| Bellacosa Mainframe e diogenes cobol |
☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
Diógenes, COBOL e o Barril em Produção
🏛️ A Jornada Impossível de Bellacosa — quando o filósofo encontrou um programa escrito em 1978 e descobriu que ainda estava rodando
O sol queimava as pedras da Acrópole.
Atenas brilhava abaixo de nós, branca, barulhenta e absolutamente convencida de que sua civilização duraria para sempre.
Diógenes caminhava ao meu lado.
Eu ainda carregava na cabeça a estranha sensação de olhar para o Pártenon novo sabendo que, milhares de anos depois, homens atravessariam oceanos para fotografar suas ruínas.
Foi então que Diógenes parou.
— Bellacosa.
— Diga.
— Tu falas constantemente desse tal COBOL.
Pronto.
Eu sabia que isso aconteceria.
Respirei fundo.
Como explicar COBOL para um sujeito que morava num barril, desprezava convenções sociais e provavelmente consideraria um organograma corporativo uma evidência da decadência humana?
— COBOL é uma linguagem criada no meu tempo...
Ele levantou a mão.
— Não.
— Não?
— Já começaste errado.
Diógenes sentou-se numa pedra.
— Não quero saber o que os homens dizem que ele é. Quero saber o que ele faz.
Maldito filósofo.
Tinha acabado de inventar a análise de requisitos.
🏺 IDENTIFICATION DIVISION
Sentei-me ao lado dele.
— Muito bem. COBOL é uma linguagem usada para ensinar máquinas a executar regras de negócios.
Diógenes franziu a testa.
— Negócios?
— Bancos. Seguros. Governos. Folhas de pagamento. Cartões. Contabilidade. Reservas. Transações.
Ele ficou alguns segundos em silêncio.
— Então não é uma linguagem para conversar com máquinas.
— Tecnicamente...
— É uma linguagem para explicar a burocracia humana às máquinas.
Parei.
Olhei para ele.
— Por Zeus, Diógenes.
— Quem é Zeus?
— Esquece.
Ele sorriu.
— Continue.
Expliquei que COBOL havia sido criado em 1959. Que uma das figuras fundamentais da história fora Grace Hopper. Que a ideia era permitir programas próximos da linguagem utilizada nos negócios.
Escrevi na areia:
IF SALDO >= VALOR
SUBTRACT VALOR FROM SALDO
ELSE
DISPLAY 'SALDO INSUFICIENTE'
END-IF.
Diógenes observou.
— Consigo entender.
— Exatamente.
— Então por que os homens do teu tempo zombam disso?
Silêncio.
House M.D. teria entrado naquele momento, olhado os exames e dito:
“Idiopatia corporativa.”
🩺 O diagnóstico
Expliquei:
— Dizem que COBOL é velho.
Diógenes apontou para o Pártenon.
— Aquilo também ficará velho?
— Muito.
— Deixarão de admirá-lo?
— Não.
— Então idade não é argumento.
Primeiro abend filosófico.
Tentei novamente.
— Dizem que existem linguagens mais modernas.
— Naturalmente.
— Python, Java, JavaScript, Go, Rust...
— São melhores?
— Depende do problema.
Ele sorriu.
Eu havia caído na armadilha.
— Então "moderno" também não é argumento.
Segundo abend filosófico.
Comecei a desconfiar de que apresentar uma arquitetura corporativa para Diógenes seria extremamente perigoso.
🏛️ O homem que procurava um programa honesto
Diógenes ficou famoso por caminhar durante o dia carregando uma lamparina e dizendo procurar um homem honesto.
No CPD do século XXI, provavelmente faria outra coisa.
Entraria numa instalação bancária carregando a lanterna.
Passaria pelos corredores.
Entraria numa reunião Agile.
Nada.
Passaria pelo departamento de transformação digital.
Nada.
Entraria numa apresentação chamada:
Digital Cloud Native AI Driven Cognitive Hyperautomation Transformation Journey 2030.
O executivo perguntaria:
— O senhor procura alguém?
Diógenes levantaria a lanterna.
— Procuro o programa que realmente movimenta o dinheiro.
Silêncio.
Um arquiteto apontaria discretamente para o andar de baixo.
Diógenes desceria.
Encontraria um IBM Z.
Abriria um source.
IDENTIFICATION DIVISION.
PROGRAM-ID. PGMPGTO.
E apagaria a lanterna.
— Encontrei.
🪔 “Mas Bellacosa... por que ainda funciona?”
Essa seria a pergunta inevitável.
