


🛳️ DIAS 44–53 — HONG KONG

Db2: SQL entra na viagem

Chegamos ao banco relacional.

Aprenda SQL antes de complicar.

SELECT
INSERT
UPDATE
DELETE

Depois:

JOIN
GROUP BY
ORDER BY
SUBQUERY
INDEX
COMMIT
ROLLBACK

Agora coloque isso dentro de COBOL:

EXEC SQL
   SELECT BALANCE
     INTO :WS-BALANCE
     FROM CUSTOMER
    WHERE CUSTOMER_ID = :WS-ID
END-EXEC.

E imediatamente aprenda:

SQLCODE
SQLSTATE

Porque:

SQLCODE = 0

é maravilhoso.

SQLCODE = +100

conta outra história.

E:

SQLCODE < 0

é quando Passepartout começa a procurar o bote salva-vidas.


🧠 Entenda também

PLAN
PACKAGE
BIND
DBRM
HOST VARIABLE
CURSOR

Não precisa dominar administração Db2.

Nosso objetivo é:

programador COBOL capaz de utilizar Db2 conscientemente.


🇯🇵 DIAS 54–61 — YOKOHAMA

CICS: saímos do batch e entramos no mundo online

Até agora:

JOB
 ↓
PROCESSA
 ↓
TERMINA

Agora:

USUÁRIO
 ↓
TRANSAÇÃO
 ↓
CICS
 ↓
COBOL
 ↓
RESPOSTA

Mudamos de planeta.

Aprenda:

TRANSACTION
PROGRAM
TASK
TERMINAL
COMMAREA
CHANNEL
CONTAINER

Comandos básicos:

EXEC CICS RECEIVE
EXEC CICS SEND
EXEC CICS READ
EXEC CICS WRITE
EXEC CICS LINK
EXEC CICS XCTL
EXEC CICS RETURN

E jamais esqueça:

RESP
RESP2

🖥️ BMS

Conheça:

MAP
MAPSET
SEND MAP
RECEIVE MAP

Você não precisa tornar-se arqueólogo de telas verdes.

Mas precisa entender como aplicações tradicionais online funcionam.


🚨 Entenda a arquitetura

Comece a reconhecer:

TOR
AOR
FOR

e conceitos como:

TSQ
TDQ
PPT
PCT

Agora Phileas Fogg consegue executar batch durante a madrugada e transações durante o dia.

Está ficando perigoso.


🚂 DIAS 62–69 — SAN FRANCISCO

Segurança, Unix e o mainframe que ninguém mostra nos filmes

Agora apresentamos:

RACF

Não precisa virar administrador de segurança.

Mas precisa compreender:

USER
GROUP
RESOURCE
PROFILE
ACCESS
READ
UPDATE
CONTROL
ALTER

E principalmente:

SAF

Comece a compreender que segurança em z/OS não é simplesmente “login e senha”.


🐧 USS

Surpresa.

Existe Unix dentro do z/OS.

Passepartout:

— Linux?

Não.

Unix System Services.

Aprenda:

PATH
FILE
DIRECTORY
PERMISSION
SHELL
PROCESS

Experimente comandos familiares:

ls
cd
cat
grep
chmod

Agora aquela divisão mental:

MAINFRAME | MUNDO MODERNO

começa a desmoronar.

Como deveria.


🔧 Zowe + Git

Chegamos ao século XXI.

Conheça:

Zowe
VS Code
IBM Z Open Editor
Git
GitHub / GitLab

Aprenda o básico:

clone
branch
commit
merge
push
pull

COBOL pode perfeitamente participar de workflows modernos.

Não precisamos sacrificar cartões perfurados numa noite de lua cheia para compilar programa.


🌉 z/OS Connect e APIs

Agora faça a ponte:

MOBILE
   ↓
REST API
   ↓
z/OS CONNECT
   ↓
CICS
   ↓
COBOL
   ↓
DB2

E finalmente compreenda uma coisa fundamental:

modernização não significa necessariamente reescrever.

Às vezes significa integrar.


🗽 DIAS 70–77 — NOVA YORK

DevOps: Phileas Fogg automatiza a viagem

Estamos quase voltando para Londres.

Agora precisamos transformar conhecimento isolado em pipeline.

Conheça:

CI/CD
BUILD
TEST
PACKAGE
DEPLOY

Ferramentas e conceitos possíveis:

DBB
zAppBuild
Jenkins
GitHub Actions
GitLab CI
UrbanCode
Ansible
Zowe
z/OSMF

Não tente aprender profundamente todas.

