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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

O Velho Vagner Senta-se em Astúrias — O Garoto das 5h15 Finalmente Chegou em Casa

 

Bellacosa Mainframe e memoria de um pequeno trabalhador

Um Café no Bellacosa Mainframe

O Velho Vagner Senta-se em Astúrias — O Garoto das 5h15 Finalmente Chegou em Casa

Ou: como um menino de 14 anos atravessou trens destruídos, marmitas, greves, caminhões militares, escola noturna, computadores de 8 bits, montanhas e uma câmera de 35 mm até descobrir que algumas jornadas levam quase uma vida inteira para chegar à estação final



Prólogo — O velho no banco

Astúrias.

Talvez Oviedo.

Talvez uma manhã fria daquelas em que o céu parece não ter decidido se vai chover.

O velho Vagner está sentado em um banco do Campo de San Francisco.

Não está fazendo nada.

E isso, por si só, já é extraordinário.

Durante boa parte da vida ele esteve indo para algum lugar.

Trem.

Ônibus.

Trabalho.

Escola.

Aeroporto.

Escritório.

Data center.

Montanha.

Outro país.

Outra cidade.

Outra aventura.

Mas agora simplesmente está sentado.

Perto dali passam crianças, aposentados, turistas, cachorros, estudantes e pessoas que provavelmente estão atrasadas para alguma coisa.

Vagner observa.

O velho ainda gosta de observar.

Certos programas nunca foram desinstalados.

Ele olha para o relógio.

5h15.

Sorri.

— Eu conheço esse horário.

E, durante alguns segundos, Astúrias desaparece.

Não existe Espanha.

Não existe aposentadoria.

Não existe velho.

Existe São Paulo.

Existe 1987.

E existe um garoto de 14 anos acordando antes do Sol.



1. 05:15 — IPL

Quem trabalha com mainframe sabe que alguns sistemas precisam começar antes que os usuários percebam que existem.

Com aquele garoto acontecia algo parecido.

Às 5h15 começava o IPL.

Não havia botão SNOOZE filosoficamente aceitável.

Era levantar.

Vestir-se.

Conferir documentos.

Dinheiro.

Marmita.

Horário.

Sair.

O mundo ainda estava escuro.

Enquanto muitos adolescentes dormiam, aquele menino já estava executando sua primeira rotina crítica do dia.

PERFORM ACORDAR
PERFORM ARRUMAR-SE
PERFORM CONFERIR-MARMITA
PERFORM CORRER-PARA-ESTACAO
PERFORM PEGAR-TREM
    UNTIL CHEGAR-AO-TRABALHO

Qualquer atraso propagava-se pelo sistema.

Perder alguns minutos em casa podia significar perder o trem.

Perder o trem podia significar perder o ônibus.

Perder o ônibus podia significar chegar atrasado.

Chegar atrasado podia significar problema no emprego.

O relógio não queria saber se chovia.

Nem se fazia frio.

Nem se havia granizo.

Nem se o transporte estava ruim.

Nem se você tinha 14 anos.

O relógio simplesmente contava.



2. O trem que podia matar

Em 1987, a ferrovia deixou de ser apenas transporte.

Um grave acidente envolvendo trens marcou São Paulo.

Para o garoto que dependia daquele sistema, porém, a tragédia não desapareceu quando saiu dos jornais.

Os trens acidentados permaneceram durante meses na região da estação Roosevelt, no Brás.

No começo estavam cobertos.

Um plástico preto escondia parte daquilo.

Mas plástico envelhece.

Rasga.

O vento abre frestas.

E aquilo que deveria desaparecer volta a aparecer.

Todos os dias, o garoto passava por ali.

Não era necessário que ninguém explicasse mortalidade para ele.

A aula estava estacionada diante da plataforma.

Aquilo podia acontecer com o trem em que ele estava.

E na manhã seguinte?

Entrava novamente.

Esse detalhe é importante.

Coragem não significa acreditar que nada acontecerá.

Às vezes coragem significa conhecer perfeitamente o risco e, mesmo assim, perceber que você precisa continuar.



3. O vilão também era o herói

Décadas depois, sentado em Astúrias, Vagner finalmente encontrou uma definição para aquele trem.

Ele era simultaneamente:

vilão e herói.

Era vilão quando estava superlotado.

Quando quebrava.

Quando atrasava.

Quando pessoas brigavam.

Quando havia batedores de carteira.

Quando o medo de assalto acompanhava o passageiro.

Quando alguém precisava viajar perigosamente junto a uma porta aberta.

