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sexta-feira, 17 de abril de 2020

CICS Capacity Planning — A Sociedade da Capacidade e a Jornada para o Crescimento Futuro

Bellacosa Mainframe e o cics capacity planning


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CICS Capacity Planning — A Sociedade da Capacidade e a Jornada para o Crescimento Futuro

Quando um Programador COBOL Padawan Descobre que o Verdadeiro Perigo Não é o Volume de Hoje, mas a Carga que Marcha no Horizonte

Em uma região distante do Reino do Mainframe, cercada por salas refrigeradas, consoles luminosos e arquivos SMF que registravam silenciosamente cada movimento do sistema, existia um ambiente CICS responsável por milhões de transações.

Durante o dia, clientes consultavam saldos, faziam pagamentos, transferiam dinheiro, atualizavam cadastros, contratavam produtos e utilizavam serviços que pareciam simples na tela de um aplicativo.

Por trás daquela aparente simplicidade, entretanto, havia uma fortaleza tecnológica.

Regiões CICS trabalhavam em conjunto. Programas COBOL executavam regras de negócio. O Db2 armazenava os dados. O VSAM mantinha arquivos essenciais. O MQ transportava mensagens. O WLM distribuía prioridades. O z/OS coordenava todos os recursos como um sábio administrador do reino.

Tudo funcionava tão bem que um jovem programador COBOL começou a acreditar que sempre seria assim.

Ele olhou para os monitores e perguntou ao velho sysprog:

— Mestre, o ambiente está estável. Os tempos de resposta estão bons. A CPU não está saturada. Por que continuamos analisando crescimento, produzindo relatórios e estudando dados antigos?

O sysprog tomou um gole de café e respondeu:

— Porque os sistemas raramente são derrotados pela carga que já conhecem. Eles são derrotados pela carga para a qual ninguém se preparou.

Essa é a essência do Capacity Planning, ou planejamento de capacidade.

Não se trata apenas de observar quanto CPU o CICS utiliza hoje.

Trata-se de compreender quanto trabalho poderá chegar amanhã, quais recursos serão necessários e como preparar a infraestrutura antes que o crescimento se transforme em crise.

Bem-vindo à jornada do CICS Capacity Planning.


1. A sombra que cresce além das montanhas

Em um ambiente de produção, tudo pode parecer tranquilo até que alguma mudança de negócio altere completamente o comportamento do sistema.

Uma campanha de marketing pode atrair milhões de novos acessos.

Um novo aplicativo móvel pode aumentar o número de consultas.

Uma promoção pode gerar picos inesperados.

Uma fusão entre empresas pode adicionar milhares de usuários.

Uma nova regulamentação pode obrigar todos os clientes a atualizar cadastros.

A chegada de pagamentos, benefícios, impostos, Black Friday, Natal, 13º salário ou vencimentos bancários pode concentrar enormes volumes em poucas horas.

O crescimento do negócio quase sempre chega primeiro como uma boa notícia.

— Teremos mais clientes!

— Lançaremos um novo produto!

— Nossa plataforma estará disponível em todo o país!

— A previsão é aumentar as vendas em 40%!

Para a diretoria, isso representa receita.

Para o CICS, isso representa transações.

E transações consomem recursos.

Mais transações podem significar:

  • mais CPU;

  • mais acessos ao Db2;

  • mais I/O;

  • mais mensagens MQ;

  • mais arquivos VSAM acessados;

  • mais tarefas simultâneas;

  • mais uso de memória;

  • mais conexões;

  • mais locks;

  • mais logs;

  • mais tráfego de rede;

  • mais pressão sobre regiões CICS.

O Capacity Planning transforma o crescimento comercial em necessidades técnicas mensuráveis.

Em linguagem simples:

A empresa diz quanto pretende crescer. A equipe técnica calcula se o ambiente sobreviverá ao crescimento.


2. O que é Capacity Planning?

Capacity Planning é o processo de analisar o comportamento atual e histórico de um ambiente, estimar seu crescimento futuro e determinar quais recursos serão necessários para manter desempenho, disponibilidade e estabilidade.

No caso do CICS, o planejamento procura responder perguntas como:

  • O número atual de regiões suportará o volume futuro?

  • A CPU disponível será suficiente?

  • O tempo de resposta permanecerá dentro do SLA?

  • O Db2 suportará o aumento de chamadas SQL?

  • Os arquivos VSAM continuarão atendendo o volume?

  • O WLM distribuirá corretamente as prioridades?

  • A rede suportará mais requisições?

  • O sistema continuará disponível durante os horários de pico?

  • Será necessário criar novas AORs?

  • Existe risco de atingir o MXT?

  • Alguma região poderá entrar em Short on Storage?

  • O throughput aumentará sem degradar a experiência do usuário?

Observe que Capacity Planning não é apenas prever consumo.

É prever consumo mantendo os objetivos de serviço.

Um sistema pode continuar funcionando e, ainda assim, estar tecnicamente fracassando.

Imagine que uma transação levava 300 milissegundos e, após o crescimento, passa a levar 8 segundos.

Ela ainda funciona.

Mas o cliente percebe lentidão.

O aplicativo parece travado.

O operador tenta novamente.

As requisições se acumulam.

O sistema passa a receber transações duplicadas.

O suporte começa a receber reclamações.

O problema deixa de ser apenas técnico e passa a afetar o negócio.

Por isso, capacidade não significa somente “aguentar o volume”.

Significa:

Agir dentro do tempo esperado, com estabilidade, eficiência e margem de segurança.


3. Reagir ou se preparar: duas formas de administrar o reino

Existem dois estilos básicos de gestão de capacidade.

O modelo reativo

No modelo reativo, a empresa espera o problema aparecer.

O sistema começa a ficar lento.

A CPU sobe.

O número de tarefas aumenta.

As filas crescem.

O Db2 registra contenções.

As transações começam a exceder o tempo esperado.

Então todos correm.

A equipe de aplicação culpa o banco de dados.

O Db2 culpa o CICS.

O CICS culpa a rede.

A rede culpa o fornecedor.

A infraestrutura pede mais CPU.

A gestão pergunta por que ninguém previu o problema.

Esse cenário é parecido com uma cidade que só começa a construir muralhas depois que o exército inimigo já apareceu no horizonte.

O modelo proativo

No modelo proativo, a organização acompanha tendências.

Ela conhece os picos sazonais.

Mantém histórico de consumo.

Conversa com as áreas de negócio.

Estima novos volumes.

Realiza testes de carga.

Identifica gargalos.

Ajusta aplicações.

Revisa o WLM.

Planeja novas regiões.

Reserva capacidade adicional.

Quando o crescimento chega, o sistema está preparado.

Para o cliente, nada de extraordinário aconteceu.

Ele simplesmente continuou usando o serviço.

Esse é um dos paradoxos da infraestrutura:

Quando o Capacity Planning funciona perfeitamente, ninguém percebe.

O sucesso é invisível.


4. A Sociedade da Capacidade

Nenhum profissional realiza Capacity Planning sozinho.

É necessário reunir uma verdadeira sociedade, formada por diferentes especialidades.

Podemos imaginar os participantes desta jornada como membros de uma grande expedição.

A área de negócios

Representa o futuro esperado.

Ela informa:

  • novos produtos;

  • campanhas;

  • expansão;

  • previsão de clientes;

  • aquisições;

  • mudanças regulatórias;

  • datas críticas.

Sem essas informações, a infraestrutura só consegue analisar o passado.

A equipe CICS

Conhece:

  • regiões;

  • topologia;

  • transações;

  • programas;

  • conexões;

  • filas;

  • armazenamento;

  • limites;

  • configuração;

  • comportamento operacional.

A equipe COBOL

Conhece a lógica da aplicação.

Ela pode identificar:

  • loops desnecessários;

  • chamadas repetidas;

  • acessos excessivos;

  • processamento redundante;

  • algoritmos ineficientes;

  • programas que consomem CPU em excesso.

A equipe Db2

Analisa:

  • instruções SQL;

  • planos de acesso;

  • índices;

  • locks;

  • buffer pools;

  • quantidade de getpages;

  • tabelas;

  • estatísticas;

  • concorrência.

A equipe de performance

Correlaciona:

  • SMF;

  • RMF;

  • CICS Performance Analyzer;

  • WLM;

  • relatórios de CPU;

  • tempos de resposta;

  • throughput;

  • espera;

  • tendências.

A equipe de infraestrutura

Planeja:

  • processadores;

  • memória;

  • discos;

  • rede;

  • licenciamento;

  • capacidade adicional;

  • contratos;

  • upgrades.

Capacity Planning é, portanto, uma disciplina técnica e organizacional.

O trabalho começa em reuniões de negócio e termina em decisões de arquitetura.


5. O mapa da jornada: o fluxo do Capacity Planning

O processo pode ser representado assim:

Crescimento do negócio
        ↓
Análise do volume de transações
        ↓
Coleta de dados SMF e performance
        ↓
Identificação de tendências
        ↓
Previsão de capacidade
        ↓
Planejamento de recursos
        ↓
Testes e validação
        ↓
Ajustes e implementação
        ↓
Monitoramento contínuo

Cada etapa é importante.

Pular uma delas pode produzir conclusões erradas.


6. Passo 1 — Conheça o negócio antes de olhar a CPU

O primeiro passo não é abrir o SDSF.

Também não é consultar um gráfico.

O primeiro passo é descobrir o que mudará no negócio.

Perguntas úteis:

  • Haverá lançamento de um novo produto?

  • Existe previsão de aumento de clientes?

  • Alguma campanha será realizada?

  • O serviço ganhará um novo canal?

  • Uma API será disponibilizada para parceiros?

  • Haverá migração de sistemas?

  • Alguma aplicação distribuída passará a utilizar o CICS?

  • O volume batch também aumentará?

  • Existem períodos sazonais conhecidos?

Imagine um banco que lança uma funcionalidade de pagamento instantâneo integrada a centenas de lojas.

Antes, cada cliente realizava duas ou três operações por dia.

Depois da integração, cada compra pode gerar várias chamadas:

  1. validação do cliente;

  2. consulta de saldo;

  3. autorização;

  4. gravação da transação;

  5. atualização de limite;

  6. geração de evento;

  7. envio de mensagem;

  8. auditoria.

Uma única ação visível ao usuário pode gerar diversas transações internas.

Por isso, crescimento de usuários e crescimento de transações não são necessariamente iguais.

Um aumento de 20% nos clientes pode provocar 60% a mais de trabalho.


7. Passo 2 — Analise o volume de transações

Depois de compreender a previsão de negócio, é necessário estudar o volume atual.

Os principais indicadores incluem:

  • transações por segundo;

  • transações por minuto;

  • transações por hora;

  • volume diário;

  • volume mensal;

  • volume anual;

  • maior pico;

  • duração do pico;

  • crescimento histórico;

  • distribuição por transação;

  • distribuição por região.

Um erro comum é utilizar apenas médias.

Suponha que um ambiente processe 86 milhões de transações por dia.

Dividindo esse valor por 86.400 segundos, teríamos aproximadamente mil transações por segundo.

Parece simples.

Mas o sistema não recebe carga uniforme.

Durante a madrugada, pode processar 100 transações por segundo.

Às 11h30, pode atingir 8 mil.

No horário de pagamento, pode chegar a 15 mil.

A média esconde o pico.

E sistemas normalmente quebram durante o pico, não durante a média.

Dica Bellacosa

Nunca pergunte apenas:

Qual é o volume diário?

Pergunte também:

Qual foi o maior volume em um intervalo de 1, 5, 15 e 60 minutos?

Isso revela a verdadeira pressão sobre o ambiente.


8. Passo 3 — Consulte os pergaminhos do SMF

O SMF, System Management Facility, é um dos grandes cronistas do z/OS.

Ele registra eventos e métricas produzidos por vários componentes.

Pode ser comparado a uma enorme biblioteca que documenta a história operacional do sistema.

Entre os registros mais conhecidos estão:

  • SMF 30, relacionado a jobs e address spaces;

  • SMF 70, relacionado ao uso de processadores;

  • SMF 72, relacionado ao WLM;

  • SMF 74, relacionado a dispositivos e armazenamento;

  • SMF 101, relacionado ao Db2;

  • SMF 110, relacionado ao CICS;

  • SMF 119, relacionado ao TCP/IP.

Para um iniciante, a quantidade de dados pode parecer assustadora.