Entenda:

o fluxo.

SOURCE
   ↓
GIT
   ↓
BUILD
   ↓
COMPILE
   ↓
TEST
   ↓
PACKAGE
   ↓
DEPLOY

🧪 Testes

Aprenda a pensar em:

UNIT TEST
COMPONENT TEST
INTEGRATION TEST
E2E

Conheça:

ZUnit
COBOL Check
Galasa

Mais importante que decorar ferramentas:

faça código testável.


🤖 IA entra no trem

Naturalmente precisamos conversar sobre IA.

Use IA para:

EXPLICAR CÓDIGO
GERAR TESTES
DOCUMENTAR
ANALISAR ERROS
CRIAR HIPÓTESES
EXPLICAR JCL
ENTENDER COPYBOOKS
SUGERIR REFACTORING

Mas lembre:

IA
   ↓
HIPÓTESE

não:

IA
   ↓
VERDADE ABSOLUTA

Compile.

Teste.

Valide.


🏁 DIAS 78–80 — ATLÂNTICO → LONDRES

A prova final

Phileas Fogg está voltando.

Passepartout olha para o calendário.

Três dias.

Agora não existe curso.

Não existe tutorial.

Não existe instrutor segurando sua mão.

Existe apenas uma especificação.


🎯 PROJETO FINAL — FOGG BANK

Construa uma pequena aplicação:

Cadastro e movimentação de clientes.

Ela deverá possuir:

COBOL
+
JCL
+
DATASET
+
VSAM ou Db2
+
CICS ou interface batch

Fluxo:

CLIENTE
   ↓
VALIDAÇÃO
   ↓
CONSULTA
   ↓
MOVIMENTAÇÃO
   ↓
ATUALIZAÇÃO
   ↓
RELATÓRIO

Depois coloque o source em Git.

Documente.

Teste.

Provoque erros.

Corrija.

Crie README.

Explique a arquitetura.

Se possível, exponha alguma funcionalidade como API.

Agora você possui algo muito mais importante que:

ASSISTI 80 HORAS DE CURSO

Você possui:

EU CONSTRUÍ ISTO.

🧭 O MAPA COMPLETO

Depois de 80 dias nossa viagem ficou assim:

                    🌍 MAINFRAME ROAD MAP

                         IBM Z
                           │
                         z/OS
                           │
              ┌────────────┴────────────┐
              │                         │
           TSO/ISPF                    USS
              │                         │
           DATASETS                  SHELL
              │
             JCL
              │
            JES2
              │
            SDSF
              │
            COBOL
        ┌──────┼───────┐
        │      │       │
      VSAM    Db2     CICS
        │      │       │
        └──────┼───────┘
               │
              RACF
               │
             APIs
               │
         z/OS Connect
               │
              Git
               │
            DevOps
               │
            Testing
               │
               IA

Agora existe uma coisa preciosa:

CONTEXTO.


🎓 O que você NÃO será depois de 80 dias

Vamos destruir uma promessa de marketing antes que ela nasça.

Depois de 80 dias você provavelmente não será:

SYSTEM PROGRAMMER
DBA DB2
CICS ADMIN
RACF SPECIALIST
STORAGE SPECIALIST
PERFORMANCE SPECIALIST
SMP/E WIZARD
ASSEMBLER JEDI

E está tudo bem.

Mainframe é um continente.

Não uma tecnologia.

Ninguém conhece tudo.


🧠 O que você PODE ser

Você pode conseguir olhar para:

JOB
 ↓
JCL
 ↓
COBOL
 ↓
CICS
 ↓
DB2

e compreender aproximadamente o caminho.

Pode receber:

S0C7

e não fugir pela janela.

Pode abrir SDSF.

Pode procurar o step.

Pode ler SYSOUT.

Pode compreender um programa COBOL.

Pode alterar.

Compilar.

Executar.

Investigar.

Testar.

E principalmente:

saber qual é a próxima pergunta.

Esse é um enorme avanço.


🎩 O relógio de Phileas Fogg

Londres.

Reform Club.

80º dia.

Os cavalheiros estão esperando.

Relógio:

20:44

Nenhum sinal.

20:45.

Porta fechada.

A aposta parece perdida.

Então:

20:45:57

A porta abre.

Phileas Fogg entra.

Passepartout atrás dele carrega um notebook.