E talvez seja uma das melhores perguntas sobre COBOL.
Porque estamos acostumados a interpretar longevidade como defeito.
Um programa tem quarenta anos?
“Legado.”
Uma aplicação nasceu em 2025?
“Moderna.”
Diógenes provavelmente gargalharia.
— Então um programa que sobreviveu durante quarenta anos é suspeito, enquanto aquele que existe há seis meses recebe tua confiança?
— Quando você coloca dessa maneira...
— Estou apenas colocando da maneira como disseste.
Touché.
Software antigo não é automaticamente software bom.
Existem monstruosidades COBOL.
Programas com dez mil linhas.
GO TO arqueológico.
Copybooks que ninguém ousa alterar.
Variáveis chamadas WS-A, WS-AA, WS-AAA.
Comentários de 1989:
*> NAO ALTERAR ESTA ROTINA
Sem explicar por quê.
Naturalmente.
O programador morreu.
O analista aposentou.
A empresa foi comprada duas vezes.
O documento está numa fita magnética localizada provavelmente na Atlântida.
Mas o programa continua funcionando.
E isso muda a investigação.
🩺 House M.D. entra no CPD
House observaria um batch executado diariamente desde 1994.
— Está funcionando?
— Sim.
— Então por que querem reescrever?
— Porque é legado.
House olharia novamente.
— Qual problema apresenta?
— Nenhum.
— Performance?
— Excelente.
— Disponibilidade?
— Excelente.
— Custo por transação?
— Bom.
— Segurança?
— Controlada.
— Então qual é a doença?
O consultor levantaria o PowerPoint.
— COBOL.
House pegaria a bengala.
“COBOL não é diagnóstico.”
E iria embora.
Diógenes aplaudiria.
⚙️ O barril de Diógenes e o mainframe
Existe algo profundamente divertido na combinação entre Diógenes e mainframe.
O filósofo defendia uma vida extremamente simples.
Retirava tudo aquilo que considerava desnecessário.
Segundo a tradição, teria abandonado até sua tigela ao observar um menino bebendo água com as mãos.
Agora imagine apresentar uma arquitetura distribuída moderna para ele.
Cliente
↓
API Gateway
↓
Load Balancer
↓
Service Mesh
↓
Microservice A
↓
Kafka
↓
Microservice B
↓
Redis
↓
Kubernetes
↓
Banco
Diógenes observa.
— Tudo isso para quê?
— Transferir cem dracmas de uma conta para outra.
Ele olha novamente.
— E antes?
Mostro:
CICS
↓
COBOL
↓
Db2
Silêncio.
— Bellacosa.
— Sim?
— Traga-me meu barril.
🧠 COBOL não é o problema
Aqui Diógenes provavelmente chegaria ao ponto que muita discussão tecnológica evita.
O problema raramente é simplesmente:
COBOL.
O problema pode ser:
COBOL sem documentação.
COBOL sem testes.
COBOL sem conhecimento organizacional.
COBOL acoplado a regras desconhecidas.
COBOL mantido por equipes insuficientes.
COBOL cercado por processos ruins.
COBOL cuja regra de negócio ninguém consegue explicar.
Mas isso é muito diferente de dizer:
“COBOL é velho, portanto precisa morrer.”
Diógenes perguntaria:
— Se substituíres o COBOL sem compreender as regras, o que acontecerá?
— Podemos reproduzir os erros.
— Apenas os erros?
Penso um pouco.
— Podemos criar erros novos.
Ele sorri.
— Finalmente estás aprendendo filosofia.
🏺 O verdadeiro legado não está no código
Aqui nossa conversa ficaria séria.
Eu mostraria um programa hipotético de financiamento.
IF IDADE-CLIENTE > 60
AND TIPO-CONTRATO = 'A'
AND DATA-ADESAO < 20100101
MOVE 1 TO REGRA-ESPECIAL
END-IF
Diógenes perguntaria:
— Por quê?
— Não sei.
— Quem sabe?
— Talvez ninguém.
Ele apontaria para a condição.
— Então isso não é código.
— Como assim?
— Isso é história petrificada.
E estaria certo.
Dentro de sistemas COBOL existem decisões comerciais tomadas décadas atrás.
Mudanças tributárias.
Fusões bancárias.
Produtos extintos.
Acordos sindicais.
Exigências regulatórias.
Exceções criadas para clientes.
Crises econômicas.
Planos monetários.
Decisões judiciais.
Migrações.
Aquisições.
Cada IF estranho pode ser uma camada arqueológica.
