Translate

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Animes : Muito Além dos Clássicos

 

Bellacosa Mainframe animes muito alem dos classicos

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Muito Além dos Clássicos

O Que Todo Padawan dos Animes Precisa Saber Sobre Obras Densas, Filosóficas e Inesquecíveis Que Permaneceram Fora do Grande Público

Introdução

Depois de assistir aos grandes clássicos — Monster, Death Note, Berserk, Vinland Saga, Attack on Titan e Code Geass — muitos fãs descobrem um fenômeno curioso: encontrar algo que realmente surpreenda torna-se cada vez mais difícil. Não porque essas obras não existam, mas porque a maioria delas jamais alcançou a mesma popularidade internacional.

Existe um verdadeiro "submundo" da animação japonesa composto por séries que desafiam convenções narrativas, exploram filosofia, psicologia, religião, política, guerra, identidade, trauma e natureza humana com uma profundidade raramente encontrada na televisão contemporânea. São produções que exigem atenção, paciência e disposição para refletir. Muitas terminam sem oferecer respostas definitivas; outras deixam o espectador desconfortável por dias.

Boa parte dessas obras nasceu em um período em que os estúdios ainda possuíam maior liberdade criativa, ou foi produzida para um público extremamente específico, sem a preocupação de agradar ao mercado global. Algumas venderam pouco quando lançadas, mas conquistaram status cult ao longo dos anos graças ao boca a boca entre fãs.

Outro aspecto interessante é que várias dessas histórias apresentam protagonistas que não podem ser classificados como heróis ou vilões. São indivíduos quebrados, contraditórios, egoístas, violentos ou emocionalmente destruídos, cuja jornada revela muito mais sobre a condição humana do que sobre vitória ou derrota.

Esta seleção não é para quem procura apenas entretenimento. É uma lista destinada aos espectadores que apreciam narrativas complexas, personagens moralmente ambíguos e obras capazes de provocar debates muito tempo depois do episódio final. Se os animes tradicionais já não conseguem surpreendê-lo, talvez esteja na hora de atravessar a próxima fronteira.


Obras Essenciais para Quem Já Viu "Tudo"

ObraTítulo OriginalAnoEpisódiosFonteFidelidade
Shinsekai Yori新世界より201225NovelExcelente
Ergo ProxyErgo Proxy200623OriginalOriginal
TexhnolyzeTEXHNOLYZE200322OriginalOriginal
Serial Experiments LainSerial Experiments Lain199813OriginalOriginal
Shiguruiシグルイ200712MangáMuito alta
RainbowRAINBOW 二舎六房の七人201026MangáExcelente
Houseki no Kuni宝石の国201712MangáMuito alta
Blade of the Immortal無限の住人-IMMORTAL-201924MangáMuito boa
Kaibaカイバ200812OriginalOriginal
Now and Then, Here and There今、そこにいる僕199913OriginalOriginal
Bokuranoぼくらの200724MangáBoa
Gilgameshギルガメッシュ200326MangáLivre
Paranoia Agent妄想代理人200413OriginalOriginal
Gankutsuou巌窟王200424RomanceExcelente
From the New World新世界より201225NovelExcelente

Destaques

Shinsekai Yori

Uma das maiores obras de ficção científica da animação japonesa. Questiona evolução, engenharia genética, ética e organização social em uma história que parece simples apenas nos primeiros episódios.

Nível de maturidade: ★★★★★


Shigurui

Talvez o anime de samurai mais brutal já produzido.

Não romantiza o bushidō. Mostra violência física, degradação psicológica, obsessão e honra levadas ao extremo.

Indicado apenas para adultos.


Ergo Proxy

Cyberpunk filosófico inspirado em Descartes, Jung, Lacan e existencialismo.

Cada episódio levanta mais perguntas do que respostas.

É um anime para assistir mais de uma vez.


Rainbow

Ambientado no Japão do pós-guerra.

Conta a história de jovens enviados para um reformatório onde sofrem violência, corrupção e abuso institucional.

Poucas obras tratam amizade e esperança de maneira tão poderosa.


Houseki no Kuni

À primeira vista parece um anime sobre pedras preciosas antropomórficas.

Na prática é uma profunda reflexão sobre identidade, mudança, memória e mortalidade.

Visualmente revolucionário.


Blade of the Immortal

Um samurai imortal descobre que viver para sempre pode ser uma maldição.

A adaptação de 2019 cobre praticamente toda a história criada por Hiroaki Samura.


Kaiba

O traço lembra um desenho infantil.

O conteúdo lembra Philip K. Dick.

Memórias podem ser copiadas, vendidas e roubadas.

Quem somos quando nossa memória deixa de ser nossa?


Now and Then, Here and There

Começa como um isekai.

Termina como um dos maiores manifestos antibelicistas da animação japonesa.

Sem fan service.

Sem alívio cômico.

Sem concessões.


Serial Experiments Lain

Muito antes das redes sociais existirem, já discutia identidade digital, inteligência coletiva e realidade virtual.

Hoje parece quase profético.


Paranoia Agent

Satoshi Kon utiliza um único mistério para discutir ansiedade coletiva, escapismo e alienação urbana.

Cada episódio desmonta a percepção do espectador.


Menções Honrosas (Mangás que Merecem Adaptação Completa)

Embora algumas dessas obras possuam adaptações parciais ou inexistentes, seus mangás são considerados verdadeiras obras-primas.

  • Innocent

  • Innocent Rouge

  • Homunculus

  • Oyasumi Punpun

  • 20th Century Boys

  • Billy Bat

  • Fire Punch

  • Freesia

  • Eden: It's an Endless World!

  • Kokou no Hito

  • The Climber

  • Real

  • MPD Psycho

  • Ichi the Killer

  • Ultra Heaven


Para Quem É Cada Obra

Se você gostou de...Experimente...
MonsterRainbow, Shinsekai Yori
Ghost in the ShellErgo Proxy, Kaiba
EvangelionSerial Experiments Lain, Texhnolyze
BerserkShigurui, Blade of the Immortal
Death NoteParanoia Agent
Vinland SagaRainbow
Made in AbyssShinsekai Yori
Psycho-PassErgo Proxy

Conclusão

Existe uma camada da animação japonesa que raramente aparece nas recomendações populares ou nas listas de streaming. São obras criadas para provocar, desafiar e, muitas vezes, incomodar. Elas não oferecem heróis perfeitos, finais reconfortantes ou respostas simples. Em vez disso, convidam o espectador a refletir sobre identidade, violência, memória, ética, livre-arbítrio e o preço das escolhas.

Esses títulos demonstram que o anime pode alcançar a mesma profundidade de grandes romances, filmes de autor e obras filosóficas. Alguns exigem mais atenção, outros recompensam revisitas, mas todos compartilham uma característica em comum: permanecem relevantes muito depois dos créditos finais.

Para quem acredita que "já viu de tudo", esta lista mostra que ainda existe um universo inteiro além dos sucessos mais conhecidos. São produções que não buscam agradar a todos — e talvez seja exatamente por isso que continuam sendo lembradas como algumas das experiências mais marcantes da animação japonesa.

domingo, 19 de abril de 2020

🎏 Expressões Japonesas Inusitadas — Parte II

 

Bellacosa Mainframe expressoes japonesas inusitadas parte II

🎏 Expressões Japonesas Inusitadas — Parte II

(Versão Bellacosa para otakus curiosos)

Se a Parte 1 mostrou o lado poético das expressões japonesas, esta aqui mostra o lado divertido, sarcástico e até dramático da linguagem cotidiana — o tipo de fala que os personagens usam quando estão bravos, com vergonha ou tentando parecer “cool”.

Prepare-se para rir e aprender com frases que só o Japão poderia criar! 🇯🇵✨


😳 1. 顔から火が出る (kao kara hi ga deru)

Tradução literal: “Sai fogo do meu rosto.”
Significado real: Estar morrendo de vergonha! 🔥😳
👉 É a versão japonesa de “que vergonha!” ou “queria sumir!”.
Você vai ouvir muito em comédias românticas ou cenas de constrangimento épico.

📘 Exemplo:

“Ele me viu caindo de cara no chão… kao kara hi ga deru!

📺 Anime vibe: Toradora! — Taiga que o diga!


🥺 2. 猫をかぶる (neko o kaburu)

Tradução literal: “Usar um gato na cabeça.”
Significado real: Fingir ser bonzinho ou inocente.
👉 É usada para descrever alguém que está escondendo seu verdadeiro temperamento atrás de uma fachada fofa.

📘 Exemplo:

“Aquela garota parece um anjo, mas tá só neko o kabutteiru…” 😼

📺 Anime vibe: Kaguya-sama: Love is War — manipulação com elegância!


😤 3. 頭にくる (atama ni kuru)

Tradução literal: “Vem na minha cabeça.”
Significado real: Ficar com muita raiva — como se a raiva subisse à cabeça!
👉 Expressão típica de personagens de temperamento explosivo (olá, Bakugo de My Hero Academia).

📘 Exemplo:

“Ele comeu meu bentô sem pedir… atama ni kuru! 💢”


🤔 4. 馬の耳に念仏 (uma no mimi ni nenbutsu)

Tradução literal: “Rezar no ouvido de um cavalo.”
Significado real: Falar com alguém que não entende ou não quer ouvir.
👉 É o equivalente japonês de “falar com as paredes.”

