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quarta-feira, 1 de agosto de 2018

☕🚀 PADAWAN, O QUE É HAIKU? A POESIA JAPONESA QUE CABE EM 17 SÍLABAS E UM UNIVERSO INTEIRO

 

Bellacosa Mainframe e a linda poesia haiku

☕🚀 PADAWAN, O QUE É HAIKU? A POESIA JAPONESA QUE CABE EM 17 SÍLABAS E UM UNIVERSO INTEIRO

O QUE É HAIKU?

Imagine que você precisasse descrever um pôr do sol, uma flor de cerejeira caindo ou até mesmo uma madrugada no Data Center do Santander usando apenas 17 sílabas.

Difícil?

Pois foi exatamente esse desafio que os japoneses transformaram em arte.

O Haiku é uma das formas mais famosas da literatura japonesa. Pequeno no tamanho, gigantesco no significado, ele busca capturar um instante da vida, uma emoção ou uma observação da natureza com o mínimo possível de palavras.

Segundo a tradição japonesa, um haiku possui três versos organizados em uma estrutura 5-7-5, totalizando 17 unidades sonoras (on), frequentemente traduzidas como sílabas. Normalmente também inclui uma referência à estação do ano (kigo), elemento muito importante na cultura japonesa.


A FILOSOFIA DO HAIKU

No Ocidente, costumamos acreditar que quanto maior um texto, mais profunda é sua mensagem.

Os japoneses frequentemente seguem a direção oposta.

O haiku procura sugerir.

Ele não explica.

Não argumenta.

Não convence.

Ele mostra uma cena e deixa o leitor completar o significado.

É quase como uma fotografia literária.


O MESTRE DOS MESTRES: MATSUO BASHŌ

Quando falamos de haiku, existe um nome obrigatório:

Matsuo Bashō (1644-1694).

Seu haiku mais famoso atravessou séculos:

Velha lagoa

Um sapo salta nela

Som da água

Esse poema é considerado um dos maiores exemplos da simplicidade e profundidade do haiku.

Observe que aparentemente "nada acontece".

Mas acontece tudo.

Silêncio.
Movimento.
Som.
Natureza.
Tempo.

Em apenas três linhas.


O HAIKU E O MAINFRAME

Agora vamos traduzir isso para o universo Bellacosa Mainframe.

Um bom haiku não descreve uma operação inteira do banco.

Ele captura um instante.

Por exemplo:

Tela verde acesa

Milhões passam invisíveis

Banco não dorme


Outro:

Job terminou

Operador sorri sozinho

Sol já nasceu


Mais um:

Luz do console

JES2 acorda primeiro

Cidade dorme


HAIKU NÃO É FRASE CURTA

Esse é um erro comum.

Frase curta não é haiku.

Veja:

"Hoje estou feliz."

Curto?

Sim.

Haiku?

Não.

Agora:

Chuva na janela

O café ainda fumega

Domingo lento

Aqui existe:

  • cenário

  • sensação

  • momento

  • imagem mental

Isso se aproxima muito mais da essência do haiku.


HAIKU, SENRYU E A CONFUSÃO DOS INICIANTES

Existe um primo do haiku chamado Senryu.

Os dois possuem estrutura parecida.

A diferença principal é:

Haiku:

  • natureza

  • estações

  • contemplação

Senryu:

  • comportamento humano

  • humor

  • ironia

Exemplo de Senryu estilo TI:

Mudou produção

Quem fez a alteração?

Todos sumiram

O foco aqui não é a natureza.

É a comédia humana.

Por isso seria mais próximo de um Senryu do que de um Haiku.


COMO ESCREVER SEU PRIMEIRO HAIKU

Método Bellacosa:

Passo 1:
Observe algo simples.

Exemplos:

  • café

  • chuva

  • madrugada

  • terminal 3270

  • janela

  • lua

Passo 2:
Capture um instante.

Não conte uma história inteira.

Passo 3:
Remova palavras desnecessárias.

Passo 4:
Leia em voz alta.

Se parecer uma fotografia mental, você está no caminho certo.


EXEMPLOS PARA MAINFRAMEIROS

COBOL

Código antigo

Jovem analista aprende

Legado respira


CICS

Tela respondeu

Milissegundos bastaram

Cliente sorriu


JCL

Cartão perfurado

Ecoando no presente

Job executa


RACF

Porta protegida

Tentativas ficam fora

Silêncio seguro


HAIKU NOS ANIMES

O haiku aparece com frequência em animes por fazer parte da cultura japonesa.

Alguns exemplos interessantes:

1. Chio's School Road (2018)

Título original:
Chio-chan no Tsuugakuro

Lançamento:
Julho de 2018.

Personagens principais:

  • Chio Miyamo

  • Manana Nonomura

Em um dos episódios existe uma brincadeira envolvendo a criação e interpretação de haikus, explorando o contraste entre a formalidade da poesia tradicional e o humor absurdo da série.


2. Non Non Biyori (2013)

Personagens:

  • Renge Miyauchi

  • Hotaru Ichijou

  • Komari Koshigaya

  • Natsumi Koshigaya

Sinopse:

Um anime contemplativo sobre a vida rural japonesa.

