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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

O Velho Vagner Senta-se em Astúrias — O Garoto das 5h15 Finalmente Chegou em Casa

 

Bellacosa Mainframe e memoria de um pequeno trabalhador

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

O Velho Vagner Senta-se em Astúrias — O Garoto das 5h15 Finalmente Chegou em Casa

Ou: como um menino de 14 anos atravessou trens destruídos, marmitas, greves, caminhões militares, escola noturna, computadores de 8 bits, montanhas e uma câmera de 35 mm até descobrir que algumas jornadas levam quase uma vida inteira para chegar à estação final



Prólogo — O velho no banco

Astúrias.

Talvez Oviedo.

Talvez uma manhã fria daquelas em que o céu parece não ter decidido se vai chover.

O velho Vagner está sentado em um banco do Campo de San Francisco.

Não está fazendo nada.

E isso, por si só, já é extraordinário.

Durante boa parte da vida ele esteve indo para algum lugar.

Trem.

Ônibus.

Trabalho.

Escola.

Aeroporto.

Escritório.

Data center.

Montanha.

Outro país.

Outra cidade.

Outra aventura.

Mas agora simplesmente está sentado.

Perto dali passam crianças, aposentados, turistas, cachorros, estudantes e pessoas que provavelmente estão atrasadas para alguma coisa.

Vagner observa.

O velho ainda gosta de observar.

Certos programas nunca foram desinstalados.

Ele olha para o relógio.

5h15.

Sorri.

— Eu conheço esse horário.

E, durante alguns segundos, Astúrias desaparece.

Não existe Espanha.

Não existe aposentadoria.

Não existe velho.

Existe São Paulo.

Existe 1987.

E existe um garoto de 14 anos acordando antes do Sol.



1. 05:15 — IPL

Quem trabalha com mainframe sabe que alguns sistemas precisam começar antes que os usuários percebam que existem.

Com aquele garoto acontecia algo parecido.

Às 5h15 começava o IPL.

Não havia botão SNOOZE filosoficamente aceitável.

Era levantar.

Vestir-se.

Conferir documentos.

Dinheiro.

Marmita.

Horário.

Sair.

O mundo ainda estava escuro.

Enquanto muitos adolescentes dormiam, aquele menino já estava executando sua primeira rotina crítica do dia.

PERFORM ACORDAR
PERFORM ARRUMAR-SE
PERFORM CONFERIR-MARMITA
PERFORM CORRER-PARA-ESTACAO
PERFORM PEGAR-TREM
    UNTIL CHEGAR-AO-TRABALHO

Qualquer atraso propagava-se pelo sistema.

Perder alguns minutos em casa podia significar perder o trem.

Perder o trem podia significar perder o ônibus.

Perder o ônibus podia significar chegar atrasado.

Chegar atrasado podia significar problema no emprego.

O relógio não queria saber se chovia.

Nem se fazia frio.

Nem se havia granizo.

Nem se o transporte estava ruim.

Nem se você tinha 14 anos.

O relógio simplesmente contava.



2. O trem que podia matar

Em 1987, a ferrovia deixou de ser apenas transporte.

Um grave acidente envolvendo trens marcou São Paulo.

Para o garoto que dependia daquele sistema, porém, a tragédia não desapareceu quando saiu dos jornais.

Os trens acidentados permaneceram durante meses na região da estação Roosevelt, no Brás.

No começo estavam cobertos.

Um plástico preto escondia parte daquilo.

Mas plástico envelhece.

Rasga.

O vento abre frestas.

E aquilo que deveria desaparecer volta a aparecer.

Todos os dias, o garoto passava por ali.

Não era necessário que ninguém explicasse mortalidade para ele.

A aula estava estacionada diante da plataforma.

Aquilo podia acontecer com o trem em que ele estava.

E na manhã seguinte?

Entrava novamente.

Esse detalhe é importante.

Coragem não significa acreditar que nada acontecerá.

Às vezes coragem significa conhecer perfeitamente o risco e, mesmo assim, perceber que você precisa continuar.



3. O vilão também era o herói

Décadas depois, sentado em Astúrias, Vagner finalmente encontrou uma definição para aquele trem.

Ele era simultaneamente:

vilão e herói.

Era vilão quando estava superlotado.

Quando quebrava.

Quando atrasava.

Quando pessoas brigavam.

Quando havia batedores de carteira.

Quando o medo de assalto acompanhava o passageiro.

Quando alguém precisava viajar perigosamente junto a uma porta aberta.

Mas à noite ele se transformava.

Depois do trabalho.

Depois da escola.

Depois de um dia começado às 5h15.

Quando as luzes daquela composição apareciam ao longe, existia uma certeza extraordinária:

vou chegar em casa.

O mesmo objeto que pela manhã representava perigo, à noite representava salvação.

Talvez algumas das relações mais importantes da vida sejam assim.

Não cabem facilmente nas categorias de amor ou ódio.



4. Quando o sistema caía

Programadores mainframe aprendem cedo uma verdade:

todo sistema eventualmente falha.

E quando aquele sistema ferroviário falhava, o caos não era metafórico.

Trem quebrado significava milhares de pessoas tentando encontrar uma alternativa.

Vagner lembra de ocasiões em que voltou sobre uma locomotiva diesel porque era o espaço disponível.

Lembra também de viagens junto a portas abertas, situação em que permanecer no veículo exigia esforço físico.

Hoje, olhando retrospectivamente, não há qualquer motivo para romantizar aquilo.

Era perigosíssimo.

Mas esse é justamente o problema de analisar o passado apenas com as condições do presente.

Naquele momento a pergunta prática não era:

— Qual opção oferece melhor conforto e segurança?

Era:

— Como volto para casa?

Essa diferença explica muita coisa.



5. GREVE — SYSTEM UNAVAILABLE

Então existiam as greves.

E havia uma perversidade especial quando a paralisação atingia o retorno.

O trabalhador conseguira chegar.

Cumprira sua jornada.

Agora estava dezenas de quilômetros distante de casa.

E o sistema desaparecia.

Hoje um telefone imediatamente apresentaria mapas, aplicativos, mensagens, grupos, localização e alternativas.

Naquele mundo, grande parte do sistema de informação era humano.

— Disseram que tem ônibus lá.

— Parece que vai sair um trem.

— Estão colocando caminhões.

— Vai por aquele lado.

A multidão funcionava como uma gigantesca rede peer-to-peer analógica.

E algumas vezes aparecia uma solução extraordinária:

transporte disponibilizado com apoio policial/militar.

Caminhões utilizados normalmente para transportar efetivos recebiam uma multidão desesperada para voltar para casa.

O garoto via policiais tentando organizar o embarque.

Cães.

Gritos.

Gente comprimida.

Confusão.

Décadas depois, a melhor referência cinematográfica que encontra é:

evacuação de filme de apocalipse zumbi.

Só faltavam os zumbis.

Ou talvez os zumbis fossem os próprios passageiros depois de quinze horas acordados.



6. O pau-de-arara metropolitano

Quando dezenas de pessoas deveriam ocupar determinado espaço e aparece uma multidão muito maior tentando embarcar, desaparece rapidamente qualquer ideia sofisticada de transporte.

Sobra capacidade física.

Onde cabe mais um?

Sobe.

Aperta.

Segura.

Vai.

Foi nesse tipo de situação que o garoto compreendeu corporalmente uma expressão que até então poderia parecer apenas histórica:

pau-de-arara.

Não era aventura.

Não era atração turística.

Era contingência.

E talvez tenha sido justamente daí que nasceu aquela brincadeira mental:

“Estou fazendo treinamento militar.”

Porque havia dias em que a metáfora estava perigosamente próxima da realidade.



7. 08:00 — “Bom dia!”

Talvez uma das maiores ironias daquela vida acontecesse às oito da manhã.

Depois de acordar às 5h15.

Depois do frio.

Depois da estação.

Depois do trem.

Depois da multidão.