Mas não é necessário começar entendendo todos os campos.

O importante é compreender o princípio:

O SMF permite transformar percepções em evidências.

Em vez de afirmar:

— Acho que a região está sobrecarregada.

É possível demonstrar:

  • aumento de transações;

  • maior CPU por transação;

  • aumento de espera;

  • crescimento do response time;

  • saturação de tarefas;

  • elevação de I/O;

  • concentração de workload;

  • degradação em horários específicos.

Essa diferença é fundamental.

Capacity Planning não pode ser baseado em “achismos”.


9. Passo 4 — Observe os recursos certos

O infográfico destaca CPU, memória, armazenamento e regiões CICS.

Esses são pilares importantes, mas o ambiente deve ser observado como um conjunto.

CPU

Devemos analisar:

  • CPU total;

  • CPU por região;

  • CPU por transação;

  • CPU de application programs;

  • CPU de system services;

  • uso de CP;

  • uso de zIIP;

  • picos;

  • crescimento;

  • consumo por intervalo.

Uma transação pode continuar rápida e, mesmo assim, passar a utilizar mais CPU.

Esse aumento talvez ainda não afete o usuário, mas reduz a margem disponível para o futuro.

Memória e storage do CICS

No CICS, memória não significa apenas RAM física.

Também precisamos considerar as áreas de storage da região, alocações dinâmicas e limites internos.

Indicadores e conceitos importantes incluem:

  • EDSA;

  • GCDSA;

  • GUDSA;

  • storage below the line;

  • storage above the line;

  • GETMAIN;

  • FREEMAIN;

  • storage violations;

  • fragmentation;

  • Short on Storage.

Uma região pode ter CPU disponível e, ainda assim, sofrer por falta de storage interno.

I/O e armazenamento

Devemos observar:

  • quantidade de I/O;

  • tempo de resposta dos volumes;

  • cache;

  • filas;

  • datasets;

  • logs;

  • VSAM;

  • journals;

  • archives;

  • Db2 logs;

  • storage groups.

Rede

Aplicações modernas podem acessar o CICS por:

  • TCP/IP;

  • HTTP;

  • HTTPS;

  • MQ;

  • APIs;

  • z/OS Connect;

  • CICS web services;

  • sockets;

  • gateways.

Se a rede estiver saturada, adicionar CPU ao CICS não resolverá o problema.

Regiões CICS

É necessário estudar:

  • TORs;

  • AORs;

  • FORs;

  • quantidade de tarefas;

  • MXT;

  • distribuição de transações;

  • affinities;

  • roteamento;

  • conexões;

  • availability;

  • restart;

  • balanceamento.

Uma única região enorme pode tornar-se um ponto de concentração e risco.

Em muitos ambientes, o crescimento exige distribuição horizontal por várias regiões.


10. O papel das AORs na expansão

Uma Application-Owning Region, ou AOR, é a região em que os programas aplicativos normalmente executam.

Quando o volume cresce, uma estratégia possível é adicionar novas AORs.

Imagine inicialmente:

TOR
 |
 +-- AOR1
 +-- AOR2

Com o aumento da demanda:

TOR
 |
 +-- AOR1
 +-- AOR2
 +-- AOR3
 +-- AOR4

Isso pode aumentar a capacidade e melhorar a disponibilidade.

Entretanto, adicionar regiões não resolve tudo automaticamente.

É preciso verificar:

  • se as transações podem ser roteadas;

  • se existem affinities;

  • se o programa depende de storage local;

  • se utiliza TSQ local;

  • se há recursos compartilhados;

  • se as conexões Db2 suportam o aumento;

  • se o WLM está configurado corretamente;

  • se o CPSM realiza o roteamento adequado.

Criar uma nova região sem revisar dependências pode apenas mover o problema.


11. O WLM como o regente dos exércitos

O Workload Manager, WLM, ajuda o z/OS a distribuir recursos conforme objetivos de serviço.

Em vez de tratar todos os trabalhos da mesma forma, o WLM reconhece que alguns workloads são mais importantes.

Uma transação de autorização de cartão pode ter prioridade diferente de um relatório interno.

Um serviço online pode exigir resposta em menos de um segundo.

Um processamento batch talvez possa esperar.

O WLM trabalha com conceitos como:

  • service classes;

  • importance;

  • goals;

  • response time;

  • velocity;

  • periods;

  • classification rules.

Em uma situação de contenção, ele ajuda o sistema a tomar decisões.

Mas o WLM não cria capacidade do nada.

Esse é um ponto importante.

Ele distribui melhor os recursos existentes.

Se não houver CPU suficiente, todos ainda poderão sofrer.

Podemos comparar o WLM a um comandante que organiza seus soldados.

Um bom comandante melhora a defesa.

Mas, se o exército for pequeno demais para enfrentar a batalha, organização sozinha não será suficiente.


12. Db2: o dragão escondido na montanha

Muitos problemas atribuídos ao CICS estão, na verdade, relacionados ao acesso a dados.

Uma transação CICS pode executar rapidamente até chegar a uma instrução SQL.

Se o plano de acesso estiver ruim, ela pode:

  • ler muitas páginas;

  • realizar tablespace scan;

  • aguardar locks;

  • consumir CPU;

  • aumentar I/O;

  • manter a tarefa ocupada;

  • elevar o response time.

Às vezes, uma simples revisão de índice ou atualização de estatísticas reduz drasticamente o consumo.

Por isso, antes de comprar capacidade, convém investigar:

  • RUNSTATS atualizados;

  • access paths;

  • EXPLAIN;

  • índices;

  • getpages;

  • lock waits;

  • deadlocks;

  • buffer pools;

  • packages;

  • binds;

  • cardinalidade;

  • seletividade.

Curiosidade

Uma instrução SQL aparentemente pequena pode consumir mais recursos do que milhares de linhas COBOL.

O tamanho visual do comando não representa seu custo.

SELECT *
FROM MOVIMENTO
WHERE CODIGO_CLIENTE = :WS-CLIENTE

Sem índice adequado, essa consulta pode atravessar uma enorme quantidade de dados.

Em Capacity Planning, o código também faz parte da infraestrutura.


13. Response time, throughput e wait time

Três conceitos precisam ser diferenciados.

Response time

É o tempo total percebido para concluir a transação.

Pode incluir:

  • CPU;

  • espera por Db2;

  • I/O;

  • locks;

  • filas;

  • rede;

  • dispatch;

  • chamada a outros serviços.

Throughput

É a quantidade de trabalho concluído em determinado período.

Exemplo:

5.000 transações por segundo

Um sistema pode ter bom response time com baixo throughput ou alto throughput com resposta ruim.

Os dois indicadores precisam ser analisados juntos.

Wait time

É o tempo em que a tarefa não está executando porque aguarda algum recurso.

Ela pode esperar por:

  • CPU;

  • I/O;

  • lock;

  • Db2;

  • MQ;

  • arquivo;

  • socket;

  • terminal;

  • storage;

  • enqueue;

  • serviço externo.

Um ambiente com CPU em 40% pode estar extremamente lento se as tarefas passarem grande parte do tempo esperando por outros recursos.

Por isso:

CPU baixa não significa necessariamente sistema saudável.


14. O exemplo do banco e a temporada festiva

Vamos aprofundar o exemplo.

Um banco prevê aumento de 40% nas transações durante o fim do ano.

Atualmente, o pico é de 10 mil transações por segundo.

A previsão simples seria:

10.000 × 1,40 = 14.000 TPS

Porém, a equipe decide adicionar margem de segurança.

Ela considera:

  • crescimento acima da previsão;

  • repetição de transações por usuários;

  • falhas em canais externos;

  • degradação em parceiros;

  • carga batch simultânea;

  • campanhas adicionais;

  • comportamento imprevisível.

A meta passa a ser suportar 17 mil TPS.

A equipe então realiza os seguintes passos.

1. Analisa o histórico

São consultados dados dos últimos anos.

Identificam-se:

  • dias críticos;

  • horários;

  • transações mais usadas;

  • consumo de CPU;

  • resposta;

  • filas;

  • falhas;

  • limites atingidos.

2. Localiza os maiores consumidores

Algumas transações podem representar grande parte da CPU.

A regra 80/20 aparece com frequência:

  • poucas transações consomem grande parcela dos recursos.

Otimizar essas transações pode produzir enorme ganho.

3. Revisa o Db2

A equipe encontra acessos com muitas getpages.

Atualiza estatísticas.

Cria índices.

Executa REBIND onde necessário.

Revê buffer pools.

4. Adiciona AOR

Uma nova AOR é configurada.

Programas, definições e conexões são validados.

O roteamento é testado.

5. Ajusta o WLM

As service classes são revisadas.

Workloads críticos recebem objetivos compatíveis com a prioridade do negócio.

6. Realiza teste de carga

O ambiente é submetido a volumes crescentes.

10.000 TPS
12.000 TPS
14.000 TPS
16.000 TPS
17.000 TPS

A equipe observa o ponto em que os tempos começam a degradar.

Esse ponto é conhecido como joelho da curva.

Antes dele, o sistema cresce de forma controlada.

Depois dele, pequenas elevações de carga podem provocar grande degradação.

7. Cria plano de contingência

Mesmo com planejamento, a equipe define ações emergenciais:

  • ativação de capacidade adicional;

  • criação de região;

  • bloqueio de funções não críticas;

  • priorização de serviços;

  • redução de batch;

  • acionamento de fornecedores;

  • rollback de mudanças.

Quando a temporada chega, o sistema suporta o crescimento.

O cliente apenas percebe que o serviço funciona.


15. O perigo da extrapolação simples

Suponha o seguinte histórico:

2023 — 100 milhões de transações
2024 — 110 milhões
2025 — 121 milhões
2026 — 133 milhões

Alguém poderia concluir que o crescimento é de aproximadamente 10% ao ano.

Mas e se, em 2027, a empresa lançar um aplicativo obrigatório para todos os clientes?

O crescimento histórico deixará de ser suficiente para prever o futuro.

Modelos estatísticos são úteis, mas precisam ser combinados com informações do negócio.

O futuro não é apenas uma continuação matemática do passado.

Ele também inclui eventos.

Por isso, um bom forecast mistura:

  • tendência histórica;

  • sazonalidade;

  • mudanças planejadas;

  • eventos externos;

  • novos canais;

  • comportamento do usuário;

  • margem de segurança.


16. Técnicas de previsão

Em ambientes mais maduros, podem ser utilizadas técnicas como:

  • médias móveis;

  • regressão linear;

  • séries temporais;

  • análise de tendência;

  • análise sazonal;

  • modelos ARIMA;

  • simulações;

  • machine learning;

  • cenários probabilísticos.

Para um iniciante, entretanto, o melhor ponto de partida é simples:

  1. obtenha o histórico;

  2. encontre os picos;

  3. calcule a tendência;

  4. identifique eventos futuros;

  5. crie cenários;

  6. adicione margem;

  7. teste.

Três cenários são bastante úteis:

Cenário conservador

Crescimento menor que o esperado.

Cenário provável

Crescimento alinhado à previsão oficial.

Cenário agressivo

Crescimento acima do esperado.

Por exemplo:

Conservador: +20%
Provável:    +40%
Agressivo:   +70%

O objetivo não é adivinhar o futuro com perfeição.

É evitar ser surpreendido.


17. Capacity Planning não significa comprar mais hardware

Esse é um dos maiores mitos.

Antes de aumentar capacidade física, várias ações podem melhorar o ambiente:

  • otimizar programas COBOL;

  • eliminar chamadas redundantes;

  • melhorar SQL;

  • atualizar índices;

  • tornar programas threadsafe;

  • reduzir switch para QR TCB;

  • ajustar buffers;

  • melhorar LSR pools;

  • rever logging;

  • corrigir affinities;

  • distribuir workload;

  • ajustar WLM;

  • reorganizar datasets;

  • reduzir I/O;

  • usar zIIP quando aplicável;

  • ajustar parâmetros CICS.

Comprar hardware sem corrigir ineficiências pode apenas tornar um sistema ruim mais caro.

Regra do Café

Primeiro descubra onde o recurso está sendo desperdiçado. Depois decida se realmente falta capacidade.


18. Margem de segurança: a reserva de Gondor

Nenhum ambiente crítico deve operar permanentemente no limite.