📘 Exemplo:

“Explicar isso pro meu irmão é como uma no mimi ni nenbutsu.” 🐴

📺 Anime vibe: Crayon Shin-chan — pura teimosia em ação.


😎 5. 鼻が高い (hana ga takai)

Tradução literal: “Ter o nariz alto.”
Significado real: Estar orgulhoso de algo (de forma positiva).
👉 É o oposto de “nariz empinado” no português! No Japão, ter “nariz alto” significa estar feliz e satisfeito com uma conquista.

📘 Exemplo:

“Meu filho passou no exame — hana ga takai!” 👃✨

📺 Anime vibe: Haikyuu!! — orgulho sincero do próprio time!


😅 6. 油を売る (abura o uru)

Tradução literal: “Vender óleo.”
Significado real: Enrolar, perder tempo, procrastinar.
👉 Vem da época dos vendedores ambulantes que, em vez de trabalhar, ficavam papeando.

📘 Exemplo:

“Pare de abura o uru e volta a estudar!” 📚

📺 Anime vibe: Naruto — a arte milenar de enrolar no treino!


😜 7. 舌が回らない (shita ga mawaranai)

Tradução literal: “Minha língua não gira.”
Significado real: Estar tão cansado, nervoso ou bêbado que não consegue falar direito.

📘 Exemplo:

“Depois de tanto ensaio, shita ga mawaranai!

📺 Anime vibe: Love Live! — quem nunca travou antes do palco? 🎤


🧊 8. 背筋が凍る (sesuji ga kooru)

Tradução literal: “Minha espinha congela.”
Significado real: Sentir um arrepio de medo — aquele frio na espinha.
👉 Expressão comum em histórias de terror ou suspense.

📘 Exemplo:

“Ouvi passos atrás de mim… sesuji ga kooru.” ❄️👻

📺 Anime vibe: Another e Yamishibai — arrepios garantidos.


🧠 9. 石の上にも三年 (ishi no ue ni mo sannen)

Tradução literal: “Mesmo sobre uma pedra, três anos.”
Significado real: A persistência vence tudo.
👉 Dizer que, com paciência e esforço, até o frio de uma pedra pode se tornar suportável.

📘 Exemplo:

“Continue estudando — ishi no ue ni mo sannen!

📺 Anime vibe: Naruto, One Piece e Attack on Titan — puro espírito de superação!


🍶 10. 喉から手が出るほど欲しい (nodo kara te ga deru hodo hoshii)

Tradução literal: “Quero tanto que até minha mão sai pela garganta.” 😳
Significado real: Desejar algo intensamente.
👉 Uma forma exagerada (e muito japonesa) de dizer “quero demais isso!”

📘 Exemplo:

“Aquela edição limitada de mangá… nodo kara te ga deru hodo hoshii!” 💸

📺 Anime vibe: Otaku no Video — desejos incontroláveis de colecionador.


💬 Curiosidade Bellacosa:

O humor nas expressões japonesas está no exagero das imagens — mãos saindo da garganta, fogo na cara, espinha congelando…
Tudo é visual e dramático, como um anime da vida real! 🇯🇵✨


🎯 Dica de aprendizado:

  • Crie um caderno de expressões idiomáticas com desenhos ou exemplos de animes.

  • Repita em voz alta, com emoção — o segredo está na entonação!

  • Use em conversas com amigos otakus: é divertido e ajuda a memorizar.


💮 Conclusão Bellacosa:
As expressões idiomáticas japonesas são o tempero que dá alma ao idioma.
Elas mostram como os japoneses enxergam o mundo — com poesia, humor e um toque teatral digno de anime.
Aprendê-las é entrar na mente de cada personagem e entender o que o idioma nunca diz diretamente.

sábado, 18 de abril de 2020

🎩 Série: “O Salário que Encolheu — A Crônica do Novo Feudalismo Corporativo”

 


🎩 Série: “O Salário que Encolheu — A Crônica do Novo Feudalismo Corporativo”

Por Bellacosa Mainframe | El Jefe Midnight Edition


🧾 Parte 1 – “Os Anos de Ouro: Quando o Cracha Valia Sonho”

📍 Tema: A era de ouro do emprego formal — anos 80 e 90.
🕰️ Contexto: Crescimento econômico, estabilidade no trabalho, o office-boy que virava gerente.
💼 Ponto central: O emprego era um pacto moral. Lealdade em troca de segurança.
🎮 Easter-egg: “No tempo em que o crachá tinha fita magnética e o salário tinha dignidade.”
🧠 Mensagem final: O trabalho ainda era humano. As empresas tinham alma, e o chefe conhecia o nome do funcionário.

Parte 1


🧨 Parte 2 – “O Século da Pressa: O Mercado Engoliu o Homem”

📍 Tema: Os anos 2000 e 2010 — a globalização, a era das metas, o culto à performance.
💻 Ponto central: A meritocracia vira um teatro. O RH se torna o novo clero do capitalismo.
⚙️ Easter-egg: “O PowerPoint substituiu a empatia. E o feedback, o abraço.”
💣 Crítica: Crescimento sem humanidade, lucros sem distribuição, burnout como troféu.
🧠 Mensagem final: A produtividade explodiu, mas o sentido do trabalho implodiu.

Parte 2


🪞 Parte 3 – “O Novo Feudo Digital: IA, Solidão e a Rebelião Silenciosa”

📍 Tema: O presente — inteligência artificial, automação, precarização e fuga do sistema.
🤖 Ponto central: A elite tecnológica lucra enquanto o restante se adapta ao “empreendedorismo de sobrevivência”.
💤 Easter-egg: “A Alexa te escuta mais que teu gerente.”
💔 Crítica: A empresa virou algoritmo. O funcionário virou dado.
💡 Mensagem final: A revolução não será televisionada — será deslogada.
A liberdade agora é poder dizer: “não preciso mais disso”.

Parte 3


#CrônicasDoTrabalho

sexta-feira, 17 de abril de 2020

CICS Capacity Planning — A Sociedade da Capacidade e a Jornada para o Crescimento Futuro

Bellacosa Mainframe e o cics capacity planning


☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

CICS Capacity Planning — A Sociedade da Capacidade e a Jornada para o Crescimento Futuro

Quando um Programador COBOL Padawan Descobre que o Verdadeiro Perigo Não é o Volume de Hoje, mas a Carga que Marcha no Horizonte

Em uma região distante do Reino do Mainframe, cercada por salas refrigeradas, consoles luminosos e arquivos SMF que registravam silenciosamente cada movimento do sistema, existia um ambiente CICS responsável por milhões de transações.

Durante o dia, clientes consultavam saldos, faziam pagamentos, transferiam dinheiro, atualizavam cadastros, contratavam produtos e utilizavam serviços que pareciam simples na tela de um aplicativo.

Por trás daquela aparente simplicidade, entretanto, havia uma fortaleza tecnológica.

Regiões CICS trabalhavam em conjunto. Programas COBOL executavam regras de negócio. O Db2 armazenava os dados. O VSAM mantinha arquivos essenciais. O MQ transportava mensagens. O WLM distribuía prioridades. O z/OS coordenava todos os recursos como um sábio administrador do reino.

Tudo funcionava tão bem que um jovem programador COBOL começou a acreditar que sempre seria assim.

Ele olhou para os monitores e perguntou ao velho sysprog:

— Mestre, o ambiente está estável. Os tempos de resposta estão bons. A CPU não está saturada. Por que continuamos analisando crescimento, produzindo relatórios e estudando dados antigos?

O sysprog tomou um gole de café e respondeu:

— Porque os sistemas raramente são derrotados pela carga que já conhecem. Eles são derrotados pela carga para a qual ninguém se preparou.

Essa é a essência do Capacity Planning, ou planejamento de capacidade.

Não se trata apenas de observar quanto CPU o CICS utiliza hoje.

Trata-se de compreender quanto trabalho poderá chegar amanhã, quais recursos serão necessários e como preparar a infraestrutura antes que o crescimento se transforme em crise.

Bem-vindo à jornada do CICS Capacity Planning.


1. A sombra que cresce além das montanhas

Em um ambiente de produção, tudo pode parecer tranquilo até que alguma mudança de negócio altere completamente o comportamento do sistema.

Uma campanha de marketing pode atrair milhões de novos acessos.

Um novo aplicativo móvel pode aumentar o número de consultas.

Uma promoção pode gerar picos inesperados.

Uma fusão entre empresas pode adicionar milhares de usuários.

Uma nova regulamentação pode obrigar todos os clientes a atualizar cadastros.

A chegada de pagamentos, benefícios, impostos, Black Friday, Natal, 13º salário ou vencimentos bancários pode concentrar enormes volumes em poucas horas.

O crescimento do negócio quase sempre chega primeiro como uma boa notícia.

— Teremos mais clientes!

— Lançaremos um novo produto!

— Nossa plataforma estará disponível em todo o país!

— A previsão é aumentar as vendas em 40%!

Para a diretoria, isso representa receita.

Para o CICS, isso representa transações.

E transações consomem recursos.

