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Este blog é o diário de um otaku apaixonado por animes, tecnologia de mainframe e viagens.
Cada entrada é uma mistura única: relatos de viagem com fotos, filmes, links, artigos e desenhos, sempre buscando enriquecer a experiência de quem lê.
Sou quase um turista profissional: adoro dormir em uma cama diferente, acordar em um lugar novo e registrar tudo com minha câmera sempre à mão.
Entre uma viagem e outra, compartilho também reflexões sobre cultura otaku/animes
🍬 Seu Zé do Curaçá — O Último Guerreiro da Pauliceia Açucarada
Uma crônica ao estilo Bellacosa Mainframe para o blog El Jefe Midnight
Existem homens que não passam pela vida — eles atravessam, como locomotivas teimosas, rangendo, bufando, avançando sem parar. Meu bisavô José era desses. Viúvo ainda jovem na casa dos 50 e poucos, encontrou Dona Etelvina, outra guerreira, uma viuva marcada pela vida, e juntos reconstruíram um lar improvisado no coração simples da Pauliceia dos anos 1970. Desses bairros onde as ruas ainda tinham cheiro de poeira, sem asfalto, casas inacabadas e um inconfundível odor de diesel e frango frito.
Eu, um de seus muitos bisnetos, era apaixonado pelo ritual das visitas ao Curaçá. Não pelo bairro — mas pela presença magnética de Seu Zé, o homem que parecia conversar com o destino como se conversasse com um cliente sentado no balcão.
🔥 O Império dos Espetinhos
No ponto final do ônibus, onde trabalhadores e bêbados confraternizavam como iguais, ficava seu domínio: a grelha sagrada do Seu Zé.
Espeto de frango, de carne, de porco…
Nada gourmet, nada instagramável.
Era comida que carregava suor, fumaça e honra.
Ali, cada espeto alimentava mais do que estômago: alimentava histórias, amizades, brigas resolvidas, amores improvisados e a poesia secreta da periferia.
Mas o homem não conhecia descanso. E grande surpresa descobrir hoje, que estes espetinhos tão famosos eram de inspiração copiada e aprimorada de imigrantes japoneses.
🏠 Tijolo por tijolo, doce por doce
Primeiro, ampliou a casinha.
Depois levantou um salão.
De salão virou uma pequenina doceria diurna, porque um guerreiro não deixa o sol nascer sem um novo plano.
E foi nessa fase que nasce a lenda que transformou minha infância: de puxadinho a Bombonieri do Seu Zé, ou como eu a chamava — A Fábrica de Delícias de Ze Wonka.
Entrar naquele salão era como ser teletransportado para Nárnia via glicose:
chicletes, jujubas, balas, drops, chocolates, maria moles, paçocas, doce de banana, doce de batata doce, suspiros, pé-de-moleque e os famosos salgadinhos de "isopor"…
Era orgia de açúcar, liberada e incentivada pelo velho que ria enquanto as crianças atacavam o estoque como piratas invadindo navio.
E ele amava aquilo e eu, a Vivi e o Dandan mais ainda.
Quanto mais doce sumia do balcão, mais brilhava o sorriso na cara enrugada do velho guerreiro.
O problema é que nenhum motor funciona para sempre.
🍺 O Último Bar do Guerreiro
Quando dona Etelvina partiu, ele ficou novamente só.
Transformou a bombonieri em boteco, que é sempre o destino natural dos velhos sábios da periferia.
Ali acompanhou a vida do bairro: brigas, namoros que começavam e terminavam na mesma tarde, conversas atravessadas sobre futebol, política e as besteiras eternas do ser humano.
Mas o tempo, esse auditor implacável, começou a cobrar prestação.
Seu Zé finalmente parou.
Foi morar com minha avó Alzira.
E como guerreiro não fica parado, começou a fazer quebra-queixo, aquele doce duro como a vida, mas doce como a esperança.
🧪 Operação Quebra-Queixo: Missão Rua São Bento
Foi então que este bisneto já com seus 20 anos entrou em cena.