Na tela:

FOGG80.COBOL
FOGG80.JCL
FOGG80.COPYLIB
FOGG80.TEST

Um cavalheiro pergunta:

— Então aprendeu mainframe?

Fogg responde:

— Não.

Silêncio.

— Como assim?

Ele coloca o chapéu sobre a mesa.

Aprendi o suficiente para compreender o tamanho daquilo que ainda preciso aprender.

O velho mainframeiro no fundo da sala sorri.

Porque essa talvez seja a primeira evidência de que Phileas Fogg realmente aprendeu alguma coisa.


☕ Epílogo — A aposta

Passepartout aproxima-se do terminal.

Submete o projeto final.

SUBMIT 'FOGG80.JCL(MOONJOB)'

Não.

Arquivo errado.

Fogg olha para ele.

Passepartout:

— Desculpe, monsieur.

Agora:

SUBMIT 'FOGG80.JCL(FINALJOB)'

JES2 recebe.

$HASP100 FINALJOB ON READER

Executando.

$HASP373 FINALJOB STARTED

Todos aguardam.

SDSF atualiza.

STEP010   RC 0000
STEP020   RC 0000
STEP030   RC 0000
STEP040   RC 0000

Finalmente:

$HASP395 FINALJOB ENDED

Fogg olha para o relógio.

Ainda dentro dos 80 dias.

Passepartout grita:

MAXCC=0000!

Champanhe.

Aplausos.

A aposta está ganha.

Então o instrutor Bellacosa aproxima-se lentamente.

Olha o relatório.

Franze a testa.

Pergunta:

— Fogg...

— Sim?

— O total deveria ser £20.000.

Na tela:

TOTAL = £200.000

Silêncio absoluto.

Fogg tira o paletó.

Senta diante do terminal.

Abre o source.

Passepartout prepara café.

Porque Phileas Fogg acaba de descobrir a última e mais importante etapa do Road Map Mainframe:

DIA 81 — DEBUG.

🎩🌍🚂🚢☕🦖

E essa viagem...

meu caro Padawan...

não termina em 80 dias.

//WORLD80 JOB (COBOL),'PHILEAS FOGG'
//STEP01  EXEC PGM=LEARN
//SYSOUT  DD SYSOUT=*

LEARNING IN PROGRESS...
DESTINATION: MAINFRAME
RETURN CODE: NEVER STOP
O que um jovem padawan deve aprender para ser um especialista na Stack Mainframe. Um caminho com inúmeras possibilidades, requer esforço e dedicação, porém os frutos condizem ao esforço. Descubra o z/OS, codifique em COBOL, crie queries no SQL DB2 e vá além. #ibm #mainframe #cobol #cics #db2 #jcl #sdsf #qsam #vsam #query #sql #etl #jobs #procs #jes2 #lpar #sysplex
 

sexta-feira, 19 de julho de 2024

O Fator Brasil — ou como o brasileiro entra numa plataforma estrangeira, muda os móveis de lugar, abre a geladeira e pergunta se pode ficar

 


☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

O Fator Brasil — ou como o brasileiro entra numa plataforma estrangeira, muda os móveis de lugar, abre a geladeira e pergunta se pode ficar

Orkut, Facebook, WhatsApp, ChatGPT e a extraordinária capacidade nacional de olhar para uma tecnologia cuidadosamente projetada e dizer: “legal… mas dá para usar de outro jeito?”

Existe uma velha lenda da internet brasileira segundo a qual o Brasil matou o Orkut.

Não apenas usou.

Não apenas gostou.

Não apenas criou conta.

Matou.

A versão folclórica da história conta que os americanos construíram uma bela rede social, entraram nela de sapatos limpos, começaram a conversar educadamente e, de repente, ouviram um barulho vindo do corredor.

Era o Brasil.

Entramos carregando cadeira de plástico, caixa de cerveja, foto do cachorro, corrente de amizade, comunidade chamada “EU ODEIO ACORDAR CEDO”, depoimento escrito “NÃO ACEITA!!!”, quinze scraps e um sujeito perguntando:

— Alguém sabe quem visitou meu perfil?

O americano teria olhado aquilo tudo, colocado lentamente o chapéu e ido embora.

É uma ótima história.

Também não é exatamente verdadeira.

Mas as melhores lendas possuem justamente essa característica: mentem nos detalhes para contar uma verdade maior.

E a verdade maior é que o Brasil possui uma relação curiosíssima com tecnologia social.

Recebemos uma ferramenta.