Depois do ônibus.

Depois de proteger documentos e dinheiro.

Depois de calcular cada minuto.

O garoto chegava ao trabalho.

E alguém dizia:

— Bom dia!

E começava oficialmente a jornada.

Oficialmente.

Porque para o relógio de ponto, tudo aquilo que aconteceu antes simplesmente não existia.

Era processamento externo.

O trabalhador chegava às oito.

O sistema registrava:

ENTRADA = 08:00

Mas ninguém registrava:

JORNADA-REAL-DO-SER-HUMANO = 05:15


8. A carteira profissional era uma patente

Entretanto, seria um erro transformar toda essa história apenas em sofrimento.

Havia orgulho.

A carteira profissional assinada representava algo enorme.

Era quase uma patente militar.

Aquele adolescente havia entrado oficialmente no mundo do trabalho.

Salário.

Décimo terceiro.

Férias.

Direitos.

Possibilidade de comprar.

Possibilidade de ajudar.

Possibilidade de planejar.

Possibilidade de melhorar.

A carteira dizia:

“Você agora participa do sistema.”

E isso tinha um peso enorme.



9. A marmita era o tesouro

Todo RPG possui inventário.

O inventário daquele aventureiro tinha um item particularmente importante:

MARMITA.

Hoje é fácil subestimar aquilo.

Mas a marmita significava dinheiro, preparação e alimento para atravessar a jornada.

E havia bosses específicos.

Boss 1 — Marmita azedou.

GAME OVER no almoço.

Boss 2 — Marmita caiu.

Tesouro perdido durante o transporte.

Boss 3 — Vazou.

Dano de área na mochila.

O problema é que nem sempre havia dinheiro para simplesmente comprar outra refeição.

Portanto cuidar da marmita era logística.

Décadas depois, quando aquele garoto conseguiu proporcionar comida melhor para a família, talvez a vitória tivesse um sabor que alguém criado com abundância jamais perceberia completamente.



10. 17:15 — Não acabou

Às 17h15 terminava o expediente.

Mas não o dia.

Começava outra quest.

ESCOLA.

Outros bosses.

Outras regras.

Outras exigências.

Professor.

Matéria.

Trabalho.

Prova.

Nota.

E aqui surge um detalhe maravilhoso.

O objetivo do garoto não era simplesmente passar.

Sua meta era:

TOP 5 DA CLASSE

Pense nisso.

Acordar às 5h15.

Atravessar São Paulo.

Trabalhar.

Ir para a escola.

Sentar diante de uma prova.

E ainda pensar:

quero estar entre os cinco melhores.

Não havia bônus por cansaço.

A prova não perguntava:

TRABALHOU-HOJE? S
PEGOU-TREM-LOTADO? S
ESTA-CANSADO? S

ADD 2 TO NOTA-FINAL

Nada disso.

Nove era nove.

Dez era dez.

E o garoto queria disputar as primeiras posições.



11. O sorriso profissional

Existia ainda uma disciplina invisível.

Autocontrole.

O mundo podia estar uma porcaria.

O trem podia ter atrasado.

Alguém podia ter empurrado você.

Sua marmita podia ter sofrido um ABEND.

Você podia estar cansado.

Mas no trabalho precisava existir:

educação;

atenção;

disposição;

respeito;

controle emocional.

Uma explosão de raiva podia colocar tudo a perder.

Portanto o garoto aprendeu cedo uma das habilidades mais difíceis do mundo profissional:

não permitir que todo erro externo provoque um ABEND interno.

Isso não significa engolir tudo.

Significa compreender que nem toda batalha merece ser travada.



12. Então apareceram as recompensas

A campanha começou a produzir loot.

Primeiro, coisas fundamentais.

Melhor comida.

Depois:

melhor assistência médica.

E havia algo ainda maior.

Ele podia ajudar a mãe.

Podia ajudar os irmãos.

O dinheiro deixava de ser apenas remuneração.

Transformava-se em qualidade de vida para uma pequena comunidade chamada família.

Então chegou uma conquista memorável:

a primeira televisão colorida.

Parece banal em 2026.

Não era.

A televisão colorida dizia silenciosamente:

estamos avançando.



13. O Nintendinho entra em casa

Depois veio o videogame.

O primeiro Nintendo.

E quando sobrava algum dinheiro:

cartuchos.

Existe uma ironia deliciosa nisso.

O adolescente que havia passado o dia inteiro enfrentando fases, obstáculos e bosses chegava em casa e ligava uma máquina cujo objetivo era...

enfrentar fases, obstáculos e bosses.

Talvez Mario parecesse até relaxante.

Pelo menos Bowser não fazia greve de transporte.


14. Os computadores de 8 bits

Mas algumas máquinas tinham outra magia.

Os computadores domésticos de 8 bits mostravam uma superfície aparentemente simples.

Teclado.

Tela.

Pouca memória.

Poucas cores.

Entretanto havia alguma coisa escondida dentro deles.

E o garoto queria saber:

como isso funciona?

Essa pergunta é perigosíssima.

Porque algumas pessoas passam o resto da vida tentando respondê-la.

O computador deixa de ser eletrodoméstico.

Vira território.

Você digita alguma coisa.

A máquina responde.

Muda um valor.

Acontece outra coisa.

Erro.

Tenta novamente.

Funciona.

É uma sensação extraordinária:

eu disse para a máquina fazer alguma coisa e ela fez.

Décadas depois haveria COBOL, mainframes, bancos de dados, redes, APIs, inteligência artificial.

Mas antes de todas essas catedrais existiram pequenas máquinas de 8 bits dizendo:

READY.


15. O raio de 500 quilômetros

Quando sobrava algum dinheiro, entretanto, Vagner não comprava somente coisas.

Comprava distância.

Seu universo de aventuras tinha uma regra financeira.

Não dava para atravessar o planeta.

Tudo bem.

Qual era o mundo disponível?

Talvez 100 quilômetros.

No máximo aproximadamente 500.

E dentro daquele raio existiam montanhas.

Vales.

Trilhas.

Estradas.

Campings.

Cidades.

Histórias.

Descobriu cedo algo que muitos viajantes demoram para compreender:

aventura não é proporcional à distância.

Você pode atravessar dez mil quilômetros e não descobrir nada.

Pode caminhar vinte quilômetros e voltar diferente.


16. Caminhar porque queria

Existe uma diferença maravilhosa entre as caminhadas da semana e as caminhadas das aventuras.

Durante a semana ele caminhava porque precisava.

No fim de semana podia caminhar porque queria.

Essa diferença é liberdade.

Na cidade:

você precisa chegar ali.

Na montanha:

quero descobrir o que existe depois daquela curva.

Na cidade havia relógio.

Na trilha havia horizonte.

Na cidade havia ponto.

Na montanha havia cume.

Talvez por isso as pernas que durante a semana eram ferramentas de transporte se transformassem no fim de semana em instrumentos de descoberta.


17. Então apareceu a câmera

Em algum momento surgiu dinheiro suficiente para outra conquista.

Uma câmera fotográfica brasileira de 35 mm.

Não era Leica.

Não era Nikon profissional.

Não era equipamento de fotógrafo da National Geographic.

Sua óptica, lembrada décadas depois, merece uma definição técnica extremamente precisa:

perversa.

Fotografava mal.

E daí?

Ela possuía uma característica que nenhuma câmera moderna consegue reproduzir:

estava lá.

Foi para as aventuras.

Viu aquelas pessoas.

Viu aqueles lugares.

Recebeu aquela luz.


18. Trinta e seis oportunidades

Fotografia analógica ensinava economia.

Um filme tinha quantidade limitada de poses.

Cada clique custava.

Filme custava.

Revelação custava.

Ampliação custava.

Então antes do dedo havia pensamento.

Vale a fotografia?

Qual enquadramento?

A luz está boa?

Chego mais perto?

Espero?

Click.

Pronto.

Não havia tela traseira.