Eu ia até o Centro de São Paulo — à lendária Botica Veado Douro, reduto alquímico da cidade — comprar ácido cítrico, corantes, essências, glucose, tudo para que o velho pudesse continuar sua pequena fábrica de sonhos mastigáveis.
Quantos potes carreguei pelas calçadas do Centro?
Quantas vezes pensei que aquele doce, duro e doce, era a metáfora perfeita do velho guerreiro?
🍧 O Sonho Irrealizado: A Máquina de Sorvete
Seu Zé realizou tudo na vida — menos um sonho simples: comprar uma daquelas máquinas de sorvete de suco e espuma, tão comuns nos bares de periferia.
Aquelas que cuspem um sorvete meio derretido, meio geladão, com gosto de infância e de domingo preguiçoso.
Nunca conseguiu.
E talvez por isso o sonho tenha ficado tão bonito na memória — porque alguns sonhos existem só para lembrarmos que ainda somos humanos.
🌟 Epílogo — O Homem que Virou História
Hoje, quando penso em Seu Zé, não vejo apenas meu bisavô.
Vejo:
um Brasil que já não existe,
um tipo de trabalhador que a modernidade atropelou,
um artesão da vida,
um empreendedor antes da palavra existir,
um homem que combatia a tristeza vendendo alegria açucarada.
Seu Zé foi guerreiro até o fim.
Não deixou fortuna, não deixou empresa, não deixou prédio com nome.
Mas deixou histórias, deixou sabores, deixou lembranças que sobrevivem enquanto houver alguém, como eu, para contá-las.
E assim, no grande Mainframe da vida, o registro dele fica armazenado em permanente STATUS ACTIVE.
Porque certos homens nunca caem em DELETE PENDING.
Eles seguem, firmes, no spool da memória.
E o Velho Seu Zé, ah… esse está gravado em JES2 com retenção infinita.
Bellacosa Mainframe e o cafe amargo no seculo xxi decadas de guerra
☕ Um Café Amargo no Século XXI
— Quando o progresso esqueceu o coração humano
Nasci no eco da Guerra Fria. Cresci ouvindo o som distante das sirenes nucleares, o medo invisível de um botão vermelho capaz de apagar o mundo em segundos.
E mesmo assim, havia esperança.
Acreditávamos que o século XXI seria o tempo da razão, da paz mundial, do triunfo da educação e da fraternidade.
Um tempo em que o homem, enfim, deixaria de ser o lobo do homem.
Mas o que aconteceu?
Por que o futuro que sonhamos parece mais turbulento que o passado que temíamos?
🕰️ O fim da guerra... e o começo das pequenas guerras
Quando o Muro de Berlim caiu, o mundo suspirou aliviado.
Era o fim da Guerra Fria, e com ela parecia ruir também o medo da aniquilação global.
Mas, ao mesmo tempo, perdemos o equilíbrio do medo.
Sem dois blocos para manter a ordem, o mundo virou um mosaico de disputas regionais, étnicas e ideológicas.
O inimigo deixou de ser um país e passou a ser o vizinho que pensa diferente.
💰 A globalização prometeu igualdade, mas entregou contraste
O século XXI começou com computadores em cada mesa e celulares em cada bolso.
Acreditamos que o conhecimento seria a grande ponte entre as classes —
mas ele virou um muro de desinformação, construído tijolo por tijolo nas redes sociais.
A tecnologia nos conectou, mas não nos uniu.
A prosperidade veio, mas não para todos.
Criamos um mundo onde alguns vivem no metaverso e outros ainda lutam por um prato de comida real.
📱 O medo mudou de rosto
Antes temíamos bombas.
Hoje tememos mentiras.
Tememos perder o emprego para a inteligência artificial, a liberdade para os algoritmos, o amor para a indiferença.
Vivemos em um campo de batalha invisível, onde cada “feed” é uma trincheira ideológica.
E o inimigo, muitas vezes, é a nossa própria incapacidade de ouvir.
⚙️ A máquina evoluiu, mas o espírito ficou para trás
Conquistamos o DNA, exploramos Marte, criamos cérebros eletrônicos.