Mais transações podem significar:

  • mais CPU;

  • mais acessos ao Db2;

  • mais I/O;

  • mais mensagens MQ;

  • mais arquivos VSAM acessados;

  • mais tarefas simultâneas;

  • mais uso de memória;

  • mais conexões;

  • mais locks;

  • mais logs;

  • mais tráfego de rede;

  • mais pressão sobre regiões CICS.

O Capacity Planning transforma o crescimento comercial em necessidades técnicas mensuráveis.

Em linguagem simples:

A empresa diz quanto pretende crescer. A equipe técnica calcula se o ambiente sobreviverá ao crescimento.


2. O que é Capacity Planning?

Capacity Planning é o processo de analisar o comportamento atual e histórico de um ambiente, estimar seu crescimento futuro e determinar quais recursos serão necessários para manter desempenho, disponibilidade e estabilidade.

No caso do CICS, o planejamento procura responder perguntas como:

  • O número atual de regiões suportará o volume futuro?

  • A CPU disponível será suficiente?

  • O tempo de resposta permanecerá dentro do SLA?

  • O Db2 suportará o aumento de chamadas SQL?

  • Os arquivos VSAM continuarão atendendo o volume?

  • O WLM distribuirá corretamente as prioridades?

  • A rede suportará mais requisições?

  • O sistema continuará disponível durante os horários de pico?

  • Será necessário criar novas AORs?

  • Existe risco de atingir o MXT?

  • Alguma região poderá entrar em Short on Storage?

  • O throughput aumentará sem degradar a experiência do usuário?

Observe que Capacity Planning não é apenas prever consumo.

É prever consumo mantendo os objetivos de serviço.

Um sistema pode continuar funcionando e, ainda assim, estar tecnicamente fracassando.

Imagine que uma transação levava 300 milissegundos e, após o crescimento, passa a levar 8 segundos.

Ela ainda funciona.

Mas o cliente percebe lentidão.

O aplicativo parece travado.

O operador tenta novamente.

As requisições se acumulam.

O sistema passa a receber transações duplicadas.

O suporte começa a receber reclamações.

O problema deixa de ser apenas técnico e passa a afetar o negócio.

Por isso, capacidade não significa somente “aguentar o volume”.

Significa:

Agir dentro do tempo esperado, com estabilidade, eficiência e margem de segurança.


3. Reagir ou se preparar: duas formas de administrar o reino

Existem dois estilos básicos de gestão de capacidade.

O modelo reativo

No modelo reativo, a empresa espera o problema aparecer.

O sistema começa a ficar lento.

A CPU sobe.

O número de tarefas aumenta.

As filas crescem.

O Db2 registra contenções.

As transações começam a exceder o tempo esperado.

Então todos correm.

A equipe de aplicação culpa o banco de dados.

O Db2 culpa o CICS.

O CICS culpa a rede.

A rede culpa o fornecedor.

A infraestrutura pede mais CPU.

A gestão pergunta por que ninguém previu o problema.

Esse cenário é parecido com uma cidade que só começa a construir muralhas depois que o exército inimigo já apareceu no horizonte.

O modelo proativo

No modelo proativo, a organização acompanha tendências.

Ela conhece os picos sazonais.

Mantém histórico de consumo.

Conversa com as áreas de negócio.

Estima novos volumes.

Realiza testes de carga.

Identifica gargalos.

Ajusta aplicações.

Revisa o WLM.

Planeja novas regiões.

Reserva capacidade adicional.

Quando o crescimento chega, o sistema está preparado.

Para o cliente, nada de extraordinário aconteceu.

Ele simplesmente continuou usando o serviço.

Esse é um dos paradoxos da infraestrutura:

Quando o Capacity Planning funciona perfeitamente, ninguém percebe.

O sucesso é invisível.


4. A Sociedade da Capacidade

Nenhum profissional realiza Capacity Planning sozinho.

É necessário reunir uma verdadeira sociedade, formada por diferentes especialidades.

Podemos imaginar os participantes desta jornada como membros de uma grande expedição.

A área de negócios

Representa o futuro esperado.

Ela informa:

  • novos produtos;

  • campanhas;

  • expansão;

  • previsão de clientes;

  • aquisições;

  • mudanças regulatórias;

  • datas críticas.

Sem essas informações, a infraestrutura só consegue analisar o passado.

A equipe CICS

Conhece:

  • regiões;

  • topologia;

  • transações;

  • programas;

  • conexões;

  • filas;

  • armazenamento;

  • limites;

  • configuração;

  • comportamento operacional.

A equipe COBOL

Conhece a lógica da aplicação.

Ela pode identificar:

  • loops desnecessários;

  • chamadas repetidas;

  • acessos excessivos;

  • processamento redundante;

  • algoritmos ineficientes;

  • programas que consomem CPU em excesso.

A equipe Db2

Analisa:

  • instruções SQL;

  • planos de acesso;

  • índices;

  • locks;

  • buffer pools;

  • quantidade de getpages;

  • tabelas;

  • estatísticas;

  • concorrência.

A equipe de performance

Correlaciona:

  • SMF;

  • RMF;

  • CICS Performance Analyzer;

  • WLM;

  • relatórios de CPU;

  • tempos de resposta;

  • throughput;

  • espera;

  • tendências.

A equipe de infraestrutura

Planeja:

  • processadores;

  • memória;

  • discos;

  • rede;

  • licenciamento;

  • capacidade adicional;

  • contratos;

  • upgrades.

Capacity Planning é, portanto, uma disciplina técnica e organizacional.

O trabalho começa em reuniões de negócio e termina em decisões de arquitetura.


5. O mapa da jornada: o fluxo do Capacity Planning

O processo pode ser representado assim:

Crescimento do negócio
        ↓
Análise do volume de transações
        ↓
Coleta de dados SMF e performance
        ↓
Identificação de tendências
        ↓
Previsão de capacidade
        ↓
Planejamento de recursos
        ↓
Testes e validação
        ↓
Ajustes e implementação
        ↓
Monitoramento contínuo

Cada etapa é importante.

Pular uma delas pode produzir conclusões erradas.


6. Passo 1 — Conheça o negócio antes de olhar a CPU

O primeiro passo não é abrir o SDSF.

Também não é consultar um gráfico.

O primeiro passo é descobrir o que mudará no negócio.

Perguntas úteis:

  • Haverá lançamento de um novo produto?

  • Existe previsão de aumento de clientes?

  • Alguma campanha será realizada?

  • O serviço ganhará um novo canal?

  • Uma API será disponibilizada para parceiros?

  • Haverá migração de sistemas?

  • Alguma aplicação distribuída passará a utilizar o CICS?

  • O volume batch também aumentará?

  • Existem períodos sazonais conhecidos?

Imagine um banco que lança uma funcionalidade de pagamento instantâneo integrada a centenas de lojas.

Antes, cada cliente realizava duas ou três operações por dia.

Depois da integração, cada compra pode gerar várias chamadas:

  1. validação do cliente;

  2. consulta de saldo;

  3. autorização;

  4. gravação da transação;

  5. atualização de limite;

  6. geração de evento;

  7. envio de mensagem;

  8. auditoria.

Uma única ação visível ao usuário pode gerar diversas transações internas.

Por isso, crescimento de usuários e crescimento de transações não são necessariamente iguais.

Um aumento de 20% nos clientes pode provocar 60% a mais de trabalho.


7. Passo 2 — Analise o volume de transações

Depois de compreender a previsão de negócio, é necessário estudar o volume atual.

Os principais indicadores incluem:

  • transações por segundo;

  • transações por minuto;

  • transações por hora;

  • volume diário;

  • volume mensal;

  • volume anual;

  • maior pico;

  • duração do pico;

  • crescimento histórico;

  • distribuição por transação;

  • distribuição por região.

Um erro comum é utilizar apenas médias.

Suponha que um ambiente processe 86 milhões de transações por dia.

Dividindo esse valor por 86.400 segundos, teríamos aproximadamente mil transações por segundo.

Parece simples.

Mas o sistema não recebe carga uniforme.

Durante a madrugada, pode processar 100 transações por segundo.

Às 11h30, pode atingir 8 mil.

No horário de pagamento, pode chegar a 15 mil.

A média esconde o pico.

E sistemas normalmente quebram durante o pico, não durante a média.

Dica Bellacosa

Nunca pergunte apenas:

Qual é o volume diário?

Pergunte também:

Qual foi o maior volume em um intervalo de 1, 5, 15 e 60 minutos?

Isso revela a verdadeira pressão sobre o ambiente.


8. Passo 3 — Consulte os pergaminhos do SMF

O SMF, System Management Facility, é um dos grandes cronistas do z/OS.

Ele registra eventos e métricas produzidos por vários componentes.

Pode ser comparado a uma enorme biblioteca que documenta a história operacional do sistema.

Entre os registros mais conhecidos estão:

  • SMF 30, relacionado a jobs e address spaces;

  • SMF 70, relacionado ao uso de processadores;

  • SMF 72, relacionado ao WLM;

  • SMF 74, relacionado a dispositivos e armazenamento;

  • SMF 101, relacionado ao Db2;

  • SMF 110, relacionado ao CICS;

  • SMF 119, relacionado ao TCP/IP.

Para um iniciante, a quantidade de dados pode parecer assustadora.