Lemos aproximadamente 17% das instruções.

Testamos 31% das funcionalidades.

Ignoramos o resto.

E imediatamente começamos a procurar:

“Tá, mas o que MAIS dá para fazer com isso?”

E assim começa nossa pequena história.

Com direito a Orkut, Facebook, WhatsApp, inteligência artificial, diarista fazendo prompt, geladeira conversando com ChatGPT e, naturalmente, os irmãos Marx imaginários tentando administrar o datacenter.



🎬 ATO I — Entra Orkut pela porta. Brasil entra pela janela.

O Orkut nasceu em janeiro de 2004 como um projeto experimental dentro do Google, criado pelo engenheiro Orkut Büyükkökten.

Não era “a rede social brasileira”.

Não foi concebido em Campinas.

Não nasceu numa lan house de Osasco.

Não havia no documento de arquitetura uma seção chamada:

3.7 — REQUIREMENTS FOR BRAZIL

- permitir ciúme retroativo
- suportar depoimento com "NÃO ACEITA"
- criar comunidades desnecessariamente específicas
- permitir stalking sem nomenclatura oficial
- causar término de namoro

Nada disso.

E mesmo assim os brasileiros chegaram.

Chegaram muito.

O próprio Google reconheceria depois que, ainda em 2004, brasileiros representavam aproximadamente dois terços dos usuários do Orkut. Anos mais tarde, a dimensão local se tornou tão grande que, em 2008, a administração da rede foi transferida para o Google Brasil.

Pare um instante para apreciar o absurdo.

Uma empresa americana cria uma rede.

Brasileiros entram em massa.

Quatro anos depois:

“Muito bem. Agora vocês cuidam disso.”

É quase como convidar um grupo para uma festa, perceber às três da manhã que eles reorganizaram a casa inteira e finalmente entregar-lhes a escritura.


🇧🇷 O Orkut não foi usado. Foi apropriado.

Essa é a palavra importante.

Apropriação.

O brasileiro não apenas utilizou as funções oferecidas.

Criou novos significados sociais para elas.

Comunidade deveria reunir pessoas interessadas num assunto.

Brasileiro:

“Excelente. Então vou entrar em 482 comunidades para explicar quem eu sou.”

De repente, o perfil psicológico de uma pessoa era:

Eu amo chocolate.

Eu odeio falsidade.

Eu abro a geladeira para pensar.

Eu nunca terminei uma borracha.

Eu finjo que entendi.

Isso não era participação comunitária.

Era praticamente um JSON emocional humano.

{
  "personalidade": [
    "odeia segunda-feira",
    "ama pizza",
    "tem preguiça",
    "odeia gente falsa"
  ]
}

E havia os scraps.

Originalmente, um mural de mensagens.

No Brasil?

Chat.

Recado.

Paquera.

Investigação conjugal.

Prova criminal informal.

Briga.

Reconciliação.

E espionagem romântica de baixa tecnologia.



💌 E então o brasileiro inventou o protocolo NÃO ACEITA

O recurso depoimento tinha uma função razoavelmente clara: alguém escrevia uma mensagem sobre você e você aprovava antes que ela aparecesse publicamente.

Brasileiros observaram o fluxo e tiveram uma epifania.

— Peraí.

— O quê?

— Antes de publicar, a pessoa recebe a mensagem?

— Sim.

— E pode ler?

— Pode.

— Então isso é mensagem privada.

— Não exatamente.

Agora é.

😂

Nasceu assim uma das mais belas gambiarras sociais da história digital brasileira:

“NÃO ACEITA ESSE DEPOIMENTO!!!”

A pessoa recebia.

Lia.

Não aceitava.

Pronto.

Tínhamos inventado um uso clandestino de uma funcionalidade perfeitamente legítima.

Nenhum hacker precisou explorar buffer overflow.

Bastou explorar o brasileiro.


🧠 Isso é hacking de affordance

Em design existe a ideia de affordance: aquilo que a forma de uma ferramenta sugere ou permite fazer.

Uma cadeira serve para sentar.

Mas também segura uma porta.

Serve como escada improvisada.

Pode apoiar roupa.

Em circunstâncias específicas, pode virar arma num boteco.

Brasileiros fizeram isso com software.

O Orkut dizia:

“Esta funcionalidade serve para X.”

O usuário respondia:

“Interessante. Mas descobri que também serve para Y.”

O Google talvez pensasse:

Comunidade = fórum.

