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| Bellacosa Mainframe apresenta a noiva fantasma nos trilhos da estação cultura de campinas |
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Um Café no Bellacosa Mainframe👰 A Noiva Fantasma nos Trilhos — Quando percebemos que aquilo era teatro
Eu e Ana Paula estávamos nos divertindo com aquela descoberta.
Na verdade, tudo começara de uma maneira absolutamente improvável.
Eu tinha sido atraído até os trilhos por um saxofonista.
Só isso já seria suficientemente estranho.
Você está caminhando pela antiga estação, escuta um saxofone vindo de algum lugar e, movido mais pela curiosidade do que por qualquer programação cultural, resolve descobrir de onde vem aquela música.
Foi assim que acabei ficando por ali.
Ana Paula ainda estava no ensaio, portanto naquele primeiro momento eu estava sozinho.
E então, no meio daquela escuridão dos trilhos, apareceu uma noiva.
👰
Sim.
Uma noiva.
No escuro.
Nos trilhos de uma antiga estação ferroviária.
Convenhamos: era material suficiente para o cérebro começar imediatamente a fabricar uma lenda urbana.
🌑 Uma noiva no meio do nada
Antes que o leitor comece a imaginar uma história de fantasmas, alguma jovem abandonada no altar que teria caminhado desesperada pelos trilhos e agora apareceria nas noites de lua cheia para assustar ferroviários atrasados...
Calma.
Nós também não sabíamos exatamente o que estava acontecendo.
E talvez justamente aí estivesse a graça.
Não havia alguém diante de nós anunciando:
"Senhoras e senhores, a apresentação começará agora."
Não havia aquela fronteira confortável entre palco e plateia.
Não existia uma cortina dizendo onde terminava Campinas e onde começava a ficção.
Existiam os trilhos.
A escuridão.
Alguns sons.
Pessoas espalhadas.
E aquela mulher vestida de noiva surgindo no meio de tudo.
Era impossível não chegar mais perto.
🎷 Tudo começara com um saxofone
O mais divertido é reconstruir a sequência.
Eu não tinha ido procurar uma noiva.
Muito menos uma noiva fantasma.
Eu tinha seguido um saxofonista.
O músico funcionara praticamente como o Flautista de Hamelin ferroviário.
🎷 → 🚶 → 🚂 → 🌑 → 👰
Segui o som.
Cheguei aos trilhos.
Fiquei por ali.
E encontrei uma peça de teatro acontecendo praticamente diante de mim.
Só que eu ainda não sabia que era uma peça.
Essa diferença é importante.
Quando compramos um ingresso e entramos num teatro, nosso cérebro já recebeu uma instrução:
"A partir daqui, aceite a fantasia."
Naquela noite aconteceu o contrário.
Primeiro apareceu a fantasia.
Depois tivemos de descobrir onde estava o teatro.
🎭 Ana Paula entra na história
Ana Paula ainda estava ocupada com o ensaio quando comecei a perceber que alguma coisa diferente acontecia por ali.
Quando ela terminou, fui encontrá-la.
Tentei resumir a situação.
Imagino que não tenha sido exatamente a explicação mais normal do mundo:
— Paula, tem um saxofonista nos trilhos... e apareceu uma noiva no escuro.
Pronto.
Agora tente explicar isso sem parecer que você passou tempo demais próximo da fumaça das antigas locomotivas.
😂
Mas fomos juntos.
E a partir daquele momento nossa curiosidade virou diversão.
Não conhecíamos previamente o enredo.
Não sabíamos exatamente quem eram aqueles personagens.
Não tínhamos programa da peça nas mãos.
Muito menos alguém explicando o que deveríamos observar.
Então fizemos aquilo que talvez seja uma das maneiras mais interessantes de assistir a uma história:
começamos pelo meio e tentamos descobrir o começo.
🧩 Montando o enredo enquanto ele acontecia
Passamos a acompanhar aquela estranha apresentação.
Uma cena fornecia uma pista.
Um personagem acrescentava outra.
Uma fala explicava alguma coisa que tínhamos visto minutos antes.
Aos poucos começávamos a montar mentalmente aquele quebra-cabeça.
Era quase como encontrar um programa COBOL executando em produção sem documentação.
Você chega no meio do processamento.
Olha os arquivos.
Observa os movimentos.
Segue algumas variáveis.
Encontra um PERFORM.
Descobre de onde aquilo veio.
E pensa:
"Ahhhh... então era isso!"
😄
Naquela noite, os trilhos eram nosso SYSOUT.
E nós estávamos tentando descobrir o fluxo do programa.
🚂 O cenário fazia metade do trabalho
Talvez aquela história não tivesse causado o mesmo efeito dentro de um teatro convencional.
Ali havia uma antiga estação ferroviária.
Havia trilhos verdadeiros.
