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| Bellacosa Mainframe e historias de um picnic |
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Um Café no Bellacosa Mainframe🌊 Sesimbra, Arrábida e o Piquenique que Atravessou o Atlântico
Em 2003 eu estava começando a descobrir Portugal. Carmen mostrava-me a Margem Sul, Luís e Guilhermina apresentavam-me a família portuguesa — e um churrasco numa área de merendas da Serra da Arrábida acabou levando-me de volta ao Fusquinha Vermelho da minha infância.
Há dias que entram para a nossa memória porque alguma coisa extraordinária aconteceu.
Uma viagem.
Um casamento.
Uma despedida.
Uma conquista.
E existem outros que sobrevivem justamente pelo motivo contrário.
Nada extraordinário aconteceu.
Era apenas um céu azul.
Sol.
Uma família.
Algumas carnes sobre uma churrasqueira.
Uma mesa forrada para o piquenique.
Um passeio pelo campo.
Amoras apanhadas diretamente das silvas.
E, algumas horas depois, o Atlântico diante de nós.
Foi um desses dias.
E talvez justamente por isso eu ainda me lembre dele mais de vinte anos depois.
🇵🇹 Meus primeiros passos em Portugal
Em 2003 Portugal ainda era novidade para mim.
Eu estava vivendo aqueles primeiros momentos em que praticamente tudo despertava curiosidade: nomes de cidades, estradas, comidas, costumes, paisagens e até pequenas diferenças linguísticas.
E Carmen era minha guia particular naquele novo mundo.
Ela ia-me apresentando os diferentes points turísticos da Margem Sul do Tejo, lugares que para ela faziam parte de uma geografia relativamente familiar, mas que para o brasileiro recém-chegado eram descobertas.
Sesimbra.
Setúbal.
A Serra da Arrábida.
O litoral.
As pequenas estradas atravessando aquela paisagem portuguesa.
Eu observava tudo.
Talvez esse seja um dos privilégios de chegar a outro país: durante algum tempo, até aquilo que é cotidiano para quem mora ali parece extraordinário para quem acabou de chegar.
Naquele passeio estávamos acompanhados pelos pais da Carmen, Luís e Guilhermina.
E seguimos em direção à maravilhosa Serra da Arrábida.
🌲 A Serra da Arrábida
A paisagem já justificaria o passeio.
A serra descendo em direção ao mar, a vegetação mediterrânica, as estradas sinuosas e, surgindo entre diferentes pontos da paisagem, aquele azul imenso do Atlântico.
Para quem cresceu no Brasil, existe uma tendência quase automática de comparar paisagens.
Não necessariamente para decidir qual é mais bonita.
A cabeça simplesmente procura referências.
Mas naquele dia aconteceria uma comparação muito mais interessante.
Não seria entre praias.
Seria entre famílias.
🔥 Um parque de merendas
Em determinado momento paramos numa área preparada para aquilo que em Portugal se chama muito apropriadamente de parque de merendas.
Havia mesas.
Espaço para as famílias.
E churrasqueira.
Não demorou muito para começarmos nosso piquenique.
As carnes foram para o fogo.
A mesa foi forrada.
Comida apareceu de todos os lados.
Sentamos.
Conversamos.
Comemos.
Rimos.
Nada particularmente digno de entrar para os grandes livros da História da Humanidade.
Mas alguma coisa dentro da minha cabeça começou a fazer uma associação.
Eu já tinha vivido aquela cena.
Não naquele lugar.
Não com aquelas pessoas.
Não naquele país.
Mas eu conhecia aquilo.
🚗 O Fusquinha Vermelho apareceu na Arrábida
De repente, aquele parque de merendas português começou a conversar com minhas lembranças do Brasil.
Voltei algumas décadas.
Meu pai tinha o famoso Fusquinha Vermelho.
E aquele Fusquinha não parecia entender muito bem o conceito de permanecer parado.
Quando meus pais resolviam passear, íamos para o interior de São Paulo, Praia Grande ou simplesmente algum lugar interessante que aparecesse pelo caminho.
E onde o Fusquinha Vermelho parasse poderia nascer um piquenique.
Não precisava de restaurante sofisticado.
Não precisava de reserva.
Não precisava de roteiro gastronômico.