Mas à noite ele se transformava.

Depois do trabalho.

Depois da escola.

Depois de um dia começado às 5h15.

Quando as luzes daquela composição apareciam ao longe, existia uma certeza extraordinária:

vou chegar em casa.

O mesmo objeto que pela manhã representava perigo, à noite representava salvação.

Talvez algumas das relações mais importantes da vida sejam assim.

Não cabem facilmente nas categorias de amor ou ódio.



4. Quando o sistema caía

Programadores mainframe aprendem cedo uma verdade:

todo sistema eventualmente falha.

E quando aquele sistema ferroviário falhava, o caos não era metafórico.

Trem quebrado significava milhares de pessoas tentando encontrar uma alternativa.

Vagner lembra de ocasiões em que voltou sobre uma locomotiva diesel porque era o espaço disponível.

Lembra também de viagens junto a portas abertas, situação em que permanecer no veículo exigia esforço físico.

Hoje, olhando retrospectivamente, não há qualquer motivo para romantizar aquilo.

Era perigosíssimo.

Mas esse é justamente o problema de analisar o passado apenas com as condições do presente.

Naquele momento a pergunta prática não era:

— Qual opção oferece melhor conforto e segurança?

Era:

Como volto para casa?

Essa diferença explica muita coisa.



5. GREVE — SYSTEM UNAVAILABLE

Então existiam as greves.

E havia uma perversidade especial quando a paralisação atingia o retorno.

O trabalhador conseguira chegar.

Cumprira sua jornada.

Agora estava dezenas de quilômetros distante de casa.

E o sistema desaparecia.

Hoje um telefone imediatamente apresentaria mapas, aplicativos, mensagens, grupos, localização e alternativas.

Naquele mundo, grande parte do sistema de informação era humano.

— Disseram que tem ônibus lá.

— Parece que vai sair um trem.

— Estão colocando caminhões.

— Vai por aquele lado.

A multidão funcionava como uma gigantesca rede peer-to-peer analógica.

E algumas vezes aparecia uma solução extraordinária:

transporte disponibilizado com apoio policial/militar.

Caminhões utilizados normalmente para transportar efetivos recebiam uma multidão desesperada para voltar para casa.

O garoto via policiais tentando organizar o embarque.

Cães.

Gritos.

Gente comprimida.

Confusão.

Décadas depois, a melhor referência cinematográfica que encontra é:

evacuação de filme de apocalipse zumbi.

Só faltavam os zumbis.

Ou talvez os zumbis fossem os próprios passageiros depois de quinze horas acordados.



6. O pau-de-arara metropolitano

Quando dezenas de pessoas deveriam ocupar determinado espaço e aparece uma multidão muito maior tentando embarcar, desaparece rapidamente qualquer ideia sofisticada de transporte.

Sobra capacidade física.

Onde cabe mais um?

Sobe.

Aperta.

Segura.

Vai.

Foi nesse tipo de situação que o garoto compreendeu corporalmente uma expressão que até então poderia parecer apenas histórica:

pau-de-arara.

Não era aventura.

Não era atração turística.

Era contingência.

E talvez tenha sido justamente daí que nasceu aquela brincadeira mental:

“Estou fazendo treinamento militar.”

Porque havia dias em que a metáfora estava perigosamente próxima da realidade.



7. 08:00 — “Bom dia!”

Talvez uma das maiores ironias daquela vida acontecesse às oito da manhã.

Depois de acordar às 5h15.

Depois do frio.

Depois da estação.

Depois do trem.

Depois da multidão.

Depois do ônibus.

Depois de proteger documentos e dinheiro.

Depois de calcular cada minuto.

O garoto chegava ao trabalho.

E alguém dizia:

— Bom dia!

E começava oficialmente a jornada.

Oficialmente.

Porque para o relógio de ponto, tudo aquilo que aconteceu antes simplesmente não existia.

Era processamento externo.

O trabalhador chegava às oito.

O sistema registrava:

ENTRADA = 08:00

Mas ninguém registrava:

JORNADA-REAL-DO-SER-HUMANO = 05:15


8. A carteira profissional era uma patente

Entretanto, seria um erro transformar toda essa história apenas em sofrimento.

Havia orgulho.

A carteira profissional assinada representava algo enorme.

Era quase uma patente militar.

Aquele adolescente havia entrado oficialmente no mundo do trabalho.

Salário.

Décimo terceiro.

Férias.

Direitos.

Possibilidade de comprar.

Possibilidade de ajudar.

Possibilidade de planejar.

