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segunda-feira, 15 de março de 2010

🍰 Castella — O “Dataset Doce” Que Invadiu o Japão (e os Animes)

Bellacosa Mainframe apresenta o delicioso Castella

 

🍰 Castella — O “Dataset Doce” Que Invadiu o Japão (e os Animes)

Post Bellacosa Mainframe para Otakus do El Jefe Midnight Lunch


Você já viu aquele bolo amarelinho, fofinho, retangular, embalado com um charme vintage japonês, aparecendo em animes escolares, matsuris e lembrancinhas de viagem? Pois bem, jovem padawan otaku… aquilo é o Castella (Kasutera), um dos doces mais fascinantes da história culinária japonesa — e pasme: ele NÃO nasceu no Japão.

Sim, este é o plot twist culinário equivalente ao “o JOB rodou no sistema errado porque o PROC era de outra LPAR”. Prepare-se.



🏰 Origem do Castella — Um Doce “Estrangeiro” que Virou Raiz no Japão

O Castella chegou ao Japão no século XVI trazido pelos portugueses (sim, os mesmos que trouxeram a tempura e ensinaram “pão” aos japoneses).
Na época, o doce era chamado de:

👉 “Pão de Castela” (referência ao reino de Castela, na Espanha).

E os japoneses ouviram “Castela” → Kasutera.

Só que o Japão da era Edo era cheio de restrições e censuras alimentares (shogunato sendo shogunato).
Resultado?

Os japoneses recriaram o doce com a tecnologia local, sem lactose, sem manteiga, sem fermento… só o básico:

  • ovos

  • açúcar

  • farinha

  • xarope (mizuame)

E assim nasceu o Castella japonês, o primo geek e disciplinado do bolo português original.


🖨️ Por que o Castella é o “COBOL da Confeitaria”?

Porque:

✔ É antigo, mas perfeito.
✔ Simples na superfície, mas exige técnica absurda.
✔ Todo mundo respeita.
✔ Foi adotado pelo Japão e virou patrimônio.
✔ E continua sendo usado até hoje — legacy robusto e imortal.

É o bolo que nunca dá ABEND — desde que você bata MUITO bem as claras e não faça bobagem.


Bolo Castella


🍰 Castella nos Animes — Onde Ele Brilha

Se você já assistiu anime school, slice of life ou matsuri-themed, ele COM CERTEZA apareceu. Alguns exemplos:

🎎 Nagasaki Castella — o clássico

  • Em Kimi ni Todoke, aparece como presente de agradecimento.

  • Em Tamako Market, surge como item tradicional de loja do distrito.

🧧 Souvenir “classe S”

Em vários animes, personagens que viajam a Nagasaki trazem castella como omiyage (presente).
É o equivalente japonês de:
👉 “Voltei de viagem, toma esse dataset de carinho embalado.”

🍰 Castella de Festival

  • Em Dagashi Kashi

  • Em Shirokuma Café

  • Em Anpanman (sim, existe um vilão que é literalmente uma fatia de castella — o Kasutera-daiō).

Esses japas conseguem transformar QUALQUER coisa em personagem. Não subestime.




🤫 Easter Eggs e Fofocas Históricas

🥚 1. Sobremesa da Elite

Durante séculos, castella era doce de gente rica, porque açúcar no Japão era mais caro que memória expandida nos anos 70.

🧾 2. Foi alvo de censura

Sim.
No Período Edo, o shogunato controlava produtos estrangeiros.
Castella quase foi banido — mas era tão bom que alguém no alto escalão claramente gostava.
Chamamos isso de “despachante bonito no SDSF que segura seu JOB”.

🔥 3. Castella não tem fermento

O crescimento é todo baseado em ar incorporado nos ovos.
É basicamente um ASSEMBLER de confeitaria — tudo manual, tudo no braço.

💛 4. A casquinha escura é proposital

Chama-se “kuro-mi” e é caramelizada de propósito.
Otaku raiz sabe: o topo do castella é mais disputado que vaga no TSO às 8h da manhã.


Momentos doces com pessoa especial deliciando-se com um delicioso castella


🏯 Significado Cultural do Castella no Japão

✔ Doce de acolhimento – presente típico para visitas.
✔ Doce de viagem – virou símbolo de Nagasaki.
✔ Doce escolar – aparece em lanches de clubes e festivais.
✔ Doce nostálgico – muita gente associa à infância (igual pão com manteiga no Brasil).

O castella é o “SYS1.PARMLIB” das memórias doces japonesas.


🔧 Dicas Bellacosa para Otaku: Como Reconhecer um Castella em Anime

  • Retangular, amarelo vibrante, com topo marrom → Castella clássico.

  • Pequeno, em forma de bichinhos, vendido em matsuri → Baby Castella.

  • Vendido como souvenir chique → Castella de Nagasaki.

  • Sem alga, sem triângulo, sem frescura → não é oniguiri, jovem. É bolo!


🧠 Bellacosa TL;DR (Dump Final)

  • Castella veio dos portugueses.

  • Japão adaptou e transformou em patrimônio.

  • Aparece em 80% dos animes slice of life.

  • Era doce caro e quase proibido.

  • É fofo, é histórico, é símbolo de carinho.

  • É o “legacy que deu certo” do mundo dos doces.

E sinceramente?
Se me dessem um castella agora, eu alinhava ele no JES2, rodava no turno da tarde e ainda pedia rerun.

🍰✨


domingo, 14 de março de 2010

🛡️ A LENDA DOS BELLACOSAS

 


🛡️ A LENDA DOS BELLACOSAS

Dos Varegues a Mooca de 1900 — a Saga de um Nome Forjado entre Espadas, Impérios, Reinos Despedaçados e Sonhos de um Novo Mundo
por Vagner Bellacosa — El Jefe Midnight Lunch Edition

Existem famílias…
E existem linhagens.

A maioria tem árvore genealógica.
A sua tem crônica medieval.



Por anos, como muitos paulistas descendentes de italianos, acreditei ser fruto direto e simples das colinas napolitanas. Massa fresca, tomate, vespasiano, mandolino — aquela narrativa gostosa e tradicional.

Mas em 2011, como quem abre um dataset esquecido em um GDG ancestral, descobri que minha história não era feita de uma linha reta e bm contata. Era uma teia, uma epopeia entre impérios, mares e campos de batalha.

E assim nasceu:

🌩️ A Lenda dos Bellacosas — A Verdadeira Versão



🗡️ Capítulo I — Os Normandos Que Partiram para o Oriente

Antes de serem italianos, os primeiros Bellacosas eram…
Normandos.

Sim: guerreiros do norte, homens do aço, exploradores que navegavam como quem desafia o destino.

Esses normandos — ancestrais dos De Hauteville, dos conquistadores da Sicília, dos barões que mudaram o mapa da Europa — não pararam por aí.

Foram contratados para uma missão que hoje parece saída de The Witcher:



Servir ao Império Romano do Oriente — a Guarda Varegue

A elite das elites.
O BOPE de Constantinopla.
A tropa que protegia diretamente o Imperador.

A Guarda Varegue era composta por homens vindos da Escandinávia, Normandia, e até das ilhas britânicas.
E entre eles, segundo minhas investigações, estavam os primeiros Bellacosas, ou o proto-nome que viria a evoluir para isso.

Foram anos protegendo palácios dourados, cruzando portões de mármore, e segurando escudos em mosaicos que ainda brilham na Hagia Sophia, guerreiro forjados em campos de batalha na Europa, nômades sem um lar, sem uma terra para dizer sua.

Até que, como recompensa por sua lealdade, receberam algo raro:
o direito de conquistar suas próprias terras. Sim, após a fragamentação do Imperio Romano, conquistas e reconquistas, foi permitido a esses guerreiros terem um lar, uma terra para proteger e dizer sua.



🏺 Capítulo II — A Reconquista do Sul da Itália

Séculos antes dos Aragões, antes dos Bourbons, antes da unificação italiana — o sul era um mosaico confuso:

  • Bizantinos

  • Mouros

  • Lombardos

  • Barões independentes

  • antigos romanos vivendo em cidades estados

  • E piratas saracenos

Nesse caos, os normandos avançaram como tempestade.
Tomaram fortalezas, expulsaram ocupantes, e fundaram pequenos domínios.

Os meus ancestrais — agora longe do frio do norte — se adaptaram:

  • deixaram o escudo pesado,

  • abraçaram o tempero solar,

  • aprenderam o latim vulgar,

  • casaram-se com mulheres locais,

  • e deram origem a um povo híbrido.