Não existia:

— Ficou ruim, faço mais vinte.

O resultado podia aparecer muito depois.

E talvez justamente por isso cada fotografia carregasse uma expectativa que desapareceu parcialmente da fotografia digital.


19. O aventureiro virou documentarista

Antes da câmera, Vagner voltava com histórias.

Depois dela, voltou também com provas.

Uma montanha.

Um acampamento.

Um amigo.

Uma estrada.

Uma cidade.

Uma roupa.

Uma mochila.

Uma paisagem.

Naquele momento ele provavelmente pensava que estava apenas tirando fotografias.

Não sabia que estava criando um arquivo histórico da própria vida.


20. NEGATIVO.MASTER

Décadas passaram.

As fotografias envelheceram.

A tecnologia mudou.

Mas os negativos permaneceram.

E então aconteceu algo maravilhoso.

As fotografias viraram imagens digitais.

As imagens digitais viraram vídeos.

Os vídeos foram parar no YouTube.

Aquele clique mecânico feito décadas atrás passou a existir em servidores distribuídos pelo planeta.

O pipeline poderia ser representado assim:

AVENTURA
   |
   V
CAMERA 35MM
   |
   V
NEGATIVO
   |
   V
FOTOGRAFIA
   |
   V
SCAN
   |
   V
VIDEO
   |
   V
YOUTUBE
   |
   V
MEMORIA

Um programador mainframe reconheceria imediatamente a arquitetura.

O negativo é o dataset master.

O scan é uma transformação.

O vídeo é aplicação.

O YouTube é distribuição.

Nunca apague o master.


21. A câmera atravessa o Atlântico

A velha câmera continuou existindo.

Em algum momento atravessou o oceano.

Foi para Portugal.

E acabou nas mãos do filho.

Para o filho?

Um cacareco.

Compreensível.

Objetivamente é uma câmera antiga com óptica limitada.

Existem telefones que fazem fotografias incomparavelmente melhores.

Mas para o velho sentado em Astúrias aquele objeto possui outra especificação.

Não é:

DEVICE TYPE = CAMERA
FORMAT = 35MM
OPTICS = QUESTIONABLE

É:

DEVICE TYPE = TIME MACHINE
VALUE = INCALCULAVEL

Por isso talvez seja hora de buscá-la.


22. “Para ele é um cacareco. Para mim foi o mundo.”

O velho repete a frase baixinho.

Uma senhora que passa pelo banco talvez olhe para ele.

Ele sorri.

Não está falando com ela.

Está falando com alguém sentado imaginariamente ao seu lado.

Um garoto de 14 anos.

O menino pergunta:

— Então a câmera era boa?

O velho ri.

— Era uma porcaria.

— Então por que você quer ela de volta?

O velho olha para as árvores.

Demora alguns segundos.

— Porque foi com ela que eu aprendi que minha vida merecia ser fotografada.

O garoto fica quieto.

Essa resposta ele ainda não consegue compreender.


23. O easter egg no banco

Talvez exista ainda outra personagem naquele parque.

Mafalda.

Em Oviedo, uma escultura da personagem de Quino está sentada justamente em um banco do Campo de San Francisco, diante do estanque.

Isso parece um easter egg bom demais para desperdiçar.

Imagine o velho Vagner passando por ela.

Mafalda continua criança.

Ele envelheceu.

Ela permanece fazendo perguntas desconfortáveis ao mundo.

Ele passou a vida tentando responder algumas delas.

Por alguns segundos olha para a menina de bronze.

— Você não envelheceu nada.

Mafalda obviamente não responde.

— Trapaceira.

E continua andando.


24. O menino finalmente pergunta

De volta ao banco, o garoto imaginário faz outra pergunta:

— A gente venceu?

Essa é difícil.

Porque vida não é videogame.

Não existe tela final.

Não aparecem créditos.

Sempre haverá alguma coisa incompleta.

Alguma escolha errada.

Alguma pessoa que partiu.

Alguma oportunidade perdida.

Alguma cicatriz.

Então o velho poderia responder com números.

Carreira.

Viagens.

Computadores.

Trabalho.

Família.

Projetos.

Mas talvez nada disso responda realmente.

Ele pensa na mãe.

Nos irmãos.

Na televisão colorida.

No Nintendo.

Nos cartuchos.

Na comida melhor.

No plano de saúde.

Na escola.

Nas notas.

Na câmera.

Nos negativos.

Nas montanhas.

Então responde:

— Lutamos o bom combate.

O garoto entende.


25. Não vencemos porque ficamos ricos

Essa distinção importa.

A vitória daquela história não foi transformar pobreza em ostentação.

Foi transformar trabalho em possibilidade.

Possibilidade de comer melhor.

Possibilidade de cuidar da saúde.

Possibilidade de ajudar a família.

Possibilidade de estudar.

Possibilidade de conhecer tecnologia.

Possibilidade de comprar um videogame.

Possibilidade de fotografar.

Possibilidade de caminhar por uma montanha simplesmente porque queria.

Possibilidade de ampliar progressivamente o mapa.

Essa talvez seja uma definição muito mais interessante de prosperidade:

aumentar a quantidade de escolhas disponíveis.


26. O verdadeiro sistema legado

Programadores iniciantes costumam ouvir que sistemas legados são antigos.

Não é uma boa definição.

Legado é aquilo que continua carregando valor de uma geração para outra.

Nesse sentido, a câmera é legado.

Os negativos são legado.

As histórias são legado.

O conhecimento é legado.

Até determinadas cicatrizes são legado.

Um programa COBOL escrito quarenta anos atrás pode continuar processando porque ainda contém regras importantes.

Uma fotografia ruim feita quarenta anos atrás pode continuar valiosa porque contém pessoas e lugares que não podem ser recompilados.

Há coisas que envelhecem.

Há coisas que acumulam significado.

Não confunda as duas.


27. Dica do velho programador

Se você é um programador COBOL iniciante lendo isto, talvez esteja esperando uma grande lição técnica.

Aqui está:

não despreze sistemas antigos apenas porque parecem ruins.

Primeiro pergunte:

— O que existe aqui que não pode ser recriado?

Faça isso com programas.

Faça isso com documentos.

Faça isso com fotografias.

Faça isso com pessoas.

Uma rotina horrorosa escrita em 1987 pode conter uma regra de negócio que ninguém documentou.

Um negativo riscado pode conter a única fotografia existente de determinado momento.

Uma câmera vagabunda pode ser um cacareco para você e o mundo inteiro para outra pessoa.

Valor e qualidade técnica não são sinônimos.

Essa é uma lição que serve tanto para fotografia quanto para mainframe.


28. 05:15 outra vez

O velho olha novamente o relógio.

É curioso.

Durante décadas, 5h15 significou:

CORRA.

Agora não.

Não há trem para pegar.

Não há ponto.

Não há ônibus.

Não há prova.

Não há marmita.

Não há chefe esperando.

Ele pode simplesmente continuar sentado.

Talvez essa seja uma das maiores conquistas de todas.

Ter finalmente conquistado o direito de não correr.


Epílogo — O garoto chegou

Começa uma chuva fina sobre Oviedo.

O velho levanta.

Durante alguns segundos imagina novamente o garoto.

Quatorze anos.

Marmita.

Carteira profissional.

Caderno.

Pouco dinheiro.

Uma quantidade absurda de vontade.

— Vem — diz o velho.

O garoto pergunta:

— Para onde?

Vagner olha para as ruas de Astúrias.

Sorri.

— Para casa.

O garoto olha desconfiado.

— De trem?

O velho ri.

— Hoje não.

Começam a caminhar.

Um tem mais de meio século de histórias.

O outro ainda não sabe nenhuma delas.

Mas são a mesma pessoa.

Passam pelas árvores.

Talvez pela Mafalda.

Talvez por algum turista fotografando tudo com um telefone capaz de produzir imagens que aquela velha câmera brasileira jamais sonharia registrar.

O velho pensa na câmera que ficou em Portugal.