Se a CPU atinge 100% no pico normal, não existe espaço para:

  • crescimento inesperado;

  • falha de outro sistema;

  • redistribuição de workload;

  • reprocessamento;

  • problema em aplicação;

  • recuperação;

  • desastre;

  • carga excepcional.

A capacidade de reserva é chamada frequentemente de headroom.

O percentual ideal depende do ambiente, dos SLAs, da arquitetura e das políticas da empresa.

Não existe um número universal.

O importante é compreender que trabalhar sempre próximo da saturação reduz a resiliência.

É como defender uma fortaleza utilizando todos os soldados em uma única muralha.

Quando surge um segundo ataque, não há reserva.


19. Teste de carga: o ensaio antes da batalha

Forecast sem teste é apenas hipótese.

Um teste de carga procura reproduzir o comportamento esperado.

Ele deve considerar:

  • mistura realista de transações;

  • volume gradual;

  • picos;

  • duração;

  • dados semelhantes à produção;

  • chamadas Db2;

  • MQ;

  • rede;

  • serviços externos;

  • concorrência;

  • batch simultâneo.

Não basta executar uma transação simples milhares de vezes.

O ambiente real possui uma combinação de operações.

Exemplo:

40% consultas
25% pagamentos
15% transferências
10% atualizações
5% inclusão de dados
5% outras operações

A distribuição do teste precisa aproximar-se da realidade.

Também é importante testar durante tempo suficiente.

Um teste de cinco minutos pode não revelar:

  • vazamentos;

  • crescimento de filas;

  • esgotamento gradual;

  • acúmulo de logs;

  • contenções;

  • fragmentação;

  • problemas de storage.


20. Sinais de que a capacidade está chegando ao limite

Alguns sintomas merecem atenção:

  • crescimento contínuo do response time;

  • CPU por transação aumentando;

  • CPU total próxima do limite;

  • aumento de dispatch delay;

  • mais tarefas aguardando;

  • MXT frequentemente atingido;

  • maior número de queued tasks;

  • aumento de lock waits;

  • aumento de I/O;

  • degradação em horários de pico;

  • desequilíbrio entre regiões;

  • ocorrências de SOS;

  • erros de falta de recurso;

  • aumento de timeouts;

  • necessidade frequente de intervenção manual.

Um único indicador não conta toda a história.

É necessário correlacionar dados.

Por exemplo:

Mais transações
+ mesma CPU por transação
+ maior CPU total
= crescimento normal

Mas:

Mesmo volume
+ mais CPU
+ pior resposta
= provável ineficiência ou mudança

21. Como um programador COBOL iniciante pode ajudar

Capacity Planning não é responsabilidade exclusiva do sysprog.

O programador COBOL pode contribuir muito.

Conheça o custo do seu programa

Pergunte:

  • Quantas vezes ele é executado?

  • Quanto CPU utiliza?

  • Quantos acessos ao Db2 realiza?

  • Quantos arquivos lê?

  • Existem loops desnecessários?

  • Existem chamadas repetidas?

  • Há processamento que poderia ser evitado?

Evite SELECT desnecessário

Não consulte o banco várias vezes para obter a mesma informação.

Considere armazenar temporariamente valores já obtidos, quando isso for seguro e coerente com a aplicação.

Leia apenas o necessário

Evite SELECT * quando somente algumas colunas são usadas.

Cuidado com loops

Um comando dentro de um loop pode ser multiplicado milhares de vezes.

PERFORM VARYING WS-I FROM 1 BY 1
    UNTIL WS-I > 10000

    EXEC SQL
        SELECT ...
    END-EXEC

END-PERFORM

Esse padrão pode gerar dez mil chamadas SQL.

Talvez seja possível resolver a necessidade com uma única consulta melhor estruturada.

Entenda o contexto CICS

Evite programas que:

  • seguram recursos por muito tempo;

  • realizam waits desnecessários;

  • mantêm locks;

  • executam processamento pesado online;

  • fazem loops extensos;

  • dependem de afinidade sem necessidade;

  • usam recursos locais que dificultam o roteamento.

Registre e meça

Uma alteração considerada “pequena” pode aumentar o consumo de todas as transações.

Se a transação roda dez milhões de vezes por dia, alguns microssegundos adicionais tornam-se relevantes.


22. Perguntas úteis para entrevistas

Por que Capacity Planning é importante no CICS?

Porque permite prever o crescimento do workload e garantir que CPU, memória, armazenamento, regiões e componentes associados estejam preparados antes que ocorram problemas de desempenho ou disponibilidade.

Quais dados podem ser usados?

  • SMF;

  • RMF;

  • CICS statistics;

  • CICS Performance Analyzer;

  • WLM reports;

  • Db2 accounting;

  • histórico de transações;

  • previsões de negócio;

  • testes de carga.

Qual a diferença entre monitoring e Capacity Planning?

Monitoring observa o estado atual ou recente.

Capacity Planning utiliza dados históricos e previsões para tomar decisões futuras.

Mais CPU sempre resolve?

Não. O gargalo pode estar no Db2, I/O, rede, locks, storage, arquitetura, código COBOL ou configuração CICS.

Por que analisar picos?

Porque a média pode esconder os momentos de maior pressão, que são justamente aqueles em que o sistema corre maior risco de degradação.


23. Curiosidades da Terra-Média do Mainframe

Curiosidade 1 — O CICS pode estar saudável enquanto uma transação está doente

A região inteira pode apresentar bons indicadores, mas uma transação específica pode estar consumindo recursos demais.

Por isso, análises globais e individuais são necessárias.

Curiosidade 2 — Crescimento de volume não precisa gerar crescimento proporcional de CPU

O ambiente pode ganhar eficiência com:

  • cache;

  • melhor SQL;

  • código otimizado;

  • melhor distribuição;

  • uso de zIIP;

  • redução de I/O.

Curiosidade 3 — Uma mudança pequena pode criar um grande impacto

Adicionar uma chamada a banco em uma transação executada milhões de vezes pode alterar significativamente a capacidade.

Curiosidade 4 — O sistema pode degradar antes de chegar a 100%

Filas, contenções e esperas podem crescer muito antes da CPU atingir o máximo.

Curiosidade 5 — O melhor Capacity Planning começa com boas perguntas

Ferramentas produzem gráficos.

Mas somente uma boa pergunta transforma o gráfico em decisão.


24. Easter egg — O Um Anel da performance

Em antigas lendas do Reino do Mainframe, dizia-se que existia um parâmetro secreto capaz de resolver qualquer problema de desempenho.

Um parâmetro para acelerar todas as transações.

Um parâmetro para reduzir todos os tempos.

Um parâmetro para eliminar todos os gargalos.

Muitos jovens aventureiros procuraram por ele em manuais, reuniões, fóruns e consoles.

Alguns acreditaram que era o MXT.

Outros disseram que era o número de AORs.

Alguns juraram que bastava adicionar CPU.

Outros culparam o Db2.

Depois de muitos anos, os sábios descobriram a verdade:

O Um Anel da performance não existe.

Não há um único parâmetro capaz de resolver todos os problemas.

Performance é o resultado do equilíbrio entre:

  • aplicação;

  • CICS;

  • Db2;

  • WLM;

  • CPU;

  • memória;

  • I/O;

  • rede;

  • arquitetura;

  • volume;

  • prioridade;

  • operação.

Aquele que procura uma solução mágica acaba sendo dominado por ela.

Aquele que mede, compreende e planeja governa seus recursos com sabedoria.


25. Passo a passo resumido para começar

Para o programador COBOL iniciante, esta é uma boa trilha prática.

Passo 1

Entenda o fluxo da transação.

Descubra quais programas, arquivos, tabelas e serviços são utilizados.

Passo 2

Identifique o volume.

Saiba quantas vezes a transação executa e quais são seus horários de pico.

Passo 3

Aprenda métricas básicas.

Comece por:

  • transaction count;

  • response time;

  • CPU time;

  • wait time;

  • abends;

  • throughput.

Passo 4

Conheça os principais registros SMF.

Não tente dominar todos imediatamente.

Comece entendendo o papel dos registros 70, 72, 101 e 110.

Passo 5

Compare períodos.

Analise hoje contra ontem, este mês contra o anterior e o pico atual contra o pico histórico.

Passo 6

Investigue mudanças.

Quando o consumo subir, verifique:

  • houve mais volume?

  • mudou o programa?

  • mudou o SQL?

  • mudou a infraestrutura?

  • surgiu novo canal?

  • houve redistribuição?

Passo 7

Crie cenários futuros.

Projete crescimento conservador, provável e agressivo.

Passo 8

Teste.

Simule a carga e observe quando os indicadores começam a degradar.

Passo 9

Prepare ações.

Defina antecipadamente o que fazer caso o cenário ultrapasse a previsão.

Passo 10

Continue monitorando.

Capacity Planning não é um relatório anual esquecido em uma pasta.

É um ciclo contínuo.


26. A conclusão da jornada

Ao final da conversa, o jovem programador COBOL olhou novamente para o console.

As mesmas regiões CICS estavam ativas.

As mesmas transações continuavam sendo executadas.

O ambiente parecia idêntico ao de algumas horas antes.

Mas ele já não o enxergava da mesma forma.

Agora compreendia que cada linha de consumo contava uma história.

Cada pico podia ser um aviso.

Cada relatório SMF era uma página do passado.

Cada previsão de negócio era uma mensagem vinda do futuro.

O sysprog terminou o café e disse:

— Administrar capacidade não é tentar impedir que o negócio cresça. É garantir que a tecnologia cresça junto.

O programador perguntou:

— Então Capacity Planning é preparar o sistema para uma batalha?

O velho profissional sorriu.

— Não exatamente. A batalha acontece quando o planejamento falha. Quando fazemos nosso trabalho corretamente, o crescimento chega e encontra os portões abertos, as regiões disponíveis, o WLM preparado, o Db2 ajustado e a CPU com espaço suficiente.

Essa é a grande lição.

Capacity Planning não é comprar hardware por medo.

Não é aumentar parâmetros aleatoriamente.

Não é observar somente CPU.

Não é esperar o usuário reclamar.

É transformar dados históricos em decisões futuras.

É ligar o planejamento do negócio à engenharia do IBM Z.

É estudar o passado, compreender o presente e preparar o ambiente para aquilo que ainda não aconteceu.

No universo CICS, a verdadeira alta performance não consiste apenas em executar rapidamente hoje.

Consiste em continuar executando rapidamente quando o volume dobrar.

A verdadeira disponibilidade não significa apenas permanecer ativo durante uma tarde tranquila.

Significa suportar campanhas, pagamentos, picos, falhas, crescimento e mudanças sem abandonar o usuário.

E o verdadeiro profissional de mainframe não é aquele que corre mais depressa quando o sistema entra em crise.

É aquele que percebe a marcha distante, interpreta os sinais do SMF e prepara a fortaleza antes que a tempestade chegue.

Porque, na Terra-Média do IBM Z, nem todo exército aparece como uma sombra no horizonte.

Às vezes ele chega silenciosamente, disfarçado de milhões de novas transações.

E quando isso acontecer, que suas AORs estejam prontas, que seus planos de acesso estejam ajustados, que o WLM conheça suas prioridades e que ainda exista café suficiente para acompanhar os gráficos.

Um sistema confiável não é aquele que nunca enfrenta crescimento.

É aquele que foi preparado para sobreviver a ele.

quarta-feira, 15 de abril de 2020

☕📖 Meditações de Marco Aurélio: o Imperador que Programou a Serenidade

 

Bellacosa Mainframe e as meditações de Marco Aurelio

☕📖 Meditações de Marco Aurélio: o Imperador que Programou a Serenidade

Quando o poder absoluto encontrou o autocontrole absoluto


“Você tem poder sobre sua mente — não sobre os acontecimentos.
Perceba isso, e encontrará a força.”
— Marco Aurélio, Meditações VI, 8


🏛️ Introdução – Um diário no meio da guerra

Imagine o cenário: Roma, século II.
O Império Romano atinge sua máxima expansão — mas também enfrenta pestes, conspirações e guerras nas fronteiras.
No meio disso tudo, Marco Aurélio, o homem mais poderoso da Terra, senta-se à luz de uma lamparina e escreve não ordens, mas reflexões íntimas.

Essas notas não foram feitas para serem publicadas.
E talvez por isso sejam tão humanas.
Meditações é o registro de um programador da própria consciência, rodando testes de integridade moral todas as noites.


