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segunda-feira, 2 de junho de 2025

Quando os Animes Descobriram Que Nem Todo Sistema Precisa Rodar em Produção


Bellacosa Mainframe e a lista de animes sobre acampamento

☕💣🏕️ OPERADOR, O DATACENTER FOI MIGRADO PARA A FLORESTA!

Quando os Animes Descobriram Que Nem Todo Sistema Precisa Rodar em Produção

Existe uma curiosa ilusão criada pela tecnologia moderna: a ideia de que estamos conectados o tempo inteiro. Smartphones, redes sociais, streaming, inteligência artificial, computação em nuvem e datacenters espalhados pelo planeta criaram um ambiente onde praticamente nunca estamos realmente desconectados.

Mas existe um pequeno grupo de animes que decidiu seguir exatamente a direção oposta.

Enquanto a maioria das histórias japonesas fala sobre batalhas épicas, poderes sobrenaturais, guerras interdimensionais, invasões alienígenas ou protagonistas destinados a salvar o universo, alguns autores resolveram perguntar algo muito mais simples:

"E se o maior evento do dia fosse apenas montar uma barraca?"

Foi assim que nasceu um dos subgêneros mais relaxantes da animação japonesa: os animes de camping, trilhas, montanhismo e vida ao ar livre.

São obras onde o conflito principal não é derrotar o Rei Demônio, mas encontrar um bom local para acampar antes do pôr do sol. Onde a recompensa não é um artefato lendário, mas uma refeição quente preparada em um fogareiro portátil. Onde o chefe final não é um dragão ancestral, mas uma noite fria nas montanhas.

Curiosamente, esses animes conquistaram milhares de fãs ao redor do mundo justamente porque oferecem aquilo que o mundo moderno parece ter perdido: silêncio, contemplação e simplicidade.

Para nós, profissionais de tecnologia e mainframe, existe uma identificação imediata.

Depois de um dia inteiro lidando com ABENDs, dumps, incidentes de produção, filas JES2 e jobs que insistem em falhar exatamente às três da manhã, assistir alguém preparando um café diante do Monte Fuji pode ser surpreendentemente terapêutico.

Então prepare sua mochila, carregue suas baterias e faça o IPL do seu espírito aventureiro.

Vamos explorar os melhores animes de acampamento já produzidos.

🏕️ 1. Yuru Camp△ (Laid-Back Camp)

Título Original

Yuru Camp△ (ゆるキャン△)

Lançamento

  • Temporada 1: 2018

  • Temporada 2: 2021

  • Filme: 2022

  • Temporada 3: 2024

Episódios

  • Temporada 1: 12

  • Temporada 2: 13

  • Temporada 3: 12

  • Total: 37 episódios + filme

Personagens Principais

Rin Shima

  • Especialista em camping solo

  • Introvertida

  • Ama paisagens tranquilas

Nadeshiko Kagamihara

  • Energética

  • Apaixonada por comida

  • Responsável pelos momentos mais divertidos

Chiaki Oogaki

  • Líder informal do clube de atividades ao ar livre

Aoi Inuyama

  • Especialista em pegadinhas e histórias exageradas

Sinopse

Uma estudante apaixonada por camping solitário conhece uma garota extremamente sociável. A amizade das duas acaba criando um grupo dedicado a explorar campings por todo o Japão.

Curiosidades

  • Diversos locais mostrados existem na vida real.

  • O turismo em regiões retratadas cresceu significativamente após o anime.

  • Fabricantes de equipamentos de camping relataram aumento de interesse após a série.

Easter Eggs

  • Muitas placas e mapas reproduzem locais reais com enorme fidelidade.

  • Equipamentos utilizados são inspirados em modelos existentes no mercado japonês.

Resumo Bellacosa

Se existisse um sistema operacional oficial para acampamentos, Yuru Camp seria sua distribuição estável de produção. Sem bugs, sem incidentes e sem chamados críticos.


⛰️ 2. Yama no Susume (Encouragement of Climb)

Título Original

Yama no Susume (ヤマノススメ)

Lançamento

2013

Episódios

Mais de 50 episódios distribuídos em várias temporadas.

Personagens Principais

Aoi Yukimura

  • Tímida

  • Medrosa

  • Busca superar seus limites

Hinata Kuraue

  • Extrovertida

  • Incentivadora

  • Apaixonada por montanhas

Sinopse

Duas amigas de infância decidem retomar o sonho de escalar montanhas após anos separadas.

Curiosidades

  • O anime é utilizado informalmente por grupos de trilha japoneses como referência turística.

  • Diversas montanhas retratadas podem ser visitadas.

Easter Eggs

  • Muitas trilhas mostradas reproduzem trajetos reais.

  • Equipamentos seguem padrões utilizados por praticantes de montanhismo.

Resumo Bellacosa

Imagine um batch job de autoconfiança executando diariamente. Esse é Yama no Susume. Cada montanha conquistada representa um novo upgrade de software emocional.


🚲 3. Long Riders!


Título Original

Long Riders! (ろんぐらいだぁす!)

Lançamento

2016

Episódios

12

Personagens Principais

Ami Kurata

  • Iniciante no ciclismo

  • Determinada

  • Curiosa

Aoi Niigaki

  • Veterana das pedaladas

Sinopse

Uma estudante descobre o cicloturismo e passa a explorar o Japão em viagens cada vez mais longas.

Curiosidades

  • Incentivou o interesse pelo cicloturismo entre jovens japoneses.

  • Apresenta diversos modelos reais de bicicletas.

Easter Eggs

  • Muitas rotas são reproduções de trajetos turísticos famosos.

  • Algumas lojas retratadas existem de verdade.

Resumo Bellacosa

É o equivalente a executar um job distribuído entre várias cidades. Cada parada funciona como um checkpoint antes do próximo commit da aventura.


🏕️ 4. Heya Camp△

Título Original

Heya Camp△ (へやキャン△)

Lançamento

2020

Episódios

12

Personagens Principais

  • Nadeshiko Kagamihara
  • Chiaki Oogaki
  • Aoi Inuyama

Sinopse

Spin-off de Yuru Camp focado em pequenas viagens, turismo regional e curiosidades sobre campings japoneses.

Curiosidades

  • Produzido para expandir o universo de Yuru Camp.
  • Diversos locais apresentados podem ser visitados na vida real.

Easter Eggs

  • Referências constantes aos eventos das temporadas principais.

Resumo Bellacosa

É como um ambiente de homologação do Yuru Camp. Menor, mais rápido e perfeito para testes de novas aventuras.