Possibilidade de melhorar.

A carteira dizia:

“Você agora participa do sistema.”

E isso tinha um peso enorme.



9. A marmita era o tesouro

Todo RPG possui inventário.

O inventário daquele aventureiro tinha um item particularmente importante:

MARMITA.

Hoje é fácil subestimar aquilo.

Mas a marmita significava dinheiro, preparação e alimento para atravessar a jornada.

E havia bosses específicos.

Boss 1 — Marmita azedou.

GAME OVER no almoço.

Boss 2 — Marmita caiu.

Tesouro perdido durante o transporte.

Boss 3 — Vazou.

Dano de área na mochila.

O problema é que nem sempre havia dinheiro para simplesmente comprar outra refeição.

Portanto cuidar da marmita era logística.

Décadas depois, quando aquele garoto conseguiu proporcionar comida melhor para a família, talvez a vitória tivesse um sabor que alguém criado com abundância jamais perceberia completamente.



10. 17:15 — Não acabou

Às 17h15 terminava o expediente.

Mas não o dia.

Começava outra quest.

ESCOLA.

Outros bosses.

Outras regras.

Outras exigências.

Professor.

Matéria.

Trabalho.

Prova.

Nota.

E aqui surge um detalhe maravilhoso.

O objetivo do garoto não era simplesmente passar.

Sua meta era:

TOP 5 DA CLASSE

Pense nisso.

Acordar às 5h15.

Atravessar São Paulo.

Trabalhar.

Ir para a escola.

Sentar diante de uma prova.

E ainda pensar:

quero estar entre os cinco melhores.

Não havia bônus por cansaço.

A prova não perguntava:

TRABALHOU-HOJE? S
PEGOU-TREM-LOTADO? S
ESTA-CANSADO? S

ADD 2 TO NOTA-FINAL

Nada disso.

Nove era nove.

Dez era dez.

E o garoto queria disputar as primeiras posições.



11. O sorriso profissional

Existia ainda uma disciplina invisível.

Autocontrole.

O mundo podia estar uma porcaria.

O trem podia ter atrasado.

Alguém podia ter empurrado você.

Sua marmita podia ter sofrido um ABEND.

Você podia estar cansado.

Mas no trabalho precisava existir:

educação;

atenção;

disposição;

respeito;

controle emocional.

Uma explosão de raiva podia colocar tudo a perder.

Portanto o garoto aprendeu cedo uma das habilidades mais difíceis do mundo profissional:

não permitir que todo erro externo provoque um ABEND interno.

Isso não significa engolir tudo.

Significa compreender que nem toda batalha merece ser travada.



12. Então apareceram as recompensas

A campanha começou a produzir loot.

Primeiro, coisas fundamentais.

Melhor comida.

Depois:

melhor assistência médica.

E havia algo ainda maior.

Ele podia ajudar a mãe.

Podia ajudar os irmãos.

O dinheiro deixava de ser apenas remuneração.

Transformava-se em qualidade de vida para uma pequena comunidade chamada família.

Então chegou uma conquista memorável:

a primeira televisão colorida.

Parece banal em 2026.

Não era.

A televisão colorida dizia silenciosamente:

estamos avançando.



13. O Nintendinho entra em casa

Depois veio o videogame.

O primeiro Nintendo.

E quando sobrava algum dinheiro:

cartuchos.

Existe uma ironia deliciosa nisso.

O adolescente que havia passado o dia inteiro enfrentando fases, obstáculos e bosses chegava em casa e ligava uma máquina cujo objetivo era...

enfrentar fases, obstáculos e bosses.

Talvez Mario parecesse até relaxante.

Pelo menos Bowser não fazia greve de transporte.


14. Os computadores de 8 bits

Mas algumas máquinas tinham outra magia.

Os computadores domésticos de 8 bits mostravam uma superfície aparentemente simples.

Teclado.

Tela.

Pouca memória.

Poucas cores.

Entretanto havia alguma coisa escondida dentro deles.

E o garoto queria saber:

como isso funciona?

Essa pergunta é perigosíssima.

Porque algumas pessoas passam o resto da vida tentando respondê-la.

O computador deixa de ser eletrodoméstico.

Vira território.

Você digita alguma coisa.

A máquina responde.

Muda um valor.

Acontece outra coisa.

Erro.

Tenta novamente.

Funciona.

É uma sensação extraordinária:

eu disse para a máquina fazer alguma coisa e ela fez.

Décadas depois haveria COBOL, mainframes, bancos de dados, redes, APIs, inteligência artificial.