Brasil:

Comunidade = identidade pessoal.

Google:

Scrapbook = mural.

Brasil:

Scrapbook = WhatsApp pré-histórico.

Google:

Depoimento = recomendação pública.

Brasil:

Depoimento = mensagem privada com confirmação manual.

É maravilhoso.


🐴 A lenda: “O Brasil matou o Orkut”

Agora chegamos ao folclore.

Durante anos circulou a ideia de que o Orkut teria morrido internacionalmente porque os brasileiros o dominaram tanto que os demais usuários foram embora.

É difícil provar essa relação causal.

Não existe comunicado do Google dizendo:

“Estamos encerrando o Orkut porque chegaram brasileiros demais.”

Seria um documento extraordinário.

Não existe.

Quando anunciou o encerramento em 2014, o Google apresentou uma explicação empresarial: YouTube, Blogger e Google+ haviam crescido mais, e a empresa decidiu concentrar recursos nessas plataformas. O Orkut foi oficialmente desligado em 30 de setembro de 2014.

Portanto:

❌ FATO NÃO COMPROVADO

“Brasileiros mataram o Orkut.”

Mas...

✅ FATO DOCUMENTADO

Brasileiros dominaram profundamente a plataforma.

Em 2017, ao encerrar inclusive o arquivo histórico das comunidades, o próprio Google escreveu que o Brasil havia sido, de longe, o país que mais se entusiasmara e mais conteúdo produzira no Orkut.

E quando o serviço terminou, o arquivo público continha algo monstruoso:

51 milhões de comunidades.

120 milhões de tópicos.

mais de 1 bilhão de interações.

Isso não é uma rede social.

Isso é um sítio arqueológico.


🎩 Groucho entra no datacenter

— Quem são todos esses usuários?

— Brasileiros.

— Quantos?

— Milhões.

— O que estão fazendo?

— Não sabemos.

— Desligue.

— Eles criaram uma comunidade chamada “EU ODEIO QUANDO DESLIGAM O ORKUT”.

— Então deixe ligado.


📘 ATO II — Facebook chega dizendo “agora é profissional”

Durante algum tempo, o Facebook olhou para o Brasil de fora.

No resto de boa parte do mundo, avançava furiosamente.

No Brasil havia um problema.

Chamava-se:

Orkut.

Em outubro de 2011, o Brasil ainda estava entre apenas sete mercados analisados pela Comscore onde o Facebook não liderava redes sociais.

Imagino a reunião:

— Zuckerberg, temos um problema.

— Qual?

— Brasil.

— Quantos usuários?

— Muitos.

— Então qual é o problema?

— Eles estão em outro lugar.

— Mande buscá-los.


🚚 2011: a mudança

Aconteceu então uma das migrações digitais mais rápidas da história brasileira.

Em dezembro de 2011, o Facebook alcançou 36,1 milhões de visitantes brasileiros, crescendo 192% em apenas um ano, e finalmente ultrapassou o Orkut, que tinha 34,4 milhões segundo a Comscore.

Mas o mais interessante não foi o brasileiro mudar de endereço.

Foi levar a mobília cultural junto.

O Orkut foi embora.

O comportamento não.

Comunidades viraram grupos.

Scraps viraram mural e comentários.

Indiretas permaneceram indiretas.

Fotografia de festa continuou fotografia de festa.

Discussão continuou discussão.

Corrente continuou corrente.

O brasileiro não migrou simplesmente para o Facebook.

Levou o Orkut dentro da mala.


🇺🇸 “Welcome to Facebook”

🇧🇷:

“Obrigado. Onde fica o grupo da família?”

— Não existe ainda.

“Agora existe.”

— E esse grupo de venda de geladeira?

“Também.”

— E por que estão discutindo política numa fotografia de cachorro?

“Longa história.”


🤡 O algoritmo encontra o brasileiro

Existe também outra lenda persistente: a de que Facebook e outros serviços teriam tentado reduzir ou controlar o chamado “fator Brasil”.

É uma história divertida.

Mas precisa de cuidado.

Não temos documentação séria demonstrando que o algoritmo do Facebook tenha sido explicitamente criado para “diminuir brasileiros” como grupo nacional.

O que existiu, naturalmente, foram mecanismos contra spam, conteúdo repetitivo, comportamento coordenado, abuso e excesso de distribuição.

E brasileiros sempre estiveram extraordinariamente presentes em alguns desses comportamentos.

Daí nasce facilmente a narrativa:

“O algoritmo está tentando nos segurar.”