Precisava de comida, família e algum lugar onde pudéssemos sentar.
O resto nós inventávamos.
Era um hábito simples da minha infância.
Daqueles que uma criança não classifica como tradição familiar.
Para a criança, aquilo simplesmente é a vida.
Décadas depois, porém, eu estava do outro lado do Atlântico.
Outro país.
Outro continente.
Outra família.
E lá estavam Luís e Guilhermina fazendo praticamente a mesma coisa.
Carne na churrasqueira.
Mesa preparada.
Família reunida.
Céu azul sobre nossas cabeças.
Foi quando alguma coisa fez click.
🌍 Algumas coisas não precisam de tradução
Eu estava descobrindo que minha família portuguesa também gostava de piquenique.
Parece uma constatação banal.
Mas existe algo bonito nisso.
Porque naquele momento Portugal deixou de ser apenas o país estrangeiro onde eu estava começando uma nova etapa da vida.
Havia algo familiar ali.
O menino brasileiro que tinha viajado dentro de um Fusquinha Vermelho reconheceu aquela cena imediatamente.
Talvez os ingredientes fossem diferentes.
Talvez as palavras fossem diferentes.
Até o português falado ao redor da mesa possuía outro ritmo.
Mas o protocolo era o mesmo.
OPEN PICNIC
PREPARE TABLE
LIGHT FIRE
COOK MEAT
CALL FAMILY
EAT
TALK
LAUGH
CLOSE PICNIC
COMPILATION SUCCESSFUL.
Nenhum erro de compatibilidade entre Brasil e Portugal.
😄
🍇 Depois do almoço, fomos zanzar
Naturalmente, depois de comer veio aquilo que gosto de fazer até hoje.
Zanzar.
Caminhamos pelo campo.
Passamos por algumas parreiras.
Para um brasileiro começando a conhecer Portugal, até aquilo despertava curiosidade.
As vinhas faziam parte de uma paisagem que eu conhecia muito mais através de imagens, histórias e garrafas do que caminhando ao lado delas.
Mas havia outra pequena surpresa esperando.
As silvas.
E nelas, amoras silvestres.
🫐 Comer diretamente da paisagem
Hoje podemos entrar num supermercado e comprar uma pequena embalagem cuidadosamente organizada.
Naquele dia era diferente.
As amoras estavam simplesmente ali.
Nas silvas.
Apanhávamos e comíamos.
É uma experiência pequena, mas curiosamente poderosa.
Existe uma diferença enorme entre:
comer uma fruta
e
encontrar uma fruta durante uma caminhada e comê-la diretamente da planta.
Por alguns segundos desaparece toda a infraestrutura que existe entre o ser humano e a comida.
Não há supermercado.
Código de barras.
Embalagem.
Caixa.
Sacola.
Geladeira.
Há apenas a planta.
A fruta.
A mão.
E alguém dizendo:
— Experimenta.
E lá vai o brasileiro experimentar mais uma coisa portuguesa.
🌊 Então chegamos ao mar
Depois da serra e do campo, fomos até o litoral.
Caminhamos pela areia.
E diante de nós estava novamente aquele velho conhecido.
O Atlântico.
Mas existe uma pequena brincadeira geográfica nisso.
Durante boa parte da minha vida eu havia observado o Atlântico do outro lado.
Agora estava olhando para ele a partir da Europa.
Era o mesmo oceano.
Mas a perspectiva tinha sido invertida.
Caminhamos tranquilamente pela praia, sentindo a brisa marítima.
Sem obrigação.
Sem relógio determinando o próximo compromisso.
Sem necessidade de transformar o passeio em alguma coisa maior do que ele realmente era.
Apenas caminhávamos.
E isso bastava.
☀️ Céu azul, sol, piquenique e família
Talvez esta seja a parte mais importante desta velha postagem.
Se eu tivesse de resumir aquele dia em quatro elementos, seriam:
céu azul, sol, piquenique e família.
Nenhum deles é raro.
Talvez justamente por isso seja tão fácil não perceber sua importância enquanto estão acontecendo.
Naquele momento eu não estava pensando:
"Vagner, preste atenção porque daqui a mais de vinte anos você vai escrever sobre isso."
Claro que não.
Eu estava vivendo.