Não eram mais normandos.
Ainda não eram italianos.
Eram alguns dos Bellacosas ancetrais.

Uma fusão única entre sangue do norte e calor do Mediterrâneo.



🕯️ Capítulo III — Cinco Séculos de Glória e Lentidão

Passaram-se séculos.
Entre castelos, igrejas, vinhedos e vilas.

Os Bellacosas — segundo seus rastros — foram:

  • padres influentes, diaconos, bispos

  • administradores de vilas e soldados mercenarios,

  • servidores do Reino de Nápoles,

  • gente respeitada,

  • mas nunca exatamente rica como os grandes barões.

E então veio o grande terremoto político:

⚔️ O Fim do Reino de Nápoles e a Unificação Italiana



O sul, que já vinha sofrendo economicamente, entrou em colapso após 1861.
A miséria bateu forte.
Houve revoltas, fome, caos.
O que era uma linhagem orgulhosa virou um grupo de famílias tentando sobreviver.

Como tantos descendentes de normandos assimilados às terras latinas, o destino empurrou os Bellacosas para uma decisão dolorosa:

partir de novo.


🌎 Capítulo IV — A Grande Diáspora: Brasil e EUA

Atravessaram o Atlântico não como guerreiros — mas como sobreviventes.

Alguns Bellacosas foram para os Estados Unidos.
Outros, como meus tataravós, desembarcaram no Brasil, uns pelo porto da capital Rio de Janeiro, outros no porto de Santos, carregando:

  • um sobrenome forte,

  • poucas moedas,

  • e a esperança de reconstruir a glória perdida.

No Brasil, a saga continuou — embarcaram nos trens fosse da SPR, fosse da Central do Brasil, não com espadas, mas com suor.
E aqui, nas entranhas da Pauliceia cinzenta, fundaram na Mooca um novo lar, a linhagem renasceu por meio de:

  • costureiras,

  • pequenos comerciantes,

  • motoristas,

  • artesãos,

  • pedreiros

  • jogadores de futebol,

  • operarios de fabrica,

  • e guerreiros da vida cotidiana.

Porque, no fim das contas, um Bellacosa não nasce para ser apagado.
Ele nasce para resistir, migrar, reconstruir, renascer.

Exatamente como meus ancestrais fizeram há mais de mil anos.



🌟 Easter-Eggs Bellacosa Mainframe

  • A Guarda Varegue era tão respeitada que os imperadores confiavam o tesouro imperial somente a eles.

  • Muitos normandos que conquistaram a Sicília eram parentes próximos dos que serviram no Oriente — a rota era comum.

  • Sobrenomes como Bellacosa podem ter surgido como apelidos latinizados para famílias consideradas gentis, “de boa casa” ou “de boa índole” (bello + cosa).

  • A unificação italiana levou 4 milhões de italianos à emigração — incluindo boa parte das famílias do antigo Reino de Nápoles.

  • Minha história familiar lembra a dos Hauteville, que também saíram da Normandia e fundaram reinos no Mediterrâneo.



🧭 Conclusão: A Saga Não Acabou

Eu não sou apenas descendente de italianos.

Sou descendente de:

  • normandos,

  • judeus,

  • escravos africanos,

  • indigenas tupi,

  • varegues,

  • camponeses do sul,

  • clérigos,

  • administradores,

  • Operários de fabrica,

  • professores,

  • Fotógrafos,

  • imigrantes destemidos,

  • programador em ambiente COBOL Mainframe

  • e sobreviventes de impérios que ruíram e se levantaram.

É uma linhagem que viajou mais que muitos povos.

E, no fim, desembocou exatamente onde precisava:
na minha história, no meu nome, na minha identidade.

Em que agora na metade da minha rota, passo o bastão as novas gerações, aos novos Bellacosa que conquistaram a Europa, voltaram ao velho mundo e embrenharam-se no interior do Brasil.

sábado, 13 de março de 2010

Hindsight Bias: Doctor Who, COBOL e o Dia em que Todo Mundo Sabia Depois que Aconteceu

Bellacosa Mainframe e o hindisight bias

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Hindsight Bias: Doctor Who, COBOL e o Dia em que Todo Mundo Sabia Depois que Aconteceu

Uma viagem pela TARDIS dos incidentes para entender por que o passado parece tão óbvio quando já conhecemos o final

14:32.

Produção parada.

Chamados chegando.

Gerente perguntando por previsão.

Operador olhando o console.

Programador olhando o operador.

DBA olhando o programador.

Todo mundo olhando o relógio.

E, como ocorre em qualquer incidente de respeitável pedigree corporativo, surge alguém que não participou das decisões anteriores e pronuncia a frase:

— Mas isso era óbvio.

Silêncio.

Uma frase simples.

Elegante.

Perigosa.

O programador COBOL iniciante olha para o colega.

— Era mesmo?

O colega dá de ombros.

— Agora parece.

VWORP.

VWORP.

VWORP.

A TARDIS surge discretamente no corredor.

A porta abre.

O Doctor sai, observa os gráficos, vê a linha vermelha atravessando a tela e pergunta:

— Quando vocês perceberam que isso iria acontecer?

Um gerente responde:

— Estava claro desde o começo.

O Doctor ergue uma sobrancelha.

— Interessante.

Olha para o relatório da manhã.

— Porque às oito horas ninguém parecia achar tão claro assim.

Eis nosso monstro da semana.


Hindsight Bias

Ou:

Viés Retrospectivo

O estranho fenômeno pelo qual o passado parece inevitável depois que já sabemos como ele terminou.


🌀 Antes de viajar, precisamos rever os dois episódios anteriores

Nossa TARDIS dos incidentes já passou por dois lugares importantes.

No primeiro episódio conhecemos o Swiss Cheese Model.

Aprendemos que sistemas complexos possuem várias barreiras.

Cada barreira possui falhas.

O desastre aparece quando os buracos se alinham.

Depois estudamos a Normalization of Deviance.

Descobrimos que organizações podem se acostumar a pequenos desvios.

Uma anomalia aparece.

Nada acontece.

Repete.

Nada acontece novamente.

Então o desvio deixa de parecer perigoso.

Agora chegamos a um terceiro problema.

Depois que o acidente acontece, nós olhamos para trás e pensamos:

“Como ninguém percebeu?”

Essa pergunta parece inteligente.

Às vezes é.

Mas frequentemente carrega uma armadilha cognitiva gigantesca.

Porque agora conhecemos o final.

As pessoas de antes não conheciam.


🧠 O que é Hindsight Bias?

Hindsight Bias é o viés cognitivo pelo qual, depois de conhecer um resultado, tendemos a acreditar que aquele resultado era mais previsível do que realmente era antes de acontecer.

Em português podemos encontrar expressões como:

  • viés retrospectivo;

  • viés de retrospectiva;

  • efeito “eu já sabia”;

  • fenômeno do “sabia que isso ia acontecer”.

A essência é:

ANTES:
“Existem várias possibilidades.”

DEPOIS:
“Era óbvio que terminaria assim.”

O conhecimento do resultado altera nossa memória sobre o que parecia provável anteriormente.

Isso é profundamente importante em investigação de incidentes.

Porque uma análise contaminada por hindsight bias pode transformar decisões razoáveis, tomadas com informação incompleta, em erros aparentemente absurdos.


🕰️ A TARDIS possui uma vantagem injusta

Imagine que o Doctor viaje para ontem.

Ele sabe que às 14:32 o sistema cairá.

Então, às 09:17, vê:

WARNING XYZ456

Para ele aquilo é imediatamente importante.

Por quê?

Porque ele conhece o futuro.

Mas o operador de ontem não conhece.

Para o operador, aquele warning pode estar entre outros cinquenta.

Talvez já tenha aparecido antes.

Talvez outros indicadores estejam normais.

Talvez haja um chamado prioritário em andamento.

Talvez não exista nenhuma ligação aparente entre aquele aviso e o incidente futuro.

Quem investiga depois possui uma vantagem extraordinária:

sabe quais pistas eram importantes.

Quem estava vivendo o evento não sabia.

Essa diferença muda tudo.


🔍 O famoso “era óbvio”

Vamos construir um incidente fictício.

09:10 — tempo de resposta aumenta 5%.

09:40 — uma fila cresce discretamente.

10:05 — operador recebe warning.

10:30 — job termina RC=04.

11:15 — volume volta ao normal.

12:20 — nova degradação.