Embora não seja centrado em haikus, a obra frequentemente utiliza a mesma estética contemplativa, valorizando estações do ano, silêncio, natureza e momentos efêmeros — exatamente os pilares da tradição do haiku.


3. Barakamon (2014)

Personagens:

  • Seishuu Handa

  • Naru Kotoishi

Sinopse:

Um jovem calígrafo se muda para uma ilha remota para redescobrir sua arte.

A série explora profundamente conceitos estéticos japoneses como simplicidade, contemplação e observação da natureza, elementos intimamente ligados à tradição do haiku.


4. Mushishi (2005)

Personagens:

  • Ginko

Sinopse:

Ginko viaja estudando seres sobrenaturais chamados Mushi.

O ritmo lento, contemplativo e a valorização dos fenômenos naturais fazem muitos críticos compararem episódios inteiros a haikus visuais. A narrativa captura momentos breves e profundos da mesma forma que um poema de Bashō faria.


5. Chihayafuru (2011)

Personagens:

  • Chihaya Ayase

  • Taichi Mashima

  • Arata Wataya

Sinopse:

Embora o foco seja o Karuta e a poesia clássica japonesa (Waka), o anime apresenta ao público a tradição poética japonesa que posteriormente influenciou o surgimento do haiku moderno.


DESAFIO DO PADAWAN

Escreva um haiku sobre sua vida no Mainframe.

Exemplo:

Dump inesperado

Analista busca pistas

Aurora chegou

Ou:

Café na mesa

COBOL vence mais um dia

Legado vive


bellacosa mainframe apresenta um dos mais belos haiku

Não existe um consenso absoluto sobre qual é o haiku mais bonito do mundo, mas o mais famoso, estudado e frequentemente apontado como o mais perfeito já escrito é o de Matsuo Bashō (1644–1694).

Original em Japonês

古池や
蛙飛びこむ
水の音

Romaji

Furu ike ya
kawazu tobikomu
mizu no oto


Tradução Literal

Velho lago.

Uma rã mergulha.

Som da água.


Tradução Poética

Na velha lagoa

salta uma rã

som da água


Por que ele é tão admirado?

Porque em apenas 17 sílabas sonoras japonesas ele reúne:

  • Silêncio
  • Movimento
  • Tempo
  • Natureza
  • Eternidade
  • O instante presente

A lagoa representa a quietude.

O salto da rã representa a mudança.

O som da água representa o momento em que o universo interrompe o silêncio.

É um poema simples para uma criança e profundo para um filósofo.


Outro candidato ao mais belo haiku

Também de Bashō:

夏草や
兵どもが
夢の跡

Romaji

Natsukusa ya
tsuwamonodomo ga
yume no ato

Tradução

Ervas de verão.

Restam apenas os sonhos

dos antigos guerreiros.


Significado

Bashō visitou o local onde havia ocorrido uma grande batalha samurai séculos antes.

Ao chegar, não encontrou castelos, exércitos ou heróis.

Apenas ervas crescendo.

Toda a glória humana havia desaparecido.

Somente a natureza permanecia.


Haiku favorito dos amantes da lua

名月や
池をめぐりて
夜もすがら

Romaji

Meigetsu ya
ike o megurite
yo mo sugara

Tradução

Lua magnífica.

Contorno o lago inteiro

durante toda a noite.


Versão Bellacosa Mainframe ☕🚀

Se Bashō trabalhasse num Data Center:

Tela verde.

Milhões cruzam silenciosos.

Pisca o cursor.


Ou:

Job da madrugada.

O operador toma café.

Nasce o domingo.


Ou ainda:

Dump inesperado.

A equipe busca respostas.

Canta um sabiá.


Talvez a maior lição do haiku seja esta:

O universo não cabe em muitas palavras.

Às vezes ele cabe em três linhas. ☕🚀

CONCLUSÃO

Padawan, o haiku nos ensina algo que falta em boa parte da tecnologia moderna:

Nem sempre mais linhas significam mais valor.

Às vezes, três linhas bastam.

Assim como um bom programa COBOL.

Poucas instruções.

Muita eficiência.

Muito significado.

E quase nenhuma memória desperdiçada.

☕🚀


sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Café: O maior tesouro da nossa terra

Ouro verde paulista: Memórias de uma fazenda de café


Estamos em Jundiaí visitando o seu centro histórico, ao lado da Catedral de Nossa Senhora do Desterro e encontramos o Solar do Barão de Jundiaí, um magnifico casarão estilo colonial construído no final do seculo XIX em taipa de pilão com muitas janelas (sinal de opulência e riqueza), senzala e jardim em estilo neorrococó: o Barão de Jundiaí foi um cafeicultor expoente da aristocracia paulista.

Este casarão foi transformado num museu muito apreciado pela população de Jundiaí, palco de muitas exposições culturais e populares. Em nossa recente visita vimos acervos provenientes do Museu Ferroviário da Companhia Paulista e uma projeção de vídeo restaurados exibindo momentos marcantes da vida em Jundiaí no século XIX e XX.