O programador iniciante vê:
IF X = 1
O programador experiente pergunta:
“Quem decidiu que X=1 e o que acontece se eu mudar isso?”
Essa pergunta separa manutenção de arqueologia.
🔦 A lanterna de Diógenes
Eu então entregaria ao filósofo algumas ferramentas modernas.
Debugger.
Code coverage.
Git.
Static analysis.
Observabilidade.
Testes automatizados.
IBM Debug for z/OS.
Application Discovery.
Zowe.
IDz.
VS Code.
IA generativa.
Ele examinaria tudo.
— São lanternas.
— Como?
— Tu criaste ferramentas sofisticadas para fazer aquilo que faço caminhando por Atenas.
— Procurar homens honestos?
— Procurar verdades escondidas.
E talvez essa seja uma bela definição de manutenção de sistemas legados.
Você não começa alterando.
Começa procurando.
Quem chama este programa?
Quais datasets utiliza?
Qual copybook?
Qual transação CICS?
Qual tabela Db2?
Qual job?
Qual PROC?
Qual scheduler?
Qual programa chamou antes?
Quem recebe depois?
Existe MQ?
Existe API?
Existe arquivo VSAM?
Existe rotina assembler escondida desde o Paleolítico Superior?
Antes de tocar:
observe.
Diógenes já havia ensinado isso na Acrópole.
☕ A lição do programador COBOL iniciante
Quando o sol começasse a desaparecer atrás de Atenas, eu perguntaria:
— Então, Diógenes, que conselho daria a alguém começando COBOL?
Ele provavelmente responderia:
— Não adore a linguagem.
Estranho.
— Também não a despreze.
Melhor.
— Aprende-a.
Ele continuaria:
— Quando encontrares algo estranho, pergunta por quê. Quando alguém disser "sempre foi assim", pergunta desde quando. Quando disserem "não mexe nisso", pergunta o que acontece se mexer. Quando disserem "vamos modernizar", pergunta qual problema será resolvido.
Eu sorriria.
— Isso parece mais filosofia do que programação.
Diógenes daria de ombros.
— Existe diferença?
🏛️ E então ele olharia novamente para o Pártenon
O templo ainda estava perfeito.
Nenhuma coluna quebrada.
Nenhuma explosão.
Nenhuma ruína.
Diógenes não sabia o que aconteceria.
Eu sabia.
E finalmente entenderia alguma coisa sobre COBOL.
O Pártenon que eu conhecia no século XXI não havia sobrevivido apesar de ser antigo.
Era extraordinário justamente porque havia atravessado o tempo.
COBOL também não merece respeito simplesmente por ser velho.
Mas tampouco merece desprezo por isso.
Um sistema que processou bilhões de transações durante décadas carrega algo que nenhum framework lançado na terça-feira consegue instalar pelo npm.
História operacional.
Ele enfrentou fechamento mensal.
Virada de ano.
Mudança de moeda.
Fusão.
Auditoria.
Black Friday.
Pandemia.
Crise.
Milhões de clientes.
Programadores brilhantes.
Programadores terríveis.
Gerentes.
Consultorias.
Terceirizações.
Reestruturações.
E provavelmente alguma alteração emergencial feita às 03:47 da madrugada por um sujeito cujo nome ninguém mais conhece.
Ainda assim:
IEF142I JOBXPTO STEP01 - STEP WAS EXECUTED - COND CODE 0000
Diógenes olharia para aquela mensagem.
— Bellacosa?
— Sim?
— Isso significa que funcionou?
— Significa.
Ele pegaria sua lanterna, caminharia em direção ao barril e responderia:
— Então não me interessa quantos anos possui.
Alguns metros depois, pararia.
Viraria para mim.
— Mas descobre quem escreveu aquele GO TO.
— Por quê?
— Aquilo é crime até na Grécia Antiga.
E desapareceria pelas ruas de Atenas.
Eu ficaria olhando a Acrópole.
Pensando que talvez a primeira regra da manutenção de sistemas nunca tenha sido escrita por Grace Hopper, IBM, ANSI ou qualquer manual de COBOL.
Talvez um velho filósofo grego já tivesse resumido tudo:
Questione aquilo que todos aceitaram sem perguntar por quê.
No século IV antes de Cristo, isso era filosofia.
No século XXI...
...chamamos de manutenção de legado.
☕
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HISTORIA • PHILOSOPHIA • TEMPUS • IMPERIUM
🏛 A Jornada Impossível de Bellacosa
De Diógenes à Acrópole. Do Pártenon ao COBOL. De Atenas ao Fórum Romano. E finalmente... César.