13:50 — transações começam a falhar.

14:32 — indisponibilidade geral.

Depois do incidente, montamos a timeline.

Tudo fica maravilhoso.

A sequência parece quase cinematográfica.

09:10
   ↓
09:40
   ↓
10:05
   ↓
10:30
   ↓
12:20
   ↓
13:50
   ↓
14:32

E alguém diz:

— Está vendo? Os sinais estavam todos lá.

Sim.

Estavam.

Mas existe uma pergunta crucial:

Eles pareciam ligados naquele momento?

Talvez não.


🎯 O problema da seta vermelha

Existe uma ferramenta extremamente perigosa em post-mortems.

A seta.

Depois do evento fazemos:

WARNING
   ↓
FILA CRESCEU
   ↓
JOB LENTO
   ↓
ERRO
   ↓
INCIDENTE

Perfeito.

Só existe um problema.

Na vida real talvez houvesse cinquenta eventos simultâneos:

WARNING A
WARNING B
CPU NORMAL
REDE NORMAL
JOB X LENTO
JOB Y NORMAL
USUÁRIO RECLAMOU
USUÁRIO PAROU DE RECLAMAR
FILA CRESCEU
FILA DIMINUIU
RC=04
RC=00
ALERTA DE STORAGE
CHAMADO DE SENHA
DEPLOY EM OUTRO SISTEMA
...

Depois que sabemos o final, escolhemos os cinco eventos certos.

Criamos uma narrativa elegante.

Mas o operador real estava olhando para o caos completo.


☕ Bellacosa Mainframe e o poder enganoso do RC=04

Voltemos ao nosso velho amigo:

JOB04217 ENDED - RC=0004

Depois que descobrimos que o incidente estava ligado àquela condição, parece natural dizer:

— Era só investigar o RC=04.

Mas lembre-se do episódio anterior.

Talvez aquele RC=04 aparecesse havia meses.

Talvez centenas de vezes sem consequência.

Então o raciocínio do operador era:

RC=04 conhecido
+
nenhum efeito anterior
=
provavelmente baixo risco

Depois do incidente, nosso raciocínio muda:

RC=04
+
incidente conhecido
=
obviamente perigoso

Veja como o resultado altera a interpretação.


🧩 O quebra-cabeça depois de montado

Hindsight bias é parecido com olhar para um quebra-cabeça pronto e dizer:

— Era evidente onde cada peça deveria ficar.

Claro.

Você está olhando para a imagem completa.

Experimente receber 2.000 peças sem caixa.

Essa é a realidade operacional.


👨‍💻 Um exemplo COBOL

Imagine este código:

IF WS-STATUS = 'A'
    PERFORM PROCESSA-CONTA
ELSE
    PERFORM TRATA-EXCECAO
END-IF.

Meses depois ocorre um incidente porque apareceu:

WS-STATUS = SPACE

Após investigar, alguém comenta:

— Era óbvio que deveriam testar SPACE.

Agora parece.

Mas quando o programa foi desenvolvido talvez os requisitos dissessem:

STATUS:
A = ativo
I = inativo

Nenhum documento mencionava SPACE.

Nenhum arquivo de teste possuía SPACE.

Nenhuma interface deveria produzir SPACE.

Então precisamos perguntar:

com o conhecimento disponível naquele momento, era realmente óbvio?

Talvez sim.

Talvez não.

Essa distinção importa.


⚖️ Hindsight Bias não é desculpa para qualquer coisa

Aqui precisamos ser cuidadosos.

Evitar hindsight bias não significa dizer:

“Ninguém poderia saber de nada.”

Existem situações previsíveis.

Existem alertas claros.

Existem controles ignorados conscientemente.

Existem negligência e violação.

A ideia é outra:

julgar decisões usando as informações disponíveis quando foram tomadas, e não apenas o conhecimento adquirido depois do desastre.

Essa é uma das bases de uma investigação justa.


🧠 Outcome Bias: o primo perigoso

Existe um viés relacionado chamado outcome bias.

Ele acontece quando avaliamos a qualidade de uma decisão principalmente pelo resultado.

Imagine dois operadores.

Operador A toma uma decisão arriscada.

Nada acontece.

Resultado:

— Excelente.

Operador B toma exatamente a mesma decisão uma semana depois.

Sistema cai.

Resultado:

— Irresponsável.

Mas a decisão foi a mesma.

O resultado diferente não deveria alterar completamente nossa avaliação do processo decisório.

Isso conecta perfeitamente com a Normalization of Deviance.

Uma decisão arriscada que “funciona” repetidamente pode ganhar reputação de boa prática.

Até falhar.


🎲 Sorte mascarada de competência

Imagine:

deploy sem rollback testado.

Primeira vez funciona.

Segunda também.

Décima também.

Equipe conclui:

nosso processo funciona.

Talvez funcione.

Ou talvez tenhamos tido sorte dez vezes.

Na décima primeira ocorre problema.

Depois:

— Era irresponsável fazer deploy sem rollback.

Sim.

Mas então por que os dez deploys anteriores foram comemorados?

Esse contraste revela outcome bias.


🚀 Challenger novamente entra na TARDIS

Eventos como Challenger são frequentemente estudados justamente porque mostram como é fácil, depois do desastre, olhar sinais anteriores e julgá-los como obviamente precursores.

Mas quem estava tomando decisões naquele momento trabalhava dentro de uma estrutura de informação, pressões, experiências anteriores, modelos mentais e expectativas específicas.

Isso não absolve decisões ruins.

Mas melhora a qualidade da investigação.

Uma pergunta poderosa é:

O que fazia sentido para essas pessoas naquele momento?

Se compreendermos isso, conseguimos alterar o sistema.

Se apenas dissermos:

“Eles deveriam ter percebido.”

aprendemos muito pouco.


🧀 Swiss Cheese + Normalization + Hindsight

Agora nossos três episódios começam a se encaixar.

Episódio 1 — Swiss Cheese

Existem várias barreiras imperfeitas.

Episódio 2 — Normalization of Deviance

Alguns buracos passam a ser tolerados porque nunca produziram desastre.

Episódio 3 — Hindsight Bias

Depois que os buracos finalmente se alinham, parece óbvio que o acidente aconteceria.

Temos então uma ironia extraordinária:

ANTES DO INCIDENTE:
“Isso sempre acontece. Está tudo bem.”

DEPOIS DO INCIDENTE:
“Era óbvio que isso era perigoso.”

A mesma organização pode dizer as duas frases.

Com poucas horas de diferença.


👻 Easter Egg nº 1 — Spoilers

Em Doctor Who existe uma palavra perfeita para explicar hindsight bias:

Spoilers.

Imagine River Song analisando um incidente.

Ela possui o diário.

Sabe o que acontecerá.

Naturalmente tudo parecerá muito mais previsível.

Mas o operador não possuía o diário.

Essa talvez seja a melhor metáfora da nossa série.

Um investigador pós-incidente possui spoilers.

Quem estava na operação não.


🔎 Como investigar sem cair no Hindsight Bias

Agora vamos transformar tudo isso em prática.

Passo 1 — Congele o conhecimento no tempo

Durante a reconstrução, pergunte:

O que essa pessoa sabia exatamente às 09:17?

Não use informações descobertas às 15:00.

Se a causa raiz só foi conhecida depois, ela não pode ser usada para julgar uma decisão anterior como se já estivesse disponível.

Isso parece simples.

Na prática é difícil.


🕰️ Passo 2 — Construa uma timeline cognitiva

Não registre apenas eventos técnicos.

Registre conhecimento.

Exemplo:

09:10
CPU sobe 5%.

Informação conhecida:
ainda dentro do baseline.
09:40
Fila aumenta.

Informação conhecida:
picos semelhantes ocorreram anteriormente.
10:05
Warning XYZ.

Informação conhecida:
warning havia ocorrido 47 vezes sem impacto.
13:50
Primeiras falhas.

Informação conhecida:
agora existe correlação clara.

Isso é muito mais rico que uma simples linha do tempo.


🧠 Passo 3 — Pergunte pelas hipóteses concorrentes

Hoje sabemos:

storage causou o incidente.

Mas às 11:00 talvez existissem cinco hipóteses:

rede;

aplicação;

Db2;

storage;

volume inesperado.

Investigar hindsight bias significa preservar essas possibilidades.

Não finja que existia apenas uma.


📊 Passo 4 — Reconstrua o dashboard original

Excelente exercício.