Mas antes de todas essas catedrais existiram pequenas máquinas de 8 bits dizendo:

READY.


15. O raio de 500 quilômetros

Quando sobrava algum dinheiro, entretanto, Vagner não comprava somente coisas.

Comprava distância.

Seu universo de aventuras tinha uma regra financeira.

Não dava para atravessar o planeta.

Tudo bem.

Qual era o mundo disponível?

Talvez 100 quilômetros.

No máximo aproximadamente 500.

E dentro daquele raio existiam montanhas.

Vales.

Trilhas.

Estradas.

Campings.

Cidades.

Histórias.

Descobriu cedo algo que muitos viajantes demoram para compreender:

aventura não é proporcional à distância.

Você pode atravessar dez mil quilômetros e não descobrir nada.

Pode caminhar vinte quilômetros e voltar diferente.


16. Caminhar porque queria

Existe uma diferença maravilhosa entre as caminhadas da semana e as caminhadas das aventuras.

Durante a semana ele caminhava porque precisava.

No fim de semana podia caminhar porque queria.

Essa diferença é liberdade.

Na cidade:

você precisa chegar ali.

Na montanha:

quero descobrir o que existe depois daquela curva.

Na cidade havia relógio.

Na trilha havia horizonte.

Na cidade havia ponto.

Na montanha havia cume.

Talvez por isso as pernas que durante a semana eram ferramentas de transporte se transformassem no fim de semana em instrumentos de descoberta.


17. Então apareceu a câmera

Em algum momento surgiu dinheiro suficiente para outra conquista.

Uma câmera fotográfica brasileira de 35 mm.

Não era Leica.

Não era Nikon profissional.

Não era equipamento de fotógrafo da National Geographic.

Sua óptica, lembrada décadas depois, merece uma definição técnica extremamente precisa:

perversa.

Fotografava mal.

E daí?

Ela possuía uma característica que nenhuma câmera moderna consegue reproduzir:

estava lá.

Foi para as aventuras.

Viu aquelas pessoas.

Viu aqueles lugares.

Recebeu aquela luz.


18. Trinta e seis oportunidades

Fotografia analógica ensinava economia.

Um filme tinha quantidade limitada de poses.

Cada clique custava.

Filme custava.

Revelação custava.

Ampliação custava.

Então antes do dedo havia pensamento.

Vale a fotografia?

Qual enquadramento?

A luz está boa?

Chego mais perto?

Espero?

Click.

Pronto.

Não havia tela traseira.

Não existia:

— Ficou ruim, faço mais vinte.

O resultado podia aparecer muito depois.

E talvez justamente por isso cada fotografia carregasse uma expectativa que desapareceu parcialmente da fotografia digital.


19. O aventureiro virou documentarista

Antes da câmera, Vagner voltava com histórias.

Depois dela, voltou também com provas.

Uma montanha.

Um acampamento.

Um amigo.

Uma estrada.

Uma cidade.

Uma roupa.

Uma mochila.

Uma paisagem.

Naquele momento ele provavelmente pensava que estava apenas tirando fotografias.

Não sabia que estava criando um arquivo histórico da própria vida.


20. NEGATIVO.MASTER

Décadas passaram.

As fotografias envelheceram.

A tecnologia mudou.

Mas os negativos permaneceram.

E então aconteceu algo maravilhoso.

As fotografias viraram imagens digitais.

As imagens digitais viraram vídeos.

Os vídeos foram parar no YouTube.

Aquele clique mecânico feito décadas atrás passou a existir em servidores distribuídos pelo planeta.

O pipeline poderia ser representado assim:

AVENTURA
   |
   V
CAMERA 35MM
   |
   V
NEGATIVO
   |
   V
FOTOGRAFIA
   |
   V
SCAN
   |
   V
VIDEO
   |
   V
YOUTUBE
   |
   V
MEMORIA

Um programador mainframe reconheceria imediatamente a arquitetura.

O negativo é o dataset master.

O scan é uma transformação.

O vídeo é aplicação.

O YouTube é distribuição.

Nunca apague o master.


21. A câmera atravessa o Atlântico

A velha câmera continuou existindo.

Em algum momento atravessou o oceano.

Foi para Portugal.

E acabou nas mãos do filho.

Para o filho?

Um cacareco.

Compreensível.

Objetivamente é uma câmera antiga com óptica limitada.

Existem telefones que fazem fotografias incomparavelmente melhores.

Mas para o velho sentado em Astúrias aquele objeto possui outra especificação.