Mas ainda tropeçamos nas mesmas pedras:
inveja, medo, ganância, intolerância.
A humanidade ganhou poder demais antes de aprender o que fazer com ele.
O chip evoluiu.
O coração, não tanto.
🙏 O vazio que o consumo não preenche
Quando as religiões perderam força, pensou-se que o homem ficaria livre.
Mas o vazio espiritual não foi preenchido com sabedoria — e sim com urgência.
Urgência de ter, de aparecer, de vencer.
O século XXI é uma vitrine iluminada onde muita gente se sente invisível.
Daí nascem os extremos, os fanatismos, o ódio travestido de ideologia.
☕ O despertar
Ainda assim, nem tudo está perdido.
Cada ato de empatia, cada professor que ensina com amor, cada cientista que pesquisa pelo bem comum,
cada pessoa que prefere dialogar em vez de brigar —
é um grão de esperança no filtro da humanidade.
O futuro que sonhamos ainda pode existir,
mas ele não virá da tecnologia.
Virá da alma.
🧭 Conclusão
O século XXI ainda é o mesmo sonho da Guerra Fria — só que com mais barulho, mais dados e menos silêncio para pensar.
Se quisermos um mundo melhor, talvez o primeiro passo seja simples: desligar as máquinas por um instante e voltar a conversar como humanos.
Porque, no fim das contas, o verdadeiro progresso não é digital.
É emocional, ético e humano.
Bellacosa Mainframe e a engenharia militar parte xi
☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
Engenharia Militar sem Mistérios para Programadores COBOL
Capítulo XI — O Guardião Invisível: A Missão Continua
Quando um Programador COBOL Descobre que Nunca Escreveu Apenas Programas... Sempre Protegeu Pessoas
A noite estava silenciosa.
Não havia guerra.
Não havia fumaça.
Não havia trombetas anunciando invasões.
As muralhas permaneciam iluminadas apenas pela luz da lua.
O jovem comandante caminhava sozinho.
Agora já não era aprendiz.
Também já não precisava fazer perguntas a todo instante.
Pela primeira vez...
era ele quem carregava as chaves do castelo.
Parou diante da enorme porta principal.
Passou lentamente a mão sobre a madeira marcada pelo tempo.
Ali existiam cicatrizes de espadas.
Marcas de flechas.
Vestígios de incêndios antigos.
Mesmo assim...
o portão continuava firme.
O velho engenheiro aproximou-se pela última vez.
— O que você está vendo?
O comandante respondeu.
— Estou vendo uma porta.
O velho sorriu.
— Não.
Você está vendo quatrocentos anos de pessoas que decidiram repará-la sempre que apareceu uma rachadura.
A porta nunca foi importante.
Importante sempre foram aqueles que decidiram não abandoná-la.
Séculos depois...
23h58.
O Data Center estava praticamente vazio.
Os grandes painéis exibiam milhares de indicadores verdes.
O processamento noturno transcorria normalmente.
Nenhum ABEND.
Nenhum alerta.
Nenhum incidente.
O jovem analista observava aquela tranquilidade.
Perguntou ao veterano:
— Hoje realmente não aconteceu nada?
O veterano respondeu olhando para os consoles.
— Pelo contrário.
Hoje aconteceu exatamente aquilo que esperávamos.
Milhões de pessoas confiaram em nós...
...sem sequer saber que existimos.
Pegue seu café.
Hoje não aprenderemos uma tecnologia nova.
Hoje aprenderemos por que todas as tecnologias passam...
e alguns princípios permanecem.
1. O engenheiro trabalha para pessoas que nunca conhecerá
Um desenvolvedor escreve um cálculo.
Quem utilizará esse cálculo?
Talvez um aposentado.
Talvez um estudante.
Talvez um agricultor.
Talvez um hospital.
Talvez uma mãe comprando remédios.
Talvez alguém pagando a primeira mensalidade da faculdade.
O engenheiro quase nunca conhece essas pessoas.
Mesmo assim...
trabalha diariamente para protegê-las.