“O viajante atravessa o tempo. As perguntas viajam com ele.”
A Jornada Impossível de Bellacosa é uma aventura literária através da Antiguidade, combinando história, filosofia, viagem no tempo, cultura clássica e até tecnologia de mainframe. A narrativa começa na Grécia de Diógenes, atravessa a Atenas clássica, sobe à Acrópole e ao Pártenon e, numa improvável ruptura temporal, encontra COBOL antes de seguir para Roma em 50 a.C.
No Fórum Romano, Bellacosa observa cidadãos, soldados, senadores, comerciantes e personagens históricos enquanto tenta compreender poder, liberdade, humanidade e aquilo que realmente permanece depois que impérios, programas e homens desaparecem.
ΑΘΗΝΑΙ • ATENAS • SÉCULO IV a.C.
🌿 Capítulo 1 — Sob o Sol de Diógenes
Bellacosa atravessa o impossível e encontra Diógenes, o filósofo cínico que transformou pobreza voluntária, liberdade e provocação numa filosofia vivida.
📜 Ler o capítulo originalΑΘΗΝΑΙ • DIOGENES • LIBERTAS
🍷 Capítulo 1 — O Riso e o Silêncio
Entre pão, vinho, cães e provocações filosóficas, Diógenes confronta Bellacosa com uma pergunta muito mais perigosa que qualquer viagem temporal: o que significa ser livre?
📜 Ler O Riso e o SilêncioATHENAE • AMICITIA • LIBERTAS
🍂 Capítulo 1 — Reconhecimento
Diógenes reconhece no viajante algo que não esperava: alguém vindo de um futuro absurdamente complexo que ainda consegue compreender a simplicidade de sua filosofia.
📜 Ler ReconhecimentoACROPOLIS • ATHENA • PARTHENON
🏛 Capítulo 2 — O Auge da Acrópole
A Acrópole deixa de ser ruína e volta a viver. Mármore branco, sacerdotisas, incenso, oferendas e o Pártenon aparecem diante do viajante como eram no mundo antigo.
📜 Visitar a AcrópoleTEMPORALIS ERROR • COBOL INVOCATUS
💻 Capítulo 2½ — O COBOL
Porque toda viagem temporal respeitável eventualmente precisa explicar por que um programa escrito décadas atrás ainda está em produção.
💾 Ler o estranho incidente COBOLPARTHENON • FIGUS • PHILOSOPHIA
🏛 Capítulo 2 — No Cume do Pártenon
Bellacosa e Diógenes observam Atenas do alto, dividem figos e descobrem que distância talvez seja a ferramenta mais simples para separar aquilo que importa daquilo que apenas parece importante.
📜 Ler No Cume do PártenonINTERLUDIUM • ITER IMPOSSIBILIS
📜 A Jornada Impossível de Bellacosa
Um dos registros centrais da série que conecta a experiência do viajante aos diferentes capítulos da Jornada Impossível.
📜 Abrir página originalALTER TEMPUS • COBOL • MAINFRAME
💾 Capítulo 2½ — O COBOL — Registro Alternativo
Outro endereço preservado no corpus da Jornada, igualmente associado ao encontro improvável entre mundo clássico, programação COBOL e viagem temporal.
💾 Ler registro alternativoSPQR
🦅 ROMA • L ANTE CHRISTUM NATUM
O viajante deixa Atenas para trás. O Mediterrâneo gira. O mundo muda. Roma aparece.ROMA • L a.C. • FORUM ROMANUM
🏛 Capítulo 3 — Roma, 50 a.C. — O Fórum em Pleno Esplendor
O Fórum Romano deixa de ser ruína. Templos, senadores, legionários, comerciantes e cidadãos cercam Bellacosa no coração político de uma República que ainda não sabe que está prestes a mudar para sempre.
🦅 Entrar no Fórum RomanoFORUM ROMANUM • VIATOR TEMPORIS
🏛 Capítulo 3 — Andarilho do Tempo no Fórum
Perdido entre colunas, multidões e séculos, o viajante observa Roma não como turista, mas como testemunha de um mundo vivo.
📜 Ler Andarilho do Tempo no FórumCAIVS IVLIVS CAESAR • ROMA
🏛 Capítulo 3 — Próximo de César
Bellacosa aproxima-se de Júlio César e observa estratégia, ambição, carisma e humanidade enquanto decisões aparentemente pequenas começam a moldar o destino de Roma.
“Cada decisão molda vidas, cidades e impérios futuros.”🦅 Aproximar-se de César
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