Não é:

DEVICE TYPE = CAMERA
FORMAT = 35MM
OPTICS = QUESTIONABLE

É:

DEVICE TYPE = TIME MACHINE
VALUE = INCALCULAVEL

Por isso talvez seja hora de buscá-la.


22. “Para ele é um cacareco. Para mim foi o mundo.”

O velho repete a frase baixinho.

Uma senhora que passa pelo banco talvez olhe para ele.

Ele sorri.

Não está falando com ela.

Está falando com alguém sentado imaginariamente ao seu lado.

Um garoto de 14 anos.

O menino pergunta:

— Então a câmera era boa?

O velho ri.

— Era uma porcaria.

— Então por que você quer ela de volta?

O velho olha para as árvores.

Demora alguns segundos.

— Porque foi com ela que eu aprendi que minha vida merecia ser fotografada.

O garoto fica quieto.

Essa resposta ele ainda não consegue compreender.


23. O easter egg no banco

Talvez exista ainda outra personagem naquele parque.

Mafalda.

Em Oviedo, uma escultura da personagem de Quino está sentada justamente em um banco do Campo de San Francisco, diante do estanque.

Isso parece um easter egg bom demais para desperdiçar.

Imagine o velho Vagner passando por ela.

Mafalda continua criança.

Ele envelheceu.

Ela permanece fazendo perguntas desconfortáveis ao mundo.

Ele passou a vida tentando responder algumas delas.

Por alguns segundos olha para a menina de bronze.

— Você não envelheceu nada.

Mafalda obviamente não responde.

— Trapaceira.

E continua andando.


24. O menino finalmente pergunta

De volta ao banco, o garoto imaginário faz outra pergunta:

— A gente venceu?

Essa é difícil.

Porque vida não é videogame.

Não existe tela final.

Não aparecem créditos.

Sempre haverá alguma coisa incompleta.

Alguma escolha errada.

Alguma pessoa que partiu.

Alguma oportunidade perdida.

Alguma cicatriz.

Então o velho poderia responder com números.

Carreira.

Viagens.

Computadores.

Trabalho.

Família.

Projetos.

Mas talvez nada disso responda realmente.

Ele pensa na mãe.

Nos irmãos.

Na televisão colorida.

No Nintendo.

Nos cartuchos.

Na comida melhor.

No plano de saúde.

Na escola.

Nas notas.

Na câmera.

Nos negativos.

Nas montanhas.

Então responde:

Lutamos o bom combate.

O garoto entende.


25. Não vencemos porque ficamos ricos

Essa distinção importa.

A vitória daquela história não foi transformar pobreza em ostentação.

Foi transformar trabalho em possibilidade.

Possibilidade de comer melhor.

Possibilidade de cuidar da saúde.

Possibilidade de ajudar a família.

Possibilidade de estudar.

Possibilidade de conhecer tecnologia.

Possibilidade de comprar um videogame.

Possibilidade de fotografar.

Possibilidade de caminhar por uma montanha simplesmente porque queria.

Possibilidade de ampliar progressivamente o mapa.

Essa talvez seja uma definição muito mais interessante de prosperidade:

aumentar a quantidade de escolhas disponíveis.


26. O verdadeiro sistema legado

Programadores iniciantes costumam ouvir que sistemas legados são antigos.

Não é uma boa definição.

Legado é aquilo que continua carregando valor de uma geração para outra.

Nesse sentido, a câmera é legado.

Os negativos são legado.

As histórias são legado.

O conhecimento é legado.

Até determinadas cicatrizes são legado.

Um programa COBOL escrito quarenta anos atrás pode continuar processando porque ainda contém regras importantes.

Uma fotografia ruim feita quarenta anos atrás pode continuar valiosa porque contém pessoas e lugares que não podem ser recompilados.

Há coisas que envelhecem.

Há coisas que acumulam significado.

Não confunda as duas.


27. Dica do velho programador

Se você é um programador COBOL iniciante lendo isto, talvez esteja esperando uma grande lição técnica.

Aqui está:

não despreze sistemas antigos apenas porque parecem ruins.

Primeiro pergunte:

— O que existe aqui que não pode ser recriado?

Faça isso com programas.

Faça isso com documentos.

Faça isso com fotografias.

Faça isso com pessoas.

Uma rotina horrorosa escrita em 1987 pode conter uma regra de negócio que ninguém documentou.

Um negativo riscado pode conter a única fotografia existente de determinado momento.

Uma câmera vagabunda pode ser um cacareco para você e o mundo inteiro para outra pessoa.