Esse talvez seja o aspecto mais bonito da profissão.
2. A confiança é construída em silêncio
Ninguém publica nas redes sociais:
"Hoje consegui sacar dinheiro normalmente."
"Hoje meu salário caiu na conta."
"Hoje meu cartão funcionou."
Essas experiências parecem comuns.
Mas apenas porque milhares de profissionais fizeram seu trabalho corretamente.
O sucesso da engenharia é invisível.
3. O verdadeiro significado da responsabilidade
Responsabilidade não significa medo.
Também não significa perfeição.
Responsabilidade significa compreender que pequenas decisões produzem enormes consequências.
Um campo alterado.
Um IF invertido.
Uma autorização excessiva.
Uma documentação esquecida.
Pequenos detalhes podem afetar milhões de pessoas.
Por isso engenharia exige humildade.
4. A humildade do mestre
Durante toda a jornada o velho engenheiro nunca afirmou saber tudo.
Pelo contrário.
Sempre fazia perguntas.
Por quê?
Porque conhecimento verdadeiro gera curiosidade.
Não arrogância.
Os maiores especialistas normalmente são aqueles que mais investigam.
5. O maior inimigo continua sendo a certeza absoluta
Ao longo da História inúmeros desastres nasceram da frase:
"Isso nunca acontecerá."
Na engenharia existe outra filosofia.
"E se acontecer?"
Essa pequena pergunta criou:
backups;
checkpoints;
replicação;
RACF;
auditoria;
criptografia;
testes;
planos de recuperação.
Toda boa arquitetura nasce de uma dúvida inteligente.
6. O Castelo Nunca Pertenceu ao Comandante
Uma lição frequentemente esquecida.
O comandante administra.
Mas o castelo pertence ao reino.
O arquiteto administra.
Mas o sistema pertence ao negócio.
O programador administra.
Mas os dados pertencem às pessoas.
Essa diferença muda completamente a forma de trabalhar.
O ego desaparece.
A missão permanece.
7. O Programador Também é Historiador
Sempre que corrigimos um programa COBOL encontramos comentários escritos por profissionais que talvez já tenham se aposentado.
Datas.
Motivos.
Assinaturas.
Observações.
É quase como ler cartas enviadas através do tempo.
Cada manutenção é uma conversa entre gerações.
8. A Engenharia Nunca Trabalha Sozinha
Ao longo desta obra falamos de:
estratégia;
logística;
segurança;
liderança;
continuidade;
inteligência.
Nenhum desses elementos funciona isoladamente.
São partes do mesmo organismo.
Assim como:
coração;
pulmões;
cérebro;
músculos.
Retire apenas um deles.
Todo o sistema sofre.
9. O Samurai e o Compilador
O jovem perguntou:
— Mestre...
qual arma foi mais importante?
A espada?
O arco?
O cavalo?
O velho respondeu.
— Nenhuma.
A decisão correta.
No Data Center acontece igual.
O compilador não resolve arquitetura.
O editor não resolve liderança.
A IA não resolve responsabilidade.
Ferramentas ampliam capacidades.
Sabedoria orienta seu uso.
10. O Futuro Sempre Chega Disfarçado
Há cinquenta anos muitos imaginavam que:
COBOL desapareceria.
Mainframes desapareceriam.
Cartões desapareceriam.
Bancos desapareceriam.
Nada ocorreu exatamente daquela maneira.
O futuro raramente elimina tudo.
Ele reorganiza.
Integra.
Transforma.
Os profissionais preparados são aqueles que aprendem continuamente.
11. A Biblioteca Continua Crescendo
Todo sistema possui duas partes.
O código.
E o conhecimento.
O código pode ser recompilado.
O conhecimento precisa ser cultivado.
Cada documentação.
Cada treinamento.
Cada artigo.
Cada livro.
Cada mentor.
Aumenta essa biblioteca invisível.
12. O Café Como Símbolo
Talvez você tenha percebido algo curioso.
Todos os capítulos começaram com um café.
Não foi por acaso.