⚙️ Estrutura – O kernel da alma estoica

As Meditações são divididas em 12 livros curtos, escritos em grego koiné — a língua franca dos filósofos.
Não há capítulos, nem ordem lógica: são fragmentos, logs de um homem que pensa, duvida, cai, recompila e tenta de novo.

“A vida é opinião.”
— Livro II

Cada passagem é um comando, uma macro existencial.
Marco não quer soar sábio — ele quer permanecer lúcido.
E nisso, se aproxima da engenharia espiritual que todo estoico pratica.


☁️ 1. A impermanência de tudo

Marco começa reconhecendo a transitoriedade da vida.
Tudo o que existe — glória, corpo, dor, império — se desintegra.

“Tudo é fluxo. Tudo muda. Tudo se desfaz.”
— Livro IV

Ele escreve como quem depura a própria vaidade.
Ao lembrar-se de que César e Alexandre também morreram, o imperador relativiza a grandeza.
É o primeiro firewall contra o ego.


🧩 2. Controle o que depende de você

Essa é a espinha dorsal da obra.
A serenidade nasce de distinguir entre o que está sob seu comando e o que não está.

“Se é humano e depende de ti, faz.
Se não depende, observa.”
— Livro VII

O mundo externo é instável — o interno, configurável.
O estoico atualizaria essa ideia em linguagem Bellacosa:
“A CPU é tua. O resto é rede instável.”


🔥 3. O dever sobre o prazer

Marco Aurélio não acredita na felicidade como ausência de dor, mas como retidão interior.
Ele serve à razão, não aos impulsos.
Viver bem é agir com coerência entre o que se pensa e o que se faz.

“Não percas tempo discutindo o que deve ser o homem bom.
Sê-o.”
— Livro X

Na era dos discursos, Marco é um lembrete rude:
não se trata de postar sabedoria, mas de compilá-la em comportamento.


⚖️ 4. Aceitar o destino como parte da ordem cósmica

O imperador fala do Logos, a razão universal que governa o cosmos.
Nada acontece fora desse plano — e resistir é inútil.
Mas aceitar não é resignar-se: é alinhar-se ao código da natureza.

“Ame o destino que te foi dado.”
— Livro V

No fundo, ele está dizendo:
debuga teu sofrimento até achar o sentido escondido.


🧘 5. Autodomínio emocional

Marco Aurélio era um imperador cercado por bajuladores, traidores e guerras — mas buscava ser senhor de si.
Ele sabia que o verdadeiro império era interior.

“A melhor vingança é não se assemelhar ao ofensor.”
— Livro VI

O estoico não se ofende com facilidade — ele observa, analisa, e responde sem ira.
É o uptime emocional da mente desperta.


🕰️ 6. O tempo como recurso finito

Um dos temas mais modernos de Meditações é o uso do tempo.
Marco via a procrastinação como desperdício da existência.

“Não aja como se fosses viver dez mil anos.
A morte paira sobre ti.
Enquanto vives, enquanto é possível, sê bom.”
— Livro IV

É o tipo de lembrete que poderia estar colado num painel ISPF:
Run your job while the CPU still cycles.


🌍 7. Humanidade e fraternidade

Mesmo sendo imperador, Marco via todos como cidadãos do mesmo cosmos.
Ele via a razão como o elo universal — uma visão profundamente humanista.

“O que não é bom para a colmeia, não é bom para a abelha.”
— Livro VI

Em plena era de polarizações, esse é o recado do servidor filosófico romano:
ninguém executa bem isolado.


🪞 8. Auto-observação constante

Marco Aurélio se vê como aprendiz perpétuo.
Não há arrogância em suas páginas — há depuração.

“A mente que se torna justa, modesta e disciplinada é uma cidadela.
E o homem não encontra refúgio mais seguro.”
— Livro VIII

Ele não queria ser adorado.
Queria apenas não travar por dentro.


🧠 Conclusão – O código do imperador

Meditações é um sistema de autogoverno escrito em meio ao caos político, como um JCL espiritual que o próprio autor testava todo dia.
Marco Aurélio não programava máquinas — programava a alma.

Se Diógenes foi o hacker da moral, Marco foi o sysadmin da serenidade.
Ambos entenderam o mesmo:

O mundo não é bom nem mau.
É um log — e você escolhe como interpretá-lo.


☕ Epílogo Bellacosa – O Silêncio do General

Quando desligava o comando das legiões, Marco escrevia em seu caderno de couro:
Recomeça, como se jamais tivesses aprendido.

Talvez esse seja o recado que o século XXI mais precisa ouvir.
Não precisamos conquistar impérios —
apenas não perder o controle da própria mente.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

🕯️ Os Santos Populares da Ressaca: Engov, Epocler e Sonrisal — o trio que salvou o proletariado da segunda-feira

 

Bellacosa Mainframe e os santos populares da ressaca    


🔥🩵 Post Bellacosa Mainframe / El Jefe Midnight Lunch Edition

🕯️ Os Santos Populares da Ressaca: Engov, Epocler e Sonrisal — o trio que salvou o proletariado da segunda-feira


Há santos que protegem os motoristas, os pescadores e até os programadores. Mas, em São Paulo, especialmente entre as esquinas da Sé e da Augusta, entre o boteco do Zé e o balcão do Estadão, o povo criou seus próprios santos de devoção alcoólica:
São Engov, São Epocler e São Sonrisal.
Os três juntos formam a Santíssima Trindade da Ressaca — padroeiros da sexta-feira sem juízo e do domingo de arrependimento.




🟡 São Engov – O Santo da Prevenção

O primeiro da procissão.
Reza a lenda que o Engov nasceu nos anos 60, criado por um farmacêutico inspirado entre um gole e outro de vinho do padre. A bula nunca prometeu cura pra ressaca, mas o povo decretou por conta própria: “Se faz bem antes e depois, é milagre!”.

O comprimido amarelo virou ritual. Tinha quem tomasse um antes da pinga, outro depois da batida, e guardasse um terceiro “pra garantir”.
E quando veio o Engov líquido, pequeno, de bolso, com ares de amuleto de feira… pronto: virou o Rosário do Boêmio.

“Quem tem Engov, tem fé.
Quem não tem, reza pra acordar vivo.”


🟢 São Epocler – O Protetor do Fígado

Ah, o Epocler. O mais amargo dos santos, o que desce rasgando mas renova a alma.
Nos botecos dos anos 80 e 90, era comum ver o sujeito pedindo o combo clássico:

“Uma dose de 51 e um Epocler de chaser.”

Essa era a penitência do guerreiro. Um gole pro pecado, outro pra absolvição.
O Epocler nunca julgou ninguém. Feito de arginina e vitamina B6, ele é o santo que entende o fígado cansado, aquele que trabalha em regime CLT e plantão noturno.
Dizem que, nos anos 2000, ele quase ganhou beatificação popular — tamanha era sua devoção nas madrugadas da Augusta e nas segundas do Brás.


São Sonrisal – O Anjo Efervescente

O mais pop dos três.
Enquanto Engov e Epocler eram austeros, Sonrisal é pura festa, espuma e esperança.
Basta jogar na água e assistir o milagre efervescente: em segundos, o mundo volta a girar no eixo.
É o santo do estômago, do azedume e do arrependimento.
Foi companheiro fiel de muitos que, depois da cerveja quente, da coxinha duvidosa e da batida de amendoim, só queriam um recomeço.

“O mundo pode acabar, mas se tiver Sonrisal, ainda há bolhas de fé.”


🍸 O Dogma do Boteco

Os antigos diziam:

“Engov antes, Epocler depois e Sonrisal no fim — e a ressaca vai embora amém.”

Mas há quem inverta a ordem, como se fosse alquimia, buscando a fórmula perfeita da ressuscitação.
Na real, o segredo não está no princípio ativo, mas na esperança que cada dose carrega.
O brasileiro, mesmo de ressaca, acorda e vai pra luta — e se o fígado reclamar, toma outro Epocler e segue o baile.


💬 Comentário de balcão

Na boca da madrugada, entre uma última dose e o primeiro pão na chapa, o garçom filosofa:

“Santo que não cura ressaca não entra no altar do boteco.”

E assim, de bar em bar, o povo canonizou seus próprios milagreiros — os que não estão no Vaticano, mas sim na farmácia 24 horas da esquina, ao lado da coxinha, da mortadela e da fé etílica.


🔸 Dica do El Jefe:
Não existe milagre que cure a culpa. Mas entre um Engov e um Sonrisal, dá pra disfarçar a ressaca da alma.
E se o dia amanhecer pesado, tome um Epocler, olhe pro horizonte e lembre-se:

“Enquanto houver boteco, haverá redenção.”

 

quinta-feira, 9 de abril de 2020

DotCom: Capítulo IV — A Euforia Coletiva: Quando o Mercado Acreditou que as Regras da Economia Haviam Mudado

 

Bellacosa Mainframe e o estouro da bolha dotcom capitulo iv

Capítulo IV — A Euforia Coletiva: Quando o Mercado Acreditou que as Regras da Economia Haviam Mudado

Como investidores, analistas, imprensa e empresários construíram uma ilusão que parecia impossível de dar errado

"O maior perigo de uma bolha financeira não é o excesso de dinheiro. É quando pessoas inteligentes começam a acreditar que as leis da realidade deixaram de existir."

Até este ponto da nossa jornada vimos como a Internet deixou os laboratórios, conquistou empresas, encantou a sociedade e atraiu bilhões de dólares em investimentos.

Mas ainda falta responder uma pergunta fundamental.

Como milhares de investidores extremamente experientes conseguiram acreditar em negócios que claramente não paravam de pé?

Será que ninguém percebeu os problemas?

Será que todos foram enganados?

A resposta é muito mais interessante.

Na maioria dos casos...

As pessoas não estavam sendo irracionais.

Elas estavam olhando para uma tecnologia verdadeiramente revolucionária.

O erro foi concluir que uma revolução tecnológica também significava uma revolução nas leis da economia.

E isso nunca aconteceu.


Quando a Internet Parecia Magia

Volte mentalmente para 1998.

Imagine que você nunca viu um site.

Nunca enviou um e-mail.

Nunca comprou nada pela Internet.

De repente alguém mostra um computador conectado ao mundo inteiro.

Você consegue conversar com pessoas de outro país.

Ler jornais internacionais.

Pesquisar universidades.

Comprar um livro sem sair de casa.

Tudo isso parecia tão extraordinário que muitas pessoas passaram a acreditar que estavam diante da maior transformação econômica desde a Revolução Industrial.

Na verdade...

Talvez estivessem.

Mas uma revolução tecnológica não elimina conceitos básicos como receita, despesa e fluxo de caixa.

Ela apenas muda a forma como esses conceitos são aplicados.


A "Nova Economia"

Poucas expressões foram tão repetidas entre 1998 e 2000 quanto:

New Economy.

A Nova Economia.

Livros foram publicados.

Congressos discutiam o tema.

Revistas estampavam capas afirmando que o capitalismo havia entrado em uma nova fase.

Segundo muitos especialistas da época, empresas digitais deveriam ser avaliadas de maneira completamente diferente das empresas tradicionais.

Por quê?

Porque elas cresceriam infinitamente.

Como seus custos marginais seriam pequenos, bastaria conquistar usuários.

O lucro viria naturalmente.

Essa teoria possuía uma parte verdadeira.

Empresas digitais realmente conseguem escalar muito mais rapidamente.

Entretanto...

Ela ignorava algo essencial.

Nenhum crescimento é infinito.


O Mercado Começou a Precificar Sonhos

Uma empresa tradicional era avaliada principalmente pelo que já havia construído.

Uma empresa da Internet passou a ser avaliada pelo que talvez construísse algum dia.

É uma diferença gigantesca.

Imagine dois restaurantes.

O primeiro possui clientes, lucro e vinte anos de funcionamento.

O segundo acabou de abrir.

Não possui faturamento.

Mas promete que, daqui a dez anos, será a maior rede do planeta.

Qual deles deveria valer mais?

Durante a bolha da Internet, muitas vezes era o segundo.

Porque o mercado deixou de comprar resultados.

Passou a comprar expectativas.


O Papel dos Analistas Financeiros

Outro personagem importante dessa história foi o analista de mercado.

Seu trabalho consiste em estudar empresas e recomendar compra, venda ou manutenção de ações.