Valor e qualidade técnica não são sinônimos.

Essa é uma lição que serve tanto para fotografia quanto para mainframe.


28. 05:15 outra vez

O velho olha novamente o relógio.

É curioso.

Durante décadas, 5h15 significou:

CORRA.

Agora não.

Não há trem para pegar.

Não há ponto.

Não há ônibus.

Não há prova.

Não há marmita.

Não há chefe esperando.

Ele pode simplesmente continuar sentado.

Talvez essa seja uma das maiores conquistas de todas.

Ter finalmente conquistado o direito de não correr.


Epílogo — O garoto chegou

Começa uma chuva fina sobre Oviedo.

O velho levanta.

Durante alguns segundos imagina novamente o garoto.

Quatorze anos.

Marmita.

Carteira profissional.

Caderno.

Pouco dinheiro.

Uma quantidade absurda de vontade.

— Vem — diz o velho.

O garoto pergunta:

— Para onde?

Vagner olha para as ruas de Astúrias.

Sorri.

— Para casa.

O garoto olha desconfiado.

— De trem?

O velho ri.

— Hoje não.

Começam a caminhar.

Um tem mais de meio século de histórias.

O outro ainda não sabe nenhuma delas.

Mas são a mesma pessoa.

Passam pelas árvores.

Talvez pela Mafalda.

Talvez por algum turista fotografando tudo com um telefone capaz de produzir imagens que aquela velha câmera brasileira jamais sonharia registrar.

O velho pensa na câmera que ficou em Portugal.

Preciso trazê-la de volta.

Não para fotografar.

Talvez nunca mais coloque um filme nela.

Não importa.

Ela cumpriu sua missão.

Aquela pequena caixa com óptica perversa viu o mundo quando o mundo ainda era pequeno.

Primeiro o mundo tinha vinte quilômetros até o trabalho.

Depois quinhentos quilômetros de aventuras.

Depois atravessou oceanos.

E agora existe um velho caminhando tranquilamente por Astúrias.

Se algum desconhecido perguntasse quanto vale aquela câmera, talvez não houvesse resposta possível.

Porque existem objetos cujo preço pode ser pesquisado.

E existem objetos cujo valor está armazenado em outro sistema.

Um sistema sem SQL.

Sem backup.

Sem REST API.

Sem documentação.

Chamado memória.

E nesse sistema existe um registro que jamais deve receber DELETE:

01 PRIMEIRA-CAMERA.
   05 FABRICACAO        PIC X(10) VALUE 'BRASILEIRA'.
   05 FILME             PIC X(04) VALUE '35MM'.
   05 OTICA             PIC X(10) VALUE 'PERVERSA'.
   05 VALOR-COMERCIAL   PIC 9(09)V99 VALUE ZEROS.
   05 VALOR-PARA-MIM    PIC X(12) VALUE 'FOI O MUNDO'.

O compilador reclama:

VALOR-PARA-MIM não cabe no campo.

O velho programador olha para a mensagem.

Sorri.

Claro que não cabe.

Nunca coube.


Um Café no Bellacosa Mainframe

Alguns sistemas sobrevivem porque ninguém conseguiu substituí-los.

Algumas fotografias sobrevivem porque ninguém consegue repeti-las.

E algumas histórias sobrevivem porque, depois de quase quarenta anos, o garoto das 5h15 finalmente encontrou tempo para sentar em um banco e contá-las.




segunda-feira, 10 de setembro de 2018

TETSUDO OTAKU – CONFISSÕES DE UM FERROVIÁRIO DE ALMA

 

Bellacosa Mainframe e a alma ferroviaria 

TETSUDO OTAKU – CONFISSÕES DE UM FERROVIÁRIO DE ALMA
Um post Bellacosa Mainframe para o El Jefe Midnight Lunch





Há coisas na vida que a gente não escolhe.
Elas simplesmente aparecem, acendem uma luz dentro da gente e… pronto.
Viramos devotos. Seguidores. Apaixonados incuráveis.



No meu caso, meu amigo, essa chama tem forma de locomotiva.
Tem cheiro de óleo quente.
Tem som metálico que vibra no peito.
E produz vapor — muito vapor — como se fosse um dragão mecânico pronto pra acordar mundos adormecidos.



Sim, e para minha surpresa, não estou sozinho.
O Japão inventou um termo pomposo, um nome pra isso: Tetsudō Otaku (鉄オタ).
O ferro-nerd, o train geek, o devoto das trilhas de aço.
Mas a verdade?
Antes de existir termo japonês, já existia eu, o Bellacosa apaixonado por trilhos no hemisfério sul.
Eles só demoraram pra documentar.