O café representa pausa.
Observação.
Conversa.
Aprendizado.
Os melhores projetos raramente nascem durante momentos de pressa.
Costumam nascer em discussões tranquilas entre pessoas curiosas.
Foi exatamente assim que inúmeros avanços tecnológicos aconteceram.
13. Curiosidade Histórica
Durante séculos, mestres construtores europeus e japoneses registraram técnicas de construção, medições, desenhos e soluções para problemas encontrados em fortalezas, pontes e edifícios. Muitos desses registros foram preservados e permitiram que gerações posteriores restaurassem estruturas históricas sem perder suas características originais.
Na computação ocorre fenômeno semelhante. Comentários de código, diagramas, documentação de arquitetura, registros de incidentes e lições aprendidas funcionam como verdadeiros manuscritos técnicos, permitindo que sistemas críticos evoluam mantendo sua identidade e sua confiabilidade.
14. Easter Egg — O Último Comentário
Conta-se que um programa COBOL extremamente antigo possuía milhares de linhas.
No final da PROCEDURE DIVISION existia apenas um comentário.
* Se você chegou até aqui...
* cuide deste programa melhor do que eu consegui cuidar.
* Boa sorte.
Nenhum nome.
Nenhuma data.
Anos depois...
um novo desenvolvedor acrescentou logo abaixo.
* Obrigado.
* Continuarei de onde você parou.
Talvez aquele diálogo nunca tenha sido lido por ninguém além deles.
Mas representava exatamente o espírito da engenharia.
Uma geração entrega a outra um pouco mais de conhecimento do que recebeu.
15. O Checklist Final
Antes de desligar seu computador hoje, pergunte:
✔ Aprendi algo novo?
✔ Compartilhei conhecimento?
✔ Deixei o código mais claro?
✔ Documentei minha decisão?
✔ Facilitei a vida da próxima pessoa?
✔ Protegi os dados do usuário?
✔ Considerei riscos?
✔ Pensei na continuidade?
✔ Ouvi opiniões diferentes?
✔ Permaneci curioso?
✔ Mantive minha humildade?
✔ Deixei o ambiente melhor do que encontrei?
Se respondeu "sim" para a maioria dessas perguntas...
você já está caminhando como um verdadeiro engenheiro.
Conclusão — O Próximo Guardião
A madrugada terminava.
O velho engenheiro entregou definitivamente as chaves da fortaleza.
Depois caminhou lentamente em direção ao portão.
O jovem perguntou.
— O senhor está indo embora?
Ele sorriu.
— Não.
Apenas estou mudando de lugar.
Agora minha missão é permitir que você ensine outra pessoa.
O jovem permaneceu observando enquanto o mestre desaparecia entre a neblina.
Na sala do Data Center, o relógio marcava 07h00.
Os operadores encerravam mais um processamento.
Os clientes começavam mais um dia.
Nenhum imaginava quantas decisões, verificações, planos de contingência, revisões de código, auditorias e testes haviam acontecido durante a noite.
E essa era justamente a maior recompensa.
A engenharia cumprira novamente sua missão.
Sem aplausos.
Sem manchetes.
Sem reconhecimento público.
Apenas fazendo com que milhões de vidas continuassem seguindo normalmente.
O jovem analista desligou a última sessão do terminal 3270.
Olhou para a tela vazia.
Sorriu.
Lembrou-se do primeiro café, do primeiro castelo, da primeira muralha e da primeira conversa com o velho engenheiro.
Agora compreendia que nenhum daqueles capítulos falava apenas sobre guerras.
Nem apenas sobre COBOL.
Nem apenas sobre IBM Z.
Todos falavam sobre responsabilidade.
Sobre confiança.
Sobre pessoas.
Sobre a coragem silenciosa de construir algo que talvez dure mais do que a própria vida de quem o construiu.
Porque linguagens mudam.
Processadores evoluem.
Arquiteturas se transformam.
Mas sempre existirão homens e mulheres dispostos a proteger aquilo que mantém uma sociedade funcionando.
Esses profissionais talvez nunca apareçam nos jornais.