Mas não é necessário começar entendendo todos os campos.

O importante é compreender o princípio:

O SMF permite transformar percepções em evidências.

Em vez de afirmar:

— Acho que a região está sobrecarregada.

É possível demonstrar:

  • aumento de transações;

  • maior CPU por transação;

  • aumento de espera;

  • crescimento do response time;

  • saturação de tarefas;

  • elevação de I/O;

  • concentração de workload;

  • degradação em horários específicos.

Essa diferença é fundamental.

Capacity Planning não pode ser baseado em “achismos”.


9. Passo 4 — Observe os recursos certos

O infográfico destaca CPU, memória, armazenamento e regiões CICS.

Esses são pilares importantes, mas o ambiente deve ser observado como um conjunto.

CPU

Devemos analisar:

  • CPU total;

  • CPU por região;

  • CPU por transação;

  • CPU de application programs;

  • CPU de system services;

  • uso de CP;

  • uso de zIIP;

  • picos;

  • crescimento;

  • consumo por intervalo.

Uma transação pode continuar rápida e, mesmo assim, passar a utilizar mais CPU.

Esse aumento talvez ainda não afete o usuário, mas reduz a margem disponível para o futuro.

Memória e storage do CICS

No CICS, memória não significa apenas RAM física.

Também precisamos considerar as áreas de storage da região, alocações dinâmicas e limites internos.

Indicadores e conceitos importantes incluem:

  • EDSA;

  • GCDSA;

  • GUDSA;

  • storage below the line;

  • storage above the line;

  • GETMAIN;

  • FREEMAIN;

  • storage violations;

  • fragmentation;

  • Short on Storage.

Uma região pode ter CPU disponível e, ainda assim, sofrer por falta de storage interno.

I/O e armazenamento

Devemos observar:

  • quantidade de I/O;

  • tempo de resposta dos volumes;

  • cache;

  • filas;

  • datasets;

  • logs;

  • VSAM;

  • journals;

  • archives;

  • Db2 logs;

  • storage groups.

Rede

Aplicações modernas podem acessar o CICS por:

  • TCP/IP;

  • HTTP;

  • HTTPS;

  • MQ;

  • APIs;

  • z/OS Connect;

  • CICS web services;

  • sockets;

  • gateways.

Se a rede estiver saturada, adicionar CPU ao CICS não resolverá o problema.

Regiões CICS

É necessário estudar:

  • TORs;

  • AORs;

  • FORs;

  • quantidade de tarefas;

  • MXT;

  • distribuição de transações;

  • affinities;

  • roteamento;

  • conexões;

  • availability;

  • restart;

  • balanceamento.

Uma única região enorme pode tornar-se um ponto de concentração e risco.

Em muitos ambientes, o crescimento exige distribuição horizontal por várias regiões.


10. O papel das AORs na expansão

Uma Application-Owning Region, ou AOR, é a região em que os programas aplicativos normalmente executam.

Quando o volume cresce, uma estratégia possível é adicionar novas AORs.

Imagine inicialmente:

TOR
 |
 +-- AOR1
 +-- AOR2

Com o aumento da demanda:

TOR
 |
 +-- AOR1
 +-- AOR2
 +-- AOR3
 +-- AOR4

Isso pode aumentar a capacidade e melhorar a disponibilidade.

Entretanto, adicionar regiões não resolve tudo automaticamente.

É preciso verificar:

  • se as transações podem ser roteadas;

  • se existem affinities;

  • se o programa depende de storage local;

  • se utiliza TSQ local;

  • se há recursos compartilhados;

  • se as conexões Db2 suportam o aumento;

  • se o WLM está configurado corretamente;

  • se o CPSM realiza o roteamento adequado.

Criar uma nova região sem revisar dependências pode apenas mover o problema.


11. O WLM como o regente dos exércitos

O Workload Manager, WLM, ajuda o z/OS a distribuir recursos conforme objetivos de serviço.

Em vez de tratar todos os trabalhos da mesma forma, o WLM reconhece que alguns workloads são mais importantes.

Uma transação de autorização de cartão pode ter prioridade diferente de um relatório interno.

Um serviço online pode exigir resposta em menos de um segundo.

Um processamento batch talvez possa esperar.

O WLM trabalha com conceitos como:

  • service classes;

  • importance;

  • goals;

  • response time;

  • velocity;

  • periods;

  • classification rules.

Em uma situação de contenção, ele ajuda o sistema a tomar decisões.

Mas o WLM não cria capacidade do nada.

Esse é um ponto importante.

Ele distribui melhor os recursos existentes.

Se não houver CPU suficiente, todos ainda poderão sofrer.

Podemos comparar o WLM a um comandante que organiza seus soldados.

Um bom comandante melhora a defesa.

Mas, se o exército for pequeno demais para enfrentar a batalha, organização sozinha não será suficiente.


12. Db2: o dragão escondido na montanha

Muitos problemas atribuídos ao CICS estão, na verdade, relacionados ao acesso a dados.

Uma transação CICS pode executar rapidamente até chegar a uma instrução SQL.

Se o plano de acesso estiver ruim, ela pode:

  • ler muitas páginas;

  • realizar tablespace scan;

  • aguardar locks;

  • consumir CPU;

  • aumentar I/O;

  • manter a tarefa ocupada;

  • elevar o response time.

Às vezes, uma simples revisão de índice ou atualização de estatísticas reduz drasticamente o consumo.

Por isso, antes de comprar capacidade, convém investigar:

  • RUNSTATS atualizados;

  • access paths;

  • EXPLAIN;

  • índices;

  • getpages;

  • lock waits;

  • deadlocks;

  • buffer pools;

  • packages;

  • binds;

  • cardinalidade;

  • seletividade.

Curiosidade

Uma instrução SQL aparentemente pequena pode consumir mais recursos do que milhares de linhas COBOL.

O tamanho visual do comando não representa seu custo.

SELECT *
FROM MOVIMENTO
WHERE CODIGO_CLIENTE = :WS-CLIENTE

Sem índice adequado, essa consulta pode atravessar uma enorme quantidade de dados.

Em Capacity Planning, o código também faz parte da infraestrutura.


13. Response time, throughput e wait time

Três conceitos precisam ser diferenciados.

Response time

É o tempo total percebido para concluir a transação.

Pode incluir:

  • CPU;

  • espera por Db2;

  • I/O;

  • locks;

  • filas;

  • rede;

  • dispatch;

  • chamada a outros serviços.

Throughput

É a quantidade de trabalho concluído em determinado período.

Exemplo:

5.000 transações por segundo

Um sistema pode ter bom response time com baixo throughput ou alto throughput com resposta ruim.

Os dois indicadores precisam ser analisados juntos.

Wait time

É o tempo em que a tarefa não está executando porque aguarda algum recurso.

Ela pode esperar por:

  • CPU;

  • I/O;

  • lock;

  • Db2;

  • MQ;

  • arquivo;

  • socket;

  • terminal;

  • storage;

  • enqueue;

  • serviço externo.

Um ambiente com CPU em 40% pode estar extremamente lento se as tarefas passarem grande parte do tempo esperando por outros recursos.

Por isso:

CPU baixa não significa necessariamente sistema saudável.


14. O exemplo do banco e a temporada festiva

Vamos aprofundar o exemplo.

Um banco prevê aumento de 40% nas transações durante o fim do ano.

Atualmente, o pico é de 10 mil transações por segundo.

A previsão simples seria:

10.000 × 1,40 = 14.000 TPS

Porém, a equipe decide adicionar margem de segurança.

Ela considera:

  • crescimento acima da previsão;

  • repetição de transações por usuários;

  • falhas em canais externos;

  • degradação em parceiros;

  • carga batch simultânea;

  • campanhas adicionais;

  • comportamento imprevisível.

A meta passa a ser suportar 17 mil TPS.

A equipe então realiza os seguintes passos.

1. Analisa o histórico

São consultados dados dos últimos anos.

Identificam-se:

  • dias críticos;

  • horários;

  • transações mais usadas;

  • consumo de CPU;

  • resposta;

  • filas;

  • falhas;

  • limites atingidos.

2. Localiza os maiores consumidores

Algumas transações podem representar grande parte da CPU.

A regra 80/20 aparece com frequência:

  • poucas transações consomem grande parcela dos recursos.

Otimizar essas transações pode produzir enorme ganho.

3. Revisa o Db2

A equipe encontra acessos com muitas getpages.

Atualiza estatísticas.

Cria índices.

Executa REBIND onde necessário.

Revê buffer pools.

4. Adiciona AOR

Uma nova AOR é configurada.

Programas, definições e conexões são validados.

O roteamento é testado.

5. Ajusta o WLM

As service classes são revisadas.

Workloads críticos recebem objetivos compatíveis com a prioridade do negócio.

6. Realiza teste de carga

O ambiente é submetido a volumes crescentes.

10.000 TPS
12.000 TPS
14.000 TPS
16.000 TPS
17.000 TPS

A equipe observa o ponto em que os tempos começam a degradar.

Esse ponto é conhecido como joelho da curva.

Antes dele, o sistema cresce de forma controlada.

Depois dele, pequenas elevações de carga podem provocar grande degradação.