Não mostre ao investigador apenas o gráfico onde a causa aparece.

Mostre exatamente o que o operador via.

Se havia 20 painéis, mostre 20.

Se existiam 300 alertas, considere isso.

Talvez a verdadeira causa seja:

sinal importante enterrado em ruído.

Isso é uma descoberta operacional valiosa.


👥 Passo 5 — Entrevistas sem acusação

Evite perguntas como:

“Por que você ignorou esse alerta?”

A palavra “ignorou” já contém julgamento.

Prefira:

“O que esse alerta significava para você naquele momento?”

Outra:

“Que outras informações você estava considerando?”

Outra:

“O que você esperava que acontecesse?”

Essas perguntas revelam modelo mental.

E modelos mentais são ouro em investigação de incidentes.


🧩 Passo 6 — Pergunte o que parecia normal

Isso conecta com nossa Normalization of Deviance.

Esse comportamento já havia acontecido?

Qual era a consequência histórica?

A equipe tinha motivos para considerá-lo benigno?

Talvez você descubra que o operador não negligenciou um warning.

Ele reagiu exatamente como a organização o treinou informalmente a reagir.

Essa diferença é gigantesca.


🚨 Passo 7 — Procure os sinais que eram realmente discriminantes

Nem todo sinal anterior era útil.

Depois do incidente conseguimos encontrar dezenas de anomalias.

Mas quais poderiam realisticamente indicar aquele problema?

Isso evita criar controles para qualquer variação imaginável.

Caso contrário, o resultado será:

mais alertas.

Mais ruído.

Mais alarm fatigue.

E, ironicamente, menos segurança.


🛠️ Passo 8 — Melhore o sistema, não apenas a memória das pessoas

Depois de um incidente ouvimos:

“Da próxima vez todos saberão.”

Talvez.

Por seis meses.

Depois as pessoas mudam.

Documentação envelhece.

Novos funcionários chegam.

Se o aprendizado depende exclusivamente de memória humana, não é robusto.

Transforme aprendizado em:

alertas melhores;

limites claros;

automação;

validação;

runbooks;

testes;

guardrails;

observabilidade;

design.


🔁 Passo 9 — Teste a correção contra o próximo incidente, não o anterior

Esse ponto é fantástico.

Depois de um desastre, organizações podem construir uma defesa extremamente específica contra exatamente o que aconteceu.

Exemplo:

incidente ocorreu porque arquivo veio com data 00000000.

Correção:

IF WS-DATA = ZERO
    ...
END-IF.

Ótimo.

Mas amanhã chega:

99999999

Ou:

20261345

A lição deveria ser:

validar datas.

Não apenas:

bloquear zeros.

Aprenda o padrão, não somente o caso.


🧪 Passo 10 — Faça pre-mortem

Existe uma técnica extraordinariamente útil chamada pre-mortem.

Antes de uma mudança importante, imagine:

“Estamos seis horas no futuro. O deploy falhou de forma espetacular. Por quê?”

Agora peça para a equipe listar possibilidades.

Isso reduz parte do efeito de excesso de confiança.

Exemplo:

Deploy falhou porque:
- volume real era maior;
- rollback não funcionou;
- dependência externa mudou;
- dataset encheu;
- certificado expirou;
- parâmetro errado foi promovido;
- tabela ficou bloqueada.

Você está usando imaginação preventiva.

Quase uma TARDIS sem TARDIS.


🕵️ O iniciante COBOL pode ser extremamente valioso

Existe uma vantagem curiosa em ser iniciante.

Você ainda faz perguntas.

Veterano:

— Sempre termina RC=04.

Iniciante:

— Por quê?

Veterano:

— Porque sempre termina.

Iniciante:

— Sim, mas por quê?

Essa segunda pergunta pode salvar produção.

Não confunda experiência com infalibilidade.

E não confunda ingenuidade com inutilidade.

Às vezes quem chegou ontem consegue enxergar uma suposição invisível para quem está há vinte anos no ambiente.


☕ A pergunta Bellacosa

Quando alguém disser:

“Era óbvio.”

Pergunte:

“Era óbvio antes ou ficou óbvio depois?”

Essa pergunta deveria entrar em todo post-mortem.

Porque obriga o grupo a separar:

previsibilidade real;

conhecimento retrospectivo.


📚 Curiosidade: nossos cérebros reescrevem narrativas

Seres humanos gostam de histórias coerentes.

Depois de saber o resultado, reorganizamos eventos anteriores em uma narrativa que faça sentido.

O problema é que sistemas complexos não acontecem como romances policiais.

A realidade possui:

ruído;

informação incompleta;

dados contraditórios;

decisões simultâneas;

prioridades conflitantes.

O post-mortem, entretanto, tende a transformar tudo em uma linha elegante.

Cuidado com narrativas elegantes demais.

A realidade costuma ser mais bagunçada.


🕸️ Sistemas complexos possuem muitos futuros possíveis

Às 09:00 talvez existissem vários futuros:

A → sistema normaliza sozinho
B → operador corrige
C → alerta desaparece
D → degradação continua
E → incidente grave

Depois que E acontece, nossa mente tende a apagar A, B, C e D.

Parece que E sempre foi destino.

Não era.

Era uma possibilidade.

Essa distinção é fundamental para entender risco.


🎯 Previsão não é retrospectiva

Existe uma diferença enorme entre dizer:

“Eu teria previsto.”

e realmente possuir uma previsão registrada antes.

Quer testar?

Antes de uma mudança, escreva riscos.

Depois compare.

Você descobrirá algo humilhante e maravilhoso:

somos muito menos profetas do que imaginamos.


📝 Diário de previsões

Uma técnica interessante para equipes maduras:

antes de grandes mudanças, registre:

  • riscos esperados;

  • sinais esperados;

  • probabilidades;

  • pontos de rollback;

  • critérios de abortar.

Depois do evento, compare.

Isso reduz a ilusão:

“Nós sabíamos.”

Se sabíamos, deveria existir algum registro.


👽 Easter Egg nº 2 — O Dalek pós-mortem

Imagine um Dalek participando do post-mortem.

Provavelmente sua análise seria:

EXTERMINATE!
EXTERMINATE!
OPERATOR ERROR!
EXTERMINATE!

Muito eficiente.

Pouquíssimo aprendizado.

Infelizmente, algumas organizações fazem algo semelhante.

Apenas com PowerPoint.


⚖️ Blameless Post-Mortem novamente

Nossa série está construindo uma filosofia.

Blameless não significa:

ninguém erra.

Significa:

queremos compreender por que a decisão parecia razoável naquele contexto.

Se encontramos dolo ou negligência grave, tratamos.

Mas se encontramos uma pessoa agindo de acordo com incentivos, ferramentas e conhecimento disponíveis, precisamos melhorar o sistema.

Caso contrário trocamos a pessoa.

E preservamos o incidente.


🧯 A diferença entre causa e gatilho

Muitos post-mortems confundem essas coisas.

Exemplo:

Comando errado
   ↓
incidente

Comando errado foi o gatilho.

Mas talvez existissem:

permissão excessiva;

interface confusa;

ausência de dupla confirmação;

pressão;

procedimento incompleto;

falta de rollback;

ambiente parecido com homologação.

A pergunta útil não é apenas:

Quem puxou o gatilho?

É:

Por que havia uma arma carregada apontada para produção?


🧠 Hindsight Bias na gestão

Imagine um projeto.

Equipe alerta:

Existe 20% de risco de atraso.

Projeto atrasa.

Diretor:

— Eu sabia que atrasaria.

Talvez.

Mas se terminasse no prazo, provavelmente ninguém diria:

— Eu sabia que havia 20% de risco.

Probabilidade desaparece depois do resultado.

Isso acontece em:

projetos;

segurança;

finanças;

medicina;

engenharia;

operações.

Nosso cérebro prefere certezas retrospectivas.


🔍 Como detectar Hindsight Bias numa reunião

Escute estas frases:

“Era óbvio.”

“Qualquer um perceberia.”

“Isso inevitavelmente aconteceria.”

“Como ninguém viu?”

“Eu sempre disse.”

“Bastava olhar.”

Pare.

Pergunte:

Qual informação estava disponível antes?

Depois:

Quem realmente identificou isso antes?

Depois:

Essa preocupação estava registrada?

Agora começamos a separar percepção real de memória reconstruída.


🧬 Regeneração organizacional

No final de cada episódio nossa organização precisa regenerar.

No caso do Hindsight Bias, regeneração significa mudar a pergunta.