Talvez jamais sejam reconhecidos pelo público.
Ainda assim, todas as manhãs, quando alguém paga um café, recebe um salário, compra um remédio, consulta um exame ou faz uma transferência bancária, existe uma pequena parte do trabalho deles ali.
E essa talvez seja a definição mais bonita de um verdadeiro engenheiro.
Não aquele que constrói para ser lembrado.
Mas aquele que constrói tão bem...
...que o mundo inteiro pode continuar vivendo sem sequer perceber que ele esteve ali.
Epílogo
Se algum dia, muitos anos depois, você encontrar um jovem programador inseguro diante de um enorme programa COBOL escrito décadas antes...
sirva duas xícaras de café.
Sente-se ao lado dele.
Conte a história de um velho engenheiro, de um castelo, de uma fortaleza e de uma guerra que nunca foi apenas militar.
Depois entregue a ele este livro.
Porque toda fortaleza precisa de novos guardiões.
E toda geração merece conhecer os alicerces sobre os quais continuará construindo o futuro.
Fim... por enquanto.
☕ Um Café no Bellacosa Mainframe
Engenharia Militar sem Mistérios para Programadores COBOL
Uma campanha completa sobre estratégia, logística, inteligência,
segurança, liderança, continuidade, sistemas críticos, IBM Z e COBOL.
Um Data Center analisado como uma fortaleza em guerra
A série Engenharia Militar sem Mistérios para Programadores COBOL
compara castelos, exércitos, muralhas, cadeias de comando, logística,
inteligência e operações militares com os ambientes IBM Z responsáveis
por bancos, governos, seguros, transportes e serviços essenciais.
Cada artigo apresenta uma parte dessa arquitetura: aplicações COBOL,
Jobs JCL, transações CICS, bancos Db2, filas MQ, segurança RACF,
monitoramento, contingência, liderança, documentação e continuidade
operacional.
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Deu meia noite e bateu uma fome dos diabos, abro armário, geladeira e saio fazendo a maior confusão. Encontro tudo o que preciso, resolvo fazer um sanduba, o rei dos sandubas.
Utilizo em seu preparo pão amanhecido, queijo em fatias, ovo frito com a gema mole, muita cebola, pimenta , manjericao e azeite.
Frito o bife de pernil bem temperado deixando-o ao ponto. Acrescento a cebola
Ao final frito o ovo nessa gordura
Preparo o sanduiche e coloco na chapa para derreter o queijo e deixar a casca crocante.
Graças a este sanduiche tive a epifania de montar meu blog, fotoblog, fan-page no facebook e google plus e video no youtube.
Por isso desde esse dia, assino minhas paginas como El Jefe Midnight Lunch.
Bellacosa Mainframe e historia de pilhas e brinquendo na infancia do pequeno Vagner
Crônica — Pilhas Caras, Brinquedos Offline e um Sonho Chamado Ferrorama
Para o Blog El Jefe Midnight Lunch — Edição Bellacosa Mainframe
A infância não é feita apenas de doces memórias — às vezes ela vem com senha de acesso restrito, versão demo, recurso limitado por orçamento e por boleto vencendo.
E no meu caso, os vilões não eram monstros nem fantasmas.
Eram pilhas.
Essas pequenas tiranas cilíndricas que decidiam quanto tempo um brinquedo podia existir.
Nossa vida era como o mar — ora maré alta, comida farta, risada solta; ora maré baixa, contas apertadas, criatividade para sobreviver.
Meu pai com a fotografia, minha mãe com salgados, manicure, bordados, o que aparecesse.
Quando a grana apertava, a família estendia a mão como ponte.
Nunca faltou amor.
Mas sobravam limites.
E é por isso que eu odiava brinquedos a pilha.
Bellacosa Mainframe e as pilhas do destino
Não que eu não achasse incríveis.
Robôs que andavam, carrinhos que piscavam, fuscas que davam ré quando batiam na parede — aquilo era um trailer do futuro passando no cinema da sala.
Mas o ingresso era caro.