📸 5. Mono

Título Original

Mono (mono)

Lançamento

2025

Episódios

12

Personagens Principais

  • Satsuki Amamiya
  • An Kiriyama
  • Sakurako Shikishima

Sinopse

Um grupo de estudantes explora fotografia, filmagem, turismo e paisagens naturais pelo Japão.

Curiosidades

  • Obra criada por Afro, o mesmo autor de Yuru Camp.
  • Compartilha a mesma paixão por cenários reais.

Easter Eggs

  • Diversos fãs identificaram locais já utilizados em Yuru Camp.

Resumo Bellacosa

Imagine um sistema de monitoramento visual para registrar todos os logs da natureza em alta resolução.


🛵 6. Super Cub

Título Original

Super Cub

Lançamento

2021

Episódios

12

Personagens Principais

  • Koguma
  • Reiko
  • Shii Eniwa

Sinopse

Uma garota extremamente solitária encontra liberdade após adquirir uma motocicleta Honda Super Cub.

Curiosidades

  • A Honda participou diretamente do projeto.
  • A Super Cub é a motocicleta mais vendida da história.

Easter Eggs

  • Diversos modelos retratados existem exatamente como mostrados.

Resumo Bellacosa

É o equivalente a receber um terminal 3270 novo e descobrir que o mundo é muito maior do que sua sessão atual.


🌍 7. Kino no Tabi

Título Original

Kino no Tabi (キノの旅)

Lançamento

  • 2003
  • Remake em 2017

Episódios

  • 13 (original)
  • 12 (remake)

Personagens Principais

  • Kino
  • Hermes (motocicleta falante)

Sinopse

Uma viajante percorre países misteriosos permanecendo apenas três dias em cada local.

Curiosidades

  • Inspirado por reflexões filosóficas e culturais.
  • Cada país funciona como uma crítica social diferente.

Easter Eggs

  • Muitos episódios possuem finais abertos propositalmente.

Resumo Bellacosa

Cada cidade parece um sistema operacional diferente executando regras incompatíveis entre si.


🏚️ 8. Girls' Last Tour

Título Original

Shoujo Shuumatsu Ryokou (少女終末旅行)

Lançamento

2017

Episódios

12

Personagens Principais

  • Chito
  • Yuuri

Sinopse

Duas garotas atravessam as ruínas de uma civilização extinta tentando sobreviver em um mundo silencioso.

Curiosidades

  • Considerado um dos animes pós-apocalípticos mais filosóficos já produzidos.
  • Mistura melancolia e esperança de forma única.

Easter Eggs

  • Muitas estruturas lembram arquiteturas soviéticas e instalações industriais abandonadas.
  • Referências discretas à Guerra Fria.

Resumo Bellacosa

Imagine ser o último operador responsável por um datacenter cujo fabricante desapareceu há séculos.


🏝️ 9. Sounan Desu ka?

Título Original

Sounan Desu ka? (ソウナンですか?)

Lançamento

2019

Episódios

12

Personagens Principais

  • Homare Onishima
  • Asuka Suzumori
  • Mutsu Amatani
  • Shion Kujou

Sinopse

Após um acidente aéreo, quatro estudantes ficam presas em uma ilha deserta e precisam sobreviver usando técnicas reais.

Curiosidades

  • Grande parte das técnicas apresentadas são autênticas.
  • Consultores de sobrevivência participaram da produção.

Easter Eggs

  • Diversas estratégias são inspiradas em manuais militares e de escotismo.

Técnicas Mostradas

  • Purificação de água
  • Construção de abrigo
  • Pesca improvisada
  • Obtenção de alimento
  • Sinalização de resgate

Resumo Bellacosa

É o curso de recuperação de desastre que todo operador gostaria de ter antes do primeiro grande incidente.


🎣 10. Slow Loop

Título Original

Slow Loop (スローループ)

Lançamento

2022

Episódios

12

Personagens Principais

  • Hiyori Minagi
  • Koharu Minagi

Sinopse

Duas garotas desenvolvem amizade através da pesca esportiva e da culinária.

Curiosidades

  • Popularizou a pesca com mosca entre jovens japoneses.

Easter Eggs

  • Equipamentos e técnicas seguem padrões reais.

Resumo Bellacosa

Um ambiente estável onde cada captura equivale a um job concluído com RC=0000.


🎣 11. Diary of Our Days at the Breakwater

Título Original

Houkago Teibou Nisshi (放課後ていぼう日誌)

Lançamento

2020

Episódios

12

Personagens Principais

  • Hina Tsurugi
  • Yuuki Kuroiwa

Sinopse

Uma estudante ingressa em um clube de pesca e aprende tudo sobre o universo marítimo.

Curiosidades

  • Explica espécies, equipamentos e técnicas reais.

Easter Eggs

  • Muitos portos apresentados existem no Japão.

Resumo Bellacosa

Uma verdadeira documentação operacional da pesca costeira.


quarta-feira, 2 de outubro de 2024

⚔️ GUIA BELLACOSA DO AVENTUREIRO INICIANTE

Bellacosa Mainframe e o guia bellacosa do aventureiro iniciante

 


⚔️ GUIA BELLACOSA DO AVENTUREIRO INICIANTE

🧙‍♂️ Como Criar Seu Primeiro Personagem em Dungeons & Dragons

“Antes de empunhar a espada, o herói deve empunhar um sonho.”
Bellacosa, Tomo dos Primeiros Passos


🪶 1. O Que É um Personagem?

Seu personagem é a alma da história — o avatar com o qual você explora o mundo do Mestre.
Você o cria do zero: define quem ele é, de onde veio e o que busca.
Cada ficha é uma mini-biografia viva.

Pense assim:

“Quem sou, o que quero e o que estou disposto a fazer para conseguir?”

Essas três perguntas moldam tudo.


🧬 2. Escolha Sua Raça (ou Espécie)

A raça define aparência, cultura e traços físicos.
Veja alguns exemplos clássicos:

RaçaDescriçãoDestaque
🧍‍♂️ HumanoVersátil e adaptável. Está em todo lugar.+1 em todos os atributos.
🧝 ElfoGracioso, sábio, vive séculos.Destreza e visão no escuro.
🪓 Anão (Dwarf)Forte, resistente, ótimo ferreiro.Constituição e resistência.
🧌 OrcGuerreiro nato, temperamento intenso.Força e fúria.
🧚 HalflingPequeno e ágil, coração corajoso.Sorte e destreza.
🐉 DraconatoMeio-dragão, orgulhoso e imponente.Sopro elemental e presença forte.
👁️ TieflingCom sangue infernal, mas alma livre.Magias inatas e carisma.

💡 Dica Bellacosa: escolha uma raça que combine com a história que você quer contar, não apenas com os bônus.


