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segunda-feira, 4 de outubro de 2010

SMP/E for z/OS Workshop : LIST & REPORT Commands

 

Bellacosa Mainframe apresenta SMP/E List and Report Commands

SMP/E for z/OS Workshop

ACCEPT Processing – LIST & REPORT Commands

Quando olhar o CSI é tão importante quanto instalar o código

Instalar SYSMOD qualquer um instala.
Agora… saber exatamente o que está instalado, onde, por quê e com qual dependência
👉 isso separa operador de System Programmer.

É aqui que entram os comandos LIST e REPORT.


LIST Command

Abrindo o CSI como quem abre o capô do sistema

O comando LIST é o bisturi do SMP/E.
Ele não interpreta, não deduz, não opina.
Ele mostra os fatos gravados no CSI.

📌 O LIST pode extrair informações de:

  • Global Zone

  • Target Zone

  • Distribution Zone

  • SMPPTS

  • SMPLOG

  • SMPSCDS

💡 Easter egg #1

Se você confia mais na memória do que no LIST,
o CSI vai te humilhar em algum momento.


Boundary: o detalhe que separa sucesso de confusão

Antes de usar LIST, você define o boundary:

  • Global Zone → acesso a SMPPTS

  • Zona com DDDEF do SMPLOG

  • Target Zone associada ao SMPSCDS

  • Ou tudo de uma vez com:

ALLZONES

⚠️ ALLZONES lista tudo que existe, não tudo que você quer ver.

💡 Easter egg #2

ALLZONES às 3 da manhã
é como dar SELECT * em produção.


O que dá pra listar no Global Zone

Com LIST você pode ver:

  • OPTIONS

  • UTILITIES

  • DDDEFs

  • FMIDSETs

  • ZONESETs

  • SYSMOD entries

  • MCS entries do SMPPTS

  • HOLDDATA (++HOLD)

HOLDDATA com lupa

Você pode filtrar por:

  • HOLDERROR

  • HOLDSYSTEM

  • HOLDUSER

E ainda combinar com SYSMOD específico.

📌 Se combinar filtros demais, o SMP/E só lista
entradas que satisfaçam todos.


Filtros avançados (onde mora o poder)

LIST aceita os mesmos refinamentos do APPLY/ACCEPT:

  • SOURCEID

  • EXSRCID

  • FORFMID

  • XZLMOD

  • XZLMODP

  • XREF

👉 Ideal para:

  • Debug de dependência

  • Auditoria

  • Pós-migração

  • Comparação entre ambientes

💡 Easter egg #3

SOURCEID bem usado
vale mais que planilha paralela.


LIST em Target e Distribution Zones

Além do básico, você pode listar:

  • TARGETZONE definition

  • DLIBZONE definition

  • DDDEFs

  • ELEMENT entries:

    • MOD

    • MAC

    • SRC

    • JAR

    • HFS

  • LMOD entries

SYSMOD entries com status

Você pode filtrar por:

  • ERROR

  • SUP (superseded)

  • NOSUP

  • RESTORE

  • NOAPPLY

  • NOACCEPT

  • BYPASS

  • DELETE

📌 SUP e NOSUP são mutuamente exclusivos.

💡 Easter egg #4

SYSMOD em ERROR não é bug
é aviso ignorado.


LIST LOG e BACKUP

  • LIST LOG → conteúdo do SMPLOG

    • Total ou por intervalo de data

  • LIST BACKUP → conteúdo do SMPSCDS

    • Tudo ou por SYSMOD específico

👉 LIST é o comando ideal para auditoria forense do SMP/E.


LIST vs DIALOG QUERY

LIST = dados brutos
QUERY = visão amigável

Quando a coisa aperta…
LIST sempre vence.


REPORT Command

Quando você precisa que o SMP/E pense por você

Se o LIST mostra,
o REPORT analisa.

Ele cruza zonas, dependências, FMIDs, SOURCEIDs e HOLDs
e ainda gera comandos prontos.

📌 REPORT é o SMP/E dizendo:

“relaxa, eu faço a correlação.”


REPORT CROSSZONE

Dependência entre produtos e zonas

Usado para responder:

“Instalei isso aqui… quebrou quem?”

Requisitos:

  • ZONESET obrigatório

  • Pode limitar por:

    • FMID

    • ZONE

O relatório mostra:

  • Dependências cruzadas

  • SYSMODs faltantes

  • Se já foram RECEIVED

  • Quem causou a dependência

👉 E ainda gera comandos SMP/E no SMPPUNCH

NOPUNCH

se você não quiser os comandos.

💡 Easter egg #5

SMPPUNCH esquecido
vira APPLY acidental.


REPORT ERRSYSMODS

Quando o passado volta pra cobrar

Identifica SYSMODs que:

  • Já foram instalados

  • Mas agora estão em ERROR HOLD

Pode analisar:

  • Global Zone

  • Target Zone

  • Distribution Zone

Filtros:

  • Data inicial / final

  • FMID

O relatório mostra:

  • SYSMOD afetado

  • Reason ID

  • Quem resolve

  • ++HOLD completo

💡 Easter egg #6

ERROR HOLD não some
só muda de lugar.


REPORT SOURCEID

Quem veio de onde?

Descobre:

  • Quais SOURCEIDs existem

  • Quais SYSMODs usam cada um

Com ou sem filtro por SYSMOD.

👉 Excelente para:

  • FIXCAT

  • Hardware novo

  • Coexistência

  • Migração de release


REPORT SYSMODS

Comparação entre zonas

Usado para:

  • Validar ambientes

  • Comparar releases

  • Checar desvio de serviço

Parâmetros:

  • INZONE

  • COMPAREDTO

Resultado:

  • O que existe em uma zona

  • E não existe na outra

  • Com comandos prontos para corrigir

💡 Easter egg #7

Ambiente “igual” sem REPORT
é fé, não evidência.


REPORT MISSINGFIX (FIXCAT)

Adeus PSP Bucket manual

Disponível a partir do SMP/E 3.6.

Identifica:

  • APARs faltantes

  • Por categoria FIXCAT

  • Para hardware, software e coexistência

Mostra:

  • FIXCAT

  • APAR

  • PTF corretivo

  • Dependências

  • Problemas de HOLD

📌 Dois blocos:
1️⃣ Missing fixes
2️⃣ Resolving SYSMODs em erro

💡 Easter egg #8

FIXCAT bem usado
economiza fim de semana inteiro.


Bellacosa Summary – em poucas linhas

LIST mostra o que existe
REPORT explica o impacto
SMPPUNCH sugere a correção
Você decide se confia


Checklist Bellacosa – LIST & REPORT

✔ LIST antes de APPLY
✔ REPORT antes de migrar
✔ FIXCAT sempre atualizado
✔ SOURCEID bem definido
✔ SMPPUNCH revisado
✔ LOG nunca ignorado


Conclusão

Quem domina LIST e REPORT:

  • Não instala no escuro

  • Não depende de planilha

  • Não descobre erro em produção

  • Não briga com auditor

💡 Easter egg final

O SMP/E sempre soube a verdade.
Você só precisava perguntar direito.

domingo, 3 de outubro de 2010

💽 Tracks, Cilindros e DASD no IBM Mainframe

Bellacosa Mainframe Storage e DASD 3390



💽 Tracks, Cilindros e DASD no IBM Mainframe

Arquitetura, não nostalgia

“O mainframe não mede storage em tracks e cilindros porque é antigo.
Ele faz isso porque sabe exatamente o que está fazendo.”


1️⃣ A origem da filosofia: quando hardware importava (e ainda importa)

Desde os primórdios do IBM System/360 (1964), o mainframe foi projetado com um princípio inegociável:

👉 Controle total do I/O

Naquela época:

  • Disco era caro

  • CPU era valiosa

  • I/O era o gargalo

💡 Conclusão da IBM:

“Se o gargalo é I/O, precisamos dominar o disco até o último detalhe físico.”

Assim nascem os conceitos de:

  • Track

  • Cilindro

  • Bloco

  • Extent

Nada disso é acaso. É engenharia.


2️⃣ O que é um TRACK (pista) – o átomo do DASD

📀 Track é:

  • Uma circunferência física no platter do disco

  • Unidade mínima de alocação real

  • Otimizada para leitura e escrita sequencial

Características importantes:

  • Contém um ou mais blocos

  • O tamanho em bytes não é fixo

  • Depende de:

    • Dataset (PS, PO, VSAM)

    • BLKSIZE

    • Tipo de acesso

📏 Referência clássica (3390):

  • ≈ 56 KB por track (didático, não absoluto)

🧪 Easter egg técnico:

Mesmo quando você pede espaço em MB,
o DFSMS converte tudo para tracks internamente 😎


3️⃣ O que é um CILINDRO – o segredo da performance

🛢️ Cilindro =
Conjunto de tracks alinhados verticalmente em todos os pratos do disco.

Por que isso é genial?

  • O braço do disco não precisa se mover

  • Menos seek

  • Mais throughput

  • Menos latência

📌 Em mainframe:

Performance não é pico, é constância.