O filme exibe como era uma fazenda de café pré-industrial no interior paulista, mostra os camponeses trabalhando na lavoura, desde o inicio com a plantação da muda de café, o tratamento da lavoura, a época da colheita a debulha, a secagem, o transporte, o embalamento e o envio a ferrovia com destino ao Porto de Santos.

Conheçam as diversas etapas deste processo, as ferramentas usadas e os trajes típicos neste túnel do tempo.





domingo, 25 de junho de 2017

Estação Ferroviária de Vinhedo

Bellacosa Mainframe e a estação ferroviária de Vinhedo SP

Um Café no Bellacosa Mainframe

🚂 Estação Ferroviária de Vinhedo — Os Trilhos que Não Deveríamos Esquecer

Eu já havia passado por aquela plataforma quando ela ainda cumpria sua missão. Anos depois voltei procurando trens, trilhos e histórias — e encontrei ferrugem, silêncio e uma pergunta incômoda: como conseguimos abandonar lugares que ajudaram a construir nossas próprias cidades?

Existem dois grandes amores tecnológicos na minha vida.

Um deles provavelmente não surpreende ninguém que acompanha este blog:

computadores.

Bits, bytes, programas, mainframes, terminais, máquinas que executam milhões de instruções e sistemas que permanecem funcionando durante décadas.

O outro nasceu muito antes de eu entender qualquer coisa sobre processamento de dados.

Ferrovias.

Trilhos.

Estações.

Locomotivas.

Pontes ferroviárias.

Cabines de sinalização.

Rotundas.

Pátios.

Vagões esquecidos.

Máquinas a vapor.

E aquelas enormes diesel-elétricas que parecem fazer o chão vibrar quando passam.

Tenho um prazer quase infantil em procurar essas coisas.

Pode ser uma grande estação preservada ou apenas uma ruína escondida no mato.

Pode ser uma rotunda ferroviária.

Uma ponte enferrujada.

Uma velha cabine de controle.

Um pedaço de trilho desaparecendo debaixo da vegetação.

Ou simplesmente alguns vagões abandonados em algum pátio.

Onde algumas pessoas enxergam apenas ferro velho, eu começo imediatamente a imaginar:

Para onde aquilo viajava?

Quem trabalhou ali?

Quem embarcou naquela plataforma?

Quantas despedidas aconteceram naquele lugar?

Quantas pessoas chegaram ali começando uma vida nova?

E foi exatamente com esse espírito que visitei novamente a antiga Estação Ferroviária de Vinhedo.



🚉 Mas eu já conhecia aquela estação viva

Esta visita tinha uma característica muito especial.

Eu não estava conhecendo a estação pela primeira vez.

No passado eu havia passado por ali como utente da ferrovia, viajando de trem quando aquela estrutura ainda fazia parte de uma rede ferroviária utilizada para transportar passageiros.

Eu conheci aquele lugar quando estação ainda significava estação.

Havia passageiros.

Havia trens.

Havia movimento.

Havia horários.

Havia gente chegando.

Havia gente partindo.

Havia aquela sensação maravilhosa de que uma plataforma ferroviária não era exatamente um destino.

Era um portal.

Você entrava em uma estação e, através dos trilhos, estava conectado a dezenas de outros lugares.

Décadas depois, voltar ali produziu uma sensação completamente diferente.

Porque nossos olhos fazem algo curioso com os lugares da memória.

Eles continuam esperando encontrar aquilo que conheceram.



🕰️ Antes de Vinhedo existir, havia Cachoeira e Rocinha

A história daquela estação é mais antiga até mesmo que o município cujo nome ela carrega atualmente.

A estação foi inaugurada em 31 de março de 1872, originalmente chamada Cachoeira, integrando o trecho pioneiro entre Jundiaí e Campinas da Companhia Paulista de Estradas de Ferro.

Depois ela passaria a ser conhecida como Rocinha.

Somente muito mais tarde apareceria na placa o nome que conhecemos:

VINHEDO.

Com a autonomia municipal em 1948, a antiga Rocinha tornou-se Vinhedo e a estação acompanhou a mudança.

Isso significa algo extraordinário.

A ferrovia não chegou a uma Vinhedo já pronta.

A ferrovia participou da formação do lugar que viria a tornar-se Vinhedo.

E essa diferença é gigantesca.



☕ Ferrovia não transportava apenas pessoas

Quando pensamos nas antigas ferrovias paulistas, inevitavelmente aparece uma palavra:

café.

A expansão ferroviária pelo interior de São Paulo esteve profundamente relacionada ao crescimento econômico proporcionado pela agricultura e particularmente pelo café.

Os trilhos permitiam transportar grandes volumes de produção com eficiência muito maior do que os antigos caminhos terrestres.

Mas limitar a importância dessas ferrovias às sacas de café seria contar apenas metade da história.

Por aqueles mesmos trilhos viajavam:

mercadorias, correspondências, trabalhadores, comerciantes, famílias e imigrantes.

Viajavam ideias.

Viajavam notícias.

Viajavam oportunidades.

E viajavam também coisas que provavelmente ninguém imaginaria quando olha hoje para uma velha ferrovia.

Inclusive água.



💧 Quando os trens levaram água para Campinas

Aqui existe um capítulo fascinante da história regional.