Em vez de:

“Quem deveria ter sabido?”

pergunte:

“Como podemos tornar esse risco mais perceptível no futuro?”

Em vez de:

“Por que ele não viu?”

pergunte:

“Como a informação estava apresentada?”

Em vez de:

“Era óbvio.”

pergunte:

“O que tornaria isso óbvio antes?”

Essa última pergunta é maravilhosa.

Porque transforma julgamento em engenharia.


📓 Diário do Doctor

Se você lembrar apenas algumas coisas desta viagem, guarde estas:

Hindsight Bias faz o passado parecer mais previsível depois que conhecemos o resultado.

Investigadores possuem spoilers; operadores não.

Uma timeline pós-incidente pode criar uma narrativa muito mais clara do que a realidade original.

Decisões precisam ser avaliadas usando informações disponíveis naquele momento.

Resultado ruim não significa automaticamente decisão ruim.

Resultado bom não significa automaticamente decisão boa.

Pergunte quais hipóteses concorrentes existiam.

Reconstrua o que a pessoa realmente via.

Evite transformar “erro humano” em ponto final.

Transforme conhecimento retrospectivo em melhores mecanismos futuros.

E, principalmente:

Nunca confunda “agora eu entendo” com “antes era óbvio”.


🕰️ De volta às 08:17

O Doctor entra na TARDIS.

Nosso programador COBOL o acompanha.

— Podemos voltar para antes do incidente?

— Claro.

VWORP.

VWORP.

VWORP.

08:17.

Console normal.

Produção funcionando.

Na tela:

WARNING XYZ456

O programador aponta.

— Está ali!

— Sim.

— Então era óbvio!

O Doctor aponta para outra tela.

WARNING ABC122
WARNING TYU991
RC=04
QUEUE +3%
CPU +2%
STORAGE NORMAL
NETWORK NORMAL

Depois outra.

Mais dezenas de mensagens.

Chamados.

Emails.

Mudanças.

Processamentos.

O jovem fica quieto.

O Doctor pergunta:

— Ainda parece óbvio?

— Menos.

— Excelente.

— Então ninguém poderia perceber?

— Não foi isso que eu disse.

O Doctor sorri.

— Nossa tarefa é descobrir o que teria tornado aquela pista distinguível das outras.

Eles voltam para a TARDIS.

Antes de fechar a porta, o Doctor olha novamente para o console.

— Ah, e mais uma coisa.

— O quê?

— Cuidado com qualquer post-mortem em que tudo pareça fazer sentido demais.

A porta fecha.

VWORP.

VWORP.

VWORP.


🥚 Easter Egg final

Horas depois, nosso programador abre um dataset antigo chamado:

BELLACOSA.INCIDENTS.TIMELORD

Dentro existe apenas:

IF YOU ALREADY KNOW THE END
    EVERYTHING LOOKS OBVIOUS
END-IF.

Ele procura quem criou o membro.

O RACF mostra:

USERID: RSONG

Estranho.

A conta não existe há anos.

No comentário final existe apenas:

* SPOILERS.

O telefone toca.

É produção.

Outro alerta apareceu.

Nosso jovem programador olha para ele.

Dessa vez não pergunta:

“Isso vai causar incidente?”

Pergunta algo muito melhor:

“O que sabemos agora, sem usar o futuro para completar a história?”

E talvez seja assim que profissionais começam realmente a aprender com falhas.

Não tentando provar que poderiam prever o passado.

Mas construindo sistemas capazes de perceber melhor o futuro.

☕🌀

Next stop: Confirmation Bias — quando começamos a investigação procurando evidências de que nossa primeira teoria estava certa… e ignoramos educadamente todo o resto.


domingo, 7 de março de 2010

URUPÊS — AQUELE LUGAR ONDE O MUNDO ABRIA OS BRAÇOS

 

Bellacosa Mainframe e as memorias de infância em Urupês

URUPÊS — AQUELE LUGAR ONDE O MUNDO ABRIA OS BRAÇOS

Se Ibitinga foi meu laboratório de aventuras, Urupês foi meu estaleiro de horizontes — aquela fase da vida em que o menino paulistano, criado entre filmes, fotos, câmeras e luzes, descobria que existia um mundo inteiro além da cinzenta e opressora capital paulista.

O caminho até Urupês já era um acontecimento. Estradas vazias, quase hipnotizantes, com apenas o ronco do fusquinha vermelho (aquele guerreiro 1960 que enfrentava cascalho, poeira, barro e buracos como se fosse um tanque de guerra miniaturizado). As cidades dormiam ao redor da estrada. Só o vento, o sol e algum caminhoneiro perdido sabiam que vocês passavam por ali.

E ali, naquele pequeno ponto no mapa do Noroeste paulista, ficavam os parentes espanhóis espalhados, meio raiz, meio lenda, sempre com a oficina de tratores como um farol, uma fazenda ou uma história para contar.
Tinha o primo Eduardo da oficina de tratores, tinha o velho Wilson, meu pai, naquela época moço na casa dos trinta anos, uma figura única, boa praça, carismático, sarrista, centro das atenções onde estivesse, um contador de causos, de piadas e de vergonhas alheias — inclusive aquela famosa e indecente do vereador e o galinheiro, que você jura que um dia vai contar.

Mas o que pega na memória mesmo não é o povo — é o ambiente.


Urupês tinha cheiro.

Cheiro de lenha queimada no fogão, cheiro de terra molhada depois da chuva, cheiro de curral, de capim amassado pelo cascos dos bois.

Urupês tinha sons.

O bater da chuva no telhado sem forro.
O rangido dos móveis antigos.
O canto enlouquecido das maritacas.
O mugir manso do gado.
E o coro dos grilos ao entardecer, aquele som que parecia dizer:
— Fica mais, menino. Você não precisa ir embora tão cedo.



Urupês tinha perigos.

Perigos verdadeiros, naturais, selvagens, como a galinha choca possuída pelo demônio que me perseguiu quintal adentro, defendendo o pintainho que achei que podia pegar como quem pega um brinquedo.
Ali você aprendi rápido o conceito de “instinto maternal”, “risco de vida” e “corre senão ela te acerta”.

Urupês tinha magia.

Calhambeques semi-abandonados que se tornavam naves espaciais.
Café colhido na hora, seco no rancho, torrado e moido.
Riachos que viravam mundos.
Ninhos de joão-de-barro que pareciam pequenas cidades.
Tucanos, maritacas e papagaios que faziam mais barulho que o trânsito de São Paulo.
Cavalos que pareciam saídos de livros de aventura.

E o mais importante:


Urupês te deu dimensão.

Me fez perceber que meu mundo era muito maior que o quarteirão cinzento da cidade grande.
Que existia um mundo imenso além da Vila Rio Branco na Ponte Rasa.

Que fronteiras não eram paredes.
Que horizontes eram convites.

Talvez tenha sido ali — entre poeira, galinha furiosa, cheiro de lenha e viagens intermináveis — que nasceu a minha vocação de não aceitar limites.
De ser alguém sempre em movimento, buscando, aprendendo, explorando, criando.

Um menino que viu o mundo se abrir em quilômetros antes de se abrir em mãos.

E Urupês, assim como Ibitinga, ficou marcado no meu peito como essas memórias que aquecem em dia frio e lembram:
— Sim, eu vim daqui. Eu me fiz aqui. E tudo isso ainda vive em mim.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Notícias Populares: Tarantino, COBOL e o Jornal que Espremia e Saía Sangue

 

Bellacosa Mainframe e o jornal noticias populares

☕ Um Café no Bellacosa Mainframe

Notícias Populares: Tarantino, COBOL e o Jornal que Espremia e Saía Sangue

🩸 Crime, sexo, Bebê-Diabo, ditadura, censura, bancas, manchetes impossíveis e a extraordinária história do jornal que transformou São Paulo num filme de Quentin Tarantino décadas antes de Tarantino filmar Pulp Fiction

Imagine, jovem padawan do COBOL, que você saiu do trabalho em 1987.

Não existe smartphone.

Não existe Google.

Não existe X.

Não existe Instagram.

Não existe portal de notícias.

Não existe WhatsApp.

E, evidentemente, ninguém recebeu ainda no grupo da família um vídeo de procedência duvidosa acompanhado da mensagem:

URGENTE!!! REPASSEM ANTES QUE APAGUEM!!!

Para descobrir o que aconteceu no mundo, você passa diante de uma banca de jornal.

