| Bellacosa Mainframe e o primeiro bailinho escolar |
💃🎶 Gisele e o Primeiro Bailinho Escolar Parte II
Existem lembranças que sobrevivem ao tempo não pela grandiosidade dos acontecimentos, mas pela delicadeza dos detalhes, sei que já falei antes, mas mesmo assim é uma memoria tão doce, que resolvi reviver, relembrar, colorir um pouco mais.
Uma delas aconteceu em 1986, na saudosa Escola Estadual Amador Bueno da Veiga, em Taubaté.
Era costume nos anos 1980 que, durante a Semana do Professor e também próximo ao encerramento do ano letivo, as salas organizassem pequenas festas. Os rapazes ajudavam comprando refrigerantes, salgadinhos e doces. As garotas traziam quitutes preparados em casa. A sala era decorada com cartolinas, desenhos e enfeites improvisados. Os professores visitavam cada turma, experimentavam as guloseimas e participavam da confraternização.
Era simples.
Mas para nós parecia um grande evento social.
O ponto alto da festa acontecia quando alguém trazia um rádio ou um toca-fitas. Bastava fechar as cortinas, apagar as luzes e colocar uma música lenta para a mágica começar.
E então surgia a lendária tradição do Baile da Vassoura.
As regras eram implacáveis.
Um rapaz começava dançando com uma vassoura. Quando desejasse, podia oferecer a vassoura para qualquer garoto que estivesse dançando.
E aí vinha a lei máxima da brincadeira:
Não podia recusar.
O escolhido era obrigado a assumir a vassoura.
A segunda regra era igualmente cruel.
Não era permitido voltar para a mesma garota.
Era preciso convidar outra parceira.
Resultado?
Uma confusão divertida de trocas, risadas, provocações e, vez ou outra, algum beijo roubado que se tornava assunto durante semanas.
Mas entre tantas festas, uma ficou gravada para sempre na memória.
Havia uma colega chamada Gisele.
Uma amiga querida.
Daquelas pessoas que iluminavam os ambientes sem perceber.
Em determinado momento da festa, ela veio me chamar para dançar.
Eu, tímido até dizer chega, aproximei-me e confessei quase em segredo:
— Eu não sei dançar.
Qualquer outra pessoa talvez desistisse.
Mas não a Gisele.
Com aquele brilho maroto nos olhos que só algumas garotas possuem, ela simplesmente sorriu e respondeu:
— Não tem problema. Eu ensino.
E me levou mesmo assim para o meio da pista improvisada da sala do Sexto Ano A.
A música tocava baixinho.
As luzes permaneciam apagadas.
E ali ficamos.
Coladinhos.
Dois passinhos para lá.
Um passinho para cá.
Dois passinhos para lá.
Um passinho para cá.
Nada extraordinário aconteceu.
Não houve beijo cinematográfico.
Não houve declaração de amor.
Não houve final de novela.
Mas houve algo muito mais raro.
A descoberta da ternura.
Aquela sensação boa de alguém pegar sua mão quando você não sabe exatamente o que fazer.
Décadas se passaram.
Muitas pessoas cruzaram meu caminho.
Muitas cidades ficaram para trás.
Muitas histórias foram vividas.
Mas vez ou outra fecho os olhos e volto para aquela sala.
Ouço novamente a música.
Vejo as cortinas fechadas.
Escuto as risadas dos colegas.
E enxergo a doce Gisele me conduzindo pela pista improvisada.
Talvez seja por isso que Taubaté ainda ocupe um espaço tão especial dentro de mim.
Porque a cidade não foi feita apenas de ruas, bicicletas, açudes e aventuras.
Ela também foi feita de momentos pequenos.
Momentos aparentemente insignificantes.
Mas que continuam vivos quarenta anos depois.
E entre todas as lembranças daquele tempo mágico, ainda existe um garoto tímido aprendendo a dançar.
Dois passinhos para lá.
Um passinho para cá.
Guiado por uma amiga que jamais imaginaria que aquele gesto simples se transformaria numa das memórias mais doces de toda uma vida.
Ps: Não foi a primeira festa escolar, me recordo das turmas de 1983, 1984 e 1985, mas a Gisele foi unica e a festa de 1986 foi memoravel
https://eljefemidnightlunch.blogspot.com/2014/10/taubate-e-o-final-boss-bailinhos-amigo.html