🏹 3. Escolha Sua Classe

A classe define o que o seu personagem faz de melhor — combate, magia, cura, furtividade, etc.

ClassePapelCaracterísticas
⚔️ Guerreiro (Fighter)Combatente versátil.Armas, força e tática.
🧙‍♂️ Mago (Wizard)Mestre arcano.Magias complexas e inteligência.
🛡️ PaladinoGuerreiro sagrado.Fé, justiça e cura.
🏹 Patrulheiro (Ranger)Caçador de monstros.Natureza e precisão.
🕵️ Ladino (Rogue)Espião, ladrão, assassino.Furtividade e astúcia.
🎵 BardoInspirador e encantador.Música, magia e carisma.
⚖️ ClérigoServo de uma divindade.Cura e proteção.
🔮 Feiticeiro (Sorcerer)Nascido com poder mágico.Energia bruta e carisma.
🧛 Bruxo (Warlock)Faz pacto com entidades.Magia sombria e poder misterioso.
🐺 DruidaGuardião da natureza.Transforma-se em animais e controla os elementos.
⚒️ MongeMestre das artes marciais.Disciplina e velocidade.

💡 Dica Bellacosa: escolha a classe que te empolga imaginar. Não há escolha errada, só caminhos diferentes.


📜 4. A História do Seu Personagem (Background)

Toda ficha tem um passado.
Você pode ser um nobre em desgraça, um órfão de guerra, um aprendiz de mago ou um ladrão redimido.

Perguntas para se inspirar:

  • Qual foi o seu primeiro erro?

  • Quem você perdeu?

  • Por que você partiu em jornada?

  • O que te move: ouro, glória, vingança, sabedoria?

Um bom personagem tem contradições.

“O guerreiro valente que teme a escuridão, o mago sábio que duvida de si mesmo.”

Essas nuances criam alma.


🎲 5. Atributos (Os 6 Pilares da Ficha)

AtributoSignificadoExemplo de uso
Força (FOR)Poder físico.Golpear, erguer peso.
Destreza (DES)Agilidade e reflexos.Furtar, esquivar, mirar.
Constituição (CON)Resistência e vitalidade.Tolerar veneno, ferimentos.
Inteligência (INT)Conhecimento e lógica.Investigar, decifrar runas.
Sabedoria (SAB)Percepção e instinto.Notar armadilhas, resistir à magia.
Carisma (CAR)Presença e influência.Convencer, enganar, inspirar.

💡 Dica Bellacosa: pense no equilíbrio. O mago precisa de INT, o guerreiro de FOR, o bardo de CAR.


🪄 6. Equipamentos e Armas

Cada classe começa com armas e itens iniciais.
Mas o verdadeiro poder está em como você usa o que tem.

  • Guerreiros: espadas, escudos e armaduras.

  • Magos: cajados, grimórios e anéis mágicos.

  • Ladinos: adagas, cordas e kits de ladrão.

  • Clérigos: símbolos sagrados e maças.

  • Patrulheiros: arcos, armadilhas e mapas.

💡 Curiosidade: no D&D, o ouro compra equipamento, mas a experiência compra sabedoria.


🧭 7. O Primeiro Passo na Jornada

Antes de sair rolando dados, defina:

  • O nome do seu personagem.

  • Sua motivação (o “porquê” da aventura).

  • Uma frase que o define.
    Exemplo:

“Arden, o Mago das Sombras: o poder é inútil sem propósito.”

Depois, apresente seu personagem ao grupo.
Não se preocupe com perfeição — a ficha vai evoluir conforme você joga.


🌌 8. Dicas de Ouro do Mestre Bellacosa

  1. 🎭 Interprete de verdade: use voz, gestos, até caretas.

  2. 🗡️ Não lute contra o grupo — lute com ele.

  3. 📚 Anote tudo: nomes, locais, promessas — o Mestre pode cobrar.

  4. 💬 Use o improviso a seu favor: um erro pode virar lenda.

  5. 🪙 Recompense boas ideias: a criatividade vale mais que força.

  6. Tenha paciência: dominar D&D leva tempo, mas cada sessão é uma vitória.


🧠 Resumo do Espírito Bellacosa

“Não há dado que decida o destino de um herói — apenas a coragem de rolar.”
Bellacosa, Crônicas do Primeiro D20

 

sábado, 17 de junho de 2000

Rios e cachoeiras de Carrancas em 2000


☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

🏞️ Rios e Cachoeiras de Carrancas em 2000 — Pelos Caminhos do Sertão Mineiro

Uma pequena cidade mineira, estradas pelo sertão, rios cristalinos, cachoeiras, comida mineira e uma companheira de aventura muito especial: Dona Mercedes — ou, como eu gostava de provocar, Dona Menezes.

Existem pequenos vídeos que, décadas depois, deixam de ser simplesmente vídeos.

Transformam-se em janelas no tempo.

Este é um deles.

Estamos no ano 2000, em Carrancas, Minas Gerais, uma pequena cidade que, naquela época, ainda me parecia distante dos grandes circuitos turísticos.

E talvez justamente por isso fosse tão fascinante.

Não chegamos ali procurando resorts, restaurantes sofisticados ou atrações cuidadosamente preparadas para receber visitantes.

Queríamos explorar.

Queríamos caminhar.

Queríamos descobrir.

E Carrancas parecia ter sido construída exatamente para isso.



🚙 Uma viagem exploratória pelo interior de Minas

Carrancas revelava seus encantos aos poucos.

Era preciso seguir pelas estradas, caminhar por trilhas, atravessar áreas de vegetação e procurar aqueles pequenos caminhos que conduziam aos rios.

E então surgiam as recompensas.

Rios.

Riachos.

Ribeirões.

Corredeiras.

Cachoeiras.

Cascatinhas.

Piscinas naturais.

Grutas.

E até verdadeiros tobogãs naturais, onde a água havia passado milhares e milhares de anos trabalhando sobre as pedras.

Cada caminhada parecia terminar com alguma descoberta.

Não existia Google Maps no bolso.

Não havia smartphone indicando:

“Sua cachoeira está a 237 metros.”

Era outro mundo.

Você caminhava.

Observava.

Perguntava.

Explorava.

E descobria.

Talvez por isso cada lugar encontrado tivesse um sabor especial.



👵 Minha companheira de aventura

E naquela exploração eu não estava sozinho.

Minha mãe estava comigo.

Dona Mercedes.

Ou, como eu gostava de provocá-la:

Dona Menezes.

😂

Era uma daquelas brincadeiras familiares que provavelmente não significariam absolutamente nada para quem estivesse olhando de fora.

Mas nós sabíamos.