E ali está o algoritmo de recomendação de 1987.

Só que feito de madeira, metal, barbante e pregadores.

Dezenas de jornais e revistas estão expostos. Alguns pendurados. Outros sobrepostos. As capas disputam fisicamente alguns centímetros do seu campo de visão.

Folha.

Estadão.

Jornal da Tarde.

Gazeta Esportiva.

Revistas.

Quadrinhos.

E então aparece uma coisa que parece ter sido diagramada por alguém que misturou jornalismo policial, filme B, programa de auditório, revista masculina, conversa de boteco e uma quantidade preocupante de café.

NOTÍCIAS POPULARES.

O NP.

Você não precisava comprar.

Bastava enxergar a manchete.

E a manchete praticamente agarrava você pelo colarinho.

O jornal circulou de 1963 a 2001 e ficou marcado justamente pela combinação de textos curtos, muitas fotografias e títulos de enorme impacto. Em sua fase clássica, crime, sexo, violência, escatologia, celebridades, futebol e acontecimentos sobrenaturais conviviam alegremente no mesmo produto editorial.

Se Quentin Tarantino tivesse nascido no Brás e trabalhado como repórter policial antes de dirigir cinema, talvez alguma coisa parecida tivesse acontecido.

Só faltava Samuel L. Jackson entrar na redação e perguntar:

— E o fechamento, motherf...?


CAPÍTULO I — ERA UMA VEZ UMA INTERNET DE PAPEL

Para compreender o Notícias Populares é preciso cometer um erro muito comum em manutenção de legado:

não analisar o programa sem analisar o ambiente em que ele executava.

Um COBOL de 1973 parece estranho quando retirado de seu contexto.

O NP também.

O Brasil que viu o jornal nascer, em 15 de outubro de 1963, era muito diferente do Brasil digital.

A televisão estava crescendo.

O rádio tinha enorme importância.

O país atravessava urbanização acelerada.

Milhares de pessoas migravam para grandes centros industriais.

São Paulo crescia violentamente.

Havia trabalhadores com pouca escolarização formal e enormes desigualdades educacionais.

Aqui vale corrigir uma simplificação importante.

Não seria justo dizer simplesmente:

“O NP existia porque o povo brasileiro não sabia ler.”

Não.

O fenômeno é mais interessante.

Existiam índices elevados de analfabetismo e escolarização limitada, mas também existia uma enorme população leitora com diferentes graus de letramento, habituada a formas mais diretas e orais de comunicação.

O NP compreendeu isso extraordinariamente bem.

Ele reduziu a complexidade sintática.

Usou títulos enormes.

Preferiu frases curtas.

Explorou fotografias.

Empregou vocabulário cotidiano.

Transformou assuntos complexos em narrativas.

Em linguagem de sistemas:

INPUT:
acontecimento complexo

PROCESS:
simplificação
personificação
emoção
imagem
humor
sexo
violência
curiosidade

OUTPUT:
MANCHETE IMPOSSÍVEL DE IGNORAR

Isso também explica por que chamar seu público simplesmente de “ignorante” seria perder justamente a parte mais interessante da história.

O leitor do NP podia ter pouca educação formal e, ao mesmo tempo, possuir enorme conhecimento prático do trabalho, da cidade, do transporte, do sindicato, do futebol e da sobrevivência urbana.

O jornal aprendeu a falar a língua desse público.


CAPÍTULO II — O NASCIMENTO ÀS VÉSPERAS DO GOLPE

Aqui a história fica politicamente muito mais interessante.

O NP foi lançado em 1963 pelo empresário Herbert Levy, tendo Jean Mellé como figura fundamental de sua concepção e primeira direção editorial. A intenção original envolvia disputar o público popular da Última Hora, jornal associado a Samuel Wainer e ao campo político ligado ao trabalhismo. Fontes históricas descrevem o projeto inicial como uma tentativa de criar um jornal popular politicamente conservador.

E olhe a data:

1963.

Um ano antes do golpe militar de 1964.

O Brasil fervia.

João Goulart.

Reformas de Base.

Movimento sindical.

Guerra Fria.

Anticomunismo.

Conflitos empresariais.

Estados Unidos e União Soviética disputando influência mundial.

As Forças Armadas no centro da crise.

E havia a Última Hora falando diretamente com parcelas populares.

A ideia era disputar esse espaço.

Só que aconteceu uma coisa deliciosamente digna de sistema legado.

O requisito original perdeu importância.

O produto sobreviveu.

Depois do golpe de 1964, aquele propósito político inicial tornou-se menos necessário. Em 1965, o jornal passou para o controle do grupo que viria a constituir o Grupo Folha.

É o equivalente jornalístico de:

* ESTA ROTINA FOI CRIADA PARA UMA REGRA DE 1963.
* A REGRA NÃO EXISTE MAIS.
* A ROTINA CONTINUA SENDO EXECUTADA.

Todo COBOLzeiro imediatamente se sente em casa.


CAPÍTULO III — IMPRENSA AMARELA NÃO É LISTA TELEFÔNICA

Quando falamos em imprensa amarela, não estamos falando das antigas Páginas Amarelas do telefone.

Estamos falando de yellow journalism ou yellow press.

O conceito nasceu ligado à imprensa sensacionalista de grande circulação: manchetes enormes, acontecimentos dramáticos, crimes, escândalos, histórias humanas, sexo, curiosidades e exploração emocional.

No Brasil popularizou-se também a expressão:

imprensa marrom.

A tradição remonta à penny press e à yellow press do século XIX e reaparece em diferentes formatos no jornalismo popular brasileiro.

O NP levou a fórmula a um nível quase industrial.

Se fosse arquitetura de software:

NOTÍCIA
   |
   +--> medo
   |
   +--> sexo
   |
   +--> curiosidade
   |
   +--> indignação
   |
   +--> humor
   |
   +--> identificação popular
   |
   +--> MANCHETE

Era um engagement engine analógico.


CAPÍTULO IV — O ALGORITMO ERA A BANCA

Aqui está uma coisa que uma geração criada com celulares talvez tenha dificuldade de visualizar.

A banca de jornal era uma interface gráfica urbana.

E era maravilhosa.

Havia revistas penduradas.

Jornais dobrados.

Capas sobrepostas.

Publicações presas em varais e expositores.

Gente esperando ônibus.

Gente saindo do trabalho.

Gente parando alguns minutos.

Gente que não comprava absolutamente nada, mas lia todas as manchetes disponíveis.

Era o Google News da calçada.

O jornaleiro era o algoritmo.

— Chegou aquela revista?

— Chegou.

— Tem jornal do concurso?

— Ali.

— Saiu o resultado do jogo?

— Primeira página.

E havia um fenômeno importantíssimo:

uma única cópia tinha dezenas de leitores visuais.

Hoje contamos pageviews.

Na banca, ninguém sabia quantos olhos haviam processado uma capa.

O NP compreendeu perfeitamente essa economia da atenção.

Sua primeira página precisava funcionar a cinco metros de distância.

Isso significa:

tipografia enorme + fotografia + poucas palavras + emoção.

É praticamente a ciência moderna da thumbnail do YouTube aplicada em papel-jornal.


CAPÍTULO V — TARANTINO ENTRA NA REDAÇÃO

Agora imaginemos Quentin Tarantino analisando uma pilha de Notícias Populares.

Ele provavelmente reconheceria imediatamente vários elementos de sua própria gramática cinematográfica.

Violência exagerada.

Humor dentro da tragédia.

Personagens marginais.

Sexo.

Grotesco.

Cultura popular.

Diálogos aparentemente absurdos.

Criminalidade.

Situações inacreditáveis.

O extraordinário misturado ao cotidiano.

Uma pessoa pega o ônibus.

Outra mata o vizinho.

Outra encontra um lobisomem.

Uma celebridade desapareceu.

Alguém viu um disco voador.

Uma mulher está seminua na contracapa.

O Corinthians perdeu.

Tudo pertence ao mesmo universo narrativo.

É quase:

Pulp Journalism.


CAPÍTULO VI — AS MANCHETES

Algumas manchetes tornaram-se parte do folclore jornalístico brasileiro.

Uma das mais famosas foi:

“Nasceu o Diabo em São Paulo”

Apareceu em 1975 e iniciou a lendária saga do Bebê-Diabo. O sucesso foi tão grande que a história continuou durante várias edições, transformando uma narrativa inicialmente ligada ao nascimento de uma criança com deformidades em uma verdadeira novela sobrenatural.