7. Cria plano de contingência

Mesmo com planejamento, a equipe define ações emergenciais:

  • ativação de capacidade adicional;

  • criação de região;

  • bloqueio de funções não críticas;

  • priorização de serviços;

  • redução de batch;

  • acionamento de fornecedores;

  • rollback de mudanças.

Quando a temporada chega, o sistema suporta o crescimento.

O cliente apenas percebe que o serviço funciona.


15. O perigo da extrapolação simples

Suponha o seguinte histórico:

2023 — 100 milhões de transações
2024 — 110 milhões
2025 — 121 milhões
2026 — 133 milhões

Alguém poderia concluir que o crescimento é de aproximadamente 10% ao ano.

Mas e se, em 2027, a empresa lançar um aplicativo obrigatório para todos os clientes?

O crescimento histórico deixará de ser suficiente para prever o futuro.

Modelos estatísticos são úteis, mas precisam ser combinados com informações do negócio.

O futuro não é apenas uma continuação matemática do passado.

Ele também inclui eventos.

Por isso, um bom forecast mistura:

  • tendência histórica;

  • sazonalidade;

  • mudanças planejadas;

  • eventos externos;

  • novos canais;

  • comportamento do usuário;

  • margem de segurança.


16. Técnicas de previsão

Em ambientes mais maduros, podem ser utilizadas técnicas como:

  • médias móveis;

  • regressão linear;

  • séries temporais;

  • análise de tendência;

  • análise sazonal;

  • modelos ARIMA;

  • simulações;

  • machine learning;

  • cenários probabilísticos.

Para um iniciante, entretanto, o melhor ponto de partida é simples:

  1. obtenha o histórico;

  2. encontre os picos;

  3. calcule a tendência;

  4. identifique eventos futuros;

  5. crie cenários;

  6. adicione margem;

  7. teste.

Três cenários são bastante úteis:

Cenário conservador

Crescimento menor que o esperado.

Cenário provável

Crescimento alinhado à previsão oficial.

Cenário agressivo

Crescimento acima do esperado.

Por exemplo:

Conservador: +20%
Provável:    +40%
Agressivo:   +70%

O objetivo não é adivinhar o futuro com perfeição.

É evitar ser surpreendido.


17. Capacity Planning não significa comprar mais hardware

Esse é um dos maiores mitos.

Antes de aumentar capacidade física, várias ações podem melhorar o ambiente:

  • otimizar programas COBOL;

  • eliminar chamadas redundantes;

  • melhorar SQL;

  • atualizar índices;

  • tornar programas threadsafe;

  • reduzir switch para QR TCB;

  • ajustar buffers;

  • melhorar LSR pools;

  • rever logging;

  • corrigir affinities;

  • distribuir workload;

  • ajustar WLM;

  • reorganizar datasets;

  • reduzir I/O;

  • usar zIIP quando aplicável;

  • ajustar parâmetros CICS.

Comprar hardware sem corrigir ineficiências pode apenas tornar um sistema ruim mais caro.

Regra do Café

Primeiro descubra onde o recurso está sendo desperdiçado. Depois decida se realmente falta capacidade.


18. Margem de segurança: a reserva de Gondor

Nenhum ambiente crítico deve operar permanentemente no limite.

Se a CPU atinge 100% no pico normal, não existe espaço para:

  • crescimento inesperado;

  • falha de outro sistema;

  • redistribuição de workload;

  • reprocessamento;

  • problema em aplicação;

  • recuperação;

  • desastre;

  • carga excepcional.

A capacidade de reserva é chamada frequentemente de headroom.

O percentual ideal depende do ambiente, dos SLAs, da arquitetura e das políticas da empresa.

Não existe um número universal.

O importante é compreender que trabalhar sempre próximo da saturação reduz a resiliência.

É como defender uma fortaleza utilizando todos os soldados em uma única muralha.

Quando surge um segundo ataque, não há reserva.


19. Teste de carga: o ensaio antes da batalha

Forecast sem teste é apenas hipótese.

Um teste de carga procura reproduzir o comportamento esperado.

Ele deve considerar:

  • mistura realista de transações;

  • volume gradual;

  • picos;

  • duração;

  • dados semelhantes à produção;

  • chamadas Db2;

  • MQ;

  • rede;

  • serviços externos;

  • concorrência;

  • batch simultâneo.

Não basta executar uma transação simples milhares de vezes.

O ambiente real possui uma combinação de operações.

Exemplo:

40% consultas
25% pagamentos
15% transferências
10% atualizações
5% inclusão de dados
5% outras operações

A distribuição do teste precisa aproximar-se da realidade.

Também é importante testar durante tempo suficiente.

Um teste de cinco minutos pode não revelar:

  • vazamentos;

  • crescimento de filas;

  • esgotamento gradual;

  • acúmulo de logs;

  • contenções;

  • fragmentação;

  • problemas de storage.


20. Sinais de que a capacidade está chegando ao limite

Alguns sintomas merecem atenção:

  • crescimento contínuo do response time;

  • CPU por transação aumentando;

  • CPU total próxima do limite;

  • aumento de dispatch delay;

  • mais tarefas aguardando;

  • MXT frequentemente atingido;

  • maior número de queued tasks;

  • aumento de lock waits;

  • aumento de I/O;

  • degradação em horários de pico;

  • desequilíbrio entre regiões;

  • ocorrências de SOS;

  • erros de falta de recurso;

  • aumento de timeouts;

  • necessidade frequente de intervenção manual.

Um único indicador não conta toda a história.

É necessário correlacionar dados.

Por exemplo:

Mais transações
+ mesma CPU por transação
+ maior CPU total
= crescimento normal

Mas:

Mesmo volume
+ mais CPU
+ pior resposta
= provável ineficiência ou mudança

21. Como um programador COBOL iniciante pode ajudar

Capacity Planning não é responsabilidade exclusiva do sysprog.

O programador COBOL pode contribuir muito.

Conheça o custo do seu programa

Pergunte:

  • Quantas vezes ele é executado?

  • Quanto CPU utiliza?

  • Quantos acessos ao Db2 realiza?

  • Quantos arquivos lê?

  • Existem loops desnecessários?

  • Existem chamadas repetidas?

  • Há processamento que poderia ser evitado?

Evite SELECT desnecessário

Não consulte o banco várias vezes para obter a mesma informação.

Considere armazenar temporariamente valores já obtidos, quando isso for seguro e coerente com a aplicação.

Leia apenas o necessário

Evite SELECT * quando somente algumas colunas são usadas.

Cuidado com loops

Um comando dentro de um loop pode ser multiplicado milhares de vezes.

PERFORM VARYING WS-I FROM 1 BY 1
    UNTIL WS-I > 10000

    EXEC SQL
        SELECT ...
    END-EXEC

END-PERFORM

Esse padrão pode gerar dez mil chamadas SQL.

Talvez seja possível resolver a necessidade com uma única consulta melhor estruturada.

Entenda o contexto CICS

Evite programas que:

  • seguram recursos por muito tempo;

  • realizam waits desnecessários;

  • mantêm locks;

  • executam processamento pesado online;

  • fazem loops extensos;

  • dependem de afinidade sem necessidade;

  • usam recursos locais que dificultam o roteamento.

Registre e meça

Uma alteração considerada “pequena” pode aumentar o consumo de todas as transações.

Se a transação roda dez milhões de vezes por dia, alguns microssegundos adicionais tornam-se relevantes.


22. Perguntas úteis para entrevistas

Por que Capacity Planning é importante no CICS?

Porque permite prever o crescimento do workload e garantir que CPU, memória, armazenamento, regiões e componentes associados estejam preparados antes que ocorram problemas de desempenho ou disponibilidade.

Quais dados podem ser usados?

  • SMF;

  • RMF;

  • CICS statistics;

  • CICS Performance Analyzer;

  • WLM reports;

  • Db2 accounting;

  • histórico de transações;

  • previsões de negócio;

  • testes de carga.

Qual a diferença entre monitoring e Capacity Planning?

Monitoring observa o estado atual ou recente.

Capacity Planning utiliza dados históricos e previsões para tomar decisões futuras.

Mais CPU sempre resolve?

Não. O gargalo pode estar no Db2, I/O, rede, locks, storage, arquitetura, código COBOL ou configuração CICS.

Por que analisar picos?

Porque a média pode esconder os momentos de maior pressão, que são justamente aqueles em que o sistema corre maior risco de degradação.


23. Curiosidades da Terra-Média do Mainframe

Curiosidade 1 — O CICS pode estar saudável enquanto uma transação está doente

A região inteira pode apresentar bons indicadores, mas uma transação específica pode estar consumindo recursos demais.

Por isso, análises globais e individuais são necessárias.

Curiosidade 2 — Crescimento de volume não precisa gerar crescimento proporcional de CPU

O ambiente pode ganhar eficiência com:

  • cache;

  • melhor SQL;

  • código otimizado;

  • melhor distribuição;

  • uso de zIIP;

  • redução de I/O.

Curiosidade 3 — Uma mudança pequena pode criar um grande impacto

Adicionar uma chamada a banco em uma transação executada milhões de vezes pode alterar significativamente a capacidade.

Curiosidade 4 — O sistema pode degradar antes de chegar a 100%

Filas, contenções e esperas podem crescer muito antes da CPU atingir o máximo.