Talvez.

Ou talvez o algoritmo estivesse apenas tentando impedir que alguém publicasse:

“COLE ISSO EM 20 MURAIS OU VOCÊ TERÁ 7 ANOS DE AZAR.”

quarenta milhões de vezes.


📱 ATO III — Então apareceu algo ainda mais brasileiro que o Facebook

WhatsApp.

E nesse momento ocorreu uma transformação importante.

O Facebook era uma praça pública.

WhatsApp parecia uma mesa de bar.

E brasileiro entende imediatamente a arquitetura de uma mesa de bar.

Você chama quem quiser.

Manda áudio.

Interrompe o assunto.

Cria outro assunto.

Volta ao primeiro.

Mostra fotografia.

Manda piada.

Discute futebol.

Compartilha receita.

Briga por política.

Sai.

Volta.

Diz:

“Não vou mais falar nada.”

E envia 17 mensagens adicionais.


🍺 Finalmente uma interface familiar

O WhatsApp não precisava ensinar brasileiros a criar comunidades sociais.

Nós já possuíamos:

família.

condomínio.

escola.

firma.

futebol.

igreja.

amigos do bar.

parentes que ninguém sabe exatamente de onde vieram.

Foi somente colocar cada estrutura num grupo.

Assim nasceu o patrimônio cultural:

FAMÍLIA ❤️🙏 — SEM POLÍTICA

Aproximadamente 14 minutos depois:

política.


🔊 E apareceu o áudio

Aqui talvez tenha ocorrido a integração definitiva.

Digitar exige planejamento.

Áudio permite pensar enquanto fala.

Ou não pensar.

Frequentemente não pensar.

A mensagem começa:

“Então, eu só queria dizer rapidinho...”

Duração:

8 minutos e 43 segundos.

Esse recurso praticamente eliminou a última barreira de alfabetização tecnológica para muita gente.

Não precisava dominar teclado.

Não precisava escrever bem.

Não precisava aprender linguagem de computador.

Bastava:

apertar e falar.

E quando uma tecnologia chega nesse estágio, ela começa a desaparecer enquanto tecnologia.

Ela vira rotina.


🤖 ATO IV — Entra ChatGPT carregando um piano

Então aconteceu algo diferente.

Até aqui estávamos falando sobre ferramentas para:

humano ↔ humano

Orkut.

Facebook.

WhatsApp.

ChatGPT introduziu em escala popular:

humano ↔ máquina

Mas não máquina como formulário.

Não máquina como menu.

Não máquina como:

PRESSIONE 1 PARA FINANCEIRO.

Máquina como conversa.

Isso muda tudo.


🔎 Google dizia: aprenda a perguntar como máquina

Durante décadas fomos treinados a escrever:

receita bolo chocolate fácil

Em vez de:

“Tenho dois ovos, farinha, leite e aquele chocolate em pó que está aberto há seis meses. O que faço?”

Por quê?

Porque precisávamos adaptar nossa linguagem ao mecanismo de busca.

Com IA conversacional ocorre uma inversão.

A máquina tenta adaptar-se à nossa linguagem.

E isso, para uma cultura que adora adaptar ferramentas aos próprios hábitos, é dinamite.


🧹 A prova definitiva não está no congresso de inteligência artificial

Está na diarista.

Quando uma profissional sem qualquer obrigação de estudar ciência da computação já sabe dizer:

“Fiz minha foto do WhatsApp no ChatGPT.”

acabou.

A tecnologia atravessou a fronteira.

Ela pode não saber o que significa:

transformer.

token.

inference.

multimodal.

Não interessa.

Ela sabe:

“Manda minha foto e pede para melhorar, mas fala para não mudar meu rosto.”

Isso é conhecimento operacional.

Isso é prompt engineering popular.

Só não possui certificado.

Ainda.


📸 E então o prompt desaparece

A próxima etapa é ainda mais interessante.

Você não precisa escrever uma lista dos alimentos disponíveis.

Basta:

tirar uma fotografia da geladeira.

E perguntar:

“O que dá para fazer com isso?”

Isso é uma revolução silenciosa.

Porque a entrada do sistema deixa de ser uma representação textual cuidadosamente preparada.

A própria realidade vira prompt.

Problema numa planta?

Fotografa.

Parafuso desconhecido?

Fotografa.

Erro na tela?

Fotografa.

Roupa para combinar?

Fotografa.

Geladeira?