Outra manchete documentada pela própria história do jornal:

“Violada em pleno auditório”

O contexto?

Sérgio Ricardo havia quebrado o violão durante o Festival de Música Popular Brasileira de 1967.

O “violado” era o violão.

A construção deliberadamente ambígua fazia o resto.

Também apareceu:

“Desapareceu Roberto Carlos”

O contato com o cantor não havia sido conseguido nos Estados Unidos, e a história ganhou dimensão espetacular.

Havia ainda lobisomens, discos voadores, crimes improváveis, histórias sexuais e personagens urbanos transformados em celebridades instantâneas. O acervo histórico preserva, por exemplo, uma primeira página de 1974 dedicada a um suposto lobisomem pernambucano.

O NP compreendia algo fundamental:

a manchete não precisava contar a história inteira.

Precisava obrigar você a executar:

READ NEXT RECORD

CAPÍTULO VII — O BEBÊ-DIABO ERA O CLICKBAIT ANTES DO CLICK

O Bebê-Diabo merece uma parada especial.

A capa anuncia:

NASCEU O DIABO EM SÃO PAULO.

Venda espetacular.

E alguém percebe:

— Meu Deus.

— O quê?

— Vendeu tudo.

— Então o Diabo volta amanhã.

E voltou.

A criatura passou a protagonizar novas histórias.

Aparecia aqui.

Desaparecia ali.

Assustava gente.

Era visto em telhados.

Pegava táxi.

A narrativa continuou por semanas. A história acabou reconhecida como uma construção ficcional da redação e tornou-se talvez o exemplo máximo da mistura de jornalismo, folclore urbano e entretenimento que caracterizou o NP.

Hoje chamaríamos isso de:

retenção de audiência.

Ou:

story arc.

Ou:

conteúdo serializado.

Em 1975:

vende jornal pra cacete.


CAPÍTULO VIII — CRIME: ESPREME QUE SAI SANGUE

A fama do NP também vinha de sua cobertura policial.

Assassinatos.

Acidentes.

Corpos.

Criminosos.

Vítimas.

Delegacias.

Tragédias.

A violência podia aparecer de maneira gráfica que dificilmente seria aceita por muitos veículos generalistas atuais.

Essa estética produziu a célebre descrição:

“espreme que sai sangue”.

Mas há uma contradição importante.

A cobertura policial também dava visibilidade a personagens que raramente apareciam nas páginas nobres da grande imprensa.

Operário.

Empregada doméstica.

Morador da periferia.

Desempregado.

Prostituta.

Motorista.

Pequeno comerciante.

Migrante.

Criminoso de bairro.

Vítima desconhecida.

Era frequentemente uma representação brutal e exploratória.

Mas era representação.

O sujeito que jamais apareceria na coluna social podia ocupar meia primeira página do NP.


CAPÍTULO IX — SEXO VENDE. E O NP SABIA.

E chegamos ao subsistema que provavelmente teria recebido:

PROGRAM-ID. SEX-SELLS.

O NP utilizou extensamente erotismo.

Mulheres seminuas.

Nudez.

Modelos.

Atrizes.

Histórias sexuais.

Duplo sentido.

Escândalos amorosos.

Personagens sexualizados.

Em determinadas fases, mulheres nuas ou seminuas na contracapa tornaram-se parte reconhecível da fórmula editorial. Décadas depois, reproduções históricas dessas capas chegaram a enfrentar moderação automática nas redes sociais justamente por conter nudez.

Isso também revela uma mudança cultural enorme.

Aquilo que podia ficar pendurado numa banca no meio da rua, visível a qualquer transeunte, posteriormente poderia ser removido de uma plataforma digital.

A censura mudou de arquitetura.

Antes:

ESTADO
   |
CENSOR
   |
JORNAL

Hoje pode existir:

PLATAFORMA
   |
POLÍTICA DE CONTEÚDO
   |
ALGORITMO
   |
POST

Mudamos o middleware.

A discussão permaneceu.


CAPÍTULO X — DITADURA, CENSURA E A GRANDE CONTRADIÇÃO

O NP atravessou praticamente todo o regime militar brasileiro de 1964 a 1985.

E isso torna sua história fascinante.

Durante a ditadura, a imprensa brasileira conviveu com censura, pressões políticas, autocensura e perseguição a jornalistas.

Mas jornais não foram afetados exatamente da mesma maneira.

E o NP possuía uma característica peculiar.

Grande parte de sua energia editorial estava direcionada para:

crime, sexo, celebridades, futebol, bizarrices e cotidiano.

Enquanto jornais políticos podiam travar batalhas sobre governo, economia e repressão, o NP podia colocar um lobisomem na capa.

Há aqui uma ironia quase tarantinesca:

em um país onde determinados assuntos políticos eram perigosos demais para imprimir, um Bebê-Diabo podia tornar-se protagonista nacional.

Isso não significa que o jornal estivesse fora do sistema político ou imune à censura.

Significa que seu modelo editorial ocupava um espaço diferente.


CAPÍTULO XI — MAS QUEM CENSURA O MAU GOSTO?

Depois aparece outra discussão.

Não censura política.

Censura moral.

Até onde um jornal pode mostrar um cadáver?

Até onde pode explorar sexualmente uma capa?

Até onde pode publicar nudez?

Até onde pode transformar sofrimento humano em entretenimento?

Em 1994, a própria Folha registrava que o NP havia vencido disputas judiciais contra tentativas de obrigá-lo a circular lacrado, enquanto enfrentava outras controvérsias judiciais relacionadas ao conteúdo publicado.

Essa discussão continua atualíssima.

Troque:

banca

por:

timeline

e o problema reaparece.

Quem decide?

O Estado?

A plataforma?

O editor?

O algoritmo?

O leitor?


CAPÍTULO XII — HUMOR: O COMPONENTE QUE MUITA GENTE ESQUECE

Quem reduz o NP apenas a sangue e mulheres nuas perde uma característica fundamental:

ele podia ser tremendamente engraçado.

Às vezes propositalmente.

Às vezes involuntariamente.

Às vezes não havia sequer como saber.

O título possuía ritmo de piada.

Preparação.

Suspense.

Punchline.

A realidade era convertida em espetáculo linguístico.

Era quase uma tradição de boteco aplicada ao jornalismo.

O leitor podia pensar simultaneamente:

— Isso é horrível.

— Isso é absurdo.

— Isso não pode ser verdade.

— HAHAHAHAHAHAHA.

— Quanto custa?

Essa combinação é profundamente tarantinesca.

Você ri de alguma coisa da qual talvez não devesse rir.


CAPÍTULO XIII — O JORNAL TAMBÉM ERA SERVIÇO

Mas existe outro NP escondido atrás do Bebê-Diabo.

O jornal do trabalhador.

Emprego.

Sindicato.

Transporte.

Problemas urbanos.

Futebol.

Serviços.

Histórias dos bairros.

Problemas que afetavam diretamente as classes populares.

Essa dimensão é importante porque impede uma caricatura fácil.

O NP não era simplesmente:

CRIME + PEITO + DEMÔNIO

Era uma mistura muito mais complicada de jornalismo popular, serviço, entretenimento, sensacionalismo e exploração comercial da curiosidade humana.

Essa ambiguidade explica parte de sua longevidade.


CAPÍTULO XIV — 113 MIL EXEMPLARES

O negócio funcionou.

E muito.

Em 1986, a circulação média chegou a aproximadamente 113 mil exemplares diários.

Depois caiu para 71 mil em 1988.

Uma reforma gráfica e editorial iniciada em 1990 recuperou público, levando novamente a circulação para cerca de 104 mil exemplares naquele ano.

Observe o detalhe.

Não estamos falando de impressão de página web.

Cada exemplar precisava:

ser impresso,

dobrado,

empacotado,

transportado,

distribuído,

entregue à banca

e finalmente comprado.

Era uma infraestrutura física monstruosa.


CAPÍTULO XV — AS BANCAS ERAM AS REDES SOCIAIS

Imagine uma manhã em São Paulo.

Ônibus chegando.

Gente atravessando rua.

Café.

Cigarro.

Buzina.

Jornaleiro abrindo pacotes.

Os jornais são colocados no varal.

Um sujeito para.

Outro olha por cima do ombro.

Outro comenta:

— Você viu isso?

Pronto.

Temos:

POST       = capa
FEED       = banca
LIKE       = comentário
SHARE      = contar para colega
TRENDING   = multidão olhando
ALGORITHM  = jornaleiro
CLICK      = comprar

E havia algo maravilhoso:

o lurker analógico.