IBM HD 3390

4️⃣ Modelos clássicos de DASD IBM (história viva)

📦 IBM 2311 / 2314

  • Anos 60 / 70

  • Discos removíveis

  • Origem dos conceitos de cilindro

📦 IBM 3330 – “Merlin”

  • Gigante físico

  • Primeiro “big storage”

📦 IBM 3380

  • Alta densidade

  • Base para sistemas bancários dos anos 80

📦 IBM 3390 (o eterno)

  • Padrão até hoje (logicamente)

  • Modelos:

    • 3390-3 (~2,8 GB)

    • 3390-9 (~8,4 GB)

  • Referência de cálculo de tracks/cilindros

📦 DS8000 (atual)

  • Storage virtualizado

  • Cache massivo

  • Flash

  • Mas… emula 3390
    😏

O mainframe moderniza sem quebrar o passado.


5️⃣ Evolução: do ferro ao virtual (sem perder o controle)

Hoje:

  • Não existe mais “disco girando” como antes

  • Temos:

    • Cache

    • Flash

    • Virtualização

    • Striping interno

Mas o z/OS continua falando em:

  • Track

  • Cilindro

  • Extent

💡 Por quê?

Porque:

  • SMF mede I/O em tracks

  • WLM calcula impacto por volume

  • SMS aloca espaço físico previsível

  • Batch depende disso


6️⃣ Alocação no dia a dia (JCL raiz)

Exemplo clássico:

//ARQ1 DD DSN=MEU.ARQUIVO,
//         DISP=(NEW,CATLG,DELETE),
//         SPACE=(CYL,(10,5),RLSE),
//         DCB=(RECFM=FB,LRECL=80,BLKSIZE=0)

📌 Tradução para o padawan:

  • 10 cilindros primários

  • 5 cilindros secundários

  • Espaço real

  • Custo previsível

  • Impacto conhecido


7️⃣ Performance: onde o mainframe humilha

Linux / Unix:

  • Você pede “10 GB”

  • O filesystem decide tudo

  • Fragmentação invisível

  • Latência variável

Mainframe:

  • Você define:

    • Onde

    • Quanto

    • Como cresce

  • O sistema sabe:

    • Quantos seeks

    • Quantos tracks

    • Quanto I/O será gerado

📊 Resultado:

  • SLA calculável

  • Batch que termina no horário

  • Sistema que envelhece bem


8️⃣ Uso prático: quem realmente se beneficia disso?

🏦 Bancos
✈️ Companhias aéreas
🏛️ Governos
💳 Clearing e pagamentos
📊 BI batch massivo

Onde:

  • Erro não é opção

  • Retry não existe

  • Previsibilidade é rei


9️⃣ Curiosidades e Easter Eggs de mainframer

🧠 Você sabia?

  • SPACE=(TRK,…) ainda é usado em sistemas críticos

  • VSAM define espaço em CI/CA, mas mapeia para tracks

  • SMF Type 42 mede EXCP por dataset

  • EAV permite volumes gigantes, mas o cálculo continua físico

  • O termo DASD é mais velho que “storage” 😄


🔚 Conclusão Bellacosa Mainframe ☕

Falar de tracks e cilindros não é nostalgia.
É respeito à física, engenharia de verdade e responsabilidade operacional.

“Mainframe não abstrai o problema.
Ele encara o problema de frente.”

E é por isso que, décadas depois,
ele ainda roda o mundo.




sexta-feira, 1 de outubro de 2010

☕🔥 RACF Hardcore — Segurança Mainframe sem verniz

 

Bellacosa Mainframe apresenta o RACF 

☕🔥 RACF Hardcore — Segurança Mainframe sem verniz 

Se você já perdeu acesso ao próprio TSO, já bloqueou produção com um PERMIT mal dado, ou já ouviu

“foi só uma alteração de RACF…”
então este texto é para você.

Aqui não tem introdução infantil.
Aqui é RACF raiz, técnico, sistêmico e perigoso — do jeito que veterano respeita.


🕰️ História & Origem — por que o RACF nasceu paranoico

O RACF (Resource Access Control Facility) surge nos anos 70, quando a IBM percebeu que:

  • Controle por good behavior não escala

  • Segurança precisava ser centralizada

  • Auditoria não podia ser opcional

RACF foi desenhado para:

  • Negar por padrão

  • Controlar quem, o quê, quando e como

  • Integrar com o núcleo do z/OS

☕ Verdade inconveniente:

RACF não confia nem no SYSADM. E está certo.


🔐 Por onde começar com Segurança (visão de veterano)

Segurança não começa no comando. Começa no modelo mental.

Princípios reais:

  • Least Privilege

  • Segregation of Duties

  • Accountability

  • Auditabilidade

🔥 Easter egg:
Ambiente “funcionando” ≠ ambiente “seguro”.


🏗️ A Estrutura de Grupos — o esqueleto invisível

Grupos RACF não são “organizacionais”.
São domínios de autoridade.

  • Grupos pais controlam filhos

  • OWNER ≠ SUPGROUP

  • Hierarquia mal desenhada vira bomba relógio

📌 Exemplo técnico:

ADDGROUP FINANCE SUPGROUP(SYS1) OWNER(SYS1)
ADDGROUP FINANCE.PAYROLL SUPGROUP(FINANCE)

☕ Comentário ácido:

Grupo mal definido é privilégio eterno.


⌨️ Os Comandos RACF — bisturis, não martelos

  • ADDUSER / DELUSER

  • ADDGROUP / DELGROUP

  • CONNECT / REMOVE

  • PERMIT

  • ALTUSER / ALTGROUP

  • SETROPTS

🔥 Regra de Produção:

Se você não sabe desfazer, não execute.


🗑️ Definindo & Excluindo Grupos RACF

Criar grupo é fácil.
Excluir é trauma.

Antes de um DELGROUP:

  • Usuários conectados?

  • Perfis com OWNER?

  • DATASET PROFILE ownership?

  • Surpresas em ACL herdada?

☕ Fofoquice técnica:
DELGROUP em produção é evento histórico.


👤 Definindo Usuários — mais que um ID

Um usuário RACF é:

  • Identidade

  • Responsabilidade

  • Risco

Campos críticos:

  • SPECIAL / OPERATIONS / AUDITOR

  • PASSWORD interval

  • REVOKE / RESUME

  • OMVS / DFP / CICS

📌 Exemplo:

ADDUSER JOSE NAME('JOSE SILVA') DFLTGRP(FINANCE) PASSDATE(30)

🔥 Easter egg:
Usuário genérico é pecado capital.


🔗 Conectando Usuários a Grupos

CONNECT é onde a segurança realmente acontece.

  • AUTHORITY (USE, READ, CONNECT, JOIN)

  • GROUP-SPECIAL

  • OWNER implícito

☕ Verdade nua:

CONNECT errado é privilégio que ninguém vê.


🗂️ Perfis de Conjunto de Dados (DATASET PROFILES)

O coração do RACF clássico.

  • HLQ como fronteira de poder

  • DISCRETIONARY ≠ MANDATORY

  • UACC mal definido = vazamento

📌 Exemplo:

ADDSD 'FINANCE.PAYROLL.**' OWNER(FINANCE) UACC(NONE)
PERMIT 'FINANCE.PAYROLL.**' ID(PAYUSR) ACCESS(READ)

🔥 Curiosidade:
UACC(READ) já causou mais incidente que bug de COBOL.


🌐 Perfis Gerais de Recursos (CLASS Profiles)

Aqui o RACF vira onipresente:

  • CICS

  • IMS

  • MQ

  • SDSF

  • OPERCMDS

  • FACILITY

☕ El Jefe warning:

Quem ignora classe FACILITY não entende z/OS moderno.


🧨 Recursos Especiais do RACF

  • SPECIAL

  • OPERATIONS

  • AUDITOR

  • TRUSTED

  • WARNING vs FAIL

🔥 Comentário venenoso:
SPECIAL demais é insegurança institucionalizada.


⚙️ O Comando SETROPTS — o painel nuclear

SETROPTS controla:

  • Ativação de classes

  • Auditoria

  • Regras globais

  • Password rules

📌 Exemplo:

SETROPTS CLASSACT(DATASET) RACLIST(DATASET) REFRESH

☕🔥 Regra sagrada:

SETROPTS sem planejamento vira outage invisível.


🔄 RACF Remote Sharing Facility (RRSF)

RACF em modo distribuído:

  • Compartilhamento de identidades

  • Replicação de perfis

  • Confiança entre sistemas

🔥 Curiosidade:
RRSF mal configurado espalha erro em escala industrial.


🔗 RACF e Sysplex — segurança em cluster

No Sysplex:

  • Database compartilhado

  • Consistência obrigatória

  • Propagação imediata

☕ Verdade dura:

No Sysplex, erro local vira problema global.


🧪 Programas Utilitários RACF

Ferramentas para quem não vive no ISPF:

  • IRRDBU00

  • IRRUT200

  • IRRICE

  • unloads para auditoria

  • Análise offline

🔥 Easter egg veterano:
Auditor sério não confia só em LISTUSER.