No final do século XIX, Campinas enfrentou uma terrível epidemia de febre amarela.

Estamos falando de uma época na qual o conhecimento médico sobre a transmissão da doença ainda era incompleto.

Hoje sabemos da importância do mosquito Aedes aegypti na transmissão da febre amarela urbana.

Mas naquele momento existiam outras hipóteses.

Uma delas relacionava a doença à qualidade da água.

E isso criou uma situação extraordinária.

Campinas precisava de água considerada segura.

E onde encontrar essa água?

Na região de Rocinha, futura Vinhedo.

Agora tente imaginar essa cena.

Não há caminhão-pipa moderno.

Não existe uma enorme rede logística rodoviária.

Estamos no século XIX.

A solução tecnológica disponível tem:

caldeira, carvão, vapor, pistões, rodas de aço e trilhos.

🚂

A ferrovia entrou em ação.

A Companhia Paulista transportou água da região entre Rocinha e Vinhedo utilizando vagões-tanque.

Esses verdadeiros reservatórios sobre rodas seguiam pelos trilhos até Campinas.

A água abastecia um reservatório e posteriormente um chafariz utilizado pela população.

Pense no simbolismo disso.

Normalmente imaginamos uma locomotiva transportando café.

Naquele momento, entretanto, aqueles trilhos estavam transportando algo ainda mais básico:

água para uma cidade aterrorizada por uma epidemia.

A ferrovia havia se transformado numa gigantesca artéria logística.


🚂 Uma espécie de caminhão-pipa sobre trilhos

Para alguém de nossa época talvez seja mais fácil imaginar aqueles vagões como enormes caminhões-pipa ferroviários.

Só que puxados por locomotivas a vapor.

Imagino aquelas máquinas chegando à região.

O vapor escapando.

O cheiro do carvão.

O ruído metálico.

Homens trabalhando ao redor dos vagões.

Bombas transferindo água.

Reservatórios sendo abastecidos.

Depois:

APITO!

A composição parte novamente.

Destino:

Campinas.

Dentro daqueles vagões não havia passageiros.

Não havia café.

Havia água.

E havia também, mesmo sem que os ferroviários soubessem, a esperança de milhares de pessoas.


🦟 A ciência estava errada — mas a engenharia estava funcionando

Existe uma deliciosa ironia histórica nessa história.

A hipótese médica utilizada naquele momento estava equivocada.

A febre amarela não estava sendo transmitida pela água daquela maneira.

Mas a resposta logística era extraordinariamente engenhosa.

Esse é um exemplo maravilhoso de como história da tecnologia e história da ciência caminham juntas — algumas vezes até quando uma delas está seguindo a pista errada.

As pessoas trabalhavam com o conhecimento disponível naquele momento.

E a ferrovia mostrou novamente sua extraordinária flexibilidade.

Precisamos transportar café?

Ferrovia.

Precisamos transportar pessoas?

Ferrovia.

Precisamos transportar correspondência?

Ferrovia.

Campinas precisa urgentemente de água?

Coloque reservatórios sobre rodas e chame a locomotiva.


🏚️ E então eu voltei

É justamente conhecendo um pouco dessa história que minha visita à velha estação ganhou outro peso.

Eu fui até lá porque gosto de explorar ferrovias.

Faz parte de uma espécie de tradição pessoal.

Procuro estações.

Procuro trilhos.

Procuro locomotivas.

Procuro pontes.

Procuro rotundas.

Procuro vagões.

Procuro ruínas.

Só que naquela ocasião não estava simplesmente procurando uma ruína interessante para filmar.

Eu estava voltando a um lugar que conhecera vivo.

E encontrei abandono.


💔 Aquilo partiu meu coração

Vinhedo tornou-se um município próspero.

A cidade cresceu.

Mudou.

Modernizou-se.

Novos bairros apareceram.

Novas construções surgiram.

Automóveis passaram a dominar as ruas.

Mas ali, praticamente no meio da cidade, permanecia aquele pedaço extraordinário da história ferroviária.

E quando fiz esta visita, o que encontrei provocou uma sensação difícil de explicar.

Ferrugem.

Abandono.

Vagões deteriorados.

Estruturas degradadas.

Silêncio.

Um patrimônio que parecia ter sido colocado em uma enorme pasta chamada:

ESQUECER.

Para quem olha rapidamente talvez fossem apenas coisas velhas.

Para mim não.

Eu conseguia enxergar o que havia por trás delas.


👻 Fantasmas ferroviários

Talvez esse seja o problema de gostar tanto de ferrovias.

Depois de algum tempo você começa a enxergar fantasmas.

Não fantasmas sobrenaturais.

Fantasmas históricos.

Olho para uma plataforma vazia e consigo imaginar pessoas esperando o trem.

Olho para uma passagem de nível e imagino o aviso da aproximação da composição.

Olho para uma cabine abandonada e penso no operador movimentando alavancas.

Olho para um vagão deteriorado e imagino quando aquela pintura ainda brilhava.

Olho para os trilhos e imagino uma locomotiva aproximando-se.

CLAC.

CLAC.

CLAC.

CLAC.

Então você pisca.

E tudo está silencioso novamente.