Curiosidade 5 — O melhor Capacity Planning começa com boas perguntas

Ferramentas produzem gráficos.

Mas somente uma boa pergunta transforma o gráfico em decisão.


24. Easter egg — O Um Anel da performance

Em antigas lendas do Reino do Mainframe, dizia-se que existia um parâmetro secreto capaz de resolver qualquer problema de desempenho.

Um parâmetro para acelerar todas as transações.

Um parâmetro para reduzir todos os tempos.

Um parâmetro para eliminar todos os gargalos.

Muitos jovens aventureiros procuraram por ele em manuais, reuniões, fóruns e consoles.

Alguns acreditaram que era o MXT.

Outros disseram que era o número de AORs.

Alguns juraram que bastava adicionar CPU.

Outros culparam o Db2.

Depois de muitos anos, os sábios descobriram a verdade:

O Um Anel da performance não existe.

Não há um único parâmetro capaz de resolver todos os problemas.

Performance é o resultado do equilíbrio entre:

  • aplicação;

  • CICS;

  • Db2;

  • WLM;

  • CPU;

  • memória;

  • I/O;

  • rede;

  • arquitetura;

  • volume;

  • prioridade;

  • operação.

Aquele que procura uma solução mágica acaba sendo dominado por ela.

Aquele que mede, compreende e planeja governa seus recursos com sabedoria.


25. Passo a passo resumido para começar

Para o programador COBOL iniciante, esta é uma boa trilha prática.

Passo 1

Entenda o fluxo da transação.

Descubra quais programas, arquivos, tabelas e serviços são utilizados.

Passo 2

Identifique o volume.

Saiba quantas vezes a transação executa e quais são seus horários de pico.

Passo 3

Aprenda métricas básicas.

Comece por:

  • transaction count;

  • response time;

  • CPU time;

  • wait time;

  • abends;

  • throughput.

Passo 4

Conheça os principais registros SMF.

Não tente dominar todos imediatamente.

Comece entendendo o papel dos registros 70, 72, 101 e 110.

Passo 5

Compare períodos.

Analise hoje contra ontem, este mês contra o anterior e o pico atual contra o pico histórico.

Passo 6

Investigue mudanças.

Quando o consumo subir, verifique:

  • houve mais volume?

  • mudou o programa?

  • mudou o SQL?

  • mudou a infraestrutura?

  • surgiu novo canal?

  • houve redistribuição?

Passo 7

Crie cenários futuros.

Projete crescimento conservador, provável e agressivo.

Passo 8

Teste.

Simule a carga e observe quando os indicadores começam a degradar.

Passo 9

Prepare ações.

Defina antecipadamente o que fazer caso o cenário ultrapasse a previsão.

Passo 10

Continue monitorando.

Capacity Planning não é um relatório anual esquecido em uma pasta.

É um ciclo contínuo.


26. A conclusão da jornada

Ao final da conversa, o jovem programador COBOL olhou novamente para o console.

As mesmas regiões CICS estavam ativas.

As mesmas transações continuavam sendo executadas.

O ambiente parecia idêntico ao de algumas horas antes.

Mas ele já não o enxergava da mesma forma.

Agora compreendia que cada linha de consumo contava uma história.

Cada pico podia ser um aviso.

Cada relatório SMF era uma página do passado.

Cada previsão de negócio era uma mensagem vinda do futuro.

O sysprog terminou o café e disse:

— Administrar capacidade não é tentar impedir que o negócio cresça. É garantir que a tecnologia cresça junto.

O programador perguntou:

— Então Capacity Planning é preparar o sistema para uma batalha?

O velho profissional sorriu.

— Não exatamente. A batalha acontece quando o planejamento falha. Quando fazemos nosso trabalho corretamente, o crescimento chega e encontra os portões abertos, as regiões disponíveis, o WLM preparado, o Db2 ajustado e a CPU com espaço suficiente.

Essa é a grande lição.

Capacity Planning não é comprar hardware por medo.

Não é aumentar parâmetros aleatoriamente.

Não é observar somente CPU.

Não é esperar o usuário reclamar.

É transformar dados históricos em decisões futuras.

É ligar o planejamento do negócio à engenharia do IBM Z.

É estudar o passado, compreender o presente e preparar o ambiente para aquilo que ainda não aconteceu.

No universo CICS, a verdadeira alta performance não consiste apenas em executar rapidamente hoje.

Consiste em continuar executando rapidamente quando o volume dobrar.

A verdadeira disponibilidade não significa apenas permanecer ativo durante uma tarde tranquila.

Significa suportar campanhas, pagamentos, picos, falhas, crescimento e mudanças sem abandonar o usuário.

E o verdadeiro profissional de mainframe não é aquele que corre mais depressa quando o sistema entra em crise.

É aquele que percebe a marcha distante, interpreta os sinais do SMF e prepara a fortaleza antes que a tempestade chegue.

Porque, na Terra-Média do IBM Z, nem todo exército aparece como uma sombra no horizonte.

Às vezes ele chega silenciosamente, disfarçado de milhões de novas transações.

E quando isso acontecer, que suas AORs estejam prontas, que seus planos de acesso estejam ajustados, que o WLM conheça suas prioridades e que ainda exista café suficiente para acompanhar os gráficos.

Um sistema confiável não é aquele que nunca enfrenta crescimento.

É aquele que foi preparado para sobreviver a ele.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

☕📖 Meditações de Marco Aurélio: o Imperador que Programou a Serenidade

 

Bellacosa Mainframe e as meditações de Marco Aurelio

☕📖 Meditações de Marco Aurélio: o Imperador que Programou a Serenidade

Quando o poder absoluto encontrou o autocontrole absoluto


“Você tem poder sobre sua mente — não sobre os acontecimentos.
Perceba isso, e encontrará a força.”
— Marco Aurélio, Meditações VI, 8


🏛️ Introdução – Um diário no meio da guerra

Imagine o cenário: Roma, século II.
O Império Romano atinge sua máxima expansão — mas também enfrenta pestes, conspirações e guerras nas fronteiras.
No meio disso tudo, Marco Aurélio, o homem mais poderoso da Terra, senta-se à luz de uma lamparina e escreve não ordens, mas reflexões íntimas.

Essas notas não foram feitas para serem publicadas.
E talvez por isso sejam tão humanas.
Meditações é o registro de um programador da própria consciência, rodando testes de integridade moral todas as noites.


⚙️ Estrutura – O kernel da alma estoica

As Meditações são divididas em 12 livros curtos, escritos em grego koiné — a língua franca dos filósofos.
Não há capítulos, nem ordem lógica: são fragmentos, logs de um homem que pensa, duvida, cai, recompila e tenta de novo.

“A vida é opinião.”
— Livro II

Cada passagem é um comando, uma macro existencial.
Marco não quer soar sábio — ele quer permanecer lúcido.
E nisso, se aproxima da engenharia espiritual que todo estoico pratica.


☁️ 1. A impermanência de tudo

Marco começa reconhecendo a transitoriedade da vida.
Tudo o que existe — glória, corpo, dor, império — se desintegra.

“Tudo é fluxo. Tudo muda. Tudo se desfaz.”
— Livro IV

Ele escreve como quem depura a própria vaidade.
Ao lembrar-se de que César e Alexandre também morreram, o imperador relativiza a grandeza.
É o primeiro firewall contra o ego.


🧩 2. Controle o que depende de você

Essa é a espinha dorsal da obra.
A serenidade nasce de distinguir entre o que está sob seu comando e o que não está.

“Se é humano e depende de ti, faz.
Se não depende, observa.”
— Livro VII

O mundo externo é instável — o interno, configurável.
O estoico atualizaria essa ideia em linguagem Bellacosa:
“A CPU é tua. O resto é rede instável.”


🔥 3. O dever sobre o prazer

Marco Aurélio não acredita na felicidade como ausência de dor, mas como retidão interior.
Ele serve à razão, não aos impulsos.
Viver bem é agir com coerência entre o que se pensa e o que se faz.

“Não percas tempo discutindo o que deve ser o homem bom.
Sê-o.”
— Livro X

Na era dos discursos, Marco é um lembrete rude:
não se trata de postar sabedoria, mas de compilá-la em comportamento.


⚖️ 4. Aceitar o destino como parte da ordem cósmica

O imperador fala do Logos, a razão universal que governa o cosmos.
Nada acontece fora desse plano — e resistir é inútil.
Mas aceitar não é resignar-se: é alinhar-se ao código da natureza.

“Ame o destino que te foi dado.”
— Livro V

No fundo, ele está dizendo:
debuga teu sofrimento até achar o sentido escondido.


🧘 5. Autodomínio emocional

Marco Aurélio era um imperador cercado por bajuladores, traidores e guerras — mas buscava ser senhor de si.
Ele sabia que o verdadeiro império era interior.

“A melhor vingança é não se assemelhar ao ofensor.”
— Livro VI

O estoico não se ofende com facilidade — ele observa, analisa, e responde sem ira.
É o uptime emocional da mente desperta.


🕰️ 6. O tempo como recurso finito

Um dos temas mais modernos de Meditações é o uso do tempo.
Marco via a procrastinação como desperdício da existência.