Preciso trazê-la de volta.

Não para fotografar.

Talvez nunca mais coloque um filme nela.

Não importa.

Ela cumpriu sua missão.

Aquela pequena caixa com óptica perversa viu o mundo quando o mundo ainda era pequeno.

Primeiro o mundo tinha vinte quilômetros até o trabalho.

Depois quinhentos quilômetros de aventuras.

Depois atravessou oceanos.

E agora existe um velho caminhando tranquilamente por Astúrias.

Se algum desconhecido perguntasse quanto vale aquela câmera, talvez não houvesse resposta possível.

Porque existem objetos cujo preço pode ser pesquisado.

E existem objetos cujo valor está armazenado em outro sistema.

Um sistema sem SQL.

Sem backup.

Sem REST API.

Sem documentação.

Chamado memória.

E nesse sistema existe um registro que jamais deve receber DELETE:

01 PRIMEIRA-CAMERA.
   05 FABRICACAO        PIC X(10) VALUE 'BRASILEIRA'.
   05 FILME             PIC X(04) VALUE '35MM'.
   05 OTICA             PIC X(10) VALUE 'PERVERSA'.
   05 VALOR-COMERCIAL   PIC 9(09)V99 VALUE ZEROS.
   05 VALOR-PARA-MIM    PIC X(12) VALUE 'FOI O MUNDO'.

O compilador reclama:

VALOR-PARA-MIM não cabe no campo.

O velho programador olha para a mensagem.

Sorri.

Claro que não cabe.

Nunca coube.


☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Alguns sistemas sobrevivem porque ninguém conseguiu substituí-los.

Algumas fotografias sobrevivem porque ninguém consegue repeti-las.

E algumas histórias sobrevivem porque, depois de quase quarenta anos, o garoto das 5h15 finalmente encontrou tempo para sentar em um banco e contá-las.




segunda-feira, 10 de setembro de 2018

TETSUDO OTAKU – CONFISSÕES DE UM FERROVIÁRIO DE ALMA

 

Bellacosa Mainframe e a alma ferroviaria 

TETSUDO OTAKU – CONFISSÕES DE UM FERROVIÁRIO DE ALMA
Um post Bellacosa Mainframe para o El Jefe Midnight Lunch





Há coisas na vida que a gente não escolhe.
Elas simplesmente aparecem, acendem uma luz dentro da gente e… pronto.
Viramos devotos. Seguidores. Apaixonados incuráveis.



No meu caso, meu amigo, essa chama tem forma de locomotiva.
Tem cheiro de óleo quente.
Tem som metálico que vibra no peito.
E produz vapor — muito vapor — como se fosse um dragão mecânico pronto pra acordar mundos adormecidos.



Sim, e para minha surpresa, não estou sozinho.
O Japão inventou um termo pomposo, um nome pra isso: Tetsudō Otaku (鉄オタ).
O ferro-nerd, o train geek, o devoto das trilhas de aço.
Mas a verdade?
Antes de existir termo japonês, já existia eu, o Bellacosa apaixonado por trilhos no hemisfério sul.
Eles só demoraram pra documentar.

Herdado e iniciado neste gosto pelo meu pai, desde que me lembro como gente, esse gosto , esse interesse, seja naqueles antigos western-spaghetti com suas poderosas ferrovias e locomotivas a vapor, ou seja, no antigo e decadente trem da CBTU. Transporte em que ia e voltava do trabalho nos anos 1980/1990 e na sua versão evoluída como um Pokémon a CPTM do século XXI.




O Código-Fonte da Paixão

Desde pequeno eu já tinha o kernel configurado pra isso.
Enquanto outras crianças se fascinavam por carrinhos, bonecos ou videogames, eu tinha outra fofura na cabeça:

A liturgia do trem.

E não era amor superficial, não.
Era amor de quem entende o cheiro da lenha molhada na fornalha,
o ronco das máquinas elétricas dos anos 50,
a beleza suja e poética da diesel.
Amor de quem olha pra uma BR-8, uma Baldwin, uma Henschel e vê história gritando na lataria.

Amor de quem sabe que uma locomotiva não é só um veículo.
É uma criatura viva — aço, fogo e memória.

Meu sonho dourado de infância, era ganhar um Ferrorama da Estrela, porém família pobre, este desejo ficava perdido, nas das cartinhas, que o papai noel não tinha condições de responder e atender.




Ferrovias Paulistas – Suas Primeiras Catedrais

E como todo bom devoto, eu tinha minhas “igrejas” prediletas:

  • A Companhia Paulista, a rainha da qualidade.

  • A Mogiana, a estrada dos vales, das serras e dos desafios.

  • A SPR (São Paulo Railway), a linha que rasgou a serra do mar e levou o café ao mundo.

  • A Central do Brasil, esteio do sudeste, veia principal de quem sonhava chegar ao Rio, São Paulo ou além.

O meu templo, melhor dizer CATEDRAL e grande local mágico é a Estação da Luz em São Paulo, em estilo inglês, clássica torre do Relógio, passagens secretas, ferro fundido, tijolos ingleses e suor brasileiro, mão de obra escrava, livre e imigrante. Todos deram sua força nesta obra única sob a batuta dos lendários ingleses das ferrovias.

São linhas que hoje dormem, quase fantasmas, mas que lutam contra o esquecimento através de pessoas como eu, um aficionado, amalucado e que ama o tec tec das rodas de ferro sobre os trilhos. Hoje quando posso uso os trens suburbanos das CBTU/CPTM, para ir a capital como um caipira de outros tempos.

Afinal, enquanto alguém lembra…
uma ferrovia nunca morre.




O Dia em que Busquei o FIM DOS TRILHOS

A aventura de 600 km até Santa Fé do Sul é um poema por si só.
Quem mais pega estradas de ferro, numa viagem de quase 20 horas, gasta dinheiro, enfrenta calor, poeira, vagões lotados e quilômetros infinitos só para ver… o fim da linha, onde o trilho acaba no Rio Paraná na divisa com Mato Grosso do Sul?

Isso é coisa de Tetsudō Otaku raiz.
Versão brasileira, com sotaque do interior, coragem e uma alma movida por trilhos.

Chegar lá foi como alcançar o final de um livro épico.
Eu não fui como turista.
Fui como arqueólogo sentimental.
Como quem procura o último suspiro de um gigante adormecido.




Do Luxo Europeu ao Vagão Coletivo – Uma vida ferroviária completa

Poucos podem dizer — com propriedade — que experimentaram todas as classes, todos os ritmos e todos os estilos de viagem ferroviária:

  • vagões luxuosos com jantar à luz branda;

  • cabines privadas que lembram hotéis móveis;

  • compartimentos coletivos, barulhentos e cheios de vida;

  • vagões antigos de madeira que rangem como velhos bardos;

  • fronteiras cruzadas ao som hipnótico dos trilhos;

  • restaurantes ferroviários com aquela comida que tem gosto de estrada e poesia.

Eu não só viajei de Trem.
Eu vivi o Trem.

Coisa rara. Coisa nobre.
Coisa de quem tem ferrovia correndo na veia.

Que jovens do século XXI, acostumados com papai e mamãe chofer, ou uber para lá e cá, desconhecem.



Defensor de um Brasil que ainda pode voltar aos trilhos

No fundo, carrego um sonho, meio a Dom Quixote, mas que também é sonho de muitos:

O retorno pleno dos trens de passageiros.
Porque eles são:

  • mais ecológicos;

  • mais baratos;

  • mais rápidos em longas distâncias;

  • mais românticos (sim, admitamos);

  • e absolutamente indispensáveis num mundo que pensa em futuro.

Carro engarrafa.
Avião atrasa.
Ônibus quebra.
Trem vai.

Simples assim.

E talvez um dia, quando este país finalmente voltar a raciocinar como país grande,
alguém bata na mesa e diga:

“Voltem os trilhos! Voltem os trens!”