🧠 Patrimônio não é apenas uma construção bonita

Existe também um erro comum quando falamos de patrimônio histórico.

Pensamos imediatamente em palácios.

Igrejas.

Casarões.

Monumentos.

Mas patrimônio industrial também conta nossa história.

Uma estação ferroviária explica como uma cidade cresceu.

Uma rotunda explica como locomotivas eram mantidas.

Uma cabine explica como o tráfego ferroviário era controlado.

Uma ponte explica como engenheiros venceram determinado obstáculo geográfico.

Um velho vagão explica como pessoas e mercadorias viajavam.

Até uma caixa d'água ferroviária pode contar uma história extraordinária.

Quando destruímos esses objetos sem documentá-los, não estamos simplesmente jogando fora ferro velho.

Estamos apagando documentação tridimensional da nossa própria história.


💻 Talvez seja por isso que mainframes e ferrovias combinam tanto comigo

Quanto mais penso nisso, mais percebo uma ligação curiosa entre meus dois grandes amores tecnológicos.

Mainframes e ferrovias parecem mundos completamente diferentes.

Mas não são tanto assim.

Ambos trabalham com infraestrutura.

Ambos dependem de confiabilidade.

Ambos utilizam redes.

Ambos precisam de planejamento.

Ambos transportam alguma coisa.

A ferrovia transporta pessoas e cargas.

O computador transporta e transforma informação.

Uma ferrovia possui estações, entroncamentos e pátios.

Uma rede possui nós, enlaces e datacenters.

Uma cabine ferroviária controla rotas.

Um sistema operacional controla recursos.

E ambos carregam uma característica que adoro:

camadas de história convivendo com tecnologia moderna.


🥚 Easter egg — talvez eu não estivesse filmando uma estação

Quando publiquei aquele pequeno vídeo em 2017, poderia parecer simplesmente mais um registro de minhas explorações ferroviárias.

Mas hoje percebo outra coisa.

Talvez eu não estivesse filmando apenas uma estação abandonada.

Eu estava fazendo um pequeno backup.

Um backup da memória.

Um backup de um lugar.

Um backup de uma sensação.

Um backup de algo que poderia mudar ou desaparecer.

E existe uma regra que todo profissional de informática aprende cedo ou tarde:

Aquilo que não possui backup pode desaparecer para sempre.

Talvez patrimônio histórico funcione exatamente da mesma maneira.

Fotografias são backups.

Vídeos são backups.

Depoimentos são backups.

Museus são backups.

Arquivos são backups.

Memórias são backups.

E cada pessoa que registra uma velha estação antes que ela desapareça está, de certa maneira, executando:

BACKUP HISTORY TO FUTURE


🚉 Mas esta história talvez ainda não tenha terminado

Existe uma bela ironia acontecendo enquanto revitalizo este texto.

Décadas depois do declínio dos serviços ferroviários de passageiros da região, os trilhos estão novamente entrando na discussão sobre mobilidade.

O projeto atual do Trem Intermetropolitano — TIM prevê ligação entre Campinas e Jundiaí com paradas em Valinhos, Vinhedo e Louveira.

Ou seja:

Vinhedo poderá novamente possuir uma estação integrada a um serviço ferroviário regional.

Talvez a ferrovia esteja preparando seu retorno.

Talvez crianças que hoje passam pela velha estação sem compreender exatamente sua importância ainda tenham a oportunidade de crescer associando novamente a palavra Vinhedo ao som de um trem chegando.

E isso fecha um círculo maravilhoso.

Cachoeira.

Rocinha.

Companhia Paulista.

Locomotivas a vapor.

Café.

Imigrantes.

Água para Campinas.

Vinhedo.

FEPASA.

Declínio.

Abandono.

Memória.

E talvez...

trens novamente.


❤️ Este vídeo é minha pequena homenagem

Foi por isso que fiz aquele registro.

Não pretendia produzir um documentário histórico definitivo.

Era apenas um homem apaixonado por ferrovias caminhando entre vestígios de um mundo que conheceu um pouco mais vivo.

Mas havia uma intenção.

Não esquecer.

E talvez pedir silenciosamente que outras pessoas também não esquecessem.

Porque uma cidade não começa quando construímos o condomínio mais novo.

Uma cidade é feita de camadas.

Debaixo do asfalto existem caminhos.

Atrás dos prédios existem histórias.

Ao lado das avenidas podem existir trilhos.

E algumas vezes, naquele pedaço enferrujado de ferro que ninguém mais percebe, está escondida uma parte gigantesca da história da própria cidade.

A velha estação de Vinhedo não é apenas uma estação.

Ela testemunhou a transformação de Cachoeira em Rocinha.

De Rocinha em Vinhedo.

Viu o café viajar.

Viu pessoas chegarem.

Viu pessoas partirem.

Viu locomotivas a vapor.

Viu novas tecnologias ferroviárias aparecerem.

E seus trilhos chegaram até a participar da luta de Campinas contra uma epidemia.

Por isso continuo procurando essas estações.

Continuo fotografando.

Continuo filmando.

Continuo entrando em museus ferroviários.

Continuo procurando rotundas.

Continuo olhando pontes.

Continuo parando diante de locomotivas.