🧠 Mentalidade de Segurança Mainframe (nível veterano)

✔️ Segurança é processo, não produto
✔️ Tudo que não está definido será explorado
✔️ RACF não protege sistema — protege negócio
✔️ Auditor não é inimigo
✔️ Log é prova histórica


🥚 Easter Eggs & Fofoquices RACF

  • Todo ambiente tem um ID “histórico”

  • Sempre existe um dataset que “ninguém sabe de quem é”

  • Segurança forte incomoda — e é esse o objetivo

  • Incidente sério sempre começa com:

    “Mas esse acesso sempre existiu…”


☕🔥 Conclusão — Manifesto El Jefe RACF

RACF não é:

  • Cadastro

  • Burocracia

  • Entrave

RACF é:

  • Arquitetura de confiança

  • Controle de risco

  • Linha final de defesa do z/OS

☕🔥 Se você domina RACF,
você não protege arquivos —
protege a empresa inteira.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

SHIKI 🧛 Quando Drácula instalou um sistema distribuído numa aldeia de 1.300 habitantes

 
Bellacosa Mainframe apresenta o anime Shiki

☕ BELLACOSA ANIME

SHIKI

🧛 Quando Drácula instalou um sistema distribuído numa aldeia de 1.300 habitantes

Título original: 屍鬼 — Shiki
Título internacional: Shiki
Autora original: Fuyumi Ono
Obra original: romance de horror publicado originalmente em 1998
Mangá: Fuyumi Ono / arte de Ryu Fujisaki
Direção do anime: Tetsurō Amino
Roteiro/composição da série: Kenji Sugihara
Estúdio: Daume (童夢)
Exibição japonesa: 8 de julho a 30 de dezembro de 2010
Emissora: Fuji TV / bloco Noitamina
Anime: 22 episódios de TV + 2 episódios extras lançados em vídeo
Gêneros: horror sobrenatural, mistério, horror psicológico, vampirismo, drama, suspense, folk horror
Classificação: conteúdo adulto; nos EUA aparece como TV-MA, embora classificações variem conforme o território.



🏚️ 1. BEM-VINDO A SOTOBA

Shiki começa fazendo algo que parece absurdamente banal.

Ele apresenta uma aldeia.

Não começa com um super-herói.

Não começa explicando poderes.

Não entrega imediatamente seu monstro.

Temos Sotoba, uma comunidade rural com aproximadamente 1.300 habitantes, isolada do exterior e conectada basicamente por uma única estrada. A apresentação oficial ainda ressalta um detalhe macabro: ali persiste o costume do sepultamento. Então três cadáveres são encontrados na região de Yamairi.

O médico local, Toshio Ozaki, estranha aquilo, embora inicialmente as mortes sejam tratadas como naturais.

Depois outras pessoas começam a morrer.

E foi aí que nosso garoto da quinta série iniciou a auditoria:

POPULAÇÃO INICIAL = 1300

Megumi morreu?

1299!

😂

Só que rapidamente descobrimos que nossa contabilidade estava fodida.

Não havia apenas Megumi.

Existiam outros mortos.

A prefeitura possuía seus números.

O templo estava realizando funerais demais.

Ozaki percebia pacientes com sintomas semelhantes.

Algumas famílias pareciam abandonar Sotoba.

Mudanças estranhas aconteciam durante a noite.

E, pior:

alguns mortos aparentemente não estavam respeitando STOP RUN.



🌸 2. MEGUMI SHIMIZU — O CABELO CHICLETE QUE INAUGURA O HORROR

Megumi é uma escolha brilhante para apresentar o conflito.

Ela odeia Sotoba.

Sonha com a cidade grande, gosta de moda e sente-se aprisionada naquele lugar pequeno.

A descrição oficial confirma justamente essa personalidade: Megumi despreza a aldeia antiquada e deseja uma existência urbana.

Então aparece uma construção absolutamente discreta no meio do interior japonês:

UMA PORRA DE UMA MANSÃO GÓTICA.

🏰

Qualquer pessoa normal:

“Isso parece o castelo do Drácula.”

Megumi:

“Que interessante!”

Garoto da quinta série:

“Vai dar merda.”

E dá.

A imagem de Megumi debilitada impressiona particularmente pelo contraste visual.

O cabelo rosa berrante continua representando aquela adolescente extravagante e cheia de planos, enquanto os olhos fixos parecem dizer que a pessoa que habitava aquele corpo simplesmente desapareceu.

Shiki descobre cedo uma coisa que Claymore frequentemente desperdiçava:

uma morte precisa significar alguma coisa.



🩺 3. TOSHIO OZAKI — O ANALISTA DE PRODUÇÃO

Aqui encontramos um dos grandes diferenciais de Shiki.

Ozaki não vê uma vítima pálida e anuncia:

“Vampiro!”

Ele trabalha como médico.

Sintoma.

Exame.

Hipótese.

Histórico.

Nova ocorrência.

Comparação.

Dados.

A própria sinopse oficial estabelece que Ozaki percebe algo estranho nas primeiras mortes. No episódio 3, a descrição oficial já mostra exames sanguíneos anormais em uma paciente.

É troubleshooting.

Para quem trabalha com mainframe:

INCIDENTE
   |
   +--> verificar logs
   |
   +--> estabelecer baseline
   |
   +--> procurar recorrência
   |
   +--> correlacionar eventos
   |
   +--> eliminar causas prováveis
   |
   +--> testar hipótese

Ozaki é praticamente o sujeito olhando o SDSF enquanto toda Sotoba começa a dar ABEND.

E isso faz enorme diferença.

Os personagens de Shiki percebem as anomalias.

O médico percebe.

A prefeitura percebe.

O templo percebe.

Isso evita aquela velha burrice do terror:

“Morreram 47 pessoas completamente sem sangue.”

“Deve ser gripe.”


⛪ 4. SEISHIN MUROI — O SACERDOTE QUE ESCREVE SOBRE A MORTE

Seishin é sacerdote, mas também escritor.

E essa combinação não existe apenas para dar personalidade ao personagem.

Religião, morte e literatura formam três maneiras diferentes de perguntar a mesma coisa:

o que significa estar vivo?

E então surge uma conexão estranhíssima entre seus escritos e os novos moradores.

Isso introduz uma pergunta muito mais interessante do que:

“O que chegou a Sotoba?”

A pergunta passa a ser:

“Por que alguém escolheria justamente Sotoba?”

Seishin também possui seus próprios conflitos internos. Portanto, ele não funciona simplesmente como o NPC responsável pelos funerais.

Ele representa outro eixo da investigação.

Ozaki olha a morte biologicamente.

Seishin olha a morte espiritualmente.

E Shiki vai colocando esses dois sistemas de interpretação lado a lado.


👧 5. SUNAKO KIRISHIKI — A MONSTRINHA JR.

Então aparece Sunako Kirishiki.

Pequena.

Pálida.

Estranha.

Moradora daquela mansão que parece ter sido projetada por um arquiteto que recebeu como requisito:

CLIENTE:
    Quero algo discreto.

ARQUITETO:
    Castelo do Drácula?

CLIENTE:
    Perfeito.

😂

Sunako é muito mais importante conceitualmente do que sua aparência inicialmente sugere.

Sem entrar nos acontecimentos futuros, ela ajuda Shiki a sair da pergunta simples:

“como derrotamos o monstro?”

para outra muito mais desconfortável:

“o que define um monstro?”

Essa pergunta acabará sendo fundamental para compreender a obra.


👦 6. NATSUNO YUUKI

Natsuno também quer deixar Sotoba.

Só que sua personalidade é muito diferente da de Megumi.

Ele observa.

Desconfia.

Tenta entender comportamentos que os adultos inicialmente conseguem racionalizar.

A descrição oficial apresenta Natsuno como um estudante levado pelos pais para Sotoba contra sua vontade, que pretende entrar na universidade para conseguir finalmente sair da aldeia.

Isso cria um paralelo interessante:

Megumi quer fugir.
Natsuno quer fugir.
Sotoba parece não gostar muito dessa ideia.

Nosso gênio da lâmpada continua trabalhando.


🦠 7. A EPIDEMIA COMO MODELO NARRATIVO

Um dos grandes truques de Shiki é utilizar a linguagem de uma epidemia para estruturar horror sobrenatural.

Temos:

  • casos iniciais;

  • sintomas;

  • clusters;

  • histórico;

  • possível doença anterior;

  • famílias atingidas;

  • registros administrativos;

  • mortes;

  • investigação médica;

  • disseminação geográfica;

  • percepção crescente da comunidade.

Portanto, o espectador não acompanha simplesmente uma caça.

Acompanha um outbreak.

Isso permite uma leitura quase epidemiológica:

CASO
  ↓
CONTATO?
  ↓
SINTOMAS
  ↓
MORTE
  ↓
NOVOS CASOS

Mas rapidamente percebemos que talvez exista outra arquitetura escondida atrás dessa.


🕸️ 8. O SISTEMA DISTRIBUÍDO DE SOTOBA

Foi uma das coisas mais divertidas que percebemos durante nossa maratona.

Um único “Drácula” seria insuficiente para explicar determinadas anomalias.

Existem sinais de múltiplos agentes.

Então nossa arquitetura deixa de ser:

DRÁCULA
   |
   +----> vítima

e começa a parecer:

                +--> agente A --> vítima
                |
possível núcleo +--> agente B --> vítima
                |
                +--> agente C --> vítima
                |
                +--> agente D --> vítima

Agora acrescente:

atividade noturna.

mudanças.

pessoas aparentemente deixando Sotoba.

uma empresa ligada a mudanças.

Temos potencialmente algo muito mais sofisticado do que um predador faminto.

Temos logística.

E isso cria uma hipótese maravilhosa — ainda apenas hipótese no ponto em que estamos:

as mudanças poderiam ajudar a esconder desaparecimentos ou mortes?