Herdado e iniciado neste gosto pelo meu pai, desde que me lembro como gente, esse gosto , esse interesse, seja naqueles antigos western-spaghetti com suas poderosas ferrovias e locomotivas a vapor, ou seja, no antigo e decadente trem da CBTU. Transporte em que ia e voltava do trabalho nos anos 1980/1990 e na sua versão evoluída como um Pokémon a CPTM do século XXI.




O Código-Fonte da Paixão

Desde pequeno eu já tinha o kernel configurado pra isso.
Enquanto outras crianças se fascinavam por carrinhos, bonecos ou videogames, eu tinha outra fofura na cabeça:

A liturgia do trem.

E não era amor superficial, não.
Era amor de quem entende o cheiro da lenha molhada na fornalha,
o ronco das máquinas elétricas dos anos 50,
a beleza suja e poética da diesel.
Amor de quem olha pra uma BR-8, uma Baldwin, uma Henschel e vê história gritando na lataria.

Amor de quem sabe que uma locomotiva não é só um veículo.
É uma criatura viva — aço, fogo e memória.

Meu sonho dourado de infância, era ganhar um Ferrorama da Estrela, porém família pobre, este desejo ficava perdido, nas das cartinhas, que o papai noel não tinha condições de responder e atender.




Ferrovias Paulistas – Suas Primeiras Catedrais

E como todo bom devoto, eu tinha minhas “igrejas” prediletas:

  • A Companhia Paulista, a rainha da qualidade.

  • A Mogiana, a estrada dos vales, das serras e dos desafios.

  • A SPR (São Paulo Railway), a linha que rasgou a serra do mar e levou o café ao mundo.

  • A Central do Brasil, esteio do sudeste, veia principal de quem sonhava chegar ao Rio, São Paulo ou além.

O meu templo, melhor dizer CATEDRAL e grande local mágico é a Estação da Luz em São Paulo, em estilo inglês, clássica torre do Relógio, passagens secretas, ferro fundido, tijolos ingleses e suor brasileiro, mão de obra escrava, livre e imigrante. Todos deram sua força nesta obra única sob a batuta dos lendários ingleses das ferrovias.

São linhas que hoje dormem, quase fantasmas, mas que lutam contra o esquecimento através de pessoas como eu, um aficionado, amalucado e que ama o tec tec das rodas de ferro sobre os trilhos. Hoje quando posso uso os trens suburbanos das CBTU/CPTM, para ir a capital como um caipira de outros tempos.

Afinal, enquanto alguém lembra…
uma ferrovia nunca morre.




O Dia em que Busquei o FIM DOS TRILHOS

A aventura de 600 km até Santa Fé do Sul é um poema por si só.
Quem mais pega estradas de ferro, numa viagem de quase 20 horas, gasta dinheiro, enfrenta calor, poeira, vagões lotados e quilômetros infinitos só para ver… o fim da linha, onde o trilho acaba no Rio Paraná na divisa com Mato Grosso do Sul?

Isso é coisa de Tetsudō Otaku raiz.
Versão brasileira, com sotaque do interior, coragem e uma alma movida por trilhos.

Chegar lá foi como alcançar o final de um livro épico.
Eu não fui como turista.
Fui como arqueólogo sentimental.
Como quem procura o último suspiro de um gigante adormecido.




Do Luxo Europeu ao Vagão Coletivo – Uma vida ferroviária completa

Poucos podem dizer — com propriedade — que experimentaram todas as classes, todos os ritmos e todos os estilos de viagem ferroviária:

  • vagões luxuosos com jantar à luz branda;

  • cabines privadas que lembram hotéis móveis;

  • compartimentos coletivos, barulhentos e cheios de vida;

  • vagões antigos de madeira que rangem como velhos bardos;

  • fronteiras cruzadas ao som hipnótico dos trilhos;

  • restaurantes ferroviários com aquela comida que tem gosto de estrada e poesia.

Eu não só viajei de Trem.
Eu vivi o Trem.

Coisa rara. Coisa nobre.
Coisa de quem tem ferrovia correndo na veia.

Que jovens do século XXI, acostumados com papai e mamãe chofer, ou uber para lá e cá, desconhecem.



Defensor de um Brasil que ainda pode voltar aos trilhos

No fundo, carrego um sonho, meio a Dom Quixote, mas que também é sonho de muitos:

O retorno pleno dos trens de passageiros.
Porque eles são:

  • mais ecológicos;

  • mais baratos;

  • mais rápidos em longas distâncias;

  • mais românticos (sim, admitamos);

  • e absolutamente indispensáveis num mundo que pensa em futuro.