E é curioso perceber como, depois de tantos anos, são justamente esses pequenos detalhes que tornam uma lembrança preciosa.

Não lembro apenas das cachoeiras.

Lembro de estar ali com minha mãe.

Caminhando.

Descobrindo lugares.

Comendo.

Conversando.

Observando aquela paisagem completamente diferente da nossa rotina.

Hoje percebo que a verdadeira riqueza daquela viagem não estava apenas nos lugares que conhecemos.

Estava também em com quem eu estava quando os conheci.



🌾 As cores do sertão mineiro

Uma das imagens que ficaram gravadas na minha memória foi o contraste da paisagem.

O sertão mineiro apresentava uma vegetação que aos meus olhos possuía uma personalidade própria.

Poucas árvores realmente grandes.

Muitos arbustos.

Vegetação rasteira.

Capins.

Pedras.

Terra.

E uma predominância de tons que iam do ocre ao dourado.

Dependendo da posição do Sol, parecia que enormes trechos da paisagem haviam sido pintados com uma paleta de amarelos, marrons e dourados.

Mas então aparecia a água.

E tudo mudava.


💧 Azul no meio do dourado

No meio daquela paisagem seca e dourada surgiam rios e riachos surpreendentemente cristalinos.

Era um contraste maravilhoso.

Ocre da vegetação.

Dourado do capim.

Azul do céu.

Transparência da água.

E aquele som permanente de água correndo pelas pedras.

Carrancas parecia possuir água escondida por toda parte.

Você caminhava um pouco e encontrava um riacho.

Caminhava mais e aparecia uma corredeira.

Depois uma pequena queda.

Mais adiante, uma cachoeira.

Algumas eram grandes e impressionantes.

Outras eram pequenas.

E talvez justamente as menores fossem as mais deliciosas.


🌊 As cascatinhas

As pequenas cascatas eram um espetáculo à parte.

Depois de caminhar debaixo do Sol, encontrar uma delas era praticamente receber um convite:

— Entre.

E nós entrávamos.

Água gelada.

Pedras.

Barulho da correnteza.

Vegetação em volta.

Nenhuma piscina de hotel poderia competir com aquilo.

Era uma espécie de parque aquático construído durante milhares de anos pela própria geologia.

As pedras formavam escorregadores.

A correnteza criava pequenas piscinas.

Alguns trechos funcionavam como verdadeiros tobogãs naturais.

E lá íamos nós.

Porque exploração também precisava de diversão.

Muito banho.

Muita água.

Muita caminhada.

E provavelmente algumas decisões que hoje, aos 52 anos, eu observaria primeiro por alguns segundos antes de concluir:

“Será que eu realmente preciso escorregar por essa pedra?”

😂

Aos vinte e poucos anos a análise de risco funcionava com parâmetros ligeiramente diferentes.


🥾 Caminhar para descobrir

Grande parte do prazer estava justamente em caminhar.

Carrancas não era apenas um lugar para chegar.

Era um lugar para procurar.

Seguir uma trilha significava não saber exatamente o que estaria esperando depois da próxima curva.

Talvez uma cachoeira.

Talvez uma gruta.

Talvez apenas mais vegetação.

Ou talvez um daqueles pequenos lugares que nunca aparecem nos grandes cartões-postais, mas acabam sendo justamente aqueles dos quais nos lembramos décadas depois.

Havia uma sensação deliciosa de descoberta.

Era quase uma pequena expedição.

Sem grandes pretensões.

Sem necessidade de conquistar nada.

Apenas explorar.


🍲 E depois vinha Minas Gerais...

Mas existe uma consequência inevitável de passar horas caminhando, entrando em rios e subindo trilhas.

Fome.

E aí Minas Gerais apelava para golpes baixos.

Comida mineira.

Daquelas refeições capazes de fazer um caminhante esquecer instantaneamente qualquer promessa anterior de comer pouco.

Feijão.

Arroz.

Carnes.

Verduras.

Queijos.

Preparações simples.

Comida robusta.

Comida feita para alimentar gente que trabalha, caminha e vive no interior.

A culinária daquela região da Mantiqueira fazia parte da viagem tanto quanto os rios e as cachoeiras.

Depois de horas explorando o sertão, sentar para uma boa refeição mineira era praticamente a segunda etapa da aventura.

Primeiro alimentávamos a curiosidade.

Depois alimentávamos o explorador.

Generosamente.


🗺️ Muito antes de nós

Mas havia outra coisa que me fascinava naquela paisagem.

Nós estávamos percorrendo caminhos de uma região cuja história era muito mais antiga do que nossa pequena aventura.

Séculos antes, aqueles territórios do interior haviam sido atravessados por exploradores, sertanistas e bandeirantes.

Homens que avançavam pelo interior da América portuguesa em busca de caminhos, riquezas minerais, ouro e pedras preciosas — dentro de um processo histórico muito mais complexo, que também envolveu violência contra populações indígenas e pessoas escravizadas.

Ao avançarem pelo interior, essas expedições contribuíram para empurrar a ocupação portuguesa muito além da velha divisão imaginada entre Portugal e Espanha pelo Tratado de Tordesilhas.

E ali estávamos nós, séculos depois.

Sem procurar ouro.

Sem procurar diamantes.

Nosso tesouro era outro.

Uma cachoeira.

Uma gruta.

Um riacho cristalino.

Uma boa comida.

Uma fotografia.

Um pequeno vídeo.

E um dia agradável ao lado da minha mãe.


🎥 O pequeno vídeo que ficou

O vídeo que acompanha esta postagem é pequeno.

Provavelmente simples demais quando comparado com aquilo que qualquer celular consegue registrar atualmente.

Mas isso não importa.

Porque sua resolução verdadeira não pode ser medida em pixels.

Ela é medida em memórias.

Quando revejo essas imagens, não estou apenas olhando para Carrancas.

Estou olhando para o ano 2000.

Estou vendo aquele sertão novamente.

Estou sentindo o contraste entre o calor da caminhada e a água gelada.

Estou lembrando da vegetação dourada.

Das pedras.

Dos riachos.

Das cachoeiras.

Da comida.

Das brincadeiras.

E vejo novamente minha mãe participando daquela aventura.

Dona Mercedes.

Ou...

Dona Menezes.

Porque algumas piadas familiares merecem sobreviver até mesmo ao avanço implacável do calendário.


☕ Vinte e seis anos depois

Hoje, olhando essas imagens em 2026, percebo algo que talvez o Vagner de 2000 ainda não entendesse completamente.

Nós viajamos acreditando que estamos colecionando lugares.

Mas estamos colecionando momentos.

As cachoeiras continuam lá.

Os rios continuam correndo.

Carrancas mudou.