Porque computadores me ensinaram uma coisa importante:

dados precisam ser preservados.

As ferrovias me ensinaram outra:

memórias também.

☕🚂

E enquanto alguém ainda contar essas histórias, talvez aqueles trilhos nunca fiquem completamente abandonados.

-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Companhia Paulista de Estrada de Ferro.


Uma antiga estação ferroviária toda abandonada com sucatas por todo lado, vagões incendiados, ferrugem e desolação.

Outrora um lugar que atraia pessoas, transportava a riqueza de Vinhedo para todo o estado, levando cafe para o porto de Santos e trazendo imigrantes ate esta região.

Para os aventureiros convido darem uma voltinha e conhecerem uma ponte de ferro, passagens de nível, cabine de operações e muitos destroços pelo caminho. Lembra um paisagem europeia do pós guerra.



sábado, 21 de maio de 2016

A magia da Cabine 2 na estaçao cultura

Bellacosa Mainframe e a cabine 2 da cia paulista na estação Central de Campinas

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

🚦 A Cabine 2 — Onde os trens continuaram circulando

Para compreender por que aquele lugar me fascinava tanto, primeiro é preciso esquecer por alguns minutos a maquete e imaginar a antiga Estação Central de Campinas quando aquilo tudo ainda era uma gigantesca máquina ferroviária funcionando.

Campinas era um nó.

Trilhos chegavam, trilhos partiam, trilhos se cruzavam e se bifurcavam. A ferrovia conectava a cidade a diferentes regiões do estado e participava diretamente daquele enorme sistema econômico que durante décadas transportou pessoas, mercadorias e, sobretudo, o café.

Companhia Mogiana, Companhia Sorocabana e outras ligações ferroviárias ajudavam a transformar aquela região em um verdadeiro hub sobre trilhos.

E ainda havia os bondes.

Imagine tudo isso funcionando simultaneamente.

Locomotivas chegando. Vagões sendo deslocados. Composições aguardando passagem. Manobras. Pátios. Desvios. Sinais. Passageiros. Cargas. Funcionários correndo de um lado para outro.

Não bastava simplesmente colocar uma locomotiva sobre os trilhos e mandar o maquinista seguir em frente.

Era preciso controlar o caminho.

🚦 As cabines que comandavam os trilhos

Foi nesse universo que existiram as famosas Cabine 1 e Cabine 2.



Dentro delas havia dezenas de alavancas associadas ao complexo sistema de controle ferroviário. Por meio daqueles mecanismos, operadores podiam comandar aparelhos de mudança de via, sinais e rotas, permitindo organizar o tráfego e evitar que duas composições tentassem ocupar caminhos incompatíveis.

Hoje apertamos um botão numa tela e esperamos que algum software resolva tudo.

Naquela época havia ferro, cabos, engrenagens, travas, alavancas e gente que precisava conhecer perfeitamente aquela gigantesca árvore de possibilidades.

Para um mainframeiro, é difícil não olhar para aquilo e pensar:

era praticamente um sistema de gerenciamento de recursos antes de existir computador.

Cada trem precisava receber seu caminho.

Cada rota precisava estar corretamente preparada.

Cada movimento dependia do estado anterior do sistema.

E determinadas combinações simplesmente não poderiam ser permitidas.

Um IF, um ELSE e muito aço.

😁

A estação era o hardware.

Os trilhos eram a rede.

As alavancas eram a interface.

Os operadores eram o sistema operacional.

E os trens eram os JOBs disputando recursos.

Só que um S0C7 ferroviário seria consideravelmente mais desagradável.

🏚️ Quando o silêncio chegou



Então veio aquilo que tantas construções ferroviárias brasileiras conheceram.

O movimento diminuiu.

Os trens desapareceram.

As instalações perderam sua função original.

Quando o tráfego ferroviário deixou aquela região da estação no começo dos anos 2000, estruturas que durante décadas haviam sido essenciais ficaram abandonadas.

As duas cabines sofreram.

Vieram abandono, deterioração, vandalismo e saques.

Peças desapareceram.

Equipamentos foram danificados.

Aquilo que durante décadas havia ajudado a controlar toneladas de aço em movimento tornou-se mais uma ruína de um sistema que parecia não interessar mais a ninguém.

Mas alguém ainda se importava.



❤️ O amor pelos trilhos entrou pela porta

Um grupo de apaixonados por ferromodelismo conseguiu autorização para ocupar a antiga Cabine 2, justamente aquela que ainda apresentava melhores condições.

E fizeram algo que considero maravilhoso.

Não construíram simplesmente uma sede.

Salvaram um pedaço da ferrovia colocando outra ferrovia dentro dela.

Restauraram aquilo que puderam da antiga cabine, preservaram elementos sobreviventes e começaram a ocupar o espaço com seu próprio universo ferroviário.

Nasceu ali um enorme diorama.

Centenas de metros de pequenos trilhos passaram a percorrer aquele ambiente.

Apareceram estações.

Casas.

Prédios.

Pontes.

Túneis.

Campos.

Árvores.

Ruas.

Automóveis.

Postes.

Pessoas minúsculas congeladas em seus cotidianos.

E, naturalmente, trens.