Fotografa.

Isso aproxima a IA daquela instituição tecnológica brasileira muito anterior à informática:

“Manda uma foto aí que eu vejo.”

😂


🇧🇷 E o Brasil já está entrando com os dois pés

Em 2026, a OpenAI passou a tratar o Brasil como mercado estratégico de maneira cada vez mais explícita. Dados divulgados pela empresa mostram forte expansão local, e pesquisas recentes indicam crescimento do país no ranking de mensagens por habitante do ChatGPT.

Em agosto de 2026, a OpenAI anunciou formalmente operações de negócios no país; informações divulgadas nessa ocasião apontaram crescimento expressivo do uso brasileiro e destacaram o país em áreas como geração de imagens e desenvolvimento com Codex.

Ou seja:

o fenômeno não é apenas impressão de boteco digital.

Existe escala.


🧠 O mais fascinante: brasileiro não precisa aprender “IA”

Esse talvez seja o ponto fundamental.

Para popularizar computadores, durante décadas ensinamos:

arquivos.

pastas.

menus.

botões.

comandos.

busca.

aplicativos.

Agora aparece uma interface cuja documentação principal pode ser resumida em:

“Fala o que você quer.”

Brasileiro:

“Só isso?”

— Sim.

“Posso mandar foto?”

— Pode.

“Áudio?”

— Também.

“Posso dizer que ficou uma merda e mandar refazer?”

— Sim.

Silêncio.

Então alguém ao fundo:

“CHAMA A TIA.”


👔 ATO V — LinkedIn: o local onde a IA começa a substituir o humano sem expulsá-lo

E chegamos ao episódio mais irônico.

O LinkedIn.

Uma rede construída essencialmente para pessoas exibirem:

experiência.

opinião.

carreira.

conhecimento.

personalidade profissional.

Então aparece IA generativa.

E milhões percebem:

“Posso pedir para ela escrever tudo isso por mim.”

Excelente.

O resultado?

Abra o feed.

Você verá:

I’m thrilled to announce...

I’m humbled to share...

Here are my five key takeaways...

This journey taught me that leadership is not about...

What do you think?

Depois outro.

Depois outro.

Depois outro.

É como entrar numa festa e descobrir que todos contrataram o mesmo ghostwriter.


🤖 O Grande Profissional Corporativo Modelo 7B

Antes:

— João, como foi o evento?

— Uma bagunça. O projetor morreu, o palestrante atrasou, um cara falou uma coisa genial no café e descobri que ninguém entende direito aquela arquitetura.

Depois da IA:

“Today I had the incredible opportunity to participate in an inspiring event alongside amazing professionals.”

CADÊ O JOÃO?

O João estava ali.

Entrou no prompt.

Saiu um release.

😂

Essa talvez seja uma consequência inesperada da massificação da IA:

quanto mais barato fica produzir perfeição, mais valiosa fica a imperfeição humana.

A história específica.

A frase torta.

O erro.

A piada.

A opinião incômoda.

O detalhe absurdo.

A experiência que realmente aconteceu.


🧬 O padrão brasileiro reaparece

Orkut:

“Posso usar isso diferente?”

Facebook:

“Posso trazer minhas práticas para cá?”

WhatsApp:

“Posso transformar isso em infraestrutura social?”

ChatGPT:

“Posso conversar com isso como converso com gente?”

Resposta:

sim.

A consequência é gigantesca.

Porque a IA não exige que brasileiros abandonem sua tendência de improvisar.

Ela recompensa improvisação.

Você começa:

“Faça X.”

Resultado ruim.

“Não gostei. Faz de outro jeito.”

Resultado melhor.

“Agora mantém isso, mas muda aquilo.”

Outro resultado.

“E se...?”

Pronto.

Estamos novamente naquele comportamento que conhecemos desde o Orkut:

testar o caminho não previsto.


🎹 Chico Marx chega ao departamento de Prompt Engineering

— Você sabe escrever prompt?

— Não.

— Então como conseguiu essa imagem?

— Pedi.

— Pediu como?

— Falei o que queria.

— Isso é prompt.

— Então sei.

— Você fez curso?

— Não.

— Certificação?

— Não.

— Badge?

— Também não.

— Quanto pagou?

— Nada.

— Segurança!


🧪 Talvez o verdadeiro “Fator Brasil” seja este

Não é apenas gostar de redes sociais.

Também não é simplesmente sermos comunicativos.