Eu mudei.

O mundo mudou enormemente.

A câmera virou celular.

O mapa virou GPS.

A fotografia virou arquivo digital.

As trilhas agora aparecem em aplicativos.

E lugares praticamente desconhecidos podem tornar-se famosos depois de algumas fotografias publicadas nas redes sociais.

Mas aquele dia específico não existe mais.

Existe somente aqui.

Nas fotografias.

No pequeno vídeo.

E dentro da memória.

Talvez seja justamente essa a maior utilidade de manter um blog durante tantos anos.

Não estamos apenas publicando textos.

Estamos deixando CHECKPOINTS da nossa própria existência.

Pequenos registros capazes de dizer:

EU ESTIVE AQUI.

EU VI ISSO.

EU VIVI ISSO.

E, neste checkpoint específico do ano 2000:

EU ESTAVA COM MINHA MÃE.


🏞️ Carrancas, Minas Gerais — 2000

Uma pequena cidade.

Um enorme patrimônio natural.

Rios cristalinos.

Riachos.

Ribeirões.

Grutas.

Corredeiras.

Cachoeiras.

Cascatinhas.

Tobogãs naturais.

Vegetação dourada.

Comida mineira.

Caminhadas.

Descobertas.

Diversão.

E mãe e filho explorando um pedacinho do sertão mineiro.

Não encontramos ouro.

Não encontramos pedras preciosas.

Mas, vinte e seis anos depois, descobri que trouxemos de Carrancas alguma coisa muito mais valiosa.

Uma lembrança.

E algumas lembranças, quando sobrevivem ao tempo, acabam se tornando verdadeiros tesouros.

Um Café no Bellacosa Mainframe

Carrancas, Minas Gerais — checkpoint gravado no ano 2000.

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As maravilhas das aguas em Carrancas

Nossa exploração em Carrancas nos levou a encontrar grandes quantidades de tesouros hídricos: rios, ribeiras, minas, bicas, corredeiras, cachoeiras... foi super refrescante após caminhar em trilhas sob o sol escaldante encontrar piscinas naturais para se refrescar.


Andando pelas trilhas do sertão sob o sol escaldante, não existe prazer maior que encontrar uma lagoa ou uma pequena piscina natural para relaxar. Imagine o prazer de ficar sentado em uma pequena cascata sentindo a agua caindo fazendo massagem sob o corpo.



sexta-feira, 31 de dezembro de 1999

Caminhando pelo Brasil

Bellacosa Mainframe e as viagens pelo Brasil Parte II

Caminhando pelo Brasil 


Uma década de fotografias Parte II



Continuando a serie de fotos das viagens pelo Brasil, segue o segundo video com mais paisagens deslumbrantes, porem devido ao tempo q ficou armazenado o acetato perdeu muita qualidade.




sábado, 9 de maio de 1998

A Vila de Paranapiacaba

Bellacosa Mainframe e a Vila de Paranapiacaba

Um Café no Bellacosa Mainframe

🚂 Paranapiacaba 1998 — A Vila para Onde Eu Sempre Voltava

Eu disse à Paty que iria mostrar-lhe uma antiga vila ferroviária. O que talvez não tenha contado é que já conhecia aquele caminho havia décadas. Primeiro passei por ali menino, dentro de um trem rumo a Santos. Depois voltei pelas trilhas, cachoeiras e acampamentos da Serra do Mar. Em 1998 retornei novamente — desta vez carregando histórias suficientes para descobrir que, sem perceber, havia me tornado o guia.

Há lugares que visitamos.

E há lugares aos quais retornamos.

A diferença parece pequena, mas não é.

Quando visitamos um lugar pela primeira vez, praticamente tudo é descoberta. Procuramos placas, perguntamos onde ficam as coisas, tentamos entender o mapa e fotografamos aquilo que parece importante.

Quando retornamos, acontece algo diferente.

Já não procuramos apenas aquilo que está diante dos olhos.

Procuramos também aquilo que lembramos.

Paranapiacaba sempre foi assim para mim.

Em 1998 eu estava ali novamente, desta vez acompanhado da Paty, de Interlagos, minha namorada naquela época.

Para ela talvez fosse um passeio por uma antiga vila ferroviária escondida na Serra do Mar.

Para mim era um reencontro.

Eu poderia apontar para uma casa e contar uma história.

Olhar para os trilhos e lembrar de outra época.

Mostrar uma construção e explicar por que ela estava ali.

Olhar para a serra e recordar que, muitos anos antes, eu já havia passado por aquele lugar dentro de um trem.

Sem perceber, naquela viagem de 1998 eu tinha assumido uma função curiosa:

eu havia me tornado o guia.

Só que meu mapa não estava impresso.

Estava na memória.



🚂 Antes de 1998 existia um menino dentro de um trem

Minha história com Paranapiacaba não começou naquele passeio.

Precisamos voltar aos anos 1970.

Eu ainda era menino e algumas das minhas lembranças daquele universo surgiram dentro dos trens, viajando com meus pais rumo a Santos.

Para uma criança, uma viagem ferroviária já possui naturalmente alguma coisa de extraordinário.

Existe o som.

O balanço.

As janelas.

As estações.

Os postes passando.

Os trilhos desaparecendo atrás do trem.

E então chegava a Serra do Mar.

Hoje consigo olhar para aquilo também com os olhos do analista de sistemas e perceber a extraordinária obra de engenharia que existia por trás da viagem.

Mas uma criança não pensa assim.

Ela simplesmente olha pela janela.

E fica maravilhada.

Décadas depois eu descobriria que aquelas viagens estavam gravando silenciosamente um backup dentro da minha cabeça.

Não havia smartphone.

Não havia câmera digital no bolso.

Não havia GPS registrando a rota.

Mas havia memória.

E Paranapiacaba estava entrando nela.


🌳 Depois vieram as trilhas

No final dos anos 1980 eu já retornava eventualmente à região por outros motivos.

A ferrovia continuava exercendo sua atração, mas havia outro tesouro gigantesco ao redor dela:

a Mata Atlântica da Serra do Mar.

Paranapiacaba era uma espécie de portal.

Você podia caminhar pela vila, observar as antigas construções ferroviárias e, pouco depois, estar cercado pela mata.

Fiz trilhas.

Procurei cachoeiras.

Acampei.

Explorei.

Andei por lugares onde a umidade parece fazer parte da própria paisagem.

A Serra do Mar possui aquele tipo de vegetação que não funciona apenas como cenário. Ela envolve você.

Água, pedras, árvores, neblina, barro, insetos, pássaros e sons que nem sempre conseguimos identificar.

Para alguém curioso, aquilo era um gigantesco laboratório vivo.