E esse talvez seja um dos grandes paradoxos da memória.
Passamos anos perseguindo acontecimentos extraordinários e, quando olhamos para trás, frequentemente são as coisas absolutamente comuns que gostaríamos de experimentar novamente.
Sentar naquela mesa.
Sentir o cheiro da carne assando.
Ouvir aquelas conversas.
Caminhar novamente entre as parreiras.
Encontrar as amoras.
Sentir a brisa do mar.
Ver Carmen mostrando-me mais um pedaço de Portugal.
Ou simplesmente permanecer alguns minutos naquele parque de merendas sem saber que aquele instante estava sendo silenciosamente arquivado.
💾 O backup que eu não sabia que estava fazendo
Quando escrevi sobre Sesimbra em 2003, provavelmente estava apenas registrando mais um passeio.
Era um fragmento.
Uma pequena anotação digital.
Mais uma página perdida no gigantesco filesystem da Internet.
Mas foi justamente aquele registro que manteve o ponteiro.
MEMORY POINTER FOUND
YEAR.............. 2003
COUNTRY........... PORTUGAL
REGION............ ARRÁBIDA / SESIMBRA
WEATHER........... BLUE SKY
ACTIVITY.......... PICNIC
PEOPLE............ FAMILY
STATUS............ PRESERVED
E então, mais de duas décadas depois, consigo abrir novamente esse dataset.
Só que agora há informações que o Vagner de 2003 não poderia escrever.
Porque algumas coisas somente ganham significado depois que envelhecemos.
🚗 O verdadeiro easter egg estava estacionado décadas antes
O passeio era em Portugal.
A postagem falava de Sesimbra.
O cenário era a Serra da Arrábida.
Mas escondido dentro daquela história estava um Fusquinha Vermelho.
Ele não estava fisicamente ali.
Tinha ficado décadas atrás, milhares de quilômetros distante.
Mas estava naquela mesa.
Porque quando vi aquela família portuguesa preparando um piquenique, alguma parte da minha memória reconheceu imediatamente meus próprios pais fazendo aquilo.
Talvez seja isso que chamamos de pertencimento.
Não significa encontrar pessoas iguais.
Significa encontrar, no meio das diferenças, alguma coisa que nosso coração já conhece.
Naquele dia descobri um pouco da Serra da Arrábida.
Conheci mais de Sesimbra.
Caminhei pelo campo.
Vi parreiras.
Comi amoras silvestres.
Respirei a brisa do Atlântico.
Mas descobri também uma coisa que nenhum guia turístico poderia colocar no roteiro:
do outro lado do oceano havia uma família que também sabia transformar uma churrasqueira, uma mesa e uma tarde ensolarada em memória.
E talvez tenha sido justamente naquele piquenique que Portugal começou, muito discretamente, a deixar de parecer tão estrangeiro.
☕ P.S. — O melhor ponto turístico daquele dia não aparece no mapa
Podemos colocar a Serra da Arrábida no GPS.
Podemos localizar Sesimbra.
Podemos procurar praias, estradas e miradouros.
Mas não existe coordenada para aquela mesa.
O parque de merendas pode até continuar existindo.
A churrasqueira talvez ainda esteja lá.
Outras famílias provavelmente já fizeram centenas de piqueniques naquele mesmo lugar.
Mas aquele piquenique existe somente na memória.
Um Fusquinha Vermelho no Brasil.
Uma churrasqueira na Arrábida.
Duas famílias.
Dois continentes.
O mesmo hábito.
E um brasileiro descobrindo, sem perceber naquele momento, que algumas das maiores viagens da nossa vida não acontecem quando atravessamos oceanos.
Acontecem quando encontramos, do outro lado deles, alguma coisa que já morava dentro de nós.
☕ Bellacosa Mainframe — memórias também precisam de backup.
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Que maravilha um dia de sol para fugir da rotina e aproveitar para tomar um ar fresquinho. Saímos para fazer um pic nic na serra da Arrábida.
Num parque de merenda fizemos uma churrascada, passeamos por videiras, andamos no campo, brincando no campo e aproveitando o dia.
Depois fomos para a praia caminhar na área, porem a agua é muito fria, então curtimos a brisa marinha e se esticamos na areia.