Muito menos alguma essência genética envolvendo samba, gambiarra e Wi-Fi.

É algo mais simples:

existe uma forte cultura de apropriação funcional.

A ferramenta chega com um manual dizendo:

“Use assim.”

O brasileiro pergunta:

“Mas funciona assado?”

Se funcionar:

acabou.

O comportamento se espalha.

Não necessariamente por curso.

Nem livro.

Nem documentação.

Por transmissão social.

“Minha prima faz assim.”

“O menino lá do trabalho mostrou.”

“Vi uma moça fazendo.”

“Manda desse jeito que funciona.”

Essa transmissão informal foi fundamental no Orkut.

Foi fundamental no WhatsApp.

E provavelmente será gigantesca na IA.


📡 Conhecimento tecnológico como fofoca

Isso merece uma disciplina acadêmica própria.

Imagine:

Engenharia de Software Tradicional

documentação → treinamento → certificação → uso.

Tecnologia Brasileira Informal

alguém descobre → mostra para vizinha → vizinha manda no grupo → sobrinha melhora → alguém grava vídeo → três milhões aprendem.

A documentação oficial chega depois perguntando:

“O que aconteceu aqui?”


🏴 O brasileiro finca a bandeira

Orkut não nasceu brasileiro.

Virou.

Facebook não nasceu brasileiro.

Foi ocupado.

WhatsApp não nasceu brasileiro.

Virou infraestrutura nacional.

ChatGPT não nasceu brasileiro.

Mas agora aparece em situações cada vez mais banais da vida cotidiana.

E esse é o indicador mais importante.

Uma tecnologia não está verdadeiramente popularizada quando aparece na capa de uma revista.

Está popularizada quando alguém diz:

“Pergunta pro ChatGPT.”

da mesma forma que dizia:

“Procura no Google.”

ou:

“Manda no zap.”

Quando chega nesse nível, o nome do produto quase deixa de importar.

Ele virou verbo cultural.


🏁 E quem matou o Orkut afinal?

Talvez ninguém.

Talvez o Orkut simplesmente tenha cumprido sua função histórica.

Foi laboratório.

Um lugar onde milhões de brasileiros descobriram que a internet não precisava ser apenas página para ler.

Podia ser:

identidade.

conversa.

tribo.

piada.

namoro.

briga.

arquivo.

fofoca.

praça.

Depois apareceu uma praça maior.

Facebook.

Depois apareceu uma mesa mais conveniente.

WhatsApp.

Agora apareceu algo completamente diferente:

um interlocutor artificial disponível o tempo todo.

Não substitui necessariamente WhatsApp.

Não precisa.

Ele disputa algo diferente:

tempo cognitivo.

Antes:

“Estou sem fazer nada. Vou abrir o Facebook.”

Depois:

“Vou olhar WhatsApp.”

Agora:

“Estou pensando numa coisa estranha... vou perguntar ao ChatGPT.”

E duas horas depois você está investigando a origem histórica do cocô do cavalo do bandido.

Não pergunte como chegamos ali.

É o Fator Brasil.


☕ Conclusão — O manual era apenas uma sugestão

Talvez o grande erro das empresas de tecnologia seja imaginar que controlam completamente o significado das ferramentas que criam.

Não controlam.

Criador determina arquitetura.

Usuário determina cultura.

Orkut Büyükkökten criou o Orkut.

Mas brasileiros ajudaram a decidir o que significava usar Orkut.

Facebook criou funcionalidades.

Usuários decidiram como transformá-las em vida cotidiana.

WhatsApp criou mensageria.

Brasileiros transformaram-na em central operacional da família, comércio, escola, empresa, namoro, condomínio e boteco.

OpenAI criou ChatGPT.

Agora pessoas comuns estão decidindo o que significa ter uma máquina conversacional no bolso.

E provavelmente estamos apenas no começo.

Porque um engenheiro ainda pensa:

“Que novos recursos devemos construir?”

Enquanto, em algum lugar do Brasil, alguém já abriu a câmera, fotografou uma coisa absolutamente não prevista no documento de requisitos e perguntou:

“Dá para fazer alguma coisa com isso?”

A máquina pensa.

Responde.

A pessoa olha.

E diz:

“Não. Faz diferente.”

Senhoras e senhores...

o Brasil chegou.

🇧🇷

E, se a história servir de referência, é melhor não perguntar para que aquela funcionalidade foi originalmente projetada.

Daqui a pouco ninguém mais lembrará.

O Orkut que o diga.



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Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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