Porque existe enorme diferença social entre:

“Fulano desapareceu.”

e:

“Fulano mudou-se.”

Uma casa vazia e um caminhão fornecem uma explicação visual perfeitamente banal para uma ausência.

Se isso for deliberado, não estamos diante de um monstro.

Estamos diante de uma operação.


📊 9. A CONTABILIDADE QUE QUEBROU

Essa acabou virando nossa piada favorita.

Inicialmente:

1300 - mortos = população atual

Simples.

Depois descobrimos que nem todas as mortes que percebíamos correspondiam imediatamente aos registros oficiais.

Depois pessoas começaram a “ir embora”.

Depois surgiram suspeitas sobre as mudanças.

Depois...

os mortos começaram a aparecer novamente.

Nosso COBOL morreu:

01 WS-STATUS PIC X(08).

88 ALIVE VALUE 'ALIVE'.
88 DEAD  VALUE 'DEAD'.

IF DEAD
    MOVE 'ALIVE' TO WS-STATUS
END-IF.

O compilador deveria responder:

“NÃO VOU COMPILAR ESSA PORRA.”

😂

Agora precisamos de:

VIVOS CONFIRMADOS
MORTOS CONFIRMADOS
DESAPARECIDOS
MUDARAM-SE
SINTOMÁTICOS
STATUS DESCONHECIDO
MORTOS OPERACIONALMENTE ATIVOS

E justamente aí Shiki demonstra inteligência narrativa.

A métrica deixa de ser confiável.


👁️ 10. OS OLHOS

O anime utiliza olhos de maneira particularmente perturbadora.

Desde a imagem morta de Megumi até outras manifestações visuais, olhos funcionam como marcadores de identidade, vida, ausência e transformação.

É um excelente exemplo de narrativa visual.

Não precisamos receber uma caixa de texto dizendo:

“ATENÇÃO: ESTA PESSOA ESTÁ DIFERENTE.”

A imagem informa.

O character design exagerado também ajuda.

E aqui encontramos uma das grandes ironias de Shiki.

No começo você olha aqueles penteados e pensa:

“Que porra fizeram nesse cabelo?”

Depois percebe que as silhuetas extremamente diferentes tornam os personagens reconhecíveis instantaneamente.

Depois de Claymore e seu batalhão de loiras visualmente parecidas, isso chega a ser uma bênção. 😂


🪦 11. MORTE COMO ECONOMIA

Sotoba é cercada por elementos associados à morte.

Madeira.

Pinheiros.

Caixões.

Lápides.

Templo.

Sepultamento.

O cenário não é simplesmente um lugar onde pessoas começam a morrer.

A morte já fazia parte da identidade material da aldeia antes da crise.

Esse é um dos simbolismos mais interessantes da obra.

Sotoba vive ao lado da morte antes de perceber que talvez não compreenda absolutamente nada sobre ela.


🧠 12. AS GRANDES TEMÁTICAS

O que significa estar vivo?

A obra gradualmente complica a separação entre vida e morte.

Biologia não é necessariamente suficiente.

Movimento também não.

Consciência torna a questão ainda mais difícil.

Quem é o monstro?

Essa provavelmente é a pergunta central de Shiki.

O horror começa aparentemente oferecendo uma resposta fácil.

Depois começa a sabotá-la.

Sobrevivência justifica violência?

Quando dois grupos acreditam que precisam sobreviver, moralidade deixa de ser uma equação confortável.

Comunidade versus indivíduo

Sotoba funciona quase como personagem.

Famílias, vizinhos, hospital, prefeitura, templo e tradições criam uma rede social extremamente densa.

Uma morte não afeta apenas uma pessoa.

Ela percorre essa rede.

Isolamento

A estrada única, os morros e a floresta não são apenas decoração.

Eles transformam Sotoba em quase um laboratório fechado.


🌲 13. A FLORESTA

A floresta começa como geografia.

Depois ganha outra função:

ocultação.

Isso é excelente worldbuilding porque o mesmo elemento possui funções econômicas, visuais, psicológicas e narrativas.

As árvores ajudam a definir Sotoba.

Também reduzem visibilidade.

Criam fronteiras.

Escondem movimento.

A aldeia está cercada por aquilo que simultaneamente sustenta sua economia e limita sua capacidade de enxergar o que acontece ao redor.


📚 14. A OBRA ORIGINAL

Shiki nasceu como romance de Fuyumi Ono, publicado originalmente em 1998, inicialmente em dois volumes e posteriormente republicado em cinco volumes.

O anime oficial inclusive credita a edição de cinco volumes da Shincho Bunko como sua obra original.

Isso explica parte da densidade narrativa.

Existe espaço para famílias.

Histórias pessoais.

Estrutura social.

Pensamentos.

Religião.

Medicina.

Moralidade.

Não estamos diante de uma premissa criada originalmente para sustentar uma batalha semanal.

Existe uma arquitetura literária por baixo.


📖 15. O MANGÁ

O mangá é baseado na obra de Fuyumi Ono e desenhado por Ryu Fujisaki.

Foi serializado na Jump Square, da Shueisha, entre 2007 e 2011, chegando a 11 volumes. A própria Shueisha identifica Ono como autora original e Fujisaki como responsável pelo mangá.

Visualmente, essa adaptação é particularmente importante porque influencia fortemente a identidade estética pela qual muita gente conhece Shiki.

E explica nossos gloriosos:

CABELOS CHICLETE.

😂


📺 16. O ANIME

A adaptação foi produzida pela Daume, dirigida por Tetsurō Amino, com composição de série de Kenji Sugihara e música de Yasuharu Takanashi.

Foi exibida no prestigiado bloco Noitamina, da Fuji TV, cuja proposta declarada era justamente oferecer animação capaz de atingir também públicos que normalmente não assistiam anime.

A série começou em 8 de julho de 2010 e encerrou sua transmissão televisiva em 30 de dezembro de 2010.

São 22 episódios televisionados.

Não existe uma segunda temporada narrativa posterior.

Alguns serviços dividem comercialmente o conteúdo em “temporadas” ou partes — o Prime Video, por exemplo, já exibiu a ficha como duas temporadas — mas isso não significa que exista Shiki Season 2 como continuação produzida.


💿 17. OS DOIS EPISÓDIOS EXTRAS

Existem ainda dois episódios adicionais, tradicionalmente tratados como 20.5 e 21.5, lançados com o material doméstico, fazendo a experiência audiovisual completa ser frequentemente contabilizada como:

22 TV + 2 extras = 24 episódios.

Portanto:

NÃO TERMINE SHIKI SEM ELES.

Eles não constituem uma “segunda temporada”.

São complementos da história principal.


🎮 18. GAMES

Aqui Shiki é surpreendentemente pobre.

Não encontrei evidência confiável de uma adaptação própria relevante para videogame — nada comparável a um RPG, visual novel ou grande jogo oficial baseado na série.

A exploração comercial documentada concentrou-se muito mais em anime, mangá, Blu-ray/DVD, CDs, produtos e conteúdo móvel. O site oficial da Aniplex, por exemplo, documenta inclusive um serviço de personagens para celulares japoneses e a trilha sonora, mas não apresenta um game principal da franquia.

Portanto, diferentemente de várias franquias de anime:

Shiki não virou uma grande propriedade multimídia de games.


🎵 19. MÚSICA

A trilha é de Yasuharu Takanashi.

E temos um detalhe maravilhoso: a primeira abertura é “Kuchizuke”, do BUCK-TICK. A página musical oficial registra seu lançamento em setembro de 2010.

A música ajuda enormemente a produzir aquela sensação decadente, sensual e fúnebre.

Shiki não quer apenas assustar.

Quer deixar você desconfortável.


🩸 20. VIOLÊNCIA, CLASSIFICAÇÃO E CENSURA

Shiki definitivamente não é anime infantil.

Há cadáveres, decomposição, sangue, mordidas, morte, sofrimento psicológico e imagens perturbadoras. Em alguns territórios recebeu classificações altas; nos EUA aparece como TV-MA, enquanto Reino Unido, Austrália e outros mercados utilizaram classificações próprias para diferentes lançamentos.

Não encontrei evidência robusta de uma grande controvérsia histórica de censura que tenha definido a obra internacionalmente.

A violência, porém, é parte essencial da experiência.

E existe diferença entre gore gratuito e violência com função temática.

É justamente aí que nossa comparação com Claymore começa a ficar interessante.


⚔️ 21. POR QUE SHIKI ESTÁ FUNCIONANDO MELHOR QUE CLAYMORE?

Claymore possuía um universo excelente.

Organização.

47 regiões.

Yoma.

Despertados.

Rankings.

Abissais.

Guerreiras híbridas.

Mas frequentemente transformava worldbuilding em combustível para:

BATALHA
↓
INIMIGO MAIS FORTE
↓
NOVA BATALHA
↓
MAIS PODER
↓
CARNIFICINA

Shiki faz quase o contrário.

Ele constrói:

ALDEIA
 ↓
POPULAÇÃO
 ↓
FAMÍLIAS
 ↓
ECONOMIA
 ↓
HOSPITAL
 ↓
TEMPLO
 ↓
PREFEITURA
 ↓
MORTES
 ↓
ANOMALIA
 ↓
INVESTIGAÇÃO

Portanto, quando acontece algo estranho, você possui contexto suficiente para perguntar:

“Por quê?”