Carro engarrafa.
Avião atrasa.
Ônibus quebra.
Trem vai.

Simples assim.

E talvez um dia, quando este país finalmente voltar a raciocinar como país grande,
alguém bata na mesa e diga:

“Voltem os trilhos! Voltem os trens!”

E quando isso acontecer, Bellacosa, irei sorrir sabendo que defendia essa bandeira desde sempre.




Conclusão: A Ferrovia Mora em meu Coração

Ser Tetsudō Otaku não é ser estranho.
É ser parte de uma linhagem rara de apaixonados pelo movimento, pela história e pela poesia do mundo real.

É ser guardião de um patrimônio.
É carregar no peito o som dos trilhos.
É sentir o coração acelerar ao ouvir o apito distante.
É saber que existe beleza no rumo certo, no tempo certo, na linha certa.

Alguns amam o mar.
Outros amam o céu.
Eu amo o caminho entre um lugar e outro,
a promessa do horizonte,
a certeza de que sempre existe mais trilho lá adiante.

E isso — meu amigo — não é excentricidade.

É vocação.
É alma.
É legado.



É um amor de uma pessoa, que viajou de trem as Santos vendo a Serra do Mar, posterior me desci o mesmo trajeto a pé como andarilho, que conhece Morretes e seu lendario trem, que luta para atrair padawans para o Mundo das Ferrovias.





sábado, 11 de julho de 1998

Linha Mogiana de Campinas a Jaguariuna

Bellacosa Mainframe e o ramal Serra Negra Socorro da Cia Mogiana

☕ Nos Trilhos da Mogiana

Em busca de uma ferrovia que desapareceu — mas nunca foi embora completamente

Tenho um carinho enorme pela antiga Companhia Mogiana de Estradas de Ferro. Talvez porque, para mim, seus trilhos nunca tenham sido apenas pedaços de aço enferrujando entre o mato. Eles são caminhos que ainda parecem guardar o barulho das locomotivas, o apito chegando às cidades e milhares de histórias de pessoas que um dia embarcaram sem imaginar que aquela ferrovia desapareceria.

Ao longo dos anos explorei a Mogiana com enorme curiosidade. Caminhei por antigas instalações ferroviárias, conheci a fascinante rotunda, fotografei estações e procurei vestígios dos trilhos que avançavam pelo interior paulista.


Jaguariúna, Amparo, Monte Alegre do Sul, Serra Negra...

Cada estação conta um pedaço dessa história.

Tenho um carinho especial pela Estação de Amparo. Quando caminho por esses lugares, gosto de imaginar a plataforma movimentada, malas esperando o embarque, funcionários trabalhando e passageiros olhando ansiosamente para os trilhos até surgir, ao longe, a fumaça anunciando a chegada do trem.

Por isso é emocionante saber que alguns pedaços da velha Mogiana continuam vivos.

Em determinados trechos, locomotivas ainda apitam, rodas novamente encontram os trilhos e antigas estações recuperam, mesmo que por algumas horas, aquilo para que foram construídas.

Meu sonho seria ver mais.

Não apenas trens turísticos.



Gostaria de assistir ao retorno de serviços ferroviários regulares, recuperando corredores possíveis e devolvendo às cidades uma alternativa que durante décadas fez parte de suas vidas.

Talvez jamais seja possível reconstruir toda aquela imensa malha ferroviária.

Mas não precisamos reconstruir o passado inteiro para aprender com ele.

Cada estação preservada, cada quilômetro de trilho recuperado e cada locomotiva novamente em movimento representam uma pequena vitória contra o esquecimento.

Porque a Mogiana desapareceu dos mapas ferroviários de muitas cidades.

Mas nunca desapareceu completamente.

Basta escutar um apito ecoando pelos trilhos de Anhumas para compreender.



🚂 A velha Mogiana ainda está lá.

Esperando o próximo embarque.

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Estação de Anhumas


Em nova visita a estação da Mogiana, esta ficando recorrente viajar de locomotiva a vapor, é um passeio delicioso, sentir o cheirinho de lenha queimada, ver as faíscas pela janela, ir ate o vagão restaurante e beliscar algo.


Uma deliciosa viagem no tempo, brincando de era uma vez, indo no museu ferroviário e vendo todos os apetrechos usados pela Mogiana, chegar a Jaguariúna e retornar a Campinas.


Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

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