E quando isso acontecer, Bellacosa, irei sorrir sabendo que defendia essa bandeira desde sempre.




Conclusão: A Ferrovia Mora em meu Coração

Ser Tetsudō Otaku não é ser estranho.
É ser parte de uma linhagem rara de apaixonados pelo movimento, pela história e pela poesia do mundo real.

É ser guardião de um patrimônio.
É carregar no peito o som dos trilhos.
É sentir o coração acelerar ao ouvir o apito distante.
É saber que existe beleza no rumo certo, no tempo certo, na linha certa.

Alguns amam o mar.
Outros amam o céu.
Eu amo o caminho entre um lugar e outro,
a promessa do horizonte,
a certeza de que sempre existe mais trilho lá adiante.

E isso — meu amigo — não é excentricidade.

É vocação.
É alma.
É legado.



É um amor de uma pessoa, que viajou de trem as Santos vendo a Serra do Mar, posterior me desci o mesmo trajeto a pé como andarilho, que conhece Morretes e seu lendario trem, que luta para atrair padawans para o Mundo das Ferrovias.





sábado, 4 de junho de 2016

Equipamentos ferroviários abandonados


☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

🚂 Equipamentos Ferroviários Abandonados — Entre a Ferrugem e os Fantasmas da FEPASA

Naquele sábado, enquanto Ana Paula fazia sua aula de teatro, eu caminhava entre locomotivas, oficinas vazias e ferramentas esquecidas. Não estava apenas explorando ruínas. Estava tentando ouvir novamente um mundo que havia parado de funcionar.

Voltei à Estação Cultura de Campinas.

Enquanto Ana Paula fazia sua aula de teatro, eu precisava encontrar alguma maneira de matar o tempo.

E poucas coisas combinam mais comigo do que isto:

zanzar.

Sem roteiro.

Sem guia.

Sem saber exatamente o que encontraria depois da próxima porta.

Assim comecei novamente a explorar as estruturas ferroviárias espalhadas pelo enorme complexo da antiga estação.

Só que, quanto mais caminhava, mais aquela exploração adquiria outro significado.

Porque havia uma quantidade impressionante de coisas abandonadas.

E algumas delas eram verdadeiros tesouros.


🚶 Zanzando pelas ruínas

Eu entrava em um galpão.

Depois em outro.

Olhava por uma porta.

Contornava uma construção.

Seguia um trilho.

Encontrava outra estrutura.

Fotografava.

Filmava.

Curiava.

Era praticamente uma pequena expedição de arqueologia industrial.

Havia velhas locomotivas diesel, equipamentos ferroviários, vagões de serviço, guindastes, restos de oficinas, ferramentas e enormes peças metálicas cuja função original nem sempre era imediatamente evidente.

Em alguns lugares apareciam aqueles parafusos gigantescos que parecem absurdos para quem está acostumado com objetos domésticos.

Mas aquilo era ferrovia.

Ali tudo precisava suportar toneladas.

Cada peça dava uma pista sobre o que aquele lugar havia sido.


🕸️ O silêncio depois da oficina

O que mais impressionava, entretanto, não era aquilo que estava ali.

Era aquilo que não estava mais.

As pessoas.

Imaginei aqueles mesmos galpões décadas antes.

O som de metal contra metal.

Martelos.

Ferramentas pneumáticas.

Motores.

Solda.

Pontes rolantes.

Homens gritando alguma instrução de um lado para outro.

Uma locomotiva entrando para manutenção.

Outra esperando uma peça.

Alguém desmontando um componente.

Outro funcionário verificando medidas.

Óleo.

Graxa.

Fumaça.

Calor.

Barulho.

Vida.

Agora havia silêncio.

Em algumas estruturas, teias de aranha.

Em outras, ferrugem.

Partes haviam sido saqueadas.

Objetos desapareciam lentamente.

O tempo fazia o restante do serviço.

E algumas daquelas construções abandonadas acabavam servindo de abrigo improvisado para pessoas em situação de rua.

Era impossível olhar para aquilo sem sentir um aperto no coração.


🔧 Quando uma ferramenta deixa de ser apenas uma ferramenta

Para alguém passando rapidamente pelo lugar, aquilo talvez fosse apenas tralha.

Ferro velho.

Uma peça enferrujada.

Um parafuso enorme jogado em algum canto.

Mas bastava colocar um pouquinho de imaginação para aquilo começar a funcionar novamente.

Eu olhava para uma oficina vazia e tentava reconstruí-la mentalmente.

Aqui poderia ter trabalhado um mecânico.

Ali talvez fosse feita determinada manutenção.

Naquele ponto alguma peça pesada poderia ter sido içada.

Aquele equipamento provavelmente tinha uma função específica.

E, de repente, o galpão abandonado ficava novamente cheio de gente.

Essa talvez seja uma das coisas mais fascinantes da arqueologia industrial.

As máquinas contam a história das pessoas.

👷 Pessoas ganharam o pão de cada dia aqui

Era nisso que eu pensava enquanto fotografava.

Não queria registrar apenas locomotivas.

Queria, mesmo sem perceber completamente naquele momento, homenagear quem havia trabalhado ali.

Durante décadas, milhares de pessoas tiveram sua vida ligada à ferrovia.

Maquinistas.

Mecânicos.

Eletricistas.

Caldeireiros.

Soldadores.

Engenheiros.

Operadores.

Manobristas.

Funcionários administrativos.

Trabalhadores das oficinas.

Gente que acordava cedo, batia o ponto, trabalhava, reclamava do chefe, esperava o almoço, contava os dias para receber o salário e depois voltava para casa.

Com aquele dinheiro criaram filhos.

Compraram comida.

Pagaram aluguel.

Construíram casas.

Formaram famílias.

A ferrovia não era somente trilho e locomotiva.

Era trabalho.

E aqueles galpões foram, durante muito tempo, o lugar onde muita gente ganhou o pão de cada dia com seu labor.

🔍 Procurando a rotunda da Mogiana

Em determinado momento resolvi procurar uma coisa específica.

A rotunda ferroviária associada à antiga Mogiana.

Uma rotunda é uma daquelas estruturas maravilhosas da ferrovia clássica: locomotivas eram posicionadas por meio de uma ponte giratória e distribuídas para diferentes baias de manutenção ou estacionamento.

Para alguém apaixonado por ferrovia, encontrar uma estrutura dessas seria quase descobrir um templo perdido.

Então fui procurar.

Andei.

Observei trilhos.

Tentei interpretar estruturas.

Procurei vestígios.

Mas falhei.

Não encontrei a rotunda naquele dia.

Talvez estivesse procurando no lugar errado.

Talvez alguma transformação do complexo dificultasse identificar o que procurava.

Mas curiosamente isso tornou a exploração ainda mais divertida.

Havia sempre a sensação de que alguma coisa poderia estar escondida depois do próximo galpão.

Era meu pequeno Indiana Jones ferroviário.

Só faltava o chapéu.

🏗️ A infraestrutura que ajudou a construir São Paulo

Mas existe uma dimensão maior nessa história.

Aquelas ruínas não representam somente uma empresa ferroviária que deixou de operar daquela maneira.

Representam parte de uma infraestrutura que teve enorme importância para o desenvolvimento econômico do interior paulista.

As ferrovias acompanharam e estimularam ciclos econômicos, conectaram áreas produtoras aos grandes centros e ao porto, facilitaram deslocamentos e ajudaram cidades a crescer.

Também transportaram pessoas.

Entre elas, inúmeros imigrantes e trabalhadores que avançaram pelo interior em busca de oportunidades.

Onde o trilho chegava, novas possibilidades apareciam.

Mercadorias circulavam.

Pessoas circulavam.

Informação circulava.

Capital circulava.

Cidades se transformavam.

Por isso me incomodava profundamente observar tamanho patrimônio sendo lentamente consumido.

🇧🇷 Um país estranho diante da própria memória

Enquanto caminhava entre aquelas estruturas, surgia uma raiva silenciosa.