Muitos trens.

🚂 Os gigantes voltaram pequenos

Essa talvez seja a parte mais bonita da história.

Durante décadas, a Cabine 2 ajudou a movimentar trens de verdade.

Depois os grandes trens desapareceram.

Durante algum tempo houve silêncio.

Até que eles voltaram.

Só que voltaram em escala H0.

As locomotivas agora cabiam nas mãos.

Os vagões pesavam gramas em vez de toneladas.

As distâncias de quilômetros transformaram-se em metros.

Mas continuavam existindo horários imaginários, estações, desvios, composições, cargas e passageiros.

Era uma ferrovia inteira reconstruída em miniatura.

E não havia qualquer obrigação de respeitar rigorosamente uma única época.

Era justamente isso que tornava aquele universo tão divertido.

Na maquete podiam se encontrar equipamentos ferroviários de diferentes períodos. Locomotivas antigas conviviam com modelos mais modernos. Reconstruções históricas dividiam espaço com a criatividade dos modelistas.

Era história, técnica e imaginação funcionando juntas.



👦 E havia uma criança de mais de 40 anos ali

Enquanto Ana Paula fazia seu curso de teatro amador em outro espaço da Estação Cultura, eu tinha algumas horas para gastar.

E aquilo era perigosíssimo.

Porque me deixaram solto dentro de uma antiga estação ferroviária.

😂

Eu zanzava.

Entrava aqui.

Olhava ali.

Fotografava alguma coisa.

Filmava outra.

Descobria um corredor.

Encontrava uma velha instalação.

E inevitavelmente acabava novamente na Cabine 2.

Podia passar horas ali.

Observava as locomotivas.

Acompanhava os trens percorrendo a maquete.

Examinava pontes, estações e construções.

Tentava reconhecer equipamentos.

Conversava.

Fotografava.

Olhava novamente.

E alguma coisa naquele lugar mexia profundamente comigo.

Na época talvez eu não tenha parado para racionalizar.

Hoje consigo.



🚂 Os trens que eu não podia ter

Para entender aquele homem olhando fascinado uma ferrovia em miniatura em 2016, é preciso voltar aos anos 1970.

Desde criança eu gostava de trens.

Meu pai também gostava e, de alguma maneira, transmitiu esse fascínio para mim.

Meus primeiros trenzinhos eram brinquedos simples movidos a pilha.

Aquelas pistas redondas.

Depois o maravilhoso oito.

Para uma criança, aquilo já era uma ferrovia inteira.

Só que existia outro universo.

Ferrorama.

Modelos importados.

Locomotivas detalhadas.

Ferromodelismo de verdade.

Escalas H0, N e outras maravilhas que eu via, admirava e desejava.

Mas nossa realidade financeira era outra.

Não havia dinheiro para aquilo.

Então a criança brincava com aquilo que podia ter.

E imaginava o restante.

Décadas depois, aquela criança entrou na Cabine 2.

Só estava um pouco maior.

Talvez com barba.

😁

E encontrou diante dela tudo aquilo multiplicado por cem.

Trilhos por toda parte.

Locomotivas detalhadas.

Estações.

Pontes.

Túneis.

Desvios.

Cenários.

Composições completas atravessando uma paisagem construída durante incontáveis horas por outras pessoas que sofriam da mesma maravilhosa doença:

amor por trens.

Foi por isso que aquelas horas passavam tão depressa.

Eu não estava simplesmente olhando uma maquete.

Estava olhando os trens que eu não podia ter quando criança.

🕰️ Uma máquina do tempo dentro de outra máquina do tempo

Hoje, dez anos depois daquele registro de 2016, percebo uma ironia maravilhosa naquela cena.

A antiga Estação Central já era uma máquina do tempo.

A Cabine 2 era outra.

E dentro da Cabine 2 havia uma terceira.

A estação preservava a memória ferroviária de Campinas.

A cabine preservava parte da tecnologia utilizada para controlar aquela ferrovia.

E a maquete preservava visualmente os próprios trens.

Era uma espécie de backup dentro do backup.

Ou, para falar a língua do Bellacosa Mainframe:

um dataset histórico dentro de outro dataset histórico, montado sobre um hardware que ninguém teve coragem de dar DELETE PURGE.

Ainda bem.

Porque patrimônio histórico possui um problema terrível.

Quando destruímos completamente alguma coisa, podemos até escrever posteriormente milhares de páginas explicando como funcionava.

Mas nunca será exatamente a mesma coisa.

Uma alavanca verdadeira conta uma história que uma fotografia da alavanca não consegue contar.

Uma cabine ferroviária verdadeira explica escala, ergonomia, esforço, posição e complexidade de uma maneira que um parágrafo dificilmente consegue reproduzir.

E uma locomotiva circulando por uma maquete consegue fazer uma criança compreender em segundos aquilo que talvez dez páginas de história ferroviária não consigam ensinar.

☕ Dez anos depois

Minha postagem original sobre a Cabine 2 era pequena.

Eu dizia que havia passado quase duas horas apreciando aquele trabalho.

Fotografei.

Filmei.

Publiquei.

Segui a vida.

Hoje percebo que havia muito mais acontecendo naquela tarde.