Em períodos normais, essas análises costumam ser bastante conservadoras.

Durante a bolha...

Muitos relatórios passaram a utilizar hipóteses extremamente otimistas.

Algumas previsões assumiam que determinadas empresas cresceriam acima de 50% ao ano durante uma década inteira.

Hoje sabemos como isso era improvável.

Naquele momento parecia plausível.

Afinal...

A Internet realmente crescia em ritmo impressionante.


A Mídia Descobriu os Novos Heróis

Os jornais também tiveram papel importante.

Até então, empresários famosos normalmente eram industriais.

Banqueiros.

Executivos.

Presidentes de grandes corporações.

De repente surgia uma nova geração.

Empreendedores de vinte e poucos anos.

Usando camiseta.

Tênis.

Sem gravata.

Criando empresas em garagens.

Eles se tornaram ícones culturais.

As capas das revistas estampavam frases como:

"O próximo Bill Gates."

"O jovem que mudará o mundo."

"A empresa que revolucionará tudo."

Criava-se um ambiente onde sucesso parecia inevitável.

Fracassar deixava de ser considerado uma possibilidade.


O IPO Virou um Evento Nacional

As ofertas públicas de ações transformaram-se em verdadeiros espetáculos.

No dia em que uma startup estreava na bolsa de valores, milhares de investidores corriam para comprar ações.

Pouco importava quanto a empresa faturava.

O importante era entrar antes que o preço subisse.

Em muitos casos...

Subia mesmo.

Ações dobravam.

Triplicavam.

Quadruplicavam em poucos dias.

Isso criava uma sensação extremamente perigosa.

Parecia impossível perder dinheiro.


O Ciclo da Euforia

Toda bolha financeira costuma seguir um padrão bastante semelhante.

Primeiro surgem empresas inovadoras.

Depois aparecem investidores pioneiros.

Esses investidores obtêm grandes retornos.

Os jornais começam a divulgar essas histórias.

Novos investidores chegam.

Os preços aumentam ainda mais.

Mais reportagens são publicadas.

Mais pessoas entram.

Forma-se um ciclo de retroalimentação.

O próprio aumento dos preços passa a ser utilizado como prova de que os preços continuarão aumentando.

É um fenômeno psicológico conhecido como feedback positivo.

Quanto mais sobe...

Mais pessoas acreditam que continuará subindo.


O Medo de Ficar de Fora

Existe um sentimento extremamente poderoso nos mercados financeiros.

O medo de perder uma oportunidade.

Hoje chamamos isso de FOMO (Fear of Missing Out).

Imagine dois colegas de trabalho.

Um deles comprou ações de uma startup.

Em poucos meses dobrou seu patrimônio.

O outro não investiu.

Quem provavelmente começará a sentir ansiedade?

Exatamente.

O segundo.

Esse mecanismo psicológico faz com que investidores deixem de analisar racionalmente os riscos.

Eles passam a comprar apenas porque todos estão comprando.

A lógica desaparece.

A emoção assume o controle.


O Efeito Manada

Na psicologia existe um conceito chamado comportamento de manada.

É a tendência natural de seguir o grupo.

Durante milhares de anos essa característica ajudou nossa espécie a sobreviver.

Se todos corriam...

Provavelmente havia um predador.

Na bolsa de valores esse mesmo mecanismo pode se tornar perigoso.

Se todos estão comprando...

Talvez ninguém esteja pensando.

A bolha das Dot-Com foi um dos maiores exemplos desse comportamento.

Investidores compravam ações porque outros investidores estavam comprando.

Não porque compreendiam profundamente o negócio.


O Viés da Confirmação

Outro fenômeno psicológico apareceu com força.

As pessoas passaram a procurar apenas informações que confirmassem aquilo em que já acreditavam.

Quando uma empresa anunciava crescimento de usuários...

Todos comemoravam.

Quando anunciava prejuízo...

Diziam que isso era normal.

Quando outra startup quebrava...

Afirmavam que era um caso isolado.

Poucos percebiam que dezenas de empresas apresentavam exatamente os mesmos problemas.

Esse fenômeno é chamado de viés de confirmação.

Selecionamos apenas as evidências que reforçam nossas convicções.

Ignoramos o restante.


"Desta Vez é Diferente"

Talvez nenhuma frase seja tão perigosa na história da economia quanto esta:

"Desta vez é diferente."

Ela apareceu na Tulipomania.

Na Railway Mania.

Na bolha imobiliária japonesa.

Na crise das hipotecas de 2008.

E também na bolha da Internet.

Sempre existe alguém afirmando que as regras antigas deixaram de valer.

Que a tecnologia mudou tudo.

Que agora o crescimento será infinito.

Infelizmente...

As leis da matemática continuam exatamente as mesmas.


Enquanto Isso... Dentro de um CPD

Agora imagine um gerente de operações de um grande banco em 1999.

Enquanto Wall Street discutia bilhões em startups, ele precisava responder perguntas muito diferentes.

O backup terminou?

O batch fechou?

A janela noturna foi cumprida?

Os arquivos VSAM ficaram íntegros?

O CICS permaneceu disponível?

O Db2 completou o REORG?

A folha de pagamento será processada amanhã?

Perceba a diferença.

Lá fora...

O mercado discutia expectativas.

Aqui dentro...

O assunto era execução.

Não havia espaço para euforia.

Nem para modismos.

Apenas para resultados concretos.


O NASDAQ Parecia uma Nave em Velocidade de Dobra

Entre 1995 e o início de 2000, o índice NASDAQ tornou-se o principal símbolo do entusiasmo tecnológico.

Empresas de tecnologia valorizavam-se de maneira impressionante.

Cada novo recorde reforçava a ideia de que a Internet havia criado uma riqueza infinita.

Analistas utilizavam gráficos para provar que o crescimento continuaria.

Investidores acreditavam.

Jornalistas repercutiam.

Políticos comemoravam.

Empresários expandiam seus negócios.

Poucos percebiam que boa parte desse crescimento estava sendo sustentada pela própria expectativa de crescimento.

Era uma espécie de motor alimentado pela própria confiança.

Enquanto a confiança existisse...

Tudo funcionava.


O Dia em que a Realidade Bateu à Porta

Existe uma característica curiosa das bolhas financeiras.

Elas não estouram quando todos percebem os problemas.

Elas estouram quando um número suficiente de pessoas começa a fazer perguntas simples.

Como:

Quanto essa empresa realmente fatura?

Ela consegue sobreviver sem novos investidores?

Quando começará a gerar lucro?

Qual seu fluxo de caixa?

Essas perguntas demoraram anos para aparecer.

Mas, quando surgiram...

Mudaram completamente o humor do mercado.

A euforia começou a desaparecer.

E a confiança, que sustentava boa parte da valorização, começou lentamente a evaporar.


O Paralelo com a Inteligência Artificial

Hoje, em 2026, vemos novamente uma enorme onda de entusiasmo em torno da IA.

Modelos generativos impressionam.

Agentes inteligentes prometem transformar empresas.

Investimentos bilionários são anunciados.

Tudo isso é real.

Mas o Padawan COBOL precisa fazer as mesmas perguntas que faltaram durante a bolha da Internet.

Qual problema está sendo resolvido?

Existe um modelo de negócios sustentável?

Quem paga por essa solução?

Ela continuará existindo daqui a dez anos?

Essas perguntas não diminuem a inovação.

Pelo contrário.

Elas ajudam a separar tecnologias duradouras de simples modismos.


Lições para o Padawan COBOL

Existe uma frase muito conhecida entre engenheiros de software:

"O computador executa exatamente aquilo que você programou, não aquilo que você imaginou."

Os mercados financeiros funcionam de maneira semelhante.

Eles podem ignorar a realidade durante algum tempo.

Mas não para sempre.

No final, resultados concretos acabam prevalecendo sobre expectativas.

É exatamente por isso que sistemas corporativos continuam valorizando conceitos como:

  • confiabilidade;

  • auditoria;

  • rastreabilidade;

  • disponibilidade;

  • consistência;

  • governança.

Esses princípios nunca saem de moda.

No universo da Frota Estelar, um capitão experiente não toma decisões olhando apenas para a beleza do mapa estelar. Ele consulta sensores, verifica o combustível, analisa a integridade estrutural da nave e calcula cuidadosamente os riscos antes de entrar em velocidade de dobra. Durante a bolha das Dot-Com, porém, muitos investidores olharam apenas para as estrelas e esqueceram de verificar se a nave realmente possuía motores capazes de chegar ao destino.

E foi exatamente aí que começou o princípio do fim.

No próximo capítulo veremos o momento em que a realidade finalmente venceu a euforia. Bastou uma simples mudança de humor entre investidores para que bilhões de dólares desaparecessem em questão de meses, dando início ao maior colapso tecnológico que o mercado já havia testemunhado até então.


segunda-feira, 6 de abril de 2020

O Caso TSB Bank: Como uma Migração de Mainframe Destruiu a Reputação de um Banco

Bellacosa Mainframe e a desastrosa migracao do TSB Bank

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe — Edição Especial

O Caso TSB Bank: Como uma Migração de Mainframe Destruiu a Reputação de um Banco

Imagine a seguinte cena.

É madrugada em Londres.

As luzes de um data center permanecem acesas enquanto milhões de pessoas dormem. Nos corredores refrigerados, servidores trabalham, discos giram, mensagens atravessam redes, transações são confirmadas e programas executam milhões de instruções sem que ninguém perceba.

Do lado de fora, tudo parece normal.

Dentro da sala de controle, porém, técnicos acompanham monitores, gráficos, indicadores de capacidade e listas intermináveis de tarefas.

Naquela noite, o TSB Bank está realizando uma das operações mais delicadas que uma instituição financeira pode tentar:

migrar todo o seu sistema bancário para uma nova plataforma.

Milhões de contas.

Milhões de clientes.

Pagamentos.

Cartões.

Empréstimos.

Transferências.

Saldos.

Débitos automáticos.

Históricos financeiros.

A operação deveria terminar com uma mensagem simples:

migração concluída com sucesso.

Mas, quando os sistemas voltaram ao ar, o que apareceu foi algo muito diferente.

Clientes sem acesso.

Aplicativos travados.

Pagamentos desaparecidos.

Contas exibindo informações incorretas.

Pessoas enxergando dados de outros clientes.

Chamadas explodindo nos call centers.

Agências lotadas.

Fraudadores aproveitando o caos.

E uma pergunta começou a circular pelos corredores da tecnologia bancária:

O que realmente aconteceu com o TSB Bank?

Coloque o café ao lado do teclado, abra o terminal 3270 imaginário e prepare o bloco de evidências.

Hoje, o Bellacosa Mainframe vai entrar na cena do crime digital.



Cena 1 — O banco que nasceu dependente

Para compreender o colapso do TSB, precisamos voltar alguns anos.

O TSB nasceu novamente como banco independente depois de uma reorganização do setor bancário britânico.

Embora tivesse marca própria, clientes próprios e agências próprias, sua infraestrutura tecnológica ainda dependia fortemente do Lloyds Banking Group.

Era como se o TSB tivesse recebido as chaves de uma casa, mas toda a eletricidade, a água, os encanamentos e a rede de segurança continuassem pertencendo ao antigo proprietário.

O banco utilizava sistemas hospedados e operados pela infraestrutura do Lloyds.

Ali estavam:

  • o core bancário;

  • os registros de clientes;

  • as contas;

  • os pagamentos;

  • os canais digitais;

  • os sistemas de cartão;

  • os serviços de compensação;

  • os processos noturnos;

  • os relatórios regulatórios.

Para um programador COBOL iniciante, podemos comparar essa situação a um grande ambiente compartilhado.

Imagine que uma empresa possui milhares de programas COBOL.

Esses programas usam:

  • arquivos VSAM;

  • tabelas Db2;

  • transações CICS;

  • filas MQ;

  • jobs em JES2;

  • regras RACF;

  • procedures catalogadas;

  • datasets GDG;

  • rotinas assembler;

  • módulos de comunicação.

Agora imagine que outra empresa deseja sair desse ambiente.

Não basta copiar um programa COBOL.

É necessário separar todo um ecossistema.

Esse era o desafio do TSB.




Cena 2 — A chegada do Banco Sabadell

Em 2015, o banco espanhol Sabadell comprou o TSB.

O Sabadell já possuía uma plataforma bancária própria chamada Proteo.