Pilhas custavam quase como ouro, ainda mais no "late-game", ou melhor nos ultimos anos da ditadura, com a inflação mordendo o salário como um pitbull faminto.
Bellacosa Mainframe e o sonho de infancia o trenzinho eletrico
Meus pais compravam um kit por mês.
Acabou? Acabou.
Só no próximo ciclo fiscal familiar.
E aí ficavam lá, meus brinquedos — parados, imóveis, como estátua de marmore, ao melhor estilo greco-romana — esperando energia para viver.
Brincar com eles sem pilha era como tentar ouvir vinil sem agulha.
A solução científica-milenar? A geladeira.
Colocávamos as pilhas no gelo como se fossem soldados feridos na enfermaria.
E elas ressuscitavam por alguns minutos gloriosos.
Depois morriam novamente, dramaticamente, sem música de despedida.
Por isso, os reis do meu quartel não tinham pilha: Fort Apache e soldados Gulliver.
Movidos a imaginação, sem consumo energético, 100% renovável.
Ali a batalha nunca acabava — era fusão nuclear de fantasia e chão de terra.
A infantaria marchava, o canhão disparava som com a boca, o cavalo corria como búfalo.
Era offline mode, mas com servidor dedicado na mente.
E havia um sonho.
Grandioso, inalcançável, quase mitológico:
O Ferrorama.
Bellacosa Mainframe e o lendario ferrorama da Estrela
O trem elétrico da Estrela.
O Orient Express da infância brasileira.
A Torre Eiffel dos brinquedos.
Eu imaginava aquele trilho montado na sala, locomotiva fumegando, vagões brilhantes, estação lotada de passageiros que só existiam na minha cabeça.
Mas o preço era astronômico, coisa para filho de medico, bancário, dentista do bairro ou empresario.
Eu ficava com versões humildes, trenzinhos simples, plástico cru, motor fraco — mas rodavam sonhos.
Demorei anos para entender, mas aquilo me ensinou algo duro e valioso:
Quem aprende a sonhar com aquilo que não pode ter acaba descobrindo como construir mundos com aquilo que possui.
Hoje olho a prateleira, cheia de itens que eu jamais imaginei um dia possuir — alguns valem mais do que dois ou três Ferroramas dos anos 80.
E o menino de pilha gelada olha para tudo isso com um sorriso torto, meio vitorioso, meio nostálgico.
Porque a verdadeira bateria que movia minha infância não era alcalina —
era imaginação ilimitada com orçamento limitado.
Bellacosa Mainframe e as loucas historias do seu Luis
☕👴📖 Seu Luís, o Servidor de Histórias do Jardim Garcez
Se existe uma coisa que as gerações atuais perderam sem perceber, foi a figura do contador de histórias do bairro.
Hoje temos streaming.
Temos YouTube.
Temos TikTok.
Temos inteligência artificial.
Mas nos anos 1980, no Jardim Garcez, em Taubaté, tínhamos algo muito mais poderoso:
Seu Luís.
Funcionário da prefeitura durante o dia.
Guardião da cultura popular durante a noite.
Morava na Rua 9, próximo de casa.
Um senhor simples.
Já de idade.
Mas dono de um dos maiores bancos de dados narrativos que já conheci.
Quando o sol desaparecia atrás da Serra da Mantiqueira e a noite tomava conta do bairro, começava um ritual quase sagrado.
A gurizada se reunia em frente ao portão de sua casa.
Sentávamos na calçada.
Alguns no meio-fio.
Outros encostados no muro.
Esperando.
E então o velho mestre iniciava mais uma sessão.
Sem televisão.
Sem projetor.
Sem computador.
Apenas voz, imaginação e talento.
Era melhor que qualquer streaming.
Seu Luís possuía centenas de histórias.
Talvez milhares.
Algumas certamente inventadas por ele.
Outras herdadas de seus pais.
Outras dos avós.
Outras dos bisavós.
Narrativas que atravessaram gerações até desembarcar naquela rua de terra do Parque Sabará.
Pedro Malasarte era presença constante.