E melhor:

você consegue formular hipóteses.


🕵️ 22. SHIKI RECOMPENSA O ESPECTADOR PARANOICO

Esse talvez seja seu maior diferencial.

No primeiro episódio você guardou:

1300 habitantes.

Depois:

morros.

pinheiros.

caixões.

lápides.

Depois percebemos:

mortes demais.

Depois:

Mizobe.

Depois:

mordidas.

Depois:

olhos.

Depois:

mudanças noturnas.

Depois:

pessoas indo embora.

Depois:

empresa suspeita.

Depois:

mortos voltando.

Cada informação nova permite reinterpretar informações antigas.

Isso é excelente construção de mistério.


🧛 23. VAMPIROS? NÃO TÃO RÁPIDO

Obviamente Shiki pertence à tradição do horror vampírico. Até classificações internacionais e descrições da obra o colocam nessa família.

Mas chamar simplesmente de “anime de vampiro” reduz demais o que ele tenta fazer.

O vampirismo funciona como mecanismo para discutir:

alteridade;

predação;

medo coletivo;

sobrevivência;

moralidade;

desumanização;

comunidade;

morte.

O verdadeiro monstro talvez não seja simplesmente quem possui presas.

É justamente essa certeza que a narrativa pretende perturbar.


🏰 24. A MANSÃO COMO SÍMBOLO

A mansão Kirishiki é quase agressivamente deslocada de Sotoba.

Temos uma aldeia tradicional japonesa.

Floresta.

Templo.

Casas rurais.

E então:

CASTELO DO CONDE DRÁCULA ENTERPRISE EDITION.

😂

Arquitetonicamente, ela anuncia:

“Nós não pertencemos a este lugar.”

Mas talvez essa seja justamente a função.

O exterior torna visível aquilo que a comunidade ainda não compreende.


🚚 25. A EMPRESA DE MUDANÇAS — NOSSA HIPÓTESE BELLACOSA

Esta parte precisa permanecer marcada como hipótese de nossa maratona, não como fato confirmado.

Você percebeu atividades noturnas estranhas e formulou:

“Talvez as mudanças sejam limpeza de cadáveres.”

Excelente hipótese investigativa.

Porque resolveria um problema operacional fundamental.

Como uma aldeia com somente 1.300 habitantes poderia sofrer muitas perdas sem imediatamente produzir um número absurdo de cadáveres oficialmente conhecidos?

Uma possibilidade seria converter:

MORTE

em:

MUDOU-SE

socialmente.

Não sabemos ainda se é isso.

Mas o fato de conseguirmos construir uma hipótese coerente mostra a qualidade do mistério.


⚖️ 26. A MENSAGEM MAIS IMPORTANTE

Shiki parece perguntar:

Uma criatura que mata para sobreviver é necessariamente mais monstruosa do que um humano que mata porque decidiu que o outro não merece existir?

Não precisamos responder agora.

Aliás, seria um erro responder cedo demais.

A obra quer justamente destruir respostas confortáveis.

O horror começa com medo da morte.

Depois começa a tratar do medo do outro.

E eventualmente esses dois medos podem tornar-se indistinguíveis.


🌍 27. IMPACTO CULTURAL

Shiki não se tornou uma megafranquia comercial no nível de Demon Slayer, Attack on Titan ou Death Note.

Seu legado é diferente.

Permaneceu como obra cult entre fãs de horror psicológico e vampírico, ajudada pela identidade visual extremamente reconhecível, pela adaptação de uma autora importante do horror/mistério japonês e pela exibição no Noitamina.

A colaboração comercial na época incluiu inclusive evento relacionado à moda no Laforet Harajuku, além de produtos, CDs, material visual e lançamentos domésticos.

É menos “franquia infinita” e mais obra fechada que continua sendo redescoberta.


📚 28. O QUE EXISTE PARA CONSUMIR DEPOIS?

O mapa é simples:

Novel original → mangá → anime + dois extras.

Não há uma segunda temporada continuando a história.

Não há uma grande sequência cinematográfica.

Não existe uma importante linha de videogames.

Isso também significa algo positivo:

Shiki não precisa sobreviver eternamente como franquia.

Existe uma história.

Ela termina.

Depois você pode voltar às outras versões para encontrar diferenças, detalhes e profundidade adicional.


☕ 29. BELLACOSA MAINFRAME — O QUE SHIKI ESTÁ FAZENDO CONOSCO

Começamos assistindo a uma menina de cabelo rosa.

Você falou:

“Tem cara de vampiro.”

Megumi apareceu anêmica.

Depois morreu.

Garoto da quinta série:

1299.

Então descobrimos mais mortos.

Prefeitura entrou no circuito.

Templo começou a reclamar da quantidade de funerais.

Ozaki pediu estatísticas.

Mizobe entrou na investigação.

Apareceram mordidas.

Apareceram olhos estranhos.

Apareceu a Monstrinha Jr.

Descobrimos o escritor.

Descobrimos a ligação com os Kirishiki.

Apareceram múltiplos agentes.

Apareceram mudanças noturnas.

Pessoas aparentemente foram embora.

Cadáveres deixaram de ser uma fonte confiável de contabilidade.

E Cabelo Chiclete voltou.

Então nosso programa inicial:

COMPUTE POPULACAO = 1300 - MORTOS.

precisou ser substituído por:

EVALUATE TRUE
    WHEN VIVO
         CONTINUE
    WHEN MORTO
         PERFORM REGISTRAR-OBITO
    WHEN MUDOU
         PERFORM VERIFICAR-MUDANCA
    WHEN MORTO-E-ANDANDO
         DISPLAY 'QUE PORRA E ESSA?'
    WHEN OTHER
         PERFORM CHAMAR-OZAKI
END-EVALUATE.

😂

E essa talvez seja a melhor descrição de Shiki.

Não é uma história em que você simplesmente espera descobrir quem é o monstro.

É uma história em que cada resposta quebra alguma variável que você acreditava compreender.

🪦 CONCLUSÃO

Shiki pega uma premissa antiquíssima — vampiros ameaçando uma comunidade isolada — e transforma aquilo num estudo sobre epidemia, sociedade, religião, medicina, morte, sobrevivência e moralidade.

Sua inteligência está menos em esconder a existência do sobrenatural e mais em perguntar:

o que acontece com uma sociedade quando suas regras fundamentais deixam de funcionar?

Ozaki representa investigação.

Seishin representa reflexão moral e espiritual.

Natsuno representa observação e resistência.

Megumi representa desejo e frustração.

Sunako introduz uma perspectiva que torna a divisão entre “nós” e “eles” progressivamente menos confortável.

E Sotoba?

Sotoba é praticamente o personagem principal.

Uma aldeia de aproximadamente 1.300 habitantes que começa parecendo um sistema fechado perfeitamente compreensível.

Até os logs começarem a discordar.

Até os números pararem de fechar.

Até pessoas desaparecerem.

Até mortos não permanecerem mortos.

E então o velho programador COBOL olha para o console, toma um gole de café e pronuncia as palavras universais de qualquer incidente realmente sério:

“Tem alguma coisa muito errada nessa porra.”

☕🧛‍♂️🪦

BELLACOSA MAINFRAME — onde até vampiro precisa passar pela auditoria do garoto da quinta série.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Gazeta Esportiva: John Belushi, COBOL e o Jornal que Transformava Segunda-feira em War Room

 

Bellacosa Mainframe e o jornal gazeta esportiva

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Gazeta Esportiva: John Belushi, COBOL e o Jornal que Transformava Segunda-feira em War Room

⚽ Futebol, rádio, bancas, tabelas, resultados, São Silvestre, Corinthians, Palmeiras, Santos, São Paulo e a extraordinária época em que descobrir o placar de um jogo podia exigir comprar um jornal — enquanto John Belushi berrava que o juiz era ladrão

Se o Notícias Populares era a interface brasileira para descobrir quem havia matado quem, onde apareceu o lobisomem e se o Bebê-Diabo havia sido visto novamente no telhado de alguma residência paulistana...

existia outra máquina de papel rodando em produção.

Só que essa processava uma matéria-prima ainda mais perigosa.

FUTEBOL.

Seu nome:

A GAZETA ESPORTIVA

E antes que algum jovem desenvolvedor COBOL pergunte:

— Bellacosa, mas era apenas um jornal de esportes?

HAHAHAHAHAHAHAHA.

Meu caro...

Dizer que a Gazeta Esportiva era “um jornal de esportes” é como dizer que um IBM Z é “um computador grande”.

Tecnicamente correto.

Culturalmente criminoso.

Durante décadas, a Gazeta Esportiva foi banco de dados, arquivo histórico, placar, agenda, tabela de classificação, serviço estatístico, catálogo de jogadores, calendário esportivo e combustível para discussões capazes de destruir amizades antes mesmo da invenção das redes sociais.

Se Quentin Tarantino foi nosso guia para o Notícias Populares, aqui precisamos de alguém diferente.

Precisamos de um homem capaz de olhar para uma derrota por 1 a 0 e reagir como se o Império Romano tivesse acabado.

Precisamos de:

JOHN BELUSHI.

Camisa parcialmente aberta.

Gravata torta.

Café na mão.

Gazeta Esportiva debaixo do braço.