Porque há algo que sempre achei difícil compreender no Brasil.

Em muitos lugares do mundo, antigas estruturas ferroviárias são restauradas, preservadas e transformadas em museus, centros culturais, ferrovias turísticas ou espaços de interpretação histórica.

Não porque alguém seja simplesmente apaixonado por locomotivas.

Mas porque aquilo é considerado patrimônio tecnológico, industrial e social.

Uma velha oficina explica como uma sociedade trabalhava.

Uma locomotiva explica engenharia.

Uma estação explica urbanização.

Um mapa ferroviário explica economia.

Uma ferramenta explica tecnologia.

Uma fotografia dos trabalhadores explica sociedade.

Quando destruímos tudo isso, não perdemos apenas objetos.

Perdemos páginas inteiras de nossa própria história.

E ali, diante de mim, algumas dessas páginas estavam sendo comidas pela ferrugem.

🚛 Quando percebemos a falta que a ferrovia faz

Anos depois, durante crises logísticas como a paralisação nacional dos caminhoneiros de 2018, ficou novamente evidente o tamanho da dependência brasileira do transporte rodoviário.

Postos ficaram sem combustível.

Produtos deixaram de chegar.

Cadeias logísticas sofreram.

Supermercados começaram a sentir os efeitos.

Não significa que uma ferrovia substituiria magicamente os caminhões.

Cada modal possui sua função.

Mas uma infraestrutura nacional mais equilibrada e diversificada aumenta alternativas e resiliência.

E eu inevitavelmente lembraria daqueles trilhos.

Daquelas oficinas.

Daquelas locomotivas.

Daquilo que havíamos deixado desaparecer.

🚂 A locomotiva enferrujada ainda estava trabalhando

Talvez essa seja a ironia mais bonita daquela tarde.

As locomotivas estavam paradas.

Mas ainda estavam trabalhando.

Não transportavam mais passageiros.

Não puxavam vagões.

Não movimentavam cargas.

Mas transportavam memória.

Cada fotografia que fiz naquele sábado roubou alguma coisa do esquecimento.

Cada minuto de vídeo preservou um pedaço daquele lugar.

Mesmo uma ferramenta enferrujada fotografada sem saber exatamente para que servia passou a existir em outro lugar além daquele galpão.

No meu arquivo.

Na Internet.

Neste blog.

Na memória.

📸 Fotografar também pode ser uma forma de preservação

Na época talvez eu estivesse simplesmente fazendo aquilo que sempre gostei de fazer.

Explorar.

Fotografar.

Filmar.

Descobrir.

Mas tantos anos depois percebo outra dimensão desses registros.

Algumas coisas que fotografei talvez nem existam mais.

Um objeto pode ter sido levado.

Uma parede pode ter caído.

Uma estrutura pode ter sido restaurada.

Outra pode ter desaparecido.

A vegetação pode ter tomado determinado espaço.

O lugar muda.

A fotografia fica.

É por isso que tenho tanto carinho por esses velhos registros aparentemente banais.

Quando foram produzidos eram apenas fotografias de sábado.

Com o tempo começaram a virar documentos.

👻 Os fantasmas não estavam mortos

Continuei caminhando.

E quanto mais olhava, menos abandonado aquele lugar parecia dentro da minha cabeça.

Eu conseguia imaginar novamente as oficinas funcionando.

As fundições.

Os reparos.

As locomotivas entrando.

Os guindastes trabalhando.

As ferramentas passando de mão em mão.

Os operários caminhando pelos galpões.

Talvez seja esse o verdadeiro poder das ruínas.

Elas exigem participação de quem observa.

Uma construção nova mostra aquilo que ela é.

Uma ruína obriga você a imaginar aquilo que ela foi.

E naquele sábado minha imaginação trabalhou horas extras.

☕ O ocaso de uma ferrovia

Enquanto Ana Paula estudava teatro, eu havia encontrado outro palco.

Não havia cortina.

Não havia atores.

Não havia plateia.

O cenário era feito de tijolos, trilhos, óleo antigo e aço enferrujado.

Os protagonistas haviam ido embora muitos anos antes.

Mas os objetos permaneciam no palco.

Uma locomotiva.

Um guindaste.

Um vagão.

Uma ferramenta.

Um parafuso gigantesco.

Uma oficina vazia.

Cada um esperando alguém suficientemente curioso para perguntar:

“O que aconteceu aqui?”

Naquele sábado eu fiz exatamente isso.

Zanzei.

Explorei.

Fotografei.

Filmei.

Curiei cada canto que consegui.

Procurei uma rotunda e não encontrei.

Encontrei dezenas de outras coisas que nem sabia que estava procurando.

Fiquei maravilhado.

Fiquei triste.

Fiquei indignado.

E continuei fotografando.

Porque talvez eu já soubesse, mesmo sem formular isso claramente, que um dia aquelas imagens seriam importantes.

Naquela tarde, este que vos escreve não conseguiu salvar locomotivas, oficinas ou equipamentos.

Mas conseguiu fazer uma pequena coisa.

Relembrou a glória da ferrovia e eternizou um pedaço de seu ocaso.

E enquanto existir alguém disposto a olhar uma fotografia antiga, reconhecer uma locomotiva enferrujada e perguntar quem trabalhou nela...

talvez aqueles velhos ferroviários ainda não tenham terminado completamente o seu turno.

☕ Bellacosa

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Belíssimos exemplares de maquinaria ferroviário.


Estamos na antiga oficina mecânica da estação ferroviária de Campinas. Este prédio que outrora abrigou um grande complexo de manutenção de trens e locomotivas.

Hoje abandonado guarda em seu interior alguns tesouros para os amantes de locomotivas, guindaste tipo grua, locomotiva a diesel, locomotiva eléctrica, vagões e vários artefactos.



No complexo existe um poço para manutenção sob as locomotivas. Possível descer e espionar como era o funcionamento da oficina.

 Pena que o abandono e generalizado, pois daria um excelente museu.

domingo, 29 de maio de 2016

Mais detalhes desta maravilhosa mini ferrovia

Bellacosa Mainframe e a cabine 2 clube de feerromodelismo

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

🚂 Mais Detalhes Desta Maravilhosa Mini Ferrovia — Um Mundo Inteiro Dentro da Cabine nº 2

Era mais um sábado na Estação Cultura de Campinas.

Ana Paula estava em sua aula de teatro amador e, enquanto esperava o ensaio terminar, eu tinha algumas horas disponíveis para fazer aquilo que já havia se tornado quase um ritual: zanzar pelo antigo complexo ferroviário.

E havia muito para explorar.

A velha estação e suas construções guardavam marcas de uma época em que aquele lugar não era patrimônio histórico, espaço cultural ou cenário para fotografias. Era uma ferrovia viva. Havia gente trabalhando, locomotivas circulando, oficinas funcionando e trens chegando e partindo.

Para alguém apaixonado por ferrovias, história e máquinas, esperar algumas horas ali estava muito longe de ser um castigo.

Era uma oportunidade.

E naquele sábado meus passos acabaram novamente diante de um dos meus lugares favoritos de todo o complexo.



🚦 Meu pequeno templo ferroviário

A famosa Cabine nº 2 de comandos.

Só o edifício já era especial.

Em outra época, cabines como aquela faziam parte do cérebro operacional da ferrovia. Ali, homens acompanhavam movimentos de trens, comandavam aparelhos e ajudavam a decidir por quais trilhos aquelas enormes máquinas deveriam passar.

Mas os tempos haviam mudado.

A velha cabine ganhara outra função.

Em seu interior funcionava um clube de ferromodelismo.

E talvez não pudesse existir destino melhor para ela.

A ferrovia em tamanho real havia desaparecido de boa parte daquele cenário, mas, dentro da antiga cabine de comandos, ela renascia alguns centímetros de cada vez.

Em miniatura.