E Paranapiacaba oferecia uma combinação que sempre me fascinou:

natureza e tecnologia ocupando o mesmo espaço.

De um lado estava uma das maiores expressões da Mata Atlântica.

Do outro, máquinas, cabos, trilhos e estruturas construídas por seres humanos tentando resolver um problema aparentemente absurdo:

como fazer uma ferrovia vencer a Serra do Mar?



⚙️ O problema que criou Paranapiacaba

Aqui começa uma das histórias que provavelmente contei à Paty enquanto caminhávamos pela vila.

Imagine que você seja um engenheiro do século XIX.

O café produzido no interior paulista precisa chegar ao porto de Santos.

Entre o planalto e o litoral existe uma pequena inconveniência:

a Serra do Mar.

Não existe caminhão.

Não existe Rodovia Anchieta.

Não existe Rodovia dos Imigrantes.

E certamente ninguém pode abrir um terminal e digitar:

SUBMIT SERRA.JCL

para resolver o problema.

Era necessário construir uma ferrovia.

A São Paulo Railway Company — a famosa SPR, que muita gente simplesmente chamaria de “a ferrovia dos ingleses” — tornou-se responsável pela ligação ferroviária entre Santos e Jundiaí.

A primeira linha funicular da Serra do Mar foi inaugurada em 1867. O sistema utilizava patamares e máquinas fixas para auxiliar os trens a vencerem o enorme desnível da serra.

Hoje podemos olhar para aquilo como patrimônio histórico.

Na época era tecnologia de ponta.

Era infraestrutura crítica.

Era logística.

Era engenharia.

Era o equivalente ferroviário de olhar para um gigantesco datacenter funcionando no meio de uma montanha.

E precisava funcionar.

Porque por aqueles trilhos circulava uma parte importante da economia paulista.



🏘️ Uma cidade construída ao redor da ferrovia

Essa é uma das coisas mais fascinantes em Paranapiacaba.

A ferrovia não simplesmente passou pela vila.

A ferrovia explica a existência da vila.

Engenheiros, operadores, trabalhadores de manutenção e suas famílias precisavam morar próximos daquele complexo sistema ferroviário.

Assim surgiu um organismo urbano intimamente ligado à operação dos trilhos.

Casas.

Oficinas.

Armazéns.

Áreas administrativas.

Espaços de convivência.

Tudo conectado direta ou indiretamente ao funcionamento ferroviário.

Caminhar por Paranapiacaba é, portanto, quase como caminhar dentro de um antigo organograma empresarial transformado em cidade.

E existe uma característica visual impossível de ignorar:

a influência inglesa.



🇬🇧 A Inglaterra escondida na Serra do Mar

Em determinados pontos de Paranapiacaba temos aquela sensação curiosa de estar vendo alguma coisa que não combina completamente com a imagem convencional do Brasil.

Casas de madeira.

Arquitetura ferroviária.

Neblina.

Relógio.

Organização urbana.

Elementos britânicos.

A presença inglesa deixou marcas profundas.

Mas Paranapiacaba nunca foi simplesmente uma pequena Inglaterra transplantada para São Paulo.

Isso seria simplificar demais sua história.

Com o tempo, diferentes populações, trabalhadores e tradições ocuparam aquele espaço, formando também um legado brasileiro e luso-brasileiro.

E isso era justamente uma das coisas interessantes para mostrar à Paty.

Não estávamos olhando apenas para prédios antigos.

Estávamos observando camadas de ocupação humana.

Uma casa podia contar uma história sobre engenharia.

Outra sobre hierarquia profissional.

Outra sobre uma família ferroviária.

Outra sobre trabalhadores.

Outra sobre transformação social.

É praticamente arqueologia sem precisar cavar.


🏰 A casa de quem precisava enxergar tudo

E então chegamos a uma construção que sempre chama atenção.

O famoso Castelinho.

Construído em 1897 sobre uma elevação natural, o edifício serviu como residência do engenheiro-residente da São Paulo Railway. Sua posição permitia ampla visualização da vila e do pátio ferroviário.

Isso diz muito.

O engenheiro-chefe não morava simplesmente em uma casa bonita.

Ele morava em um ponto de observação.

Lá de cima podia acompanhar grande parte daquele organismo ferroviário.

Trens.

Pátio.

Movimentação.

Casas.

Operação.

É impossível para alguém de tecnologia olhar para aquilo hoje sem fazer uma analogia.

O Castelinho era quase um...

Operations Dashboard v1.0.

Só que o dashboard eram janelas.

Em vez de gráficos de CPU, filas e throughput, havia locomotivas, vagões, trabalhadores e fumaça.

Em vez de clicar num alerta, o engenheiro olhava pela janela.

Se alguma coisa estranha estivesse acontecendo no pátio, provavelmente ele conseguiria perceber.

Observabilidade ferroviária do século XIX.


🕰️ O relógio que parecia dizer: estamos na Inglaterra

Outro elemento que ajudava a construir aquela atmosfera era o velho relógio ferroviário.

Relógios ferroviários nunca são apenas relógios.

Ferrovias dependem de tempo.

Horários.

Partidas.

Chegadas.

Cruzamentos.

Escalas.

Operação.

O tempo faz parte da infraestrutura.

Para nós, visitantes, aquele relógio podia parecer romântico.

Para quem trabalhou naquele sistema, marcar corretamente o tempo tinha função operacional.

É uma diferença importante.

Patrimônio industrial possui esse efeito curioso.

Aquilo que hoje fotografamos porque achamos bonito frequentemente existia porque alguém precisava trabalhar.


👷 A vila não era feita apenas de engenheiros

E aqui existe uma parte da história que nunca deveríamos esquecer.

Quando falamos das grandes obras ferroviárias, aparecem nomes de companhias, engenheiros, empresários e autoridades.

Mas ferrovias não foram construídas apenas por nomes famosos.

Havia trabalhadores.

Muitos trabalhadores.

Homens operando máquinas.

Homens trabalhando nos trilhos.

Pessoal de manutenção.

Operadores.

Funcionários administrativos.

Famílias.

Crianças crescendo ao redor daquele universo.

Pessoas acordando para trabalhar.

Pessoas cansadas voltando para casa.

Pessoas adoecendo.

Pessoas comemorando.

Pessoas namorando.

Pessoas criando filhos.

Pessoas envelhecendo.

E pessoas morrendo.

É por isso que gosto de olhar para antigas estruturas técnicas tentando imaginar quem trabalhou ali.

Uma ferrovia não é apenas ferro.

Um mainframe não é apenas hardware.

Uma cidade não é apenas arquitetura.

Sistemas são construídos e mantidos por pessoas.