A lógica de negócio parecia convincente.

Por que continuar pagando para usar os sistemas do Lloyds se o novo proprietário já possuía uma plataforma bancária?

A promessa era reduzir custos, aumentar o controle e integrar o TSB ao modelo tecnológico do grupo espanhol.

No papel, a equação parecia perfeita.

Antigo ambiente:

  • dependência do Lloyds;

  • custos elevados;

  • contratos complexos;

  • pouca autonomia.

Novo ambiente:

  • plataforma própria;

  • maior controle;

  • redução de custos;

  • sinergia com o grupo;

  • liberdade tecnológica.

O problema é que apresentações de PowerPoint não processam transações bancárias.

Planilhas de economia não executam batch.

E uma seta colorida ligando “sistema antigo” a “sistema novo” não representa a verdadeira complexidade de uma migração de core bancário.

Em um diagrama executivo, a migração pode parecer assim:

Lloyds → Proteo4UK

Na vida real, ela se parece mais com isto:

Clientes
   ↓
Internet Banking
   ↓
Aplicativo móvel
   ↓
APIs
   ↓
Camada de autenticação
   ↓
Core bancário
   ↓
Contas / pagamentos / cartões / empréstimos
   ↓
Db2 / VSAM / arquivos / filas
   ↓
Compensação bancária
   ↓
Reguladores
   ↓
Sistemas externos

E isso ainda é uma simplificação.



Cena 3 — A vítima não era o mainframe

Quando um projeto desse tipo falha, é comum surgir uma narrativa simplificada:

“O sistema legado era velho.”

Ou:

“O problema era o mainframe.”

Essa conclusão é tentadora, mas não descreve corretamente o caso TSB.

O mainframe não era a vítima que precisava ser eliminada.

Também não era o criminoso.

Era parte de um ambiente estável que suportava operações bancárias críticas.

A motivação da migração estava ligada principalmente à independência tecnológica e à redução dos custos associados ao uso da infraestrutura do Lloyds.

Em outras palavras:

o TSB não precisava migrar porque o mainframe havia parado de funcionar.

Precisava migrar porque desejava deixar de depender de uma infraestrutura controlada por outra instituição.

Essa diferença é fundamental.

Em projetos de modernização, existem pelo menos quatro motivos comuns para migrar:

  1. reduzir custos;

  2. eliminar dependências;

  3. acelerar mudanças;

  4. substituir tecnologia sem suporte.

No caso do TSB, a independência e as sinergias econômicas tiveram enorme peso.

O erro começa quando uma necessidade empresarial real é traduzida como se fosse apenas uma troca de plataforma.



Cena 4 — O projeto Proteo4UK

A versão adaptada da plataforma do Sabadell para o mercado britânico ficou conhecida como Proteo4UK.

Ela precisava atender às particularidades do TSB e do sistema financeiro do Reino Unido.

Isso incluía:

  • regras bancárias locais;

  • produtos financeiros específicos;

  • pagamentos britânicos;

  • regulamentações;

  • segurança;

  • auditoria;

  • proteção de dados;

  • interfaces com terceiros;

  • requisitos operacionais;

  • volumes de transações.

Não era simplesmente instalar um software espanhol em servidores britânicos.

Era necessário adaptar o sistema, integrar componentes, migrar informações e garantir que tudo funcionasse sob carga real.

Aqui aparece uma lição importante para o programador COBOL iniciante:

Migrar dados não significa migrar comportamento


Você pode copiar corretamente todos os registros de um arquivo.

Mesmo assim, o novo sistema pode falhar.

Considere um arquivo VSAM de contas:

NUMERO-CONTA
NOME-CLIENTE
SALDO
LIMITE
STATUS

A migração pode transportar os campos corretamente.

Mas o sistema depende de muito mais:

  • regras de cálculo;

  • validações;

  • autorizações;

  • locks;

  • commits;

  • filas;

  • timeouts;

  • concorrência;

  • autenticação;

  • capacidade;

  • monitoramento;

  • recuperação;

  • integrações externas.

O dado pode chegar inteiro.

O serviço ao redor dele pode entrar em colapso.

Foi exatamente essa distinção que se tornou central no caso TSB.



Cena 5 — Os testes

O projeto passou por testes, ensaios e simulações.

Foram realizados ciclos preparatórios e migrações de teste.

Também houve um piloto envolvendo funcionários.

Aparentemente, havia evidências suficientes para autorizar a entrada em produção.

Mas testes não são mágicos.

Eles só demonstram aquilo que realmente foi testado.

Se o cenário de teste possui dez mil usuários e a produção recebe um milhão, o resultado pode ser completamente diferente.

Se o ambiente de teste não reproduz fielmente o ambiente de produção, surgem as chamadas diferenças de configuração.

Exemplos:

  • memória diferente;

  • rede diferente;

  • parâmetros diferentes;

  • versões de software diferentes;

  • balanceadores diferentes;

  • regras de firewall diferentes;

  • capacidade de banco diferente;

  • limites de sessão diferentes.

Um sistema pode funcionar perfeitamente no teste e falhar em produção.

Não porque o teste foi inútil, mas porque o teste não reproduziu a realidade.

No universo mainframe, isso equivaleria a testar um batch com cem mil registros e colocar em produção com quinhentos milhões.

O programa COBOL pode estar logicamente correto.

Ainda assim, o job pode estourar janela batch, consumir work files, gerar contenção no Db2 ou causar filas em outras aplicações.



Cena 6 — O fim de semana da migração

O grande corte ocorreu entre os dias 20 e 22 de abril de 2018.

O plano era retirar temporariamente os serviços, concluir a transferência e restaurar o acesso dos clientes.

Esse tipo de operação é chamado de cutover.

O cutover representa o momento em que o sistema novo assume a responsabilidade do sistema antigo.

Em uma migração bancária, o cutover pode incluir:

  1. interromper alterações no sistema antigo;

  2. extrair os dados finais;

  3. transformar os registros;

  4. carregar o novo ambiente;

  5. reconciliar saldos;

  6. validar totais;

  7. ativar interfaces;

  8. liberar canais;

  9. monitorar a operação.

Parece simples quando escrito em nove linhas.

Na prática, cada linha pode conter milhares de tarefas.

Uma inconsistência em qualquer etapa pode comprometer o conjunto.

Quando os serviços começaram a voltar, surgiram problemas graves.

Clientes relataram:

  • falhas de login;

  • lentidão;

  • indisponibilidade;

  • erros de saldo;

  • operações não concluídas;

  • visualização de informações de terceiros.

O último item elevou o incidente a outro nível.

Uma indisponibilidade é grave.

Uma possível exposição de dados é gravíssima.

Nesse momento, a migração deixou de ser apenas um problema técnico.

Passou a ser também:

  • problema de segurança;

  • problema regulatório;

  • problema de reputação;

  • problema político;

  • problema de confiança.



Cena 7 — O efeito avalanche

Quando um sistema bancário falha, o volume de acessos não diminui.

Ele aumenta.

O cliente tenta entrar uma vez.

Falha.

Tenta novamente.

Falha.

Fecha o aplicativo.

Abre outra vez.

Tenta pelo navegador.

Tenta pelo celular.

Liga para o banco.

Vai até uma agência.

Essa repetição cria uma tempestade de carga.

Vamos imaginar um cenário simples.

Em condições normais:

100 mil clientes fazem 1 tentativa
Total: 100 mil requisições

Durante a crise:

100 mil clientes fazem 10 tentativas
Total: 1 milhão de requisições

O sistema já está degradado.

A pressão aumenta.

Mais clientes encontram erros.

Eles tentam novamente.

A fila cresce.

O tempo de resposta aumenta.

Os balanceadores acumulam conexões.

Os bancos recebem mais consultas.

Os logs explodem.

Os call centers ficam congestionados.

Temos então um ciclo de retroalimentação:

Erro
 ↓
Nova tentativa
 ↓
Mais carga
 ↓
Mais lentidão
 ↓
Mais erro
 ↓
Mais tentativas

Isso é parecido com uma cena de CSI em que cada nova pegada pisa sobre as evidências anteriores.

Quanto mais pessoas entram na cena, mais difícil fica descobrir a origem do problema.



Cena 8 — O que realmente falhou

As investigações posteriores apontaram um conjunto de problemas, não uma única causa.

Esse é um detalhe importante.

Grandes desastres tecnológicos raramente possuem um único erro.

Normalmente são o resultado de várias camadas de falha alinhadas.

Entre os fatores discutidos estavam:

  • diferenças entre ambientes;

  • falhas de configuração;

  • problemas de software;

  • capacidade inadequada;

  • dificuldades operacionais;

  • governança insuficiente;

  • supervisão inadequada de fornecedores;

  • cronograma agressivo;

  • confiança excessiva nos indicadores de prontidão.

O sistema não caiu porque alguém esqueceu um ponto final no COBOL.

Também não caiu por causa de uma única máquina defeituosa.

Foi um colapso sistêmico.

Esse conceito é essencial.

Falha local

Um componente quebra, mas o restante continua funcionando.

Exemplo:

um servidor de aplicação falha e o load balancer direciona tráfego para outro.

Falha sistêmica

Vários componentes, processos e decisões se combinam, impedindo a recuperação rápida.

Exemplo:

o sistema apresenta lentidão, o monitoramento é insuficiente, o call center entra em colapso, a comunicação falha e a carga aumenta continuamente.

O caso TSB pertence à segunda categoria.


Cena 9 — A empresa de consultoria e os fornecedores

Projetos dessa escala envolvem muitas empresas.

O grupo Sabadell utilizava sua estrutura tecnológica e empresas associadas para construir e operar a plataforma.

A entidade de tecnologia do grupo, conhecida como Sabis, teve papel importante na implementação.

Também participaram fornecedores e consultorias especializadas.

Antes da aquisição, houve aconselhamento estratégico sobre os caminhos possíveis para a tecnologia do TSB.

Uma alternativa mencionada era permanecer por mais tempo na plataforma Lloyds e, posteriormente, utilizar uma versão independente baseada na tecnologia existente.

Essa abordagem poderia reduzir alguns riscos técnicos, pois preservaria maior compatibilidade com os sistemas já utilizados.

No entanto, a estratégia escolhida priorizou a migração para a plataforma do Sabadell.

Aqui temos outra lição.

O melhor desenho técnico nem sempre vence

Projetos empresariais são decididos por uma combinação de:

  • custos;

  • prazo;

  • estratégia;

  • política interna;

  • contratos;

  • tecnologia;

  • pressão de investidores;

  • expectativa de retorno.

Um arquiteto pode recomendar a opção mais segura.

A diretoria pode escolher a opção mais econômica.

Uma consultoria pode apresentar três caminhos.

O conselho pode selecionar o mais rápido.

Isso não significa que os executivos sejam vilões.

Significa que risco técnico e pressão comercial precisam estar equilibrados.

Quando um deles domina completamente o outro, a probabilidade de desastre aumenta.


Cena 10 — A entrada da IBM

Quando a crise já estava instalada, especialistas da IBM foram chamados para auxiliar na estabilização.

É importante deixar isso claro:

a IBM não foi a empresa responsável pela migração original.

Ela entrou posteriormente para ajudar na recuperação.

Em uma analogia com CSI: New York, a IBM chegou quando a fita amarela já estava colocada ao redor da cena.

O objetivo era:

  • investigar o ambiente;

  • localizar gargalos;

  • identificar falhas;

  • apoiar a estabilização;

  • restaurar serviços;

  • melhorar a capacidade;

  • reduzir a incidência de erros.

Em grandes incidentes, empresas externas podem ser chamadas porque trazem:

  • experiência especializada;

  • visão independente;

  • ferramentas de diagnóstico;

  • equipes adicionais;

  • conhecimento de infraestrutura crítica.

Isso é comum em desastres de TI.

Quando a própria equipe está há dias tentando resolver o problema, o cansaço e a pressão podem dificultar a análise.

Uma equipe externa chega com olhar novo.


Cena 11 — O impacto humano

Em tecnologia, é fácil falar apenas de servidores e sistemas.

Mas cada registro representa uma pessoa.

Um pagamento atrasado pode significar:

  • aluguel não pago;

  • conta de energia vencida;

  • compra recusada;

  • salário inacessível;

  • empresa sem pagar funcionários;

  • viagem cancelada;

  • dívida gerada;

  • constrangimento público.