Ana Paula estava estudando teatro.

Um grupo de apaixonados por ferrovias mantinha viva uma cabine ferroviária.

Pequenos trens percorriam centenas de metros de trilhos.

E eu estava no meio de tudo aquilo documentando sem saber que, dez anos depois, voltaria às mesmas fotografias tentando reconstruir não apenas o que eu vi, mas por que aquilo havia sido importante para mim.

Talvez seja essa a verdadeira magia da Cabine 2.

Não são apenas os pequenos trens.

Não são apenas as alavancas.

Não é apenas o enorme diorama.

É a continuidade.

Um lugar construído para controlar trens perdeu seus trens.

Quase foi destruído.

Foi encontrado por pessoas que amavam trens.

Essas pessoas salvaram o que puderam.

Depois construíram trilhos novamente.

E os trens voltaram a circular.

Pequenos, é verdade.

Mas voltaram.

🚂

A Cabine 2 continuou trabalhando.


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Imagine um grupo de amigos unidos por um amor em comum?


Amam ferrovia e juntaram-se e cada um na sua área de especialidade e construíram uma mini cidade composta por bairros rurais, campos, florestas e cidade.



Juntaram a essa maquete um diversos carris que totalizam quase 300 metros de linha. Através de comandos electrónicos dão vida ao diorama.

Sao tantos  detalhes q gastei quase 2 horas apreciando e ficando doidaooooooo. tantos detalhes e tanto cuidado para produzi-los.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

☕ Um Café Amargo no Século XXI

 

Bellacosa Mainframe e o cafe amargo no seculo xxi decadas de guerra

☕ Um Café Amargo no Século XXI

— Quando o progresso esqueceu o coração humano

Nasci no eco da Guerra Fria. Cresci ouvindo o som distante das sirenes nucleares, o medo invisível de um botão vermelho capaz de apagar o mundo em segundos.
E mesmo assim, havia esperança.
Acreditávamos que o século XXI seria o tempo da razão, da paz mundial, do triunfo da educação e da fraternidade.
Um tempo em que o homem, enfim, deixaria de ser o lobo do homem.

Mas o que aconteceu?
Por que o futuro que sonhamos parece mais turbulento que o passado que temíamos?


🕰️ O fim da guerra... e o começo das pequenas guerras

Quando o Muro de Berlim caiu, o mundo suspirou aliviado.
Era o fim da Guerra Fria, e com ela parecia ruir também o medo da aniquilação global.
Mas, ao mesmo tempo, perdemos o equilíbrio do medo.
Sem dois blocos para manter a ordem, o mundo virou um mosaico de disputas regionais, étnicas e ideológicas.
O inimigo deixou de ser um país e passou a ser o vizinho que pensa diferente.


💰 A globalização prometeu igualdade, mas entregou contraste

O século XXI começou com computadores em cada mesa e celulares em cada bolso.
Acreditamos que o conhecimento seria a grande ponte entre as classes —
mas ele virou um muro de desinformação, construído tijolo por tijolo nas redes sociais.

A tecnologia nos conectou, mas não nos uniu.
A prosperidade veio, mas não para todos.
Criamos um mundo onde alguns vivem no metaverso e outros ainda lutam por um prato de comida real.


📱 O medo mudou de rosto

Antes temíamos bombas.
Hoje tememos mentiras.
Tememos perder o emprego para a inteligência artificial, a liberdade para os algoritmos, o amor para a indiferença.
Vivemos em um campo de batalha invisível, onde cada “feed” é uma trincheira ideológica.
E o inimigo, muitas vezes, é a nossa própria incapacidade de ouvir.


⚙️ A máquina evoluiu, mas o espírito ficou para trás

Conquistamos o DNA, exploramos Marte, criamos cérebros eletrônicos.
Mas ainda tropeçamos nas mesmas pedras:
inveja, medo, ganância, intolerância.
A humanidade ganhou poder demais antes de aprender o que fazer com ele.

O chip evoluiu.
O coração, não tanto.


🙏 O vazio que o consumo não preenche

Quando as religiões perderam força, pensou-se que o homem ficaria livre.
Mas o vazio espiritual não foi preenchido com sabedoria — e sim com urgência.
Urgência de ter, de aparecer, de vencer.
O século XXI é uma vitrine iluminada onde muita gente se sente invisível.
Daí nascem os extremos, os fanatismos, o ódio travestido de ideologia.


☕ O despertar

Ainda assim, nem tudo está perdido.
Cada ato de empatia, cada professor que ensina com amor, cada cientista que pesquisa pelo bem comum,
cada pessoa que prefere dialogar em vez de brigar —
é um grão de esperança no filtro da humanidade.

O futuro que sonhamos ainda pode existir,
mas ele não virá da tecnologia.
Virá da alma.


🧭 Conclusão

O século XXI ainda é o mesmo sonho da Guerra Fria — só que com mais barulho, mais dados e menos silêncio para pensar.
Se quisermos um mundo melhor, talvez o primeiro passo seja simples: desligar as máquinas por um instante e voltar a conversar como humanos.

Porque, no fim das contas, o verdadeiro progresso não é digital.
É emocional, ético e humano.


Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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