Talvez por isso Paranapiacaba sempre tenha me atraído tanto.


⚽ Quando os ferroviários largavam as ferramentas

Mas trabalhador também precisa descansar.

E é aqui que Paranapiacaba nos entrega um daqueles easter eggs históricos extraordinários.

Futebol.

Sim.

No meio da história ferroviária brasileira encontramos uma conexão direta com uma das maiores paixões nacionais.

Charles Miller era filho de um funcionário da São Paulo Railway. Depois de estudar na Inglaterra, retornou ao Brasil em 1894 trazendo consigo equipamentos e regras do futebol.

Paranapiacaba possui um lugar especial nessa história.

O campo associado ao Serrano Athletic Club é reconhecido pelo IPHAN como o primeiro campo com medidas oficiais do futebol no Brasil. O local esteve profundamente ligado aos ferroviários da São Paulo Railway.

Isso é extraordinário.

Imagine aqueles homens depois do trabalho.

Durante o expediente:

ferrovia.

Máquinas.

Manutenção.

Operação.

Depois:

uma bola.

Dois times.

Um campo.

Gritos.

Discussões.

Competição.

Diversão.

Aquilo que provavelmente parecia apenas lazer de trabalhadores ajudaria a participar da história de um esporte que se tornaria gigantesco no Brasil.

O Serrano chegou inclusive a enfrentar equipes importantes e existe registro de uma vitória por 2 a 1 sobre o Corinthians em julho de 1925.

Portanto, quando eu mostrava aquele campo para alguém, não estava mostrando simplesmente um pedaço de grama.

Estava mostrando um pequeno fragmento da pré-história de uma paixão nacional.


🚆 E os trens continuavam passando

Em 1998 Paranapiacaba também não era apenas passado.

Ainda havia ferrovia.

Ainda havia operação.

Ainda existia aquela relação entre o ABC e a capital que eu associava aos trens metropolitanos e à CBTU de outras fases da minha própria vida.

Isso tornava tudo ainda mais interessante.

Paranapiacaba não era uma ruína romana.

Não era Pompeia.

Não era simplesmente uma cidade congelada.

Era um lugar onde passado e presente ferroviários se tocavam.

Alguma coisa havia desaparecido.

Outra permanecia.

Outra estava deteriorando.

Outra ganharia novos usos.

Essa sensação provavelmente explica por que eu continuava retornando.

Cada visita era diferente.


🌫️ A neblina também fazia parte da cidade

E então havia a neblina.

Como falar de Paranapiacaba sem falar dela?

A neblina consegue transformar completamente a vila.

Casas desaparecem parcialmente.

Trilhos parecem continuar para lugar nenhum.

Construções surgem lentamente conforme caminhamos.

Sons chegam antes das imagens.

O relógio aparece no meio daquele cenário quase cinematográfico.

Para um garoto fascinado por ferrovias aquilo já era maravilhoso.

Para alguém que gostava de explorar trilhas, melhor ainda.

A mesma neblina que emprestava à vila aquele ar quase inglês também lembrava que estávamos no meio de um ambiente natural poderoso.

A ferrovia podia dominar os trilhos.

Mas a Serra do Mar continuava lembrando quem realmente mandava naquele lugar.


🌊 Lá embaixo estava Santos

Existe ainda outro momento que gosto de imaginar daquela visita.

Parar.

Olhar para a serra.

E apontar.

Lá está Cubatão.

Mais adiante está Santos.

E depois está o mar.

A geografia transforma a história ferroviária em algo imediatamente compreensível.

De um lado, o planalto.

Do outro, o porto.

Entre eles, a serra.

De repente toda aquela engenharia começa a fazer sentido.

Por que tantos trabalhadores?

Por que máquinas fixas?

Por que sistemas funiculares?

Por que uma vila inteira?

Porque era preciso vencer aquilo.

Hoje abrimos um aplicativo de mapas e vemos a distância em segundos.

Os engenheiros do século XIX olhavam para a Serra do Mar e precisavam descobrir como colocar um trem atravessando-a.

É uma diferença brutal de perspectiva.


❤️ Paty, acho que esqueci de explicar uma coisa

E então voltamos para 1998.

Talvez eu estivesse falando demais.

Quem me conhece sabe que existe esse risco quando o assunto envolve computadores, ferrovias ou história.

Imagino a cena.

— Aqui ficavam os ferroviários.

Andamos mais alguns metros.

— Está vendo aquela construção?

Mais história.

— Aquilo tem relação com a São Paulo Railway.

Continuamos.

— E aquele campo...

Outra história.

— E lá embaixo...

Mais uma.

Talvez Paty tenha percebido antes de mim.

Eu não estava simplesmente mostrando uma atração turística.

Eu estava apresentando um pedaço do meu próprio universo.

Porque quando gostamos verdadeiramente de um lugar fazemos isso.

Queremos compartilhá-lo.

Não basta dizer:

“É bonito.”

Queremos explicar por que é bonito para nós.


📷 As fotografias que mudaram de função

Naquele momento provavelmente tirei fotografias como qualquer pessoa faria durante um passeio.

Uma fotografia da vila.

Outra da Paty.

Uma construção.

Os trilhos.

A paisagem.

Talvez o relógio.

Talvez a serra.

Em 1998 aquelas imagens tinham uma função simples:

registrar o passeio.

Mas arquivos envelhecem de maneira curiosa.

Hoje aquelas fotografias já não mostram somente aquilo que eu fotografei.

Elas mostram coisas que eu não sabia que estava fotografando.

Roupas de uma época.

Objetos que desapareceram.

Construções antes de reformas.

Vegetação diferente.

Infraestrutura ferroviária em outra fase.

Uma namorada daquela época.

Meu próprio rosto mais jovem.

Detalhes banais que, décadas depois, tornam-se documentos.

Essa talvez seja uma das maiores ironias da fotografia.

Fotografamos aquilo que julgamos importante.

O tempo decide o que realmente era importante.


💾 O backup que ninguém pediu para fazer

Como programador, não consigo evitar a comparação.

A memória humana possui um sistema de armazenamento terrível.

Não sabemos exatamente onde os arquivos estão.

Não sabemos quando serão sobrescritos.

Não existe LISTCAT.

Não existe catálogo confiável.

Não existe garantia de retenção.

E pior:

algumas coisas permanecem durante cinquenta anos enquanto esquecemos onde colocamos uma chave cinco minutos atrás.

Mas existe um fenômeno fascinante.

Uma fotografia antiga funciona como uma espécie de:

RESTORE MEMORY

Você olha.

Alguma coisa acontece.

Lembra da temperatura.

Da pessoa.