🏙️ Uma cidade inteira sobre uma mesa

Desta vez não fiquei apenas olhando os trens circularem.

Comecei a observar a maquete com mais calma.

E foi aí que ela começou a revelar seus segredos.

Havia trilhos, naturalmente.

Muitos trilhos.

Linhas se cruzavam, desviavam, desapareciam atrás de construções e reapareciam alguns metros adiante.

Mas reduzir aquela obra a uma coleção de trilhos seria uma tremenda injustiça.

Ali estava representado praticamente um pequeno universo ferroviário.

Pontes.

Árvores.

Oficinas.

Máquinas.

Locomotivas.

Vagões.

Carros.

Caminhões.

Um bonde.

E a maravilhosa rotunda ferroviária, uma daquelas estruturas que imediatamente chamam a atenção de qualquer apaixonado por ferrovias.

Quanto mais eu olhava, mais coisas apareciam.



🔍 O segredo estava nos detalhes

Essa talvez fosse a parte mais divertida daquela maquete.

Você podia olhar durante alguns minutos, afastar-se e pensar que já havia visto tudo.

Não havia.

Era só aproximar novamente o rosto e alguma coisa surgia.

Uma pequena pessoa que passara despercebida.

Um trabalhador.

Um detalhe em uma oficina.

Um veículo parado em determinado canto.

Um cachorro.

Depois outro personagem.

Era quase uma espécie de Onde Está Wally ferroviário.

Só que ninguém estava procurando Wally.

Estávamos procurando histórias.

Porque os modelistas não haviam construído simplesmente uma ferrovia.

Eles haviam criado cenas.

🍺 Até o ferroviário precisava descansar

Em determinado ponto aparecia um bar.

E dentro dele...

Uma mesa de sinuca.

Aquilo me divertia justamente porque demonstrava o cuidado colocado na construção daquele mundo.

Não bastava colocar locomotivas sobre trilhos.

Se existe uma ferrovia, existem ferroviários.

Se existem ferroviários, existem pessoas.

E pessoas trabalham, descansam, conversam, bebem alguma coisa, jogam uma partida de sinuca e continuam suas vidas.

De repente, aquela pequena mesa deixava de ser apenas um objeto decorativo.

Ela sugeria uma história.

Talvez alguns trabalhadores tivessem terminado o turno.

Talvez alguém estivesse esperando o próximo serviço.

Talvez houvesse uma aposta valendo uma cerveja imaginária.

A maquete não dizia.

Nossa imaginação completava.

🐕 Havia até cachorros

E naturalmente naquele pequeno mundo também havia cachorros.

Pequenos cães espalhados pelo cenário.

Detalhes absolutamente desnecessários para fazer um trem elétrico funcionar.

E justamente por isso maravilhosos.

Porque são essas pequenas coisas aparentemente inúteis que dão vida a um diorama.

Um cachorro não melhora o contato elétrico dos trilhos.

Não controla um desvio.

Não alimenta uma locomotiva.

Não aciona um sinal.

Mas coloca vida naquele cenário.

Assim como as pequenas figuras humanas.

A ferrovia deixa de parecer uma demonstração técnica e começa a parecer um lugar.

👷 O uniforme não precisava estar limpo

Outra coisa que me chamou atenção foi o cuidado com as figuras.

Nem tudo parecia recém-saído da caixa.

Havia trabalhadores representados em seu ambiente de serviço, inclusive com a aparência coerente com aquele universo de oficinas, graxa, carvão, óleo e manutenção.

Uniformes sujos.

Pequenas marcas.

Cores cuidadosamente aplicadas.

São detalhes minúsculos.

Mas nosso cérebro percebe essas coisas.

Um ferroviário perfeitamente limpo diante de uma locomotiva sendo reparada pareceria artificial.

Um pouco de sujeira na roupa conta imediatamente uma história:

aquele homem estava trabalhando.

Talvez seja esse o segredo dos bons dioramas.

Eles não precisam explicar tudo.

Um detalhe bem colocado faz nossa cabeça construir o restante.

🔧 A oficina em miniatura

E naturalmente fiquei fascinado pela oficina.

Máquinas, trabalhadores, equipamentos e pequenos elementos mecânicos compunham aquele ambiente.

Era possível imaginar manutenção acontecendo ali.

Uma locomotiva chegando.

Uma ferramenta sendo utilizada.

Uma peça sendo desmontada.

Um trabalhador atravessando a oficina.

Outro reclamando que alguma coisa estava atrasada.

Nada disso realmente acontecia.

Mas parecia que poderia acontecer.

Esse é o ponto em que uma boa maquete deixa de ser brinquedo e passa a ser narrativa tridimensional.

🌳 Nem tudo era ferro

Outro detalhe importante eram as árvores e a vegetação.

Quando pensamos em ferromodelismo, nossa cabeça imediatamente vai para locomotivas, trilhos, estações e pontes.

Mas uma ferrovia existe dentro de uma paisagem.

E reproduzir essa paisagem é justamente aquilo que dá escala às máquinas.

Árvores ajudam nossos olhos a entender o tamanho das locomotivas.

Casas dão proporção aos trilhos.

Pessoas mostram a dimensão dos vagões.

Carros e caminhões colocam a ferrovia dentro de uma cidade.

Aos poucos, deixamos de enxergar objetos sobre uma bancada.

Passamos a enxergar um recorte do mundo.

🚋 E lá estava o bonde

No meio de tudo aquilo ainda havia um bonde.

Mais um daqueles elementos capazes de prender minha atenção.

Porque o bonde conecta dois mundos.

O ferroviário e o urbano.

Ele nos lembra de uma época em que trilhos não estavam apenas escondidos em pátios ferroviários ou reservados aos grandes trens.

Eles faziam parte das ruas.

Ao redor dele estavam carros, caminhões, construções e pequenas pessoas.

Era Campinas reduzida a uma escala em que cabia diante dos nossos olhos.

🌉 Pontes, trilhos e a rotunda

Naturalmente, algumas estruturas roubavam a cena.

As pontes eram uma delas.

A rotunda, outra.

A rotunda ferroviária possui algo quase hipnótico para quem gosta desse universo.

Sua própria geometria denuncia sua função.

Locomotivas chegando de diferentes direções, sendo posicionadas e encaminhadas.

Na maquete, aquele elemento ajudava a contar a história de um complexo ferroviário que havia sido gigantesco.

O curioso era pensar onde eu estava.

Eu observava uma reprodução em escala do complexo ferroviário...

estando dentro do próprio complexo ferroviário.

Uma ferrovia dentro da ferrovia.

Uma memória dentro da memória.

⚡ E por baixo daquele mundo havia tecnologia

Mas havia outra camada fascinante.

Aquela cidade minúscula precisava funcionar.

Por trás das árvores, prédios, oficinas e personagens existia a parte que normalmente não aparece nas fotografias bonitas:

a engenharia.

Fiação.

Circuitos.

Comandos.

Controles eletrônicos.

Motores.

Iluminação.

Mecanismos.

Era essa infraestrutura escondida que dava vida ao cenário.

Luzes acendiam.

Trens se movimentavam.

Elementos respondiam aos controles.

Sons completavam a experiência.

Aquilo tinha algo que sempre me fascinou nas grandes máquinas: existe uma camada visível que encanta o público e outra, escondida, que faz tudo funcionar.

Talvez por isso eu gostasse tanto daquele lugar.

Na superfície havia arte.

Por baixo havia lógica.

🎛️ O antigo e o novo dividindo a mesma cabine

E tudo aquilo acontecia justamente dentro de uma antiga cabine ferroviária de comandos.

Existe uma bela ironia nisso.

Décadas antes, controles naquele prédio ajudavam a movimentar trens verdadeiros.

Agora outros controles movimentavam trens em miniatura.

Mudaram as escalas.

Mudaram as tecnologias.

Mudaram os operadores.

Mas permaneceu a mesma ideia fundamental:

alguém precisava dizer ao trem para onde ir.