Ele invade a redação:

— QUEM ESCALOU ESSE TIME?!

Bem-vindo.

O batch de domingo acabou.

Segunda-feira começou.

E o SYSOUT tem 64 páginas.


CAPÍTULO I — ANTES DO GOOGLE EXISTIA PAPEL

Precisamos novamente transportar o jovem programador para uma época estranha.

Uma época em que você não podia perguntar:

“Quem ganhou o jogo ontem?”

para um retângulo luminoso no bolso.

Não havia Google.

Não havia OneFootball.

Não havia SofaScore.

Não havia ESPN no celular.

Não havia notificações push.

Não havia grupo do WhatsApp.

Não havia X.

Não havia geolocalização do jogador.

Não havia mapa de calor.

Não havia xG.

Não havia VAR.

Aliás...

talvez devêssemos ter parado no “não havia VAR” e apreciado alguns segundos de silêncio.

Você queria informação esportiva?

Havia rádio.

Televisão.

E havia:

JORNAL.

Na manhã seguinte, o torcedor caminhava até a banca.

E lá estava ela.

A Gazeta Esportiva.

O equivalente esportivo de executar:

DISPLAY MATCH-RESULTS
DISPLAY LEAGUE-TABLE
DISPLAY PLAYER-RATINGS
DISPLAY NEXT-ROUND
DISPLAY COMPLETE-DISASTER

Só que impresso.


CAPÍTULO II — TUDO COMEÇOU COM UM QUARTO DE PÁGINA

A origem da Gazeta Esportiva é quase uma aula de escalabilidade.

Em 1918, já sob a administração de Cásper Líbero, o jornal A Gazeta criou uma pequena seção dedicada aos esportes.

Tamanho?

Aproximadamente:

UM QUARTO DE PÁGINA.

Isso mesmo.

O monstro começou como feature pequena.

A popularidade cresceu.

E em 24 de dezembro de 1928, aquela seção evoluiu para um suplemento esportivo, então chamado A Gazeta — Edição Esportiva.

O COBOLzeiro reconhece imediatamente.

V1.0
COLUNA ESPORTIVA

V2.0
SUPLEMENTO

V3.0
JORNAL INDEPENDENTE

V4.0
PORTAL WEB

Nunca subestime aquele programinha de 400 linhas que alguém chama de:

“solução temporária”.


CAPÍTULO III — CÁSPER LÍBERO, O ARQUITETO

Para compreender a Gazeta Esportiva precisamos conhecer Cásper Líbero.

Ele adquiriu A Gazeta em 1918 e iniciou uma série de transformações editoriais. Esporte tornou-se uma das áreas nas quais investiu intensamente.

Mas sua importância vai muito além de simplesmente publicar resultados.

Cásper percebeu algo fundamental:

ESPORTE É CONTEÚDO E EVENTO.

Essa combinação é poderosíssima.

Você não apenas cobre uma competição.

Você pode ajudar a criá-la.

A marca Gazeta ficou ligada a eventos esportivos que atravessariam gerações.

O caso mais extraordinário?

CORRIDA INTERNACIONAL DE SÃO SILVESTRE.

Criada em 1925.

Também surgiu a tradicional Prova Ciclística Nove de Julho, criada em 1933.

Isso significa que o ecossistema não era:

EVENTO
  |
  v
JORNAL COBRE

Era muito mais interessante:

JORNAL
  |
  +----> PROMOVE EVENTO
  |
  +----> COBRE EVENTO
  |
  +----> CRIA AUDIÊNCIA
  |
  +----> FORTALECE MARCA
  |
  +----> AUMENTA INTERESSE

Hoje chamaríamos isso de:

ecossistema de conteúdo.

Em 1925 chamavam de:

trabalhar.


CAPÍTULO IV — A TRAGÉDIA DE CÁSPER

Cásper Líbero não chegou a ver a Gazeta Esportiva transformar-se no grande diário independente que se tornaria.

Ele morreu em 27 de agosto de 1943, em um acidente aéreo na Baía de Guanabara.

Mas deixou algo extraordinário.

Um testamento determinando a criação de uma fundação.

Como não teve filhos, seu patrimônio foi destinado à instituição que preservaria seu projeto de comunicação.

Nasceu a:

FUNDAÇÃO CÁSPER LÍBERO.

Instituída em 1944, ela permanece responsável por um ecossistema que inclui Gazeta Esportiva, TV Gazeta, Rádio Gazeta, Faculdade Cásper Líbero e outras atividades.

Isso diferencia profundamente a história empresarial da Gazeta.

Não estamos falando simplesmente de:

PROPRIETÁRIO
   |
HERDEIROS
   |
VENDA

Existe uma estrutura institucional criada a partir da vontade testamentária de seu fundador.

É quase um:

PERFORM LEGADO
    UNTIL FOREVER
END-PERFORM.

CAPÍTULO V — 10 DE OUTUBRO DE 1947: GO LIVE

Chegamos ao grande deployment.

10 de outubro de 1947.

A Gazeta Esportiva deixa definitivamente sua condição de suplemento e torna-se um jornal diário independente dedicado ao esporte.

O projeto havia sido pensado antes.

A Copa de 1938 parecia uma oportunidade.

Depois veio a Segunda Guerra Mundial.

Houve nova tentativa em 1943.

Então Cásper morreu.

Finalmente:

1947.

GO LIVE.

A primeira edição diária apresentava o jornal como moderno, dinâmico e comprometido com independência e ética jornalística.

E nasceu uma expressão que se tornaria praticamente identidade:

“O MAIS COMPLETO.”

Isso era marketing.

Mas havia uma ambição real por trás.

Não se pretendia falar apenas de futebol.

A proposta era cobrir:

futebol,

atletismo,

basquete,

automobilismo,

ciclismo,

boxe,

natação,

tênis

e muitas outras modalidades.

Era uma espécie de:

SPORTS.*

CAPÍTULO VI — MAS VAMOS PARAR DE FINGIR: FUTEBOL ERA O MONSTRO

Sim.

Havia outras modalidades.

Mas estamos no Brasil.

Portanto chega John Belushi chutando a porta:

— E O CORINTHIANS?!

HAHAHAHAHAHA.

Futebol era inevitavelmente o grande motor de atenção.

Corinthians.

Palmeiras.

São Paulo.

Santos.

Portuguesa.

Clubes do interior.

Seleção Brasileira.

Campeonatos estaduais.

Nacionais.

Mundiais.

Transferências.

Escalações.

Crises.

Cartolas.

Técnicos.

Juízes.

E aquela instituição brasileira que existe desde antes de a humanidade dominar o fogo:

A CORNETA.


CAPÍTULO VII — A BANCA ERA O SOFASCORE

Voltemos à banca.

Segunda-feira de manhã.

São Paulo.

Um trabalhador chega.

Vê a Gazeta.

A manchete anuncia a rodada.

Ele não precisa comprar imediatamente.

Olha.

Outro sujeito para.

Mais um.

— Você viu o jogo?

— Vi.

— Aquilo não foi pênalti.

Pronto.

THREAD CRIADA.

Outro responde:

— Foi pênalti sim.

ENGAGEMENT +100%.

Chega um palmeirense.

CONFLITO DETECTADO.

Chega um corintiano.

CPU 97%.

Chega um santista lembrando do Pelé.

HISTORICAL QUERY STARTED.

Chega o dono da banca:

— Vocês vão comprar o jornal ou vão ficar discutindo aí?

A rede social brasileira já funcionava perfeitamente.

Sem Internet.


CAPÍTULO VIII — A SEGUNDA-FEIRA ERA O WAR ROOM

O domingo terminava.

Mas o futebol não.

Na segunda-feira começava:

A AUTÓPSIA.

Quem jogou bem?

Quem jogou mal?

O juiz errou?

O técnico enlouqueceu?

O atacante perdeu gol?

Quem foi expulso?

Como ficou a classificação?

Quem joga na próxima rodada?

Era praticamente uma reunião pós-incidente.

INCIDENT:
DERROTA POR 3 X 0

SEVERITY:
SEV-1

ROOT CAUSE:
EM INVESTIGAÇÃO

POSSIBLE CAUSES:
- técnico
- goleiro
- zagueiro
- gramado
- juiz
- diretoria
- Mercúrio retrógrado

John Belushi sobe na mesa:

— NÃO FOI DERROTA!

Todos olham.

— FOI SABOTAGEM!


CAPÍTULO IX — A GAZETA ERA BANCO DE DADOS

Aqui entra o COBOL.

Para gerações inteiras, jornal esportivo era também:

DATASET.

Resultados.

Classificações.

Artilharia.

Escalações.

Calendários.

Estatísticas.

Histórico.

Você queria saber como estava o campeonato?

Não executava API.

Consultava tabela.

01 CAMPEONATO.
   05 TIME.
   05 PONTOS.
   05 JOGOS.
   05 VITORIAS.
   05 EMPATES.
   05 DERROTAS.
   05 GOLS-PRO.
   05 GOLS-CONTRA.

A tabela classificatória era praticamente um arquivo sequencial que todo brasileiro sabia interpretar.

Curiosamente, milhões de pessoas que jamais ouviram falar em banco relacional entendiam perfeitamente:

ordenação, agregação, chave, ranking e atualização incremental.


CAPÍTULO X — 1958: BRASIL CAMPEÃO

Então acontece 1958.