E que figura extraordinária ele se tornava nas mãos do velho contador.
Ora enganava reis.
Ora enganava demônios.
Ora fugia de monstros.
Ora encontrava tesouros escondidos.
Mas não era só Pedro Malasarte.
Havia princesas aprisionadas em castelos.
Cavalos alados cruzando os céus.
Rainhas encantadas.
Monstros escondidos em matas escuras.
Bruxas vivendo em casebres de pau a pique no meio do sertão.
E fantasmas.
Muitos fantasmas.
A quantidade de assombrações que habitava aquelas histórias era suficiente para transformar qualquer ida ao banheiro durante a madrugada numa missão de alto risco.
Lembro de fragmentos.
Pequenos pedaços preservados no backup da memória.
O velho cão negro.
Que, segundo a lenda, não era um cachorro comum.
Era o próprio demo vagando pelas estradas.
Havia também a história do cavalo alado.
Uma jornada impossível.
Uma viagem onde o herói precisava alimentar a criatura com pedaços de carne durante o percurso.
Caso contrário, o animal o abandonaria entre monstros e assombrações.
Tinha a famosa sopa da pedra.
As serpentes falantes.
Os passarinhos encantados.
As bruxas.
As maldições.
As profecias.
E a magnífica Rainha Águia.
Uma criatura fantástica que protegia viajantes perdidos e os guiava para casa.
Tudo contado de forma tão vívida que era impossível não acreditar.
Pelo menos por algumas horas.
O problema surgia depois.
Na hora de dormir.
Qualquer estalo na janela.
Qualquer sombra no corredor.
Qualquer rangido da madeira.
Pronto.
Lá estava o pequeno Vagner de olhos arregalados imaginando que alguma das criaturas das histórias havia decidido fazer uma visita.
E isso era maravilhoso.
Porque as histórias cumpriam exatamente sua função.
Faziam sonhar.
Faziam imaginar.
Faziam sentir medo.
Faziam rir.
Faziam viver aventuras sem sair da calçada.
Enquanto isso, Seu Luís seguia sua performance.
Molhando o bico com uma aguardente artesanal.
Tomando um gole aqui.
Outro ali.
E aumentando gradativamente o nível de insanidade das narrativas.
Quanto mais avançava a noite, mais fantásticas ficavam as aventuras.
Era como assistir a um sistema entrando em modo turbo.
Os monstros cresciam.
Os castelos ficavam maiores.
As bruxas mais poderosas.
Os fantasmas mais assustadores.
E nós, os pequenos onis do Jardim Garcez, permanecíamos hipnotizados.
Hoje percebo que Seu Luís era muito mais do que um contador de histórias.
Ele era um arquivo vivo.
Um servidor humano de memórias.
Um preservador da tradição oral.
Um homem simples que carregava séculos de cultura popular dentro da cabeça.
Muitas dessas histórias morreram com ele.
Outras sobreviveram apenas em fragmentos.
Mas algumas ainda vivem.
Espalhadas pelas lembranças dos garotos que um dia sentaram naquela calçada.
Esperando ansiosamente pela próxima aventura.
E talvez seja justamente por isso que ainda me lembro dele.
Porque existem pessoas que passam pela nossa vida.
E existem pessoas que ajudam a construir nossa imaginação.
Seu Luís pertence à segunda categoria.
E suspeito que boa parte do escritor, sonhador, contador de causos e aventureiro que existe em mim tenha nascido ali.
Sentado numa calçada de Taubaté.
Ouvindo um velho contador de histórias transformar uma rua comum em um reino encantado.
Vagner Renato Bellacosa trabalha com IBM Mainframe
desde 1988
,
é IBM Champion e especialista em COBOL, CICS, Db2,
z/OS e IBM Z. Compartilha experiências profissionais,
conhecimento técnico, história da computação e práticas
do universo mainframe para aproximar novas gerações das
tecnologias que sustentam empresas, bancos e governos
ao redor do mundo.
IBM Champion
IBM Z
COBOL
CICS
Db2
z/OS
Mainframe desde 1988