A Cabine nº 2 continuava comandando uma ferrovia.

Só que agora ela cabia dentro da própria cabine.

🎥 A câmera tenta registrar tudo

Naturalmente levei a câmera comigo.

Filmei a maquete procurando registrar aqueles detalhes.

Os trilhos.

As construções.

As pontes.

A rotunda.

O bonde.

Os veículos.

As pessoas.

Os cachorros.

A oficina.

Os controles.

As luzes.

Os movimentos.

Mas existe um problema.

O vídeo nunca captura tudo.

Não porque a câmera seja ruim.

Mas porque nosso olhar funciona de maneira diferente.

Quando estamos diante de uma maquete dessas, podemos parar.

Voltar.

Aproximar.

Olhar novamente.

Descobrir alguma coisa escondida atrás de uma construção.

Perceber uma figura que estava ali desde o começo.

Então olhar pela terceira vez e descobrir mais alguma coisa.

A câmera registra aquilo para onde apontamos.

A memória registra também aquilo que sentimos.

🔎 Sempre havia alguma coisa que eu não tinha visto

Talvez essa seja minha lembrança mais forte daquela visita.

A sensação de descoberta permanente.

Eu olhava.

Encontrava alguma coisa.

Continuava.

Voltava.

E percebia:

— Caramba... isso estava aqui antes?

Estava.

Eu é que não tinha visto.

E isso se repetia.

Era justamente esse processo que tornava a maquete tão deliciosa de observar.

Ela recompensava quem tivesse paciência.

Não era uma atração para olhar durante cinco segundos e seguir adiante.

Era necessário explorar.

Quase como eu fazia com a própria Estação Cultura enquanto esperava Ana Paula terminar sua aula.

Talvez por isso aquelas duas experiências combinassem tão bem.

Do lado de fora eu explorava um gigantesco complexo ferroviário real procurando vestígios de seu passado.

Dentro da Cabine nº 2 eu explorava sua versão em miniatura procurando pequenos detalhes construídos pelos modelistas.

Macro e micro.

Ruína e preservação.

Passado e representação.

🕰️ Oito anos dentro de alguns metros quadrados

Pensar que aquele trabalho havia consumido anos de dedicação tornava tudo ainda mais impressionante.

Cada árvore precisou ser colocada.

Cada trilho, alinhado.

Cada construção, montada.

Cada personagem, posicionado.

Cada detalhe, pintado.

Cada circuito, instalado.

Cada problema elétrico, resolvido.

E certamente muita coisa foi feita, refeita e melhorada.

Quem observa uma maquete pronta durante alguns minutos dificilmente consegue perceber a quantidade de horas humanas escondidas dentro dela.

Talvez essa seja outra semelhança com uma ferrovia verdadeira.

O passageiro vê o trem chegando.

Não vê milhares de horas de manutenção, engenharia, sinalização, operação e trabalho necessárias para que aquilo aconteça.

Na maquete era parecido.

Víamos o pequeno trem circulando.

Por baixo dele existiam anos de trabalho.

🚂 Um mundo que continuava existindo

Quando saí da Cabine nº 2 naquele sábado, Ana Paula provavelmente ainda estava envolvida com seu teatro.

E eu havia conseguido novamente matar algumas horas.

Mas chamar aquilo de simplesmente "matar o tempo" seria injusto.

Eu havia viajado.

Sem sair da estação.

Durante algum tempo caminhei por uma Campinas ferroviária reduzida a alguns metros quadrados.

Vi oficinas.

Pontes.

Trens.

Trabalhadores.

Cachorros.

Um bar.

Uma mesa de sinuca.

Um bonde.

Carros.

Caminhões.

Árvores.

Luzes.

Movimentos.

E provavelmente dezenas de coisas que estavam lá e que nem naquele dia consegui perceber.

Talvez essa seja a maior qualidade de uma grande maquete ferroviária.

Você nunca termina realmente de olhar.

Sempre existe outra pequena história escondida em algum canto.

E, tantos anos depois, aquele vídeo ainda permite fazer exatamente a mesma coisa:

dar play...

aproximar os olhos...

e procurar mais uma vez por algum pequeno detalhe que passou despercebido.

Porque dentro daquela antiga Cabine nº 2 havia algo muito maior que uma maquete.

Havia um mundo inteiro esperando para ser descoberto.

☕🚂 Bellacosa Mainframe — histórias, máquinas, memória e aqueles pequenos detalhes que só aparecem para quem resolve olhar uma segunda vez.

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Rica em detalhes


Para quem ama ferromodelismo esta mini ferrovia tem tudo para alegrar.

Construída por um grupo de amigos no decorrer de 8 anos, foram incorporados diversos temas, construções, diversas linhas se intercomunicam fazendo um show para os visitantes.

 Sem contar a sensação única de estar na cabine de controle, onde os operadores através de alavancas, movimentavam os trilhos para ligar ramais internos a malha ferroviária.

Nesta maquete tem diversos tipos de túneis, pontes, construções e ate uma replica de uma refinaria de petróleo.


sábado, 11 de julho de 1998

Linha Mogiana de Campinas a Jaguariuna

Bellacosa Mainframe e o ramal Serra Negra Socorro da Cia Mogiana

☕ Nos Trilhos da Mogiana

Em busca de uma ferrovia que desapareceu — mas nunca foi embora completamente

Tenho um carinho enorme pela antiga Companhia Mogiana de Estradas de Ferro. Talvez porque, para mim, seus trilhos nunca tenham sido apenas pedaços de aço enferrujando entre o mato. Eles são caminhos que ainda parecem guardar o barulho das locomotivas, o apito chegando às cidades e milhares de histórias de pessoas que um dia embarcaram sem imaginar que aquela ferrovia desapareceria.

Ao longo dos anos explorei a Mogiana com enorme curiosidade. Caminhei por antigas instalações ferroviárias, conheci a fascinante rotunda, fotografei estações e procurei vestígios dos trilhos que avançavam pelo interior paulista.


Jaguariúna, Amparo, Monte Alegre do Sul, Serra Negra...

Cada estação conta um pedaço dessa história.

Tenho um carinho especial pela Estação de Amparo. Quando caminho por esses lugares, gosto de imaginar a plataforma movimentada, malas esperando o embarque, funcionários trabalhando e passageiros olhando ansiosamente para os trilhos até surgir, ao longe, a fumaça anunciando a chegada do trem.

Por isso é emocionante saber que alguns pedaços da velha Mogiana continuam vivos.

Em determinados trechos, locomotivas ainda apitam, rodas novamente encontram os trilhos e antigas estações recuperam, mesmo que por algumas horas, aquilo para que foram construídas.

Meu sonho seria ver mais.

Não apenas trens turísticos.



Gostaria de assistir ao retorno de serviços ferroviários regulares, recuperando corredores possíveis e devolvendo às cidades uma alternativa que durante décadas fez parte de suas vidas.

Talvez jamais seja possível reconstruir toda aquela imensa malha ferroviária.

Mas não precisamos reconstruir o passado inteiro para aprender com ele.

Cada estação preservada, cada quilômetro de trilho recuperado e cada locomotiva novamente em movimento representam uma pequena vitória contra o esquecimento.

Porque a Mogiana desapareceu dos mapas ferroviários de muitas cidades.

Mas nunca desapareceu completamente.

Basta escutar um apito ecoando pelos trilhos de Anhumas para compreender.



🚂 A velha Mogiana ainda está lá.

Esperando o próximo embarque.

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Estação de Anhumas


Em nova visita a estação da Mogiana, esta ficando recorrente viajar de locomotiva a vapor, é um passeio delicioso, sentir o cheirinho de lenha queimada, ver as faíscas pela janela, ir ate o vagão restaurante e beliscar algo.


Uma deliciosa viagem no tempo, brincando de era uma vez, indo no museu ferroviário e vendo todos os apetrechos usados pela Mogiana, chegar a Jaguariúna e retornar a Campinas.


Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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