“Não aja como se fosses viver dez mil anos.
A morte paira sobre ti.
Enquanto vives, enquanto é possível, sê bom.”
— Livro IV

É o tipo de lembrete que poderia estar colado num painel ISPF:
Run your job while the CPU still cycles.


🌍 7. Humanidade e fraternidade

Mesmo sendo imperador, Marco via todos como cidadãos do mesmo cosmos.
Ele via a razão como o elo universal — uma visão profundamente humanista.

“O que não é bom para a colmeia, não é bom para a abelha.”
— Livro VI

Em plena era de polarizações, esse é o recado do servidor filosófico romano:
ninguém executa bem isolado.


🪞 8. Auto-observação constante

Marco Aurélio se vê como aprendiz perpétuo.
Não há arrogância em suas páginas — há depuração.

“A mente que se torna justa, modesta e disciplinada é uma cidadela.
E o homem não encontra refúgio mais seguro.”
— Livro VIII

Ele não queria ser adorado.
Queria apenas não travar por dentro.


🧠 Conclusão – O código do imperador

Meditações é um sistema de autogoverno escrito em meio ao caos político, como um JCL espiritual que o próprio autor testava todo dia.
Marco Aurélio não programava máquinas — programava a alma.

Se Diógenes foi o hacker da moral, Marco foi o sysadmin da serenidade.
Ambos entenderam o mesmo:

O mundo não é bom nem mau.
É um log — e você escolhe como interpretá-lo.


☕ Epílogo Bellacosa – O Silêncio do General

Quando desligava o comando das legiões, Marco escrevia em seu caderno de couro:
Recomeça, como se jamais tivesses aprendido.

Talvez esse seja o recado que o século XXI mais precisa ouvir.
Não precisamos conquistar impérios —
apenas não perder o controle da própria mente.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

🕯️ Os Santos Populares da Ressaca: Engov, Epocler e Sonrisal — o trio que salvou o proletariado da segunda-feira

 

Bellacosa Mainframe e os santos populares da ressaca    


🔥🩵 Post Bellacosa Mainframe / El Jefe Midnight Lunch Edition

🕯️ Os Santos Populares da Ressaca: Engov, Epocler e Sonrisal — o trio que salvou o proletariado da segunda-feira


Há santos que protegem os motoristas, os pescadores e até os programadores. Mas, em São Paulo, especialmente entre as esquinas da Sé e da Augusta, entre o boteco do Zé e o balcão do Estadão, o povo criou seus próprios santos de devoção alcoólica:
São Engov, São Epocler e São Sonrisal.
Os três juntos formam a Santíssima Trindade da Ressaca — padroeiros da sexta-feira sem juízo e do domingo de arrependimento.




🟡 São Engov – O Santo da Prevenção

O primeiro da procissão.
Reza a lenda que o Engov nasceu nos anos 60, criado por um farmacêutico inspirado entre um gole e outro de vinho do padre. A bula nunca prometeu cura pra ressaca, mas o povo decretou por conta própria: “Se faz bem antes e depois, é milagre!”.

O comprimido amarelo virou ritual. Tinha quem tomasse um antes da pinga, outro depois da batida, e guardasse um terceiro “pra garantir”.
E quando veio o Engov líquido, pequeno, de bolso, com ares de amuleto de feira… pronto: virou o Rosário do Boêmio.

“Quem tem Engov, tem fé.
Quem não tem, reza pra acordar vivo.”


🟢 São Epocler – O Protetor do Fígado

Ah, o Epocler. O mais amargo dos santos, o que desce rasgando mas renova a alma.
Nos botecos dos anos 80 e 90, era comum ver o sujeito pedindo o combo clássico:

“Uma dose de 51 e um Epocler de chaser.”

Essa era a penitência do guerreiro. Um gole pro pecado, outro pra absolvição.
O Epocler nunca julgou ninguém. Feito de arginina e vitamina B6, ele é o santo que entende o fígado cansado, aquele que trabalha em regime CLT e plantão noturno.
Dizem que, nos anos 2000, ele quase ganhou beatificação popular — tamanha era sua devoção nas madrugadas da Augusta e nas segundas do Brás.


São Sonrisal – O Anjo Efervescente

O mais pop dos três.
Enquanto Engov e Epocler eram austeros, Sonrisal é pura festa, espuma e esperança.
Basta jogar na água e assistir o milagre efervescente: em segundos, o mundo volta a girar no eixo.
É o santo do estômago, do azedume e do arrependimento.
Foi companheiro fiel de muitos que, depois da cerveja quente, da coxinha duvidosa e da batida de amendoim, só queriam um recomeço.

“O mundo pode acabar, mas se tiver Sonrisal, ainda há bolhas de fé.”


🍸 O Dogma do Boteco

Os antigos diziam:

“Engov antes, Epocler depois e Sonrisal no fim — e a ressaca vai embora amém.”

Mas há quem inverta a ordem, como se fosse alquimia, buscando a fórmula perfeita da ressuscitação.
Na real, o segredo não está no princípio ativo, mas na esperança que cada dose carrega.
O brasileiro, mesmo de ressaca, acorda e vai pra luta — e se o fígado reclamar, toma outro Epocler e segue o baile.


💬 Comentário de balcão

Na boca da madrugada, entre uma última dose e o primeiro pão na chapa, o garçom filosofa:

“Santo que não cura ressaca não entra no altar do boteco.”

E assim, de bar em bar, o povo canonizou seus próprios milagreiros — os que não estão no Vaticano, mas sim na farmácia 24 horas da esquina, ao lado da coxinha, da mortadela e da fé etílica.


🔸 Dica do El Jefe:
Não existe milagre que cure a culpa. Mas entre um Engov e um Sonrisal, dá pra disfarçar a ressaca da alma.
E se o dia amanhecer pesado, tome um Epocler, olhe pro horizonte e lembre-se:

“Enquanto houver boteco, haverá redenção.”

 

quinta-feira, 9 de abril de 2020

DotCom: Capítulo IV — A Euforia Coletiva: Quando o Mercado Acreditou que as Regras da Economia Haviam Mudado

 

Bellacosa Mainframe e o estouro da bolha dotcom capitulo iv

Capítulo IV — A Euforia Coletiva: Quando o Mercado Acreditou que as Regras da Economia Haviam Mudado

Como investidores, analistas, imprensa e empresários construíram uma ilusão que parecia impossível de dar errado

"O maior perigo de uma bolha financeira não é o excesso de dinheiro. É quando pessoas inteligentes começam a acreditar que as leis da realidade deixaram de existir."

Até este ponto da nossa jornada vimos como a Internet deixou os laboratórios, conquistou empresas, encantou a sociedade e atraiu bilhões de dólares em investimentos.

Mas ainda falta responder uma pergunta fundamental.

Como milhares de investidores extremamente experientes conseguiram acreditar em negócios que claramente não paravam de pé?

Será que ninguém percebeu os problemas?

Será que todos foram enganados?

A resposta é muito mais interessante.

Na maioria dos casos...

As pessoas não estavam sendo irracionais.

Elas estavam olhando para uma tecnologia verdadeiramente revolucionária.

O erro foi concluir que uma revolução tecnológica também significava uma revolução nas leis da economia.

E isso nunca aconteceu.


Quando a Internet Parecia Magia

Volte mentalmente para 1998.

Imagine que você nunca viu um site.

Nunca enviou um e-mail.

Nunca comprou nada pela Internet.

De repente alguém mostra um computador conectado ao mundo inteiro.

Você consegue conversar com pessoas de outro país.

Ler jornais internacionais.

Pesquisar universidades.

Comprar um livro sem sair de casa.

Tudo isso parecia tão extraordinário que muitas pessoas passaram a acreditar que estavam diante da maior transformação econômica desde a Revolução Industrial.

Na verdade...

Talvez estivessem.

Mas uma revolução tecnológica não elimina conceitos básicos como receita, despesa e fluxo de caixa.

Ela apenas muda a forma como esses conceitos são aplicados.


A "Nova Economia"

Poucas expressões foram tão repetidas entre 1998 e 2000 quanto:

New Economy.

A Nova Economia.

Livros foram publicados.

Congressos discutiam o tema.

Revistas estampavam capas afirmando que o capitalismo havia entrado em uma nova fase.

Segundo muitos especialistas da época, empresas digitais deveriam ser avaliadas de maneira completamente diferente das empresas tradicionais.

Por quê?

Porque elas cresceriam infinitamente.

Como seus custos marginais seriam pequenos, bastaria conquistar usuários.

O lucro viria naturalmente.

Essa teoria possuía uma parte verdadeira.

Empresas digitais realmente conseguem escalar muito mais rapidamente.

Entretanto...

Ela ignorava algo essencial.

Nenhum crescimento é infinito.


O Mercado Começou a Precificar Sonhos

Uma empresa tradicional era avaliada principalmente pelo que já havia construído.

Uma empresa da Internet passou a ser avaliada pelo que talvez construísse algum dia.

É uma diferença gigantesca.

Imagine dois restaurantes.

O primeiro possui clientes, lucro e vinte anos de funcionamento.

O segundo acabou de abrir.

Não possui faturamento.

Mas promete que, daqui a dez anos, será a maior rede do planeta.

Qual deles deveria valer mais?

Durante a bolha da Internet, muitas vezes era o segundo.