O incidente afetou milhões de clientes.

Alguns ficaram sem acessar serviços durante períodos prolongados.

Outros enfrentaram operações duplicadas, falhas de pagamento e dificuldades para falar com o banco.

Também houve aumento das tentativas de fraude.

Golpistas aproveitam crises.

Eles ligam para clientes dizendo:

“Somos do banco e precisamos confirmar seus dados por causa da falha do sistema.”

O cliente, assustado e sem acesso à conta, pode acreditar.

Assim, um incidente operacional transforma-se em risco de segurança.


Cena 12 — O prejuízo

O custo do desastre foi muito maior do que o valor de servidores ou programas.

O TSB teve despesas relacionadas a:

  • compensações;

  • recuperação técnica;

  • reforço de atendimento;

  • contratação de especialistas;

  • investigações;

  • medidas regulatórias;

  • perda de clientes;

  • impacto reputacional.

Centenas de milhões de libras foram associadas ao episódio entre custos diretos e efeitos comerciais.

Existe uma diferença entre custo contábil e custo real.

Custo contábil

É o que aparece claramente nos relatórios:

  • consultorias;

  • multas;

  • compensações;

  • infraestrutura;

  • despesas jurídicas.

Custo real

Inclui também:

  • clientes perdidos;

  • confiança destruída;

  • marca enfraquecida;

  • oportunidades comerciais perdidas;

  • queda na satisfação;

  • dificuldade de atrair novos clientes;

  • desgaste dos funcionários.

O segundo é muito mais difícil de medir.


Cena 13 — A multa

Em 2022, os reguladores britânicos aplicaram multas que totalizaram aproximadamente 48,65 milhões de libras.

As sanções estavam relacionadas às falhas na gestão dos riscos operacionais e na execução da migração.

A multa mostra que o incidente não foi tratado apenas como “um problema técnico”.

Para o regulador, o banco tinha responsabilidade de garantir:

  • continuidade;

  • resiliência;

  • governança;

  • supervisão;

  • proteção dos clientes;

  • gestão adequada do risco.

Em setores críticos, a frase “o sistema deu erro” não encerra a discussão.

Alguém aprovou o projeto.

Alguém definiu o cronograma.

Alguém avaliou os riscos.

Alguém autorizou o go-live.

Alguém precisava garantir o plano de contingência.


Cena 14 — A queda do CEO

Paul Pester, então CEO do TSB, enfrentou enorme pressão pública e política.

Ele foi convocado para prestar esclarecimentos ao Parlamento britânico.

Durante as audiências, surgiram perguntas sobre:

  • prontidão;

  • comunicação;

  • testes;

  • gestão de fornecedores;

  • resposta à crise;

  • tratamento dos clientes.

Em setembro de 2018, Pester deixou o cargo.

Em grandes colapsos tecnológicos, a responsabilidade raramente termina na área de TI.

O incidente pode atingir:

  • CIO;

  • CTO;

  • COO;

  • CEO;

  • conselho;

  • fornecedores;

  • gestores de risco.

Isso acontece porque a tecnologia bancária não é apenas suporte.

Ela é o próprio banco.

Sem sistema, não existe operação.


Cena 15 — O relatório independente

Uma revisão independente foi conduzida pelo escritório Slaughter and May.

O relatório examinou as decisões, os testes, a governança e os acontecimentos ligados à migração.

Entre as críticas estavam:

  • cronograma excessivamente otimista;

  • governança insuficiente;

  • supervisão inadequada;

  • testes incapazes de reproduzir plenamente o comportamento real;

  • excesso de confiança antes da entrada em produção.

Esse relatório é valioso porque demonstra que um desastre não deve ser analisado somente pelo erro visível.

O investigador precisa perguntar:

  • por que o risco não foi detectado?

  • por que o plano não foi interrompido?

  • por que os indicadores pareciam positivos?

  • por que o rollback não resolveu?

  • por que a recuperação demorou?

  • por que a comunicação foi confusa?

É o equivalente digital de encontrar uma impressão digital e depois investigar por que a porta estava aberta.


Cena 16 — O banco que não morreu

Apesar do colapso, o TSB não quebrou.

O banco continuou operando.

A plataforma foi estabilizada.

Foram realizados investimentos em resiliência, gestão e controle tecnológico.

Com o tempo, os incidentes diminuíram e a operação voltou a níveis mais normais.

Essa parte é importante.

Um desastre tecnológico pode destruir reputação, provocar multas e derrubar executivos.

Mas não necessariamente encerra a empresa.

A recuperação exige:

  • transparência;

  • investimento;

  • revisão de processos;

  • melhoria de arquitetura;

  • reforço da governança;

  • reconstrução da confiança.

O TSB continuou existindo, mas o episódio de 2018 passou a fazer parte permanente de sua história.


O passo a passo de uma migração mais segura

Agora vamos transformar o caso em aprendizado prático.

Passo 1 — Conheça o sistema antigo

Antes de migrar, documente:

  • programas;

  • dados;

  • integrações;

  • volumes;

  • regras;

  • dependências;

  • janelas;

  • usuários;

  • controles de segurança.

No mainframe, isso pode incluir:

  • programas COBOL;

  • copybooks;

  • JCLs;

  • PROCs;

  • arquivos VSAM;

  • tabelas Db2;

  • transações CICS;

  • filas MQ;

  • regras RACF;

  • jobs noturnos;

  • interfaces externas.

Passo 2 — Descubra os comportamentos invisíveis

Muitos sistemas possuem regras que não estão documentadas.

Exemplos:

  • arquivos processados em ordem específica;

  • programa que depende de retorno não documentado;

  • job que só funciona porque outro termina antes;

  • tabela usada como controle;

  • operador que executa uma tarefa manual.

Esses detalhes são chamados, muitas vezes, de conhecimento tribal.

Passo 3 — Modele a carga real

Não teste apenas a funcionalidade.

Teste:

  • volume;

  • concorrência;

  • picos;

  • falhas;

  • retomadas;

  • lentidão;

  • duplicidade;

  • indisponibilidade de terceiros.

Passo 4 — Faça reconciliação

Depois da migração, compare:

  • número de contas;

  • saldo total;

  • número de transações;

  • registros rejeitados;

  • totais financeiros;

  • históricos;

  • produtos ativos.

Em COBOL, poderíamos imaginar:

IF TOTAL-ORIGEM NOT = TOTAL-DESTINO
    DISPLAY 'ERRO DE RECONCILIACAO'
    MOVE 12 TO RETURN-CODE
    STOP RUN
END-IF.

Em sistemas bancários, essa lógica precisa existir em escala gigantesca.

Passo 5 — Prepare rollback

Rollback não é apenas manter um backup.

É saber:

  • quando voltar;

  • como voltar;

  • quais dados podem ser perdidos;

  • como sincronizar alterações;

  • quem autoriza;

  • quanto tempo a reversão leva.

Passo 6 — Faça observabilidade

Monitore:

  • CPU;

  • memória;

  • filas;

  • erros;

  • tempo de resposta;

  • conexões;

  • locks;

  • commits;

  • falhas externas;

  • experiência do cliente.

Passo 7 — Simule o pior dia

Não teste apenas o dia normal.

Teste:

  • pagamento de salários;

  • vencimento de contas;

  • milhões de logins;

  • falha de data center;

  • ataque;

  • perda de rede;

  • lentidão do banco;

  • avalanche de retentativas.


Curiosidades da investigação

Curiosidade 1 — Os dados principais não desapareceram

O caso ficou famoso como se todas as contas tivessem sido perdidas.

Mas os dados principais foram migrados.

O colapso ocorreu principalmente na capacidade de disponibilizar e processar esses dados corretamente pelos serviços digitais.

Curiosidade 2 — O sucesso foi anunciado cedo demais

Houve comunicação comemorando a migração antes que a gravidade do problema estivesse clara.

Essa é uma lição clássica:

nunca declare vitória enquanto a produção ainda está respirando por aparelhos.

Curiosidade 3 — O incidente aumentou a atividade fraudulenta

Crises tecnológicas criam terreno fértil para engenharia social.

O criminoso não precisa invadir o mainframe.

Pode simplesmente convencer o cliente a entregar a senha.

Curiosidade 4 — O legado parecia caro até a falha ficar mais cara

O objetivo era economizar e conquistar independência.

O custo do incidente mostrou que uma plataforma estável pode parecer cara apenas até o momento em que sua substituição falha.


Easter egg do Bellacosa Mainframe

Em algum lugar do data center, durante a madrugada da migração, um velho operador de mainframe teria olhado para a tela verde e murmurado:

“No meu tempo, antes de liberar o job, a gente conferia o MAXCC.”

Talvez ninguém tenha ouvido.

Talvez o barulho dos servidores fosse alto demais.

Ou talvez o operador estivesse apenas terminando seu café.

Mas fica a homenagem aos profissionais que sabem que, em sistemas críticos, um simples:

MAXCC=00

não significa que o mundo inteiro esteja funcionando.

Significa apenas que aquele job terminou sem detectar erro.

O cliente pode estar vendo outra coisa.


Conclusão — A cena final

O caso TSB Bank não é uma história sobre tecnologia velha contra tecnologia nova.

É uma história sobre complexidade.

Sobre confiança.

Sobre pressão.

Sobre cronogramas.

Sobre governança.

Sobre a diferença entre migrar dados e migrar um banco.

O mainframe não destruiu a reputação do TSB.

A tentativa de sair de uma infraestrutura estável, combinada com falhas de planejamento, testes, capacidade, configuração, supervisão e resposta operacional, produziu uma crise de enormes proporções.

O maior ensinamento é simples:

Sistemas críticos não falham apenas por causa de código ruim. Eles falham quando tecnologia, processos, pessoas e decisões deixam de funcionar como um único organismo.

Para o programador COBOL iniciante, esse caso mostra que escrever um programa é apenas parte do trabalho.

Você também precisa compreender:

  • produção;

  • risco;

  • volume;

  • observabilidade;

  • recuperação;

  • segurança;

  • dependências;

  • impacto no cliente.

Porque, em um banco, cada byte representa dinheiro.

Cada registro representa uma pessoa.

Cada falha pode virar notícia.

E cada migração mal planejada pode transformar uma sala de servidores em uma cena de CSI.

No fim da investigação, as luzes do data center continuam acesas.

Os programas voltam a executar.

As contas reaparecem.

Os pagamentos são processados.

Mas a reputação não possui comando de restart.

Não existe:

//REPUTACAO EXEC PGM=RESTART

Ela precisa ser reconstruída lentamente.

Cliente por cliente.

Transação por transação.

Café por café.

E essa, talvez, seja a lição mais importante de todas.


domingo, 5 de abril de 2020

🗣️ Expressões Idiomáticas Japonesas: o que elas realmente querem dizer?



 ✨ Bellacosa Otaku Blog — Idiomas, Cultura & Paixões Nipônicas


🗣️ Expressões Idiomáticas Japonesas: o que elas realmente querem dizer?

Se você é fã de anime, mangá ou cultura japonesa, já deve ter percebido que muitas frases não fazem sentido quando traduzidas ao pé da letra. Isso acontece porque o japonês é cheio de expressões idiomáticas — modos de falar que refletem emoções, costumes e até a filosofia de vida do povo nipônico.

Hoje, o Bellacosa traz um mergulho divertido (e útil!) nessas expressões. Vamos descobrir o que realmente querem dizer e como usá-las — sem cair nas armadilhas da tradução literal. 🍵🇯🇵


🧩 1. 猫の手も借りたい (neko no te mo karitai)

Tradução literal: “Quero até pegar emprestada a pata de um gato.”
Significado real: Estar extremamente ocupado — tão atarefado que aceitaria ajuda até de um gato!
👉 Você verá essa expressão em mangás de comédia ou slice of life, quando alguém está atolado de trabalho.

📘 Exemplo:

「今日は忙しくて猫の手も借りたい!」
“Hoje estou tão ocupado que aceitaria até ajuda de um gato!”


🍃 2. 花より団子 (hana yori dango)

Tradução literal: “Bolinhos em vez de flores.”
Significado real: Preferir o prático ao bonito — escolher o que é útil ou prazeroso em vez do que é apenas estético.
👉 Essa expressão inspirou o famoso dorama “Hana Yori Dango”, traduzido como “Melhor Doce que Flor”, e simboliza pessoas que preferem substância a aparências.