De uma conversa.

De onde estacionou.

De uma piada.

Do cheiro.

De uma música.

De alguma coisa completamente fora do enquadramento.

A fotografia não contém essas informações.

Nós é que as associamos ao arquivo.

Talvez seja por isso que aquelas imagens de 1998 sejam tão importantes hoje.

Elas são ponteiros.

Não guardam toda a memória.

Mas sabem onde encontrá-la.


🧠 O verdadeiro patrimônio de Paranapiacaba

Existe patrimônio material.

Casas.

Trilhos.

Máquinas.

Estações.

Relógios.

Documentos.

Ferramentas.

Tudo isso precisa ser preservado.

Mas existe também patrimônio imaterial.

Histórias.

Experiências.

Relatos de trabalhadores.

Memórias de moradores.

Lembranças de passageiros.

Histórias familiares.

E pequenas experiências pessoais como a minha.

Eu não construí Paranapiacaba.

Não trabalhei na São Paulo Railway.

Não operei seu sistema funicular.

Mas Paranapiacaba atravessou diferentes fases da minha vida.

Isso também cria memória.


🚂 1970, 1980, 1990...

Hoje percebo que não existe apenas uma Paranapiacaba dentro das minhas lembranças.

Existem várias.

Existe a Paranapiacaba do menino viajando com os pais rumo a Santos.

Existe a Paranapiacaba das minhas explorações no final dos anos 1980.

Existe a das trilhas.

A das cachoeiras.

A dos acampamentos.

Existe a Paranapiacaba ferroviária.

Existe a vila-museu.

Existe a Paranapiacaba de 1998.

E existe aquela que observo hoje através das fotografias.

O lugar é praticamente o mesmo.

Quem muda sou eu.


🥚 Easter egg — quem estava apresentando quem?

Existe uma pequena brincadeira escondida nesta história.

Em 1998 parecia bastante óbvio.

Eu estava apresentando Paranapiacaba à Paty.

Era eu quem conhecia as histórias.

Era eu quem apontava os lugares.

Era eu quem explicava os ingleses, os ferroviários, o campo, a serra e os trilhos.

Portanto:

Vagner → apresentava → Paranapiacaba → para Paty.

Simples.

Só que quase três décadas depois a seta mudou de direção.

Hoje são aquelas fotografias que apresentam alguma coisa para nós.

Elas apresentam a Paty de 1998.

Apresentam a vila daquela época.

Apresentam um jovem Vagner que já carregava uma paixão antiga por ferrovias.

E, por trás dele, aparece outro.

Um garoto olhando pela janela de um trem nos anos 1970.

Depois outro.

O rapaz caminhando pela Mata Atlântica no final dos anos 1980.

E outro.

O homem que hoje recupera esses arquivos e tenta compreender por que determinadas imagens ainda provocam tantas lembranças.

Portanto talvez a pergunta correta seja:

quem estava apresentando quem?


☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Trabalho com computadores há tempo suficiente para aprender uma coisa:

nenhum sistema permanece igual para sempre.

Hardware muda.

Software muda.

Empresas desaparecem.

Tecnologias são substituídas.

Arquiteturas inteiras tornam-se peças de museu.

Mas alguns sistemas possuem uma capacidade extraordinária de deixar rastros.

Paranapiacaba é um deles.

A SPR desapareceu.

O sistema ferroviário mudou.

As tecnologias mudaram.

Os trabalhadores mudaram.

Os passageiros mudaram.

Mas os trilhos, edifícios, máquinas e histórias continuam dizendo:

“Aqui aconteceu alguma coisa importante.”

Talvez seja justamente por isso que sempre voltei.

Nos anos 1970 eu passei por ali.

Nos anos 1980 explorei.

Nos anos 1990 retornei.

Em 1998 levei Paty comigo.

Naquele dia achei que estava mostrando uma antiga vila ferroviária para minha namorada.

Hoje percebo que estava fazendo outra coisa.

Estava acrescentando mais um registro ao meu próprio dataset.

Mais uma linha.

Mais uma fotografia.

Mais uma pequena história.

Mais um checkpoint.

Décadas depois, quando abro novamente essas imagens, o sistema responde.

Não com texto.

Não com SQL.

Não com COBOL.

Ele responde com lembranças.

O trem volta a andar.

Meus pais estão novamente comigo.

A Serra do Mar reaparece pela janela.

A mata volta a ficar úmida.

As cachoeiras voltam a fazer barulho.

Os antigos ferroviários parecem ocupar novamente as casas.

Alguém chuta uma bola no velho campo.

O engenheiro observa a operação de sua casa no alto.

O relógio continua marcando as horas.

Paty caminha comigo pela vila.

E durante alguns segundos...

1998 ainda está lá.

Talvez seja isso que realmente significa preservar patrimônio.

Não impedir que o tempo passe.

Isso é impossível.

É deixar sinais suficientes pelo caminho para que alguém, muitos anos depois, consiga olhar para eles e dizer:

“Eu me lembro.”

E Paranapiacaba...

Paranapiacaba é um daqueles lugares para onde eu sempre voltei.

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Visitante ao longo dos tempos


Tenho um caso de amor de longa data com Paranapiacaba, tantas vezes visitei tenho visto ao longo dos anos a degradação destruindo o património desta tão carismática vila.


Dividida em 2 partes com separação bem delimitada de um lado temos as casas estilo inglês e do outro lado as casas em estilo portugues do alto do castelinho ve-se bem esta divisao, a antiga estaçao ferroviaria e suas passagens. Vale a exploraçao, pegue seus filhos e aventurem-se

sábado, 13 de junho de 1992

Sao Tome das Letras : A cidade onde todos os malucos querem ir

Dos lugares que visitei, posso dizer esta cidade é maluco beleza.


Desde meus acampamentos pelas praias e florestas sempre tive contacto com bichos grilos e hippies, porem em São Tome das Letras, encontrei o habit natural deles. Nossa que comunidade enorme de gente de bem.

Como dizem São Tome esta envolta de nuvens da paz, se é que me entende. Barzinhos, quiosques, tendinhas, venda e troca todos vivendo em paz consigo mesmo.


Nesta aventura do grupo Encaminhada fizemos um ciclo completo: caminhada em trilha no sertão, trilha em floresta, corredeiras, rio e riachos, piscinas naturais, grutas e cavernas. Andando a pe, de caminhão e trator.

Foi uma emocionante aventura que devido ha um acidente me custou metade de 2 dentes frontais, que historias a parte minha mae quase teve um treco e minha dentista a Dra. Alicia ficou muito triste, pois 2 semanas antes ela tinha feito todo o restauro e clareamento deles.



Para saber mais:



Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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