Porque o mercado deixou de comprar resultados.

Passou a comprar expectativas.


O Papel dos Analistas Financeiros

Outro personagem importante dessa história foi o analista de mercado.

Seu trabalho consiste em estudar empresas e recomendar compra, venda ou manutenção de ações.

Em períodos normais, essas análises costumam ser bastante conservadoras.

Durante a bolha...

Muitos relatórios passaram a utilizar hipóteses extremamente otimistas.

Algumas previsões assumiam que determinadas empresas cresceriam acima de 50% ao ano durante uma década inteira.

Hoje sabemos como isso era improvável.

Naquele momento parecia plausível.

Afinal...

A Internet realmente crescia em ritmo impressionante.


A Mídia Descobriu os Novos Heróis

Os jornais também tiveram papel importante.

Até então, empresários famosos normalmente eram industriais.

Banqueiros.

Executivos.

Presidentes de grandes corporações.

De repente surgia uma nova geração.

Empreendedores de vinte e poucos anos.

Usando camiseta.

Tênis.

Sem gravata.

Criando empresas em garagens.

Eles se tornaram ícones culturais.

As capas das revistas estampavam frases como:

"O próximo Bill Gates."

"O jovem que mudará o mundo."

"A empresa que revolucionará tudo."

Criava-se um ambiente onde sucesso parecia inevitável.

Fracassar deixava de ser considerado uma possibilidade.


O IPO Virou um Evento Nacional

As ofertas públicas de ações transformaram-se em verdadeiros espetáculos.

No dia em que uma startup estreava na bolsa de valores, milhares de investidores corriam para comprar ações.

Pouco importava quanto a empresa faturava.

O importante era entrar antes que o preço subisse.

Em muitos casos...

Subia mesmo.

Ações dobravam.

Triplicavam.

Quadruplicavam em poucos dias.

Isso criava uma sensação extremamente perigosa.

Parecia impossível perder dinheiro.


O Ciclo da Euforia

Toda bolha financeira costuma seguir um padrão bastante semelhante.

Primeiro surgem empresas inovadoras.

Depois aparecem investidores pioneiros.

Esses investidores obtêm grandes retornos.

Os jornais começam a divulgar essas histórias.

Novos investidores chegam.

Os preços aumentam ainda mais.

Mais reportagens são publicadas.

Mais pessoas entram.

Forma-se um ciclo de retroalimentação.

O próprio aumento dos preços passa a ser utilizado como prova de que os preços continuarão aumentando.

É um fenômeno psicológico conhecido como feedback positivo.

Quanto mais sobe...

Mais pessoas acreditam que continuará subindo.


O Medo de Ficar de Fora

Existe um sentimento extremamente poderoso nos mercados financeiros.

O medo de perder uma oportunidade.

Hoje chamamos isso de FOMO (Fear of Missing Out).

Imagine dois colegas de trabalho.

Um deles comprou ações de uma startup.

Em poucos meses dobrou seu patrimônio.

O outro não investiu.

Quem provavelmente começará a sentir ansiedade?

Exatamente.

O segundo.

Esse mecanismo psicológico faz com que investidores deixem de analisar racionalmente os riscos.

Eles passam a comprar apenas porque todos estão comprando.

A lógica desaparece.

A emoção assume o controle.


O Efeito Manada

Na psicologia existe um conceito chamado comportamento de manada.

É a tendência natural de seguir o grupo.

Durante milhares de anos essa característica ajudou nossa espécie a sobreviver.

Se todos corriam...

Provavelmente havia um predador.

Na bolsa de valores esse mesmo mecanismo pode se tornar perigoso.

Se todos estão comprando...

Talvez ninguém esteja pensando.

A bolha das Dot-Com foi um dos maiores exemplos desse comportamento.

Investidores compravam ações porque outros investidores estavam comprando.

Não porque compreendiam profundamente o negócio.


O Viés da Confirmação

Outro fenômeno psicológico apareceu com força.

As pessoas passaram a procurar apenas informações que confirmassem aquilo em que já acreditavam.

Quando uma empresa anunciava crescimento de usuários...

Todos comemoravam.

Quando anunciava prejuízo...

Diziam que isso era normal.

Quando outra startup quebrava...

Afirmavam que era um caso isolado.

Poucos percebiam que dezenas de empresas apresentavam exatamente os mesmos problemas.

Esse fenômeno é chamado de viés de confirmação.

Selecionamos apenas as evidências que reforçam nossas convicções.

Ignoramos o restante.


"Desta Vez é Diferente"

Talvez nenhuma frase seja tão perigosa na história da economia quanto esta:

"Desta vez é diferente."

Ela apareceu na Tulipomania.

Na Railway Mania.

Na bolha imobiliária japonesa.

Na crise das hipotecas de 2008.

E também na bolha da Internet.

Sempre existe alguém afirmando que as regras antigas deixaram de valer.

Que a tecnologia mudou tudo.

Que agora o crescimento será infinito.

Infelizmente...

As leis da matemática continuam exatamente as mesmas.


Enquanto Isso... Dentro de um CPD

Agora imagine um gerente de operações de um grande banco em 1999.

Enquanto Wall Street discutia bilhões em startups, ele precisava responder perguntas muito diferentes.

O backup terminou?

O batch fechou?

A janela noturna foi cumprida?

Os arquivos VSAM ficaram íntegros?

O CICS permaneceu disponível?

O Db2 completou o REORG?

A folha de pagamento será processada amanhã?

Perceba a diferença.

Lá fora...

O mercado discutia expectativas.

Aqui dentro...

O assunto era execução.

Não havia espaço para euforia.

Nem para modismos.

Apenas para resultados concretos.


O NASDAQ Parecia uma Nave em Velocidade de Dobra

Entre 1995 e o início de 2000, o índice NASDAQ tornou-se o principal símbolo do entusiasmo tecnológico.

Empresas de tecnologia valorizavam-se de maneira impressionante.

Cada novo recorde reforçava a ideia de que a Internet havia criado uma riqueza infinita.

Analistas utilizavam gráficos para provar que o crescimento continuaria.

Investidores acreditavam.

Jornalistas repercutiam.

Políticos comemoravam.

Empresários expandiam seus negócios.

Poucos percebiam que boa parte desse crescimento estava sendo sustentada pela própria expectativa de crescimento.

Era uma espécie de motor alimentado pela própria confiança.

Enquanto a confiança existisse...

Tudo funcionava.


O Dia em que a Realidade Bateu à Porta

Existe uma característica curiosa das bolhas financeiras.

Elas não estouram quando todos percebem os problemas.

Elas estouram quando um número suficiente de pessoas começa a fazer perguntas simples.

Como:

Quanto essa empresa realmente fatura?

Ela consegue sobreviver sem novos investidores?

Quando começará a gerar lucro?

Qual seu fluxo de caixa?

Essas perguntas demoraram anos para aparecer.

Mas, quando surgiram...

Mudaram completamente o humor do mercado.

A euforia começou a desaparecer.

E a confiança, que sustentava boa parte da valorização, começou lentamente a evaporar.


O Paralelo com a Inteligência Artificial

Hoje, em 2026, vemos novamente uma enorme onda de entusiasmo em torno da IA.

Modelos generativos impressionam.

Agentes inteligentes prometem transformar empresas.

Investimentos bilionários são anunciados.

Tudo isso é real.

Mas o Padawan COBOL precisa fazer as mesmas perguntas que faltaram durante a bolha da Internet.

Qual problema está sendo resolvido?

Existe um modelo de negócios sustentável?

Quem paga por essa solução?

Ela continuará existindo daqui a dez anos?

Essas perguntas não diminuem a inovação.

Pelo contrário.

Elas ajudam a separar tecnologias duradouras de simples modismos.


Lições para o Padawan COBOL

Existe uma frase muito conhecida entre engenheiros de software:

"O computador executa exatamente aquilo que você programou, não aquilo que você imaginou."

Os mercados financeiros funcionam de maneira semelhante.

Eles podem ignorar a realidade durante algum tempo.

Mas não para sempre.

No final, resultados concretos acabam prevalecendo sobre expectativas.

É exatamente por isso que sistemas corporativos continuam valorizando conceitos como:

  • confiabilidade;

  • auditoria;

  • rastreabilidade;

  • disponibilidade;

  • consistência;

  • governança.

Esses princípios nunca saem de moda.

No universo da Frota Estelar, um capitão experiente não toma decisões olhando apenas para a beleza do mapa estelar. Ele consulta sensores, verifica o combustível, analisa a integridade estrutural da nave e calcula cuidadosamente os riscos antes de entrar em velocidade de dobra. Durante a bolha das Dot-Com, porém, muitos investidores olharam apenas para as estrelas e esqueceram de verificar se a nave realmente possuía motores capazes de chegar ao destino.

E foi exatamente aí que começou o princípio do fim.

No próximo capítulo veremos o momento em que a realidade finalmente venceu a euforia. Bastou uma simples mudança de humor entre investidores para que bilhões de dólares desaparecessem em questão de meses, dando início ao maior colapso tecnológico que o mercado já havia testemunhado até então.


Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

IBM Champion IBM Z COBOL CICS Db2 z/OS Mainframe desde 1988
GitHub LinkedIn
Inicializando conteúdo...