Brasil campeão mundial.

Pelé.

Garrincha.

Didi.

Nilton Santos.

Bellini.

Suécia.

O futebol brasileiro explode simbolicamente.

Segundo registros históricos, a Gazeta alcançou cerca de 400 mil exemplares nas grandes tiragens associadas à Copa de 1958.

Imagine imprimir centenas de milhares de jornais.

Não é pageview.

Não é request HTTP.

Cada cópia exige:

papel,

tinta,

máquina,

energia,

operários,

caminhão,

distribuição,

banca.

É infraestrutura física.


CAPÍTULO XI — 1970: O MAINFRAME ENTRA EM OVERLOAD

E então chegamos ao México.

Pelé.

Jairzinho.

Tostão.

Rivelino.

Carlos Alberto Torres.

Brasil tricampeão.

A Seleção que virou mitologia.

Em 23 de junho de 1970, a Gazeta Esportiva registrou seu recorde histórico:

534.530 EXEMPLARES.

Em um único dia.

MEIO MILHÃO.

John Belushi olha para a rotativa.

— MAIS PAPEL!

— Não cabe!

— MAIS TINTA!

— Estamos no limite!

— ENTÃO OVERCLOCKA A ROTATIVA!

Isso é escala.


CAPÍTULO XII — A COR DO JORNAL ERA A PAIXÃO

A experiência do jornal esportivo não era apenas informacional.

Era ritual.

Comprar.

Dobrar.

Carregar debaixo do braço.

Ler no ônibus.

Ler no bar.

Ler no trabalho escondido.

Deixar sobre a mesa.

Recortar.

Guardar.

Um resultado esportivo deixava de ser efêmero porque adquiria suporte físico.

A vitória do seu time existia em papel.

A derrota também.

Infelizmente.

E aquela página podia sobreviver décadas.


CAPÍTULO XIII — “ME DÁ A GAZETA”

Essa frase fazia sentido por si só.

O jornaleiro sabia.

A marca havia conquistado aquilo que toda empresa deseja:

atalho mental.

Gazeta = esporte.

Assim como determinados produtos tornam-se quase sinônimos de categoria, a Gazeta ocupava um lugar particular no imaginário esportivo paulista.

E isso era especialmente poderoso numa cidade onde futebol não era passatempo.

Era:

IDENTITY MANAGEMENT SYSTEM.

CAPÍTULO XIV — E O INTERIOR?

Aqui há outro ponto importante.

A Gazeta não se limitava ao eixo dos quatro grandes clubes paulistas.

A imprensa esportiva impressa possuía espaço para acompanhar campeonatos, clubes e modalidades que hoje podem desaparecer rapidamente da homepage porque não geram cliques suficientes.

Guarani.

Ponte Preta.

XV de Piracicaba.

Ferroviária.

Botafogo de Ribeirão Preto.

Comercial.

Noroeste.

Portuguesa Santista.

São Bento.

Juventus.

América.

E tantos outros.

O papel tinha limite físico.

Mas o jornal esportivo precisava construir uma visão relativamente ampla do ecossistema.

Isso ajudou a preservar uma quantidade monumental de memória esportiva.


CAPÍTULO XV — E A SÃO SILVESTRE?

Aqui o legado sai da página e invade a rua.

A Corrida Internacional de São Silvestre permanece uma das marcas esportivas mais reconhecíveis associadas ao legado de Cásper Líbero.

Criada em 1925, atravessou décadas e continua sendo realizada.

Pense nisso.

Um veículo de comunicação ajudou a criar um evento.

O evento virou tradição.

A tradição sobreviveu ao jornal impresso.

Isso é branding com RETENTION PERIOD = CENTURY.


CAPÍTULO XVI — O TROFÉU INVISÍVEL DA MEMÓRIA

A Gazeta também esteve ligada à criação e distribuição de premiações esportivas, entre elas a tradicional Taça dos Invictos, associada a equipes que mantinham longas sequências sem derrota.

Isso revela outra função da imprensa esportiva:

ela não apenas relata o esporte.

Ela ajuda a construir:

mitologia.

Recordes precisam ser lembrados.

Sequências precisam ser comparadas.

Heróis precisam de narrativas.

Rivalidades precisam de arquivo.

O jornal funciona como memória externa do torcedor.


CAPÍTULO XVII — O TORCEDOR ERA O ALGORITMO DE RECOMENDAÇÃO

Hoje:

IF USER = CORINTHIANS
   RECOMMEND CORINTHIANS-CONTENT
END-IF

Na banca?

O torcedor olhava a primeira página.

Se o clube estivesse em destaque:

CLICK = BUY

Se o rival tivesse perdido vergonhosamente:

CLICK = BUY
SHARE = BUY-AND-SHOW-FRIENDS

HAHAHAHA.

Esse segundo caso provavelmente possuía CTR extraordinário.


CAPÍTULO XVIII — O HUMOR DO FUTEBOL

Aqui John Belushi assume definitivamente a redação.

Porque futebol brasileiro nunca foi apenas análise.

É absurdo.

Um sujeito passa a semana inteira dizendo:

— Futebol é só entretenimento.

Domingo, 17h43:

— EU NÃO ACREDITO NESSE DESGRAÇADO!

Cinco minutos depois:

— Nunca mais assisto futebol.

Quarta-feira:

— Que horas é o jogo?

Essa é uma máquina de estados fantástica:

STATE 01 = ESPERANÇA
STATE 02 = ANSIEDADE
STATE 03 = EUFORIA
STATE 04 = ÓDIO
STATE 05 = DEPRESSÃO
STATE 06 = NUNCA-MAIS
STATE 07 = PRÓXIMA-RODADA

GO TO STATE-01.

Loop infinito.


CAPÍTULO XIX — RÁDIO, TV, JORNAL: UM ECOSSISTEMA

Outra diferença fundamental da Gazeta está no ecossistema construído pela Fundação.

Jornal.

Rádio.

Televisão.

Faculdade.

Agência.

Eventos.

Hoje falaríamos em:

OMNICHANNEL.

A Fundação Cásper Líbero mantém até hoje esse complexo de comunicação no edifício da Avenida Paulista, incluindo TV Gazeta, Rádio Gazeta, Faculdade Cásper Líbero e Gazeta Esportiva digital.

A Gazeta não era apenas uma publicação isolada.

Era parte de uma arquitetura.


CAPÍTULO XX — ENTÃO CHEGA A INTERNET

E novamente nosso velho conhecido aparece.

TCP/IP.

Em 1997, segundo a própria Fundação, a Gazeta Esportiva começou sua entrada na Internet, inicialmente reproduzindo conteúdo do impresso. Outra retrospectiva oficial situa o lançamento do portal independente em 1998. As duas datas refletem etapas diferentes da migração digital.

Isso é interessante porque mostra a transição acontecendo em tempo real.

Primeiro:

PAPER → HTML

Depois:

DIGITAL-FIRST

E finalmente:

REAL-TIME

CAPÍTULO XXI — O INIMIGO DO JORNAL ESPORTIVO CHAMAVA-SE LATÊNCIA

Pense no problema.

Um jogo termina às 22h.

O jornal precisa:

fechar texto,

editar,

diagramar,

imprimir,

distribuir.

A Internet diz:

— Gol.

Agora.

Cartão vermelho.

Agora.

Fim do jogo.

Agora.

Classificação atualizada.

Agora.

Para informação esportiva, a diferença entre:

amanhã

e

agora

é brutal.

O produto possuía um problema arquitetural que nenhuma manchete conseguiria eliminar:

LATENCY = HOURS

contra:

LATENCY = SECONDS

CAPÍTULO XXII — 2001: ABEND

No início do século XXI, a situação financeira do jornal havia se tornado crítica.

Em outubro de 2001, a Fundação anunciou a decisão de encerrar a edição impressa e transferir seu conteúdo para a Internet. A Folha registrou naquele momento uma tiragem média inferior a 14 mil exemplares.

Compare.

1970:

534.530

2001:

menos de 14.000 em média

Isso não é queda.

Isso é:

IEC030I B37

O dataset ficou sem espaço para continuar fingindo que estava tudo bem.


CAPÍTULO XXIII — A ÚLTIMA CAPA

Em 19 de novembro de 2001, circulou a edição número:

27.162

A última edição impressa diária.

A manchete?

“O Futuro é Hoje!”

Poucas manchetes poderiam ser mais apropriadas.

No dia seguinte, a operação esportiva passava definitivamente para o ambiente digital.

O jornal morreu?

O suporte morreu.

A marca continuou.

E isso é muito diferente.


CAPÍTULO XXIV — MODERNIZAÇÃO SEM REWRITE

Agora o programador COBOL começa a sorrir.

Porque reconheceu tudo.

BUSINESS LOGIC:
COBRIR ESPORTES

OLD INTERFACE:
PAPEL

NEW INTERFACE:
WEB

Não foi necessário executar:

DELETE FROM BRAND;

Executou-se:

ALTER ACCESS METHOD.

Essa é uma aula maravilhosa de modernização.

A função continua.

A tecnologia muda.


CAPÍTULO XXV — O QUE MORREU?

Morreu o ritual diário específico.

O jornal debaixo do braço.

A banca como endpoint.

A tabela impressa.

O resultado congelado no papel.

A fotografia que você recortava.

A edição guardada porque seu clube foi campeão.