📘 Exemplo:

“Ela é prática — definitivamente, tipo hana yori dango.”


🔥 3. 猿も木から落ちる (saru mo ki kara ochiru)

Tradução literal: “Até os macacos caem das árvores.”
Significado real: Mesmo os especialistas cometem erros.
👉 É uma maneira simpática de consolar alguém que falhou em algo.

📘 Exemplo:

“Não se preocupe, saru mo ki kara ochiru! Até os melhores erram.”


💔 4. 胸が痛い (mune ga itai)

Tradução literal: “Meu peito dói.”
Significado real: Sentir dor emocional, geralmente por empatia, tristeza ou arrependimento.
👉 Aparece em muitos animes românticos — aquele momento em que o personagem olha o amor impossível e suspira…

📘 Exemplo:

“Ver ele com outra… mune ga itai.” 💔


🌀 5. 一石二鳥 (isseki nichou)

Tradução literal: “Uma pedra, dois pássaros.”
Significado real: O nosso famoso “matar dois coelhos com uma cajadada só.”
👉 Usada tanto em situações do dia a dia quanto em estratégias de personagens inteligentes (olá, Light Yagami 👀).

📘 Exemplo:

“Se eu estudar e ainda treinar japonês ouvindo anime, isseki nichou!


🌙 6. 月とすっぽん (tsuki to suppon)

Tradução literal: “A lua e o cágado.”
Significado real: Duas coisas totalmente diferentes — como água e óleo.
👉 Uma metáfora poética e visual: a lua brilha, o cágado é opaco. Incomparáveis.

📘 Exemplo:

“Comparar esses dois animes é como tsuki to suppon!”


🍂 7. 十人十色 (juunin toiro)

Tradução literal: “Dez pessoas, dez cores.”
Significado real: Cada pessoa tem seu jeito e suas preferências — a beleza da diversidade.
👉 Muito usada em contextos de aceitação e respeito, comum em histórias de amizade ou superação.

📘 Exemplo:

“Não existe um jeito certo de viver — juunin toiro!


🎌 Curiosidade Bellacosa:

As expressões idiomáticas japonesas refletem a harmonia entre natureza, emoção e cotidiano. É por isso que tantos ditados envolvem flores, animais e estações do ano — a alma japonesa está sempre ligada ao ciclo natural da vida. 🌸


💡 Dica para otakus e estudantes de japonês:

Ao ver um anime, tente reconhecer essas expressões pelo contexto, não só pela tradução.
✨ Faça anotações, veja como os personagens usam, e repita em voz alta — ajuda a internalizar o idioma e compreender o tom emocional.


🎬 Animes onde as expressões brilham:

  • Shouwa Genroku Rakugo Shinjuu — cheio de expressões tradicionais.

  • Natsume Yuujinchou — poesia e emoção natural japonesa.

  • Barakamon — lições de vida e frases do interior do Japão.

  • Gintama — humor e trocadilhos com ditados populares.


💭 Conclusão Bellacosa:
Aprender expressões idiomáticas é como abrir uma janela para a alma japonesa.
Não é só idioma — é cultura viva, moldada por séculos de sensibilidade, humor e poesia.
E, claro… um prato cheio para quem ama mergulhar fundo nos significados por trás das palavras. 🌸

sábado, 4 de abril de 2020

JASHIN-CHAN DROPKICK' (2ª TEMPORADA) — O ANIME QUE PROVOU QUE UM SISTEMA TOTALMENTE INSTÁVEL PODE SER MAIS CONFIÁVEL

 

Bellacosa Mainframe e a segunda temporada de Jashin-chan dropkick

☕💣😈 OPERADOR, O CHANGE REQUEST DO INFERNO FOI APROVADO! O DEMÔNIO RETORNOU À PRODUÇÃO COM MAIS BUGS, MAIS META-HUMOR E UMA TAXA DE ABEND QUE AGORA É CONSIDERADA FEATURE OFICIAL!

JASHIN-CHAN DROPKICK' (2ª TEMPORADA) — O ANIME QUE PROVOU QUE UM SISTEMA TOTALMENTE INSTÁVEL PODE SER MAIS CONFIÁVEL QUE MUITOS AMBIENTES CORPORATIVOS


Identificação da Obra

Título Original: 邪神ちゃんドロップキック'
Romanização: Jashin-chan Dropkick'
Título Internacional: Dropkick on My Devil!! Dash

Baseado no mangá de: Yukiwo

Estúdio: Nomad

Direção: Hikaru Sato

Data de Estreia: Abril de 2020

Temporada: Segunda

Episódios: 11

OVAs e Extras: Diversos especiais posteriores

Gêneros:

  • Comédia

  • Sobrenatural

  • Slice of Life

  • Paródia

  • Humor Negro

  • Meta-comédia

Classificação Indicativa:

  • Aproximadamente 14 anos

  • Violência cartunesca

  • Humor ácido

  • Referências religiosas satíricas


Sinopse

Após sobreviver a incontáveis falhas críticas na primeira temporada, Jashin-chan continua presa no mundo humano.

Seu objetivo operacional permanece o mesmo:

eliminar Yurine e retornar ao Inferno.

O problema continua exatamente igual:

ela é absurdamente incompetente.

A segunda temporada não tenta reinventar a fórmula.

Pelo contrário.

Ela pega tudo que funcionou anteriormente e aumenta o volume.

Mais personagens.

Mais loucura.

Mais autorreferências.

Mais situações absurdas.

Mais destruição física da pobre demônia serpente.


Resumo da Temporada

A série continua acompanhando:

  • Jashin-chan

  • Yurine

  • Medusa

  • Pekola

  • Minos

Enquanto novos personagens ampliam o caos.

A estrutura permanece episódica.

Não existe uma grande missão.

Não existe um vilão principal.

Não existe uma jornada épica.

Existe apenas um ecossistema de personagens excêntricos gerando falhas operacionais em sequência.


Análise Bellacosa Mainframe

Na primeira temporada o ambiente apresentava erros.

Na segunda temporada a equipe decidiu documentar os erros como requisitos funcionais.

Resultado:

O sistema tornou-se oficialmente imprevisível.

Mas estranhamente estável.

É o equivalente a um programa COBOL executando desde 1978 sem manutenção e que ninguém ousa alterar porque continua funcionando.


O Que Mudou em Relação à Primeira Temporada?

1. Muito Mais Meta-Humor

A série passa a brincar ainda mais com:

  • audiência

  • produção

  • indústria dos animes

  • merchandising

  • crowdfunding

As personagens frequentemente parecem saber que estão dentro de um anime.

Isso aproxima a obra de clássicos como:

  • Gintama

  • Excel Saga

  • Hayate no Gotoku


2. Expansão do Elenco

Novos personagens aparecem.

O universo fica mais rico.

O foco deixa de ser apenas Yurine versus Jashin.

Agora existe uma rede inteira de figuras absurdas interagindo.


3. Mais Referências

A quantidade de referências culturais aumenta significativamente.

Há homenagens e sátiras envolvendo:

  • cultura otaku

  • videogames

  • anime

  • televisão japonesa

O espectador atento encontra piadas escondidas praticamente o tempo todo.


Principais Personagens

Jashin-chan

Continua sendo o maior gerador de incidentes do ambiente.

Seu comportamento mistura:

  • arrogância

  • preguiça

  • ganância

  • ingenuidade

Ela é simultaneamente vilã e vítima.


Yurine Hanazono

A administradora suprema do datacenter.

Seu método de gerenciamento continua simples:

Identificar erro.

Aplicar punição.

Reiniciar processo.


Medusa

A patrocinadora oficial dos desastres.

Sua lealdade quase irracional a Jashin gera algumas das melhores situações da série.


Pekola

Talvez a personagem mais interessante da franquia.

Ela representa o contraste entre:

  • divindade

  • fragilidade

  • pobreza

  • esperança

Por trás das piadas existe uma crítica social surpreendentemente perceptível.


Temáticas Ocultas

Embora pareça apenas uma comédia nonsense, existem elementos interessantes.


A Normalização do Caos

Todos os personagens vivem em uma situação absurda.

Mesmo assim agem como se tudo fosse normal.

A série brinca com algo muito humano:

A capacidade de nos adaptarmos até mesmo aos cenários mais ilógicos.


Família Escolhida

Nenhum daqueles personagens deveria conviver.

Anjos.

Demônios.

Humanos.

Criaturas mitológicas.

Mas todos acabam formando um grupo.

É uma representação moderna da ideia de família construída por afinidade.


O Fracasso Como Estado Permanente

Jashin falha constantemente.

Mas nunca desiste.

Por trás do humor existe uma mensagem curiosa:

Fracassar repetidamente não significa encerrar a execução do programa.


As Aventuras Mais Marcantes

A segunda temporada é essencialmente uma sequência de incidentes operacionais.

Entre eles:

  • planos absurdos de enriquecimento rápido;

  • tentativas desastrosas de assassinato;

  • disputas entre seres celestiais e demoníacos;

  • eventos escolares;

  • problemas financeiros;

  • situações cotidianas transformadas em caos.

O extraordinário surge a partir do banal.

Essa é uma das maiores forças da obra.


O Estúdio Nomad

O estúdio Nomad nunca teve o tamanho de gigantes como:

  • Madhouse

  • MAPPA

  • Bones

  • Kyoto Animation

Por isso o sucesso de Jashin-chan é tão curioso.

A franquia cresceu através da fidelização do público.

A segunda temporada consolidou esse fenômeno.


Crowdfunding e Apoio dos Fãs

Um dos aspectos mais fascinantes da série.

Poucos animes conseguem mobilizar a comunidade de forma tão efetiva.

Os fãs ajudaram a sustentar novas produções.

Isso transformou Jashin-chan em um caso de estudo dentro da indústria.


Houve Censura?

Não houve censura significativa.

Porém algumas transmissões televisivas utilizaram:

  • escurecimento de tela;

  • enquadramentos alternativos;

  • pequenos ajustes visuais.

O motivo principal foi a quantidade absurda de violência cartunesca.

Mas o contexto humorístico sempre deixou claro que não havia intenção realista.

A série nunca foi alvo de grandes campanhas de proibição.


Impacto Cultural

A segunda temporada consolidou a identidade da franquia.

Ela ajudou a transformar Jashin-chan em:

  • anime cult;

  • referência em meta-humor;

  • exemplo de crowdfunding bem-sucedido;

  • símbolo de comédias absurdistas modernas.

Além disso, fortaleceu as colaborações entre anime e turismo regional japonês.

Poucas obras do mesmo porte conseguiram esse nível de engajamento comunitário.


O Que Torna a Segunda Temporada Especial?

Muitas continuações tentam mudar a fórmula.

Jashin-chan faz o oposto.

Ela entende exatamente o que o público deseja.

Então amplifica todos os elementos característicos:

✅ Mais caos
✅ Mais autorreferência
✅ Mais personagens
✅ Mais piadas internas
✅ Mais absurdos sobrenaturais

A série demonstra uma confiança rara em sua própria identidade.


Conclusão

A segunda temporada não busca revolucionar a franquia.

Ela busca aperfeiçoar aquilo que já funcionava.

E consegue.

Jashin-chan Dropkick' é uma aula de como expandir uma comédia sem perder sua essência.

O anime transforma repetição em charme.

Transforma fracasso em humor.

Transforma personagens defeituosos em figuras adoráveis.

E transforma um demônio incompetente em uma das mascotes mais carismáticas da comédia moderna.


☕💣 Relatório Final do Datacenter Bellacosa

INCIDENTE Nº JCD-2020 ENCERRADO

Resultado da auditoria:

  • O demônio continua ativo.

  • Os erros continuam ocorrendo.

  • Nenhuma correção definitiva foi aplicada.

  • O plano de retorno ao Inferno permanece atrasado.

  • A produtividade é zero.

Entretanto:

  • A satisfação dos usuários aumentou.

  • A base instalada cresceu.

  • O sistema ganhou novos módulos.

  • O ambiente tornou-se mais robusto.

Conclusão técnica:

"Após análise detalhada, verificou-se que Jashin-chan não é um bug do sistema. Jashin-chan É o sistema."

E a segunda temporada é a prova definitiva de que alguns ambientes alcançam a estabilidade não eliminando falhas, mas tornando as falhas parte oficial da arquitetura. 😈☕💣🖥️📋


Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

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