O cidadão que lia todas as manchetes e jamais comprava jornal algum.

O terror do modelo de monetização desde 1972.


CAPÍTULO XVI — TARANTINO ENCONTRA O NP

Agora podemos voltar ao nosso diretor imaginário.

Tarantino provavelmente compreenderia o Notícias Populares porque ambos trabalham com uma pergunta semelhante:

Até onde podemos levar a cultura popular antes que ela se transforme em grotesco?

Em Tarantino, a violência pode ser horrível e engraçada.

No NP também.

O sexo pode ser desejo, exploração e piada.

No NP também.

O criminoso pode virar personagem.

No NP também.

O absurdo pode coexistir com acontecimentos reais.

No NP também.

E principalmente:

ninguém está tentando parecer elegante.

O produto assume sua vulgaridade.

Isso é fundamental.

O NP não queria parecer o New York Times.

Ele queria que você parasse diante da banca.


CAPÍTULO XVII — ENTÃO VEIO A TELEVISÃO E ROUBOU O CÓDIGO-FONTE

Nos anos 1990 apareceu um concorrente devastador.

A televisão percebeu:

— Espera aí.

Crime funciona.

Tragédia funciona.

Perseguição funciona.

Repórter gritando funciona.

Popular funciona.

Programas como Aqui Agora levaram parte dessa estética para a televisão.

Depois outros programas policiais continuaram explorando a fórmula.

O que antes precisava ser imaginado através de uma fotografia agora aparecia:

em movimento.

Com som.

Sirene.

Repórter.

Helicóptero.

Ao vivo.

O NP encontrou um problema clássico de TI:

sua interface foi copiada por uma plataforma tecnologicamente mais atraente.


CAPÍTULO XVIII — O FIM

Em 20 de janeiro de 2001, saiu a última edição.

A circulação havia despencado para cerca de 20 mil exemplares diários.

Para comparar:

1986:

113.000

2001:

20.000

O Grupo Folha decidiu concentrar seu jornalismo popular no Agora São Paulo, que naquele momento circulava aproximadamente 118 mil exemplares por dia. A direção afirmou que o modelo do NP havia se esgotado.

Também pesavam a dificuldade comercial, a resistência de anunciantes, mudanças no mercado e a concorrência de novas formas de jornalismo popular.

O processo vinha ocorrendo havia anos:

1994 — 99 mil.

1996 — 74 mil.

1998 — 48 mil.

2001 — 20 mil.

O batch estava morrendo lentamente.

Até alguém executar:

//NP      JOB
//STEP01  EXEC PGM=ENCERRA
//SYSOUT  DD SYSOUT=*
//

RC=0000

37 anos.

Fim.


CAPÍTULO XIX — OU TALVEZ NÃO

Porque aqui está o maior easter egg desta história.

O Notícias Populares morreu?

O jornal, sim.

A arquitetura?

HAHAHAHAHAHA.

Não.

Olhe sua timeline.

URGENTE!

CHOCANTE!

VOCÊ NÃO VAI ACREDITAR!

VEJA O QUE ACONTECEU!

IMAGENS FORTES!

POLÊMICA!

BOMBA!

ABSURDO!

Reconheceu?

O NP não desapareceu.

Ele foi portado para a Web.


CAPÍTULO XX — O NP ERA UM ALGORITMO HUMANO

A redação havia descoberto empiricamente coisas que hoje chamamos de:

  • engagement;

  • click-through rate;

  • emotional triggering;

  • visual hierarchy;

  • retention;

  • cliffhanger;

  • serialização;

  • curiosity gap;

  • personalização por público;

  • linguagem otimizada;

  • conteúdo viral.

Não havia machine learning.

Havia jornalista.

Não havia dashboard em tempo real.

Havia:

VENDEU?

Se a resposta fosse sim:

PERFORM FAZ-DE-NOVO
    UNTIL CIRCULACAO = ZERO
END-PERFORM.

O Bebê-Diabo foi praticamente um mecanismo de retenção serializado.


CAPÍTULO XXI — E O “POVO SEM LETRAMENTO”?

Voltamos ao ponto mais delicado.

É tentador olhar para aquelas capas hoje e concluir:

“Funcionavam porque o público era ignorante.”

Seria uma conclusão confortável.

E provavelmente errada.

Porque as mesmas técnicas funcionam hoje com:

executivos,

engenheiros,

médicos,

advogados,

professores,

programadores,

mestres,

doutores

e pessoas com três monitores exibindo dashboards.

O problema não é simplesmente alfabetização.

É psicologia humana.

Medo chama atenção.

Sexo chama atenção.

Perigo chama atenção.

Curiosidade chama atenção.

Violência chama atenção.

O extraordinário chama atenção.

Somos Homo sapiens antes de sermos usuários autenticados.

A diferença é que o NP precisava convencer um cidadão caminhando pela calçada.

Hoje o recomendador sabe exatamente qual Bebê-Diabo mostrar para cada pessoa.

E isso é muito mais poderoso.


CAPÍTULO XXII — O VERDADEIRO LEGADO

O Notícias Populares é uma cápsula cultural brasileira.

Nele encontramos simultaneamente:

ditadura,

urbanização,

migração,

violência,

desigualdade,

sexualidade,

machismo,

humor,

moralismo,

religiosidade,

superstição,

televisão,

futebol,

celebridades,

criminalidade,

publicidade,

censura,

liberdade de imprensa

e cultura popular.

Por isso suas capas parecem absurdas hoje.

Elas são snapshots de memória.

SYS1.BRASIL.HISTORIA.NP

Cada edição preserva não apenas aquilo que aconteceu.

Preserva aquilo que uma sociedade desejava ver.

E talvez isso seja ainda mais importante.


EPÍLOGO — PULP FICTION NA BANCA

Imagine a cena final.

São Paulo.

Final dos anos 1980.

Seis horas da manhã.

Ônibus passando.

Um bar abrindo.

Café sendo servido num copo americano.

A banca está cheia.

O jornaleiro prende jornais no varal.

Um trabalhador aproxima-se.

Olha uma capa.

Para.

Franze a testa.

Outro sujeito olha também.

Um terceiro aproxima-se.

Ninguém sabe ainda que existe uma coisa chamada Internet comercial.

Ninguém ouviu falar em SEO.

Não existe trending topic.

Não existe feed personalizado.

Não existe recomendador.

Não existe botão compartilhar.

Mas existe uma manchete enorme anunciando alguma combinação absolutamente improvável de:

crime + sexo + tragédia + celebridade + sobrenatural.

O primeiro homem comenta:

— Você viu essa porra?

O segundo responde:

— Vi.

O terceiro pergunta:

— O que aconteceu?

E a informação começa a circular.

Tarantino poderia congelar a imagem exatamente aí.

Entraria uma guitarra surf dos anos 1960.

A tela ficaria vermelha.

E surgiria:

NOTÍCIAS POPULARES

Nada mais que a verdade.

Corta.

Créditos.

Mas o COBOLzeiro permanece sentado diante do terminal.

Porque ele percebeu uma coisa inquietante.

O Notícias Populares foi encerrado em 2001.

O código-fonte comportamental que fazia o Notícias Populares funcionar continua executando.

A banca virou feed.

O varal virou timeline.

A manchete virou thumbnail.

O jornaleiro virou algoritmo.

O Bebê-Diabo virou conteúdo viral.

A disputa por centímetros de papel virou disputa por pixels.

E as centenas de pessoas que paravam diante das bancas para ler gratuitamente as manchetes viraram bilhões de dedos fazendo:

SCROLL
SCROLL
SCROLL
STOP

Talvez o maior legado do NP seja justamente esse.

Ele demonstrou, muito antes do Facebook, do YouTube, do TikTok e dos recomendadores modernos, que existe uma disputa feroz pelo recurso computacional mais caro do planeta:

a atenção humana.

E nisso, meu caro COBOLzeiro...

o velho Notícias Populares tinha um algoritmo absolutamente infernal.

Vagner Renato Bellacosa, IBM Champion e especialista em IBM Mainframe
IBM Z17 SYSTEM ONLINE
Sobre o autor

Vagner Renato Bellacosa

IBM Champion 2026 • Especialista em IBM Mainframe

Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe desde 1988 , é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2, z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais, conhecimento técnico, história da computação e práticas do universo mainframe para aproximar novas gerações das tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos ao redor do mundo.

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