Havia a arquitetura ferroviária ao redor.
Havia escuridão de verdade.
E, principalmente, havia profundidade.
Quando aquela noiva aparecia longe, ela não estava diante de um painel pintado para parecer uma ferrovia.
Ela estava nos trilhos.
Isso modifica completamente nossa percepção.
Uma pessoa vestida de noiva sobre um palco é uma atriz.
Uma pessoa vestida de noiva aparecendo no escuro, a dezenas de metros de distância, sobre trilhos ferroviários...
Bem...
Seu cérebro demora alguns segundos para abrir o chamado:
INCIDENTE 8113 — ENTIDADE NÃO IDENTIFICADA NOS TRILHOS
SEVERIDADE: aparentemente sobrenatural.
😂
👻 E se fosse realmente uma noiva fantasma?
A própria situação praticamente implorava para inventarmos uma história.
Quem seria aquela mulher?
Teria sido abandonada?
Esperava alguém que nunca chegou?
O noivo embarcara num trem?
Ela teria morrido ali?
Estaria condenada a caminhar eternamente pela estação esperando o último trem?
É assim que nascem muitas lendas urbanas.
Primeiro existe uma imagem poderosa.
Depois alguém acrescenta uma explicação.
Outra pessoa acrescenta um detalhe.
Dez anos depois ninguém sabe mais onde termina o acontecimento e começa a lenda.
Mas naquela noite havia algo ainda melhor que descobrir um fantasma.
Estávamos descobrindo como o teatro podia fabricar um fantasma diante de nossos olhos sem precisar escondê-lo atrás de uma cortina.
🔦 Quanto menos enxergávamos, mais queríamos ver
Existe uma pequena perversidade nessa forma de teatro.
A escuridão retira informação.
E nosso cérebro odeia informação incompleta.
Quando enxergamos apenas uma silhueta, queremos identificar o rosto.
Quando ouvimos uma conversa pela metade, queremos saber o restante.
Quando encontramos uma personagem no meio da história, queremos descobrir como ela chegou até ali.
Portanto, aquela escuridão não era simplesmente ausência de iluminação.
Ela fazia parte da narrativa.
A falta de informação puxava o espectador.
Primeiro alguns metros.
Depois mais alguns.
E quando percebíamos...
já estávamos seguindo a história.
🚶 O espectador também precisava se mover
Essa talvez seja uma das coisas de que mais gosto ao recordar aquela experiência.
Nós não permanecíamos simplesmente sentados esperando que o mundo viesse até nós.
Era necessário acompanhar.
Observar.
Procurar.
Interpretar.
Juntar os pedaços.
De certa maneira, o público também participava da montagem.
Não mudávamos o roteiro, mas precisávamos descobri-lo.
E eu e Ana Paula estávamos justamente fazendo isso.
Comentávamos.
Tentávamos entender.
Percebíamos novas pistas.
Mudávamos nossa interpretação.
E continuávamos acompanhando.
Era quase uma investigação.
☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
Anos depois, olhando novamente para aquele pequeno registro, percebo por que aquela noite ficou guardada.
Não foi simplesmente porque vimos uma peça teatral.
Foi pela maneira como a encontramos.
Eu estava esperando Ana Paula terminar um ensaio.
Escutei um saxofone.
Segui o músico.
Fui parar nos trilhos.
Encontrei uma noiva surgindo na escuridão.
Ana Paula terminou o ensaio.
Contei rapidamente o que estava acontecendo.
Voltamos.
E ficamos.
Sem planejamento.
Sem roteiro nas mãos.
Sem saber direito onde aquela história começara.
Fomos descobrindo tudo aos poucos.
Talvez essa seja uma das grandes diferenças entre ir assistir a alguma coisa e encontrar alguma coisa acontecendo.
Na primeira situação, você leva expectativas.
Na segunda, leva apenas curiosidade.
E curiosidade era exatamente o que não faltava naquela noite.
🎷
O saxofonista havia feito seu trabalho.
Tinha atraído um sujeito curioso para os trilhos.
Depois veio a noiva.
Depois Ana Paula.
Depois o teatro.
E, quase dez anos mais tarde, percebo que aquela pequena armadilha funcionou melhor do que imaginávamos.
Porque ainda estou seguindo aqueles trilhos.
Só que agora eles atravessam a memória.
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Eis que surge a noiva, perdida nas linhas do comboio, embalada ao som dos músicos, assustadoramente bela... mas perdida... apenas iluminada pelo farol de um carro la longe.
Os curiosos assustados se perdem no breo, para tentarem descobrir o que acontece ali... o que faz aquela noiva nos binarios escuros.
Sera o expectro de uma noiva perdida... alguns dizem que foi uma noiva abandonada no altar que foi pega por um trem... mas ninguém sabe... ninguém viu.