O sujeito lendo por cima do seu ombro no ônibus.

O jornal aberto sobre a mesa do boteco.

E talvez uma das experiências mais deliciosamente analógicas:

virar a página procurando seu time.


CAPÍTULO XXVI — O QUE NÃO MUDOU ABSOLUTAMENTE NADA?

Agora prepare-se.

1958:

— O juiz roubou.

2026:

— O juiz roubou.

1970:

— O técnico escalou errado.

2026:

— O técnico escalou errado.

1985:

— Esse presidente está destruindo o clube.

2026:

— Esse presidente está destruindo o clube.

1994:

— Esse jogador não vale tudo isso.

2026:

— Esse jogador não vale tudo isso.

O suporte tecnológico evoluiu.

O torcedor recebeu:

Internet,

smartphone,

streaming,

4K,

VAR,

GPS,

estatística avançada,

inteligência artificial,

tracking,

big data.

E usa tudo isso para concluir:

“O JUIZ É CEGO.”

Magnífico.


CAPÍTULO XXVII — A GAZETA ERA O REDDIT DO BOTECO

O jornal sozinho não era a comunidade.

Ele era o gatilho da comunidade.

A pessoa lia.

Comentava.

Discutia.

Levava ao trabalho.

Mostrava ao colega.

Discordava.

Guardava.

Recortava.

A informação saía do papel e entrava na conversa.

Hoje chamamos isso de:

engagement.

Na época chamava:

— Você viu a Gazeta?


CAPÍTULO XXVIII — JOHN BELUSHI DESCOBRE O VAR

Nosso guia finalmente chega ao futebol moderno.

Belushi observa uma sala com 37 monitores.

Linhas.

Replay.

Zoom.

Câmeras.

Computadores.

Comunicação eletrônica.

Ele pergunta:

— Tudo isso serve para decidir se foi pênalti?

— Sim.

— E funciona?

Silêncio.

Belushi pega uma Gazeta Esportiva de 1970.

— Na minha época bastava xingar o juiz!

O COBOLzeiro responde:

— Tecnicamente ainda basta.


CAPÍTULO XXIX — O ARQUIVO É UMA MÁQUINA DO TEMPO

Existe algo que frequentemente esquecemos quando falamos sobre jornais antigos.

Eles são bancos de memória.

Uma edição da Gazeta Esportiva não guarda apenas resultados.

Guarda:

ortografia,

publicidade,

preços,

nomes,

clubes desaparecidos,

estádios modificados,

patrocinadores,

uniformes,

jogadores esquecidos,

modalidades,

expectativas,

frustrações.

Você abre uma edição de 1958 e não está simplesmente lendo sobre futebol.

Está executando:

RESTORE BRASIL
FROM BACKUP
DATE '1958';

Isso é patrimônio histórico.


CAPÍTULO XXX — O GRANDE EASTER EGG: O ESPORTE SEMPRE FOI DATA-DRIVEN

Hoje adoramos falar:

data analytics no futebol.

Mas esporte sempre foi uma gigantesca fábrica de dados.

Gols.

Pontos.

Vitórias.

Derrotas.

Tempo.

Distância.

Recordes.

Classificação.

Artilharia.

Aproveitamento.

Média.

O jornal esportivo era uma camada de apresentação desse banco de dados.

Hoje temos dashboards.

Antes tínhamos tabelas.

Hoje temos APIs.

Antes tínhamos repórteres telefonando.

Hoje temos feeds em tempo real.

Antes tínhamos fechamento.

A arquitetura mudou.

O domínio continua assustadoramente parecido.


CAPÍTULO XXXI — NOTÍCIAS POPULARES X GAZETA ESPORTIVA

Agora coloque os dois jornais lado a lado numa banca imaginária.

À esquerda:

NOTÍCIAS POPULARES

NASCEU O DIABO!

À direita:

GAZETA ESPORTIVA

CORINTHIANS PERDE CLÁSSICO!

Um corintiano olha para ambos.

Compra o Notícias Populares.

Porque naquele momento:

o Bebê-Diabo parece uma notícia menos traumática.

HAHAHAHAHAHA.

Mas há uma conexão séria.

Os dois compreendiam a força da banca.

Da manchete.

Da identidade do público.

Da leitura compartilhada.

Da informação como ritual.

E principalmente:

da emoção.


CAPÍTULO XXXII — A BANCA COMO HOMEPAGE DA CIDADE

Imagine novamente São Paulo.

Década de 1970.

Ônibus.

Fumaça.

Buzinas.

Padaria.

Café.

Cigarro.

Banca.

Jornais pendurados.

Você passa.

Em alguns segundos recebe:

política,

economia,

crime,

esporte,

celebridade,

emprego,

classificados.

A banca era:

PORTAL.

Só que fisicamente instalado na calçada.

Cada jornal era um aplicativo.

Cada manchete era uma notificação.

Cada capa disputava atenção.

Cada comprador era conversão.

E a Gazeta tinha uma vantagem extraordinária:

o torcedor já chegava emocionalmente autenticado.


CAPÍTULO XXXIII — O LEGADO

O legado da Gazeta Esportiva é maior que seu período impresso.

Ele inclui a contribuição histórica para o jornalismo esportivo brasileiro, sua ligação com eventos como São Silvestre e Nove de Julho, o arquivo acumulado durante décadas e a continuidade da marca no ambiente digital.

Mas existe um legado menos tangível.

Ela pertence a uma época em que a relação com informação possuía:

peso.

Literalmente.

Você carregava informação.

Dobrava informação.

Emprestava informação.

Guardava informação.

Jogava informação fora.

A notícia tinha cheiro de tinta.


EPÍLOGO — BELUSHI, O COBOLZEIRO E A ÚLTIMA SEGUNDA-FEIRA

São Paulo.

Segunda-feira.

Sete horas da manhã.

Um bar perto de uma estação.

Café.

Pão na chapa.

Um homem entra carregando a Gazeta Esportiva.

Abre sobre o balcão.

Outro olha.

— Quanto foi?

— Dois a zero.

— Quem fez?

Ele aponta para a página.

Chega outro.

— Esse time não tem meio-campo.

Outro responde:

— Você não entende nada de futebol.

Pronto.

A rede entrou em produção.

Não existe Wi-Fi.

Não existe smartphone.

Não existe login.

Não existe perfil.

Não existe algoritmo.

Mas existe:

USER-A
USER-B
USER-C
CONTENT
ENGAGEMENT
COMMUNITY

John Belushi entra.

Olha o jornal.

Olha o placar.

Derruba o café.

— DOIS A ZERO?!

O bar inteiro olha.

Belushi sobe numa cadeira.

— Acabou! Este clube morreu! Nunca mais assisto futebol! Nunca mais compro jornal! Nunca mais discuto escalação!

Silêncio.

O balconista pergunta:

— Quarta tem jogo, não tem?

Belushi desce lentamente.

Pega a Gazeta.

Folheia.

— Oito e meia.

Senta.

Pede outro café.

E talvez essa seja a melhor definição possível da Gazeta Esportiva.

Ela não vendia apenas resultados.

Vendia o próximo capítulo.

A derrota de domingo não encerrava nada.

Produzia a segunda-feira.

A segunda-feira produzia discussão.

A discussão produzia expectativa.

A expectativa produzia quarta-feira.

Quarta produzia outro jogo.

Outro resultado.

Outra manchete.

Outra Gazeta.

       IDENTIFICATION DIVISION.
       PROGRAM-ID. TORCEDOR-BRASILEIRO.

       PROCEDURE DIVISION.

       JOGA.
           PERFORM ESPERAR-JOGO.
           PERFORM ASSISTIR-JOGO.
           PERFORM RECLAMAR-DO-JUIZ.
           PERFORM DISCUTIR-ESCALACAO.
           PERFORM LER-GAZETA.
           PERFORM PROMETER-NUNCA-MAIS.

           GO TO JOGA.

Um programador junior observa horrorizado:

— Bellacosa! Isso é um GO TO infinito!

Exatamente.

Está em produção há mais de cem anos.

Não mexa.

Ninguém sabe todas as dependências.

A Gazeta Esportiva impressa executou sua última edição em 2001.

Mas o programa continua.

A banca virou portal.

A tabela virou widget.

O rádio virou streaming.

A fotografia virou vídeo.

A coluna virou feed.

O fechamento virou atualização contínua.

O leitor virou usuário.

O assinante virou audiência.

A discussão do bar virou comentário.

O arquivo virou database.

O jornal virou URL.

Mas domingo à tarde, quando a bola bate na mão de alguém dentro da área...

todo o avanço tecnológico da humanidade é descartado.

Milhões de brasileiros executam simultaneamente:

IF PENALTI-CONTRA-MEU-TIME
    DISPLAY 'FOI SEM QUERER'
ELSE
    DISPLAY 'PENALTI CLARISSIMO'
END-IF.

Esse código jamais passou por revisão.

Jamais passará.

John Belushi pega o jornal.

O COBOLzeiro pega o café.

A rotativa começa a girar.

CLAC. CLAC. CLAC. CLAC.

534.530 exemplares.

Uma cidade acordando.

Uma banca abrindo.

Um torcedor procurando a manchete.

E um programa centenário chamado:

PAIXÃO PELO ESPORTE

continua executando.

RC=0000.

☕

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
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